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terça-feira, 25 de agosto de 2026

"Grão", de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, e "Banho Maria", de Gabriel Faccini (2026)


O mundo está acabando

Nei Lisboa diz em uma de suas reflexivas canções: “Alguns edifícios por dia/ Desabam dentro da avenida/ E salva-se a filosofia”. Entendidas metaforicamente, estas “edificações” podem muito bem representar aquilo que erguemos como padrões temporais para o ser humano em sociedade. E que está desabando, acabando-se. Antes sólidos, inabaláveis; hoje, contestados, ressignificados. Em crise. Isso serve tanto para os arquétipos filosóficos de homens quanto de mulheres, algo muito bem percebido por curtas-metragens da nova safra do cinema gaúcho exibidos na Mostra Assembleia Legislativa de Curtas-Metragens Gaúchos durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, ocorrido entre 12 e 22 de agosto.

Mais propriamente, os filmes com esse olhar imersivo são “Grão”, da dupla rio-grandina Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o principal premiado da mostra competitiva, e o não menos instigante “Banho Maria”, de Gabriel Faccini. O primeiro, uma crítica mordaz da masculinidade caduca e tóxica. O segundo, uma reflexão existencial do lugar da mulher na sociedade capitalista – e essencialmente machista. Cada um a sua forma, ambos os filmes põem em questionamento estes padrões arraigados – e caducos – do que é (ou deve ser) homem ou mulher, como se, para ser um ou outro, tenha-se que seguir uma cartilha que, basta olhar-se no espelho, já não existe mais. Ambos, mesmo em situações distintas, em determinado momento trazem dita a mesmíssima frase: “O mundo está acabando”.  

“Grão”, em especial, pode-se considerar o melhor curta-metragem da temporada (quiçá, o melhor filme gaúcho entre todos do ano). É o aprimoramento do trabalho de Cozza e da Rosa e da produtora Saturno, coletivo que vem realizando produções na mesma linha há alguns anos com grande contundência e assinatura estilística. No primeiros deles, o belo documentário “Construção”, de 2020, sobre uma mãe de família despejada de sua casa reconstruindo sua vida, já se percebia um olhar distinto sobre questões sociais e existenciais por meio de um hibridismo entre documentário e ficção. Porém, foi em “Madrugada”, de 2022, e, logo após, mais transversalmente, “Cassino” (2024), que a dupla adentra no (sub)mundo da sua Rio Grande, cidade portuária com parcas oportunidades e geradora de um “cinturão” de subempregos ocupados por jovens desqualificados para o que o sistema exige.

trailer de "Grão"

Metais, fumaça, máquinas opressivas e ensurdecedores ruídos industriais imperam sobre um ambiente escuro, de luzes funcionais e impessoais em que os braços fortes não têm capacidade de controlar os sentimentos da vida. Numa fotografia metalingusticamente granulada, edição fragmentada e uma câmera ora atenta a um fato, ora meramente observadora, os personagens masculinos, representados na figura de Leandro, magistralmente interpretado por Leandro Gomes, iludem-se com seus carros possantes, suas músicas altamente insinuantes, seus músculos fabricados e com meia dúzia de notas em dinheiro para aplacar os desejos sexuais. Nada disso mais é suficiente. A transa com a garota desejada, a venda da “caranga”, a curtição com os “bróder”: tudo termina descartado, encalhado, abandonado. Como o antigo barco na praia do Cassino, como os grãos de soja sobrados na beira do mar, como o carro atolado na areia da praia. Como ele mesmo, depois de uma noite de porre e solidão, afundado na terra. Um grão de volta a seu ciclo para poder voltar a existir.

Não apenas o júri principal da Mostra Assembleia Legislativa, que lhe deu três premiações, entre estas, a de Melhor Filme, a Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) também concedeu o Prêmio da Crítica. Em sua justificativa, a Accirs escreveu: "Por tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros; a ACCIRS reconhece mais um passo na trajetória investigativa do grupo de realizadores neste universo e premia o curta-metragem 'Grão'". Antes, o filme já havia sido escolhido para a 9ª Mostra Sesc de Cinema – Circuito RS e ganhado o Festival de Tiradentes, em Minas Gerais, o que o tornou apto a concorrer pelo Brasil ao Oscar de 2027, mostrando que a turma da Saturno está madura para, agora, encarar o primeiro longa-metragem. Que venha, pois deverá ser coisa boa.

Construído a partir de outras premissas e escolhas narrativas, “Banho Maria”, embora não tenha levado nenhum prêmio em Gramado – é, igualmente a “Grão”, um dos 14 selecionados da Mostra Sesc desse ano –, é de uma contundência mais sensível, mas não menos branda. Em uma manhã de calor escaldante, uma mulher, Maria (Silvana Rodrigues), decide faltar ao trabalho e aproveitar o dia num parque aquático para refletir sobre a vida, quando encontra um menino, que está de aniversário, o qual, indiretamente, ajuda-lhe e sua busca interna.

Ao transformar o ambiente do parque aquático em um cenário quase surreal a partir de seus enquadramentos, temperatura de foto e até de efeitos especiais (pequenos, muito bem feitos, diga-se de passagem), o filme de Faccini questiona a vida de uma jovem, preta e trabalhadora de classe média, um dos principais alvos da estrutura misógina e machista da sociedade brasileira, ainda mais por ser uma mulher fora dos padrões estéticos.

teaser de "Banho Maria"

De roteiro eficiente e diálogos idem (são impagáveis as conversas entre a protagonista e o pequeno Alisson, vivido por Lukas Rodrigues), “Banho Maria” reflete esse lugar do feminino preto em um Estado que nega a existência e contribuição de sua população negra e em um mundo cada vez mais anômalo à realidade, tal como o filme expõe. O espectador é informado parcialmente das inquietudes existenciais de Maria, praticamente apenas a questão da contrariedade dela aos próprias rumos profissionais. Porém, ficam subentendidos propositais “três pontos”, como se, ao mexer nessa estrutura sufocante de sua vida, outros aspectos também haveriam de ser desencadeados.

Estes dois curtas gaúchos convidam o espectador a um movimento de submersão interior simbólico da figura materna, seja um mergulho na água (ventre) ou na terra (vida). Se em “Grão” a estranheza se revela pela surpresa da solidão masculina, em “Banho Maria” é a reação (sub)consciente feminina diante de sua realidade opressiva que permite um imergir diferente, mesmo que em “banho maria”, ou seja, ainda em processo de elaboração, uma tentativa de mergulho em si mesma, nas verdades da personagem e não um enterrar-se na areia como um bicho acuado que esconde o focinho. Seja pela crítica ou pela revelação, ambas as obras mostram que os valores desgastados daquilo que se entende por ser humano, seja homem ou mulher, já não se sustentam mais. O mundo está acabando, edifícios desabam dentro da avenida. É preciso rever suas bases para chegar a verdades interiores pouco acessadas, mas essenciais para um renascimento. E salva-se a filosofia.

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)

 

Torakutan Arado da Nova Era
No motor do peito, o som desperta,
Não é apenas barulho, é a trilha certa.
Torakutan chega com o peso do aço,
Abrindo caminho, rompendo o cansaço.
Como o trator que curva o horizonte,
Buscamos a pureza direto na fonte.
Não viemos para derrubar o que é bom,
Mas para limpar o terreno com o nosso tom.
Trecho do semimanifesto “Torakutan”

Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade, improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando havia algum “roteiro”.

Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes, durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação que já deu a noção do que viria.

 Vieram, na sequência, a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar” (presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção, visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.

Um trecho da emocionante "O Mar"

Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”, de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que, juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra, feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia x digital.

Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo” (afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres, e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.

Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.

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A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!


Abu: uma cabeça rara


Suzano: craque da percussão


Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak, 
acompanhando o pandeiro de Suzano


Torakutan em ação


Aplausos e mais aplausos ao final


Nós no camarim com o amigo Abu


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texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

"Uma em Mil", de Jonatas e Thiago Rupert, e "Quando a Gente Menina Cresce", de Neli Mombelli (2025)

 
Quando o documentário gaúcho cresce

É bastante revelador que os dois melhores e mais bem premiados longas gaúchos do Festival de Cinema de Gramado deste ano, "Uma em Mil", de Jonatas e Thiago Rupert, e "Quando a Gente Menina Cresce", de Neli Mombelli, sejam documentários. No total, três dos cinco filmes da Mostra Gaúcha eram deste gênero, incluindo-se aos já citados "Rua do Pescador, n° 6", de Bárbara Paz. Isso quer dizer alguma coisa, sim, e tem a ver tanto com a produção ficcional do Estado quanto com o que pode ser impulsionado para este tipo de realização.

A qualidade da produção documental local, a qual acompanha cena nacional, há cerca de duas décadas bastante elevada, não deixou dúvidas de que a ficcional, em contrapartida, vem deixando um pouco a dever. Há filmes de ficção bastante significativos no cinema gaúcho dos últimos cinco anos. Casa Vazia, Até que a Música Pare e Continente exemplificam bem isso. Porém, se se olhar para o retrospecto recente dos documentários no Festival de Gramado, o principal do Rio Grande do Sul, quiçá do Brasil, há uma vantagem visível. Basta ver as edições dos dois últimos do evento, as quais premiaram, na categoria de Melhor Filme, documentários: “A Transformação de Canuto” e “5 Casas”. Neste ano, “Quando...”, além de Melhor Filme, levou ainda Melhor Filme do Júri Popular e uma Menção Honrosa para o elenco feminino. Uma em Mil, por sua vez, abocanhou os de Direção, Roteiro (ambas para os irmãos Rupert) e Montagem (Joana Bernardes e Thais Fernandes).

Se no circuito regional de Gramado, o reconhecimento vem crescendo, a pergunta que fica, então, é: por que os docs gaúchos não têm ganhado também a atenção na mostra nacional? Dos quatro documentários concorrentes, nenhum era do Rio Grande do Sul: “Para Vigo me Voy” (de Lírio Ferreira e Karen Harley, RJ), “Os Avós” (Ana Ligia Pimentel, AM), “Lendo o Mundo” (Catherine Murphy e Iris de Oliveira, RN) e “Até Onde a Vista Alcança” (Alice Villela e Hidalgo Romero, SP). Há de se contemplar diversidade e regionalidades? Sim, mas a qualidade nunca é um mal critério.

Cena de "Uma em Mil": mil motivos para estar na Mostra Nacional

“Uma em Mil” é daqueles filmes talhados para a apreciação de críticos e júris. Uma declaração de amor de um cineasta pelo seu irmão Down, em que eles, juntos, tentam entender e discutem os conceitos de normalidade, família e sanidade, bem como os limites entre arte, memória e consciência. Já “Quando...”, numa abordagem sensível e corajosa, trata de um grupo de meninas que vive a transição da infância para adolescência em uma escola pública na periferia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Com idade entre 9 e 12 anos, elas, ao longo do ano letivo, sentem mudanças no corpo, medos, desejos e vivem a expectativa da chegada da primeira menstruação.

O ator Marcos Breda, um dos jurados da Mostra Documentário Brasileiro, comentou, em entrevista durante o festival, que sentia falta de filmes gaúchos na competição nacional. A opinião de  Breda reflete uma percepção dos críticos de que, pelo menos “Quando...” e “Uma...” tinham potencial para visibilidade nacional. E não só: são produções que evidenciam a necessidade da curadoria do Festival de Gramado de se olhar para o cinema documental gaúcho com mais consideração. Afinal, tanto um quanto outro são, não consideravelmente à altura como possivelmente melhores do que todos os concorrentes da categoria nacional - inclusive os vencedores, o apenas bom “Lendo...” Melhor Filme de Documentário, e “Para Vigo...”, que saiu com Menção Honrosa.

Se não o destacado “Quando...”, de narrativa sensível e tocante sobre um tema tabu na sociedade, ao menos “Uma...”, capaz de engendrar uma narrativa que dialoga metalinguisticamente com a linguagem do cinema, merecia ser vistos na vitrine nacional. A Mostra de Longas-metragens Brasileiros vem se mostrando quase irrepreensível em Gramado, porém, a seleção de documentários, ao menos a deste ano, não se pode dizer necessariamente o mesmo. Quem sabe essa maior qualificação não passe, então, por atentar também ã produção gaúcha? Fato é que, parafraseando um dos destaques deste ano, a boa produção documental gaúcha não é mais uma em mil.  

Trailer do belo "Quando a Gente Menina Cresce"


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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

53º Festival de Cinema de Gramado - Bastidores e Premiações


Júri de Longas Gaúchos:
ao lado das colegas
Gabi e Keyti
Minha proximidade e intimidade com o Festival de Cinema de Gramado vem numa crescente desde que passei a, ainda na pandemia, a participar mais ativamente daquele que é o maior festival de cinema do Brasil. Se em outros anos compus Júri da Crítica, comissão de seleção de curtas-metragens brasileiros e, nas duas últimas edições, o júri do Prêmio Accirs, que revela o prêmio da crítica para a Mostra Gaúcha de Curtas-Metragens no Prêmio Assembleia Legislativa, ocorrido durante o evento, desta vez a experiência foi ainda mais completa. Segunda edição à frente da Accirs e primeira em tempo integral, desta vez minha participação foi para a composição do júri de longas gaúchos.

Juntamente com minhas queridas colegas, a gaúcha Gabrielle Fleck, atriz e produtora gaúcha baseada em Los Angeles, Estados Unidos, e Keyti Souza, produtora executiva baiana, formamos um júri coeso e harmonioso. E principal: saímos os três satisfeitos com o resultado de nossa deliberação, que distribuiu de forma meritocrática Kikitos para todos os cinco filmes da mostra. 

Afora essa incumbência, claro, também integrei, assim como no ano passado, o nosso querido júri do Prêmio Accirs na 22º Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra Gaúcha de Curtas no primeiro final de semana. Ao lado dos colegas Mônica Kanitz, Paulo Casanova, Roger Lerina, Cristian Verardi e Ivana Almeida da Silva, premiamos com certificado o filme “Gambá”, dirigido por Maciel Fischer, o qual tive novamente a alegria de entregar no palco do Palácio dos Festivais. Outro orgulho também foi a presença preta nos júris do festival, uma vez Keyti e eu estivemos acompanhados das ilustres Fernanda Lomba, Dríade Aguiar, Isabel Fillardis e Polly Marinho. O registro, pode-se dizer, resultou numa foto histórica para o festival de Gramado.

Entregando o Prêmio Accirs para o curta gaúcho "Gambá"

Mas o bom mesmo de festival de filmes é ver... filmes! Ao todo, assisti 45 deles, entre documentários, curtas e longas, dentre estes, “O Último Azul”, vencedor do Urso de Prata em Berlim que fez sua pré-estreia em Gramado. Da programação geral, o destaque realmente fica por conta dos longas brasileiros, praticamente 100% de acerto, a não ser o fraco “Querido Mundo” (RJ), de Miguel Falabella, um “Sai de Baixo” cinematográfico esquizofrênico e indeciso entre a linguagem do cinema e do teatro. 

Afora este, só filmes de alto nível, como os ótimos “Cinco Tipos de Medo” (MT), grande vencedor do 53º Festival de Cinema de Gramado (levou para casa quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem para Bini, além do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Xamã), “Nó” (PR) e “A Natureza das Coisas Invisíveis” (DF), meu preferido da mostra. Já as outras mostras foram bastante mais inconstantes. A de documentários brasileiros, por exemplo, continha filmes mais fracos que alguns da mostra de longas metragens gaúchos, tal “Uma em Mil” ou o grande vencedor, “Quando a Gente Menina Cresce”, melhores que qualquer um dos candidatos nacionais.

Momento histórico dos jurados pretos em Gramado: eu com 
Fernanda Lomba, Dríade Aguiar, Keyti, Isabel Fillardis
e Polly Marinho
Na mostra de curtas nacionais, idem. A seleção trouxe um conjunto mais fraco em relação ao do ano passado, o mesmo para com os curtas gaúchos. O que talvez explique seja a enxurrada de inscrições justificada este ano por conta das produções realizadas a partir das leis de incentivo, como a Paulo Gustavo, que faz aumentar o número de filmes, mas não necessariamente de filmes bons, uma vez que dá espaço para realizadores ainda imaturos cinematograficamente falando. Melhor assim do que os recentes anos de falta de incentivo e negacionismo.

Chamou atenção, por fim, os vários filmes de criança nas diferentes categorias, tipo de temática não tão corrente no cinema brasileiro. Dos curtas gaúchos, os ótimos “Gambá”, laureado por nós da Accirs, e “Trapo”, grande vencedor da Mostra Gaúcha, são quase filmes irmãos, tamanha semelhança narrativa e temática. Ambos tratam do universo infantil e trazem, ludicamente, questões como amadurecimento, medos e anseios. Entre os longas gaúchos, outro filme nesta linha: o já mencionado “Quando...”, que trata sobre a passagem da infância para a adolescência de meninas na fase da primeira menstruação.  

Nos curtas e longas brasileiros, idem. O curta paranaense “Quando Eu For Grande”, sobre um menino que volta para casa com sua mãe após uma visita ao pai e ao irmão na prisão, carregando dúvidas e incertezas sobre o futuro, e o longa candango “A Natureza...”, que trata da relação de duas meninas na faixa dos 10 anos, são exemplares.

A clássica foto final com os premiados

Ademais, confiram, então, os premiados da edição de 2025. Ano que vem tem mais.

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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: "Cinco Tipos de Medo", de Bruno Bini

Melhor Direção: Laís Melo, por “Nó”

Melhor Ator: Gero Camilo, por “Papagaios”, de Douglas Soares

Melhor Atriz:  Malu Galli, por "Querido Mundo", de Miguel Falabella

Melhor Roteiro: Bruno Bini, por "Cinco Tipos de Medo" 

Melhor Fotografia: Renata Corrêa, por "Nó", de Laís Melo 

Melhor Montagem: Bruno Bini, por "Cinco Tipos de Medo" 

Melhor Trilha Musical: Alekos Vuskovic, por "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo

Melhor Direção de Arte: Elsa Romero, por "Papagaios", de Douglas Soares

Melhor Atriz Coadjuvante: Aline Marta Maria, por "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo 

Melhor Ator Coadjuvante: Xamã, por "Cinco Tipos de Medo", de Bruno Bini

Melhor Desenho de Som: Bernardo Uzeda, Thiago Sobral e Damião Lopes, por "Papagaios", de Douglas Soares

Prêmio Especial do Júri: "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo

Menção Honrosa: "Sonhar com Leões", de Paolo Marinou-Blanco

Melhor Filme pelo Júri Popular: "Papagaios", de Douglas Soares 

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: "Nó", de Laís Melo


Xamã, premiado como Melhor Ator Coadjuvante por seu papel e "Cinco..."


CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: “FrutaFizz”, de Kauan Okuma Bueno

Direção: Adriana de Faria, por “Boiuna”

Ator: Pedro Sol Victorino, por “Jacaré”

Atriz: Jhanyffer Santos e Naieme, por “Boiuna”

Roteiro: Ítalo Rocha, por “Réquiem para Moïse”

Fotografia: Thiago Pelaes, por “Boiuna”

Montagem: Lobo Mauro, por “Samba Infinito”

Trilha Musical: As Musas, por "As Musas"

Direção de arte: Ananias de Caldas e Brian Thurler, por “Samba Infinito”

Desenho de som: Marcelo Freire, por “Jeguatá Xirê”

Prêmio Especial do Júri: "Aconteceu a Luz da Lua", de Crystom Afronário

Menção Honrosa: "Quando Eu For Grande", de Mano Cappu

Prêmio Júri da Crítica: “O Mapa em que Estão Meus Pés”, de Luciano Pedro Jr.

Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Na Volta Eu Te Encontro”, de Urânia Munzanzu

Melhor Filme Júri Popular: “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli

"Frutafrizz", melhor curta brasileiro no 53º Festival de Gramado


LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS

Melhor Longa-metragem Documentário: “Lendo o Mundo", de Catherine Murphy e Iris de Oliveira

Menção Honrosa Documentário: "Para Vigo Me Voy!", de Lírio Ferreira e Karen Harley

O doc sobre Paulo Freire e seu método de ensino levou o principal Kikito na categoria


LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS - MOSTRA SEDAC/IECINE

Melhor Filme: “Quando a Gente Menina Cresce”, de Neli Mombelli

Direção: Jonatas e Tiago Rubert, por “Uma em Mil”

Ator: Stephane Brodt, por “Passaporte Memória”

Atriz: Lara Tremouroux, por “Passaporte Memória”

Roteiro: Jonatas e Tiago Rubert, por “Uma em Mil”

Fotografia: Bruno Polidoro, por “Bicho Monstro”

Direção de arte: Gabriela Burck, por “Bicho Monstro”

Montagem: Joana Bernardes e Thais Fernandes, por “Uma em Mil”

Desenho de som: Rodrigo Ferrante e André Tadeu, por “Rua do Pescador n° 6”

Trilha musical: Renato Borghetti, por “Rua do Pescador n° 6”

Menção Honrosa: para o elenco feminino de "Quando a Gente Menina Cresce"

Melhor Filme pelo Júri Popular: “Quando a Gente Menina Cresce”, de Neli Mombelli

Prêmio Iecine Destaque: “Um é Pouco Dois é Bom”, de Odilon Lopez (recebido por Vanessa Lopez)

Prêmio Iecine Inovação: Victor Di Marco e Marcio Picoli 

Prêmio Leonardo Machado: Araci Esteves

Prêmio Iecine Legado: Gustavo Spolidoro

Prêmio Sirmar Antunes: Glória Andrades 

O belo "Quando...": merecia estar na mostra nacional

MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS - PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

Melhor filme: ‘Trapo’

Melhor direção: Viviane Jag Fej Farias e Amalia Brandolff (‘Fuá – O Sonho’)

Melhor atriz: Mikaela Amaral, por‘Bom Dia, Maika!'

Melhor ator: Igor Costa, por ‘O Pintor’

Melhor roteiro: Cássio Tolpolar, por ‘Imigrante/Habitante’

Melhor fotografia: Takeo Ito, por ‘Gambá’

Melhor direção de arte: Clara Trevisan, por ‘Mãe da Manhã’

Melhor trilha sonora/música: Zero, por ‘Bom Dia, Maika!’

Melhor montagem: Alfredo Barros, por ‘Imigrante/Habitante’

Melhor figurino: Samy Silva, por ‘A Sinaleira Amarela’

Melhor edição de som/desenho de som: Vini Albernaz, por ‘Mãe da Manhã’

Melhor produção/produção executiva: Renata Wotter, por ‘O Jogo’

Melhor filme - Prêmio Accirs - Júri da Crítica: ‘Gambá’

"Trapo", um dos filmes de criança do festival, levou o troféu de Curta Gaúcho


HOMENAGENS ESPECIAIS

Troféu Kikito de Cristal: Rodrigo Santoro

Troféu Eduardo Abelin: Mariza Leão

Troféu Oscarito: Marcélia Cartaxo



Daniel Rodrigues

sexta-feira, 2 de maio de 2025

"O Mestre", de Paul Thomas Anderson (2012)

 

por Matheus Pannebecker

Philip Seymour Hoffman saboreava as palavras como poucos. Cada inflexão, cada sutileza e cada visceralidade faziam toda a diferença para ele - e, em um filme como “O Mestre”, que, justamente, valoriza todos os seus atores, isso é uma combinação dos deuses.

Se Hoffman é uma perda irreparável (ainda estamos por descobrir, pelo menos em sua geração, outro ator tão completo, talentoso e quanto ele), obras como essa assinada por Paul Thomas Anderson ficam conosco para eternizar brilhantismos que não vemos todos os dias.

Em “O Mestre”, ele interpreta Lancaster, o carismático líder de uma religião que acaba surgindo nos tortuosos caminhos de um errático soldado atormentado pelos horrores da Segunda Guerra Mundial (Joaquin Phoenix). Seu encontro com Phoenix é um verdadeiro duelo de gigantes, mas Anderson, como o grande diretor que sempre foi, dá a cada um shows muito particulares.

É fácil se pegar enredado pela oratória de Lancaster, ao mesmo tempo em que percebemos os perigos envolvidos em falas propositalmente calculadas e articuladas. Poucos atores conseguiriam interpretá-lo com tamanhas verossimilhança e complexidade - na verdade, talvez só Hoffman pudesse fazê-lo.

“O Mestre” não é dos trabalhos mais fáceis de Paul Thomas Anderson. De difícil definição, o longa é espinhoso, incômodo e pouco afeito a respostas - o que, ao meu ver, são méritos absolutos -, mas se há algo que não dá para negar é que ele proporciona um verdadeiro show de interpretações: de Hoffman, de Phoenix e de tantos outros coadjuvantes ou pequenas participações, de Amy Adams a Laura Dern.

Recebeu três merecidas indicações ao Oscar: melhor ator, ator coadjuvante e atriz coadjuvante. Por mim, teria vencido as três.

trailer de "O Mestre"


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"O Mestre"
Título Original: "The Master"
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama/Suspense
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams
Duração: 143 min
Ano: 2012
País: Estados Unidos
Onde assistir: Prime Vídeo


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Matheus Pannebecker é jornalista e crítico de cinema. Desde 2007, atualiza ininterruptamente o site Cinema e Argumento, de autoria própria. É membro da Film Independent, dos Estados Unidos, pela qual vota no Independent Spirit Awards, prêmio mais importante voltado aos melhores filmes do cinema independente norte-americano. Também faz parte da Associação Brasileira de Críticos de Cinema e da Associação de Críticos do Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos curadores da exposição permanente do Museu do Festival de Cinema de Gramado, o primeiro museu interativo sobre cinema da América Latina, e um dos autores do livro “50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho”.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Projeto Rodacine - Exibição de "Um é Pouco, Dois é Bom" e "Chibo" - Aniversário da Cinemateca Capitólio e de Porto Alegre - Largo dos Açorianos - Porto Alegre/RS (29/03/2025)



 

Pode-se dizer que este Clylive é, na verdade, um Claquete. A possível confusão entre as sessões do Clyblog se justifica, pois a exibição ao vivo a que me refiro foi de cinema. E para uma ocasião muito especial em pleno Largo dos Açorianos, um dos pontos mais emblemáticos de Porto Alegre. Ou melhor: duas ocasiões. O que pude conferir com Leocádia, Carolina, Cláudio e a ilustre e comportada presença de nossa cachorrinha Bolota, foi uma sessão a céu aberto do clássico da cópia restaurada do filme gaúcho “Um é Pouco, Dois é Bom”, do pioneiro do cinema negro no Rio Grande do Sul Odilon Lopez e o terceiro cineasta negro a dirigir um longa-metragem no Brasil. A programação ocorreu dentro projeto RodaCine, parceria da Coordenação de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e Fundacine RS.

Pois esta exibição, antecedida do excelente curta-metragem “Chibo”, de Henrique Lahude e Gabriela Poester (sobre o qual já falamos aqui no blog quando do último Festival de Cinema de Gramado, onde foi vencedor como melhor curta gaúcho na Mostra Assembleia Legislativa) marcou tanto a semana do aniversário de 253 Porto Alegre quanto, principalmente, encerrou a semana de aniversário de 10 anos da resiliente e celebrável Cinemateca Capitólio, este patrimônio do audiovisual e da cultura gaúchas retrazido ao público há uma década.

O divertido “Um é Pouco, Dois é Bom”, de 1970, é produzido, roteirizado, protagonizado e dirigido por Odilon Lopez (1941-2002) e tem diálogos assinados por um jovem escritor então em início de carreira chamado Luís Fernando Verissimo. Afora isso, a ótima trilha é composta pelo pianista e compositor Flávio Oliveira, amigo do pai de Leo e Carol e a quem elas devotam muito carinho. Veja as coincidências!... O filme, com momentos muito interessantes e até experimentais em termos de direção e edição, o filme é dividido em duas partes, que dialogam de forma bastante sutil, mas não deixam de ter complementariedade. No entanto, o segundo e derradeiro episódio, “Vida Nova ... Por Acaso” é, sem dúvida, o mais apreciável. Com o próprio Odilon no papel do “pickpocket” Crioulo, que junto com seu inseparável parceiro de furtos Magrão (vivido por Francisco Silva), tem bem a veia cômica e crítica que marca a escrita de Verissimo que se passou a conhecer melhor depois e a qual ele desenvolveria largamente a partir de então.

Afora o prazer de ver um filme histórico, a ocasião em si foi muito especial. Além das parcerias, ver o Largo dos Açorianos lotado de gente de “cuca legal” é um sopro de esperança em tempos de tamanho terror bolsonarista, fascista, trumpista ou o que quer que seja ligado à excremente extrema-direita. Uma Porto Alegre que respira! 

Nisso, uma coisa boa e outra nem tanto na programação. A boa, é que, além de celebrar o restauro e exibi-lo a um público mais amplo do que nas salas de cinema, o próprio longa, que se passa em vários endereços da cidade, como o Parque da Redenção, a frente do prédio do Daer, a rodoviária, as ruas do Centro, entre outros, configurou-se em si uma celebração pelo aniversário da capital gaúcha. O erro, contudo, foi escolher o denso “Chibo” para abrir a sessão, uma vez que sua exibição ficou prejudicada tendo em vista que o filme depende em vários aspectos da concentração da sala escura. A sonoridade ruidosa, os poucos e propositadamente confusos diálogos mas, principalmente, a fotografia escura, quase invisível, visivelmente não funcionaram ao ar livre – ainda mais porque a produção esqueceu de apagar os refletores da praça logo de início, o que deixou só depois o ambiente bem mais “escurinho” e adequado para os espectadores. Fora isso, tudo muito joia. Afinal, a grande estrela da noite de calor um ventinho de chuva que nos assustou um pouco foi “Um é Pouco...”, novinho em folha em seus 55 anos de existência e resistência.

Confira ou pouco de como estava o clima nesta noite festiva de Porto Alegre:

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Muita gente pra ver a sessão ao ar livro de "Um é Pouco..."

Nós e Bolota aguardando o filme começar

Bolota em sua primeira sessão de cinema

A turma toda curtindo


Daniel Rodrigues



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Melhores do Ano Accirs 2024

O ano de 2024 foi desafiador para todo gaúcho por conta dos desastres climáticos de maio. A área do cinema, claro, foi bastante afetada, seja pela interrupção das atividades, seja pelo prejuízo material a espaços e salas de cinema, seja pela natural inserção no cenário local enquanto atividade cultural e econômica, Claro que, indireta e até diretamente em alguns casos, a Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), em seu 16º ano de atividade, também foi afetada. Atividades que ocorreriam em junho não se realizaram e outras nem se pode cogitar isso. Porém, uma delas, foi mantida: a já tradicional eleição dos Melhores do Ano, que tem por base produções lançadas em mostras e festivais, no circuito comercial e também em plataformas de streaming, no caso, de 2024.

Dividida em dois turnos, a votação selecionou os melhores longas-metragens estrangeiro, brasileiro e gaúcho, além do melhor curta gaúcho do ano. Ainda, os membros da associação entregam, desde a primeira edição dos Melhores do Ano, o Prêmio Luís César Cozzatti, que reconhece filmes, projetos, instituições ou pessoas de destaque no cenário audiovisual gaúcho. Os vencedores foram revelados em primeira mão durante evento sobre crítica online e atuação internacional com o historiador e crítico de cinema Waldemar Dalenogare, realizado no dia 14 de janeiro, na Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, o qual tive o privilégio de mediar. Sala lotada, público interessado, muitas interações e selfies.

Confira, então, os vencedores do Prêmio Accirs 2024:

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Melhor curta-metragem gaúcho:
"Pastrana", de Melissa Brogni e Gabriel Motta

É hat-trick que se fala quando no esporte alguém atinge a marca de repetir três vezes o mesmo feito, né? Podemos dizer que "Pastrana", dos jovens cineastas Melissa e Gabriel, marcou esse triplete. Primeiro, no 52º Festival de Gramado, em agosto, quando nosso júri do "Gauchão", o Prêmio Accirs para curtas-metragens gaúchos dentro da Mostra Assembleia Legislativa, votou nesta produção para o filme. Mais adiante, em novembro, igual: nosso júri de crítica formado para o 2º Festival de Cinema de Canoas o escolheu. Agora, para ratificar, o grupo de membros consagra este belo documentário de montagem ágil, imagens impactantes e narrativa tocante que presta, por meio de um enfoque muito pessoal, homenagem ao skatista de downhill Allysson Pastrana, falecido trágica e precocemente em 2018 durante uma competição.



Melhor longa-metragem gaúcho:
"Até Que a Música Pare", de Cristiane Oliveira

A Accirs ainda não havia premiado Cristiane nem com o belo "A Primeira Morte de Joana", de 2023,  como também ao brilhante "Mulher do Pai", de 2017, um dos mais importantes filmes da nova cinematografia gaúcha. Agora, enfim, veio o reconhecimento ao seu terceiro longa, que conta a história de Chiara, matriarca de uma família de descendência italiana, e seu marido, Alfredo, que decide acompanhá-lo em uma de suas viagens a trabalho para não ficar só em casa depois que o último de seus filhos sai do lar para morar sozinho. A sensível história, contada com ainda mais sensibilidade pela cineasta, põe o casal diante do maior desafio de suas vidas com o casamento de 50 anos à prova. 



Longa-metragem nacional:
"Ainda Estou Aqui", de Walter Salles

O filme que arrebatou crítica e, incrivelmente, público fora e dentro do Brasil. Mas o fenômeno "Ainda Estou Aqui", embora raro para o cinema brasileiro, tendo em vista o tema e a abordagem competentes mas nada pop como as comédias da Globo Filmes, é totalmente merecido. O filme que levou Fernanda Torres ao Globo de Ouro e o Brasil ao Oscar é uma sensível e comprometida reconstrução da história real da família Paiva, que viu o pai de cinco filhos e marido da resistente Eunice Paiva ser levado pelos militares para nunca mais voltar. Obra forte e necessária - principalmente, no atual momento em que as manifestações fascistas volta a ameaçar as democracias e os direitos humanos.



Longa-metragem Internacional:
"Anatomia de uma Queda", de Justine Triet

O que os olhos enxergam? Que olhos são esses, o do espectador? O da diretora? O de um personagem cego? Os de um cão de olhos sadios, mas irracional? O olhar da Justiça? O brilhante e incomum thriller de Justine é um misto muito bem argumentado de drama familiar, filme de tribunal e análise sociocomportamental da sociedade francesa. Todas as interrogações que o filme levanta e convida o espectador a acompanhar o desenrolar da trama, ora desvendando, ora impondo novos questionamentos. Com isso, outros pontos também surgem: o cinema não seria exatamente isso, a dúvida do que se vê ou se escuta? Mesmo com outros ótimos filmes internacionais em 2024, como "Dias Perfeitos", "Os Colonos" e "Pobres Criaturas", a Accirs teve a lucidez de premiar "Anatomia de uma Queda", outra obra de cineasta mulher assim como os brasileiros "Pastrana" e "Até que...". 



Prêmio Luís César Cozzatti (destaque gaúcho):
Hélio Nascimento

Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade no Brasil, Hélio Nascimento assina há 64 anos uma coluna semanal sobre cinema no Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Atualmente com 88 anos de idade, foi agraciado, em 2022, com o Prêmio Gramado 50 Anos no Festival de Cinema de Gramado, honraria destinada a pessoas cujas trajetórias em cinema se destacaram ao longo das décadas. Hélio tem dois livros lançados: "Cinema Brasileiro", de 1981, e "O Reino da Imagem", de 2002, e integra o livro "50 Olhares da Crítica Sobre o Cinema Gaúcho", publicado em 2021 pela Accirs e da qual é sócio-honorário.


Daniel Rodrigues