Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta porto alegre. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta porto alegre. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de maio de 2026

T.N.T. - Show "T.N.T. I - Ponto Zero" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre (24/04/2026)


A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.

Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.

Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o  público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...

Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.

O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"


Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.

Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Começa o show da lendária T.N.T.


Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho


Entrando nessa com "Entra Nessa"

"Ana Banana" no começo do show pondo 
todo mundo pra cantar


Repertório do primeiro e dos outros discos da
banda compuseram o show

A T..N.T. canta outra clássica: 
"A Irmã do dr. Robert"


Mais clássicos


Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera


Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T.
celebrando os 40 anos de sua estreia


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Beira-Mar Norte e Centro Histórico de Florianópolis/SC


Uma das nossas estratégias para circular por Florianópolis sem ter um carro, fosse pelas praias da ilha, fosse para aproveitar a sua parte urbana, foi ficar hospedado no Centro da cidade. Assim, pudemos, nos dias em que não pegamos praia, intercalamo-las com passeios ali mesmo por onde estávamos. Diferentemente do que a maioria dos turistas fazem em cidades litorâneas, para nós é um barato tanto esse tipo de banda quanto conhecer as regiões de Centro, que geralmente têm um Centro Histórico, Mercado Público, museus... Tudo que a gente aproveitou nos dias de “não-praia” por Florianópolis.

Num desses dias, o passeio começou de manhã pela orla da Beira-Mar Norte, um dos cartões-postais de Floripa, com suas pistas para circulação e prática de esportes por toda extensão, banhado pelo mar represado entre a ilha e o continente, assim como a icônica ponte Hercílio Luz, que liga os dois pedaços de terra que compõem a capital catarinense.

Capital esta, um dia chamada de Nossa Senhora do Desterro, cheia de história, constituída ao longo de 4.500 anos pelas nativas e dizimadas tribos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani; os escravos negros, vindos principalmente de Moçambique, na África Austral; o papel desbravador dos oportunistas exploradores Bandeirantes, os açorianos ocupantes e as figuras históricas catarinenses, tal Anita Garibaldi, Nereu Ramos, Othon da Gama Lobo d’Eça e o já mencionado Hercílio Luz, engenheiro e político. Parte disso pudemos ter contato na exposição permanente Museu de Cidade, presente no Museu de Florianópolis, hoje comandado pelo Sesc SC e que fica num prédio histórico do Centro, o qual já serviu de Casa de Câmara e Cadeia Municipal.

Antes, contudo, entre o passeio na Beira-Mar Norte e um almoço no Shopping Beira-Mar, mais deriva pelas ruas da cidade, que lembram por vezes Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, até chegar no Marcado Público, patrimônio histórico e cultural de Floripa. Dele, tinha vaga e prazerosa lembrança de quando fui, há uns 20 anos, a qual se confirmou como num deja vu. Aquele clima de mercado público de metrópole, com suas bancas de souvenires, artesanato, comidas típicas, gentes e movimentação. Nem pestanejo em dizer que a melhor comida da viagem foram os sanduíches da banca Paradinha do Fernando, um pãozinho francês tostado com recheio de omelete com calabresa e outro de bolinho de carne. Uma atração turística, que se soma à simpatia e o bom atendimento do próprio Fernando e de sua equipe.

Teve também uma passada na loja de artesanato da Casa da Alfândega, outro prédio histórico, ao lado do Mercado, um dos pontos iniciais da cidade. Pertencente ao IPHAN e Inaugurado em 1876, em uma cerimônia que coincidiu com o aniversário da princesa Isabel, ali, onde hoje se celebra a arte dos artistas indígenas, sambaquis e nativos da ilha, um dia foi o principal centro alfandegário de Florianópolis, até o fechamento do porto, em 1964. Um dia, ali se comercializou de um tudo, que chegava à ilha como mercadoria pelas embarcações. Inclusive escravos.

Essa Florianópolis mais evidente e ao mesmo tempo mais profunda carrega no seu sol e no calor ameno muita energia, guardada naquelas construções históricas, naquelas calçadas pedregosas e na complexidade da intersobrevivência, que se enxerga em quem está vivo +e em quem não está – mas um dia esteve. Como é, por sinal, todas as cidades históricas.

⚓⚓⚓⚓⚓⚓⚓⚓

Cena matinal na Beira-Mar Norte


Eu amando Floripa


Mais da manhã ensolarada na Orla de Florianópolis


Detalhe das pedras


O mar e o Continente ao fundo


Detalhe da ação da água nas pedras 
da Beira-Mar Norte


Barcos


Uma das antigas estações de bombeamento desativadas,
mas cujos prédios são patrimônio histórico


Foto de dia anterior com o Mercado Público, ao fundo, e a Casa da Alfândega,
em seu tom amarelo característico


Os cachorros do Centro


Movimento interno do Mercado Público 


Encontramos Roberto Carlos cantando e lucrando uns trocados no Largo da Alfândega


Loja dentro do prédio histórico Casa da Alfândega 


A Bruxa, presente no folclore da Ilha, controlando da porta quem entra em quem sai


Instrumentos dos sambaquis no Museu da Cidade


Fotos de escravos vindos de Moçambique para a Desterro colonial


Esta dupla terminando seu passeio pelo Centro de Floripa

⚓⚓⚓⚓⚓⚓⚓⚓


quinta-feira, 19 de março de 2026

Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.

Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.

A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.

Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou

"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.

A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist

Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazz spiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.

Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!

Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC

O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.

Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar. 

Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.

Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Quarteto norte-americano no palco do Opinião


Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo 


A clássica "Pride" pra exaltar a galera


O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head", 
que pôs o Opinião para suingar


Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica


Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter
(to a Landlord)". Louvação e protesto


Quase terminando o show, "Cult of Personality", 
um dos maiores riffs já escritos


Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima


Cover de The Clash para encerrar 
o show com punk rock



🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸
texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Drops Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Não é toda hora que se vê de perto um guitar hero. E para um fã de rock, isso é um acontecimento especial. Posso dizer que já vi The Edge, no show da U2, em 1997, em São Paulo, Will Sargent, na histórica primeira apresentação da Echo & The Bunnymen em Porto Alegre, em 1999, e... só! Quando Keith Richards, Slash, David Gilmour e Eric Clapton vieram à minha cidade, não os pude assistir. Muito por conta disso, quando soube que a Living Colour, liderada pelo herói da guitarra Vernon Reid, voltaria a Porto Alegre depois de mais de 10 anos, não pestanejei.

Celebrando os 40 anos de carreira, o supergrupo (afinal, como se não bastasse, não é apenas Vernon o craque da banda formada por Corey Glover, nos vocais, Muzz Skillings, no baixo, e Will Calhoun, bateria, todos igualmente exímios) se apresentará no próximo dia 26 no Bar Opinião, casa símbolo de rock na capital gaúcha.

A expectativa é grande para vê-los tocar as clássicas “Type”, “Love Rears It’s Ugly Head”, “Pride”, "Open Letter (To a Landlord)" e “Cult of Personality”, essas duas últimas do disco “Vivid”, que já tive a felicidade de resenhar nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do Clyblog destacando sua importância para o rock feito por negros na história do gênero. Enfim, a melhor banda de rock preta com um guitar hero em plena atividade. Será um privilégio, com certeza, que voltarei aqui para contar depois como foi.


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)

 

Torakutan Arado da Nova Era
No motor do peito, o som desperta,
Não é apenas barulho, é a trilha certa.
Torakutan chega com o peso do aço,
Abrindo caminho, rompendo o cansaço.
Como o trator que curva o horizonte,
Buscamos a pureza direto na fonte.
Não viemos para derrubar o que é bom,
Mas para limpar o terreno com o nosso tom.
Trecho do semimanifesto “Torakutan”

Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade, improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando havia algum “roteiro”.

Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes, durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação que já deu a noção do que viria.

 Vieram, na sequência, a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar” (presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção, visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.

Um trecho da emocionante "O Mar"

Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”, de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que, juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra, feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia x digital.

Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo” (afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres, e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.

Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!


Abu: uma cabeça rara


Suzano: craque da percussão


Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak, 
acompanhando o pandeiro de Suzano


Torakutan em ação


Aplausos e mais aplausos ao final


Nós no camarim com o amigo Abu


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa