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sábado, 5 de fevereiro de 2022

"Ringu: O Chamado", de Hideo Nakata (1988) vs. "O Chamado", de Gore Verbinski (2002)

 



Jogo de dois grandes times!

A versão norte-americana foi a que apareceu primeiro por aqui e deixou muita gente com medo de atender ao telefone, mas logo se soube que tratava-se de um remake, muita gente foi atrás do original e descobriu que era tão arrepiante quanto o outro.

Em ambos os filmes, com algumas pequenas mudanças, o enredo basicamente é o mesmo: uma jornalista, (Reiko, em "Ringu", e Rachel, em "O Chamado") depois da morte misteriosa da sobrinha, acaba investigando uma suposta fita de vídeo-cassete que, ao que parece, "mata" quem a assiste, uma vez que, uma semana depois de ver o pequeno e confuso filme, repleto de imagens desconexas, com uma misteriosa mulher, um precipício e um sinistro poço, o infeliz espectador inevitavelmente, morre.

Ainda no início das investigações e um tanto incrédula, naquele momento, a repórter assiste ao conteúdo da fita e, em pouco tempo, se convence que, assim como sua sobrinha e outras pessoas que descobrira terem visto o tal vídeo, está condenada à morte. Começa, então, uma corrida contra o tempo e contra a morte, tentando descobrir o que pode interromper o processo. Para piorar, seu filho assiste à fita a aí que o desespero bate mesmo. Resta analisar, com urgência, cada um dos elementos que aparecem no filme, a mulher, o espelho, o poço..., e tentar achar uma pista de como salvar o filho. Quem é a mulher? Onde é a casa onde ela está? Onde fica aquele poço?

Aí há diferenças entre os filmes quanto à atividade da tal mulher: no original, uma pitonisa, no outro, uma criadora de cavalos; no primeiro com uma relação conturbada com o marido, no outro mais convencional. No entanto, em ambos os casos  as investigações apontam para a filha do casal, no original Sadako, e Samara no remake, que teria tido uma morte trágica, possivelmente ligada ao poço, e agora, através da fita sobrenatural voltava para uma vingança contra todos pelo destino que teve.

Ocorre à repórter, com ajuda de seu ex-marido, que também já assistirá ao vídeo, que, somente encontrando os restos mortais da garota e dando-lhe um sepultamento digno, seu espírito torturado descansará em paz. Será?

O filme norte-americano é melhor. Desenvolve melhor a trama, coloca novos elementos sem comprometer o argumento básico, tem a ótima Naomi Watts no papel da jornalista Rachel, e uma fotografia esverdeada, esteticamente interessante, e que dá um aspecto mais sombrio e "úmido" à película. Além disso, a expressão das vítimas da fita, com suas caras retorcidas, é mais aterrorizante no novo; o curta-metragem mortal contido na VHS é muito mais perturbador; a valorização da água, remetendo ao poço, é uma bola dentro, acrescentando um elemento visual e psicológico importante para o espectador; e a parte técnica, com sua direção de arte, som e efeitos visuais, muitas vezes desperdiçados em refilmagens, dessa vez fazem diferença a favor da produção hollywoodiana, com destaque para a clássica cena em que Samara sai da tela da TV.


"O Chamado" (1988) - Sadako saindo da TV


"O Chamado" (2002) - Samara saindo da TV


Colocado assim pode parecer que o original não tenha mérito algum mas é exatamente o contrário: foi um dos raros casos em que o remake pegou exatamente o que havia de bom e melhorou ainda mais.
Um 3x1, no placar, vá lá...

Tipo aquele jogo que não é mole mas a diferença técnica é evidente de um time pro outro. Ele faz valer essa diferença, abre 2x0, até toma unzinho pela boa qualidade do adversário, mas logo faz o terceiro e fica tranquilo. Poderia até golear mas por respeito a um adversário tão digno, tira o pé, e fica nisso mesmo. 

Aqui, um pequeno comparativo de imagens:
bem no alto, a aparência da primeira vítima, a sobrinha, depois do contato com a menina maldita;
na segunda faixa, as jornalistas, Reiko, à esquerda, e Rachel à direita, assistindo ao vídeo fatal;
logo abaixo, o visual dos dois poços, primeiro o do original e depois o do remake;
e por fim, as já icônicas personagens do mundo do terror, Sadako e Samara.



Sadako, telefone pra você.
E é a Samara.
Ou seja: você está morta.
"O Chamado" coloca "Ringu" no fundo do poço!





por Cly Reis

terça-feira, 6 de novembro de 2012

cotidianas #187 - O Homem Certo



  Oi, você é o Pestana, não é? perguntou o homem tirando-lhe da distração, logo depois se desculpando pela inconveniência: - Desculpa, mas o meu filho é muito seu fã – disse trazendo para junto de si o garoto que vestia uma camisa com o número 5 às costas - Eu também aliás... – completou ainda, um tanto constrangido pela última observação.
  - Sou eu mesmo – confirmou agastado o homem ali parado diante daquela vitrine no shopping.
  - Você poderia dar um autógrafo pra ele, na camiseta, por favor – agora virando o menino meio de costas de modo a permitir a escrita do ídolo.
  Pouco à vontade, Pestana apanhou a caneta que aquele pai lhe dava, apoiou parte da mão nas costas do garoto e pôs ali sua rubrica quase ilegível na qual só se distinguia o “P” enorme. “P” de Pestana.
  O dono da frente da área. 
  Dizia-se que só atravessava dali para dentro da área grande a quem ele desse autorização e olhe lá. O verdadeiro volante, o cabeça-de-área. Era combatido por muitos velhos puristas do futebol como mais um cabeça-de-bagre, isso sim, mas aquilo não era verdade. Pestana sabia jogar. Tinha uma saída de jogo limpa e fluída. Roubava a bola, olhava em torno e logo vislumbrava o companheiro bem posicionado. Passe certo! Perfeito. E o time saía para o ataque. Se precisasse também sabia conduzir. Levava bem a redonda, com habilidade, destreza, lucidez e alguma velocidade. Qualidades que o próprio Pestana reconhecia em si e por isso mesmo aspirava a meia-armação. Ah, os meia-armadores, os pensadores do jogo cerebrais como Zidane, Carpegianni, Cruyff, Platini, carregadores de bola como Kaká, os de chegada na frente como Zico, ah, e Dom Diego, ah, e Pelé. Sei que dizem que o Rei era quase atacante mas... aquele passe pro Jairzinho contra a Inglaterra e aquele pro Carlos Alberto? Só quem VÊ mesmo o jogo pra fazer aquilo. Sonhava vestir a 10 e ser o maestro de seu time. Conduzi-lo às vitórias nas situações mais complicadas. Não queria fazer o gol, mas com um toque genial deixar o companheiro na cara do gol como quem diz “faz”. Mas não. Até começara como meia na base mas o excesso de jogadores da posição fez com que disputasse posição na frente da área e ali se destacasse. Subiu para os profissionais, ganhou títulos, chegou à Seleção, se consolidou como um dos melhores volantes da história do futebol brasileiro e agora era difícil que lhe dessem aquela oportunidade de ser o mago do meio-campo.
  O menino saiu forçando o pescoço tentando olhar as próprias costas. Não agradeceu mas seu olhar emocionado dizia tudo. Nem precisava. O pai sim, se desmanchou em agradecimentos que o Pestana recebia tentando disfarçar o incômodo.
Saiu do shopping chateado com aquela idolatria estúpida e resolveu ir caminhando, mesmo, para casa, uma vez que não morava muito distante dali, de modo a ir ruminando um pouco aquela situação que lhe desagradava. Estando um final de tarde quente, parou num bar qualquer para comprar um refrigerante e ali, sem ser reconhecido, talvez pelo boné e óculos escuros que usava, ouviu dois homens que discutiam a rodada do final de semana. Um deles dizia:
  - ... ah, mas isso porque o Pestana não deixou o cara nem ciscar na frente dele.
  - Isso é verdade – concordou o outro – É um monstro aquele Pestana! Volante não tem igual – completou ainda.
  - Pra mim é um grosso que só sabe dar pancada – gritou lá de dentro o dono do boteco – Deviam proibir esses volante no futebol...
  Meio emburrado com a última observação, o Pestana resolveu sair dali sem nem acabar de beber o refresco. Ora, “grosso”! Veja só. Era só ter uma chance que mostraria que podia ser um meia. Um meia genial. Com lançamentos de Gérson e assistências de Riquelme. Ia pedir para o técnico para, daquele dia em diante, ser escalado mais à frente, com liberdade para sair e criar jogadas. Podia dar uma colaboração maior do que somente desarmar e aparecer na frente de vez em quando. Sabia que podia.
  Estava decidido, iria falar com o ‘professor’ no dia seguinte.
  E o fez. Falou com o técnico, à parte, no treinamento da manhã seguinte. O comandante não entendia o porquê daquela reivindicação agora. Estavam bem no campeonato, o time estava encaixado, ele, o Pestana, acabava de ser escolhido pelos jornalistas o volante do campeonato e era novamente chamado para a Seleção. Além do mais tinha um ótimo armador no time, igualmente convocado para o selecionado nacional. Por que isso agora? O Pestana argumentava, argumentava, mas não haveria mesmo recurso que convencesse alguém em são juízo a escalar o melhor da sua posição fora dela. Loucura!
  - Deixa estar, Pestana! – dizia o professor - Tu é o melhor ali. Ali, na frente da grande área. Tu é o cão-de-guarda. O adversário já treme só de saber que é o Pestana que tá lá protegendo a defesa. Deixa de besteira e vai jogar o que tu sabe, homem – arrematou dando um tapa carinhoso na cabeça do volante.
  No treino daquela manhã, o Pestana foi melhor do que nunca. Parecia estar em dia de jogo a valer. Deu carrinho, roubou bolas, saiu jogando, avançou com a bola e ainda, depois de um lançamento de mais de 50 metros, no pé do atacante, que o deixou na pinta pra meter pra dentro, saiu olhando pro treinador como quem diz “viu só”. Mas aquele treinamento parecia reservar algo de especial, e o habilidosíssimo meia do time, craque de bola, em uma jogada despretensiosa, à toa, parecia ter torcido o tornozelo. Médico em campo. Todas as atenções nele. Hum... Pela experiência de boleiro aquilo era coisa pra pelo menos um mês. Era a grande chance do Pestana. Depois da sua solicitação aberta e da exuberante exibição técnica no treinamento, habilitava-se claramente para a vaga já na próxima partida, dali há dois dias, até porque o técnico não tinha grandes opções no elenco para a reserva.
  - Eu posso fazer a dele, professor – prontificou-se, confiante, ao final do treino.
  - Vamos ver, vamos ver. Eu vou testar algumas formações – disse o técnico com aquele jeito de raposa velha.
  O velho fez mistério até a última hora e só na concentração anunciou que utilizaria um dos garotos dos juniores para a criação das jogadas. Um garoto que até prometia mas que além de muito ‘verde’ nem se aproximava da qualidade técnica dele, Pestana, mesmo jogando de volante durante todos esses anos. O abatimento do Pestana foi tão visível que o técnico foi ter com ele:
  - Eu não podia te trocar de lugar hoje porque os caras tem um dos melhores ponta-de-lança do campeonato, Pestana. Só tu ali na frente pode parar aquele 10 deles. Tu é o Homem Certo pra isso. Só tu, Pestana. Só tu.
  O Pestana fez que sorriu sem levantar os olhos e deu a entender que estava conformado. Não proferiu palavra durante toda a viagem da concentração para o estádio, nem na palestra do vestiário, nem pediu a palavra na hora dos gritos de ordem e incentivo. Entrou em campo calado e com um olhar fixo no vazio e um leve sorriso no canto da boca.
  Ouviu ainda algum colega gritando, “Vamo lá, Pestana!” Pega ele, pega ele”. Assentiu automaticamente sem nem saber com o que estava concordando e ouviu então o apito do juiz. Começava o jogo. Foi truncado, pegado, marcado, sem grandes jogadas. Foi assim durante quase todo o tempo. Um insistente zero a zero que devia-se muito aos fatos de que, no time do Pestana, a articulação havia ficado a cargo de um garoto que claramente sentia a pressão da responsabilidade, e de que, do outro lado, o adversário não conseguia armar uma jogada sequer, pois sempre deparava-se com um Pestana especialmente inspirado naquela noite.
  O jogo já ia-se encaminhando para o apagar das luzes quando uma bola, numa área morta do campo, ali pela intermediária, espirrou e ficou entre o Pestana e o atacante. Típica bola pra dividida. E dividida, qualquer um sabia que o Pestana não perdia uma. Arrepiava, levantava o que encontrava no caminho e era melhor o adversário sair da frente. Aquela em especial até estava mais para ele, facilmente chegaria antes do outro. Era provável até que o atacante pipocasse e só fizesse de conta que ia na bola. Mas o Pestana pareceu retardar o arranque. Será? O rival sentiu confiança e foi com sede na bola. O Pestana então ameaçou uma entrada mais viril e o atacante adversário, num golpe de instinto, até para se proteger, armou-se de toda uma virilidade que não costumava usar. Ora, sabemos o que acontece quando quem não sabe jogar duro tem que fazê-lo. Acaba por ser desleal. E foi o que aconteceu. O atemorizado avante adversário entrara por cima da bola enquanto, inexplicavelmente o Pestana, na última hora aliviara e entrara frouxo na jogada. O tornozelo virou de uma forma que poucas vezes se viu num campo de futebol. Coisa feia! Apito, falta, expulsão, empurra-empurra, médico em campo e todo aquele alvoroço. O Pestana saía de maca. Mas saía... rindo. Inexplicavelmente saía rindo com o pé praticamente virado ao contrário.
  Sempre que o tempo está para chuva o tornozelo do Pestana dói. Nunca voltou a andar perfeitamente. Na modesta casa em que vive no subúrbio, guarda os troféus, os recortes de jornal, as camisas da Seleção e contempla uma parede forrada de fotos. Pôsters de meias, de armadores, de pontas-de-lança. Zico, Caju, Rivelino, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Messi... Agora volta da cozinha levemente claudicante com a cerveja na mão e posta-se diante da TV para ver o programa de esportes. Nunca deixou de ver as resenhas esportivas mesmo depois que deixara de jogar. Por coincidência estão a falar dele no programa.
  "Pra mim, o melhor volante que eu vi jogar foi o Pestana. E não era desses cabeça-de-bagre, não. Sabia jogar. Sabia passar, conduzir pro ataque, lançar. Tinha bola pra ser meia se quisesse", sentenciava o comentarista.
  Desligou a TV e foi manquitolando para o quarto.
  Pestana faleceu poucos anos depois. Sozinho, com sérias dificuldades financeiras e problemas de alcoolismo. Deixou este mundo de bem com o futebol e mal consigo mesmo.


de Cly Reis
baseado no conto "Um Homem Célebre"
de Machado de Assis






terça-feira, 16 de setembro de 2014

"Marlon Brando - A face sombria da beleza", de François Forestier – Ed. Objetiva (2014)


"O horror! O horror!"





Acabo de ler "Marlon Brando - A face sombria da beleza", do jornalista francês François Forestier, que já biografou JFK e Marilyn Monroe. O presentaço veio do amigo Francisco Bino, que, na dedicatória, fez uma previsão um tanto cômica: "Che, tu vai ler tão rápido que vai parecer ejaculação precoce - desse mal Brando não sofria". Na verdade, acho que foi o único mal do qual esse puta ator não padeceu.

Brando teve infinitas personalidades. Ora anjo, ora monstro. Mais monstro do que anjo, diga-se. Na arte dramática, soube ser Midas; na vida real, foi Medusa. Único, rebelde, encantador, arrogante, trágico. Ao mesmo tempo em que conquistava todos à sua volta, fazia-se repugnante. Antes de filmar algumas cenas de "Uma rua chamada pecado", praticava um ritual que começava por uma leve masturbação, depois molhava a calça jeans e, por fim, abria a braguilha. Pronto, agora Stanley Kowalski poderia se exibir aos colegas - em especial, à Blanche DuBois-Vivien Leigh.

Desdenhava a profissão. Não lia roteiros, não decorava falas. Improvisava e tomava conta dos sets como se fosse o dono de estúdio - havia exceções, como com John Houston e Francis Ford Coppola, por exemplo. Ainda no teatro, quando fazia "Um bonde chamado desejo", tinha como hobby "brincar de boxe" com figurantes e atores substitutos. Certo dia, levou um direto no rosto que quebrou seu nariz. O autor da proeza: um jovem desconhecido chamado Jack Palance, que se orgulharia a vida inteira do feito. Sua grande diversão era chocar, chamar a atenção. E conseguiu. Todas as mulheres do universo, de Hollywood ao Taiti, do México às Filipinas, caíram em tentação. Entre as que sucumbiram, Ava Gardner (então namorada de Frank Sinatra, que mandou capangas darem um "recado" a Brando envolvendo a palavra "castração"), Marilyn Monroe (a quem ele não dava bola - "era muito bunduda") e Vivien Leigh (então esposa de Laurence Olivier, bissexual e grande referência para Brando, tanto no cinema quanto no teatro).


Na adolescência como
protagonista de
"O Selvagem"
O homem que virou rei de Hollywood, que defendeu indígenas e panteras negras, nunca escondeu a sexualidade aflorada, intransigente, desafiadora, inquietante. Gostava de mulheres exóticas - Rita Moreno, Movita Castañeda, Katy Jurado, Tarita Teririipaia. E de homens, também. Entre eles, os parceiros de toda vida: Wally Cox e Christian Marquand. Brando nunca negou sua bissexualidade. Bernardo Bertolucci teria se apaixonado por ele, incutindo sua obsessão nas transgressões entre Brando e Maria Schneider em "O último tango em Paris". O ator gostava tanto de gente quanto de Russel, seu guaxinim. Teimava, no entanto, em não gostar de si. Ainda que não bebesse ou consumisse drogas (influência pela vida errante levada pela mãe, Dodie), Brando maltratava o próprio corpo comendo desenfreadamente. A grande paixão? Sorvete. Potes e mais potes, que o faziam engordar quilos de um dia para o outro. Aos 30 anos, por estar "muito rechonchudo", quase perdeu o papel de "O selvagem" para Montgomery Clift - que fazia sombra a Brando desde "Uma rua chamada pecado", sendo, na época, um dos grandes queridinhos de Hollywood. Monty era bonito, educado, inteligente e homossexual. Ainda que tomasse conta de qualquer ambiente, Brando baixou a bola para um colega de "O selvagem". Um ex-fuzileiro naval mal-encarado chamado Lee Marvin fazia-no tremer. Para Marvin, aquele motoqueiro falso requebrava um pouco além da conta. "Maricão", dizia. "Não passa de um monte de merda".

Dali em diante, entre péssimos filmes e parcas boas exceções, como o genial "Sindicato de Ladrões" (novamente de Kazan), Brando via seu peso aumentar na mesma medida em que as confusões sucediam em sua vida pessoal - sempre envolvendo mulheres. No começo dos anos 70, foi parar em "O Poderoso Chefão", já gordo e decadente, com 58 anos, depois que o papel fora recusado por Laurence Olivier e George C. Scott. Brando estava desacreditado, assim como o filme, negado por vários diretores até parar nas mãos de um jovem de 31 anos chamado Francis Ford Coppola. Sem dinheiro e credibilidade, Brando trocou 5% de participação na bilheteria por U$ 100 mil. Deixou de ganhar, por baixo, U$ 10 milhões. Mas recuperou a estima, a aura que havia ido pelo ralo. Depois dos primeiros dias de filmagem, quando quiseram trocar Coppola pelo velho mestre de Brando, um dedo-duro do Macartismo chamado Elia Kazan, Don Corleone acariciou um gatinho e bateu pé: "se tirarem Coppola, também saio". Assim, Coppola ficou. Ficando, fez uma obra-prima. Ficou rico e conseguiu dinheiro e renome suficiente para realizar seu maior sonho, uma insanidade chamada "Apocalipse Now". Tão insano quanto os 125 quilos com os quais Brando chegou às locações, nas Filipinas.

Brando encarnando o célebre
Cel. Kutz em "Apocalypse Now"
Sobre "Apocalipse Now", Forestier escreve: "As filmagens seriam afetadas por um furacão, que destrói os cenários; o ator principal, Harvey Keitel, não podia ser mais irritante. É pior que Brando, no estilo Actors Studio. A cada saleiro depositado na mesa, Keitel pergunta: ‘Mas por quê? Desde quando? Qual a história desse saleiro? E dessa mesa?’. Coppola o manda embora. O substituto, Martin Sheen, é satisfatório, mas... sofre um ataque cardíaco, de cansaço. Passam-se os dias. A película prende nas câmeras, por causa da umidade. Os técnicos fumam, se drogam, contraem doenças desconhecidas. Os mosquitos atacam os brancos. Os bifes importados dos Estados Unidos chegam descongelados, ou mesmo podres. Encantadoras figurantes incitam os atores e maquinistas a se entregarem a atos imorais - mas saborosos. O próprio Coppola cede aos encantos das coelhinhas da Playboy que participam das filmagens. O exército filipino recusa-se a emprestar helicópteros. Brando raspa a cabeça. Dennis Hopper, o bad boy de ‘Sem Destino’, chega. Drogado até o pescoço, recusa-se a tomar banho. Passada uma semana, ninguém mais lhe dirige a palavra - exceto por telefone. Ao fim de 40 dias, passa a ter direito a um ônibus particular: ninguém mais quer entrar na condução com ele. Brando desaparece na selva."

Em 2004, aos 80 anos, Marlon Brando morreu. Apesar de ter tido o mundo ao seu dispor, pereceu sozinho, assistindo uma comédia sem graça de Abbot & Costello. Talvez comendo um McDonald´s daqueles que eram jogados por cima do muro por um funcionário da lancheria mais próxima de sua casa, em Mulholand Drive. Partiu não sem antes ter vivido uma sequência de tragédias que, se fosse transformada roteiro de cinema, perderia credibilidade - tamanho surrealismo. Em 1990, seu filho Christian Brando, um drogado problemático de QI abaixo da média, dá um tiro na cabeça do cunhado, Drag Dollet, na sala da casa do ator. Brando presencia os momentos seguintes e procura inocentar o filho "atuando" no tribunal. Cheyenne, a filha viúva, é outra problemática. Viciada em drogas e remédios, estava grávida do agora finado namorado. Depois de inúmeras tentativas de suicídio, a garota conseguiu se enforcar (“com sucesso”) em 1995, aos 24 anos.

Entre a sedução de Kowalski, a luta de Zapata, a ingenuidade de Terry Malloy e a sagacidade de Vito, fico com a insanidade de Kurtz. Ou de Brando, tanto faz. Ao fim e ao cabo, this will never be the end.


por Ricardo Lacerda





Ricardo Lacerda é jornalista, chato e curioso. Desde que se conhece por gente, vê filmes e escuta música de “gente velha” – como diziam os amigos do colégio. É aficionado por folclore latino-americano, curte Paulo Leminski e Pedro Juan Gutierrez – entre doses de Salinger e Hesse. Na tela, aceita quase tudo – salvo exceções. Foi editor da revista APLAUSO. Formado pela PUC, tem especialização em Relações Internacionais pela ESPM e é sócio da República – Agência de Conteúdo, de onde escreve para publicações como Superinteressante, AMANHÃ, Voto e Jornal do Comércio.












sexta-feira, 9 de maio de 2014

cotidianas #292 - O Ju-Ma do Século


"para os meus amigos de Juventus
com os quais tive o prazer de conviver durante anos
e vivenciar muitas histórias."
Cly Reis


Em pé: Cris, Tairone, Cabelo, Flávio e Dani.
Agachados: Cly Reis, Testa, Nílson, Éverton e Fábio.
(não foi o time do Ju-Ma do Século, mas não foi muito diferente disso e 
todos estes estavam no grupo)
O Manchester já era um time consolidado no bairro quando a Juventus surgiu. Meninos, na maioria renegados de outros times por não serem virtuoses da bola, nós os juventinos por nossa vez éramos organizados e ambiciosos e em algum tempo já chamávamos a atenção dos adversários da região. Começávamos a crescer, ganhar nossos amistosos, a figurar bem em torneios locais mas parecia que para efetivamente confirmarmos uma respeitabilidade, era necessário ganhar do time do bairro: o Manchester.
Quando a Juve nasceu o Manchester já tinha lá seus 8 ou 10 anos de existência e seu jogadores além de mais velhos que nós, eram mais experientes e mais fortes. Um deles, fundador do Manchester, o Ricardo, conhecido como Lambão, era irmão de um dos integrantes e criadores da Juventus, o Nílson, que até pelo fato de ser irmão mais novo e já tendo jogado no Manchester sendo normalmente ser preterido em nome dos mais velhos ou dos que jogavam mais bola, tinha uma gana em especial para ganhar deles. Então eis que quando nos sentimos minimamente prontos desafiamos o Manchester para um duelo. Para ver quem mandava na Intercap. Era lógico que eram eles. Mais tarimbados, corpulentos e organizados dentro de campo nos aplicaram uma impiedosa goleada. O que se repetiu algumas vezes em novos enfrentamentos, inclusive em um torneio da Federação de Futebol Sete do qual ambos os times participaram.
Mas as goleadas diminuíram. Os manchesterianos ainda nos venciam mas os placares passaram a ficar mais apertados e às vezes de maneira até mesmo contestável. A Juventus, além de perder a inocência inicial, agregava novos valores ao time, nos reforçávamos com um conhecido de um aqui, um colega de outro acolá e de repente começávamos a ganhar uma cara de time. Tinha um bom goleiro, o Tairone, um bom meia, o Éverton, o Testa tinha suas virtudes, o Topo-Gigio também mas de resto eram jogadores apenas esforçados. Mas então o Fábio, um menino que havia estudado comigo na 3 série havia voltado a morar no bairro e agora era um rapaz forte e corpulento, o Dani, um garoto que morava perto do campinho, jogava na defesa e gostava um bocado de bater, o irmão do Tairone, o Cris, que era franzino mas valente e dono de um espírito de liderança e tanto, passaram a fazer parte do nosso time. Com estes e outros a Juventus se reforçava e diminuía a diferença para o grande rival do bairro. Era hora de desafiá-los de novo.
Havia agora a convicção que o reforço não deveria ser apenas técnico mas também físico visto que os jogadores do adversário era muito mais fortes. O Tairone conhecia um cara, o Élton, que jogava muita bola e, apesar de ser mais ou menos da nossa mesma idade, era bem mais forte pois gostava de musculação coisas do tipo. Chamou o cara para jogar com a gente. Ele topou. Estrearia exatamente num Juventus x Manchester.
Naquela época, por conta de uma personagem de uma novela, a tal Juma Marruá, e pela coincidência das iniciais dos times, por brincadeira passamos a chamar o confronto pelo nome da moça, mas o apelido pegou e o título do nosso duelo local passou a ser esse: o clássico JU-MA.
E veio o dia do clássico. Seria aquele o dia da nossa primeira vitória? Sim, amigos! O fato de ter o Élton em campo fez toda a diferença. Além da boa qualidade técnica, parecia que não era mais apenas um time de guris, e o Manchester, já assutado pelas partidas anteriores que vinha ganhando no detalhe, sentiu isso. O jogo ficou mais pegado, os meninos não refugavam nas divididas, não se intimidavam, não fugiam das encaradas. O gol saiu num chute de longe do Fábio em que a bola desviou em alguém pelo meio do caminho e tirou do goleiro Edemir. 1x0 pra nós. Os 'meninos' iriam ganhar e o Manchester não conseguia aceitar aquilo. Até por isso o jogo ficou tenso, os nervos ficaram à flor da pele e como era de costume nos nossos embates contra o co-irmão, a partida acabou em confusão. Na confusão aconteceu algo de crucial importância e determinante para a sequência da trajetória da Juventus como time e para os confrontos futuros contra o Manchester. Nosso zagueiro, o Flávio, conhecido como Azeitona, acertou um murro no nariz do Júlio, um zagueiro alto, forte e violento que até então sempre nos impunha um grande respeito e até medo, por que não dizer, pelo seu jogo viril e até desleal. O curioso é que pela primeira vez eles ficaram intimidados. O Júlio não revidou o soco. Não massacrou de porrada o guri metido que ousara lhe dar um soco no nariz, como seria o provável que acontecesse em outros tempos. é lógico que a confusão aumentou, teve todo aquele "deixa disso", "vamos separar" e tal, mas não partiu pra cima do agressor. Não. Além do fato de ter o Élton em campo, o que já nos conferia uma imagem de igualdade física, era evidente pelo resultado do jogo e pela reação que os meninos tinham crescido. Tinham crescido e nunca mais as coisas voltariam a ser como antes.
É lógico que a Juventus voltou a perder umas que outras para o Manchester, mas nunca mais fomos fregueses. Depois da primeira vitória, igualamos o número de triunfos, devolvemos a golada no Campeonato da Federação, ultrapassamos o rival em número de vitórias e nunca mais foi abandonamos essa vantagem.
O bairro tinha um novo dono.
Parecia que sim, mas a grande prova estava por vir. O Ricardo, dono do Manchester, resolvera organizar um torneio padrão FGF7 (Federação Gaúcha de Futebol Sete), inclusive com árbitros contratados e tudo mais. Súmulas, partidas nos horários, calendário, belos troféus e medalhas. Ah, nossa recém conquistada supremacia não seria nada se não ganhássemos a Copa Intercap.
O destino, sacana, nos reservou uma peça logo de cara: pegaríamos o Manchester na primeira fase. Jogo equilibrado. Respeito mútuo, ninguém se abriu e o jogo ficou no 0x0. Ambos passamos de fase, eliminamos nossos adversários até que o destino, novamente ele, inconformado com a normalidade dos fatos no embate anterior, colocou-nos frente à frente numa semifinal. Aquilo decidiria a vaga na decisão. Maior que aquilo só se fosse a própria final, mas como não era, o grande confronto histórico de Juventus e Manchester seria aquele.
Como alguns anos antes Internacional e Grêmio se enfrentaram numa semifinal de Campeonato Brasileiro e o confronto foi chamado de "Grenal do Século" pela importância que tinha naquela fase de um campeonato nacional, pela semelhança das circunstâncias, foi natural e justo que aquele jogo do torneio, até então, mais importante que aquele bairro já havia visto, fosse alcunhado de nada mais nada menos que o "Ju-Ma do Século".
E o jogo foi eletrizante! Jogadas bonitas, jogadas duras, tensão, seriedade, apreensão! Até que numa jogada boba, num escanteio, o goleiro do Manchester, o Edemir, um cara meio cabeça-quente, depois de ter defendido o cruzamento e ter a bola em seu poder, agrediu o Éverton, com o jogo em andamento. Pênalti!!! O Fábio, que já se transformava num carrasco deles, bateu e fez. Edemir foi no canto certo a bola ainda triscou na trave e entrou. Estávamos na frente.
O jogo prosseguia bem, de certa forma sob controle, até que o Fábio que fazia uma atuação extraordinária até então, falhou. Foi matar uma bola com a sola do pé e a deixou passar por baixo dele. Ela sobrou limpa, quicando, na frente do gol pro atacante deles o Esquilão que não pensou duas vezes: fuzilou! eles empataram. Se seguisse daquele jeito teríamos penais. O  resultado impacientava os dois times, a tensão crescia e a rivalidade não permitia que se pensasse na hipótese do outro ganhar. Por tudo isso, lá pelas tantas, pelo finalzinho do jogo, não lembro por qual motivo fechou a confusão. Empurra-empurra, braço pra cá, braço pra lá, separa aqui, parte pra cima do outro e nisso tudo, dois nossos foram expulsos e um deles. Os momentos finais seriam de arrepiar e com muuuuito espaço em campo. Mas a Juventus realmente parecia mais madura e soube encarar melhor a situação, e numa bola alçada longa, quase do meio de campo para a área, o Testa conseguiu ganhar na cabeça do goleiro que que saiu mal, quase no bico da área. A bola que ainda raspara na sua luva do atabalhoado arqueiro, foi morrendo devagarinho no fundo do gol. Foi uma explosão só! Nossa e das pessoas que assistiam ao jogo na lateral do campo que àquelas alturas estavam torcendo pelos meninos contra os marmanjos. Os minutos finais foram de tensão, de bola pro mato, de chutar pra qualquer lado. Não tinha mais jogo. Era só esperar o apito final. E ele veio com a nossa classificação e a vitória definitiva.
Curiosamente, assim como o Internacional que venceu o Grenal do Século mas não levou o título brasileiro, perdendo para o modesto Bahia, também não ganhamos a final, sendo derrotados pelo fraco Caracol. Chegamos à decisão, que seria no mesmo dia à tarde, esfacelados! Física, mentalmente, emocionalmente e com os dois desfalques expulsos no clássico. Eles fizeram 1x0 e, simplesmente, mortos de cansaço depois de um jogo de altíssima exigência, não tivemos força para buscar o resultado. Mas não fazia mal. É lógico que gostaríamos de ter coroado nossa participação com o título, mas o fato de ter vencido o maior rival numa semifinal do torneio mais importante que já houve no nosso bairro, já era motivo de sobra para que ficássemos orgulhosos e nunca mais déssemos margem para qualquer contestação
Aquele bairro tinha um novo dono.


Cly Reis

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Duelo - com Paulo Telles (1ª parte)



Nosso convidado do Duelo do mês é o radialista, locutor, cinéfilo e blogueiro Paulo Telles. Morador da Lapa, no Rio de Janeiro, o famoso bairro boêmio carioca não é páreo para o fascínio cinéfilo de nosso entrevistado. Telles divide seu tempo entre as locuções e roteiros de rádio e as várias colaborações para blogs e revistas de cinema. Dentre elas, a DVD Magazine, onde possui uma coluna. Seu blog, Filmes Antigos Club, está há 5 anos no ar. O espaço é dedicado a artigos sobre filmes clássicos que fizeram história. Telles também é um dos maiores especialistas do Brasil no tema western, tendo escrito diversos textos e resenhas sobre o gênero. Ele se considera criterioso para fazer suas matérias e põe a pesquisa como peça fundamental para redigir qualquer texto. Eu decidi entrevistá-lo e explorar todo seu vasto conhecimento de sétima arte. Ele gentilmente aceitou e colaborou com respostas bem afinadas e nos deu uma grande entrevista. Um prato cheio de spaghetti e western de todo tipo, fartura total para os amantes do bang bang. Desfrutem com armas na mão.



BINO: Paulo, vamos entrar direto no tema western. Recentemente eu li um texto seu para a DVD Magazine que foi um dos melhores que vi sobre o tema bang bang. Era sobre o Western Americano e o Europeu, uma comparação, na verdade, uma diferenciação de ambos os estilos, quase um duelo. Eu tenho notado entre amigos e cinéfilos uma divisão de preferências entre os dois. É certo que o spaghetti fez o western americano repensar sua estética de cowboy limpinho, mas ao mesmo tempo bebeu muito na fonte hollywoodiana de fazer estes filmes. Quais foram as grandes contribuições que ambos os gêneros deram um para o outro?
Eastwood e seu referencial "Os Imperdoáveis"
PAULO TELLES: Primeiramente, saudações cinéfilas aos leitores do Clyblog e obrigado pela acolhida. Esse texto foi um dos meus primeiros redigidos no meu blog Filmes Antigos Club, criado em 2010, dividida originalmente em três partes, e foi trasladado para minha coluna Revendo por Edinho Pasquale (editor do DVD Magazine) em um único artigo. Ambos os estilos deram uma indelével contribuição à sétima arte, contudo, os faroestes spaghetti ajudaram a fortalecer o gênero. Para vocês terem uma ideia, o western (por definição do famoso crítico Andre Bazin, o "cinema americano por excelência") foi extremamente explorado por Hollywood pelo menos durante os primeiros 60 anos de indústria, inclusive na TV e nos seriados infantis de cinema (ao estilo Durango Kid, The Lone Ranger, etc), praticamente repetindo uma fórmula, ou melhor, dizendo, uma estética lírica e poética. Obviamente isso foi saturando o público e a crítica, mesmo que o cinema americano nos meados da década de 1950 tentasse inovar o gênero com temas sociais e de politização. Até que veio um notável cineasta italiano chamado Sergio Leone a mostrar para as plateias do mundo que o Velho Oeste era mais pungente do que os cineastas americanos florearam, mas estes, amantes da mitologia e do folclore, não se importavam com a fidelidade dos reais acontecimentos, e sim com a legenda áurea e romântica dos mitos do Oeste Americano. Obviamente, isso não condizia com uma época violenta que fora o Velho Oeste. Ele admirava os trabalhos dos mestres Ford, Hawks, Mann, Daves, Hathaway, mas discordava do idealismo romântico e poético que estes diretores envolviam acerca de seus cowboys e no meio em que viviam, mesmo que estes cowboys fossem de teor freudiano. Se não fosse Leone, os westerns americanos ficariam quase batendo na mesma tecla, e graças a ele o gênero, no geral, sobreviveu mais um pouco e vem de certa forma, sobrevivendo. Afinal os americanos não teriam feito obras como “Meu ódio Será Sua Herança”, “Os Profissionais”, “Quando os Bravos se Encontram”, “Mato em Nome da Lei” e até mesmo "Os Imperdoáveis", de Clint Eastwood, se não fosse pela intervenção dos westerns italianos. Ambos os estilos, o americano e o europeu, cada um com sua essência, foram importantíssimos e são de um legado ímpar para a cinematografia mundial.

B: Um dos legados de Ford e de outros grandes diretores foi mitificação do homem do Oeste americano. Mas ao mesmo tempo sabemos que muito do que se via nos filmes não correspondia à realidade ou era controverso. Um dos maiores exemplo é o famoso tiroteio de O.K. Corral. Tivemos diversas produções sobre este tema e que exaltaram os participantes do tiroteio, mas a pesquisa de especialistas disse que não foi nada daquilo o que aconteceu na verdade. E outro foi uma espécie de inversão que transformou o índio em pária social pelas produções de cavalaria, aquela história de mocinho versus índio. Formato que alguns diretores repensariam anos depois – Ford foi um deles. O progresso a qualquer "custo" desnudado nas produções de Leone confrontava os mitos fordianos e CIA. A figura do pistoleiro anti-herói e errante é na verdade uma cutucada. Fale-nos um pouco do mito do cowboy.
PT: Como eu disse, os americanos são fascinados pela mitologia do Oeste Americano, e isso já acontecia antes mesmo do surgimento do cinema. Em 1883, o próprio William Frederick Cody, conhecido mundialmente como Buffalo Bill, já vinha explorando ele mesmo seu lado de “herói” nos seus espetáculos circenses do Oeste Selvagem. Quando o cinema já existia como um espetáculo, Buffalo Bill foi convidado por um dos primeiros mocinhos do Far-West, Gilbert Broncho Billy Anderson (que também era produtor) para estrelar um filme, intitulado “The Adventures of Buffalo Bill”, justamente com a intenção de demonstrar que, no cinema, a ideal “fábrica de sonhos”, realidade e lenda poderiam se confundir facilmente. Dois anos depois da morte de Wyatt Earp, em 1929, um escritor chamado Stuart Lake publicou um livro chamado “Wyatt Earp, Frontier Marshal” (“Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira”), onde narrava as façanhas do “Leão de Tombstone”, como era Earp alcunhado. Lake sempre declarou que cada narrativa, cada palavra ou vírgula, foram do delegado, mas depois voltou atrás, dizendo que todo o livro era de sua inteira autoria, e que Wyatt nunca lhe passou informações. Contudo, já nessa época, o cinema estava em busca de heróis para mitificar o verdadeiro mocinho, e não de personagens freudianos ou em enredos elevados a tragédia grega como viria mais tarde. Com base no livro de Lake, Wyatt Earp parecia se encaixar como este novo mito cowboy. Em 1937, Randolph Scott e Cesar Romero eram respectivamente Wyatt e Doc Holliday no filme “Frontier Marshal”, um dos primeiros filmes a abordar o duelo de O.K. Corral baseado na história de Lake, cujo argumento serviria também para “Paixão dos Fortes”, de John Ford, em 1946. Mas evidente que não foi apenas Wyatt Earp o objeto desta mitificação cinematográfica, e Hollywood transformou em heróis Billy The Kid, Jane Calamity, Buffalo Bill, Jesse James, Wild Bill Hickcok, Kit Carson e até mesmo o famigerado General Custer. Todos na realidade estavam distantes de serem “mocinhos”, mas o cinema americano preferiu de início laurear tais ídolos do Velho Oeste, pondo uma legenda romântica em cada um, imprimindo lendas e descartando fatos verdadeiros. Afinal, um famoso cineasta que todo bom amante de western prestigia já falava em um de seus grandes filmes: “Isto é o Oeste. Quando a lenda é mais forte que os fatos, se imprime a lenda”. Isso mesmo, John Ford.
"Sem lei e sem alma"
Quanto ao famoso tiroteio do O.K. Corral, tão bem retratado em filmes como “Paixão dos Fortes”, “Sem Lei e Sem Alma”, e “A Hora da Pistola” (os dois últimos de John Sturges), não passou de uma tremenda farsa. O verdadeiro tiroteio, ocorrido em 26 de outubro de 1881, durou um minuto, enquanto que no filme “Sem Lei e Sem Alma” dura 15. Nem Wyatt Earp e nem seus irmãos foram heróis em nenhum momento de suas vidas, e sim assassinos acobertados pela insígnia da Justiça. Ike Clanton era um homem pacífico e ele e seus parentes foram vítimas dos Earp, porque sabiam de coisas comprometedoras a respeito de Wyatt e Doc Hollyday, este um pobre coitado. O verdadeiro Earp era o típico “171” do Velho Oeste: trapaceiro, mentiroso, amoral e covarde. Nem mesmo a amizade de Earp com Holliday era verdadeira. Foram, de fato, parceiros de copo e mesas de jogo, além de ser seu aliado e cúmplice no duelo de O.K. Corral, mas não tinham grandes afinidades. Wyatt era de uma família de rudes camponeses pioneiros do Oeste, e Doc de uma família refinada do Leste, diplomado em Odontologia e de esmerada cultura. E fato é que, na última vez que se encontraram, descobriram que eram bastante diferentes e resolveram não mais se falar. Segundo o cinema, tal fato não deve ser impresso, mas sim a lenda romântica de que os dois eram amigos inseparáveis. Contudo, o western como gênero cinematográfico foi sendo revisado a partir do início de 1950, e o protótipo do herói que vinha sendo retratado em muitos destes filmes sofreu mudanças por grande parte de cineastas revisionistas. O herói não era 100% herói, ou definitivamente, não era. Ele podia agir de acordo com sua forma de pensar sobre justiça, lei, ordem e meio que vive. Poderia cometer acertos e erros como qualquer ser humano. Enfim, foi preciso humanizar o cowboy, e mesmo os famigerados vilões também são objetos de profunda análise pela base psicológica.

B: Quem foram para você os diretores e os filmes de western que melhor deram esta contribuição, vamos dizer, social e mitológica do homem daquele meio?
James Stewart em "E o sangue semeou a terra".
mito do cowboy
PT: Acredito que Anthony Mann e Delmer Daves foram os mais prolíferos dentro desta contribuição à mitologia do homem dentro do Velho Oeste, muito embora os estilos dos diretores se diferenciem. Interessante em dizer que os cinco filmes em série estrelados por James Stewart em parceria com o cineasta Mann refletem bem a mitologia do homem em seu meio social. Basta assistirmos obras como “Winchester 73” (1950), “E O Sangue Semeou a Terra” (1952), “O Preço de um Homem” (1953), “Região do Ódio” (1954) e “Um Certo Capitão Lockhart” (1955) que veremos este mito do herói grego no meio da tragédia grega, ou em outras palavras, o mito do homem, do novo cowboy, no meio social em que ele esta vivendo. Já Delmer Daves tem uma obra “didática” que reflete muito bem o tema, “Como Nasce um Bravo”, de 1958, estrelado por Glenn Ford e Jack Lemmon, onde temos este aprendendo a ser um “cowboy de verdade” em meio a um grupo de rudes vaqueiros liderados por Ford, um dos grandes ícones do Far-West americano. Lemmon, um cara do Leste e acostumado à boa-vida, tem exatamente em sua mente o mito meio que laureado do cowboy, mas quando ele vai ver, percebe que não é nada disso.

B: Agora nos fale dos primeiros westerns realizados nos Estados Unidos.
PT: O cinema nasceu em 1895, na França, e isto já é falar nos primórdios da sétima arte e de sua invenção como meio de entretenimento. Já em 1898, nos Estados Unidos, a Edison Company (de Thomas Edison), produziu uma vinheta de um minuto de duração chamada “Cripple Creek Bar Room”, aclamado por alguns críticos e estudiosos como o primeiro western da história. Segundo Primaggio Mantovi, autor do livro “100 anos de Western”, a cena mostrava um pequeno saloon com alguns cowboys, um típico jogador do Velho Oeste, e uma garçonete de aspecto masculino que pôde ter sido interpretado por um ator. Contudo, foi “O Grande Roubo do Trem”, datado de 1903, que mereceu a honra de ser o primeiro western, por se tratar de um primeiro filme a contar uma história escrita especialmente para o cinema (logo, o primeiro script para o gênero). O filme foi feito em apenas dois dias e se tornou oficialmente o primeiro western do cinema. Vieram pioneiros como David W. Griffith, Thomas Happer Ince, William S. Hart, Cecil B. DeMille (mais tarde, o idealizador de grandes espetáculos épicos e bíblicos, como “Os Dez Mandamentos” e ”Sansão e Dalila”), e o próprio John Ford, cada um realizando uma obra ou outra no gênero. E não somente quando o cinema engatinhava em seus primeiros passos, como também ainda não se tinha o recurso do som, afinal ainda era a fase silents do cinema. David W. Griffith é considerado o pai da linguagem cinematográfica, e realizou em 1915 o filme que é considerado, de fato, o primeiro longa-metragem do cinema: “O Nascimento de uma Nação”. Thomas Ince idealizou o primeiro estúdio ao ar livre, ao comprar 20 mil acres de terra para construir sua própria cidade do Velho Oeste, contratando depois uma trupe de cowboys autênticos e índios de verdade, peritos em cavalgar, laçar e atirar. “War on The Plains” e “Custer’s Last Fight”, ambos de 1912, foram um dos primeiros westerns rodados por Ince.

vídeo O Grande Roubo de Trem

Contudo, o ano de 1914 é tido como o ano oficial do nascimento do western no cinema, porque até então não houve a preocupação em desenvolver um ator capaz de encarnar o autêntico cowboy do Oeste, ou por que não dizer, o mito. Os primeiros atores a desenvolver os heróis do gênero foram Lionel Barrymore e Francis Ford (irmão do cineasta John) e eram figuras presentes nos filmes de Griffith e Ince, mas o primeiro herói oficial do gênero foi mesmo Gilbert “Bronco Billy” Anderson. William S. Hart e Cecil B. DeMille tiveram um interesse maior pelo gênero nos primórdios do cinema americano. Ainda em 1914, DeMille estreou na direção com “Amor de índio”, e posteriormente transportou para as telas, em primeira adaptação cinematográfica, o famoso romance de Owen Wister, “The Virginian – O Paladino da Justiça”, história esta que teria várias readaptações para o cinema em épocas futuras, inclusive originando uma série de TV na década de 1960, muito famosa – “O Homem de Virginia”, estrelada por James Drury. Ainda no período silents do cinema, Cecil B DeMille dirigiu os westerns “Sonhos de Moça” (“The Girl of The Golden West”), em 1915, e refilmou, em 1918, “Amor de Índio”.
"Marked Man",
primeiro western
do mestre John  Ford
William S. Hart era um ator clássico do teatro norte-americano que tentava transferir sua carreira para o cinema, e junto com John Barrymore e o lendário Douglas Fairbanks (na minha consideração, o primeiro grande aventureiro da sétima arte), seria um dos poucos a realizar este ideal, mas Barrymore não estava interessado em westerns. Com a ajuda de Thomas Ince, que foi seu produtor, ele realizou os westerns “Um Negócio Perigoso”, em 1914; “Terra do Inferno”, em 1916 (considerado o primeiro western adulto); “Serás minha escrava”, também de 1916; “The Tiger”, em 1918; e “Wagon Tracks”, em 1919. Juntos, a dupla Hart e Ince alcançaram sucesso de crítica e público que nem eles ao certo poderiam imagina.
John Ford começou sua carreira em 1914, como assistente de direção, ator e até dublê, com o nome artístico de Jack Ford. Iniciou na arte da direção em 1917, dirigindo “A Marked Man”, seu filme favorito e um dos poucos que adorava mencionar em suas entrevistas. Entre este ano de 1917 até 1920, Ford realizou 28 westerns para o estúdio da Universal, todos de grande importância para o gênero. Em 1924, Ford realizou uma obra-prima, o épico do gênero “Cavalo de Ferro”, estrelado por George O’ Brien, que havia sido dublê de Tom Mix. Existem ainda muitas outras obras do gênero realizadas nos primeiros anos da indústria cinematográfica, mas numerá-las todas é um trabalho que requer ainda pesquisa de minha parte.

B: O papel da mulher na sociedade do Oeste americano era bem secundário, penso que nas produções do gênero western isso também não era diferente. São raros os filmes em que tivemos mulheres como protagonistas e com personagens fortes. O que você pensa disso?
PT: Penso que isso não é necessariamente verdade em termos de produção do gênero. Temos ótimos filmes em que a mulher é a protagonista. É verdade que não são muitos, mas devemos fazer justiça aos cineastas que se lembraram delas. Anthony Mann fez isso em “Almas em Fúria”, em 1950, colocando Barbara Stanwyck como a heroína freudiana e corajosa que desafiava a “madrasta má” vivida pela dama do teatro americano Judith Anderson, para defender seu pai, vivido por Walter Huston (pai do cineasta John). Stanwyck era considerada por Hollywood como a “Madrinha dos Westerns”, e tudo porque ela era perfeita para o gênero. Ela cavalgava muito bem e sabia atirar de verdade, sendo também uma extraordinária atriz em outros gêneros, geralmente em papéis bem avançados para as atrizes de sua época. Barbara atuou em fitas westerns como “A Bandoleira” (ou “Na Mira de um Coração”), dirigido por George Stevens, em 1935, onde viveu a lendária Annie Oakley, e fez um importante papel feminino em “Aliança de Aço”, de Cecil B. DeMille, dividindo as honras com Joel McCrea. Anos mais tarde, na década de 1960, foi a estrela de um famoso seriado de TV do gênero, “The Big Valley” (1965-1969), onde viveu a corajosa matriarca de uma família.
Barbara Stanwyk,
madrinha do western
Também tivemos um personagem forte feminino como protagonista num grande clássico americano do gênero dirigido por um dos grandes artesãos da sétima arte, o brilhante Nicholas Ray. Falo de “Johnny Guitar”, realizado em 1954, onde Joan Crawford esbanja toda a ousadia e a coragem como nunca antes exibidas no cinema. Joan está perfeita como a dona de saloon perseguida por uma banqueira que sente um ódio mortal por ela (vivida pela também brilhante Mercedes McCambridge), enquanto ela também é defendida por um “herói-bandido” que sempre carrega um violão, Johnny Guitar (vivido por Sterling Hayden). Uma das obras mais psicológicas do gênero com um surpreendente espaço para a reivindicação feminina, tendo como pano de fundo a disputa de duas mulheres pelo amor de um mesmo homem, onde o confronto final entre as duas é inevitável. Em 1994, aproveitando o embalo da volta dos westerns no mercado de cinema graças ao estrondoso sucesso de "Os Imperdoáveis", de Eastwood, veio “Quatro Mulheres e Um Destino”, dirigido por Jonathan Kaplan, onde temos um elenco de primeira, lideradas pelas poderosas Madeleine Stowe, Mary Stuart Masterson, Andie MacDowell e Drew Barrymore, onde são elas as grandes protagonistas da obra. E pouco tempo depois, veio Sharon Stone protagonizando em “Rápida e Mortal”, em 1995, contracenando com Gene Hackman. Seja como for, as mulheres estão sempre marcando o seu território no gênero, sejam como protagonistas ou personagens secundárias, talvez mesmo servindo como a fonte de motivação para o herói ou o mito do Velho Oeste. Sem a cativante presença feminina, o western não tem graça.

B: Vamos falar de spaghetti, vamos falar de Leone. A meu ver foi um diretor completo, inovador e vanguardista. Estava à frente de seu tempo em relação a muitos diretores de seu país e até de Hollywood. Mesmo assim ele foi massacrado pela crítica em sua época, algo que Peckinpah e outros também sofreram na pele. Porque ele demorou tanto a ser reconhecido e valorizado?
Um dos principais respossáveis
pelo faroeste spaghetti,
Sergio Leone
PT: Foi, em grande parte, o preconceito de alguns críticos. Tanto Leone quanto Sam Peckinpah utilizaram muito do excesso da violência em suas obras, algo inovador para os padrões dos anos de 1960. Os críticos de então acreditavam que o público poderia ficar chocado com esta nova maneira de se fazer Western. Tanto a violência mostrada por Peckinpah quanto as mostradas por Leone eram uma arte incompreensível para a crítica da época, muito embora Sergio se preocupasse não somente com a violência, mas com todo um conjunto. Contudo, ambos os diretores tiveram merecido reconhecimento lá pela metade dos anos de 1970, quando suas obras foram revisitadas por críticos de mente mais aberta. Outro fator que também que veio a demorar o reconhecimento destes dois mestres foi a desconstrução do mito do cowboy romântico. Leone, assim como Peckinpah, derrubaram de vez todas as lendas romanescas do gênero, que já eram obsoletas já no fim da década de 1950. Alguns críticos de início não viam isso com bons olhos, e muito menos, Hollywood. Contudo, como sabemos, foi graças ao sucesso dos Westerns italianos que o cinema americano teve que se reinventar para não perder a concorrência, e não deu outra. Outro motivo que ajudou também a retardar o reconhecimento de Leone & Cia foi justamente alguns cineastas de baixo orçamento tentarem imitar o estilo de Leone sem sucesso, o que o incomodava, pois achava que o estavam plagiando. Por isso que muitas vezes tivemos faroestes europeus tão pobres e inexpressivos que mal passaram das prateleiras das locadoras de vídeo, muitos deles feitos com baixíssimo orçamento e roteiros sem pé e nem cabeça. O próprio Sergio Leone declarou a respeito de seus imitadores durante uma entrevista: "Sou considerado o Pai do Western Spaghetti, mas se eu soubesse que teria feito parir tanto fdp..."


(continua...)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ARQUIVO DE VIAGEM - Museu Oscar Niemeyer (MON) - Curitiba / PR



A impactante visão do "olho"
espelhado do MON


Mais do que qualquer exposição ou parque (e olha que lá têm muitos), certamente o que mais me impactou em Curitiba foi o Museu Oscar Niemeyer, o MON. É fantástica a emoção que se tem ao chegar pela estreita Rua Marechal Hermes, no bairro Centro Cívico, e, ao desvencilhar o olhar das árvores do entorno, dar de frente com aquele impressionante olho suspenso e espelhado. Tal como foi quando estivemos Leocádia e eu no MAC, de Niterói, no Rio, ao ver aquela nave-flor totalmente integrada com a natureza e a topografia.

Rampa de entrada para o
prédio principal com a torre
e o lago artificial
Nesta obra, a arquitetura de Niemeyer, embora num ambiente menos privilegiado naturalmente do que o de Niterói, traz novamente esta sensação impactante e de fusão com o que lhe cerca. O MON une duas épocas de sua carreira e da Arquitetura como um todo. Isso porque o projeto original foi composto pelo arquiteto em 1967 para as instalações do Instituto de Educação. Esta primeira obra comportava já o prédio em linhas retas que fica ao fundo, o qual dá de costas para o Parque Polonês, uma área verde de convívio ligada à outra de mata fechada. Pois em 2002, Niemeyer, já em sua fase mais madura, foi chamado para reelaborar o projeto, onde seria construído, enfim, o museu que leva seu nome.

Em primeiro plano,
a escultura em aço, La Luna,
de Niemeyer
Escultura em bronze do
modernista Bruno Giorgi
Foi quando se ergueu o chamado “olho”, que, na verdade, foi inspirado no formato de uma pinha de araucária, árvore característica da região e daqui do Sul. Sobre um lago artificial, o olho – cujo traço da borda em concreto armado branco é de uma beleza infindável – é sustentado por uma “sutil” base retangular, a “Torre”, em cor amarelo-canário, onde se estampam a traço preto desenhos do mestre que dialogam com outros feitos por ele em Niterói para o Caminho Niemeyer, obra também pertencente à sua última fase. Digo “sutil”, pois, como é natural em Niemeyer, as dimensões gigantescas se aliam à precisão das proporções dentro do todo, fazendo com que se percebam claramente os volumes, distinguindo o que é menor e o que é maior. O que não quer dizer que o “menor” seja necessariamente pequeno. Pelo contrário: ao todo, são 35 mil metros quadrados de área construída. Somente dentro da base amarela, vimos depois, há três andares de espaço expositivo mais o do próprio olho anexo. Isso, rodeado de rampas curvas que, além da função de acesso e mobilidade, emprestam movimento ao desenho.

Espaço Niemeyer traz maquetes, fotos e vídeos
dos principais projetos do arquiteto pelo mundo
Ao fundo, então, o prédio principal, distribuído em três pisos. Reto, amplo, moderníssimo. À Bauhaus. A estrutura do prédio é de concreto protendido, que permite vencer os grandes vãos da edificação com um enorme arrojo estrutural. Nele, estão nove salas de exposição, a maioria do museu. Além das mostras temporárias, há duas permanentes que cabem muito bem serem destacadas. A primeira fica na área externa do subsolo, que é o Pátio das Esculturas. Ali é possível perambular entre obras de Tomie Ohtake, Xico Stockinger, Erbo Stenzel, Amélia Toledo, Bruno Giorgi e até do Niemeyer.

Leocádia percorre o tunel a la "Solaris"
que liga o prédio principal
à "torre do olho"
A outra exposição permanente digna de realce refere-se ao próprio Oscar Niemeyer, num espaço reservado à sua obra, com projetos, fotos e maquetes do arquiteto de vários países do mundo, como os clássicos Cassino da Pampulha, o MAC, o Ibirapuera, as obras de Brasília, o Centro Cultural Le Havre (Paris), entre outros. Interessantíssimo, embora a proposta seja generalista, visto que não apresenta projetos dele menos famosos mas tão legais quanto, como a sede do Partido Comunista da França, em Paris, ou o Palazzo Mondadori, em Milão, Itália. Mas pra arrematar o desbunde, saindo dali, um lindo corredor em concreto que liga o prédio principal à torre, o qual passa por debaixo do lago artificial da entrada. Desenhada em curvas, dá a sensação de se estar percorrendo os corredores da nave espacial do "Solaris", do Tarkovski – só para se ter uma ideia do barato que dá.

Nós entre as esculturas
Enfim, para nós que, aonde vamos, procuramos sempre conhecer algo do Niemeyer que tenha no local, foi uma visita mais uma vez deslumbrante. Um museu organizadíssimo que, mesmo que não se veja nenhuma exposição, por si só, vale como passeio.

Para quem quer saber mais sobre o MON: www.museuoscarniemeyer.org.br










vídeo do Espaço Niemeyer - por Leocádia Costa




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As 'costas do olho', com o desenho
da Ártemis dançarina de Niemeyer
Museu Oscar Niemeyer
Endereço: Rua Marechal Hermes 999, Centro Cívico – Curitiba/PR
Visitação: Terça a domingo (10h às 18h)
Entrada: R$6,00








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vídeo: