Lembro que nas primeiras aulas de redação da faculdade de Jornalismo, meu professor Vitor Necchi nos ressaltou que a regra para se chamar pessoas num texto jornalístico era ou o nome completo ou, nas repetições do mesmo, o sobrenome para homens e o primeiro nome para mulheres. A exceção à regra eram personalidades especiais, cujo nome diferenciava-se dos outros por si. Casos em que o nome representava mais do que simplesmente uma certidão, mas, sim, um status, uma classificação, uma imposição daquilo que a pessoa se transformara e representara em vida.
Alguns exemplos, rememoro, eram Mãe Menininha do Gantois, Dona Canô e Mestre Marçal. E Dona Yvone Lara. Aos 97 anos, recém completos no último 13, praticamente a mesma idade do gênero musical que ela ajudou a forjar e desenvolver harmônica e melodicamente, o samba, Dona Yvone parte. Corpo debilitado de quem, como todo preto do subúrbio da primeira metade do século XX (e ainda, mulher), precisou trabalhar duro a vida toda – no caso dela, a enfermagem e o serviço social, que exercera durante décadas até se aposentar, sem, contudo, nunca deixar a batucada de lado. Mas a mente lúcida, criativa, incansável. Diz que levou para o céu 40 composições novas.
Mesmo a idade avançada e a saúde fraca há anos não são suficientes para amenizar o vazio que se faz presente. Vazio que toma a quadra do Império Serrano, como uma cuíca chorosa que, de repente, para de chorar, substituída pelo silêncio. Ao menos hoje, é o que se sente. Ficam vagando, no lugar, as melodias elegantes de quem estudara com Heitor Villa-Lobos ,mas que, ao natural, instintivamente, já de antes das aulas com o maestro adicionava elementos bachianos ao samba. Quem haveria de contrariar ao ouvir “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço”, “Confesso”, “A Sereia Guiomar”, “Aprendi a Sofrer”? Como ela, neste sentido, só Cartola.
Acordo sempre com alguma música na cabeça. Sei que havia uma das milhares que me ocorrem ao acordar hoje, mas não lembro mais qual. Ao saber da notícia da morte de D. Yvonne, imediatamente a esqueci, e minha mente (ou meu coração) escolheu para rodar “Força da Imaginação”, a luxuosa parceria dela com Caetano Veloso. Estão aqui seus acordes e seus versos, ainda agora, enquanto escrevo essas linhas de lamentação. Quero acreditar e acredito nos seus versos:
"Quando um poeta compõe mais um samba Ele funda outra cidade Lamentando a sua dor ele faz felicidade Força da imaginação Na forma da melodia Não escurece a razão E ilumina o dia-a-dia”
Parte, Dona Yvone, com a força da tua música, dos repiques
do samba, das melodias bachianas, da potência de fundar uma cidade. Parte com a
alcunha que poucos, pouquíssimos, tiveram e terão o merecimento de serem
redigidos fora do padrão. É pra quem pode.
Recebam-na com um pagode festivo aí, amigas Jovelina e
Clementina.
"Tristeza rolou dos meus olhos de um jeito que eu não queria".
Paciência.
Parte, Dona do Samba, com um sorriso e um abraço negro.
.........................
"Mas quem disse que eu te esqueço"- Dona Yvone Lara
Existem talentos especiais que passam pela Terra quase
despercebidos. Embora esse descuido possa ocorrer em qualquer canto do planeta,
não é difícil de se supor que os vícios de alguns lugares favoreçam a que
preciosidades sejam obscurecidas – às vezes, por uma vida inteira. O Brasil,
país jovem e com sérias dificuldades históricas de autoidentificação, é
prodígio quando o assunto é apagar seus próprios iluminados, quanto mais, os da
cultura popular. Com o samba, que sofreu por décadas perseguição, proibição e
preconceito, a demora no reconhecimento de atores fundamentais para a
construção do gênero musical mais original e identitário brasileiro promoveu um
atraso quase irrecuperável. Dona Yvone Lara, Adoniran Barbosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e Nelson Sargento, por exemplo, só lançaram
seus discos de estreia na terceira idade. A vida humilde, a discriminação e a
ralação do dia a dia sempre lhes foi uma realidade inescapável.
Se com esses grandes nomes quase não deu tempo de
aproveitá-los, imagine-se com os sambistas de comunidade, menos midiáticos. É o
caso de Argemiro Patrocínio, também conhecido por Argemiro do Pandeiro, Argemiro
da Portela ou, simplesmente, Seu Argemiro, como era chamado em Madureira e
Oswaldo Cruz, chão dos portelenses. De uma geração à frente de Monarco ou
Candeia, dois referenciais bambas da Escola, Argemiro foi um compositor de mão
cheia, mas que nunca teve espaço suficiente para desaguar suas autorias fora da
quadra da escola. Os mais atentos podem lembrar dele na capa do disco de
estreia de D. Yvone, “Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz”, de 1978, atrás
dela, à direita e junto com outros companheiros de samba, em que aparece meio
de soslaio quase escondido pelo inseparável chapéu. Ou na cena dos partideiros no pátio da casa de Candeia no filme “Partido Alto”, de Leon Hirszman, de 1982. Como se
vê, aparições sempre secundárias: integrado ao grupo, mas dissolvido nele.
Argemiro, contudo, começou cedo sua relação com o samba. Foi
levado, nos anos 50, pelos históricos Paulo da Portela (então diretor) e Betinho (diretor de
bateria) para a Portela, passando a integrar a Ala dos Pandeiros. Pai do Mestre
Sala Jerônimo (da Portela e Imperatriz Leopoldinense), mais tarde entrou na Ala
dos Compositores e também na velha-guarda da Escola, a qual, apadrinhada por
Paulinho da Viola, se tornou uma referência entre as velhas-guardas cariocas a partir dos anos 70.
Homem de pouco estudo, mas de enorme sabedoria e
inteligência, Argemiro trabalhou duro como técnico em refrigeração, profissão
pela qual se aposentou de forma humilde. Isso explica em parte porque só
começou a compor aos 56 anos, no final dos anos 70. Não demorou para que suas
músicas, as mais de 100 que anotava com esmero num caderno, fossem
reconhecidas. Em 1980, a madrinha do samba Beth Carvalho gravou a primeira
composição sua, “A Chuva Cai”, parceria com Casquinha. Entre discos da
Velha Guarda da Portela, participações em trabalhos de Zeca Pagodinho, Teresa
Cristina e Grupo Semente, ganhou reconhecimento como o autor original que é, principalmente, na virada para o século 21. Ou seja: já na velhice. Não somente ele, como
também os companheiros de Velha Guarda Casquinha e Jair do Cavaquinho, que
tiveram, após o lançamento do álbum “Tudo Azul”, da Velha Guarda, em 2000, seus
também primeiros discos gravados todos pelo selo Phonomotor, de Marisa Monte, um em
2001 e outro em 2002. Argemiro, que esperara oito décadas para isso, foi o
terceiro da fila e não desperdiçou a oportunidade de marcar de vez seu
nome na história da discografia do samba.
Poeta romântico e melodista precioso, Argemiro abre o disco com um
soar de cavaquinho e a voz às vezes sôfrega e sibilante, mas naturalmente elegante e carregada de experiência
vocal (e de vida). Ele canta os poéticos versos, que impressionam pela concisão
das poucas palavras: “Não sei/ Porque/ Tudo de mal/ Acontece comigo/ Tentei/ Mudar/
Em vão/ Mas não consigo”. E arremata: “Ninguém pode fugir do seu destino/ Esse
meu sofrimento é desde os tempos de menino”. Argemiro dá o tom da sua poética,
calcada na tradição do samba de terreiro: o amor não correspondido, o
sofrimento do coração partido, a mulher que abandona. Emendada, “Tudo Mudou Tão de Repente", uma das parcerias com outro célebre portelense, Chico
Santana, segue na mesma linha: “Eu não sei se é meu destino/ Desde os tempos de
menino/ Vivo sofrendo assim”. A sina do sambista, este eterno sofredor.
O violão de Paulão 7 Cordas, o cavaquinho de Mauro Diniz
(filho de Monarco) e a “cozinha” de Felipe D’Angola e Marcelo Moreira dão a
Argemiro o espaço necessário para ele entrar com seu pandeiro e sua voz. A
magnífica “Solidão”, de tão classuda, ganha o toque do violoncelo de Jacques Morelenbaum. E olha que poética! “Um fantasma que mata/ E que maltrata o
coração/ É dor, angústia e sofrimento O tédio é um eterno tormento/ Assim é a
solidão”. Sua clássica "A Chuva Cai”, já ouvida na voz de Beth Carvalho,
Renata Arruda, Grupo Explosão do Samba, Régis Clemente e outros, tem agora,
enfim, a do seu próprio autor. A história da música no Brasil devia isso ao
samba.
Marisa Monte, produtora do disco, sabia dessa importância
histórica e dá ao conteúdo musical e até antropológico o devido capricho.
Marisa, por sinal, vinha de alguns anos encabeçando o projeto de valorização da
Velha Guarda da Portela. Primeiro, com o disco “Tudo Azul”, também produzido
por ela. Mais tarde, os de Casquinha, Jair do Cavaquinho e este, além do belo
documentário “O Mistério do Samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina
Jabor, de 2008, que a tem como cicerone. É neste filme, aliás, que
Argemiro ganha seu primeiro protagonismo em vida, tratado como um dos
personagens centrais da Portela. Constantes no filme, "Deslize Da
Vida" (“A vida/ Não é somente doçura/ Tem que haver amargura/ Para se dar
o valor”) e a maravilhosa "A Saudade me Traz", com direito a "clipe",
tem a ilustre participação de Zeca Pagodinho e das vozes femininas da Velha
Guarda, as Pastoras – leia-se Tia Doca, Tia Eunice, Tia Surica e Áurea Maria. Uma
das melodias mais bonitas da história do samba carioca e com uma letra, que é
um show de domínio de prosódia e sintaxe: “A saudade me traz/ Quero rever
alguém/ Que do meu coração não sai/ Eu vivo nessa agonia sem fim/ Eu canto, eu
bebo para esquecer/ Mas nem assim”. Luxo só.
trecho do filme "O Mistério do Samba" com o "clipe" "A Saudade me Traz"
Capricho também se vê no arranjo especial dado a cada faixa.
"Cadê Rosalina", um samba-de-roda com ares rurais, recebe, além das
vozes tão afinadas quanto agudas das Pastoras, o
acordeom de Waldonys. Trato semelhante em conceito tem “Vem Amor”, samba cadenciado
em que o violino de Nicolas Krassik escreve frases líricas sobre a base de
tamborim e o limpo cavaquinho de Mauro Diniz; bem como o samba romântico
"Dizem Que o Amor", toda na voz delicada de Marisa e cujo
arranjo valoriza as cordas do cavaquinho, do violão e do cello de Jacquinho.
Por falar em voz feminina, é a da fã e parceira Teresa Cristina que aparece em
“Amém” para dividir os microfones com o ídolo. Um samba recente, mas com cara
de clássico das antigas.
Galanteador, malandro da velha estirpe e cheio de histórias,
Argemiro transpõe para seus sambas embates amorosos como o de ‘Nuvem que Passou”.
"Essa saiu de repente, inteira por causa de uma mulher que não deu certo.
Nós nos encontramos, ela veio com saudade, mas eu não quis dar o braço a
torcer", resume. Outra nesta linha é a divertida (mas não menos melodiosa) “Saia da Casa dos Outros”, na qual Argemiro lembra outra companheira
que era frequentadora assídua da vizinha, em frente a uma vila em que ele
morava em Oswaldo Cruz.
O próprio Argemiro comanda o pandeiro – e apenas mais o
cavaquinho – em "Lamento de um Portelense", quase uma vinheta, que
antecede outra das joias do álbum: "Em uma Noite de Verão". Samba-canção valseado, com harmonia complexa e engenhosa e de letra de alta
expressividade e lirismo. “Até o brilho das estrelas/ Se fez presente aos olhos
meus/ Como foi maravilhoso vê-las/ Que bom seria se não fosse o adeus”. É ou
não é de dar inveja em muito compositor/letrista com bastantes mais condições na
vida?
E o que dizer da maestria de "Vou-me Embora pra Bem
Longe"? Esta é tão melodiosa e especial, que rendeu não uma faixa, mas
duas no disco. A primeira, na voz de Moreno Veloso, com breve participação do
seu autor. A segunda, num eletro-samba remixado por Marcelo D2 que, esta sim,
traz o vocal inconfundível de Seu Argemiro. A letra? Essa maravilha aqui: “Vou
embora para bem longe/ Não posso mais ficar/ Você não me corresponde/ E os meus
anseios não podem esperar”. Note-se o domínio do fraseado e do bom uso dos
recursos linguísticos (mesmo que isso se dê de forma totalmente inata): “Amar,
como eu amei/ Até pensei que fosse minha um dia/ Cantar, também cantei/
Extravasei a minha alegria/ Mas tudo não passou de fantasia”. Uma estrutura literária
própria dos grandes poetas.
A notoriedade que Argemiro recebeu, enfim, ainda em vida,
infelizmente durou pouco. Em 2003, ao lado de Teresa Cristina, Jair do
Cavaquinho e Grupo Semente, apresentou-se no Centro Cultural Carioca, na Praça
Tiradentes, no Rio de Janeiro. Pouco depois, vítima de uma parada cardíaca, viria
a falecer, aos 81 anos, meses depois de lançar seu único disco solo. Quase não deu tempo de registrar essa preciosidade da música brasileira.
Ah, mas Seu Argemiro sempre tinha mais uma história! E esta
aqui envolveu Vinícius de Moraes. Depois do sucesso de “A Chuva Cai”, Paulinho
da Viola levou Argemiro num bar onde estavam Vinicius e Chico Buarque para apresentar-lhes o "novo compositor". Provocador, Vinícius, informado da capacidade de Argemiro fazer samba de partido-alto, aquele inventado na hora, olhou para ele e falou. “Faz música, mesmo? Então faz uma sobre essa garrafa aí
na mesa”. Argemiro fechou o semblante e respondeu que não ia escrever sobre a
garrafa, pois não estava sentido nada por ela. Ficou um climão, mas Argemiro foi
para casa com aquilo na cabeça. Na semana seguinte, pediu para Paulinho levá-lo
novamente àquele bar. Ao chegar, retirou a caixa de fósforo do bolso e batucou
para a seleta plateia em que estavam novamente Vinicius e Chico o samba que havia composto naquela semana. Era “Minha Inspiração”, que fecha este disco em um canto a capella de Argemiro:
“Eu direi vocês estão enganados
Não faço sambas fabricados
Compreendendo vão me dar me razão
Somente escrevo que sinto
Falo a verdade não minto
Culpada é a minha inspiração
Já procurei escrever de outro jeito
Nada saía perfeito, porque não estava em mim
Não adianta eu forçar a minha natureza
Se o melhor do samba é a sua pureza
E eu forçando seria meu fim”.
Chico, impressionado, o olhou e disse. “Precisava isso tudo?”
Dona Yvone Lara foi sentar-se no trono que a esperava no céu dos sambistas, mas aqui a gente não deixa a batucada parar. Além de homenagear a Rainha do Samba, vamos ter também vários outros gêneros: o rock dos Ramones, o eletro-pop de Towa Tei, a bossa nova de João Gilberto e a soul de Gil Scott-Heron. Mas tem mais também! Para saber, só escutando o programa hoje, às 21h, na Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues.
Que coisa louca essa vida: há exatamente um ano atrás, Porto
Alegre, assim como maior parte do Rio Grande do Sul, estava debaixo de uma
chuva torrencial, que não parava há dias. Vários bairros da capital, dentre
eles, parte do Centro, inundados ou sem luz. Eis que, contrariando qualquer
trauma, que nós gaúchos ainda estamos aprendendo a superar, o tempo se mostra
há mais de uma semana ameno, ensolarado, solar, outonal, agradável. E melhor: sem um
pingo d'água sequer.
Cenário perfeito para um evento de rua - algo inimaginável
naquele começo de maio de 2024. Convidado como um dos autores do BPE + Cultura,
promovido todo primeiro sábado do mês pela Biblioteca Pública do RS na própria Rua Riachuelo, em pleno Centro Histórico, tive o
privilégio de autografar alguns dos meus livros “Chapa Quente”, “Anarquia na Passarela” e a antologia “Lar”, lá de 2014. Ainda, rever amigos e, claro,
curtir o clima desse sábado iluminado de Porto Alegre.
Na companhia amorosamente inseparável de Leocádia e da
simpatia canina de Bolota, foi possível aproveitar comes, cerveja artesanal, intervenções literárias, contação de histórias, oficinas e os shows, como o de samba do competente Quinteto Benguelê. Cheios de simpatia e com uma
cantora carismática e talentosa, o grupo mandou ver em vários clássicos autores
do samba, como Elis Regina/Baden Powell (“Vou Deitar E Rolar”), Cartola
("Tive Sim"), Dona Yvone Lara ("Sonho Meu") e Nelson Cavaquinho ("Palhaço"). Teve também uma emocionante apresentação do
grupo teatral Dança do Leão e do Dragon, que trouxe a apresentação de dança O
Despertar da Fortuna baseada nas tradições chinesas. O impactante vídeo da
performance sinuosa e misteriosa do dragão ao som dos tambores típicos não
deixa mentir.
Enfim, um presente a nós e a todos os porto-alegrenses: a
ocasião e a de poder aproveitá-la numa tarde de sol abençoada. Confiram um pouco de como foi:
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Dia perfeito para feira na rua
Uma visão geral do começo da tarde no evento promovido pela Biblioteca Pública do RS
Com os meus livros e com Bolota aguardando os autógrafos
Autografando um "Anarquia"
Batendo um papo com o amigo Otávio Silva, que foi me prestigiar
Com a escritora e parceira de autógrafos Maiza Lemos
Contação de histórias rolando com a criançada
Um trechinho do Quinteto Benguelê
tocando Cartola
Com a diretora da BPE, Ana Maria de Souza, e Rafael Correia, curador do evento
Nossa parceira de feira
Nós três nesta tarde em que o sol sorriu pra Porto Alegre