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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

The Glove - "Blue Sunshine" (1983)



"Foi um ataque real sobre os sentidos, quando estávamos fazendo o álbum.
Estávamos praticamente saindo do estúdio às seis  da manhã... assistindo todos aqueles filmes mentais e em seguida indo dormir e tendo sonhos realmente dementes...
Deus, nós devemos ter visto uns 600 filmes naquela época.
Devem ter sido todas aquelas pós-imagens que surgiram nas canções."
Robert  Smith

Numa época em que tinha grandes dificuldades financeiras para comprar LP's e, no mais das vezes, o máximo que conseguia era pagar para gravar em K7 muitas coisas que gostava, com grande esforço consegui adquirir o "Blue Sunshine" do The Glove. Um exemplar bonito, uma edição japonesa bem legal que, não precisaria nem dizer mas passou a ser o xodó dos meus vinis. Mas não tinha esse carinho todo apenas por ter sido caro, ser importado, ou por ter sido suado; o disco era muito bom mesmo!
Em recesso com suas respectivas bandas, Robert Smith do  The Cure e Steven Severin dos Banshees da cantora Siouxsie Sioux, resolveram dar um tempo com seus times titulares e juntaram-se num projeto paralelo para criar o The Glove, banda que contava ainda com a bailarina e performer Jeanette Landray nos vocais, e com o baterista Andy Anderson que futuramente viria a tocar no Cure também, além de músicos de cordas convidados. A brincadeira durou apenas um disco mas, talvez pela liberdade de poderem atuar sem o peso dos nomes consagrados de seus grupos, produziram um trabalho diferenciado em relação aos próprios produtos originais, sem abandonar contudo o clima sombrio e soturno característico de ambas as bandas.
“Blue Sunshine” é uma viagem etílica alucinógena demente por um mundo fantástico de cidades coloridas, personagens absurdos, crimes brutais, perversões e sonhos. Regados a drogas e álcool, a dupla mergulhada em filmes B, terror trash, quadrinhos e ficção científica produziu uma série de atmosferas sonoras repletas de imagens e cores fascinantes, amarradas quase que continuamente por sons de trechos de filmes que ficam ao fundo ligando uma faixa à outra.
O Homem-Cassino, o Homem-Guarda-Chuva,  são heróis e vilões improváveis no mundo miniatura da adorável “Looking-Glass Girl”, uma canção leve pontuada por uma linha de cordas apaixonante. “Sex-Eye-Make-Up” traz um clima pesado, tenso, misterioso, com uma atmosfera sonora densa, uma narração sombria de Landry ao vocal, e solos arrasadores e desconcertantes de Robert Smith com uma guitarra rascante, destorcidísima e ruidosa. Em “Like na Animal”, a primeira do disco, quem se destaca, por sua vez, é Steve Severin com uma linha de baixo precisa, contínua e uniforme deslizando sobre a música como se estivesse solando o tempo inteiro.
Robert Smith: "Não me lmebro muito bem do que rolou.

Estávamos muito bêbados o tempo inteiro."
Robert Smith canta em apenas duas faixas, “Mr. Alphabet Says”, canção que começa com um piano numa linha quase circense e que surpreendentemente desemboca numa bateria tribal acompanhada por uma condução de um violoncelo choroso e tristonho; e também na ótima “Perfect Murder”, uma canção pop graciosa com uma base de teclado bem oriental e um vocal descontraído contrastando com o tema sangrento. O vocalista do Cure classificava Jeanette Landray como uma cantora apenas razoável mas em “Orgy”, uma das melhores do disco, provavelmente até ele deva admitir que ela teve sua melhor interpretação, passeando no limite entre o sensual e o mórbido. “Orgy” com sua base indiana programada, hipnótica e repetitiva, sobre uma bateria tribal retumbante, é intensa, é brutal, exala sexo e violência. Uma naja hipnótica e mortal.
O disco tem duas instrumentais, “A Blues in a Drag”, uma elegia melancólica com o teclado dobrado e ecoado; e a derradeira do álbum, a excepcional “Relax”, uma viagem psicodélica alucinante cheia de efeitos, sintetizadores e samples de vozes em japonês desfilando sobre uma base de guitarra à espanhola e uma linha de teclado característica de filmes de ficção científica, numa trip que mais se aproxima, na verdade, de uma espécie de pesadelo sonoro.
 Em parte pouco conhecido, em parte subestimado, “Blue Sunshine” do Glove, é, no entanto, um dos grandes discos dos anos 80 e, particularmente, um dos melhores que conheço num âmbito mais geral.
Não tenho mais o vinil japonês que mencionei no início, o meu é o CD simplezinho, que até tem três faixas extra, mas e só. Soube que há algum tempo atrás saiu uma super-ediçao de luxo com um CD extra com as versões demo cantadas por Robert Smith. Talvez adquira uma hora dessas. De qualquer forma, o meu, mesmo sendo só o basiquinho continua sendo um dos maiores xodós da discoteca. Daqueles que se tem respeito, sabe? Daqueles que não se ouve sempre. Que, se for para ouvir sem dar atenção, melhor pegar outra coisa. Aqueles dos quais não se desperdiça uma audição em vão. E quando se pega para ouvir é aquela coisa superior: "Vou ouvir o 'Blue Sunshine'".

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FAIXAS:
01 Like An Animal
02 Looking Glass Girl
03 Sexy-Eye-Make-Up
04 Mr. Alphabet Says
05 A Blues In Drag
06 Punish Me With Kisses
07 This Green City
08 Orgy
09 Perfect Murder
10 Relax

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Ouça:
The Glove Blue Sunshine




Cly Reis

sábado, 22 de agosto de 2026

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial Clyblog 18 anos - The Cure - "Wish" (1992)

 



“Wish”, A Prova Final de Quem Não Precisava Provar Mais Nada Pra Ninguém




“...eu amo The Cure. 
Não parece porque todo fã do The Cure 
se parece com o Robert Smith”
Noel Galagher, do Oasis





Se tem uma coisa que me estressa bastante é ter que esperar. Esperar em fila de mercado, nem se fala. Por isso, costumo sempre andar com meu telefone musical. Sim, aquele cachorro que não vai te abandonar quando você mais precisa. E eu só o uso para isso: ouvir música.
Outro dia eu estava no mercado, com meu inseparável amigo telefone. Daí, no decorrer da música, eu entrei no modo máximo do transe, como se tivesse baixado uma entidade sobrenatural em mim. Quando eu voltei do transe, praticamente desorientado, me dei conta de que uma garota que trabalha nesse mercado estava com os olhos fixos em mim, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Foram dois flagras: ela comigo, e eu com ela. E é justamente disso que vou falar por aqui: que música eu estava ouvindo? De onde ela veio? Calma! Já vou falar. 
Ah! O que falei não é uma “estória”, mas uma “história”, ok?
Rolou mesmo!
Quem gosta de música sabe que, por mais que uma banda ou artista solo seja grande e longeva(o) ele pertence a um tempo, uma época. A banda The Cure é assim. Pensando em anos 80, não tem como pensar em música pop ou rock sem mencionar essa banda. Sobretudo na Inglaterra. Mas a grande questão é que se trata de uma banda que está em atividade até hoje, ainda bem. Mas, talvez pelo fato do rock ter tido um ponto de inflexão fortíssimo no  início dos anos 90 com a chegada do grunge, e tudo o que ele influenciou, esse disco do The Cure seja tão pouco citado quando o assunto é a banda, e muito menos quando o assunto é anos 90. Estou falando do álbum “Wish”. Na minha opinião, um dos melhores álbuns da banda, infelizmente, bastante ofuscado.
A banda é muito associada ao Gótico, sobretudo pelo visual do Robert Smith, como brincou Noel Gallagher (“...eu amo The Cure. Não parece porque todo fã do The Cure se parece com o Robert Smith). Claro que tem razões para isso. A banda lançou uma trilogia consagrada (trilogia sombria: "Seventeen Seconds" (1980), "Faith" (1981) e "Pornography" (1982),
fora "Disintegration"
 (1989) que segue essa linha e é considerado por muita gente o melhor trabalho da banda. Acontece que até aquele momento, o Robert Smith, principal compositor da banda, já havia provado que sua qualidade e capacidade artística era bem mais ampla e diversificada.
Não à toa, o álbum "The Head on The Door" (1985) também é considerado um dos melhores álbuns da banda, com uma diversificação musical bastante evidente. Aí, em 1992, quando a banda já completara 15 anos de vida, “Wish” se apresentou como um trabalho que mostra quais pedras compõem as possíveis imagens do caleidoscópio musical The Cure.
Sendo honesto, conheci parte do repertório do álbum pelo “Show”, um ótimo registro ao vivo, gravado áudio, em 1993 (tenho minha fita VHS até hoje, toda esfolada de tanto que eu assisti e emprestei. Trabalho Ótimo!). Tanto que demorei assimilar as algumas desse álbum na versão de estúdio. Mas quando ouvi o trabalho todo, amei o resultado.
Uma das coisas que me fascinam nesse álbum é a sua mixagem. Ele tem o som ótimo. Até hoje acho um álbum super agradável de ouvir, sem soar datado ou cacofônico. Outra coisa bacana é que o repertório do álbum que fica muito bom ao vivo também.
Mais do que falar do álbum, faixa por faixa, acho importante destacar justamente isso: a banda The Cure tem sua identidade musical. Uma delas é que a banda que teve a sorte de ter um vocalista com uma voz tão marcante, e que continua ótima, apesar do corpo sempre demonstrar algum desgaste ao longo do tempo. A voz do Robert continua viva e juvenil, marca registrada do cantor. Mas ela não é uma banda gótica, não é uma banda post punk, não é uma banda new-wave, não é uma banda alternativa, nem mais o que for. The Cure é uma banda que, como poucas, sabe misturar essas características, e até outras (Jazz, Música Cubana) e ser a banda que é. Nesse sentido, “ Wish” é um trabalho que mostra o que é essencial para entender musicalmente a banda. Uma coisa bacana do disco é a distribuição dos vários
estados dentro álbum. É como se fossem “quantas” (pacotes de energia), bem distribuídas ao
longo do álbum. Eu diria que esses blocos seriam “Apart”, “Trust”, “A Letter To Elise” e “To Wish Impossible Things”; “Open”, “Cut”, “End” e “Front The Edge Of The Deep Green Sea”; “High”, “Wendy Time”; “Doing The Unstuck” e “Friday I’m Love”, quebrados, claro. Como hoje é bem mais fácil fazer uma playlist, talvez algumas pessoas até prefiram ouvir o álbum assim, por que
não?
Beleza então, vamos de bloco 2. “Open”, uma canção que parece ter nascida para abrir shows da banda. Na versão ao vivo, ela tem uma introdução linda chamada “Tape” que abre caminho para a versão de estúdio. Apesar de ser uma canção atípica para as características da banda, ela soa com um grito de aviso: Chegamos! Estamos aqui! Somos a cura! Baixo pra cima, marcado, o meio, aquele que conduz a canção, uma das características marcantes da banda. “Cut”; eu simplesmente amo essa canção. Sem gracinha, direta, com andamento rápido e bastante pegada. Simplesmente a cocaína do álbum. Bem, se a cocaína não te bateu bem, que tal um LSD? Sim, pois “Front The Edge Of The Deep Green Sea” é uma viagem de entorpecedora. Como uma areia movediça, ela vai te neutralizando até te tomar completamente. Os segundos finais, com aquelas guitarras prolongando as notas, levando o solo ao ecstasy são arrebatadores. Me arrisco dizer que ela (ou o álbum), de alguma forma, está em “Mellon Collie and the Infinite Sadness” do 
Smashing Pumpkins. Depois que eu ouço essa canção, fico leve e pronto para outra. Se ela não for um LSD, ela é a maconha cultivada em laboratório, como no file “Beleza Americana”. Bem, falta fechar esse bloco, né?: “End”. Para mim, uma das melhores, das mais tensas e afetadas canções do Cure. É o Cure no modo máximo. Para mim, esse é bloco mais post punk do álbum, e essa canção é uma dos melhores encerramentos de álbum que já ouvi.
Convidei para a minha casa alguém nunca ouviu The Cure. Ou talvez tenha ouvido e nem sabe. Bloco 4, a carta na manga. Jogando Sueca, puxei a carta 7: “Doing The Unstuck”. Como eu amo a versão ao vivo (amo de paixão), demorei assimilar a versão de estúdio. Mas, sendo honesto, tirando o andamento, a briga fica pau a pau. Claro que a versão de estúdio é mais bem acabada, evidentemente. Além de ser uma super feliz, é um tapa na nossa cara, pois nos desafia a acreditar na vida, ter esperança, poder de reação e nunca se deixar abater pelas circunstâncias. Parece um dialogo entre o “Lippy” (o leão) e o “hardy” (hiena), no clássico desenho da 
Hanna-Barbera. Claro que deu leão na cabeça! 
E se o jogo ainda não está ganho, coloque o às na mesa. Sim! “Friday I’m Love” é uma canção imbatível. Até meu primo pagodeiro gosta dessa canção. Não pode faltar em nenhuma festa que se preze, e todos que a ouvem costumam se apaixonar perdidamente. Brincadeiras a parte, é uma canção perfeita. Melodia, harmonia, arranjo e canto. Tudo funciona nessa canção. Pensei que o Robert Smith não conseguiria fazer outra canção a altura de “Just Like Heaven”. Ok, Robert Smith. Você ganhou o jogo. Estava com o às na mão o tempo todo.


the cure - "friday i'm in love


Você acordou cedo no feriado, por incrível que pareça. Você não está tão feliz, pois sabe que vai ter que voltar a rotina no dia seguinte, mas também não está triste já que está em casa. O bloco 3 está na mesa. Feliz por poder mastigar o seu sanduíche sem ter a sensação de estar atrasada(o), “High” te deixa super bem, relaxada(o) e feliz ao ponto de você deixar algum pedaço de sanduíche para o cachorro, por mais delicioso que ele esteja. Depois rola “Wendy Time”. Fofa até o osso, ela pode te deixar com uma sensação tão boa que é capaz de você deixar de sentar no sofá e pensar na vida, só para cumprir a promessa de levar seu cachorrinho para passear durante o dia, sem ser final de semana ou domingo.
Mas, claro, deixei a parte triste para o final. Tem alguma coisa de alegre em estar numa fila de mercado em pleno domingo? Então, se é para sofrer, bora sofrer com dignidade. Uma das características mais aclamadas pelos fãs e críticos. 
Cadê o bloco 1? Bora de melancolia e tristeza. “Trust”. Só existe uma combinação perfeita para essa canção: o silêncio. Imersiva, hipnótica. Ela é super ‘Desintegration” e simplesmente apaixonante. Saindo dela, a coisa fica ainda mais barra pesada. “Trust” é tristíssima. Daquelas canções que nem é bom ouvir quando se está com uma sensação de ausência ou perda de alguém. É uma das canções em que o Robert Smith dá uma aula sobre como comover usando uma canção. E para finalizar, “A Letter To Elise”. Não tão triste como as outras desse bloco, mas igualmente down, porém como uma pitada de doçura como se uma cicatriz ainda doesse mas estivesse no caminho de ser curada. Ela me liberta de qualquer lugar insuportável, inclusive uma fila de mercado. Esse é o bloco mais “Disintegration”. Certamente com canções amadas pelos fãs. Bem, talvez olhando por essa perspectiva dê para ficar mais claro as características desse trabalho que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos da banda. Certamente está no meu Top 5, sem sombra de dúvidas. Se eu tivesse que apresentar a banda The Cure para alguém, bateria um bom papo com a pessoa, e pediria para ela ouvir esse trabalho com atenção, pois ele é bem gravado, o que ajuda a assimilar melhor as canções, e porque é um mapa para entender as características mais marcantes e fantásticas da banda: doçura, melancolia, tristeza e alegria (e um pouco mais, claro). The Cure tem todos esses anticorpos para te curar de qualquer mal sintoma. É uma vacina em forma de boa música. The Cure!



por  J A I R O   A L LO N E




🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵

f a i x a s:
1. open
2. high
3. apart
4. from the edge of the deep green sea
5. wendy time
6. doing the unstuck
7. friday i'm in love
8. trust
9. a letter to elise
10. cut
11. to wish impossible things
12, end


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

ouça:
The Cure - Wish (1992):





JAIRO ALLONE
é um morador da cidade do Rio de Janeiro. E como o próprio nome sugere, é
uma pessoa que, “de escolha própria, escolheu a solidão”. Mestre em nada e doutor em coisa
nenhuma, teve que se graduar em Engenharia Mecânica para trabalhar na indústria, muito
distante do sonho de trabalhar com música, para desespero da mãe, quando ainda era
adolescente. Foi guitarrista, letrista e colaborador de blog. Nunca deixou de ser um
apaixonado por música (a mais reativa das artes) e toda a contribuição que a arte dá para
tentar tornar o mundo mais humano, ou pelo menos mais suportável. Vive num universo 
ool

quinta-feira, 1 de março de 2018

The Cure, eu te amo mas não te quero mais

Apesar de tudo, você ainda tem meu coração.
Eu já amava o The Cure antes mesmo de conhecer. Sim! Pode parecer exagero mas é a mais pura verdade. Por ocasião  da vinda da banda em 1987, uma rádio de Porto Alegre fez um especial de uma hora com alguns dos melhores momentos da carreira do grupo até então. Eu, um garoto de doze anos recém começando a escutar coisas interessantes, estimulado pela então recente explosão do rock nacional, fui ouvir o programa interessado em saber quem eram aqueles tão badalados ingleses que em alguns dias desembarcariam na minha cidade. E eis que o programa começa e eu percebo que não  somente já conhecia, como sempre gostara daquelas músicas mesmo sem saber de quem eram. "Inbetween Days" era a abertura do programa Clip Clip, "Close To Me" era aquela do clipe do armário, "Primary" era vinheta de uma rádio, "The Walk" tocava num comercial, "Boys Don't Cry" tocava à insistência por todo o canto, e outras que eu não conhecia, mais soturnas e sombrias, caíram  imediatamente nas minhas graças. Eram eles! Era o que eu queria ouvir e tudo estava reunido em uma só  banda. Estava estabelecida uma relação de amor. 
Não fui no show porque os tempos eram outros e se hoje em dia a meninada passa dias acampada numa fila em frente a um estádio para ver seus ídolos, não só com o consentimento dos pais como muitas vezes com acompanhados deles, naquela época, eu um fedelho, mesmo que me fosse permitido ir, meus pais não pagariam meu ingresso ainda mais pra ver uns caras mórbidos e esquisitos como aqueles. Mas passei então a partir dali a obter tudo o que pudesse daquela banda.
A coletânea "Standing On A Beach"
que me orientou quanto ao que
procurar e conhecer da banda.
Comprei a coletânea  "Standing on a Beach" e conhecendo a partir dele a ordem cronológica da obra da banda fui atrás de tudo. O exótico "The Top", o acessível e consagrado "The Head On The Door" e o ao vivo "Concert", que tiveram distribuição no Brasil, a muito custo, economizando mesada, consegui comprar. Os importados, no entanto, fora da minha realidade, eu dava um jeito de conseguir numa loja que gravava os álbuns por um valor bem mais em conta do que fosse comprá-los. Aí  que conheci o "Three Imaginary Boys", que hoje vejo como irregular mas que na época lembro de deixar rolando de madrugada até que eu pegasse no sono; os álbuns  gêmeos "Seventeen Seconds"e "Faith", ambos direcionadores da identidade que a banda assumiria e viria a lhe ser distintiva; o tecno-pop mal-resolvido porém de bons resultados comerciais de "Japanese Whyspers" e mais um monte de bootlegs, que na época era ao que se atribuía o termo "pirata". Com muito esforço consegui comprar o clássico "Pornography", este sim, disco definidor de característica e linguagem, e o subestimado e pouco valorizado "Blue Sunshine" do projeto de Robert Smith com Steven Severin do Siouxsie and The Banshees, disco de importância crucial na consolidação do pop que o Cure apresentaria a partir dali.

Naquele ano de 87 a banda em seu melhor momento e com sua melhor formação, que se tornaria a mais clássica e idolatrada, lançaria "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me", um duplo muito bem acabado e repleto de hits mas que, como conjunto, poderia ter sido melhor como um álbum simples mais enxuto. 
Dois anos se passaram e mesmo com todo o sucesso dos últimos trabalhos, boatos sobre problemas internos e um possível fim da banda não paravam de rolar. E foi em meio a esse clima e a essa boataria que surgiu "Disintegration", um álbum denso, pesado mas que mesclava com maestria essa melancolia com um pop de alta qualidade resultando num improvável sucesso que fez deste o álbum  mais vendido e um dos mais cultuados da banda. Meio que na carona veio a coletânea de remixes "Mixed Up" que, se não se justificava plenamente, trazia ao menos algumas boas releituras e a então inédita e interessante "Never Enough". Mais fofocas, mais diz-que-diz, e novamente do meio do turbilhão outro grande disco: "Wish", mais solto e leve surgia como um raio luminoso na carreira do Cure, emplacando novamente um monte de sucessos e trazendo a reboque dois ótimos registros ao vivo, os discos "Show" e "Paris".
Robert Smith , no show do Rio em 2013
Mas os boatos não eram somente rumores e os problemas existiam de verdade: Laurence Tolhurst, um dos fundadores e amigo de longa data de Robert Smith, com problemas de alcoolismo era mandado embora, outros integrantes com outros interesses e projetos davam no pé, o selo pelo qual o Cure gravara desde o início da carreira, a Fiction, era vendido e Dave Allen, produtor de todos os grandes trabalhos do grupo não estava mais nos planos. Ninguém fica indiferente a tudo isso e quando o Cure veio ao Brasil em 1996 para o Hollywood Rock, e quando finalmente consegui realizar meu desejo de vê-los ao vivo, o que se viu foi uma banda confusa, desentrosada e com um repertório novo bastante irregular. É que aquela vinda precedia o lançamento do álbum "Wild Mood Swings" e foi aí que nossa relação começou a estremecer. Desde então a banda pareceu ter perdido o rumo, a identidade, criatividade e limitar-se a tentar imitar a si mesma. O bom mas, para mim, superestimado "Bloodflowers" ainda foi um último suspiro de qualidade e, embora seja colocado ao lado de "Pornography" e "Disintegration" como parte de uma espécie de trilogia das sombras, passa muito longe dos dois e até mesmo de outros momentos mais criativos da banda.
Depois disso, então, tudo só veio a piorar. O Cure virou uma auto-paródia e seus discos seguintes "The Cure" e "4:13 Dream" passaram a ser não somente dispensáveis como irrelevantes. Assim que eu não ouço mais The Cure. Praticamente ignoro tudo depois de "Wish". Tenho o "Bloodflowers" em casa mais por respeito do que por paixão mas de resto, tudo que ouço depois desta época me parece insosso, indiferente ou mais do mesmo. Até o visual, a cabeleira desgrenhada de Robert Smith, hoje parece muito mais uma caricatura do que colabora no seu papel de marca registrada.
É claro, ouço todos os antigos discos com o mesmo fervor e admiração e ainda sou apaixonado por aquela banda que eu conhecia. É como aquele cara que teve que acabar um namoro porque sabia que era necessário, que a namorada não era mais a mesma, que mudara, mas que ao chegar em casa dorme abraçado com o porta-retrato com a foto dela. 
Teaser do show comemorativo de 40 anos no Hyde Park
Nesse 2018 quando o The Cure completa 40 anos de existência, embora respeitada fico com a sensação que a banda nunca recebeu o devido valor e reconhecimento por sua obra e trajetória. O Cure não inventou a roda, não descobriu o fogo, mas criou uma identidade musical tal que é referência desde que a banda se firmou, sabendo expandir seu leque e suas possibilidades de modo a não ficar restrito a determinado tipo de público, sem para isso abrir mão de suas características. Sua música pode não ser originalíssima mas seu som e tão único que eu costumo dizer que tem coisas que só o Cure faz pr'a gente. Mas não tem feito. E faz tempo.
A banda comemorará suas quatro décadas de atividade com um show monumental no Hyde Park em Londres no mês de julho, que tem tudo para ser épico e no qual certamente tocará todos seus grandes sucessos e as preferidas dos fãs, que é o que atualmente o que vale a pena no Cure: seu passado. Tive a oportunidade de compensar o fraco show do Hollywood Rock com uma apresentação de mais de três horas, aqui no Rio, em 2013, que foi mais ou menos nessa linha: apresentaram o que tinham de melhor. Apesar da fraca e pouco carismática formação atual, lavaram a alma e com certeza levarei aquele dia como um dos grandes momentos da minha vida. Mas a essas alturas tenho a impressão de que isso é tudo que teremos deles: grandes recapitulações e rememoramentos. E é aí que eu fico pensando que se é para ficar gravando discos como os que o Cure vem apresentando e insistindo em musiquetas sem a menor inspiração, seria melhor Robert Smith cumprir aquilo que tantas vezes ameaçou e dar um ponto final nisso tudo. Não pensem que falo isso sem alguma dor. Que recomendo isso com satisfação. Não! The Cure é minha banda do coração. Mas se é pra fazer música como quem trabalha num cartório, prefiro apenas ficar com os nossos bons momentos: descobrir aquela banda num programa de rádio, dormir ao som do "Three Imaginary Boys", comprar o "Pornography", presenciar aquele showzaço de 2013... Sim, eu te amo, The Cure, mas tenho que ser realista e admitir para mim mesmo que, se for assim como está, eu não te quero mais.



Cly Reis
(texto publicado originalmente no blog Zine Musical)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

The Cure- "Pornography" (1982)

"As críticas foram muito divididas,
não ia muita gente aos shows,
mas eu sentia que finalmente
havíamos feito um grande disco."
Robert Smith


Durante muito tempo este foi o disco da minha vida. Hoje em dia tenho que admitir que não é mais "O" disco da minha vida, conheci muitos outros, descobri coisas interessantíssimas de alta qualidade, alto valor técnico, histórico, referencial, etc., mas posso afirmar tranquilamente que ainda é "UM DOS" grandes álbuns da minha discoteca. Naquela época, metade dos anos 80 quando descobri o The Cure, auge da minha fase darkzinha, se tinha um disco traduzia precisamente todo aquele clima e atmosfera era certamente o "Pornography" do The Cure. Um disco denso, pesado, de letras mórbidas, sofridas, sombrias e negativas, muito centralizado nos trabalhos de bateria e com arranjos de guitarra marcantes e bem desenhados.
A pessimista "One Hundred Years" ("It doesn't matter if we all die") que abre o disco exemplifica bem isso: uma programação de bateria contínua muito bem desenvolvida com uma guitarra estridente e angustiante como que solando o tempo todo e teclados preenchendo os espaços sufocantemente. "One Hundred Yeras" parece sangrar.
Com uma batida tribal lenta e cansada, a bizarra, surreal e inquietante "Siamese Twins" traz outro trabalho de guitarra notável de Robert Smith em uma interpretação dolorida e agonizante.
'The Figurehead", outra das grandes do álbum tem por sua vez destaque para o baixo de Simon Gallup, numa condução firme, com uma melodia dura, acompanhando uma batida de tons militares de Tolhurst, numa canção que aborda o tema das drogas, tão presente no grupo naquele momento, e os efeitos de estar preso a elas ("I will never be clean again").
"Strange Day", talvez a mais leve do disco também traz outra performance legal de Gallup no baixo, com uma base que lembra muito a de "Charlotte Sometimes"; "A Short Term Effect" vem com uma 'confusão' de guitarras zunindo, dando rastantes, cortando o ar, quase sufocadas pelo som da beteria que parece querer estourar; a gélida "Cold" depois de iniciar com um violoncelo aterrador, explodir numa batida alta e poderosa, se transforma numa suplicante e sombria canção de amor ("Your name like ice into my heart"); e "Hanging Garden", o single do álbum, mostra o perfeito conjunto na proposta do projeto, desde a programação de bateria em rolos contínuos de Tolhurst, ao baixo seguro e preciso de Gallup, e na guitarra aguda e perturbadora de Robert Smith, completada por sua interpretação amedrontadora.
O Cure que sempre deu bons desfechos para seus discos, neste não fez diferente e, se não trata-se de uma grande canção, esta que é o título do álbum, "Pornography", sem dúvida alguma, no mínimo faz com que fiquemos com as sensações de inquietude e angústia vivas mesmo depois que a música barulhenta e claustrofóbica, cheia de ruídos e de diálogos de filmes incompletos e indecifráveis, é interrompida quase que abrupatamente terminando a audição. De deixar sem fôlego.
Certamente até hoje, um dos grandes discos da minha vida.

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FAIXAS:
  1. One Hundred Years
  2. A Short Term Effect
  3. The Hanging Garden
  4. Siamese Twins
  5. The Figurehead
  6. A Strange Day
  7. Cold
  8. Pornography
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Ouça:
The Cure Pornography



Cly Reis

quinta-feira, 4 de abril de 2013

The Cure - "The Head on the Door" (1985)



The Cure - The Head on the Door (clyblog)
"Acho que muitos fãs gostam desse disco porque ele está balanceado.
Tem o nosso lado mais soturno como em 'The Blood',
mas há momentos muito relaxados como em 'In Between Days' e 'Close to Me' ."
Robert Smith
“The Head on the Door” , de 1985, é certamente o disco mais pop do The Cure. Mas isso não significa que a banda tenha meramente se entregado ao mercado musical fazendo o que a 'indústria' e o grande público desejavam. O álbum é resultado de toda uma bagagem que o Cure foi agregando ao longo de sua trajetória desde o punkzinho dos dois primeiros discos, a atmosfera dark da fase seguinte, o synth-pop da época que o Cure foi apenas uma dupla, chegando à metade dos anos oitenta tão bem constituída a ponto de dar subsídio para que a banda conseguisse produzir um trabalho extremamente variado sem abrir mão de sua identidade sonora e de suas convicções, com qualidade e personalidade.

“In Between Days “ que abre o disco dá a mostra do quão acessível é esse trabalho da banda, num dos maiores hits de sua carreira. Uma base com um violão marcante, um teclado fluído e inconfundível e um refrão daqueles de não tirar da cabeça. A segue “Kyoto Song”, uma belíssima e perturbadora balada de característica sonora bem à japonesa; uma levada agressiva de violões à espanhola dão início e pautam toda a forte e intensa “The Blood” que vem na sequeência, cujos versos "I'm paralized by the blood of Christ" são resultado de alucinações causadas por um vinho português; vem em seguida “Six Different Ways”, psicodélica, interessante, mas nada mais que apenas graciosa; mas “Push”, a seguinte, com uma introdução longa, típica do Cure, apresentando primeiro toda a parte sonora antes de entrar com a letra, tem um dos melhores trabalhos de guitarra de Robert Smith, nesta que é para mim uma das grandes músicas do álbum.

“The Baby Screams”, que durante algum tempo até mesmo abriu shows da banda, é uma interessante mistura de guitarras com recursos eletrônicos com Robert Smith verdadeiramente gritando, numa interpretação muito legal e interessante; vem na sequência outro super-hit, “Close to Me” com sua batida seca, vocal quase sussurado e tecladinho adorável. Não precisaria nem dizer que é uma das melhores da banda até hoje. O acerto pela simplicidade. “A Night like This’ é outra jóia do disco. Música belíssima, bem composta, tristinha (como de costume) mas de uma leveza impressionante.  Tem um solo de sax lindíssimo que, se o ouvinte não estiver derretido até ali, cai de vez depois dele. Gosto muito de “Screw”, esquisitona, quebradiça, com destaque especial para o ótimo Simon Gallup e seu baixão distorcido. E então o disco fecha magistralmente com a ‘climosa’ “Sinking”, sombria, soturna, depressiva, para, se havia ficado alguma dúvida, ter-se certeza de que tudo o que ouviu-se até então era realmente o bom e velho The Cure.

Um trabalho perfeito de síntese musical dos anos 80. A mistura exata entre o clima de obscurantismo do início da década com a fórmula pop que consegue atirngir o grande público. Com sua melhor formação e auge técnico, o Cure conseguia com um álbum impecável atingir o sucesso comercial, não trair a si próprio, ganhar novos fãs e manter os existentes sem desagradá-los. Nem é meu preferido, até porque sou mais fã dos discos bem ‘góticos’ por assim dizer, como "Disintegration", “Faith”, "Pornography", mas reconheço sua alta qualidade e não estranharia e não tiraria a razão de algum fã se me afirmasse ser este o melhor disco do The Cure.
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FAIXAS:
  1. "In Between Days" – 2:57
  2. "Kyoto Song" – 4:16
  3. "The Blood" – 3:43
  4. "Six Different Ways" – 3:18
  5. "Push" – 4:31
  6. "The Baby Screams" – 3:44
  7. "Close to Me" – 3:23
  8. "A Night Like This" – 4:16
  9. "Screw" – 2:38
  10. "Sinking" – 4:51
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Ouvir:

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

"Nunca é o Bastante: A História do The Cure", de Jeff Apter - Edições Ideal (2015)


"(...) As gravadoras não tem a menor ideia
do que o Cure faz
e do que a banda significa."
Robert Smith



Eu juro que, como fã, queria ter gostado de "Nunca é o Bastante: A História do The Cure" do jornalista australiano Jeff Apter, mas o livro é um trabalho sem alma, sem paixão. Talvez "excessivamente" jornalístico, em muitos momentos, parece um mero relatório de números e datas com a dolorosa finalidade de em algum momento chegar ao final. Embora seja inegável o trabalho, a investigação, parece haver uma certa ausência de envolvimento do autor com o tema o que acho estranho para alguém que se proponha a fazer uma biografia de um artista ou banda. Jeff Apter parece um biógrafo profissional que escreve sobre artistas e não um fã que escreve biografias de bandas que considere que mereçam ter sua história contada.
Não sei, sinceramente o quanto o senhor Apter é ou julga-se fã do The Cure mas a sensação que dá é que ele não é lá muito admirador ou, se é, faz como aquele tipo de comentarista esportivo que, conhecido seu clube do coração, quando comenta sobre ele, a fim de alicerçar credibilidade, põe defeitos ou vê marcações a favor do adversário. Jeff Apter por várias vezes dentro do livro deprecia canções, desvaloriza instrumentistas, subvaloriza feitos e desmensura importância e qualidade de álbuns. Dedica pouca atenção à construção, concepção, idealização dos álbuns e é muito básico na descrição da parte técnica das canções, e quando o faz, a meu ver, o faz tão equivocadamente a ponto do fã perguntar-se, "ele está falando da mesma música que eu estou pensando?". Gasta muita tinta com bebedeiras e números de turnê quando poderia estar concentrando esforços em coisas mais relevantes.
Mas tenho que admitir que, de qualquer forma, o livro cumpre com a sua proposta, de contar a história da banda e não há como negar que o produto envolveu um belo esforço, contatos, pesquisa e pedras pelo caminho. Como méritos do livro devo apontar o fato de dar a real dimensão do problema de Lol Tolhurst com a bebida e explicar definitivamente sua inviabilidade na banda; de revelar os motivos pelos quais "Wild Mood Swings" é um álbum tão ruim e o quão equivocadas foram as decisões em torno dele; revelar, não raramente, inconsistência de declarações de Robert Smith sobre sua obra; confirmar o quanto cada um dos discos da trilogia sagrada do Cure, "Pornography", "Disintegration" e "Bloodflowers" são importantes desde sua concepção, inclusive para o próprio Robert Smith; e mostrar o quão perto o Cure esteve, efetivamente, várias vezes, à beira do fim.
No mais, parabéns pela pesquisa, pelo interesse, pelo esforço mas, infelizmente, não foi o bastante.



Cly Reis

segunda-feira, 16 de julho de 2012

The Smiths Cover / The Cure Cover - Rio Rock and Blues Club - Lapa - Rio de Janeiro (14/07/2012)



Smiths Cover detonando
(de novo)
O evento que se anunciara era tudo o que eu podia querer em matéria de entretenimento na noite carioca, num lugar pra lá de bacana: The Smiths Cover, banda que eu já conhecia, de comprovada competência e The Cure Cover, para mim uma incógnita que guardava, no entanto, boas expectativas, embora com uma ponta de desconfiança por considerar o Cure um grupo um tanto peculiar, com um vocal muito característico e detalhes técnicos muito significativos. Arriscado.
Assim, fui então ao Rio Rock & Blues Club no último sábado mais com a curiosidade de ver o cover do The Cure do que propriamente por rever os Smiths, que teoricamente não teriam nada de novo para apresentar em relação ao que eu havia visto antes.
E, no tocante aos Smiths, era verdade. Não tinham nada de novo. Nenhuma novidade... Mas por incrível que pareça estão cada vez melhores e conseguem fazer com que mesmo depois de tê-los visto várias vezes, o show ainda seja atraente, surpreendente e vibrante. “Handsome Devil” foi matadora; “This Charming Man” espetacular; “There’s a Light tha that Never Goes Out” emocionante; “Barbarism Begins At Home” absolutamente bem executada com o baixista João Ricardo esmerilhando nas quatro cordas; e o guitarrista Eric Marr absolutamente perfeito inclusive nas mais ‘encrespadas’ como “Girl Afraid” e “Still Ill”, sem falar na execução impecável de “How Soon is Now?”. Pensei que não pudessem mais me empolgar, que simplesmente seria mais um showzinho cover mas me enganei. Agradável engano.
O "Robert Smith" genérico do fraco
The Cure Cover
Já para o tal cover do The Cure não posso tecer elogios com o mesmo entusiasmo. Aliás parece que eles não demonstravam entusiasmo. Ah, dirão “mas o The Cure não é uma banda que se possa chamar de animada”. Sei. Não é disso que estou falando. Estou falando de tesão, vibração, presença de palco. E quanto a isso, não se viu nada.
Pra não dizer que não vi nada de bom, o baterista foi o único que se salvou, começando o show, inclusive com a difícil “Hanging Garden”, mantendo regularidade impressionante naquela batida complicada. Já o nosso “Robert Smith” era extremamente fraco. Não exijo que TENHA a voz do seu homenageado, mas um cantor que pretenda fazer cover, na minha opinião, tem que ter alguma semelhança de timbre, tem que tirar algum elemento característico da interpretação do original, ou no mínimo colocar alguma empostação que remeta o ouvinte àquele que pretende imitar. Se não não é cover. É uma banda tocando a música de tal banda e aí tá cheio dessas na noite, dessas que tocam hits dos anos 80 e que certamente vão tocar “Boys Don’t Cry” provavelmente melhor do que eles.
Mas não ter essa identidade vocal não teria sido nada se não fosse o fato de que parecia que não tinha vocal. A voz não saía. Não sei se o cara tava tímido, se o som estava ruim, se ele estava bêbado (volta e meia entornava uma garrafa de vinho que estava ao seu lado no chão) mas o fato é que não cantava. Sem falar na peruca... Não precisava! Ficaria muito mais 'honesto' sem o cabelo espetado de Robert Smith. Ficou mais caricatural ainda.
E a baixista? O que falar da baixista? Nossa!!! Acho que se ela pudesse estar em casa de pantufas ela estaria, mas tenho certeza que ela gostaria de estar em qualquer lugar menos ali. Rigorosamente fria, sem sangue. Não exigia que ela fosse agitada como o baixista do Cure, Simon Gallup, mas a apatia dela se refletia nas suas execuções que ficavam absolutamente mecânicas e automáticas. Só se salvou o batera mesmo que, além da já citada, “Hanging Garden”, mostrou serviço em outras como “A Forest”, “Killing Na Arab”, “10:15 Saturday Night”.
Devo admitir que fui embora antes do final. Não tive paciência para agüentar aquilo ali tão sem alma. Mais uma vez, a noite valeu pelo The Smiths Cover que não deixou nada a desejar. Esses sim, me provaram que, por mais que já tenha assistido várias apresentações deles, sempre vai valer a pena ir vê-los de novo.



Cly Reis

sábado, 27 de setembro de 2008

The Cure- "Disintegration" (1989)


O MAIOR DISCO DO MUNDO



"Disintegration é o maior disco do mundo!"


Tem um episódio do South Park em que a Barbra Streisand vira um monstro (se é que já não é), tipo aqueles de seriados japoneses, começa a destruir tudo e então as crianças da cidade chamam Sydney Pottier para combatê-la. Este se transforma em gigante, usa todas as suas forças e não consegue vencê-la, ao que chamam então Robert Smith, do The Cure, que fica também gigante, como um Ultraman, um Jaspion, e consegue derrotá-la. No final, quando Bob Smith está indo embora, um dos meninos o chama, ele se volta e o garoto diz, "Disintegration é o maior disco do mundo!" e Robert segue e some no horizonte.
Não, Disintegration não é o maior disco do mundo. Mas é bom pra caralho!!! E é com certeza um dos melhores desta banda da qual sou fãzaço.
Costumam colocá-lo numa espécie de 'trilogia das sombras' com o Pornography e o Bloodflowers. Concordo com o Pornography, que acho também um discaço, mas só aceito colocá-los juntamente com o Bloodflowers pelo clima mais deprê dos álbuns, mas não por qualidade, uma vez que o Bloodflowers é muitíssimo inferior.
Disintegration abre com a mágica "Plainsong" com seus tilintares que parecem uma explosão estrelar, segue a adorável e doce "Pictures of You", sempre num clima pesado passa-se por "Closedown", "Lovesong" e pelo sombrio hit "Lullaby", chegando à que considero a melhor música do álbum, a intensa "Fascination Street". Com um fio condutor que é uma linha de baixo violenta e arrasadora, a música ganha efeitos sobrepostos que dão uma atmosfera alucinante e guitarras que parecem quase que como independentes do restante da música estando porém em plena harmonia o tempo todo. É a mais emplogante do disco.
Segue com "Prayers for Rain" que abre com uma guitarra forte e se desenvolve com uma melancolia agressiva, vai à triste e longa "The Same Deep Water as You" com seus efeitos de chuva e chega novamente a outro ponto alto, a faixa-título "Disintegration". Esta um pouco mais "pra cima" , também com uma linha de contrabaixo marcante que orienta toda a canção, na melhor interpretação vocal de Robert Smith no disco. O álbum fecha com "Untitled", que é uma faixa simples, delicada, mas que mantém esse clima de escuridão mas que serve pra fechar bem um disco grandioso. Eu listei assim porque tive este disco primeiro em LP, no CD tem duas faixas extras, "Last Dance" e a ótima "Homesick", que fica melhor ao vivo, no mini-álbum Entreat.
Desde que vi o tal episódio de South Park, sempre que vou à minha prateleira de CD's pegar o Disintegration pra ouvir, penso: "É o maior disco do mundo!"
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FAIXAS:
1. “Plainsong”
2. “Pictures Of You”
3. “Closedown”
4. “Lovesong”
5. “Last Dance”
6. “Lullaby”
7. “Fascination Street”
8. “Prayers For Rain”
9. “The Same Deep Water As You”
10. “Disintegration”
11. “Homesick”
12. “Untitled”

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Ouça:

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Protagonistas coadjuvantes

Michael dando um confere bem de perto no que seu
mestre Stevie Wonder faz em estúdio, nos anos 70
Não é incomum artistas da música que, mesmo sendo astros, têm por hábito participarem de projetos de outros, seja tocando em gravações, shows ou como convidados. George Harrison, por exemplo, muito tocou sua slide guitar em discos dos amigos John Lennon e Ringo Starr. Eric Clapton, igualmente, além da carreira solo e de bandas próprias como Cream e Yardbirds, também emprestou sua guitarra para Beatles, Yoko Ono, Tina Turner, Phil Collins e vários outros. Como eles, diversos: Brian Eno, Robert Wyatt, Flea, Eddie Van Halen ou brasileiros como Herbert Vianna, Gilberto Gil, Frejat e João Donato. Todos comumente contribuem com seus instrumentos e/ou voz na música que não somente a deles próprios.

Há também aqueles que dificilmente se supõe que fariam algo fora de seus trabalhos pelos quais são mais conhecidos. Mas vasculhando com atenção as fichas técnicas dos discos, acha-se. Vez ou outra se encontra um artista que geralmente é visto apenas como protagonista atuando, deliberadamente, como um coadjuvante. E não estamos nos referindo àqueles principiantes que, posteriormente, tornar-se-iam ilustres, caso de Buddy Guy em “Folk Singer”, de Muddy Waters, de 1959, na primeira gravação do jovem Guy, então com 18 anos, com o veterano bluesman, ou Jimi Hendrix nas gravações de 1964 com a Isley Brothers anos antes de transformar-se num ícone do rock.

Aqui, referimo-nos àqueles que, já consagrados, abriram mão de seu status em nome de algo que acreditavam seja para um disco, um projeto, uma música ou um show. São momentos em que se vê verdadeiros mitos descerem de seus altares para, humildemente, colaborarem com a música alheia, seja por admiração, amizade, sentimento de dívida ou o que quer que explique. O fato é que esses “protagonistas coadjuvantes”, mesmo que estejam escondidos ou somente encontráveis nas miúdas letras da ficha técnica, abrilhantam com seus talentos peculiares a obra de outros.


Robert Smith para Siouxsie & The Banshees

Os anos 80 foram de inquietude para Robert Smith, líder da The Cure. Sua banda já era uma das mais celebradas do pós-punk britânico em 1983 quando ele, que havia lançado um ano anos o disco único “Blue Sunshine”, da The Glove, projeto em parceria com Steven Severin, decide dar um tempo com o grupo. Mas para quem estava a pleno naquela época, Bob “descansou carregando pedra”, como diz o ditado. Ele decide fazer parte da Siouxsie & The Banshees, banda coirmã da The Cure, mas estritamente como integrante. Com os vocais e o palco já devidamente preenchidos por Siouxsie, Robert assume as guitarras e une-se a Severin (baixo) e Budgie (bateria) para compor a melhor formação que a Siouxsie & The Banshees já teve. Não deu outra: dois discos, duas pérolas, para muitos os melhores da banda: “Hyenna” e o ao vivo “Nocturne”




Miles Davis
para Cannonball Adderley
Mais do que na música pop, é comum no jazz grandes astros e band leaders tocarem na banda de colegas. Isso não funciona, entretanto, para Miles Davis. O talvez mais exclusivo músico do jazz havia tocado no início da carreira para Sarah Vaughan, mas depois jamais fez nada que não fosse tão-somente seu. Até que, com jeitinho, em 1958, o amigo Cannonball Adderley convida-o para participar das gravações de um disco que ele estava por lançar e no qual teria ainda Art Blakey, na bateria, Hank Jones, no piano, e Sam Jones, no baixo. Uma sessão de gravação apenas, só cinco números, algumas horinhas de estúdio com Rudy Van Gelder na mesa, engenheiro com quem Miles tanto estava acostumado a trabalhar. "Não vai custar nada. Diz, que sim, diz que sim!" Tanto foi, que Miles topou, e saiu "Somethin' Else", aquele que é o disco que antecipa a obra-prima “Kind of Blue”, em que, reassumido o posto de front man, aí é Miles que conta com o parceiro saxofonista na banda. Tudo de volta ao normal.


Paul McCartney para Foo Fighters
É conhecida a versatilidade de Paul McCartney. Multi-instrumentista, ele é capaz de tocar, em apenas um show, vários instrumentos ou gravar um disco inteirinho sozinho sem precisar de mais ninguém no estúdio. Quem também fez isso foi Dave Grohl, líder da Foo Fighters, que, no álbum de estreia da banda, em 1995, toca não apenas a bateria, que era seu instrumento na Nirvana, como todos os outros. A amizade e talvez essa semelhança tenham feito com que chamasse o eterno beatle para uma empreitada 12 anos depois. Fã de Macca, ele convidou o veterano músico para gravar para ele não a guitarra, o piano ou a voz. Isso, muita gente já havia feito. Ele pediu para Paul tocar justamente bateria. A “brincadeira” deu super certo, como se vê na canção "Sunday Rain" presente no disco "Concrete And Gold".


Michael Jackson para Stevie Wonder
É uma música apenas, mas considerando o tamanho deste “coadjuvante”, vale por um disco inteiro. A linda e melodiosa “All I Do”, que Stevie Wonder gravaria em seu “Hotter than July”, de 1980, conta com ninguém menos que Michael Jackson nos vocais. E não se trata da voz principal, e sim do backing vocals! Surpreende ainda mais que o Rei do Pop já havia lançado à época o megassucesso “Off the Wall”, de um ano antes, com o qual revolucionaria a música pop e que quebrara os paradigmas de vendas da música negra no mundo. Mas a devoção de Michael para com Stevie era tamanha, que ele nem se importou em fazer um papel secundário. Para quem era conhecido pela habilidade de canto e arranjos de voz, no entanto, o que seria uma mera participação contribui sobremaneira para a beleza melódica da canção.



David Bowie
 para Iggy Pop
Em meados dos anos 70, Iggy Pop e David Bowie estavam bastante próximos. Bowie havia chamado o amigo para uma temporada em Berlim, na Alemanha, onde desfrutariam do moderno estúdio Hansa para erigir alguns projetos, dentre estes, “The Idiot”, no qual dividem todas as autorias e gravações. O período foi tão fértil, que rendeu também uma turnê, registrada no álbum ao vivo “TV Eye Live 1977". Acontece que, no palco, não dá para apenas os dois se resolverem com os instrumentos. Foi então que chamaram os Sales Brothers para o baixo e bateria, Ricky Gardiner, para a guitarra, e... quem assumiria os teclados? Ah, chama aquele cara ali que tá de bobeira. O próprio David Bowie. Quando se escuta as versões ao vivo de “Lust for Life”, “I Wanna Be Your Dog” e “Funtime”, acreditem: os teclados que se ouvem são do Camaleão do Rock. 



Phlip Glass
 para Polyrock
O cara já tinha composto de um tudo: ópera, concerto, sinfonia, madrigal, trilha sonora, sonata, estudos. Faltava uma coisa: música pop. Próximo do músico e produtor Kurt Monkacsi, o gênio da vanguarda californiana Philip Glass “apadrinhou” junto com este a new wave art rock Polyrock. Dizem nos bastidores, que o cérebro da banda é Glass e não só os irmãos Billy e Tommy Robertson tamanha é a identificação com a música minimalista do autor de "Einsten on the Beach". Seja por grandeza, timidez ou algum problema legal, o fato é que isso não consta nos créditos. O que consta, sim, é a participação do maestro tocando piano e teclados nos dois discos do grupo, “Polyrock”, de 1980, e “Changing Hearts”, de um ano depois, no qual, inclusive, assina oficialmente o arranjo de cordas da faixa-título. Daqueles raros momentos em que a música de vanguarda se encontra com o rock.





João Gilberto para Rita Lee
Se hoje a participação de João Gilberto tocando violão para Elizeth Cardoso em duas faixas de “Canção do Amor Demais”, de 1958, é considerado o pontapé inicial para o movimento da bossa nova, àquela época o gênio baiano era apenas um músico iniciante ao qual não se havia ouvido ainda toda sua arquitetura sonora de instrumento, voz e harmonia. 24 anos depois, já um mito, João dificilmente repetia uma ação como aquela do passado. Quisessem tocar com ele, ele que convidava. Exceção feita nos anos 80 para sua então esposa, Miúcha (e somente o violão), mas especialmente para Rita Lee. Admirador confesso da Rainha do Rock Brasileiro, João topou o convite de gravar ele, seu violão e sua atmosfera única a faixa “Brasil com S”, do disco “Rita Lee & Roberto de Carvalho”, autoria dos dois. Pode-se dizer que, como todo o cancioneiro de João, é mais uma obra-prima, porém a única em que põe sua voz à serviço de um outro artista fora da sua discografia. Privilégio.


Daniel Rodrigues