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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

"Propriedade", de Daniel Bandeira (2022)

 

Não é coincidência que, numa das sessões da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Reforma Agrária e Urbana, a chamada CPMI “da Terra”, em 2023, tenha-se recorrido a Karl Marx para evidenciar a incongruência daquela comissão. Constituída “com o objetivo de realizar amplo diagnóstico sobre a estrutura fundiária brasileira, os processos de reforma agrária e urbana, os movimentos sociais de trabalhadores, assim como os movimentos de proprietários de terras”, a tal CPMI não apenas sucumbiu por falta de autossustentação como, no final do dia, não olhou para a prioridade: ser uma ferramenta para resolução da questão do campo no Brasil. Em depoimento, o presidente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, valeu-se dos conceitos do filósofo alemão para uma explicação bem didática sobre a estrutura sociopolítica contemporânea pautada pelos valores capitalistas. E isso por um simples, mas profundo fator: o de que o ideário marxista inclui, ineditamente na história da Sociologia, a classe trabalhadora no contexto desta reflexão. Depois de Marx, foi impossível dissociar o trabalhador das relações de poder e, consequentemente, relativizar o conceito de “propriedade”.

A própria investigação da CMPI em si, em pleno 2023, denota o quanto a questão fundiária no Brasil permanece mal resolvida. Está relacionada diretamente a chagas da sociedade provocadas pela histórica mentalidade escravista e potencializada pelas relações de poder capitalistas. Pois que a exploração de mão de obra, o monopólio da elite, as péssimas condições de trabalho e a alienação ao acesso à saúde e à educação, tudo isso está hibridizado num fundamental filme cujo título traz o cerne dessa questão: "Propriedade". A obra, do jovem cineasta pernambucano Daniel Bandeira, é, ao mesmo tempo, de uma enorme riqueza narrativa quanto, principalmente, de um realismo crível e tragicamente plausível. Em forma thriller à brasileira, o filme expõe situações prementes da sociedade brasileira atual, desde a escravidão moderna, a especulação imobiliária e o velho coronelismo, incrustado como uma doença secular na sociedade nordestina.

Na trama, a reclusa estilista Tereza (Malu Galli), esposa de um rico empresário e proprietário de terras (Tavinho Teixeira, como Roberto), deixa a cidade para refugiar-se com o marido em uma fazenda da família na tentativa de se recuperar. Mas, quando os explorados trabalhadores do local sabem da intenção do patrão de vender as terras e dispensá-los sem nenhum direito e indenização, um levante acontece. Para se proteger da violenta revolta dos trabalhadores, Tereza se enclausura em seu carro blindado. Mesmo separados por uma camada impenetrável de vidro, o conflito é inevitável e escalável, pois balizado por um elemento muito menos material e, sim, simbólico: a luta de classes.

Malu Galli como Tereza em cena tensa de "Propriedade": terror à brasileira

Segundo longa de Bandeira, "Propriedade" – provavelmente o melhor filme nacional de 2023 – tem o poder de consolidar uma época. Assim como outras escolas ou movimentos cinematográficos ao longo da história, o filme junta-se a obras irmãs, formando um panorama ideológico e produtivo robusto representativo do seu tempo/espaço. A exemplo do neorrealismo italiano, do novo cinema iraniano ou do Dogma 95 dinamarquês, cujos filmes dialogam entre si dentro de seus próprios círculos, "Propriedade" responde a temas muito caros a outros filmes da cinematografia contemporânea de Pernambuco, que se consolida como um dos mais frutíferos polos de produção de cinema no Brasil neste século. É fácil notar semelhanças com elementos da crítica social recorrentemente trazida pelos autores desta cena. "Piedade", de Cláudio Assis (especulação imobiliária), "Carro Rei", de Renata Pinheiro (repressão do Estado) e "Fim de Festa", de Hilton Lacerda (violência urbana), são alguns deles.

Porém, "Propriedade" traz ainda mais para próximo de si os filmes de Kleber Mendonça Filho, com quem Bandeira trabalhara desde 2002 no curta "A Menina do Algodão", o qual roteirizou e atuou. A referência temática e fotográfica a "Bacurau" (2019), de Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é notória, assim como soluções narrativas de desfecho, que interligam ainda mais ambos. Igualmente, "Aquarius" (2016), outro de Mendonça Filho, que também avança sobre a questão do oportunismo do setor imobiliário e da luta pela preservação cultural diante da modernização desenfreada do liberalismo. Contudo, "Propriedade" principalmente retraz a discussão basal de "O Som ao Redor" (2012), primeiro longa de Mendonça Filho, uma contundente crítica ao antagonismo entre público e privado, entre pobreza e riqueza, entre velho e novo, entre impotência e poder, entre humanidade e barbárie.

"Propriedade" e "Bacurau": semelhança temática, cenográfica e fotográfica
entre os filmes de Bandeira e Mendonça Filho

O que "Propriedade" expõe é o choque entre elite e proletariado, uma vez que o sistema vigorante favorece as desigualdades. Não apenas isso: baseia-se nelas. O capital supõe mediar um equilíbrio, mas só faz provocar revolta nos que o geram, mas não o detém, e medo nos que o detém, mas não o geram. A tensão é permanente e dos dois lados. Veja-se a frase que liga o automóvel de Roberto por meio de IA: o verso inicial da música "Dê um Rolê". Cantado por Gal Costa no clássico disco "Fa-Tal", de 1971, marco da resistência aos anos de chumbo no Brasil, o verso diz: “Não se assuste, pessoa”. Mostra da obviedade sem criatividade da elite, que se apropria do discurso dissonante da esquerda para vestir seus modos ideológicos distorcidos, a música é usada por ele como se esta condissesse com seu comportamento imperialista, distorcendo a essência da obra e, por consequência, transformando-a num mero produto de consumo.

Mas os vieses, claro, não são absorvidos por quem raciocina apenas a favor do (seu) capital. O fato de este pequeno enunciado servir como chave para acionar o veículo também funciona, noutro patamar, como uma chave muito mais simbólica, pois capaz de ativar de forma verbal o medo e a neura de uma fatia da sociedade hedonista, que se vitimiza, mas não questiona o quanto seu comportamento sustenta desigualdades que remontam à escravatura. Como Caetano Veloso escreveu certa vez para a voz da mesma Gal Costa: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo, mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”.

Trabalhadores rurais e os
limites das relações de poder
Quando trata da base da pirâmide, o filme traz à discussão um tema essencial e controverso, que é o direito à terra. O principal motivo que faz os campesinos se manterem na fazenda a qual já se sabiam dispensados é a presunção de que, por terem dedicado suas forças de trabalho de maneira tão intensa e indigna há tantos anos e gerações, mereciam tornarem-se eles os donos dela. Uma reparação a si e a todo um povo massacrado há séculos pelos poderosos. Reivindicação justa ou não, legal ou não, mas que encontra na ação presente do MST um fundo de verdade, uma vez que o movimento, muitas vezes acusado de fora-da-lei, é, por exemplo, o grupo que mais produz arroz orgânico no Brasil, correspondendo a 70% do grão produzido nacionalmente, segundo dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga).

Renovando a discussão sobre a reforma agrária, tão presente no cinema brasileiro dos anos 1960 e 1970 em filmes como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Vidas Secas", "Maioria Absoluta" e "O País de São Saruê", Propriedade traz para o contexto do Brasil atual em que o liberalismo exerce forte influência no mercado e na sociedade. Não é de se estranhar que um filme tão agudo e necessário seja do mesmo ano em que se revelou, no Rio Grande do Sul, na rica e conceituada região da Serra, casos análogos à escravidão com trabalhadores rurais, mesmo quase 135 anos após a Abolição. E não para com conterrâneos gaúchos, mas justamente com imigrantes nordestinos sujeitos a condições desumanas longe de sua terra.

Em "Propriedade", o que se sugere é um momento de fratura. Rompidas as grades da “senzala” e da “casa grande”, ora representadas pela porteira da fazenda do interior e pelas torres residenciais da cidade, o que resta é a colisão entre estes dois opostos sociais, até que um enterre o outro. Nem vidros blindados ou camuflados são capazes de conter. A CPMI “da Terra”, por óbvio, inconclusiva, haja vista que originalmente mal sustentada, denota o quanto os ensinamentos de Marx prevalecem e que não cabe (como nunca coube ou deveria ter cabido) mais espaço para a iniquidade em tempos atuais. A feroz e coerente reação dos personagens revoltosos de "Propriedade", bem como a consequente escalada de violência da trama, serve como um aviso de que a questão da terra deve ser encarada de frente e sem filtros. Um “basta” para um problema basal da sociedade brasileira de difícil resolução, mas de necessária atenção. E a quem quiser prosseguir mantendo a desigualdade e o desrespeito aos direitos humanos, um alerta: assustem-se, pessoas. Não acreditem em Gal quando ela diz que a vida, assim, é boa.

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trailer de "Propriedade", de Daniel Bandeiras


Daniel Rodrigues

Artigo originalmente publicado no Blog Roger Lerina/ Matina Jornalismo

quinta-feira, 13 de abril de 2023

15 anos da Accirs - Cinemateca Paulo Amorim - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre/RS (05/04/2023)

 


Desde a primeira reunião, numa final de tarde outonal de 2008, estava lá eu, juntamente com um punhado de outros amantes de cinema num apartamento à Av. Cristóvão Colombo, em Porto Alegre, residência de uma das fundadoras. Eu, que havia recém iniciado um projeto de um blog de cinema, O Estado das Coisas (hoje desativado), ainda nem havia me tornado colaborador do Clyblog, onde de fato expandi meu exercício de crítica, e já me fazia presente ali, meio assustado ao lado de gente que admirava e admiro. Jornalistas a quem eu lia, assistia, ouvia. Profissionais da Academia já referenciais para a cinefilia gaúcha. Críticos de cinema com experiência em veículos, festivais, júris, curadorias. Mesmo intimidado com o desafio, fui dos que deram o aval para o começo de uma entidade congregadora de críticos de cinema em nossos pagos que promovesse este fazer crítico por meio de diversas vias: a realização de seminários sobre crítica, a formação de grupos de estudo sobre a linguagem audiovisual, a programação de sessões de cinema com debates, a geração de conteúdos em diversas plataformas, a composição de júris da crítica, entre outros. Estava criada, a 29 daquele mês, a Associação de Críticos do Cinema do Rio Grande do Sul, a Accirs

Relembrar os movimentos primordiais da associação teve um gosto ainda mais agradável no encontro que promovemos no último dia 5, marcado exatamente para celebrar o aniversário da Accirs. Com a presença de convidados, familiares e amigos, nós nos reencontramos para a ocasião festiva orgulhosos da bagagem pessoal e coletiva que agregamos nestes 15 anos, mas também contentes pela novidade, seja pelos membros não tão antigos como eu (ou Ivonete Pinto, Fatimarlei Lunardelli, Marcos Santuário, Roger Lerina, Adriana Androvandi, minha “madrinha” na Accirs, e outros), seja pela recepção aos novos integrantes, os sete entrantes. A mim, enxergar ao longe aquele Daniel bem mais inseguro mas já capaz de unir-se àqueles pares, é bastante gratificante. Além do crescimento que os anos naturalmente trazem, é-me fácil perceber o quanto a Accirs, na qual hoje sou Secretário, me proporcionou (proporciona) em termos de desenvolvimento enquanto crítico e ente social pensante para tudo aquilo que o cinema propicia.

Os 15 anos de atividades da Accirs contaram também com uma exibição especial: a pré-estreia do longa-metragem brasileiro “O pastor e o guerrilheiro”, novo filme do diretor José Eduardo Belmonte, exibido no 50º Festival de Cinema de Gramado. Na mesma ocasião, foram entregues por nosso presidente, Danilo Fantinel, e nossa vice-presidente, Mônica Kanitz, os certificados para os vencedores do Prêmio Accirs para os Melhores do Ano em 2022. Por “5 Casas”, de Bruno Gularte Barreto, foi entregue ao roteirista do filme, o cineasta e professor Vicente Moreno. Já por “Sinal de Alerta: Lory F.”, o diretor Fredericco Restori, juntamente com a irmã da biografada, a atriz Débora Finochiaro, recebeu o certificado de melhor curta gaúcho. Outro curta, “Madrugada”, dividiu o prêmio de com “Sinal...”, alcançando-se a seus realizadores Leonardo da Rosa e Gianluca Cozza a homenagem. Ainda, Ivonete e Marcus Mello receberam o Prêmio Luiz César Cozzatti, concedido a destaques da cena audiovisual do RS, pela revista Teorema, publicação impressa dedicada à crítica cinematográfica que completou 20 anos de existência.

Foi, por todos estes dois motivos, mas principalmente, pelo encontro de uma história já percorrida com o sopro da renovação, que o brinde pela Accirs foi especialmente bonito. Sorrisos, papos, reencontros, carinho, apresentações, abraços. Uma noite de sair com o peito preenchido – de afeto e de cinema.

Confira algumas fotos tiradas por diversos de nós membros.

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Coquetel rolando, papos sobre cinema e tudo mais

Momento de entregar os certificados aos melhores de 2022

Danilo e Mônica falando para a plateia na Sala Paulo Amorim

Ivonete e Marcos, agraciados com o destaque do ano pela Teorema

Os jovens diretores do curta "Madrugada"

Restori falando por seu "Sinal de Alerta Lory F."

A galera toda para a foto oficial: membros e convidados
numa noite especial para o cinema gaúcho


texto: Daniel Rodrigues
fotos: Daniel Rodrigues e membros Accirs

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Live “Na Antessala do Fim do Mundo", com Boca Migotto, Tabajara Ruas e Roger Lerina - Ed. BesouroBox - 66ª Feira do Livro de Porto Alegre

 Qual o seu lugar no mundo?


O autor Boca Migotto: do cinema para a literatura

"À direita do carro, bem ao lado de Diego, que estava sentado no banco do carona, a Cordilheira dos Andes e suas neves eternas seguem presentes, acompanhando a viagem dos aventureiros que por ali passam. É fim de tarde, o pôr do sol avermelhado reflete sobre o cume das montanhas e pinta de dourado a neve. Esse primeiro trecho da viagem ainda é feito sobre uma Ruta 40 asfaltada, que corre por entre montanhas verdejantes, contorna lagos e, por vezes, acompanha o fluxo natural de rios e córregos originários do degelo dos Andes. 'Engraçado como a água sempre encontra o caminho mais fácil para seguir seu destino'", pensou Diego."
Trecho de “Na Antessala do fim do Mundo” 

Diego é um homem bonito, lembra pela descrição um típico latino, com a virilidade e a força do homem americano. Ele nos faz acreditar que o final do mundo deve ser no Ushuaia, um lugar construído para prisioneiros perigosos dada a sua distância, intempéries e maior dificuldade de uma convivência humana mais cotidiana como as dos grandes centros urbanos. Mas ao viajar na RUTA 40 que avança na companhia silenciosa da Cordilheira dos Andes, entre montanhas e águas, ele descobre algo muito especial. A viagem tem motivação após a morte da sua mãe. Ele que é a personagem principal e, portanto, está proibido de morrer busca por seu irmão que ganhou o mundo, para lhe contar sobre o desaparecimento da mãe, pois esse seria a única pessoa a entender o seu sofrimento. Será? 

Diego nos mostra o que a morte provoca num núcleo familiar restrito, onde mãe, pai e irmão somem lentamente. Numa rota em sentido único que o levará ao Ushuaia, ele encontra pessoas que lhe trazem reflexões sobre a forma de estarmos no mundo, aprende com eles sobre si mesmo e inicia inúmeras reflexões. Música, política, história, sexo, morte, cinema, conflitos e vida estão na história de Diego que carrega um pouco do escritor Boca Migotto e um pouco de Léo, o ator Leonardo Machado que faleceu em 2018 de câncer. Esse livro era um filme onde Léo seria Diego, num road movie pela RUTA 40 realizado entre os dois amigos. Porém a morte interrompeu a ideia, mas não o propósito de contar a história. 

Algum tempo depois, Boca que está totalmente mergulhado no cinema e realizou alguns filmes, tais como: "Pra Ficar na História", "O sal e o Açúcar", "Já Vimos esse Filme" e "Filme sobre o Bom Fim", lança seu primeiro livro a partir do argumento do filme que não aconteceu “Na Antessala do fim do Mundo”. Ele traz de uma forma sensível e com uma atmosfera muito autoral esse homem em estado de conflito que carrega fragmentos da sua vida, das suas ideias e o que ele valoriza como ser humano para dentro de uma narrativa agora literária. Diego é um pouco do Boca, um pouco do Léo e um pouco de todos nós, leitores que buscamos compreender o que a vida nos oferece. No cinema, Boca tem impresso essa questão autoral faz uns anos é só observar os temas que ele elege para transformar para as telas, todos tem ressonância nele mesmo e depois vazam para o coletivo porque encontros e desencontros fazem parte da viagem, né? 

Chegando ao final desse livro entendi porque numa entrevista recente na Rádio da UFRGS ele comentou sorrindo que teve alta da terapeuta após ela ler o livro. Boca encontrou o seu lugar no mundo. E o melhor é que cada um de nós tem o seu lugar. Mas não pense que estou falando de algum lugar externo, de uma paisagem dessas que ele visitou na viagem de Diego, do lado de fora. Falo de algo muito mais sutil e que está na contramão da morte e olha que não me refiro a vida, portanto não fique inquieto ou curioso demais. Estou falando de uma descoberta que explica toda uma existência e que é revolucionária em todos os sentidos. Ela está contida dentro de um processo maior que só você saberá identificar. Se você está buscando o seu lugar no mundo, já encontrou um livro que vai te levar até o final dele, num espaço onde tudo recomeçará pra valer! Aproveita a companhia e te lança nessa viagem, com certeza valerá muito a pena. 

A live com Boca Migotto recebe os convidados, o escritor e cineasta Tabajara Ruas, e o jornalista Roger Lerina que fará a mediação. A apresentação da LIVE é dessa que aqui escreve para vocês. Agenda aí: dia 11 de novembro (quarta) às 19h30, no canal do YouTube da BesouroBox Editora Oficial.

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o que: Live "Na Antessala do Fim do Mundo"
quando: 11 de novembro, 19h30
apresentação: Leocádia Costa
mediação e participação: Roger Lerina e Tabajara Ruas
evento: Feira do Livro de Porto Alegre

Leocádia Costa

quinta-feira, 30 de julho de 2020

O dia em que o cinema gaúcho encarou o racismo



O marcante personagem Dorival,
do filme de Furtado e Goulart
A proposital sensação de incompletude que a última tomada de “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, de 1986, deixa para o espectador, parece premeditar uma noção ética a qual o cinema gaúcho irremediavelmente ainda iria se deparar. Naquele meado de anos 80, quando ainda se vivia sob a sombra da ditadura e ansioso por uma democracia que nunca chegava, fazia muito sentido a cena em que o militar vivido por Sirmar Antunes, sem (conseguir) verbalizar uma palavra, minimamente se compraz do encarcerado Dorival (João Acaiabe), homem negro como ele, alcançando-lhe um cigarro após este último ser linchado fisicamente pelos colegas e mais uma vez psicologicamente pela sociedade.

Quem, como eu, um negro que viveu aquela década em Porto Alegre – cidade onde o referido filme foi rodado –, lembrará, por exemplo, que “música de preto” só se escutava na finada Rádio Princesa, dial “oficialmente instituído” para que o hoje tão valorizado samba tivesse onde rodar. Qualquer semelhança com os vissungos e lundus entoados e dançados nas senzalas não é mera coincidência – nem preciosismo semântico, no caso. Tanto o exemplo do filme quanto o da rádio mostram o quanto o silenciamento do negro era preponderantemente estabelecido naqueles idos. Precisaram mais de três décadas para, enfim, começarmos a avançar nesses aspectos. Mas não sem conflito.

Cartaz original
do filme "Inverno",
que motivou a live
da APTC
As reticências imaginárias da cena derradeira do curta de Furtado e Goulart convidavam que alguém continuasse escrevendo aquele texto de barbárie para uma narrativa de transformação. E o avanço social se encarregou disso. Os ventos de indignação provocados pelo episódio George Floyd nos Estados Unidos tomaram tanta força que, mais intensos que um minuano, vieram soprar aqui nas paragens do Rio Grande do Sul. Mais precisamente, na mesma Porto Alegre das senzalas que apartavam tanto o Dorival em sua cela e o samba nas ondas da Rádio Princesa há cerca de 35 anos. E soprou de forma violenta a ponto de desestabilizar antigas estruturas. O recente episódio da live promovida pela Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC-RS) sobre o filme “Inverno” (1983), no dia 3 de julho, mediado por Giordano Gio e com a presença de Carlos Gerbase, Luciana Tomasi, Giba Assis Brasil e Luciene Adami (integrantes da equipe) e a realizadora e roteirista Mariani Ferreira, abriu como jamais visto nestas terras um debate sobre dois aspectos que pareciam fadados ao estado de silêncio: a presença de negros no setor audiovisual gaúcho e, o mais grave deles – visto que é a raiz explicadora do primeiro aspecto –, o racismo.

Os parcos números da representatividade negra no setor audiovisual gaúcho falam por si. Sabe-se que o estudo "Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016", divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2018, embora a defasagem para os dias atuais, não mudou muito de lá para cá. Dos 142 longas exibidos comercialmente no circuito, apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros, e sequer um dirigido ou roteirizado por uma mulher negra naquele ano. Em termos históricos, apenas cinco longas foram dirigidos por pessoas negras no Rio Grande do Sul: “Um É Pouco, Dois É Bom” (1970), de Odilon Lopez; “Porto dos Mortos” (2012), de Davi de Oliveira Pinheiro; “Central – O Filme” (2016), de Tatiana Sager e Renato Dornelles; “De Boca em Boca” (2016), de Wagner Abreu; e “O Caso do Homem Errado” (2017), de Camila de Moraes.

A exemplo do já mencionado curta-metragem de Furtado e Goulart, a intencionalidade de mudança não precisa vir necessariamente de pessoas negras. Até é bom que não seja sempre assim. Além deste, o cinema gaúcho conta com longas-metragens como “O Homem que Copiava” (2003) e “Meu Tio Matou um Cara” (2004), ambos também de Furtado, que trazem atores negros como protagonistas – Lázaro Ramos e Darlan Cunha, respectivamente – e que, cada um a seu modo, buscam contextualizar a condição do negro na sociedade brasileira do início do século 21. Mais do que estes, contudo, o já referido “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” é o que, mesmo com o consciente e salutar respeito ao “lugar de fala” de quem o dirige, duas pessoas brancas, vai na raiz do problema do racismo ao valer-se do estereótipo para chegar à crítica, e não para normatizá-la.

Darlan e Lázaro em "Meu Tio Matou um Cara": raros protagonistas
negros na história do cinema gaúcho
Se o exemplo de Furtado e Goulart é louvável, é também, num espectro maior, insuficiente. Segundo o professor e mestre em História pela UFRGS, Cléber Teixeira Leão, pesquisador da temática racial com foco nos estudos críticos da branquidade, é fácil perceber um pensamento brancocêntrico tanto no cinema gaúcho quanto no nacional focado na universalização de uma história do Rio Grande do Sul e do Brasil a partir de um recorte da visão do branco. “Sempre que é necessário fazer um recorte racial ou mesmo socioeconômico, a película chega carregada de estereótipos quando trata do negro e do indígena. Mas o mesmo cinema positiva e deifica a questão imigratória, os relacionamos à música, à arte plástica dos descendentes de europeus, os brancos”, argumenta Leão.

Se os números anteriormente citados falam por si, mais ainda o fazem os depoimentos ouvidos na live da APTC. Verbalizadas pela produtora Luciana Tomasi e indiretamente consentidas por outros participantes durante a reunião virtual, as falas foram motivadas, sem dúvida, pela presença instigadora de Mariani Ferreira. Integrante do Macumba Lab, coletivo de profissionais negros e negras do audiovisual no Rio Grande do Sul, tanto sua articulação intelectual quanto condição de mulher negra desacomodaram. Não o fariam, contudo, se ela não trouxesse questões como raça e gênero, assumindo o silenciamento historicamente engendrado. Mas, não. Nas respostas a suas colocações – até certo ponto revisionistas, mas inequivocamente plausíveis e genuínas –, reverberam questões como identidade, normatização da hegemonia branca, necessidade de representatividade negra, desvirtuamento do "lugar de fala", entre outros aspectos. Todos, analisados juntos ou separadamente, demonstram o quanto não se está preparado para enfrentar a discussão do racismo com a responsabilidade que o tema exige, mas também que fazê-lo urge.

Dois aspectos observados no episódio da referida live merecem especial atenção. Primeiro, conforme levantado por Leão, a idealização da herança europeia, um dos argumentos usados por Luciana para justificar sua desatenção à questão do negro na produção audiovisual porto-alegrense. ”A discussão trazida na live da APTC sobre cinema gaúcho, na realidade, demonstra justamente esse recorte de uma Porto Alegre criada a partir de uma construção brancocentrada, que tenta reivindicar uma identidade pseudoeuropeia branca que, se diga, a cidade não tem. Não somos uma capital somente de descendentes de europeus: existem múltiplas raízes raciais e de ancestralidade que percorrem as ruas de Porto Alegre”, diz o professor.

Não se trata de policiar a liberdade artística – quanto menos, inutilmente aquela que já se produziu – e nem desqualificar a inquestionável contribuição que a geração desses precursores do novo cinema gaúcho deu. No entanto, explicar o desinteresse com a causa dos negros pela simples ausência de contato com esta é, além de muito confortável, fraco e irresponsável de quem se espera, como agente cultural importante do Estado, algo bem mais refletido. “A questão que surgiu na live, a partir da fala da produtora Luciana Tomasi, era a de uma impossibilidade de dialogar com a história e temáticas não brancas, que compõem a história e a sociedade porto-alegrense, pois sua herança sanguínea europeia, assim como a de alguns dos participantes da live, impossibilitava essa abordagem”, observa Leão. Os dois referidos longas de Furtado são produzidos por Luciana Tomasi, e não à toa deixei para voltar a referi-los aqui. O que talvez pudesse ser um lapso de desaviso soa, agora, como reconfirmação desse descompromisso anacrônico e segregador.

Mariani Ferreira: articulação
intelectual e condição de
mulher negra 
Ligado a esse aspecto, o outro que destaco se resume num vocábulo, o qual, infelizmente, diz muito mais do que se gostaria. Luciana, ao discorrer que pessoas com sobrenome como o dela ou Schünemann, Adami, Gerbase e de semelhante ascendência europeia, diz não ter condições, pelas razões citadas anteriormente, de fazer um filme da “senzala”. Leão nota nessa fala o quanto só se consegue perceber os grupos não brancos dentro da história gaúcha ou nacional a partir da abordagem de submissão da escravização negra – e isso é muito grave. “A percepção sócio-histórica manifestada nessa fala impossibilita uma ruptura com esse estereótipo, que é construído dentro de um processo de racialização imposto e construído pelo branco, que não se entende historicamente como raça, nem tampouco como privilegiado ao definir os nichos onde cada um dos grupos não brancos são categorizados histórica e socialmente”, completa.

Quando o roteiro de “O Dia em que...” foi escrito – coassinado por Furtado, Goulart, Tabajara Ruas, Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil –, intencionalmente o protagonista, tão veículo de pré-concepção quanto de denúncia, não tinha sobrenome. Era Dorival e pronto. Precisava-se, por meio desse elemento narrativo, evidenciar a desumanização. Hoje, reivindica-se, com probidade, a menção a Oliveira Silveira. Eu, cria daqueles ricos mas também atrasados anos 80, vi, por muito tempo, as manifestações contra o racismo – vindas invariavelmente apenas dos próprios negros – justificadamente reativas, mas pouco argumentativas. Agora, é diferente.

O sistema foi estremecido, e não demorou para que o meandro estrutural do racismo, sustentado pelo preconceito arraigado, aparecesse. Agora, é hora de romper o silêncio e encará-lo. “Torna-se necessário”, diz Leão, “pensar a visão brancocêntrica acrítica, que só permite pensar os não brancos dentro de determinados nichos, o que, em si, faz parte do que chamamos de racismo estrutural”. Para ele, é necessário romper essa nada apreciável tradição gaúcha, que tenta buscar ainda uma positivação racial branca europeia disfarçada de étnica. A continuidade da política de cotas nas universidades, que já vem mostrando resultados consistentes de transformação e inclusão social, e o fomento a projetos como Macumba Lab, por exemplo, são fundamentais para essa mudança de realidade. Segundo a professora doutora de filosofia Andrea Maila Voss Kominek, “conhecer nossas raízes e repensar nossa realidade representam o único meio possível para uma sociedade justa e igualitária. Desconsiderar o problema do racismo no Brasil é ser conivente. É permitir que a desigualdade se perpetue. Reconhecê-lo, conhecê-lo e discuti-lo constitui o primeiro passo rumo a uma sociedade livre”.

De fato, o audiovisual gaúcho levou um grande susto ao ver emergir o racismo das grades que o escondiam, fosse na cela do personagem Dorival, fosse na referida senzala onde indiretamente condena-se a existência de uma raça. Políticas estão sendo tomadas, posições estão sendo revistas, governo e entidades estão correndo contra o tempo para responder a essa lacuna social e moral deixada pela brutal escravatura no Brasil e (tão bem) assimilada entre os homens. Mas as sociedades avançam, e isso é irrefreável, inclusive no autocomplacente Rio Grande do Sul.

Dia 3 de julho foi o dia desse avanço em direção a entendimentos mais amplos e plurais, mesmo que para isso tenha-se que brigar, apontar erros e expor aquilo que precisa ser dito. O dia em que o cinema gaúcho encarou o racismo. Só assim cidades como Porto Alegre podem ter, cada vez mais, representada nas mais diversas áreas não apenas a influência europeia, mas a de outras culturas como a africana. Como a brasileira, aliás, única, pois mestiça e universal. E que pessoas como Dorival possam, resgatadas suas dignidades, responder com nome e sobrenome. Assim, um sobrenome ao mesmo tempo comum e digno, como um Oliveira Silveira ou o de quem assina este artigo.


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curta “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”
de Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1984)



 por Daniel Rodrigues
Artigo originalmente publicado no Blog Roger Lerina escrito a convite do jornalista

sexta-feira, 29 de março de 2019

Kamasi Washington - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/03/2019)


Considerações a respeito do show de Kamasi Washington no Opinião

por Paulo Moreira

1 - Há dois anos, eu e os queridos amigos Cuscos (José Beltrame Cusco e Jucemara Beltrame) fomos ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro ver o show de lançamento de "The Epic", o álbum triplo de estreia do saxofonista Kamasi Washington. A banda era basicamente a mesma, com o acréscimo de um trompete, um sax alto e flauta (o pai de Kamasi) e até mesmo um DJ. Foi intenso e MUITO jazzístico e a cantora cantou e não fez aeróbica, como bem disse meu amigo Sérgio Karam.

2 - Desde então, Kamasi tem participado do trabalho do rapper Kendrick Lamar, que tem preponderante vínculo com a música negra, especialmente dos anos 70.

3 - O terceiro disco de Kamasi, "Heaven And Earth", já demonstra esta influência marcada da black music setentista, inclusive na canção "Fists of Fury", trilha de um filme de Bruce Lee.

Kamasi, o trombonista Ryan Porter  à frente no palco
do Opinião (foto: Roger Lerina)
4 - Como música é momento, o show de Kamasi de ontem apresentou todas estas influências. Em determinados momentos, me senti ouvindo um daqueles discos da CTI (soul jazz) com o fusion de Herbie Hancock e seus Headhunters mais a soul music de George Clinton e seus Parliament/ Funkadelic. As influências estavam todas à mostra. Junto com isso, pitadas de free jazz a la Archie Shepp. Até um mini-moog foi ressuscitado. Uma grande mistura intensa e, como diriam os americanos, "in your face". Com esta intensidade toda, é normal que se "jogue pra torcida". Foi o que Kamasi e seu grupo fizeram. O que não quer dizer que não foi bom. Eu curti. Mas é da série: "Azar, eu gosto". Entretanto, tenho de confessar que a apresentação do Rio foi melhor.

5 - Durante o show, encontrei o Pedro Verissimo que estava curtindo. Até comentei que não era bem o estilo do pai dele, ao que retrucou: "ele quase veio....". Fiquei imaginando o Verissimo sendo assaltado por todo aquele som.

6 - Entendo o que disse o Karam mas Kamasi faz parte desta turma nova (Robert Glasper, Snarky Puppy, Thundercat) que mistura tudo numa linguagem jazzística. É jazz?? Também é!!

7 - Ah, roubei a foto do Roger Lerina. Obrigado, Roger.

8 - O Marcelo Figueiredo matou a charada!! 10 de maio tem Ron Carter no Centro de Eventos do BarraShopping no lançamento da quinta edição do POA Jazz Festival. Jazz acústico e de primeira! Todo mundo lá!!!!

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Lindeza e fúria

por Daniel Rodrigues

Parece mentira, mas um baita show que foi o de Kamasi Washington em Porto Alegre, inédito, raro, de casa cheia e da mais alta qualidade técnica, conseguiu render críticas negativas e até reclamações. Para quem estava lá sem a viseira do preconceito, a apresentação foi um arraso, garanto. O grande acontecimento do jazz na cidade em um ano, considerando o fraco line up dos últimos POA Jazz Festival e a vinda, lá em março de 2018, de John Pizzarelli à cidade, o último grande artista de jazz a tocar na cidade bem dizer.

Com uma banda afiadíssima (Ryan Porter, trombone; Brandon Coleman, teclados; Miles Mosley, baixo; Tony Austin e Ronald Bruner, baterias; e Patrice Quinn, vocal) e disposta a doar-se até o último acorde, Kamasi, grande revelação do jazz norte-americano dos últimos anos, desfilou temas do seu repertório, que passeiam pelos mais diferentes estilos jazzísticos e da música pop, do hard bop ao funk, do fusion ao trip hop, do free jazz ao rock, da vanguarda ao blues, do modal à bossa nova. Não raro, a plateia é pega ouvindo um suingue da primeira metade do século XX e, logo em seguida, a coisa evolui para heavy metal setentista. Sim! Mesmo sem guitarra, o baixo com arco de Mosley e o moog de Coleman cumpriram muito bem a ausência desse instrumento, encorpando um som a la Led Zeppelin em meio aos acordes livres do jazz.
"Muito lindo", disse o próprio Kamasi
As referências são claras a ídolos do jazz-soul dos anos 70 (Herbie Hancock, Weather Report, Stanley Clarke, George Duke, George Clinton), o que talvez para os críticos tire da obra de Kamasi a tão imputada “inovação”. Mas do que isso importa? Não seria mais fácil simplesmente ouvir e admirar? Como não se tocar pelo funk-soul “Street Fighter Mas” ou a meditativa “Truth”, épicas? Ou a suingada “The Rhythm Changes”, com o voz aveludada de Patrice? “Miss Understanding”, um retorno consciente aos mestres Dexter Gordon, John Coltrane e Pharoah Sanders? Ou “Re Run”, irresistível misto de latin jazz e funk. E o que dizer da gigante “Fists of Fury”, um soundtrack soul de arranjo elaboradíssimo? Como não se tocar por tudo isso?

Chamou-me atenção em especial, no que diz respeito às harmonias, as evoluções comandadas por Kamasi, que faz com que a música tenha, através não só dos improvisos e variações de intensidade, espécies de microriffs, os quais vão dando aos temas diferentes personalidades no seu decorrer, mas, transitando dentro da mesma escala, não menos espelhadas em sua célula matriz. Tudo sob a égide do sax alto tenor imponente mas afagador de Kamasi, tão gigante quanto aquele que o faz extrair sons. Magia pura de um coração docemente furioso. Como o emocionado Kamasi dizia repetidamente em limitado português: “Muito lindo, muito lindo”.

Li comentários pós-show de que Kamasi Washington é moderno, mas não tão inovador assim, como se ele tivesse entrado no palco e prometido que haveria inovação e não música. Li que sua performática vocalista, a quem os movimentos no palco não atrapalharam em nenhum momento o principal, o seu canto, mexia-se demais. Li que o Opinião, que sempre foi assim, não dispunha de cadeiras suficientes para se sentar. Li que a banda estava lá para tocar para a... galera (afinal, para QUEM MAIS queriam que a banda tocasse?). Li, inclusive, o descabimento de alguém dizendo que o show não foi bom mesmo sem que essa própria pessoa tivesse ido! Olha, que cidade atrasada essa Porto Alegre, irritante. Um atraso até moral, que chega ao ponto de não querer admitir que a cidade recebeu um evento empolgante, de alta qualidade e que conseguiu atrair um público maior do que somente os ardorosos fãs do gênero. Não é isso que sempre se quer para a boa arte: que mais pessoas apreciem? Eu estava lá e foi o que fiz.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Jethro Tull - “Minstrel in the Gallery” (1975)



"Tecnicamente, é um álbum muito bom, um de nossos melhores. Conseguimos um ótimo som, tendo o luxo de poder montar o estúdio do jeito que queríamos. Musicalmente, há coisas muito boas nele". 
Ian Anderson

Dos álbuns que marcaram minha história, seguindo o meu querido Iran Rosa, que colocou “Aqualung”, da Jethro Tull na sua lista, vou marcar um disco posterior dessa banda e que fez a minha cabeça aos 15 anos de idade: “Minstrel in the Gallery”. Eu ouvia sempre o programa do cara, que depois se tornou meu amigo, Beto Roncaferro, no qual ele se intitulava The Peacemaker, sempre às segundas-feiras á meia-noite, nos 1120 da Rádio Continental. Graças a ele, ouvi pela primeira vez bandas como Queen, The Tubes, Rush, Supertramp e este Jethro Tull, de 1975.

Ele rodava “Cold Wind To Vahalla” e a faixa-título. Como não tinha toca-discos na época – o meu tinha ido pro saco –, comprei um cassete deste disco e quase arrebentei a fita de tanto ouvir. Adorava as já citadas e a suíte “Baker St. Muse” e “Black Satin Dancer”.

Ah! O meu CD deste disco está autografado por Mr. Ian Anderson, que inclusive tirou uma foto comigo batendo os cotovelos – ele não aperta a mão de ninguém –, que foi parar na Contracapa do jornal Zero Hora, no tempo que o jornalista Roger Lerina a assinava.

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FAIXAS:

1. "Minstrel in the Gallery" (Ian Anderson/Martin Barre) - 8:13
2. "Cold Wind to Valhalla" - 4:19
3. "Black Satin Dancer" - 6:52
4. "Requiem" - 3:45
5. "One White Duck / 010 = Nothing at All" - 4:37
6. "Baker St. Muse" - 16:39
a)  "Pig-Me and the Whore"
b)  "Nice Little Tune"
c)  "Crash-Barrier Waltzer"
d)  "Mother England Reverie"
7. "Grace" - 0:37
Todas as composições de autoria de Ian Anderson, exceto indicada


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OUÇA:
por Paulo Moreira

segunda-feira, 12 de março de 2018

John Pizzarelli - Porto Alegre Jazz Festival - Centro de Eventos BarraShoppingSul - Porto Alegre/RS (08/03/2018)



Meu amigo Roger Lerina acertou em cheio em sua resenha do show de John Pizzarelli no último dia 8 de março no Centro de Eventos do BarraShoppingSul, dentro da programação especial do Porto Alegre Jazz Festival: Ele "é diversão na certa”. Tocando para um público de meia idade – mesclado salutarmente com alguns jovens mais atentados –, o guitarrista inovou desta vez. Misturando aquele feijão-com-arroz gostoso de standards clássicos como “They Can’t Take That Away From Me” e “I Got Rhythm”, dos irmãos George & Ira Gershwin, com músicas de Nat King Cole e dos Beatles, o músico provou que sabe cativar uma plateia com sua simpatia, com arranjos bem escolhidos e de fácil assimilação pelo público. Seu grupo, apesar de não ter nenhum virtuoso, mostrou ser correto e direto ao ponto, sem firulas. O pianista Konrad Paszkudzki, o baixista Mike Karn e o baterista Andy Watson cumpriram muito bem seu papel de coadjuvantes da grande estrela.

Mas as semelhanças com os shows anteriores terminaram aí. Escorado um scat singing junto com sua guitarra, Pizzarelli usou a técnica aperfeiçoada por George Benson a seu favor. Usando este expediente em quase todos os solos, o guitarrista mostrou ter amplo conhecimento da história de seu instrumento no jazz, circulando pelos estilos dos sóbrios, Jim Hall, Barney Kessel e Herb Ellis num momento e na exuberância do já citado Benson e de Wes Montgomery no outro. Após começar o espetáculo suavemente com as composições dos Gershwin e de seu ídolo King Cole, Pizzarelli apresentou suas novidades. Primeiro, uma versão de “Honey Pie” dos Beatles quase irreconhecível. Na sequência, talvez o grande momento musical da noite, a versão de “I Feel Fine”, de Lennon & McCartney, utilizando-se do tema clássico do funky soul da gravadora Blue Note, “The Sidewinder”, do trompetista Lee Morgan como base do arranjo.

O virtuoso Pizzarelli e sua competente banda
Em compensação, pra mim soou estranha a versão “bossanovística” de “Silly Love Songs”, dos Wings de Macca. Talvez porque a composição esteja tão entranhada no universo pop que “abrasileirá-la” tenha parecido forçado. Outra novidade foi a apresentação de “Oscar Night”, composta pelo falecido pianista de Pizzarelli, Ray Kennedy, em homenagem a Oscar Peterson. Totalmente instrumental, a música faz um passeio/homenagem pelo estilo do grande pianista canadense, abrindo espaço para todos os músicos mostrarem sua destreza.

A partir daí, o guitarrista chama ao palco o neto de Tom Jobim, Daniel – cada vez mais parecido com o avô – para emular o encontro de Frank Sinatra com Jobim há 50 anos atrás. E se saem bem. Como no disco, as clássicas “Dindi” e “Água de Beber” dividem espaço com “Baubles, Bangles and Beads” e “I Concentrate on You, de Cole Porter, mas Pizzarelli tem o cuidado de acrescentar outras pérolas jobinianas no repertório, como “Bonita”, “Two Kites” e “Wave”. Daniel, pouco à vontade somente ao microfone, deslanchou ao piano e voz. No final, a indefectível “The Girl From Ipanema”, que suscitou mais um dos engraçados comentários do guitarrista sobre a onipresença desta canção no mundo inteiro.

Pra finalizar, o número que Pizzarelli sempre apresenta em sues shows: a homenagem ao seu estado natal, New Jersey, com “I Like Jersey Best”, onde brinca com “as versões” de Bruce Springsteen, Bob Dylan, Paul Simon, Lou Reed, Lou Rawls, Billie Holiday, James Taylor, Bee Gees e, até mesmo, João Gilberto e João Bosco. Um final divertido para um show muito musical. Tudo isso começou com o duo da voz de Dudu Sperb com o piano de Luiz Mauro Filho. Como se esperava, dados os talentos do cantor e do pianista, a noite iniciou maravilhosa com clássicos como "Ilusão à Taa", de Johnny Alf; "Stardust", de Hoagy Carmichael, e da linda "Mistérios", de Joyce. Primeiro, a sobriedade gaúcha armando a plateia para a animação de John Pizzarelli. “Volte logo, Pizza”, como disse meu querido amigo Sepeh de los Santos.

Porto Alegre já está aguardando o retorno de Pizza

por: Paulo Moreira
fotos: Opus Promoções