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quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Música da Cabeça - Programa #471
segunda-feira, 4 de maio de 2026
"Michael", de Antoine Fuqua (2026)
Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
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| Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar |
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
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terça-feira, 3 de junho de 2025
"Homem com H", de Esmir Filho (2025)
Ainda que a vaidade e a insegurança masculina tenham a pretensão de associar diretamente ao homem a bravura, a firmeza, a força, mesmo que essas qualidades sejam igualmente comuns a mulheres "mais macho que muito homem", como diria a brilhante Rita Lee, aceitando a premissa do 'machão' para efeito de reflexão, no caso particular de Ney Matogrosso, qualquer um há de admitir que tem que ser muito macho pra encarar as barreiras que aquele cara teve na vida. Se coragem, personalidade, persistência, convicção são sinônimos de macheza, Ney teve tudo isso de sobra a vida toda independente de sua orientação sexual. A escolha do nome do longa certamente não foi por acaso, ainda mais em se tratando do título de uma música cujo próprio cantor relutara em interpretar, como revela o próprio filme. O título em si traz uma inegável provocação cuja abordagem torna-se quase inevitável mesmo diante de tantos outros aspectos positivos e relevantes do filme como a estética, a fotografia, a trilha sonora, a direção de arte, o figurino, tudo igualmente elogiável. Esmir Filho (assessorado pelo próprio Ney) tinha que salientar que aquele cara enfrentou pai, discordou da própria banda, abdicou do sucesso, desafiou o sistema, rompeu com padrões, encarou mudanças, se arriscou como artista, venceu pela arte e nunca abriu mão de ser quem realmente era. Isso sim é um "Homem com H".
Na minha sessão, uma plateia composta em sua maioria por pessoas de meia idade, casais até mais velhos, idosos. Fiquei pensando que talvez nem todos ali tivessem a cabeça tão aberta para aquilo que acabavam de ver, possivelmente a maioria tivesse recebido uma criação conservadora como fora a daquela geração, e que alguns daqueles tenham sido obrigados, contrariando seus valores e concepções, a se render ao filme, ao artista, sua obra, sua personalidade, uma vez que o filme foi entusiasticamente aplaudido ao final. Quero crer que ali caíram, ainda que momentaneamente, barreiras de homofobia, identidade, escolhas, ou seja lá o que for, para que aqueles que lá estavam tivessem que admitir, "Esse cara é foda!".
Filme bem conduzido, a organicidade de Ney é muito bem captada e traduzida pelo diretor, a fotografia é precisa, e a atuação de Jesuíta Barbosa, repito é impecável e impressionante.
Nessa leva recente de cinebiografias de personalidades do mundo da música, certamente a de Ney Matogrosso é uma que se destaca. Filme com F maiúsculo!
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| Jesuíta Barbosa encarna Ney de corpo e alma para viver sua trajetória no longa. |
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Cly Reis
sábado, 24 de setembro de 2022
Copa do Mundo Gilberto Gil - classificados da primeira fase
Buda Nagô 2x3 Lugar Comum
Apesar de Buda ser o grande Dorival, Lugar Comum foi feita com Donato que mora no meu coração. Além disso, Gil gravou Buda Nagô com a Nana... e ele namorou a Nana, Bolsominion lunática. Não pode ganhar de jeito nenhum.
As Coisas 1x3 Zumbi, A Felicidade Guerreira
Apesar de As Coisas ter a marca notória do Arnaldo Antunes, a ode a Zumbi com Waly Salomão é mais rica e potente na letra e na batida oitentista.
Quanta 0x1 Queremos Saber
Quanta é lindo. Dueto com Milton então, nem se fala. Mas Queremos Saber ressignificou a geração Cássia Eller mais de 20 anos depois e hoje é um clássico.
Pela Internet 2x2 Procissão (Versão 68) (4x5 nos pênaltis)
Parada dura essa porque sempre foi admirável Gil, Caetano e a geração deles mergulhar nas modernidades transformando em música. Mas esse álbum do Gil é um dos meus preferidos de toda a MPB, tinha que ganhar, nem que seja nos pênaltis.
Lamento de Carnaval 0x3 Parabolicamará
Não conhecia Lamento de Carnaval e achei bem legal a letra e o dueto com Lulu. Mas sou noveleiro e essa é clássica de Renascer. Não tem como.
O Amor Aqui de Casa 0x5 Back in Bahia
A trilha de Eu Tu Eles eu conheço bem pois vendi muito CD na época que trabalhava no Guion CD's. Talvez se Lamento Sertanejo enfrentasse Back in Bahia, poderia dar um empate. Fora isso, é quase imbatível.
Sebastian 3x4 A Paz
Outro disco que vendi bastante esse com o Milton. É a música carro-chefe do disco, homenagem ao Rio e tal, mas na verdade queremos paz pra invadir nossos corações dia 02 de outubro. A paz ganha no fim.
Kaya N'gan daya 1x0 Deixar você
Essa baladinha é muito gostosa, mas Kaya é Bob, Kaya é reggae, Kaya é tudo. Vitória consistente.
Copo Vazio 1x0 Vamos fugir
Essa é meio que uma zebra. Vamos fugir tem lugar na história, no pop reggae, no Skank...mas tocou tanto, tanto, que a fofa Copo Vazio se sobressai, principalmente no recente dueto com Chico.
O som da pessoa 4x0 Não tenho medo da morte
Apesar de dar a real em Não tenho medo da morte, O som da pessoa é inventivo, criativo, brinca com as palavras...não quero pensar em morte pra Gil, por isso a goleada.
La Renaissence Africane 2x1 Aqui e agora
Aqui e agora é outro clássico, mas a linda homenagem à África é poderosa demais.
O Oco do mundo 0x4 Barato Total
Não conhecia O oco do mundo. Poderia surpreender frente ao gigante Barato Total. Mas o que já era difícil ficou impossível na nova versão da série Em Casa com os Gil, onde as mulheres da família Gil fazem uma performance invencível.
Fé na Festa 0x1 Filhos de Gandhi
Não conhecia Fé na Festa e adorei a potência alegre nordestina, não só dessa música, mas de todo o disco. Mas Filhos de Gandhi é a pura Bahia, é a ONU, é a Índia, é a África, é o Candomblé, é o Carnaval.
As Camélias do Quilombo do Leblon 4x5 Nêga
Esse placar apertado demonstra o quanto eu gosto de As Camélias. Feita com Caetano, lembro de adorá-la no momento em que ouvi pela primeira vez na turnê dos 50 anos deles. Mas Nêga é apaixonante, Gil no exílio, numa Londres fascinante.
Pipoca moderna 0x1 Three Little Birds
Eu amo a pipoca da Banda de Pífanos de Caruaru, mas de novo a influência de Bob Marley é definidora. Além do clipe de massinha que é muito fofo e marcou meus vinte e poucos anos.
Luar 1x3 Panis et Circenses
Gil oitentinha tem o seu valor. Gosto muito! Mas Panis é um patrimônio brasileiro. Crítica, inventividade, antropofagia, a caretice que ainda está em voga nas famílias conservadoras. Ganha com excelência.
Quilombo, o Eldorado Negro
Queremos Saber
Procissão
Parabolicamará
Back in Bahia
A Paz
Kaya N'gan daya
La Renaissence Africane
Copo Vazio
O Som da Pessoa
Barato Total
Filhos de Gandhi
Nêga
Three Little Birds
Panis et Circenses
Serafim
Domingo no Parque
Oriente
Flora
Esotérico
Punk da Periferia
Aquele Abraço
Toda Menina Baiana
Tradição
Rafavela
Amarra o teu arado a uma estrela
Drão
Lamento Sertanejo
O Eterno deus Mu Dança!
Zumbi
Chuck Berry Fields Forever
João Sabino
Cinema Novo
Pai e Mãe
Ê, povo, ê
Andar com fé
Nos Barracos da Cidade
Ilê Ayê
Extra
Batmacumba
São João Xangô Menino
Marginália 2
No norte da saudade
Super-Homem
Refazenda
Ela
Geleia Geral
Tempo Rei
Essa é pra tocar no rádio
Meio de Campo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Realce
Haiti
Vitrines
Maracatu Atômico
Se eu quiser falar com Deus
Expresso 2222
Raça Humana
Cálice
Palco
Cores Vivas
terça-feira, 15 de maio de 2018
Criolo - "Nó na Orelha" (2011)
Confesso que resisti um pouco a Criolo. Em 2011, por sugestão de meu primo-brother Lúcio Agacê, ouvi o então recém-lançado “Nó na Orelha” e me impressionei de cara. Conhecendo-me bem, Lucio acertara que eu iria gostar de um rapper de São Paulo até então chamado Criolo Doido, que tinha tomado um “banho de loja” e produzira um disco de se prestar atenção. Como sempre, fui na dele, que nunca dá dica furada. E, caramba: que musicalidade era aquela?! Ao mesmo tempo em que destrincha hip hop com estilo próprio de letras incomuns e rimas ligeiras, forjando quase uma nova linguagem que junta o vocabulário da periferia com um entendimento profundo do português culto, também mandava ver com naturalidade outros ritmos (às vezes, mesclando a este rap tão original), como samba, afrobeat, reggae e soul.
Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Ney Matogrosso, Tom Zé, Martinho da Vila e Milton Nascimento – ou seja, a nata da MPB – o elogiavam. Era tão legal, que cheguei a desconfiar. Pensei em escrever sobre o disco no calor do impacto, mas meu cérebro buscou comparações e parâmetros que, embora não devessem ter nada a ver com o simples ato de gostar, foram suficientes para, preconceituosamente, rechaçar a minha ideia de imediato. Para ajudar, um infeliz tributo a Tim Maia ao lado de Ivete Sangalo, no qual Criolo se sujeitou a participar, em 2015, ajudou a alimentar minha antipatia por ele.
Entretanto, “Nó...” resistiu a mim. Por isso, faço aqui o que não tive coragem seis anos atrás depois daquela primeira audição. Afinal, o disco se mantém intacto em sua qualidade, simbolizando aquilo que na época já era uma certeza: a chegada do maior artista da música brasileira dos últimos tempos. Com a luxuosa produção e arranjos de Daniel Ganjaman (Planet Hemp, Sabotage, Otto, Racionais MC’s, Nação Zumbi, entre outros, no currículo) e poucas mas preciosas participações (como da excelente cantora Juçara Marçal, da Metá Metá, nos backings), “Nó...” traz essa originalidade letrística e sonora, algo evidenciado já na faixa de abertura, “Bogotá”. Um ritmo latino com beats e sopros afiados muito bem cantado com a voz melodiosa e agradável de Criolo. Não é rap, mas namora com o estilo na força da mensagem e no approuch, mostrando o quanto o artista, já no segundo disco, havia ampliado sua musicalidade.
Avança-se somente mais um pouco para provar definitivamente esta afirmação em “Subirusdoistiuzin”. Este, sim, um rap, com direito aos tradicionais beats funk, scratches e samples. Mas cheio de groove, numa atmosfera de jazz-soul – adensada pelo elegante trompete de Rubinho Antunes e o baixo acústico de Marcelo Costa, coarranjador do disco. Novamente muito bem cantada por Criolo, destaca-se, antes de mais nada, pela letra de rimas improváveis e pela divisão silábica quebrada, como bem fazem Tom Zé e Marlui Miranda. E o que dizer desses versos? “Mandei falá/ Pra não arrastá/ Não botaram fé/ Subirusdoistiozin/ O baguio é loco/ O sol tá de rachá/ Vários de campana aqui na do campin/ Má quem quer preta/ Má quem qué branca/ Todo azule/ Requer seu rejuntin/ Pleno domingão/ Flango ou macalão/ Se o negócio é bão/ Cê fica é chineizin/ Cença aqui patrão/ Aqui é a lei do cão/ Quem sorri por aqui/ Quer ver tu cair/ É, é... justo é Deus/ O homem não/ Ouse me julgá/ Tente a sorte, fi”.
Na sequência, um dos motivos da reverência dos papas da música brasileira: “Não Existe Amor em SP”. Cantada por seu autor ao lado de Caetano no Video Music Awards daquele ano numa apresentação que “chancelara” a posição de Criolo no rol da MPB, a canção, contundente e melodiosa, já se tornou naturalmente um clássico e um novo hino popular sobre a cidade paulistana. O título, cuja menção à grande metrópole brasileira é pronunciada na forma de sigla (“essepê”), desvenda a mensagem: “Um labirinto místico/ Onde os grafites gritam/ Não dá pra descrever”. Lembra, em poética e raciocínio, outro talentoso rapper de Sampa, o amigo Mano Brown, nos versos de “Vida Loka nº 1”, dos Racionais MC’s, quando diz “em São Paulo, Deus é uma nota de 100”, principalmente comparada com esta parte da música de Criolo: “Os bares estão cheios de almas tão vazias/ A ganância vibra, a vaidade excita/ Devolva minha vida e morra/ Afogada em seu próprio mar de fel/ Aqui ninguém vai pro céu/ Não precisa morrer pra ver Deus”.
“Mariô” vem dar ainda mais sentido à ideia jazzística lançada em “Bogotá” e “Subirusdoistiuzin”, uma vez que intensifica a pegada de jazz moderno, haja vista que é coescrita com Kiko Dinucci, o principal compositor da Metá Metá, a inovadora banda paulistana do novo jazz brasileiro. Emulando sons e vocabulários do matiz africano, típico da musicalidade de Dinucci, remonta ao “pop nagô” de Marku Ribas pela mistura de sonoridades funk, soul, samba e batuque de terreiro.
Surpreendendo novamente, Criolo traz o bolero "Freguês da Meia-Noite". Balada brega ao estilo Nelson Ned e Reginaldo Rossi, contextualiza mais uma vez a São Paulo urbana, aqui no clima decadente e rasgado da boemia noturna. “Meia Noite/ Em pleno Largo do Arouche/ Em frente ao Mercado das Flores/ Há um restaurante francês/ E lá te esperei”. Já “Samba Sambei”, embora o título faça supor o estilo musical, é, na verdade, um reggae, engendrando a tirada metalinguística de canções como “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi, na versão heavy dos Novos Baianos, o rock-exaltação “A Bossa Nova é Foda”, de Caetano, ou “Amigo Punk”, a milonga (e não um punk-rock) do grupo gaúcho Graforréia Xilarmônica.
Claro, a raiz de Criolo não poderia deixar de estar presente. Com a mesma desenvoltura que passeia por outras formas musicais, o artista também articula seu inato rap. Caso de "Grajauex", com os criativos versos rimados em “écs” (“É o play 3 na golfera te sai, chanex/ É o ouro branco o pó mágico e o poder de Rolex/ Na favela com fome atrás dos Nike Air Max/ Os canela cinzenta que não tem nem cotonets/ Os Mc das antiga é dinossauro T-Rex/ Pra fazer bobaginha cole ali com Jontex/ Pra zoar na rua com os cachorro é pex pex/ E as princesinha na nóia de um papel faz bo...”); "Sucrilhos", crítica social em que exercita sua poética sui generis (“Calçada pra favela/ Avenida pra carro/ Céu pra avião/ E pro morro descaso/ Cientista social/ Casas Bahia e tragédia/ Gosta de favelado mais que Nutella”); e "Lion Man", de excelente construção melódica e harmônica.
“Nó...” encerra revelando outra habilidade que Criolo traria mais vezes a partir de então – inclusive em parcerias com Martinho da Vila e Tom Zé –, que é o domínio do samba. Partido alto estiloso, que lembra os bambas da velha guarda, "Linha de Frente" faz uma brincadeira com os nomes dos personagens da Turma da Mônica, inserindo-os na realidade do tráfico de drogas na periferia. Os versos iniciais dizem: “O nó da tua orelha ainda dói em mim/ E Cebolinha mandou avisar/ Que quando a ‘fleguesa’ chegar/ Muitos pãezinhos há de degustar”. O refrão é ainda mais interessante: “O dinheiro vem pra confundir o amor/ O santo pesado que tá sem andor/ Na Turma da Mônica do asfalto/ Cascão é rei do morro e a chapa esquenta fácil”.
Dentre as várias qualidades de “Nó...” está a que o trabalho trouxe de vez a turma do rap para o patamar dos músicos, vencendo a pecha de meros “coladores de música dos outros” ou de “vozes da favela”. Criolo representa a nova geração mestiça brasileira, saída das classes baixas e sintonizada com a política, com a produção cultural e com a realidade social, personalidades que têm (e se põem no) compromisso de pensar o Brasil. Além disso, o convencimento de que rapper não sabe (e nem precisa) só fazer rap. Mas mesmo com toda a diversidade sonora e de referências conceituais que carrega, “Nó...” é, contudo, um disco saboroso de se ouvir, mesmo que desafiador – desafio este que, de pronto, não me permiti vencer em relação a Criolo. Mais do que a “repaginada” a qual meu primo se referiu ao me indicar a audição, o disco é a afirmação de um artista que tem muito a dizer e que veio para ficar. Talvez por tudo isso, o disco tenha dado em meu pretenso conhecimento e gosto musical um verdadeiro nó na orelha. Acho que, com todas estas linhas escritas, eu agora tenha desenosado.
FAIXAS:
1. "Bogotá" - 4:40
2. "Subirusdoistiozin" - 3:33
3. "Não Existe Amor em SP" - 4:40
4. "Mariô" - 3:37
5. "Freguês da Meia-Noite" - 4:09
6. "Grajauex" - 2:36
7. "Samba Sambei" - 3:42
8. "Sucrilhos" - 4:00
9. "Lion Man" - 3:25
10. "Linha de Frente" - 4:30
Todas as composições de Criolo, exceto “Mariô”, de Criolo e Kiko Dinucci
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Rock In Rio - Bon Jovi, Tears For Fears, Ney Matogrosso com Nação Zumbi, Jota Quest, Alterbridge (22/09/2017)
Minha primeira experiência em um Rock In Rio, embora totalmente normal, sem nenhum contratempo ou incidente, não posso dizer que tenha sido das mais positivas. Não sei se eu tô ficando velho, se não tenho mais paciência pra algumas coisas, se é porque a gente vai adquirindo mais critérios com o passar do tempo, mas aquela coisa toda, todo aquele complexo de entretenimento não me desce. É muito grande, tudo é muito difícil, pra se chegar num outro palco, numa praça de alimentação, num banheiro, tem que se percorrer quilômetros e pra piorar desviando de milhares de pessoas e tropeçando em outras que estão estendidas pelo chão. um festival desse é um incentivo pra quem quer deixar de beber porque conseguir uma cerveja, em determinado momento, foi um ato de perseverança e heroísmo. E é tanta roda-gigante, montanha-russa, tirolesa, joguinhos, brindezinhos que no fim das contas o público que está ali, está mais interessado em todas essas bobagens do que no que está rolando nos palcos, disperso e alheio aos shows. Aliado a escalações de artistas muito heterogêneos e atrações pouco interessantes, esta atitude neutra do público acabou se refletindo nas apresentações, até mesmo nos principais nomes que se esforçaram, fizeram seu melhor mas tiveram que lidar com um público frio e indiferente.
Não é a toa que volta e meia o palco Sunset, com um público mais interessado e atrações com propostas mais mais interessantes, rouba a atenção, e de certa forma, não foi diferente no dia em que fui.
Mas vamos então a uma breve impressão das atrações que vi no festival:
Palco Rock District
- Evandro Mesquita and The Faboulous Tab
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O palco Rock District foi uma
atração interessante.
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Palco Sunset
- Ney Matogrosso e Nação Zumbi
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| Nação Zumbi com a lenda Ney Matogrosso no palco. |
Palco Mundo
- Jota Quest
Vi pouco. Ouvi mais de longe enquanto me deslocava por algum motivo (cerveja, banheiro, comida...) mas é mais ou menos aquilo, né... Nada demais. Uma bandinha pop sem maiores pretensões e sem grande ascendência. Alguns hits, pra ser bem justo; um coro com a galera aqui, um discursinho pela paz ali e era isso. Não acrescentou nada.
- Alterbridge
Não tinha nenhuma expectativa com essas figuras, aí o show começa e a minha impressão se confirma. Uma coisa indefinida: não sabiam se eram pop, hard rock, glam, metal farofa ou sei lá o que. Lá pelas tantas explodem num trash metal furioso que parecia um Megadeth quase me fezendo bater cabeça e ter uma esperança em algo melhor dali pra frente. Alarme falso! Voltaram à mesma lenga-lenga. Terrível!
- Tears For Fears
Show competente. Bom repertório mas a impressão que dava é que eram a banda errada no lugar errado. Tem bandas que são pra 10.000 pessoas e outras que são pra 100.000. Eles estão no primeiro caso e por mais que tenham desfilado sucessos e hinos pop, não conseguiram dar conta daquilo tudo.
- Bon Jovi
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| Apesar dos pesares, Bon Jovi agradou aos fãs. |
Outra reclamação que ouvi de muitas fãs foi a ausência de alguns clássicos indispensáveis. E aí os caras privilegiam músicas novas ou a balada acústica "Someday I'll Be Saturday Night" que ninguém ia dar falta em detrimento de "Never Say Goodbye", "These Days", "Blaze of Glory" ou da reclamadíssima "Always". Bom, se tem alguém que pode cometer estes pecados e mesmo assim sair com saldo positivo é o Bon Jovi uma vez que, de um modo geral, mesmo com algumas ressalvas de repertório e um quase consenso sobre a qualidade da voz do cantor que estaria bem inferior às últimas turnês, as fãs gostaram, compreenderam e perdoaram as ausências. Eu sou suspeito, não sou muito do som deles mesmo, mas posso garantir que a patroa curtiu.
No fim das contas, para mim, que achava que seria o show do Bon Jovi seria uma espécie de tortura apache, o que posso comparar é com aquela criança que a mãe fica avisando por meses que ela vai tomar vacina e aí quando chega no dia, o pirralho tá se borrando, tipo, "Vai doer, vai doer...", e chega na hora da injeção o guri percebe que foi só uma picadinha de nada. Pois é... Doeu menos do que eu imaginava.
Bon Jovi - "You Give Love a Bad Name"
do meio do público do Rock In Rio
terça-feira, 19 de setembro de 2017
As minhas músicas preferidas de Chico Buarque (e as deles também)
Bem abrangente, a publicação da Folha traz, entre os votantes, pessoas diretamente ligadas ao artista, como a irmã Miúcha, o genro Carlinhos Brown e a companheira de estrada Gal Costa, mas também nomes bem distintos, como o carnavalesco Alexandre Louzada, autor do enredo "Chico Buarque da Mangueira", com o qual a escola foi campeã em 1998; Adelia Bezerra de Meneses, autora dos livros "Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque" e "Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque"; e o cineasta Bruno Barreto, diretor de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), que tem na trilha a inesquecível “O Que Será?”.
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| "Construção": a campeã |
É de se destacar que não apenas os clássicos consagrados pelo tempo entraram na seleção. Aparecem também obras das novas safras de Chico, como “Sinhá” (do seu penúltimo álbum, “Chico”, de 2011, parceria com João Bosco vencedora do Prêmio Tim de Música do Ano) e as recentes “As Caravanas” e "Tua Cantiga" – esta última, entre as preferidas de Zé Celso Martinez Corrêa e Miúcha.
Nessa linha, fico feliz (até por não tê-las conseguido incluir entre as minhas) em ver citados temas mais "escondidos" do cancioneiro de Chico, ou seja, aquelas músicas que não são necessariamente as mais populares e que, uma vez escolhidas, denotam um profundo apreço por parte de seu eleitor. Dentre estas, "Meio Dia Meia Lua", "Uma Canção Desnaturada", "Mil Perdões", "Quando o Carnaval Chegar" e "O Futebol". Senti falta, entretanto, de "Samba do Grande Amor" e "João e Maria", comumente queridinhas dos fãs. Porém, como se sabe, trata-se de uma obra gigantesca e qualificadíssima, por isso ausências como estas são mais do que justificáveis.
Então, vão aqui as listas das eleitas de cada participante e, claro, a minha também. Missão difícil, quase impossível. Mas como eu mesmo escrevo esta matéria, dou-me, ao menos, à liberdade de escolher não apenas três, mas 10 faixas. Eu posso.
















