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sábado, 13 de dezembro de 2025

67º Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo - Melhor Reportagem Cultural a Daniel Rodrigues - Auditório da Farsul - Porto Alegre/RS (12/12/2025)


"Não por coincidência, o senso de justiça é parte crucial da história deste filho de Xangô com Oxum chamado Renato Dornelles. Jornalista, escritor e cineasta, Renatinho, como é conhecido entre colegas e amigos, aprendeu desde cedo que, como pessoa preta, precisava achar a sua forma vencer na vida."
Trecho da matéria do Jornal do Comércio vencedora do Prêmio ARI

E deu! 1º Lugar no Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo em Reportagem Cultural, concedido pela Associação Riograndense de Imprensa. Após minha conquista do Prêmio Açorianos de Literatura, em 2013, veio, mais de uma década depois, o reconhecimento àquilo que me é mais valioso enquanto fazer: o Jornalismo. 

Essa premiação representa a mim uma série de conquistas. Primeiro, pela qualidade dos finalistas com quem concorri, alguns deles, como o amigão Marcello Campos, e Juarez Fonseca, uma referência do Jornalismo Cultural no Brasil, caras de quem tenho os livros em casa e aprendo diariamente. Afora eles, também Ana Stobbe, do Jornal do Comércio, e Camila Bengo, de GZH, jovens jornalistas que merecem todo respeito.

Página inicial da matéria do JC
publicada em abril
Segundo, porque, como alguém do cinema, é uma enorme satisfação poder tratar desse assunto através da escrita. O Jornal do Comércio me abriu espaço este ano no caderno Viver para reportagens como esta, e ninguém menos simbólico pra isso como o objeto da minha matéria: o jornalista e cineasta Renato Dornelles. A matéria, intitulada "Das páginas policiais para as imagens do cinema", foi produzida em março e publicada em 17 de abril.

Sobre Renatinho, então, o terceiro e importante símbolo dessa vitória: trata-se de uma matéria de um jornalista preto sobre um outro jornalista preto cujas famílias, vindas do mesmo quilombo urbano (que hoje chamam de Rio BRANCO...), sustentam-se pela resistência e ancestralidade. Dividi essa alegria e orgulho, inclusive, com o ilustre presidente da ARI, José Maria Nunes, primeiro presidente preto da associação em nove décadas... Diz muito. 

A ARI, aliás, também merece um aparte: são 90 anos de instituição, criada, lá nos indos de 1935, por ninguém menos que Erico Verissimo, este totem da literatura e da cultura gaúcha e brasileira que, em 2025, completa 120 anos de nascimento e 50 de morte. Tudo muito simbólico, ainda mais num ano em que perdemos, justamente, seu ilustre filho, o genial Luis Fernando Verissimo. Fora isso, o Prêmio ARI em si, em sua 67ª edição, soube ser o mais longevo do Brasil - e não só no seguimento do Jornalismo, mas em todas as áreas!

Por fim, a conquista de alguém que se sente no seu lugar e premiado por seus pares: os jornalistas. A militância do repórter, reduzida por muitos anos, foi retomada por mim este ano a todo vapor pelas páginas do JC e... taí o resultado!

Fiquem, então, com alguns momentos desse feliz momento e a listagem de todos os premiados.

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Com o mestre Renato Dornelles celebrando o prêmio e nossa ancestralidade


Dividindo a felicidade preta com o atual presidente da ARI, José Maria Nunes


Selfie com a amiga - e também vencedora na categoria
Reportagem em TV - Isabel Ferrari


Presença preta no Prêmio ARI: colega de profissão e de ACCIRS
Chico Izidro com Renatinho e eu


Foto geral dos vencedores


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Troféu Reportagem Especial – FIERGS: RS Mais Forte”
"O Fim do Futuro" – Geórgia Santos e Filipe Speck (Vós)

Troféu ARI/Banrisul de Jornalismo Universitário
"Capital da Improvisação" – Cecília Filappi (UFRGS)

Categoria Profissional - Charge
1º Lugar : "Grande Sacada" – Gabriel Renner (Grupo Editorial Sinos)
2º Lugar: "Ponto de Vista" – Iotti (Fumetta.com)
3º Lugar: " Netanyahu” Elias Ramires (Jornal Grifo)
4º Lugar: “Enchente” Santiago (Revista Digital Grifo)
5º Lugar: A última ceia" – Iotti (Fumetta.com)

Categoria Profissional - Crônica
1º Lugar: "A noite em que cheguei sangrando no hospital" – Marcela Donini (Matinal)
2º Lugar: "Bons mestres não morrem" – Juliana Bublitz (Zero Hora e GZH)
3º Lugar: "O ano do mate" – Marcela Donini (Matinal)
4º Lugar: “Coisas do Coração” – Pedro Garcia (Diário Gaúcho)
5º Lugar: “ Só sei viver em esquinas” –  Vitor Necchi (Revista Parêntese/Matinal)

Categoria Profissional - Design Editorial
1º Lugar: "Novo projeto gráfico do Caderno GeraçãoE" – Gustavo Van Ondheusden (Jornal do Comércio)
2º Lugar: "Caderno Especial 130 Anos do Correio do Povo" – Pedro Dreher e Leandro Maciel (Correio do Povo)
3º Lugar: "Mapa Econômico do Rio Grande do Sul" – Gustavo Van Ondheusden (Jornal do Comércio)
4º Lugar:” Novo Projeto Gráfico do Correio do Povo – Pedro Dreher (Correio do Povo)
5º Lugar: Ilhota: símbolo da cultura negra de Porto Alegre e berço de figuras ilustres da dupla Gre-Nal – Carlos Garcia (Zero Hora e GZH)

Categoria Profissional - Documentário em Áudio
1º Lugar: "Coronéis do Futebol - A nova face do sistema" – Rodrigo Oliveira, Eduardo Gabardo e Rafael Lindemann (Rádio Gaúcha)
2º Lugar: "Quilombo - corredor do samba de Porto Alegre: ontem, hoje e sempre" – Alan Barcellos, Matheus Freitas da Rosa e Alexandre Leboutte da Fonseca (Rádio FM Cultura - 107,7)
3º Lugar: "Desabrigados: A vida e a esperança da população atingida pelas enchentes nos centros humanitários" – Fabrine Fiss Bartz (Grupo Bandeirantes)
4º Lugar: Cinco anos da Covid no RS – André Malinoski (Rádio Gaúcha)
5º Lugar: “Bioma Pampa: das raízes familiares à luta pela preservação” – Leno Falk (Agência Radioweb

Categoria Profissional - Documentário em Vídeo
1º Lugar: "Imprescindível Jair Krischke" – Milton Cougo, Marco Villalobos, Timóteo Santos Lopes e Daniele Alves (Chuva Filmes)
2º Lugar: "Huni Kuï - Povo Verdadeiro" – Renato Dornelles, Tatiana Sager e Gabriel Sager Rodrigues (Panda Filmes/Falange Produções)
3º Lugar: "RBS.Doc -1 ano da enchente" – Isabel Ferrari, Ariane Xavier Borba Jorej Nobre, Anderson Vargas, Mauricio Gasparetto e Caroline Berbick (RBS TV)
4º Lugar: “A Reconstrução” – Mariana Ferrari(RecordPlus / Record)
5º Lugar: “Darcy Fagundes: meu famoso pai desconhecido” – Luciane Fagundes (Produtora Século 21)

Categoria Profissional - Fotojornalismo
1º Lugar: "Superação do Trauma com Rodas que Transformam" – Ricardo Giusti Schuh Reif
2º Lugar: "Silêncio" – Itamar Aguiar (JÁ On Line)
3º Lugar: "A dor da mãe que perdeu a filha para o feminicídio" – Mateus Bruxel (Zero Hora)
4º Lugar: ” Cozinha Solidária exige passagem” – Jorge Leão – (Brasil de Fato)
5º Lugar: “O gato preto” – Duda Fortes (Zero Hora)

Categoria Profissional - Reportagem Cultural
1º Lugar: "Das páginas policiais para as imagens do cinema" – Daniel Rodrigues (Jornal do Comércio) 
2º Lugar: "Cruz Alta e Erico, entre o real e o imaginado" – Ana Stobbe (Jornal do Comércio)
3º Lugar: “Conheça a história de Nega Lu, ícone negro e LGBT+ que faz parte da memória coletiva de Porto Alegre” – Camila Bengo(GZH)
4º Lugar: “Cultura de Bandeja” – Marcello Campos (Jornal do Comércio)
5º Lugar:”Os 80 anos de Elis Regina” – Juarez Fonseca (Jornal do Comércio)

Categoria Profissional - Reportagem Econômica
1º Lugar: "Mapa Econômico RS" – Eduardo Torres, Ana Stobbe e Guilherme Kolling (Jornal do Comércio)
2º Lugar: "Trump quer transformar os EUA na maior ‘superpotência’ do bitcoin" – Marcus Meneghetti (Jornal do Comércio)
3º Lugar: "Passo Fundo tem ampla expansão imobiliária" – Ana Stobbe (Jornal do Comércio) 
4º Lugar: “Maior parte das empresas superou a enchente, mas quadro ainda traz desafios” – Karina Schuh Reif (Correio do Povo)
5º Lugar:” De peixe a café: bancas do Mercado Público se tornam indústrias e expandem negócios” – Guilherme Gonçalves (Zero Hora)

Categoria Profissional - Reportagem em Áudio
1º Lugar: "O Fim do Futuro" – Geórgia Santos e Filipe Speck (Vós)
2º Lugar: "Série Especial: Tragédia da Boate Kiss: memória, silêncio e impunidade" – Eduardo Covalesky (Grupo Radioweb)
3º Lugar: "Pequenos invisíveis: a cada 24 horas, sete crianças ou jovens sofreram maus-tratos no RS" – Kathlyn Moreira e Vicente Nolasco (Rádio Gaúcha)
4º Lugar:” Um maio depois: Histórias da enchente – Fabrine Fabrine Fiss Bartz (Grupo Bandeirantes)
5º Lugar:” Desatenção e hiperatividade: como é a vida de pessoas com TDAH?  - Renê Almeida (Agência Radioweb)

Categoria Profissional - Reportagem em Texto
1º Lugar: "Crianças órfãs de feminicídio : traumas, perdas e a luta por direitos" – Fabiana Reinholz (Brasil de Fato RS)
2º Lugar: "Evasão escolar pós-enchente" – Isabella Sander (Zero Hora)
3º Lugar: "Violência contra crianças e adolescentes cresce no RS e atinge níveis alarmantes, mostra levantamento" – Fabiana Reinholz (Brasil de Fato RS)
4º Lugar:” Crimes que marcaram o Rio Grande do Sul” – Deivison Ávila (Jornal do Comércio)
5º Lugar:” Violência no ambiente escolar: as lições para evitar o pior” – Ermilo Drews(Grupo Sinos)

Categoria Profissional - Reportagem em Vídeo
1º Lugar: "O drama da moradia provisória - um registro de 6 meses após a enchente" – Isabel Ferrari (Fantástico/Rede Globo)
2º Lugar: "JA Repórter: O sonho da moradia digna" – Mary Silva , Fayller Aprato, Felipe Toledo, Marco Matos, Bárbara Cezimbra, Ronaldo Sabin, Sid Rafael e Moisés Costa (RBS TV)
3º Lugar: "Artur: o menino cego que narrou futebol do estádio" – Kelly Teixeira da Costa, Bruno Halpern, Rafael Techera, William Ramos e Eduardo Ostermayer (RBS TV)
4º Lugar:” JA Repórter: caçadores promovem matança em área de preservação do RS – Vitor Rosa (RBS TV)
5º Lugar:” Corre RS: Histórias de Maratona – Eduardo Rachelle (RBS TV)

Categoria Profissional - Reportagem Esportiva
1º Lugar: "Por que as entrevistas sumiram do futebol?" – Victória Rodrigues e João Paulo Jobim Fontoura (Correio do Povo)
2º Lugar: "Como a internet mudou o cenário do futebol" – Carlos Correa (Correio do Povo)
3º Lugar: "Série especial 'Esporte Atrás das Grades'" – André R. Herzer (Zero Hora)
4º Lugar:” Nossa Voz 2024 –  Mariana Dionisio (RBS TV, ge.globo/rs, GZH, Zero Hora e Diário Gaúcho)
5º Lugar:” Acabou a Grandeza?!? – Fabrício Falkowski (Correio do Povo)

Categoria Profissional - Reportagem Nacional
1º Lugar: "Cortina de Vapor" – Pedro Nakamura (O Joio e o Trigo)
2º Lugar: "Tubarão ameaçado no prato" – Karla Mendes, Philip Jacobson, Kuang Keng Kuek Ser e Fernanda Wenzel (Mongabay Brasil)
3º Lugar: "As marcas do racismo na escola" – Iara Balduino, Paulo Leite, Rogerio Verçoza, André Pacheco, Sigmar Gonçalves, Carolina Oliveira, Patrícia Araújo, André Eustáquio, Márcio Stuckert, Alex Sakata, Caroline Ramos , Wagner Maia, Alexandre Souza, Dailton Matos, Edivan Viana , Rafael Calado e Thiago Pinto (TV Brasil)
4º Lugar:” A TECNOLOGIA USADA COMO INSTRUMENTO PARA FORTALECER A CULTURA DE UM POVO INDÍGENA DO ALTO XINGÚ EM MATO GROSDO” – Eunice Ramos (TV GLOBO / TVCA)
5º Lugar:” Perseguição institucional e distúrbios mentais: o efeito dos crimes sexuais nas forças policiais do país – Herculano Barreto Filho (Do UOL)

Categoria Universitária - Fotojornalismo
1º Lugar: "Capital da Improvisação" – Cecília Filappi (UFRGS)
2º Lugar: "Disposição para recomeçar" – Diogo Beltrão Duarte, Felipe Kramer Damian, Gabriel Vieira da Silva e Lorenzo Vieira de Castro (UFRGS)

Categoria Universitária - Projeto Especial em Jornalismo
1º Lugar: "5198: profissão prostituta" – Vittória Becker, Thayna Weissbach, Pedro Stahnke , Isadora Prigol e Gustavo Marchant (PUCRS)
2º Lugar: "Wacki Jacko: Uma análise da representação do cantor Michael Jackson nas matérias do jornal tabloide The Sun " – Renata Rosa (UFRGS)
3º Lugar Menção honrosa: “Bi-chas, trans e sapatões de Porto Alegre” – Vittória Becker, Thayna Weissbach e Alana Borges (PUCRS)
4º Lugar Menção honrosa :” O Papel do Jornalista no Resgate de Histórias Silenciadas: Uma análise da apuração de Christa Berger para a biografia
de Jurema Finamour”–  Ana Julia Zanotto(UFRGS)
5º Lugar Menção honrosa:'Show de Copa em Zero Hora': uma análise da cobertura do periódico da Copa do Mundo de 1970 – João Pedro Bernardes
( UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Áudio
1º Lugar: "Podcast Causa Mortis: Misoginia" – Maria Luiza Rocha, Amanda Steimetz Thiesen e Manuela Saudade Cassano (PUCRS)
2º Lugar : "O Preço da Sorte" – Felipe Kramer Damian, Lorenzo Vieira de Castro, Isabela Daudt e Diogo Beltrão Duarte (UFRGS)
3º Lugar Menção honrosa: "Comércio da Salvação" – Gabriel Magagnin Fernandes, Tainan Nunes, Roberta Kunt, Gabriela Dalmas, Sofia Utz,
Theo Castro e Jean Carlos (PUCRS)
4º Lugar Menção honrosa: Encurraladas - Histórias de mulheres jornalistas sobre violência de gênero – Laura Cunha( UniRitter)
5º Lugar Menção honrosa: Raízes que Resistem: Comunidades Quilombolas em Porto Alegre –  Amanda Schultz (UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Texto
1º Lugar: "Denúncia contra projeto do Zaffari expõe falhas no licenciamento ambiental em Porto Alegre" – Dener Pedro, Bárbara Cezimbra de Andrade e
Juliano Lannes de Oliveira (Unisinos)
2º Lugar: "Gerontologia ambiental traz alternativas para o envelhecimento seguro em meio às mudanças climáticas" – Francisco Avelino Conte (UFRGS)
3ºLugar Menção honrosa: "O que afasta os jovens do ensino superior? " – Rafaela Bobsin e Júlia Cristofoli Campos (UFRGS)
4º Lugar Menção honrosa: Tragédia sem rosto: quem eram as vítimas da Pousada Garoa? – Pedro Pereira (PUCRS)
5º Lugar Menção honrosa: Sobre viver no limbo –   Thomas Gregório (UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Vídeo
1º Lugar: "Os Centenários de Porto Alegre " – Arthur Reckziegel, Tânia Meinerz e Nathan Lemos (Unisinos)
2º Lugar: "Improviso e Resistência: A realidade das escolas indígenas gaúchas" – Fernanda Axelrud, Beatriz ,Antônio de Macedo Ferraz de Campos,
João Pedro Kovalezyk Bopp, André Jakubowski Zoratto, Ana Carolina Lorenzini e Nathalia Ferrari da Silveira (PUCRS)
3ºLugar Menção honrosa: "Vozes do Esporte" – Vitor Christofoli (UniRitter)
4º Lugar Menção honrosa: Direito à cidade: A luta por moradia em Porto Alegre – Luciana Weber (PUCRS)
5º Lugar Menção honrosa: Violência Policial no Rio Grande do Sul –  Nikelly de Souza (UFRGS)


texto: Daniel Rodrigues
fotos: Mariana Czamanski (ARI) e Isabel Ferrari

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Moacir Santos - "Coisas" (1965)


"Moacir Santos é um jedi."
Ed Motta

"Eu sou o 'Ouro Negro' do Brasil."
Moacir Santos

A música popular brasileira, mesmo com sua trajetória centenária, demorou a se reconhecer negra. O samba, ritmo mais característico do Brasil, embora a gênese africana, com elementos oriundos das nações Banto, Iorubá, Jeje, Mina, Bornu, Gurunsi e outras, sofreu, ao longo do tempo, com diversas intervenções que, às vezes propositalmente, o distanciaram da origem. Caso do "boleramento" do samba da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50, e da própria bossa-nova, demasiado jazz para ouvidos mais ortodoxos. O morro, mesmo, não aparecia no cenário. Ambas as ondas propunham características tão estrangeiras, que só faziam reduzir o espaço simbólico da verdadeira raiz da música brasileira, fosse por modismo, entreguismo ou, pior, vergonha.

Jorge Ben, com o emblemático “Samba Esquema Novo”, de 1963, foi o primeiro sopro de resgate deste africanismo na MPB. Instintivo, pop e moderno, levava a raiz afro-brasileira a outro nível ancorado na tradição violeira. Mas ainda era pouco. Se se olhar para uma das pinturas de Heitor dos Prazeres (aliás, também um grande sambista), que tematizam a gente do samba dos morros e das ruas, fica claro que havia uma série de outros instrumentos – e, portanto, outras texturas e tonalidades – nas rodas e cordões cariocas do início do século 20, que iam além do pandeiro e tarol. Como descreve José Ramos Tinhorão em seu “Os Sons Negros no Brasil”, cabia no samba toda a influência ibérica trazida da Europa pelos portugueses, como o fado e a fofa, mais as diversas culturas diaspóricas vindas da África, tal o batuque, o calundu, o folguedo e a umbigada.

Alguma coisa haveria de salvar a africanidade na música brasileira, e isso veio das mãos de Moacir Santos. Compositor, arranjador, saxofonista e vocalista, este pernambucano lança seu primeiro e absolutamente marcante álbum de estreia com base nas lições que ensinava a seus alunos, as despretensiosamente chamadas “coisas”. Acontece que essas "coisas" eram preciosidades, assim como os seus seguidores. Seus discípulos – entre eles, nada menos que Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal – aprenderam estes valiosos ensinamentos de harmonia e composição com um já maduro e experiente músico capaz de sinterizar mundos. Ex-integrante de orquestras de circo e bandas militares de diversas cidades do Nordeste, nos anos 40, Moacir, após trabalhar como instrumentista e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, em 1951, já no Rio de Janeiro, aperfeiçoou seus estudos eruditos com os maestros alemães Ernest Krenek (que o introduz na técnica dodecafônica) e o célebre Hans-Joachim Koellreuter, de quem se tornou assistente, além de estudar também com Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe.

Lançado há 60 anos pelo cultuado selo Forma – responsável por obras icônicas da música brasileira dos anos 60 como “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes e Baden, e a trilha sonora de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o filme de Glauber Rocha“Coisas” é justamente o nome dado ao disco que resume as avançadas ideias musicais de Moacir Santos. O trabalho revitaliza a bossa-nova sob a aura das matrizes africanas, ao passo de que também engendra harmonias jazzísticas e ritmos da cultura nordestina, como o frevo, o samba-de-roda, o maracatu e as bandas marciais. A valorização da cultura negra é perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a esse matiz. Coisa de gênio. 

São apenas 10 coisas, ou melhor: 10 lições instrumentais, que inventam esse Brasil profundo e sofisticado de Moa. "Coisa n° 4" não à toa passa à frente de suas três companheiras ordinárias para abrir o disco, visto que escolhida para provocar o impacto necessário ao florescer da obra. E o cumpre com louvor: um ritmo de ponto de candomblé se funde a uma base de metais em tom baixo, como o de uma banda marcial em dia de quermesse. É quando entra o trombone solo de Edmundo Maciel desenhando o riff, que serpenteia com elegância o ritmado carregado do culto de orixá. Depois, juntam-se trombone, metais e madeira, num desenvolvimento melódico airoso.

Moacir, revolucionário e mestre dos mestres
da música brasileira 
Dá tempo de recuperar o fôlego – talvez nem tanto assim – com a “nº 10”, uma bossa-nova com traços caribenhos com uma das melodias mais bonitas já escritas por Moacir. Samba-jazz puro, seja no toque sincopado do piano, seja na insinuante linha do trompete. Tudo muito apurado e com clara referência aos mestres Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato e Antônio Maria.

Recuperando o tema escrito dois anos antes para a trilha sonora de “Ganga Zumba”, o primeiro filme de Cacá Diegues, “Tema de Nanã” vira agora a “Coisa nº 5”. Novamente, como na abertura do disco, o toque percussivo prevalece, mas logo se transforma numa marcha, que dignifica o gênio militar do herói quilombola. O arranjo de Moacir é espantosamente bem arquitetado, conjugando todos os metais e madeiras (sax alto, sax barítono, sax tenor, trompete, trombone, trombone baixo e flauta). Um ano antes, Nara, com arranjos do próprio autor, a incluiria em seu celebrado álbum de estreia cantando-a apenas em melismas. Somente em 1972 a música ganharia letra – e em inglês – no LP “Maestro”, que Moacir gravaria já nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1967 para lecionar e exercer trabalhos free-lancer para cinema.

Enquanto o tema “3” é quase o estudo de um samba minimalista escrito sobre a combinação de três acordes, a “segunda coisa”, que vêm na sequência, esmera num jazz sensual e enigmático conduzido pela bateria de Wilson das Neves e o vibrafone do seu irmão, o também percussionista Cláudio das Neves. Desfilam solos da flauta de Copinha e o trombone baixo de Armando Pallas sobre uma base arranjada no tom médio dos metais. Nesta fica clara a habilidade melódico-harmônica de Moacir, que emprega escalas modais e ambíguas no uso das terças (ora maiores, ora menores), gesto que que torna o número ainda mais negro.

Outra estonteante é a de “nº 9”, subtitulada "Senzala", um lamento nagô com ares jazzísticos cujo toque do sax alto sustenta uma das melodias mais bonitas da música brasileira pós bossa-nova. Há algo arábico nessa melodia em permanente mistério, como uma saudade da mãe-África, como um banzo. Não se nota exaltação: apenas o sofrimento calado das correntes prendendo a pele escrava na escaldante noite no engenho. Já a “Coisa nº 6” acelera o compasso para um samba gafieira em que a volumosa instrumentalização dignifica Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Ritmada, suingada e lindamente melodiosa.

Não menos brilhante, a “sétima lição” é um samba-jazz exemplar, das melhores desse primeiro e referencial repertório de Moacir. Já a “Coisa nº 1”, não menos elegante, forja-se sobre uma sutil percussão de bongôs, um violão sincopado e a dança dos metais, que esculpem este samba cadenciado, que capta as lições da bossa nova e as ressignifica ao deslocar rítmicos e métricos, característica do compositor pernambucano.

Intitulada de “Navegação” em 2001, quando ganhou letra de Nei Lopes e vocal de Milton Nascimento para o álbum-tributo “Ouro Negro”, produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet, e um dos mais cultuados temas do cancioneiro de Moa, a “Coisa nº 8” é a escolhida para fechar essa pequena ópera preta. E no mais alto nível de musicalidade e sofisticação. Mesmo sem o vocal, é possível embarcar neste navio moaciriano e intuir os versos: “Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”.

Não é exagero dizer que, se não existisse “Coisas”, não existiriam “Os Afro-Sambas” de Vinicius e Baden, nem a África universal do Milton de “Minas"/"Geraes”, nem a “Maria Fumaça” soul-funk da Black Rio, nem o samba enraizado do Martinho da Vila de “Origens”, nem a “Refavela” de Gilberto Gil, nem a musicalidade colorida da Europa moura de Djavan. Não haveria lastro para tudo isso não fosse Moacir Santos e o salvamento que ele promoveu à música brasileira negra. Tal uma nova abolição. Como disse Ed Motta, Moacir é “essa mão de proteção sobre as nossas criações e de tudo que a gente tem pra fazer daqui pra frente”. O que quer dizer muita, mas muita coisa.

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FAIXAS:
1. "Coisa Nº 4" - 4:01
2. "Coisa Nº 10" (Moacir Santos, Mário Telles) - 3:06
3. "Coisa Nº 5 (Nanã)" (Santos, Telles) - 2:45
4. "Coisa Nº 3" - 3:00
5. "Coisa Nº 2" - 4:55
6. "Coisa Nº 9 (Senzala)" (Santos, Regina Werneck) - 3:08
7. "!Coisa Nº 6" - 3:22
8. "Coisa Nº 7 (Quem É Que Não Chora?)" (Santos, Telles) - 2:25
9. "Coisa Nº 1" (Santos, Clovis Mello) - 2:41
10. "Coisa Nº 8 (Navegação)" (Santos, Werneck) - 2:19
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Ivan Lins - "Chama Acesa" (1975)


 

“Por baixo essa terra marcada/ Do lado direito essa tristeza/ Do outro, me dói, não há nada/ Mas em cima essa chama acesa”. 
Da letra de "Chama Acesa"


Um perigoso autoengano pairava no ar no Brasil de 1974. Após os anos de linha-dura de Médici, o governo militar passava para as mãos do General Ernesto Geisel aventando começar uma abertura política. Uma esperança. Desde o AI-5, em 1968, intensificavam-se a violência de Estado, a repressão, a censura prévia, os desaparecimentos, as prisões e o silenciamento das vozes oponentes. Havia de se ter um alento com a troca do comando. Afinal, lutar cansa. Infelizmente, não foi o que se sucedeu. Tanto que, depois se viu, precisaram-se de mais 11 anos para que a democracia voltasse efetivamente e a mão pesada da ditadura se manteve ainda muito ativa e sangrenta naquela metade dos anos 70. Estava claro: eles não iriam entregar o país de bandeja após o terem tomado pela força 10 anos antes com todos os custos que isso carrega. E se se nutria alguma ilusão de arrefecimento, o assassinato brutal do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, não deixou dúvidas de que os milicos estavam, sim, longe de baixar as armas.

Um dos que não se iludiu com a promessa de melhora no contexto político brasileiro de então foi Ivan Lins, um dos deuses da MPB, que chega hoje a 80 anos de vida. Já consagrado na voz de Elis Regina em 1970, com "Madalena", e um dos reconhecidos novos talentos do Movimento Artístico Universitário (MAU), Ivan levou, no entanto, alguns anos para se desfazer da imagem conformista - a qual talvez até hoje persista para alguns em certa medida. Muito por conta da música “Esse É o meu País”, que fez um inconveniente sucesso naquele mesmo ano, o que soava para a esquerda como uma piada sem graça do pior período de ditadura que o país vivia. Resultado? “Cancelamento”. Mas o filho musical de Tom Jobim e Milton Nascimento, melodista e harmonista sofisticado e de raro talento, àquela altura já havia entendido o lugar que devia ocupar. Sem medo da vigília seja do poder ou da oposição, em 1974 ele aciona o "Modo Livre", ao mesmo tempo nome de sua banda e de seu LP daquele ano, o que se torna, igualmente, o começo de uma nova fase na carreira: crítica, denunciativa, combativa – mas não menos poética e musical.

Esse espírito liberto deu a Ivan a certeza de que era momento de seguir com as armas em punho diante daquele cenário opressivo. Era necessário manter, como dizem, a “Chama Acesa”, justamente o nome do efervescente álbum que lançava em dezembro de 1975 pela gravadora RCA e o qual, assim como Ivan, faz também aniversário de data fechada em 2025, completando 50 anos. Valendo-se de sua maravilhosa musicalidade e de sensíveis letras, ele retoma o caminho aberto em “Modo Livre”, porém com importantes acréscimos, que vêm para intensificar a potência de seu corajoso discurso, agora ainda mais ardente. O principal deles é o estabelecimento definitivo da maior parceria de sua carreira, a com Vitor Martins. O letrista, que havia assinado com ele no trabalho anterior a simbolicamente intitulada “Abre Alas”, iniciando a parceria, agora responde por quase a metade das faixas do disco, dando não apenas unidade poética à obra como, principalmente, revelando o nascimento de uma das mais afinadas duplas da música popular brasileira contemporânea criadora de clássicos como “Um Novo Tempo”, “Cartomante”, “Começar de Novo”, “Vitoriosa”, "Iluminados" e “Lembra de Mim”, estas três últimas, temas de novelas da Rede Globo.

Em “Chama...” já era possível ver cristalizada a afinidade musical Ivan/Martins numa sequência vertiginosa: "Lenda do Carmo", totalmente referenciada na sonoridade de Milton Nascimento/Clube da Esquina; "Joana dos Barcos", bossa nova onírica e contística; e "Ventos de Junho'", que fecha essa sequência “mineira” com versos preocupados: “E hoje, horizontes farpados, soleiras/ Trancas, tramelas, porteiras/ Que nos caminhos de Minas/ Não abrem mais”. Nem uma vírgula era desaproveitada para se dar o recado.

A contundência maior, porém, vem no espetacular afoxé “Demônio de Guarda” ("Você vigia meus sonhos/ Me dá cachaça e as noites de orgia/ Você me dá a preguiça/ Me dá a conversa vadia de esquina/ Pra depois me jogar a polícia em cima") e, principalmente, em "Corpos", que encerra o disco dando o tom de gravidade que aqueles tempos exigiam. Dois títulos que, afora suas letras e a forma expressiva da interpretação, já dizem por si. Quanta audácia titular “Corpos” uma música para finalizar uma obra lançada menos de 2 meses depois da escandalosa morte por tortura de Herzog cuja foto do corpo falsamente enforcado tornou-se um símbolo da luta pela democracia! A letra, aparentemente amorosa, na verdade, não deixa por menos em denunciar o barbarismo e o calamento: "Existem mais corpos/ Ou vivos, ou mortos/ Entre eu e você/ Procure saber, procure em mim/ Procure em você/ Procure em todos/ Na lama, no lodo/ Na febre, no fogo".

Contudo, Ivan sabiamente mantém também outros valiosos parceiros de antes, como com o craque Paulo César Pinheiro e o primeiro deles, Ronaldo Monteiro. Ambos, igualmente indignados com o terror da ditadura e o cerceamento das liberdades, usam suas fervorosas poéticas para o mesmo fim: denunciar. Mas, claro, fazem com erudição e inteligência. Com Pinheiro, que assinara com Ivan um ano antes "Rei do Carnaval", tema de abertura de “Modo Livre”, agora retoma com nada menos que a devastada (e devastadora) faixa-título: "Você está parado na estrada/ Contemplando toda a redondeza/ Atrás a cidade assustada/ Na frente a cruel fortaleza". É deles também a etílica "Poeira, Cinza e Fumaça", balada desesperançada com “versos comuns de desgraça”. Quanto exercício literário para fazer poesia de resistência sem que a censura percebesse!

Com Ronaldo, igual sintonia. Parceiros desde o início da carreira de Ivan, agora eles vêm com “Palhaços e Reis”, que traz a metáfora circense e/ou carnavalesca para criticar o circo político da ditadura a qual Ivan aproveitaria novamente em trabalhos seguintes, como na faixa-título de “Somos Todos Iguais Nesta Noite”, do disco deste mesmo nome, de 1977, e subtitulada “É O Circo de Novo”, ou “Cantoria”, de “Nos Dias de Hoje”, de 1978. Os versos não deixam entender outro sentido, que não este mesmo: "Olha, morena/ Me dói, me dá pena/ Saber o que a vida nos faz/ Destrói, desacata/ Maldiz e maltrata/ O ano inteiro".

Tão cáustica quanto é a bossa nova "Não Há Porque", igualmente com Ronaldo, cujo abrasivo solo de flauta acompanha o sufocante encadeamento, que amontoa progressivamente rimas num crescendo a cada verso: “Do estado desse mundo Deus está ciente/ Na espreita sobrevivo até comicamente/ Os efeitos vêm a público amargamente/ Um estranho ao me ver, percebe claramente.” Se um estranho percebia tamanha inconformidade, imagine-se os milicos! Que afronta! E o jeito fervoroso, quase furioso de Ivan cantar, faz a música ficar ainda mais ardente.

Ivan, ao fundo com Vitor Martins e Gilson Paranzetta,
essenciais para manter acesa a chama do inconformismo
Mas Ivan, músico completo que é, não precisa valer-se sempre de parceiros. Afinal, são duas só dele que abrem o disco. E põe para ferver: “Não me afague o rosto/ com essa mão farpada/ Não me afogue em poço/ que eu não beba água”. Esses versos, claramente referindo-se às torturas praticadas pelos militares, é da fantástica “Sorriso da Mágoa”. A abertura da música traz a atmosfera tensa de um tema de série policial para, depois, cair num samba-jazz conduzido pelo piano elétrico de Gilson Peranzzetta, este o outro novo ator determinante para o resultado de “Chama...”. É o pianista e arranjador, o qual se tornaria, assim como Martins, também um constante contribuidor de Ivan, que dá o tom jazzístico de todo o álbum, avançando em concepção sonora em relação aos discos anteriores. Os solos de sax e/ou flauta de Ricardo Ribeiro, bem como as do próprio Peranzzetta nos teclados, bem como a liberdade nas execuções de uma banda intitulada exatamente de Modo Livre, fazem deste disco o mais potente em termos de arranjo entre todos da discografia de Ivan.

Impressiona o quanto Ivan estava imbuído de aproveitar cada verso, cada palavra, cada pronúncia, para manifestar inconformismo, seja em forma de afronta, indignação, medo, ameaça, revolta ou melancolia. "Nesse Botequim", samba-canção na linha de outros que comporia mais adiante (“Esses Garotos”, “Saindo de Mim”, “Qualquer Dia”), é de uma tristeza corrosiva. Aliás, como muitos compositores manifestavam através de suas músicas à época, a se ver pelas penosas “Chegadas e Partidas”, de Milton/Fernando Brant, “Samba de Orly”, de Chico Buarque, ou "Café", de Egberto Gismonti. Doloridas. "Nesse Botequim" se vale da imagem do espaço popular onde as pessoas deveriam ser felizes, mas que, naquele estado de coisas, não ocorria bem assim. “Nas portas desse botequim/ Passaram tempos antigos/ Passaram sonhos, amigos/ Passaram crimes, castigos”. Ou seja: o “botequim” era, metaforicamente, o Brasil onde passavam “barbas, batinas” e, pior, “mãos assassinas”. E no final Ivan ainda evoca Tom Jobim, porém ressignificando a brejeira “Águas de Março” ao destacar-lhe apenas os versos iniciais: "É pau, é pedra, é o fim do caminho/ É um resto de toco, é um pouco sozinho". É: era pau, era pedra, era solidão. 

Se “Modo Livre”, que abriu caminho para o Ivan engajado e inconformado, “Chama...” deu-lhe prosseguimento – até porque o cenário, infelizmente, não aliviara. As capas de ambos os discos dão essa ideia de inevitabilidade: em “Modo...”, Ivan aparece em uma foto azulada em que parece assustado, pois prestes a "se afogar" na "água", em “Chama...”, ao contrário, seu rosto quase em êxtase está sob cores quentes de fogo. Tanto um estado físico quanto outro simbolizando a tortura física, psicológica e emocional dos porões da ditadura. Seja num extremo ou noutro, água ou fogo, o mesmo grito. Assim, “Deixa eu dizer o que penso dessa vida/ Preciso demais desabafar”, da clássica "Deixa eu Dizer", do trabalho anterior, conecta-se diretamente com os então novos versos de “Não Há Porque”: “A espécie dessa vida é morte que se sente/ A espera se renova em todo poente/ Qual espuma vivo fraco, mas eu vou em frente”.

Neste duplo aniversário, de 80 de Ivan e de 50 de “Chama...”, muito se tem por comemorar, mas também por alertar. Um dos mais celebrados autores da música brasileira, admirado por gente como Quincy Jones, Sarah Vaughn, George Duke, Ella Fitzgerald e George Benson, merece todos os aplausos. O disco, o segundo de uma série de cinco trabalhos essenciais de Ivan dos anos 70, embora reflexo doloroso de uma época, guarda em si justamente esta qualidade: a de expressar-se corajosamente e num alto nível musical e poético. Porém, não há como olhar para trás e deixar de lembrar que, há cinco décadas, atrocidades estavam sendo cometidas pelo próprio Estado contra seus cidadãos. Isso jamais deve ser esquecido, e para que nunca mais se permita repetir é necessário manter a chama, ainda hoje, acesa. E “quem quiser discordar eu vou desconfiar”. Pra valer.


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FAIXAS:
1. "Sorriso da Mágoa" (Ivan Lins) - 4:41
2. "Nesse Botequim" (Lins) - 2:43
3. "Chama Acesa" (Lins, Paulo César Pinheiro) - 1:59
4. "Lenda do Carmo" (Lins, Vítor Martins) - 5:40
5. "Joana dos Barcos (Beira-Mar)" (Lins, Martins) - 2:37
6. "Ventos de Junho" (Lins, Martins) - 2:54
7. "Não Há Porque" (Lins, Ronaldo Monteiro) - 4:11
8. "Demônio de Guarda" (Lins, Martins) - 3:49
9. "Poeira, Cinza e Fumaça" (Lins, Pinheiro) - 3:20
10. "Palhaços e Reis" (Lins, Monteiro) - 4:33
11. "Corpos" (Lins, Martins) - 3:57

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Filó Machado - Grezz - Porto Alegre/RS (27/05/2025)


Filó Machado foi uma descoberta tardia, que o POA Jazz Festival de 2014 me trouxe. Naquela edição, o show dele foi surpreendentemente o melhor da noite em que se esperava que o "bruxo" Hermeto Pascoal ocupasse esse espaço. A partir dali, passei a ter contato direto com o som e a impressionante musicalidade desse paulista genial cujo obscurantismo (ou segmentação) dentro da indústria cultural no Brasil só pode ser explicado pela incapacidade do brasileiro de assimilar suas próprias coisas boas. Afinal, surgido à mesma época que Djavan, que guarda MUITAS semelhanças com a musicalidade de Filó, a mesma indústria acabou por separá-los em caixinhas: um na popular, para rodar na mídia, e o outro no segmentação, destinado a ouvidos mais "exigentes".

Ocorre que Filó, 74 anos e carreira tão consolidada quanto robusta, vai muito além da sonoridade “djavanesca” e não é nada difícil apreciar sua música, Excelente guitarrista, é um cantor, compositor e arranjador daqueles que o Brasil deveria diariamente se orgulhar. E se os brasileiros não lhe dão o devido reconhecimento, os estrangeiros, estes sim, dão. Admirado por artistas do calibre de Michel Legrand, Jon Hendricks, John Patitucci e Warvey Waynape - além de brasileiros de alcance internacional, como Gal Costa, João Donato, Joyce e outros - Filó é ovacionado no Japão, Estados Unidos, França, Rússia, Holanda, Bélgica, Lituânia, Canadá, Equador, Croácia e mais dezenas de países. Tivemos a oportunidade Leocádia e eu de fazermos o mesmo novamente após 11 anos.

Desta vez, no entanto, foi mais especial ainda. Na nossa primeira vez no Bar Grezz, localizado na região do 4º Distrito de Porto Alegre e que fora fortemente afetada pelas enchentes de um ano atrás, pudemos ver de perto um show muito mais intimista de Filó. Ele cantou, contou histórias e emanou toda sua infinita musicalidade, que entremeia bossa nova, jazz, samba e soul com a naturalidade dos deuses negros da música. Acompanhado dos músicos locais Ras Vicente (piano), James Liberato (baixo) e Renato Popó (bateria), Filó iniciou cantando nada mais, nada menos que o samba perfeito “Acontece”, de Cartola. Só ele e o violão elétrica. Uma música que, na sua versão original, econômica e limpa, dura pouco mais de 1 min, com Filó ganhou a dimensão dramática que a própria melodia sugere. Um começo de arrepiar.

Simpático e conversador, Filó falou sobre “Jogral” antes de cantá-la. Gravada em 1981 por Djavan, então um assíduo frequentador da casa noturna onde Filó tocava em São Paulo, a história elucida de onde veio a ideia do suingue, das divisões rítmicas e das construções harmônicas que tanto caracterizaram a sonoridade do autor de “Oceano”. “Meu pensamento rodou/ Cortando o torrão nesse trem, andando bem/ Acho que a mais de cem/ De Maceió aqui parece ali”. Parece letra escrita por alguém nascido na capital do Alagoas como Djavan, né? Mas, não: é de Filó.

As lindas melodias prosseguiram: a emocionante “Por Onde Andávamos”, parceria com o célebre Sérgio Ricardo (“Por onde andávamos quando éramos estranhos/ Quem sabe estivéramos perto a ponto de nos tocar”), que fala sobre a sincronicidade da vida e do amor; a hispânica “Carmens e Consuelos”, esta com outro genial, Aldir Blanc, presente no disco mais recente de Filó, “Cisne Negro”, lançado em 2024, somente com parcerias inéditas dele com o saudoso letrista de outros clássicos da MPB como “O Bêbado e a Equilibrista” e “Delírio Carioca”; o suingado samba “Amar a Maria”, que faz um admirável jogo sonoro com as palavras (“Mas a Maria não estava nem aí/ A Maria é uma Maria se ela estivesse fora de si”); e uma das minhas preferidas dele, “Perfume de Cebola”, esta, com o poeta mineiro Casaco, que se ele não tocasse, eu ia pedir, juro.

A admirável musicalidade de Filó, seja no violão vívido e jazzístico, seja nas melodias cheias de pulsação e criatividade harmônica, também se expressava nos deliciosos melismas ao estilo George Benson em que não apenas fazia duos da voz com ao próprio violão, como, percussionista que também é, inventava solos de percussão com a boca. E que solos! Isso quando não chamava a nós da plateia para acompanhar em seus acordes, às vezes difíceis de arremedar. Rolou este expediente vocal no pot-pourri de “Je Viens te Dire la Verite”, parceria com o músico francês Michael Legrand e cantada por Filó, claro, num invejável francês, emendada com uma das composições dele e da musicista carioca Fátima Guedes, no caso, a belíssima “Blue Note”, gravada por ela em 1983.

Teve também participação do músico gaúcho de vasta experiência internacional Adriano Trindade, que tocou com o mestre e professor duas belas canções: “Canto da Senzala” (parceria com Gelson Oliveira) e uma ótima “milonga jazz”, a qual contou também com a participação de Dida Larruscaim e Pietra Keiber, chamados ao palco para uma jam.

O gaúcho Adriano Trindade tocando com uma milonga com o mestre Filó Machado

Filó reservou sabiamente para encerrar o show sua abismal versão de “Take Five”, clássico jazz modal de Dave Bruback, que ele transforma num samba-jazz visceral e muito, mas muito brasileiro! Shows de improviso, melismas e desempenho da banda. No bis, amável, Filó acatou pedidos da plateia. E que bom, pois uma das solicitadas foi a belíssima “Venha até a Minha Casa”, dele e de Judith de Souza, das joias do seu brilhante álbum “Canto Fatal”, de 1984. Surpreendendo gregos e troianos (aliás, gaúchos), ele ainda manda ver numa versão do samba do nome negro da MPG, Gelson Oliveira – que, infelizmente, me escapa o título da canção.

Um desbunde. É a melhor definição que se pode dar. Há centenas de talentos no Brasil, mas certamente poucos guardam tantas qualidades reunidas como Filó Machado. E com todo respeito e admiração a Djavan, há de se convir, depois de ouvir e ver Filó assim, tão de perto, que a sina de cada um merece, digamos, os seus devidos lugares. Como querer filonear o que há de bom – e de muito bom.

***************

Começa o show!

Somente Filó e seu violão tocando Cartola. Nem precisava mais

Surpresas, participações e muito jazz

Visão geral da banda no palco do Grezz

Improvisação no violão


Filó Machado esbanjando musicalidade 
com seus melismas


Filó com a afiada banda de músicos gaúchos

O gigante Filó. Canto ancestral

Rolou jam com Adriano Trindade e convidadas 

Mais um pouco da participação de Adriano Trindade
aqui tocando a bela "Canto da Senzala"


Talento puro

Filó e banda se despedem do palco do Grezz



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues, Leocádia Costa e Canal Youtube Adriano Trindade 

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial de 15 anos do ClyBlog - Accept - "Restless and Wild" (1982)



 
Acima, a capa da versão brasileira
e abaixo a de Europa e EUA
"Não sei se somos modelos, mas certamente ajudamos a iniciar todo esse gênero [Trash Metal] de certa forma, e isso me deixa muito, muito orgulhoso. É uma grande honra ter todas essas bandas nos nomeando como sua influência. E eu já ouvi tantas vezes 'Cara, quando ouvimos ‘Restless and Wild’ isso nos fez começar a tocar música.' E para muitas bandas, esse foi o ponto de partida, então isso é incrível. O que mais você pode querer da vida ou da sua carreira musical?"
Wolf Hoffmann


A primeira vez que tive contato com o Accept foi lá pelo início de 1984, escutando o Central Rock, na saudosa Ipanema FM, 94.9, apresentado pelo Ricardo Barão. O programa acho que era transmitido de segundas às sextas ou apenas uma vez por semana, não recordo com exatidão, mas ia ao ar das 22h às 24h. 

A música da banda alemã tocada foi "Fast as a Shark", a primeira faixa do disco "Restless and Wild", de 1982. E o seu começo era estranho, pois começava com um som chiado e uma voz feminina cantando “Heidi, Heido, Heida”, e na sequência, escutávamos uma agulha arranhando o disco e entrava o vocal gritado de Udo Dirkshneider, seguido de uma bateria insana e solos de guitarra. O efeito trazia a música tradicional alemã ("Ein Heller und ein Batzen", escrita em 1830 por Albert von Schlippenbach) e de acordo com o guitarrista e líder Wolf Hoffmmann, era para enganar os ouvintes, pois ao colocar o disco, eles iriam escutar uma música que não tinha nenhuma conexão com o álbum e teriam certeza de que haviam comprado o LP errado. Uma pegadinha que deu certo. 

A música em questão, "Fast as a Shark" ("Rápido como um Tubarão") é considerada a pedra fundamental do Thrash Metal, do Speed Metal e do Power Metal. E não sou eu que estou afirmando. A opinião foi dada por integrantes de várias bandas do gênero, como Metallica, Exodus, Anthrax. O vocalista do Exodus, Steve Zetro Souza, afirmou que ao escutar "Fast as a Shark" teve uma espécie de epifania. "É isso, é isso", soltou ele, que confessa cantar baseado nos vocais de Udo Dirkschneider e Bon Scott, do AC/DC

No dia seguinte ao escutar o Central Rock, fui atrás do LP para comprá-lo. Adquirido, é um dos meus preferidos desde sempre. E passados quase quarenta anos, sigo escutando o trabalho da banda alemã, surgida na cidade de Solingen, na então Alemanha Ocidental nos anos 1970. 

"Restless and Wild" é um daqueles álbuns perfeitos, ou seja, todas as suas músicas são excelentes, assim como "Powerslave", do Iron Maiden, e "The Wall", do Pink Floyd. Ele é o quarto da discografia do Accept, sucessor do  debut homônimo de 1979, “I’m A Rebel”, de 1980, e “Breaker”, de 1981. 

A obra foi para as lojas europeias no dia 2 de Outubro de 1982, com dez faixas. Nos Estados Unidos seria lançada no ano seguinte, e chegando ao Brasil no começo de 1984, sendo o primeiro da banda a sair por aqui. Nesta época o estilo Heavy Metal começava a criar força incomum no nosso país, chegando ao auge em 1985, com o advento do primeiro Rock In Rio.  

Já falei da música ícone "Fast As A Shark", que abre o lado A, seguida de "Restless And Wild", que dá nome ao disco e como o nome diz, é de uma selvageria musical, até hoje presente nos shows, "Ahead Of The Pack", "Shake Your Heads" e "Neon Nights". 

No lado B, estão "Get Ready", que tem uma pegada a la Judas Priest, "Demon’s Night", "Flash Rockin’ Man", "Don’t Go Stealing My Soul Away", um dos títulos de música mais legais, e a épica "Princess Of The Dawn", com um solo monstruoso de Wolf Hoffmann, e uma das minhas preferidas de todos os tempos, escutada pelo menos uma vez por semana desde aquela época. 

A capa original do "Restless And Wild" apresenta uma foto de duas guitarras, modelo Flying V, cruzadas e pegando fogo. Aqui no Brasil, no entanto, a capa do álbum mostra a banda se apresentando ao vivo, com luzes vermelhas e vários amplificadores, e em destaque Udo Dirkschneider estrangulando o baixista Peter Baltes - sendo a mesma da versão japonesa. 

“Restless And Wild” abriu caminho ainda para uma sequência clássica de grandes lançamentos. O disco seria sucedido pelos mega-clássicos “Balls To The Wall”, de 1983,  “Metal Heart”, de 1985, e "Russian Roulette", de 1986. Então, o Accept entraria em crise, com a saída de seu fundador Udo Dirkschneider, que seguiria carreira solo. A banda alemã entraria em colapso nos anos 1990, entrando em um hiato de quase 15 anos. A volta aconteceria em 2010, com novo vocalista, Mark Tornillo, estando na ativa até hoje. 

Quatro fatos sobre o Accept em minha vida:  

Na época do II Grau (hoje Ensino Médio), cursado no Colégio Estadual Paula Soares, eu emprestei o disco "Restless and Wild", sim, naquela época a gurizada emprestava ou trocava discos sem medo de não tê-los de volta, para um colega punk. O cara levou o disco para casa, curioso em escutar aquele som novo e diferente. No dia seguinte, ele me devolveu o disco, e contou: "quando cheguei em casa, fui para o quarto e coloquei o disco para tocar. E na primeira faixa, achei que ele estava arranhado. E na sequência, entrou aquele cara gritando...na hora a minha mãe abriu a porta do meu quarto e soltou: 'quem foi o débil mental que te emprestou este disco?'"

Caímos na gargalhada. Afinal, o cara era afeito a escutar bandas punk como Exploited, Sex Pistols, Dead Kennedys e Misfits. Mas a mãe dele achou absurdamente doente o som do Accept. 

Em 2013, assisti finalmente o Accept ao vivo em show no Bar Opinião, em Porto Alegre. E durante a execução de "Balls to the Wall", o guitarrista Wolf Hoffmann se curvou em direção a plateia, olhou pra mim, e disse: "For you, man", colocando uma palheta na minha mão. 

Anos depois, sem conseguir achar uma camiseta do "Restless and Wild" (eu coleciono camisas de bandas), visitei a loja Zeppelin, do Alexandre Nascimento, especialista em ítens sobre Heavy Metal, e comentei com ele. Na hora, o Tiziu pegou o telefone e ligou pra um camarada catarinense, que fez sob medida a camiseta com a capa do disco. E paguei apenas o custo de fabricação, e nada mais: R$ 50,00. 

Por fim, em 2023, pude presenciar o show do vocalista mais ícônico do Accept, quando Udo Dirkschneider se apresentou no Bar Opinião. No setlist, apenas músicas clássicas da banda que ele fundou lá na década de 1970. 

Agora, chega... bora escutar pela milionésima vez "Restless and Wild" e acordar a vizinhança.


por C H I C O   I  Z I D R O


★★★★★★

FAIXAS:
1. "Fast as a Shark" - 3:49
2. "Restless and Wild" - 4:12
3. "Ahead of the Pack" - 3:24
4. "Shake Your Heads" - 4:17
5. "Neon Nights" - 6:01
6. "Get Ready" - 3:41
7. "Demon's Night" - 4:27
8. "Flash Rockin' Man" - 4:28
9. "Don't Go Stealing My Soul Away" - 3:15
10. "Princess of the Dawn" - 6:15
Todas as composições de autoria de Wolf Hoffmann, Stefan Kaufmann, Udo Dirkschneider, Peter Baltes


★★★★★★

OUÇA:



★★★★★★



Chico Izidro é jornalista, crítico de cinema e escritor e youtuber. Nascido em Porto Alegre, estudou no Colégio Paula Soares/Pio XII e é formado em jornalismo pela Unisinos. Teve passagens pela Assessoria de Imprensa do Juizado de Menores, Band AM, Ipanema FM, Placar, Folha de S. Paulo, Rádio Guaíba, A Notícia-SC e Correio do Povo. No YouTube mantém os canais Cinema de Peso, ao lado dos críticos de cinema Criba Aquino e Lauro Arregui, e Guaibadas, onde conta causos de sua vida. É autor de dois romances, “Era Vidro e Se Quebrou” e “Olhos Verdes”.