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segunda-feira, 9 de julho de 2018

CLAQUETE ESPECIAL 10 ANOS DO CLYBLOG - "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky (1986)



Todo presente é um sacrifício
por Cleiton Echeveste


“Estou interessado no homem que contém o universo dentro de si mesmo. E a fim de encontrar a expressão para a ideia, para o significado da vida humana, não há necessidade de um pano de fundo repleto de acontecimentos”. 
Andrei Tarkovsky


Quando recebi o convite para escrever um texto que refletisse sobre a forma como o filme “O Sacrifício” (1986), de Andrei Tarkovsky, inspirou/influenciou a criação do meu espetáculo teatral para todos os públicos “Cabeça de Vento” (2012), pensei que essa “viagem no tempo” – afinal lá se vão praticamente sete anos desde que escrevi o texto e dirigi a montagem da Pandorga Cia. de Teatro – me custaria muito tempo e muita (re)elaboração. Para minha sorte e felicidade, o convite do meu querido amigo Daniel Rodrigues se mostrou mais do que pertinente nesse momento, quando reensaio o espetáculo – em repertório desde a estreia, com a mesma concepção e algumas trocas no elenco – em sua versão em espanhol, para uma temporada da Pandorga em Lima, no Peru. Revê-lo agora – filme, texto, espetáculo, bem como motivações, desejos, inspirações – é um exercício prazeroso de mergulho no meu próprio processo de criação.

Não consigo – até esse momento – lembrar como foi que cheguei ao filme de Tarkovsky. Provavelmente o encontro se deu por indicação de um amigo. Ou por pura sincronicidade, já que, em 2010, vivia um dos períodos mais intensos e marcantes da minha vida, que foi a morte do meu pai. Aquela perda me fez parar e dar alguns passos atrás para recuperar o fôlego. A criação do texto veio meses após a morte dele, e foi acolhida pela equipe de criação e produção com uma confiança e uma entrega comoventes. Do início da escrita do texto à estreia da montagem passou-se não mais que um ano, entre março de 2011 e março de 2012. Outras referências me serviram de inspiração nesse período, mas nenhuma delas teve ou tem a força poética e simbólica que tem o derradeiro filme do grande cineasta russo.

Relação pai e filho: a árvore como
símbolo da continuidade da vida
Apontar um único sentido nessa fonte de inspiração é impossível. Ela se deu de forma pulverizada, em aspectos que vão do andamento à edição, do perfil do personagem central (Alexander) ao estado contemplativo que o filme provoca. Revê-lo agora para escrever estas linhas é um exercício de resgate e de redescoberta do encantamento exercido por essa obra magistral. Se com “O Sacrifício” Tarkovsky queria se contrapor ao cinema comercial, em “Cabeça de Vento”, por meu turno, busquei fugir do padrão atribuído aos espetáculos para infância e juventude (que no caso do meu trabalho prefiro chamar de teatro para todos os públicos): excesso de movimentação, geralmente esvaziada; música feita para grudar no ouvido do espectador; humor óbvio e de fácil apelo; personagens tipificados; overdose de cores na concepção visual como um todo; entre outras características ainda menos abonadoras. Remar contra a corrente e oferecer ao público algo um pouco mais aprofundado e conectado a um sentido espiritual da existência humana foram nortes importantes apreendidos/assimilados dessa inspiração em Tarkovsky.

Esperança e confiança

A frase que escolhi como título este texto, vem de uma fala do carteiro-filósofo Otto, personagem do filme, dita ao presentear Alexander com uma réplica do quadro “A Adoração dos Magos”, de Leonardo da Vinci. Ela me faz pensar no sentido possível da palavra presente como um dom (no inglês, a palavra gift possui estas duas acepções), um dom mágico, como aquele dom transmitido pela fada-madrinha/benfeitora à criança nos contos de fada tradicionais – como a boneca dada a Vasalisa pela mãe, que a protegerá em futuras situações que representarão perigo à menina.

A impressionante cena do incêndio: morte simbólica e renovação
Qual seria, então, o dom concedido por Alexander ao seu pequeno filho? É apenas ao final do filme que ele diz duas frases, as quais ecoam a primeira fala do pai no filme. Seria o dom da fala, da palavra, da capacidade de reflexão? Será esse também o maior dom que nós, animais racionais, herdamos dos nossos ancestrais? Qual é o dom, afinal, concedido pelo pai ao personagem Leo, de “Cabeça de Vento”? O presente, objeto físico, é representado por um livro de história, em que são brevemente narradas as biografias de grandes personalidades históricas (Leonardo da Vinci, Mahatma Gandhi, Ricardo Coração de Leão, Benjamin Franklin, entre outros). E também por uma pipa, objeto ícone (ou até objeto transicional, neste caso), que o menino ganhou do pai, pouco antes deste falecer. Ambos conectam o Léo, simbólica, mas também concretamente, com um sentido menos materialista da vida, sinalizando a ele uma perspectiva de “esperança e confiança”, fundamentais, a meu ver, em toda obra artística voltada para crianças e jovens. “Esperança e confiança” são, aliás, as duas palavras com as quais Tarkovsky conclui a dedicatória do seu filme ao filho.

Por outro lado, vejo a cena de abertura do filme como um ato de fé na força da vida e também um desafio às novas gerações. Enquanto narra uma parábola oriental para o filho, Alexander planta uma árvore aparentemente morta. De acordo com a parábola, após regar durante três anos uma árvore também aparentemente morta na encosta de uma colina, por orientação do seu mestre, um discípulo consegue reavivá-la. Da mesma forma, ao final do filme, o filho de Alexander rega a árvore plantada pelo pai. Enquanto o pai cala-se, após refletir e discutir sobre o esvaziamento da vida humana contemporânea durante praticamente todo o filme, o menino, nesta cena final, ganha voz e fala: “No principio era o verbo. Por que, papai?”


cena final de "O Sacrifício"

Esse questionamento ganha ainda mais impacto por ter sido precedido, na cena imediatamente anterior, pela impressionante cena do incêndio da casa de Alexander, causado pelo próprio. O que é esse incêndio senão a destruição simbólica de todas as estruturas existentes para que o novo possa surgir? O final de um ciclo e início de um tempo novo, que necessariamente há de surgir. Paralelamente, “Cabeça de Vento” significa a construção de uma nova forma de estar no mundo, um novo olhar para a vida e para as relações. A partir de um questionamento do porquê da partida tão súbita do pai, Léo reconstrói um novo mundo, a partir do legado deixado por ele.

“O Sacrifício” é também um filme-legado, é o filme-síntese de toda a obra de Tarkovsky e uma afirmação veemente da confiança de que é somente a perspectiva espiritual que pode ajudar o homem a construir um sentido positivo para sua existência.

Rio de Janeiro, 08/7/18


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Cleiton Echeveste é ator, dramaturgo e diretor de teatro, graduado em Artes Cênicas (UFRGS), onde também estudou Letras. É um dos criadores da Pandorga Cia. de Teatro, na qual é autor e diretor de O Menino que Brincava de Ser (indicação ao 2º Prêmio CBTIJ de Teatro para Crianças) e Cabeça de Vento (ganhador de prêmios de melhor texto nos festivais de Ponta Grossa/PR e Duque de Caxias/RJ). Com a Pandorga, criou Juvenal, Pita e o Velocípede (ganhador do 10º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil, categoria texto). Único dramaturgo latino-americano no festival de dramaturgia New Visions/New Voices 2014 (Washington, D.C./EUA). Em 2016, na Casa de la Literatura Peruana, em Lima, participou do VI Congreso de Literatura Infantil y Juvenil e do 1er. Festival del Libro y las Ideas, com mesas-redondas, conferências e oficina de processo colaborativo. Atualmente é o presidente do Conselho de Administração do Centro Brasileiro de Teatro de Teatro para Infância e a Juventude – CBTIJ/ASSITEJ Brasil. Site: https://pandorgaciadeteatro.wordpress.com/   

sábado, 6 de agosto de 2011

cotidianas #96 - TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS



TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num poste, não teve dúvidas do que deveria fazer. Desesperada como estava, visitaria o místico do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha magra e baixa com uma voz esganiçada que lhe ouviu, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração forte para tirá-lo dela. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça não dispunha de grandes recursos mas faria um esforço para cumprir o objetivo. A mãe-de-santo prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa esperançosa de que nos dias seguintes o amado voltaria. Não voltou. Nem em três, nem em 5, nem em um mês, mesmo com um despacho caprichado, com novas visitas e reforços nos trabalhos. Mas o tempo, que é dos unguentos o melhor, tratou de fazê-la superar, ir esquecendo e por fim conhecer um outro rapaz também interessante com quem vem saindo ultimamente. Eu soube que o ex andou ligando. Demonstrava algum arrependimento, tentava uma reconciliação, uma nova chance. Ela tratou de convencê-lo que no fim das contas a separação havia sido boa para ambos.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz colado num muro, hesitou um pouco afinal este tipo de recurso ia contra seus princípios religiosos e de mais a mais, nem acreditava muito nessas coisas. Mas desesperada como estava, tentaria até aquilo. Visitaria o mago do anúncio e traria de volta seu amado que algum mal entendido do destino tratara de lhe tirar. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha gorda e baixa com uma voz maviosa que lhe ouviu, fez orações, jogou búzios e cartas, e por fim sentenciou que seria um trabalho difícil pois alguém também teria feito uma amarração braba para tirá-lo dela. Seria necessário cachaça, champagne, pipoca, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, disse que dinheiro não era problema e que a feiticeira poderia dispor do que precisasse desde que o rapaz voltasse para seus braços. A pitonisa prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa cheia de dúvidas se aquele teria sido um recurso correto mas o que importava àquelas alturas era cumprir seu objetivo: que ele voltasse. E voltou. Certo, exato, em três dias. Disse que pensara melhor, que sempre a amara e que nunca poderia viver sem ela e coisa e tal. Ela, no seu interior ria-se de satisfação: o trabalho dera certo, o trabalho dera certo! Mas o trabalho nunca fora feito. A charlatã usava agora o dinheiro que seria destinado para a compra de um bode, em provisões para sua casa. Comprara farinha, um frango congelado, pipoca para o netinho e até uma espumante, por quê não?
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio. Quando viu aquele cartaz nos classificados do jornal pensou que aquilo era o que precisava. Seria sua chance de ter aquele ser tão desejado. Visitaria a feiticeira do anúncio e roubaria daquelazinha o homem que, afinal de contas, deveria ser seu mas que o destino por algum motivo lhe negava. Seguiu até o endereço, entrou, foi atendida por uma velha alta e magra de voz rouca que ouviu-lhe, fez orações, jogou cartas e búzios, e por fim anunciou que seria um trabalho difícil pois ele já estava amarrado a uma pessoa. Seria necessário pipoca, cachaça, champagne, galinha e até um bode para sacrifício a fim de garantir o resultado. A moça, determinada, mesmo não sendo abastada estava disposta a bancar o que fosse e garantiu que iria às últimas consequências para ter o rapaz em seus braços. A mística prometera: 3 dias. Era garantido. Foi para casa confiante que nos dias seguintes finalmente ele bateria à sua porta e praticamente imploraria pelo seu amor. Não deu certo. Mesmo com o empenho da mãe-de-santo e frequentes reforços nos trabalhos, seu querido continuava feliz da vida com aquela desqualificada. Ai, que ódio! Mas o tempo, que é dos remédios o melhor, tratou de fazê-la esquecer, deixar pra lá, reconhecer que aquilo tudo não havia sido mais que um capricho e por fim, no tocar da vida, conhecer outros rapazes interessantes. No fundo, lamentava mais o dinheiro investido do que o fracasso do intento. Como havia sido boba, essas coisas de magias não funcionam.
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TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS, dizia o anúncio...



Cly Reis

sábado, 4 de abril de 2015

"Melancolia", de Lars Von Trier (2011)



Lars Von Trier é na minha opinião, provavelmente, o maior realizador do cinema atual, e quando digo realizador o faço para ser bastante amplo e não me restringir à direção. Falo de concepção, estética, autonomia, intenção, autoralidade, versatilidade, influência, tudo isso junto e, nisso tudo, no momento, ele mostra-se à frente de seus contemporâneos. É verdade que acabou metendo os pés pelas mãos por declarações infelizes no Festival de Cannes de 2011 e por conta disso ganhou a antipatia de muita gente mas por outro lado parece também que a crítica e o público acabou confundindo as supostas preferências do diretor com o julgamento de sua obra, passando a tratá-lo com extrema má vontade a partir do ocorrido.
“Melancolia”, filme que então estava sendo exibido naquele Festival de Cannes, acabou sendo um dos mais prejudicados com a polêmica, já sofrendo as consequências no próprio evento com algumas vaias e zombarias, vendo em seguida sua reprovação estender-se em forma de desconfiança por parte do público nos cinemas e locadoras. Mas o fato é que a qualidade falou mais alto e, aos poucos, “Melancolia” foi conseguindo apaziguar os ânimos e ocupar seu devido lugar como um dos grandes filmes dos últimos tempos.
O belíssimo prólogo, com imagens em câmera lenta que
antecipam a catástrofe de maneira incrivelmente plástica e poética
Uma fantasia sobre o fim do mundo filmada com extrema sensibilidade estética e humana, captando já na introdução, em câmera super lenta ao som de Wagner, imagens de uma beleza quase hipnótica onde, de uma forma incrivelmente plástica, já se anuncia a inevitável catástrofe do choque de um planeta contra a Terra. Logo em seguida numa festa de casamento ânimos, humores e vão se alterando, mostrando as verdadeiras faces das pessoas envolvidas na cerimônia, inclusive da própria noiva, vivida por Kirten Dunst, cuja personagem dá nome à primeira metade do filme: "Justine".
Justine chega à festa do próprio casamento na luxuosa casa do cunhado exibindo alguma animação, mas é uma alegria que parece imposta a si mesma diante do fato de estar casando e TER que mostrar-se feliz.  Aos poucos, no entanto, a artificialidade do ambiente, a falsidade dos convidados, as discussões dos pais, a pressão do patrão, a inexpressividade suplicante do futuro esposo, a fazem ir ao extremo oposto da alegria, estragando com a festa, com o casamento, com o emprego e, como vemos na segunda parte, que leva o nome da irmã, "Claire", com a própria vida.
O jogo de poses e aparências 
no frustrado casamento
Na segunda parte, vivendo na casa da irmã, interpretada por Charlotte Gainsbourg, quase catatônica depois dos acontecimentos de seu casamento não acontecido, Justine parece sem ânimo nem reação a nada. Assim, sob a expectativa da passagem muito próxima à Terra de um planeta, o Melancolia, Justine convive com a irmã, muito solícita, interessada, mas impotente em relação à irmã, o egoísta e materialista cunhado vivido por Kiefer Suterland e o sobrinho uma criança que vive a expectativa do fenômeno astrológico com a curiosidade de quem desconhece o risco que a proximidade dos planetas pode oferecer.
A proximidade do Melancolia vai, desde a noite do casamento quando já pode ser notado muito discretamente brilhante no céu, de alguma forma operando gradualmente no comportamento das pessoas, especialmente no de Justine que, na segunda metade, depois da festa, que funcionara nela como uma espécie de revelação, parece ter desistido da humanidade e vê a iminência da catástrofe quase que como um juízo final, um final merecido para uma raça humana que já está moralmente destruída.
Com a irmã frágil e cada vez mais desesperada pelo fim do mundo e com o insuportável cunhado tentando o tempo todo enganar-se de que o impacto não ocorrerá, o último último laço afetivo de Justine com a humanidade parece ser seu sobrinho Leo, um garoto por quem guarda grande carinho e que, por sua vez, vê com curiosidade e tristeza a "Tia Invencível", apelido originado em momentos mais corajosos da protagonista, em estado lamentável, depressiva, indiferente, desinteressada e à parte do mundo.
O diretor  sabidamente cético, descrente, amargo, demonstra o tempo todo seus sentimentos pessimistas em relação ao homem, como o desprezo, a decepção, a desesperança, mas no final, com a inevitável colisão entre os planetas, sinaliza com uma ponta de esperança no ser humano, com uma derradeira demonstração de piedade e amor, quando a Tia Invencível coloca a irmã apavorada e o sobrinho em uma suposta "Caverna Mágica", uma espécie de cabana montada com galhos onde segundo ela estariam "invulneráveis" a qualquer efeito do impacto, numa das cenas mais lindas e marcantes que o cinema produziu nos últimos tempos.
"Melancolia" me lembra muito um outro filme do qual sou grande admirador, que é "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky. O filme do cineasta russo também traz uma situação de uma família praticamente isolada em algum lugar remoro enquanto o mundo, por outro motivo na verdade, também se encaminha para o fim de seus dias. De maneira menos amarga que na obra de Trier, "O Sacrifício" de Tarkovsky também traz o componente do exame da natureza humana, a observação da reação do indivíduo diante do pânico e elementos como a renúncia, o desespero e a compaixão que também aparecem em "Melancolia". E talvez não na mesma dimensão que "O Sacrifício", mas "Melancolia" é uma dessas novas obras-primas do cinema.
Trier pode ser controverso, um chato, pode às vezes se arriscar demais, pode errar a mão de vez em quando, mas é um dos poucos diretores que ainda conseguem propor um cinema autoral de qualidade resultando em obras inegavelmente singulares e relevantes. "Melancolia" é mais uma destas obras, um filme que faz refletir sobre a condição humana e se a maior catástrofe talvez não seja no que se tornou a civilização. Não que o Melancolia, o planeta, seja proposto pelo diretor como uma punição ao Homem, um castigo, mas faz pensar que diante de tudo o que acontece no planeta Terra, talvez um enorme planeta em rota de colisão seja o menor dos nosso problemas.

Os três na cabana "à prova de tudo" e o Melancolia aproximando-se inexorável e ameaçadoramente.
Cena lindíssima.




Cly Reis


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

cotidianas #345 - Bola pro Mato



O Corrêa já não tinha gostado nada de saber que a direção tinha contratado o tal de Luís Paulo, zagueiro, dizia-se clássico, que havia sido destaque do último campeonato nacional. Gostara menos ainda quando vira o fulano no dia da apresentação: brinquinho, fala mansa, sombrancelha feita...Puta merda! Aquilo não ia dar certo. Sem falar que zagueiro não podia ter nome composto. Só se fosse o nome seguido da alcunha, tipo, Tião Pedrada, Zeca Cavalo ou alguma coisa assim. Mas, agora, Luís Paulo? “Luís Paulo”, aquilo era nome de cabeleireiro.
Zagueiro pro Corrêa tinha que ser zagueiro. Zagueiro mesmo!!! Essa coisa de zagueiro jogar bonito pro Corrêa não existia. O Corrêa era daqueles que jogavam o cara no alambrado e saía fazendo cara de inocente. Sair jogando nada. Zagueiro tinha no máximo entregar direitinho pro volante e olhe lá. O certo mesmo era espanar e sentar a bicanca pro ataque. Mas não! O presidente tinha embestado com aquela coisa de melhorar a saída de bola, a transição. Essas frescuras do futebol de hoje. Ele bem que tentara convencer o vice-de-futebol que era bobagem, que tinha que impor respeito na defesa, que um cara daqueles na hora de decidir ia fraquejar, mas o homem da direção argumentava que era pra equilibrar com a característica do Corrêa, um mais duro, o outro mais técnico. Técnico,... tá bom...
A desconfiança do Corrêa só aumentou no dia da estreia do novo reforço. No vestiário, na hora de fardarem o Corrêa viu que o tal Luís Paulo depilava o peito. Putz! Aquilo não. Aí já era demais. Tinha certeza que ia dar merda.
Entraram em campo. O tal Luís Paulo era saudado pela torcida, imprensa, comissão técnica e por quem que fosse como om grande zagueiro do momento. Uma prova de que o futebol tinha salvação, de que nem só de chutões e faltas vivia um defensor.
Até que as coisas iam bem. De certa forma, mesmo com a implicância do Corrêa, parecia que os dois se completavam mesmo, metade técnica, metade força, se bem que não haviam sido muito exigidos naquele jogo até então. Grande superioridade, time no ataque praticamente o tempo todo, dava até por garoto com nome de cabeleireiro se exibir um pouco subindo pro ataque ou ligando os meias com um passe de efeito, mas o problema é que o jogo não saía daquele incômodo zero a zero.
A teoria toda do zagueiro clássico ia bem até que lá pela metade do segundo tempo, ali pela intermediária, o tal do Luís Paulo recebeu a bola meio enforcada mas mesmo assim tentou se livrar do atacante com uma ginga de corpo pra sair jogando. Pressionado pelo centroavante cascudo, velho de guerra, se enrolou todo, se estatelou no chão e o goleador dos caras saiu com ela dominada praticamente sozinho em direção ao gol. O Corrêa que já estava prevendo que uma hora aquela palhaçada ia dar errado estava extremamente atento e por isso não muito longe da jogada. O atacante avançava veloz vertical em direção ao gol enquanto o Corrêa fazia uma diagonal desesperada atalhando o caminho. Percebendo a aproximação do zagueiro que corria em sua direção como um guepardo faminto em perseguição a uma gazela, o atacante tentou precipitar o chute ainda antes da entrada da área, mas assim que o avante adversário armara o tiro, o Corrêa com um impulso de mais ou menos uns três metros, voou com os dois pés em direção ao centroavante, levantando tudo que encontrara pela frente. Só o que se viu foi o atacante se contorcendo de dor e um buraco do tufo de grama levantado no gramado.
O Corrêa nem esperou o cartão que tinha certeza que tomaria e já sabia a cor. Levantou e foi caminhando em direção ao vestiário. Às suas costas uma pequena confusão se formava, jogadores se empurravam, juiz exibia o cartão vermelho e o departamento médico atendia o atacante que não voltaria para o jogo naquele dia e provavelmente aos gramados por alguns meses.
Antes de descer para o vestiário lançou um olhar fuirioso para o técnico e disse;
- Ó o teu zagueirinho aí. Ele que não acostume que eu não vou salvar a pele dele sempre.
E desceu.
O sacrifício do Corrêa naquele jogo não adiantou muito. A falta na frente da área, ali pela meia esquerda, foi batida com maestria pelo lateral-direito do time adversário. No ângulo. Indefensável.



Cly Reis

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Os filmes favoritos de todos os tempos (segundo os amigos de Facebook)


"Laranja Mecânica", um dos mais admirados pelos facebookers
Rolam seguidamente aquelas brincadeiras pelas redes sociais convidando as pessoas a escolherem várias coisas de suas preferências, mas nem todas “pegam”. Ou seja, não conseguem mobilizar de fato. O tema “cinema”, entretanto, parece ser capaz de provocar o saudável compartilhamento. Recentemente, a emoção e as memórias afetivas que os filmes despertam foram capazes de envolver vários participantes a cumprirem o seguinte desafio: listar os seus dez filmes favoritos de todos os tempos, um por dia, postando-lhe no Facebook somente uma imagem, sem necessidade de explicação e ainda convidando outra pessoa a cada dia para fazer o mesmo.

O que se viu durante umas duas ou três semanas foi uma gostosa chuva de posts de amigos – e amigos de amigos – a cada filme revelado, a cada imagem descoberta ou não a que obra pertencia, a cada gosto partilhado, a cada surpresa pelo filme escolhido. Esta matéria, assim, traz a listagem de alguns desses facebookers de vários lugares e ocupações, que toparam o desafio de revelar suas preferências cinematográficas e, além disso, a difícil tarefa de escolher APENAS uma dezena. Num mar de filmes marcantes e adorados, selecionar apenas alguns poucos exige esforço. Mas um esforço bom, haja vista que o exercício fez com que se perscrutassem os íntimos à procura daquilo que realmente faz sentido em termos de 7ª Arte. Aqueles filmes que se levaria para uma ilha deserta.

O carisma de Jerry Lewis o fez aparecer mais de uma vez
Uma amostra do resultado desse desafio está aqui. Para tanto, reproduzimos as escolhas, além das de meu irmão e minhas, editores do blog, dos amigos Carolina Costa, Cleiton Echeveste, Diego Marcon, Iris Borges, Leocádia Costa, Pamela Bueno, Paulo Coelho Nunes, Rachel Bins e Simone Hill, que tiveram a persistência de completar o pedido e a quem agradecemos por nos autorizarem a publicação. Entre os títulos, há coincidências, inesperados e outros bem subjetivos. “Fahrenheit 451”, “Laranja Mecânica” e o original de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” foram os campeões em menções, com três delas. Surpreenderam títulos como as comédias “Sessão da Tarde” “Bancando a Ama Seca” e “Goonies”, com duas menções, igual a “Alien”, “Billy Elliot”, “O Sacrifício”, “Bohemian Rhapsody”, “Fellini 8 e ½” e “Blade Runner”. Em compensação, títulos consagrados, como “O Poderoso Chefão”, “Touro Indomável”, “Crepúsculo dos Deuses” e “O Bebê de Rosemery”, seguidamente inseridos em listas oficiais dos melhores filmes de todos os tempos, dignificaram suas tradições com uma menção apenas.

Tarantino: destaque entre os diretores
Em nacionalidades, a esmagadora maioria são produções dos Estados Unidos, mas vale destacar a presença dos filmes nacionais: 10 do total de 110. A Europa ficou com 24, a Ásia com 6 e América Latina, sem contar com os brasileiros, apenas 2. Das décadas, a de 80 foi a que mais compreendeu obras, com 23, acompanhada dos 90, com 19. Entre os cineastas, Quentin Tarantino teve mais filmes diferentes lembrados, 3, seguido por Akira Kurosawa, Ridley Scott, Stanley Kubrick, Jean-Pierre Jeunet, Walter Salles Jr., Tim Burton, Ang Lee, Luc Besson, Andrei Tarkowsky, Stephen Daldry, Milos Forman, Steven Spielberg e Sofia Coppola, todos com 2.

Seja um filme visto no Corujão da Globo, o que provocou arrebatamento na tela grande, aquele que se alugou na videolocadora ou mesmo o assistido via streaming. Independe a ocasião ou plataforma. Seleções como estas mostram o quanto as imagens em movimento mexem conosco e como são importantes na construção de nossos imaginários ao longo do tempo.

Por fim, a ordem dos títulos respeita a de postagens de cada pessoa, mas não quer dizer necessariamente que se trate de uma ordem de preferência do mais gostado para o menos. O importante é que todos os títulos citados, na opinião e no sentimento de cada um, estão guardados na retina e no coração.

Daniel Rodrigues


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Carolina Costa
Pedagoga
(Porto Alegre/RS)
1 - Amadeus, de Milos Forman (1988)
2 - Fahrenheit 451, de François Truffaut (1966)
3 - Alien, o 8º Passageiro, de Ridley Scott (1979)
4 - O Quinto Elemento, de Luc Besson (1997)
5 - Corra, Lola, Corra!, de Tom Tykwer (1998)
6 - ET: O Extraterrestre, de Steven Spielberg (1982)
7 - Billy Elliot, de Stephen Daldry (2000)
8 - A Festa de Babette, de Gabriel Axel (1987)
9 - Aquarius, de Cléber Mendonça Filho (2016)
10 - Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer (2018)


Clayton Reis
Arquiteto, cartunista e escritor
(Rio de Janeiro/RJ)
1 - Fellini 8 e ½, de Federico Fellini (1963)
2 - Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock (1954)
3 - O Sacrifício, de Andrei Tarkowsky (1986)
4 - Outubro, de Sergei Einsenstein (1927)
5 - A Marca da Maldade, de Orson Welles (1958)
6 - Intolerância, de D. W. Griffith (1916)
7 - Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
8 - Coração Selvagem, de Alan Parker (1985)
9 - Farenheit 451, de François Truffaut (1966)
10 - Gosto de Cereja,de Abbas Kiarostami (1997)


Cleiton Echeveste
Ator, escritor e dramaturgo
(Rio de Janeiro/RJ)
1 - Minha vida em cor de rosa, de Alain Berliner (1996)
2 - Razão e Sensibilidade, de Ang Lee (1996)
3 - Bancando a Ama Seca, de Frank Tashlin (1958)
4 - A Hora da Estrela, de Suzana Amaral (1985)
5 - O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee (1996)
6 - Uma Noite de 12 Anos, de Álvaro Brechner (2018)
7 - Em Nome do Pai, de Jim Sheridan (1993)
8 - A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Mel Stuart (1971)
9 - Billy Elliot, de Stephen Daldry (2000)
10 - O Sacrifício, de Andrei Tarkowsky (1986)


Daniel Rodrigues
Jornalista, radialista e escritor
(Porto Alegre/RS)
1 - Bagdad Café, de Percy Adlon (1987)
2 - O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola (1971)
3 - Fellini 8 e ½, de Federico Fellini (1963)
4 - Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa (1954)
5 - Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman (1982)
6 - Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
7 - Farenheit 451, de François Truffaut (1966)
8 - Stalker, de Andrei Tarkowsky (1978)
9 - Touro Indomável, de Martin Scorsese (1980)
10 - O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel (1962)


Diego Marcon
Hairdresser, consultor de imagem e empresário
(Buenos Aires/ARG)
1 - A Convenção das Bruxas, de Nicolas Roeg (1990)
2 - Garota, Interrompida, de James Mangold (2000)
3 - Dançando no Escuro, de Lars Von Trier (2000)
4 - Maria Antonieta, de Sofia Coppola (2006)
5 - A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar (2011)
6 - As Horas, de Stephen Daldry (2002)
7 - Moulin Rouge, de Baz Luhrmann (2001)
8 - O Estranho que nós Amamos, de Sofia Coppola (2017)
9 - Piaf, Um Hino ao Amor, de Olivier Dahan (2007)
10 - Os Goonies, de Richard Donner (1985)


Iris Borges
Fotógrafa
(Porto Alegre/RS)
1 - Os Goonies, de Richard Donner (1985)
2 - A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Mel Stuart (1971)
3 - A Lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993)
4 - Pulp Fiction: Tempo de Violência, de Quentin Tarantino (1994)
5 - Kill Bill - Volume 1, de Quentin Tarantino (2003)
6 - Dirty Dancing, de Emile Ardolino (1987)
7 - O Bebê de Rosemery, de Roman Polanski (1969)
8 - Curtindo a Vida Adoidado, de John Hughes (1986)
9 - Flashdance, de Adrian Lyne (1983)
10 - Blade Runner: O Caçador de Androides, de Ridley Soctt (1982)


Leocádia Costa
Publicitária, produtora cultural e fotógrafa
(Porto Alegre/RS)
1 - Barravento, de Glauber Rocha (1961)
2 - A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski (1993)
3 - O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci (1988)
4 - A Vida é Bela, de Roberto Begnini (1997)
5 - O Iluminado, de Stanley Kubrick (1979)
6 - Sonhos, de Akira Kurosawa (1990)
7 - Up: Altas Aventuras, de Pete Docter e Bob Peterson (2009)
8 - O Nome da Rosa, de Jean-Jacques Annaud (1986)
9 - Blade Runner: O Caçador de Androides, de Ridley Soctt (1982)
10 - Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer (2018)


Pamela Bueno
Historiadora e estudante de Sociologia
(Canoas/RS)
1 - Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)
2 - O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet (2002) 
3 - Adeus Lênin!, de Wolfgang Becker (2003)
4 - O que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto (1997)
5 - Carandiru, de Hector Babenco (2003)
6 - A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Mel Stuart (1971)
7 - Central do Brasil, de Walter Salles (1998)
8 - Os Fantasmas se Divertem, de Tim Burton (1987)
9 - Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1991)
10 - Que Horas Ela Volta?, de Ana Muylaert (2015)


Paulo Coelho Nunes
Agente publicitário, continuísta, editor e roteirista
(Goiânia/GO)
1 - Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino (1992)
2 - Easy Rider, de Dennis Hooper (1969)
3 - Betty Blue, de Jean-Jacques Beineix (1985)
4 - Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder (1950)
5 - Ladrão de Sonhos, de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet (1993)
6 - Terra Estrangeira, de Walter Salles Jr. e Daniela Thomas (1995)
7 - Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai (2000)
8 - Retratos da Vida, de Claude Lelouch (1981)
9 - Dolls, de Takeshi Kitano (2002)
10 - Traídos pelo Desejo, de Neil Jordan (1993)


Rachel Bins
Estudante de Biblioteconomia
(Porto Alegre/RS)
1 - Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, de Michel Gondry (2004)
2 - O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki (2005)
3 - Lilo e Stitch, de Chris Sanders e Dean DeBlois (2002) 
4 - O Cemitério Maldito, de Mary Lambert (1989)
5 - O Segredo da Cabana, de Drew Goddard (2012)
6 - Alien, o 8º Passageiro, de Ridley Scott (1979)
7 - Legalmente Loira, de Robert Luketic (2001)
8 - Casa Comigo?, de Anand Tucker (2010)
9 - O Auto da Compadecida, de Guel Arraes (1998)
10 - Cats, de Tom Hooper (2019)




Simone Hill

Coralista e estudante de Música
(Porto Alegre/RS)
1 - Loucos de Paixão, de Luis Mandoki (1990)
2 - Desafio no Bronx, de Robert De Niro (1993)
3 - Amigas para Sempre, de Garry Marshall (1988)
4 - Luzes da Cidade, de Charles Chaplin (1931)
5 - Verdes Anos, de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil (1984)
6 - Desejos Proibidos, de Max Ophüls (1963)
7 - O Profissional, de Luc Besson (1994)
8 - Grease: Nos Tempos da Brilhantina, de Randal Kleiser (1978)
9 - Bancando a Ama Seca, de Frank Tashlin (1958)
10 - Hair, de Milos Forman (1979)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

cotidianas #108 - O Velho-do-Saco


Minha mãe, quando eu era pequeno, costumava me assustar com aquela história de Velho-do-Saco. Usava este artifício normalmente para me convencer a desistir de alguma peraltice em curso, tipo, ‘desce daí senão vou chamar o Velho do Saco’ ou algo assim. Para a sorte dela, dando mais credibilidade àquela ameaça, havia um homem que passava sempre pela minha rua catando coisas no lixo; um senhor com barba branca desgrenhada e suja , quase calvo, olhar sem vida, corpo magro mas longe de ser raquítico, poderia até se dizer atlético mesmo, e que carregava nas costas um saco de linho imundo e esfarrapado.
Eu muito impressionável naquela época, diante da horripilante ameaça, obedecia  assustado  imaginando que se não fizesse o que minha mãe dizia o mendigo aquele, na primeira oportunidade, me apanharia, me colocaria dentro daquele trapo horrendo e me levaria para algum lugar escuro e assustador. Quanto ao que faria comigo, havia várias hipóteses: minha mãe mesmo dizia, reforçando seu covarde terrorismo infantil, que o velho me levaria para um porão onde me moeria e transformaria em salsicha; entre nós crianças rondava o medo de que nos comesse como um bom almoço na falta de encontrar alguma iguaria gostosa nas latas de lixo; mas conversas também davam conta que na verdade apenas matava as crianças para beber seu sangue e viver para sempre e naquela época já se dizia que ele ia lá pelos  90 anos de idade. O medo se reforçava pelo sumiço, lá na época que eu devia ter uns dez anos, de um menino das redondezas. Falou-se de sequestro, de venda para o exterior, de aliciamento, de pedofilia mas o caso nunca ficou explicado.  Eu nessa idade já não me impressionava (muito) com o tal do velho, mas tenho certeza que muitos pais se utilizaram da circunstância para convencer suas crianças a não falar com estranhos.
O fato é que sempre que passava por ele na rua, primeiro de mãos dadas com a minha mãe, depois crescendo, já sozinho mesmo, tinha uma espécie de calafrio. Mas como minha mãe desde cedo costumou me incumbir de ir ao açougue do Seu Elias buscar bifes, me colocava à prova desde pequeno, pois  aquele era pra mim um momento de terror, no qual eu esperava não topar com o Velho, mas se na pior das hipóteses desse o azar de encontra-lo, prontamente dava um jeito de atravessar a rua.
Mas tudo isso foi naquela época, tinha eu, sei lá,  4 ou 6 anos. Acho que o medo durou mais por causa da aparência realmente  horripilante do velho. O tempo passou, a fase de criança assustável foi-se e hoje os terrorismos da minha mãe são outros: “se não arrumar o quarto não vai ganhar aquele tênis... não vai ter aumento de mesada... vou te tirar esse videogame” e assim por diante.
 O velho vive até hoje. Incrivelmente, mesmo naquela vida de catar em latas, de exposição à chuvas e frios, continua vivo e quase com a mesma aparência daquele tempo. É como se não tivesse envelhecido um dia desde que me lembro dele e ouvia aquelas histórias que cotavam sobre ele. Às vezes ainda o vejo passar lá na frente de casa com seu olhar vazio, andar resoluto e com o mesmo velho saco nas costas, cada dia mais nojento e seboso.
Nessa idade em que me encontro agora, ainda dependente dos pais, volta e meia acabo me sujeitando a servir de mandalhete da minha mãe para compras e tarefas na rua. Ela sabe que eu não gosto muito mas alega que sou mais novo e nunca estou fazendo nada. Creio que se eu ainda acreditasse, por certo, me ameaçaria com a história do Velho-do-Saco, mas como sabe que não cola mais, se limita a me jogar na cara que moro naquela casa, que sou um preguiçoso, um vadio, que só faço comer e dormir e blablablá. Quase sempre contrariado por interromper minha TV ou videogame, respiro fundo, levanto e saio. Às vezes é para buscar tomate, às vezes leite, outras para ir na costureira, às vezes para comprar pão, carne, etc.. Naquele dia me pediu para que comprasse os bifes, o que eu fazia desde que me entendia por gente. Ah, os bifes da minha mãe mereciam o sacrifício. Tá certo que a carne do Seu Elias era extremamente macia, a mãe sempre elogiava, mas o preparo dela fazia valer a pena interromper o meu Messenger pra ir buscar a tal da carne.
 Então fui eu lá ao velho açougue de sempre que ficava mais ou menos a uma quadra de casa. No caminho então deu-se, depois de todos aqueles anos, o meu grande desafio: eu avistara o velho. O Velho-do-Saco vindo na direção contrária do mesmo lado da rua que eu. Poucas vezes o via ultimamente e há muito sequer cruzava com ele na rua. Contnuava com a mesma aparência. Nem lembrava mais da sensação que tinha ao vê-lo mas ela não tardou em manifestar-se. Não vou negar que por um momento me vieram à cabeça os velhos temores de criança, as lendas, os sustos, mas ri de mim mesmo interiormente e tratei de seguir marcha em frente. Já próximo àquele senhor, esbocei mesmo um sorriso, como que tentando ser simpático simbolizando um ‘bom dia’, o que não foi correspondido. Ao cruzar por mim, apeas olhou-me com aqueles olhos fixos e frios e passou caminhando às minhas costas. Dei de ombros, tipo, ‘coitado, é meio trantornado’, mas mal tive tempo de concluir o pensamento e senti uma pancada dura e seca na cabeça, quase no pescoço, e depois disso não vi mais nada. Tudo ficou escuro...
Não tenho noção de quanto tempo depois acordei. Abri os olhos lentamente mesmo com a visão um tanto turva pude notar que estava num espécie de depósito, um porão talvez, escuro, úmido, com gotejamentos por todos os lados, poças pelo chão, um cheiro pesado e correntes penduradas caindo do teto baixo e claustrofóbico. Eu mesmo me encontrava pendurado pelos pulsos na vertical por uma dessas correntes e com os tornozelos unidos por uma corda ou algo do tipo, erguido do chão mais ou menos meio metro. Me debati tentando me soltar, tentando alcançar o chão mas só o que consegui foi fazer tilintar o metal que me prendia. Corri os olhos ao redor e além de uma ratazana e um amontoado de alguma coisa gosmenta num canto, pude notar no outro lado do galpão, de costas, sentado diante de uma bancada, um vulto, um homem... Alguém concentrado em alguma tarefa repetitiva mas que eu não conseguia distinguir. Quem poderia ser? Seria?... Parecendo ter acabado o que fazia tratou de levantar e então virou-se na minha direção, mas a distância e a pouca luminosidade ainda me dificultavam alguma identificação embora tivesse uma pequena desconfiança. Porém ao começar a vir em minha direção, meu pior temor se confirmava: sim, era ele, o Velho-do-Saco. Mas o que fazia ele ali? O que fazia eu ali? O que ele fazia com aquele... cutelo? O que ele fazia com aquele cutelo na mão? Devia ser alguma brincadeira. Alguém querendo me pregar um susto. Só podia ser.
E então ele veio se aproximando, se aproximando cada vez mais até chegar bem perto, perto o suficiente para que eu pudesse sentir seu cheiro nauseabundo. Eu tremia. Estando eu erguido pelas correntes olhava–me de baixo para cima e mirava-me fixamente nos olhos com aquele olhar vazio de sempre .
Eu tremia, tremia, tremia, babava e acho que já tinha feito tudo nas calças. Estava verdadeiramente assustado, aterrorizado, já pensava no pior quando ao fundo, quase à minha direita, uma nesga de luz apareceu de uma porta que se abria. Dela surgiu então a figura Seu Elias!
Seu Elias! Nunca tinha ficado tão feliz em vê-lo! Por certo minha mãe devia ter dito a ele que sumira quando ia ao seu estabelecimento, ele tratara de descobrir para onde o maníaco me levara e viera me salvar. Eu estava salvo!
Mas minha felicidade se transformou em perplexidade quando ele se dirigiu ao velho e falou:
- Era esse que tu queria pegar há tempo? Haha – riu, maligno e completou - Tá crescidinho esse, hein. Olha aqui, ó, o sangue pode ficar pra tu, agora anda logo com isso que a carne tá acabando e eu preciso cortar mais bifes.



Cly Reis

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

cotidianas #790 - "Carnavalescos"

 


São uma gente à parte - quase uma raça distinta das outras. Os que amam o Carnaval, como amam todas as outras festas, não são dignos do nome de carnavalescos. O carnavalesco é um homem que nasceu para o Carnaval, que vive para o Carnaval, que conta os anos de vida pelos Carnavais que tem atravessado, e que, na hora da morte, só tem uma tristeza: a de sair da vida sem gozar os Carnavais incontáveis que ainda se hão de suceder no Rio de Janeiro pelos séculos sem fim.
Que se hão de suceder - escrevi eu. Porque o verdadeiro, o legítimo, o autêntico, o único tipo de carnavalesco real é o carnavalesco do Rio de Janeiro. A espécie é nossa, unicamente nossa, essencialmente e exclusivamente carioca: só o Rio de Janeiro, com seus Carnavais maravilhosos, delirantes e inconfundíveis, possui o verdadeiro carnavalesco.
E não suponham que haja por aí muitos verdadeiros carnavalescos... Quase todos os foliões do Carnaval folgam por acidente, ou por imitação, ou por desfastio, ou por entusiasmo passageiro: folgam dois anos, ou cinco anos, ou dez anos - e cansam, e recolhem-se à vida séria. Mas o carnavalesco não tem cansaço nem aposentadoria: envelhece carnavalesco, e morre carnavalesco: morre no seu posto, extenuado pelo Carnaval, entisicado pelo Carnaval, devorado pelo Carnaval. O Carnaval é para ele ao mesmo tempo uma paixão absorvente e arruinadora, um vício indomável, uma religião fanática. Para ele, o Carnaval é o único oásis fresco e perfumado, que se antolha no adulto deserto da vida!
Esse é o verdadeiro carnavalesco. Trabalha todo o ano, pena e sua 12 meses a fio, privando-se de tudo, alimentando-se mal, vestindo-se mal, acumulando, somiticamente, ansiosamente, alucinadamente, vintém a vintém, os contos de réis que há de gastar no Carnaval. são 12 meses de sacrifício, de renúncia, de desprendimento: o carnavalesco pensa no Carnaval. Não era maior que a sua a constância de Jacó, pastor apaixonado, servindo o velho Labão, pai da formosa Raquel... O carnavalesco para conquistar o Carnaval, pena toda a vida.

"Dizendo: mais penara, senão fora
Para tão grande amor tão curta a vida!..."

Acontece, às vezes, que o carnavalesco já não é um rapazola, sem família a sem deveres sociais: - é um homem maduro, negociante matriculado, tendo próprio casal e nele assistindo, tendo mulher e filhos, tendo apólices e comenda. Pouco importa! É um carnavalesco... Na vida desse homem, de vida regrada e equilibrada, o Carnaval é um hiato, é uma síncope, é a anulação completa de sua consciência de homem e chefe de família, é a suspensão absoluta de toda a sua gravidade de negociante e de comendador.
A família conhece e perdoa a sua paixão: e, no sábado de Carnaval, ei-lo que se despede dos seus e parte para o delírio, com os olhos acesos em febre e o coração rufando um zé-pereira precipitado (...) Parte, e a família não o vê durante os três dias fatais: e, na Quarta-feira de Cinzas, o carnavalesco volta ao seu lar e seus negócios, moído, pisado, contundido - e muitas vezes com a cara quebrada -, mas sem remorso, sem arrependimento, com o orgulho que dá a consciência da missão bem cumprida...

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trecho da crônica "Carnavalescos"
de Olavo Bilac (1901)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

"O Mistério de Candyman", de Bernard Rose (1989) vs. "A Lenda de Candyman, de Nia Da Costa (2019)

 



Bom jogo.

Dois bons times!

"O Mistério de Candyman", de 1989 já ocupa seu lugar entre os clássicos do terror, mas "A Lenda de Candyman", de 2019, não veio pra brincadeira e quer desbancar o favorito.

É o caso de remake que não é exatamente uma refilmagem, estaria mais para uma sequência, um reboot, uma vez que tem ligação com os fatos já acontecidos, faz referência a personagens da trama original, mas cria de tal forma um novo conceito que o termo re-fazer torna-se totalmente mais adequado.

No original, de 1989, uma pesquisadora acadêmica, Helen, em busca de um bom assunto para sua tese universitária, investiga uma suposta lenda urbana de um homem negro, com um gancho no lugar de uma das mãos, que, segundo dizem, aparece sempre que invocado, cada vez que seu nome é repetido cinco vezes diante de um espelho. Ela mergulha na pesquisa e descobre que, há mais de um século atrás, o homem em questão, um negro filho de escravos, dotado de grande talento artístico, contratado para pintar um retrato da filha de um importante aristocrata, teria sido morto cruelmente por um poderoso aristocrata,  depois de se apaixonar e engravidar a moça. O negro, conta a lenda, teria sido torturado, sua mão decepada e colocado um gancho em seu lugar, além de lambuzado em favos de mel, exposto a abelhas dentro de um antigo apiário, sendo picado até a morte e depois ainda, como se não bastasse jogado em uma fogueira. Ela visita um conjunto habitacional de baixo padrão na periferia de Chicago, o Cabrini-Green, construído no local onde há tempos atrás teria ocorrido a barbaridade com o artista, e onde moradores alegam ver a entidade, atribuindo a essa assombração a autoria de vários crimes ocorridos lá.

Ainda cética e incrédula quanto à lenda, ela invoca a entidade e a partir de então sua vida torna-se um inferno. Visões, apagões, pesadelos passam a fazer parte de seus dias, e assassinatos nos quais ela estivera presente nas cenas dos crimes, a tornam a principal suspeita das mortes, sendo que, sem memórias claras, nem ela mesmo tem certeza de não tê-los cometido.

É que Candyman, depois de invocado por Helen, passa a ter com ela uma estranha ligação e a exige em sacrifício em troca da vida de um bebê que sequestrara no Cabrini-Green. E, vingativo e ressentido, não pretende parar de matar até que Helen se entregue a ele e compense, de certa forma, a mulher por quem foi sacrificado.


"O Mistério de Candyman" - trailer


No novo, essa questão da injustiça social, do julgamento racial, de um negro pobre ser morto simplesmente por ser negro e pobre, ganha muito mais força e significação. Em "A Lenda de Candyman", todos aqueles fatos já teriam acontecido e agora ecoam como um boato, um mito distante, uma lenda, que quase ninguém leva a sério. No entanto, Anthony, um artista plástico em crise criativa, em busca de uma maior expressão em sua arte, que pretende recorrer às raízes do povo negro, suas mazelas, suas dores como inspiração para sua arte e nesta busca, numa conversa casual, esbarra na tal da lenda de Candyman. Descobre que o bairro onde vive localiza-se numa área hoje revitalizada mas que outrora abrigava um bairro de classe baixa tido como "barra pesada", onde um homem negro que costumava dar doces para as crianças, fora morto injustamente, linchado pela polícia. Resolve desenterrar a história e ver até onde aquilo tudo tem algum fundo de verdade. O próprio interesse dele na história, no personagem e sua verificação dos fatos e contestação dos acontecimentos desperta a força sobrenatural adormecida. Curioso, cada vez mais intrigado e envolvido com a história, meio que na brincadeira, ele resolve invocar a entidade, só que aquilo era tudo que Candyman precisava: um homem negro, angustiado, em busca de respostas, em busca de si mesmo... Quando esse negro se olha no espelho ele vê todos os negros injustiçados, subestimados, subvalorizados, pré-julgados, espancados, linchados, mortos, e todos esses negros estão simbolizados na figura de Candyman.

Inspirado pelo personagem que pesquisara e descobrira, Anthony cria uma instalação artística, uma espécie de espelho de banheiro, repleto de símbolos, imagens e recados em seu interior, que, exposta numa galeria causa alvoroço e incita alguns brancos desavisados, céticos, descrentes, ignorantes, a ousarem dizer seu nome na frente do espelho. "Candyman, Candyman,  Candyman, Candyman, Candyman...".  Branco, você não devia ter feito isso...

Se para um negro que o chama ele surge com essa força ancestral poderosa (assustadora, é verdade, difícil de incorporar com naturalidade), para um branco que o faz, por galhofa ou curiosidade, Candyman revela toda sua fúria justiceira deixando um rastro de sangue vingativo.

Aos poucos Candyman vai se apossando de Anthony. O que vemos é desagradável, não é bonito mas... é isso: nunca foi bonito. É a vez do artista encarnar toda a injustiça e a violência sofrida pelos negros ao longo dos tempos. Mas ele aceitará essa tarefa?


"A Lenda de Candyman" - trailer


Jogo duríssimo, hein...

Propostas de jogo parecidas mas com alternativas táticas diferentes.

Se o primeiro é um filme de serial-killer sobrenatural que toca em pontos sensíveis, como machismo, desigualdade social, violência policial, gentrificação e, sobretudo, racismo; o segundo coloca essas discussões no centro da trama e, ao contrário, faz do terror um acessório importante.

É o duelo dos técnicos! De um lado o britânico Bernard Rose que não brilhou muito em trabalhos posteriores mas que aqui mostra muita competência, e do outro a jovem treinadora Nia da Costa, cheia de novas ideias e já mostrando um ótimo trabalho em seu segundo longa. Mas com tramas tão bem desenvolvidas, mais do que um duelo de treinadores, a batalha dos Candyman revela-se uma guerra dos roteiristas. De um lado, nada menos que o mestre do terror Clive Barker, idealizador e roteirista do filme de 1989, e do outro um dos grandes nomes do gênero na atualidade, o excelente Jordan Peele.  Como dá pra notar, comissões técnicas de peso. 

E dentro de campo a coisa não é diferente. O antigo aposta nas individualidades com Virginia Madsen, do primeiro "Duna", numa ótima atuação, no papel da pesquisadora Helen, e o lendário Tony Todd, do remake de "Noite dos Mortos-Vivos", espetacular como o personagem que dá nome ao filme. O novo, sem nenhuma grande estrela, aposta no conjunto e como ponto a seu favor traz um  um elenco predominantemente preto num filme sobre questões negras.

Partida equilibradíssima!!!

Quem leva?

Tony Todd é um Candyman muito melhor, mais assustador, mais impressionante com aquele rosto crivado de abelhas, do que o inexpressivo Michael Hargorve que é o Candyman que aparece na maior parte das vezes na nova versão. Embora sejam utilizados outros atores também no papel ao longo do filme em diferentes situações, Hargrove é quase aquele jogador que joga 'no nome'. Impressiona porque é O CANDYMAN, pois qualquer ator podia estar ali que faria o mesmo efeito, tanto que, grande parte das vezes, sequer vemos seu rosto com nitidez. Candyman 89 abre o placar.

Nia da Costa mostra-se mais diretora que Bernard Rose com um produto final mais bem acabado. Cor, iluminação, direção de arte, opções estéticas... tudo depõe a favor da norte-americana que conduz seu time com fluidez para o gol. Candyman 2019 empata o jogo. Jogada com o dedo da treinadora.

Mas o time de 1989 tinha uma arma secreta. A trilha sonora ficara a cargo de ninguém menos que o gênio Philip Glass. E ele não decepciona, entregando uma atmosfera tensa mas ainda assim extremamente elegante e sofisticada. É Candyman 89, novamente à frente no placar. 2x1.

Num time sem grandes estrelas, a diferença está na casamata. A treinadora Nia da Costa desequilibra de novo, com três momentos incríveis: o flashback recontando a origem do Candyman e os acontecimentos em Cabrini-Green, contado com muita sensibilidade estética num teatro de sombras; a morte da crítica de arte, Rebecca, sendo erguida e arrastada por uma força invisível, no interior de seu apartamento, filmada numa tomada afastada, quase como um vizinho observando; e a evocação final de Brianna, a namorada de Anthony, dentro da viatura entendendo o verdadeiro significado do Candyman. Cena fantástica, linda mas brutal, violenta mas emocionante. Golaço! Candyman 2019 deixa tudo igual novamente, 2x2.

Michael Brown, Jesse Washington, Sarah Bland, Geroge Floyd...
Todos eles são Candyman.
Diga o nome deles.

Difícil dar a vitória para algum dos dois aqui mas... a denúncia social, o recado anti-racista, a incisividade do discurso, a reinvenção de um clássico, dão a vitória para "A Lenda de Candyman". 

A evocação de Candyman na frente do espelho é um convite a que cada negro olhe seu reflexo e entenda que a imagem que vê guarda consigo cada um dos outros tantos que foram escravizados, espancados, pendurados em árvores, injustiçados, vistos com desconfiança só por serem negros, presos só por serem negros, mortos por serem negros. Quando Nia da Costa propõe que seus personagens falem o nome de Candyman, remete ao "Say Her Name", movimento que defende mulheres vítimas de agressão policial. Uma provocação inteligente colocada de forma brilhante. Chamar o Candyman é um desafio para que evoquemos nomes como Jesse Washington, Michael Brown, George Floyd e outros tantos. Você, irmão, negro, não esqueça dos nomes deles e delas. Você, branco, você tem coragem de dizer o nome deles? É golaço! Sabe de quem? Candyman é o nome da emoção! 

Vitória da Lenda de Candyman. Mas não foi fácil. Dois times de respeito num jogo, daqueles, para não esquecer.


No alto, à esquerda, Helen, e à direita, Anthony, ambos em busca de respostas sobre Candyman.
Abaixo, os dois Candyman, à esquerda, o da primeira versão e, à direita, o (ou um dos) da refilmagem.



Parafraseando a letra daquela música que a galera canta no estádio:
"Porque esse time bota pra ferver
E o nome dele são vocês que vão dizer"

(Digam vocês porque eu tô fora!
Vai que ele apareça mesmo...)








por Cly Reis