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Não é de hoje que acompanho os trabalhos fotográficos de minha amiga Íris Borges. Aliás, lembro de quando ela começou nessa trilha da fotografia, há uns bons anos. Porém, como se vão 30 anos de amizade, deu tempo de vê-la aperfeiçoar-se nessa arte e colocar pra fora esse talento, seja em projetos solo, seja nos registros de eventos como a Feira do Livro de Porto Alegre. Em 2014, inclusive, tive a felicidade de visitar e, mais do que isso, escrever o texto de apresentação de sua exposição “Aparício”, no antigo Paris Cinema Café, dedicada ao saudoso gatinho dela e de seu parceiro, meu também amigo “trintão’Christian Ordoque.
Pois, já sabendo do talento de Íris com as lentes, fomos Leocádia e eu visitar antes que encerrasse a exposição “Tramas do Inventário”, com fotos dela e de Letícia de Cássia, também curadora, no espaço Vitrine Lãs do RS: Fio da Meada, na Casa de Cultura Mário Quintana. A mostra, que busca fazer um inventário dos saberes e fazeres da lã do Rio Grande do Sul, integra o projeto de inovação social e cultural Lãs do RS, que apoia dezenas de artesãs a partir das ações ligadas à cadeia produtiva e artesanal da lã no Estado.
Tiradas principalmente por Íris e destacando o papel das mulheres neste contexto, há fotos de vários municípios do interior gaúcho onde a cultura da lã é presente, como Caçapava do Sul, Mostardas, Lavras do Sul, Rosário do Sul, Santana do Livramento e São Gabriel. Nelas, nota-se um olhar sensível e detalhista, que trazem cores, vivências e emoções só possíveis de serem captadas por quem, como Íris, estava atenta ao momento (e ao ângulo) certo. Tanto os retratos de pessoas quanto as fotografias de paisagens ou de objetos transmitem esse apuro, que alia instantaneidade e observação. Tudo sem uso de grandes recursos de edição posterior, ou seja, são fotos em que prevalece a luz original e o enquadramento da hora.
Pena que a exposição se encerrou, mas é bem possível que seja levada a algum outro espaço juntamente com as peças exclusivas das lãs feitas com uso de fibras naturais, couro e resíduos de plantas, através de técnicas tradicionais e de referência cultural. Se pousar noutro pago, possivelmente estaremos lá de novo. Por ora, confiram algumas das belas peças expostas em“Tramas do Inventário”:
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Foto geral da parede com as fotos
A fofa ovelha, geradora da matéria-prima
Retrato diante de um dos principais cartões-postais do RS: as ruínas das Missões, em São Gabriel
Fotaça mostrando manual a lavagem da lã
Novelos pendurados em diversos tons de cor
Diversidade de ângulos e olhares
Artesã captada pela lente de Letícia
A cadelinha atenta à lida com as ovelhas
Vê se essa nuvem não parece feita de lã?
Linda foto de Letícia do entardecer no campo
Outro ângulo geral com as peles naturais logo abaixo
Detalhe das tramas da lã que foi parar no pôster da exposição
Em junho, eu havia participado de uma sessão comentada sobre o belo “A Primeira Morte de Joana”, da cineasta gaúcha Cristiane Oliveira, na Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mário Quintana. Na ocasião, extremamente especial, pude discutir o filme com a produtora do longa-metragem Aletéia Selonk, da Okna Produções, a montadora Tula Agnostopoulos e a curadora da Cinemateca Paulo Amorim, minha colega de ACCIRS e de Jornalismo Mônica Kanitz, que me estendeu o convite. Mesmo com o gratificante posterior retorno da própria Cristiane, que mora em São Paulo e não pode comparecer naquele dia – mas assistiu ao vídeo completo do debate –, as correrias dos dias não me permitiram registrar aqui no blog aquele encontro.
Sessão de "A Primeira Morte..." com as parceiras de debate Tula, Mônica e Aletéa
Os meses passaram e um novo convite veio, intermediado pela mesma Mônica mas, desta vez, por ideia do próprio realizador, Giovani Borba, para uma sessão sobre o seu brilhante “Casa Vazia”, filme sobre o qual escrevi no Clyblog. Aliás, esta resenha, replicada nas redes sociais da produtora do longa, Panda Filmes, chegou a Giovani, que o motivou a contar comigo nesta feita. Saborosíssima, diga-se de passagem, seja por poder rever o filme, agora na tela grande, seja pelo contato presencial, seja pela ótima conversa, que transcorreu posteriormente à exibição.
Com a presença de um público enxuto, mas qualificado – entre os quais, um interessado Glênio Póvoas, meu ex-professor de cinema na faculdade e uma referência no que se refere à pesquisa e memória do cinema gaúcho – pudemos discorrer sobre aspectos de “Casa Vazia” muito interessantes e até elucidativos. Um deles é o rol de referências cinematográficas do jovem Giovani, que vai desde cinema iraniano à escola russa. Abbas Kiarostami e John Ford são duas delas. A mim já havia ficado evidentes as alusões aos irmãos Coen, principalmente ao new-western “Onde os Fracos não Têm Vez” (2007) e, especialmente, a Andrei Tarkowsky. A cena do incêndio da casa, chave para a trama de “Casa Vazia”, faz referência direta a de “O Sacrifício” (1986), porém é “O Espelho” (1979) com o qual o filme de Giovani guarda mais cruzamentos, seja na fotografia, nos enquadramentos e nos lances sensoriais.
Outro ponto bastante discutido foi a escolha de elenco e, em especial, a participação de Hugo Noguera, ator não-profissional mas que, nem por isso, atua com maestria – que lhe rendeu, inclusive, prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado de 2022, pelo papel do sofrido Raúl. Giovani contou que sua ideia inicial era de realizar um filme apenas com atores amadores, mas que essa ideia foi se modificando com o andar da pré-produção em razão de uma série de questões. Porém, o papel do protagonista era uma vontade a qual gostaria de não abrir mão de utilizar alguém que não fosse da profissão para que as características rústicas do gaúcho de fronteira restassem preservadas genuinamente. O encontro com Nogueira, homem de forte sotaque “portunhol” na vida real, foi quase por acaso, mas se mostrou certeiro. A obra se desenvolve, sim, a partir das ideias do roteiro do próprio Giovani, mas muito em função da forma de ser e da sensibilidade de Nogueira, que imprimiu, mesmo sem a técnica cênica formal, peculiaridades que ajudaram a formatar a personagem de Raúl. Giovani, como bom diretor, claro, acatou de bom grado tais contribuições.
Aos que não assistiram, “Casa Vazia” é um drama com toques de western, que trata do empobrecimento de regiões agrícolas, tendo no protagonista, um peão de meia idade de traços indígenas e gestos rudes, o retrato social de um típico gaúcho na atual região do Pampa gaúcho, abordando o tema da pobreza no campo e evidenciando a violência e os conflitos sociais, econômicos e psicológicos do personagem principal. Não é somente uma obra apreciável, mas, como bem disse professor Glênio durante a sessão como um entusiasta do filme, "Casa Vazia" é uma das melhores produções do cinema gaúcho contemporâneo, o que, assim como para com "A Primeira Morte...", pode-se já afirmar mesmo com tão pouco tempo de vida de ambos.
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Com Mônica e o talentoso Giovani falando sobre "Casa Vazia"
Foto "oficial" com os três após o rico papo na Cinemateca Paulo Amorim
Será com certeza um prazer comentar sobre uma das recentes produções de longas-metragens gaúchas, o elogiado "Casa Vazia", nesta quarta-feira, em minha amada Cinemateca Paulo Amorim, da Casa de Cultura Mário Quintana, O filme, sobre o qual já comentei aqui no blog, terá uma sessão comentada, que contará com a minha participação como membro e secretário da ACCIRS, e da colega Mônica Kanitz, Vice-Presidente. Na ocasião, vamos debater com o diretor do filme, Giovani Borba, na Sala Paula Amorim, a partir das 19h15.
Vencedor de 5 Kikitos, no Festival de Gramado, e um Troféu Redentor, no Festival do Rio, o longa trata do empobrecimento de regiões agrícolas, tendo no protagonista o retrato social atual de um típico gaúcho em uma zona historicamente romantizada, mas cuja realidade opera de maneira implacável. O clima de tensão da história, pelo qual é possível classificar o filme como um new western, se equilibra com o drama, personificado na pessoa de Raúl, um dos milhares de trabalhadores do campo que tentam se reorientar e lutar pela sobrevivência e preservar seus costumes.
Quem puder comparecer, valerá a pena. Nem sei se pelo o que terei para falar, mas por conta do ótimo filme mesmo, que fala por si.
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sessão comentada filme“Casa Vazia”
com Daniel Rodrigues, Mônica Kanitz e Giovani Borba
Quando23 de agosto, quarta-feira, 19h30
Local:Cinemateca Paulo Amorim - Casa de Cultura Mário Quintana
Rua dos Andradas, 736 - Centro Histórico - Porto Alegre/RS
Desde a primeira reunião, numa final de tarde outonal de 2008, estava lá eu, juntamente com um punhado de outros amantes de cinema num apartamento à Av. Cristóvão Colombo, em Porto Alegre, residência de uma das fundadoras. Eu, que havia recém iniciado um projeto de um blog de cinema, O Estado das Coisas (hoje desativado), ainda nem havia me tornado colaborador do Clyblog, onde de fato expandi meu exercício de crítica, e já me fazia presente ali, meio assustado ao lado de gente que admirava e admiro. Jornalistas a quem eu lia, assistia, ouvia. Profissionais da Academia já referenciais para a cinefilia gaúcha. Críticos de cinema com experiência em veículos, festivais, júris, curadorias. Mesmo intimidado com o desafio, fui dos que deram o aval para o começo de uma entidade congregadora de críticos de cinema em nossos pagos que promovesse este fazer crítico por meio de diversas vias: a realização de seminários sobre crítica, a formação de grupos de estudo sobre a linguagem audiovisual, a programação de sessões de cinema com debates, a geração de conteúdos em diversas plataformas, a composição de júris da crítica, entre outros. Estava criada, a 29 daquele mês, a Associação de Críticos do Cinema do Rio Grande do Sul, aAccirs.
Relembrar os movimentos primordiais da associação teve um gosto ainda mais agradável no encontro que promovemos no último dia 5, marcado exatamente para celebrar o aniversário da Accirs. Com a presença de convidados, familiares e amigos, nós nos reencontramos para a ocasião festiva orgulhosos da bagagem pessoal e coletiva que agregamos nestes 15 anos, mas também contentes pela novidade, seja pelos membros não tão antigos como eu (ou Ivonete Pinto, Fatimarlei Lunardelli, Marcos Santuário, Roger Lerina, Adriana Androvandi, minha “madrinha” na Accirs, e outros), seja pela recepção aos novos integrantes, os sete entrantes. A mim, enxergar ao longe aquele Daniel bem mais inseguro mas já capaz de unir-se àqueles pares, é bastante gratificante. Além do crescimento que os anos naturalmente trazem, é-me fácil perceber o quanto a Accirs, na qual hoje sou Secretário, me proporcionou (proporciona) em termos de desenvolvimento enquanto crítico e ente social pensante para tudo aquilo que o cinema propicia.
Os 15 anos de atividades da Accirs contaram também com uma exibição especial: a pré-estreia do longa-metragem brasileiro “O pastor e o guerrilheiro”, novo filme do diretor José Eduardo Belmonte, exibido no 50º Festival de Cinema de Gramado. Na mesma ocasião, foram entregues por nosso presidente, Danilo Fantinel, e nossa vice-presidente, Mônica Kanitz, os certificados para os vencedores do Prêmio Accirs para os Melhores do Ano em 2022. Por “5 Casas”, de Bruno Gularte Barreto, foi entregue ao roteirista do filme, o cineasta e professor Vicente Moreno. Já por “Sinal de Alerta: Lory F.”, o diretor Fredericco Restori, juntamente com a irmã da biografada, a atriz Débora Finochiaro, recebeu o certificado de melhor curta gaúcho. Outro curta, “Madrugada”, dividiu o prêmio de com “Sinal...”, alcançando-se a seus realizadores Leonardo da Rosa e Gianluca Cozza a homenagem. Ainda, Ivonete e Marcus Mello receberam o Prêmio Luiz César Cozzatti, concedido a destaques da cena audiovisual do RS, pela revista Teorema, publicação impressa dedicada à crítica cinematográfica que completou 20 anos de existência.
Foi, por todos estes dois motivos, mas principalmente, pelo encontro de uma história já percorrida com o sopro da renovação, que o brinde pela Accirs foi especialmente bonito. Sorrisos, papos, reencontros, carinho, apresentações, abraços. Uma noite de sair com o peito preenchido – de afeto e de cinema.
Confira algumas fotos tiradas por diversos de nós membros.
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Coquetel rolando, papos sobre cinema e tudo mais
Momento de entregar os certificados aos melhores de 2022
Danilo e Mônica falando para a plateia na Sala Paulo Amorim
Ivonete e Marcos, agraciados com o destaque do ano pela Teorema
Os jovens diretores do curta "Madrugada"
Restori falando por seu "Sinal de Alerta Lory F."
A galera toda para a foto oficial: membros e convidados numa noite especial para o cinema gaúcho
Para um cinéfilo gaúcho que sempre gostou de escrever sobre
o que assiste e que cresceu visitando as salas de cinema de Porto Alegre se
deparando invariavelmente com edições da revista Teorema, estar numa delas como autor assinando algum daqueles enormes, analíticos e inspirados artigos pode-se classificar
como um sonho. Daqueles alentados desde a adolescência, mas já absorvido pela conformação
da maturidade. Pois esse singelo sonho está se realizando, e se materializa nesta
sexta-feira, dia 16/12, quando do lançamento da histórica edição nº 32 da publicação.
Histórica, não porque tive a honra de ser convidado a
escrever um de seus textos (sobre o longa “Não, Não Olhe!”) ao lado de gente do
calibre de Enéas de Souza, Fabiano de Souza, Ivonete Pinto, Carla de Oliveira,
Marcus Mello e outros, muitos dos quais nortes na crítica cinematográfica para
mim. Também, não necessariamente porque o lançamento se dá depois de um longo
hiato por conta da pandemia desta resistente publicação forjada na essência da
crítica de cinema. Mas, principalmente, porque esta edição torna-se especial por dois motivos: com ela, completam-se longevos 20 anos da revista e porque
esta será a última edição impressa. Sim, a Teorema, este compêndio mítico para os amantes do cinema no Rio Grande do Sul, com
aquela capa chamativa sempre monotemática/monocromática de Flávio Wild e rica como pouco se vê no meio editorial, passará agora apenas
ao espaço virtual. Sinal dos tempos.
Sem me alongar por ora, somente estas poucas palavras do
muito que poderia falar já justificam a importância deste evento de lançamento,
que ocorre na arejada Livraria Taverna, em plena Casa de Cultura Mário Quintana,
coração de Porto Alegre – espaço cultural o qual (permito-me dizer mais isso) é
um dos responsáveis pela revitalização/ocupação da até bem pouco deteriorada CCMQ. Enfim, voltarei aqui com registros fotográficos e de afeto.
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lançamento da revista Teorema # 32
Onde:Livraria Taverna (Rua dos Andradas, 736 - Centro
Histórico, Porto Alegre)
Quando:Dia 16 (sexta-feira) de dezembro de 2022, 19h
Valor do exemplar:R$ 15,00
A revista estará à
venda na bilheteria da Cinemateca Paulo Paulo Amorim e na Livraria Taverna.
Estar no lugar certo e no momento certo nem sempre é um privilégio. A raridade desta pertinência em momentos históricos pode ser, por ação de força maior, marcada justamente pelo oposto daquilo que se representa. Foi isso que aconteceu com o 1º Festival de Cinema Negro em Ação: estar no lugar e no momento certos. Ou fatalmente errados. Justificadamente programado para iniciar no Dia da Consciência Negra, no 20 de novembro de 2020, o festival, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, por meio da Casa de Cultura Mario Quintana e do Instituto Estadual de Cinema, e encabeçado pela cineasta Camila de Moraes, jamais previa que a brutalidade do racismo se encarregaria de, horas antes de raiar o sol para esta data de celebração, ver João Alberto de Freitas ser assassinado diante de câmeras de celular e dos olhos coniventes da opressora estrutura social brasileira. E isso, no lugar certo e igualmente errado: a mesma Porto Alegre onde foi criada e relegada a data e onde o festival foi realizado.
Mal comparando, assim como aconteceu com Barack Obama em 2009, que acordou Nobel da Paz pelo simples (e grandioso!) fato de ser o primeiro negro presidente dos Estados Unidos, o Festival nem havia começado sua exibição e já entrava para a história da produção cultural do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre pelo triste, marcante e denunciador episódio. Fez, contudo, com aquilo que lhe é machado e lança: com arte. Melhor representatividade disso foram os curtas-metragens, uma das categorias do festival juntamente com a de Videoclipes e Videoarte e de Longas-Metragens. Os 33 títulos muito bem selecionados pela curadoria deram, cada um a seu modo e circunstância, um panorama não só da produção audiovisual negra nacional como, sintonizados com os temas urgentes e circundantes da questão preta, também da cultura afrobrasileira em suas mais diversas manifestações, da religiosidade à arte, do gênero à exclusão social, do racismo ao tema indígena.
"Entremarés": sensibilidade e arte reconhecidas no festival
A diversidade entre os curtas exibidos foi bastante celebrável, ainda mais para uma primeira edição. Drama, comédia, fantasia, documentário, animação, videoarte, cinebiografia. Teve de tudo um pouco. E mais importante: todos com o discurso afiado para as questões da negritude, seja denunciando as desigualdades, exaltando os valores ou resgatando elementos da herança afro. Os títulos selecionados pelo júri passam muito bem a ideia desta multiplicidade de propostas e fazeres condizentes com a causa. O filme escolhido como Melhor Curta-Metragem Nacional, o pernambucano “Entremarés”, de Anna Andrade, é exemplar. Documentário de estética riquíssima em elementos narrativos e de olhar sensível e humano, retrata a vida e o trabalho de mulheres que sobrevivem da atividade pesqueira na Ilha de Deus, comunidade da Zona Sul do Recife. Já o Melhor Curta-Metragem Gaúcho, “Flamingos”, é igualmente relevante. Num conteúdo transmídia, o documentário, dirigido por José Pedro Minho Mello, aborda de forma ousada e sensível um tema pouco discutido: o universo homossexual no futebol (ainda mais no patriarcal Rio Grande do Sul), ainda retratado como um meio da virilidade masculina e hetero.
O gaúcho "Flamingos" levanta um tabu na sociedade: a homossexualidade no futebol
Outro fator observado entre os curtas concorrentes foi a diferença de realidades nos quais foram produzidos, o que conta bastante no caso de realizadores negros – muitos em seus primeiros projetos – e que transborda para a produção em si. A dificuldade e recentidade do acesso ao meio audiovisual por parte de realizadores negros, as diferenças sociais e produtivas das diversas regiões do País e a própria maturação do festival, ainda um projeto estreante, podem explicar tais distâncias. As diferenças técnicas entre os filmes, no entanto, não são o mais importante. Afora a compreensão dos contextos, o que resultou, em sua grande maioria, é suficientemente satisfatório e louvável.
O belo "Inspirações" levou menção honrosa
Denotam bem estes polos de como ambos funcionam em suas realidades dois documentários exibidos. Um deles é “Mulheres Negras - Projetos de Mundo”, de Day Rodrigues e Lucas Ogasawara (SP). Tecnicamente perfeito, o filme conta com a participação de nomes como Djamila Ribeiro e Preta-Rara e transmite com contundência sua mensagem sobre o empoderamento e lugar de fala femininos, valendo-se do formato clássico de depoimentos conjugados com interferências gráficas e lances performáticos. Já outro doc, “Inspirações” (RJ), de Ariany de Souza e equipe, de produção bem mais enxuta, pode até incorrer em “falhas” técnicas em alguns momentos, como na operação da câmera ou no acabamento dos créditos de encerramento, mas cumpre o papel que muito filme milionário não tem tal capacidade artística, que é o de contar uma história e envolver emocionalmente o espectador nela. Num formato de “work in progress”, “Inspirações” traz um importante aspecto da produção audiovisual negra no Brasil, que é a Educomunicação, ou seja, produções realizadas dentro de instituições escolares e que muitas vezes são a porta de entrada para jovens realizadores ao mundo do cinema.
Ariany de Souza e equipe, aliás, estão entre as quatro menções honrosas as quais o júri considerou importante distribuir levando em conta o numeroso volume de ótimas produções de curtas-metragens concorrentes e a grande diversidade que estas obras apresentaram. Mereceram tal destaque ainda Manuela Miranda, como atriz pelo seu papel em “Quero ir para Los Angeles”, de Juliana Balhego (RS); Filme de Ficção para "Faixa de Gaza", de Lúcio César Fernandes Murilo (PB); e Filme Infanto-Juvenil para "4 bilhões de infinitos", de Marco Antonio Pereira (MG). Além destes, “Projeto Perigoso”, de Fabricio Zavareze (RS), foi vencedor do Júri Popular na mesma categoria.
Filme“Quero ir para Los Angeles”, de Juliana Balhego (RS)
Protestos, manifestações, indignações e notas de repúdio foram emitidas no último e tristemente emblemático 20 de novembro por causa da morte de João Alberto por um motivo aparentemente banal. Foi quando, também, se dava o pontapé inicial para o Festival, motivado por aquele que devia ser o principal e único motivo do Dia da Consciência Negra: celebração. Sabe-se, no entanto, que tanto não foi banal o motivo da morte de João Alberto, visto que denunciador do racismo estrutural da sociedade gaúcha e brasileira, quanto o festival foi ainda mais incisivo ao levantar outro ponto essencial desta questão, que é a discussão sobre o racismo. Quem sabe, não se estaria mais avançado nesta discussão se, no passado, tivesse sido instituída a data como feriado municipal, não apenas pela necessidade e urgência, como, inclusive por esta ter saído de um porto-alegrense, o poeta Oliveira Silveira? Quem sabe o desfecho de João Alberto não precisasse ser tão trágico e revoltante? Devaneios a que a brutal realidade impinge, sem dó, a necessidade de um aprofundamento real do preconceito enraizado. A depender da produção audiovisual de curtas-metragens negros, esta discussão se dará com muita propriedade. E o Festival Cinema Negro em Ação em si ainda mais. Mesmo que não tivesse trazido a qualidade que apresentou, ainda assim se configuraria como um símbolo da luta negra no percurso do audiovisual gaúcho, com de fato ocorreu. Pelo certo ou pelo errado, entrar para a história às vezes tem um gosto amargo.
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Confira a lista completa dos vencedores no festival:
Videoclipe e Videoarte Videoclipe RS: “Cristal – Ashley Banks”, com direção de Cleverton Borges
Menção honrosa: “Killa – Enme”, com direção de Jessica Lauane (MA)
Videoarte: RS: “Rituais Virtuais”, de Valéria Barcellos Nacional: “Marvin.gif PART II”, de Marvin Pereira (BA) Internacional: “Travessia”, de Terra Assunção (Portugal) Menção honrosa: “Canudos em minha pele”, de Rosa Amorim (PE)
Jurados: Ellen Corrêa (Macumba Lab), Thiarles Batista (IEAVi-RS) e Domício Grillo (TVE - RS)
Curta-Metragem RS: “Flamingos”, de José Pedro Minho Mello Nacional: “Entremarés”, de Anna Andrade (PE) Júri Popular: "Projeto Perigoso”, de Fabrício Zavareze (RS) Menções honrosas: Atriz: Manuela Miranda em “Quero ir para Los Angeles”, de Juliana Balhego (RS) Filme Revelação: “Inspirações”, de Ariany de Souza e equipe (RJ) Filme de Ficção: “Faixa De Gaza”, de Lúcio César Fernandes Murilo (PB) Filme Infanto-Juvenil: "4 Bilhões de Infinitos", de Marco Antonio Pereira (MG)
Judados: Daniel Rodrigues (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul), Gautier Lee (Macumba Lab), Luiz Felipe de Oliveira Teixeira (Conselho de Ações Afirmativas do IECine) e Pedro Caribé (Cinema de Terreiro, Salvador - BA)
Longa-Metragem: Nacional: “Raízes”, de Simone Nascimento e Wellington Amorim (SP) Menç]ão Honrosa: “De Cabral a George Floyd. Onde arde o fogo sagrado da liberdade”, de Paulinho Sacramento (RJ)
Jurados: Jessé Oliveira (IEACen-RS), Mário Costa (Macumba Lab), Gisela Pérez Fonseca e Felipe Aljure (Festival Internacional de Cinema de Cartagena de Indias/Colômbia)
O ator Chiwetel Ejiofor em "12 Anos de Escravidão": essencial
A morte precoce do ator Chadwick Boseman deixou de luto seus fãs e cinéfilos do mundo inteiro. Sua partida marcou principalmente a comunidade negra, que tinha no artista afro-americano um símbolo de representatividade e de empoderamento em um mundo ainda pautado pelo racismo e pela discriminação. Ao encarnar o super-herói “Pantera Negra”, Boseman se transformou em uma referência. Mas, antes dele, muitos outros personagens negros do cinema também deram sua contribuição para essa história de reconhecimento e pertencimento. Por conta disso, fui convidado pela Cinemateca Paulo Amorim, da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, em nome de sua programadora, a jornalista Mônica Kanitz a destacar alguns destes filmes, que figuram neste vídeo especial produzido pela instituição. Confira o vídeo e a lista dos respectivos filmes aos quais selecionei.
Vídeo"Chadwick Boseman e Outros Protagonistas Negros no Cinema" Cinemateca Paulo Amorim
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1 -"Adivinhe Quem Vem para Jantar", de Stanley Kramer (1967)
Em São Francisco, Matt Drayton (Spencer Tracy) e Christina Drayton (Katharine Hepburn), um conceituado casal, se choca ao saber que Joey Drayton (Katharine Houghton), sua filha, está noiva de John Prentice (Sidney Poitier), um negro. A partir de então dão início à uma tentativa de encontrar algo desabonador no pretendente, mas só descobrem qualidades morais e profissionais acima da média. Primeiro filme a abordar o tema do racismo e dos conflitos nas relações socioraciais. Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Hepburn), Melhor Roteiro Original (William Rose) e Melhor Ator (Tracy).
2 -"Faça a Coisa Certa", de Spike Lee (1989)
Numa pizzaria no bairro do Brooklyn, NY, onde a maioria da população é negra, há uma parede com fotos de ídolos ítalo-americanos. Quando o ativista Buggin' Out (Giancarlo Esposito) pede ao dono do lugar que a parede tenha ídolos negros e ele nega, inicia-se um boicote ao lugar, o que desencadeia uma série de incidentes. Spike Lee surgia para o mundo com essa obra-prima marcante na história do cinema e da causa negra diretamente contundente contra o racismo. Indicado a dois Oscars, incluindo o de Melhor Roteiro Original.
3 - "12 Anos de Escravidão", de Steve McQueen (2013)
Adaptação da autobiografia homônima de 1853 de Solomon Northup, conta a história real de um negro livre nascido em Nova Iorque, que é sequestrado em Washington e vendido como escravo. Ele trabalhou em plantações no estado de Louisiana por 12 anos antes de sua libertação, passando por todo tipo de sofrimento, violência e desumanidade. Primeiro filme de um cineasta negro a ganhar o Oscar de Melhor Filme, além de ter conquistado também os de Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o) e Melhor Roteiro Adaptado (John Ridley).
4 - "Madame Satã", de Karim Ainouz (2002)
O filme retrata a vida de uma referência na cultura marginal urbana do Rio de Janeiro, o célebre transformista João Francisco dos Santos. Malandro, artista, presidiário, pai adotivo de sete filhos, negro, pobre, homossexual, o artista, conhecido como "Madame Satã", se transformou num mito da vida boêmia carioca. Entre os vários prêmios, que recebeu, destacam-se o de Melhor Filme no Chicago International Film Festival, o Prêmio Especial do Júri para melhor primeiro trabalho (Ainouz) no Festival de Havana e os quatro que abocanhou no Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro, incluindo o de Melhor Ator para Lázaro Ramos.
5 -"Pantera Negra", de Ryan Coogler (2018)
Após a morte de seu pai, o Rei de Wakanda, T’Challa (Chadwick Boseman) volta para casa para a isolada e tecnologicamente avançada nação africana para a sucessão ao trono e para ocupar o seu lugar de direito como rei. Mas, com o reaparecimento de um velho e poderoso inimigo, o valor de T’Challa como rei – e como Pantera Negra – é testado quando ele é levado a um conflito formidável que coloca o destino de Wakanda, e do mundo todo em risco. Marco na história do cinema, "Pantera..." é o primeiro filme com um super-herói negro, o personagem criado nos anos 60 por Stan Lee, e também um símbolo necessário para uma época de empoderamento de homens e mulheres negras. Levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Ludwig Göransson), Figurino (Ruth E. Carter) e Direção de Arte para Hannah Beachler, também a primeira negra a ganhar a estatueta nesta categoria.
Convidados por nossa hermana Carolina Costa, Leocádia e eu
fomos a uma agradável feira a céu aberto ocorrida na Rua Bento Figueiredo, uma
pequena travessa do bairro Bonfim acostumada a, durante a semana, comportar
apenas a correria dos automóveis, uma vez que funciona como passagem entre duas
vias de bastante movimento, a Felipe Camarão e a Ramiro Barcellos, as quais se ligam
uma a outra por meio desta primeira. Neste domingo de uma tarde nublada,
entretanto, a via serviu de abrigo para a feira, esse belo tipo de iniciativa
que aos poucos Porto Alegre vai adotando a exemplo de Rio de Janeiro e São
Paulo: a da ocupação de espaços públicos para ações comunitárias e alternativas
ao comércio pasteurizado.
Tinha de tudo um pouco na feira: antiguidades, roupas, bijuteria,
brechó, artesanato. Havia também vinis, os quais, claro, dei uma boa parada
para ver. Muito bons, tanto em conservação quanto de diversidade e qualidade na
banca da Bugio Discos, que, organiza, inclusive, a Feira do Vinil de Porto
Alegre, a qual acontece na Casa de Cultura Mário Quintana e já é um sucesso de
público em sua 5ª edição. Nesta feira, entretanto, eles eram os únicos a
oferecer discos, tanto reimpressões novas quanto usados. Coisas bem variadas de
rock internacional, MPB e um pouco de jazz. Grata surpresa foi encontrar uma
edição do “Tubarões Voadores”, do Arrigo Barnabé, de 1985 (que o meu primo e clybloggerLúcio Agacê me apresentou lá nos anos 80), contendo o encarte
original, que é um HQ, de autoria do cartunista Luiz Cê, super raro. Tão raro,
que justificava o valor do disco: R$130,00. Contentei-me em levar, a um preço
bem mais em conta, um João Bosco, “Gagabirô”, de 1984, um dos de maiores
vendagens do cantor e compositor mineiro, que contém o hit “Papel Machê”.
Fora isso, tinham brincadeiras coletivas para crianças, como
bolhas gigantes, além de musica mecânica e apresentações artísticas, como a de
um espirituoso mambembe e suas acrobacias. Paramos para assisti-lo, e não é
que, sob os olhares atentos de adultos e pequenos, o sol, até então escondido
por detrás da espessa camada de nuvens, deu de aparecer? Não por muito tempo,
pois a nebulosidade logo o cobriu de novo e a noite chegou para selar de vez a
tarde. Mas enquanto esteve presente, fosse com os raios pelas frestas das
nuvens ou mesmo por entre elas, o astro-rei nos permitiu enxergar com olhos
mais atentos aquela rua de construções antigas bonitas, as quais não raro se
anulam no vai e vem acelerado da maior parte dos dias da semana. É como se nos
projetássemos em um tempo e como se aquela rua ali ganhasse uma aura mágica – a
qual, na verdade, é uma magia que já lhe pertence. A nós é que cabe reduzir a
marcha um pouquinho e apreciar as coisas do jeito que elas são. Na nossa bela
tarde mais nublada que ensolarada, deu para fazer isso.
Público conferindo a Feira
Roupas e acessórios independentes.
Tem de tudo na feira da Bento Figueiredo
Vinis da Bugio foram devidamente apreciados.
Sapatos à venda no brechó
Leocádia conversa com o dono do brechó Gama
As hermanas Leocádia e Carolina caminham pela feira
Carolina se senta com a criançada para assistir ao show