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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Towa Tei - "Last Century Modern" (1999)


"Ah, se eu nunca tivesse enviado aquela fita demo..."
Towa Tei

"Embora talvez não seja o álbum solo mais coeso de Towa Tei, é de longe o mais consistente."
Rich Juzwiak
jornalista e crítico musical da revista Pitchfork


A Deee-Lite, sucesso nos anos 90, tinha na formação um russo, Super DJ Dimitry, uma norte-americana, Lady Miss Kier, e um japonês. Este último, evidentemente o mais talentoso dos três, chamava-se Towa Towa. Este era o primeiro nome artístico de Dong-hwa Chung, produtor, DJ e compositor descendente de coreanos e japoneses, que um dia desembarcou nos Estados Unidos para estudar Design, mas que foi sequestrado pelo próprio talento musical. Na banda, era de se desconfiar que o apuro melódico, bem como as influências latinas e AOR, os beats funkeados, os samples criativos e o charmoso toque do piano fossem produto da cabeça dele. A suposição ficou confirmada quando, em 1994, já fora da Deee-Lite, é lançado seu primeiro disco solo, “Future Listening!”, quando passa a atender pela alcunha de Towa Tei.

Discípulo de Ryuichi Sakamoto, Towa começou na música por causa dele após enviar-lhe demos com músicas suas para o programa de rádio que o compositor e maestro tinha à época. Dadas as devidas proporções – haja vista que Sakamoto, de formação clássica, foi um dos maiores músicos do século 20 e ele está muito mais para uma mente criativa forjada nas mesas de som das boates noturnas e dos estúdios – Towa herda do mestre a versatilidade musical, o bom gosto compositivo e, principalmente, a visão universal da música com assinatura do Japão. Neles, tempos e estilos se fundem e se ressignificam. O que já era evidente nos trabalhos anteriores de Towa, com a fusão de eletrônica, bossa nova, trip hop, house e shibuya-kei, fica ainda mais claro em seu terceiro e mais bem acabado álbum: “Last Century Modern”, de 1999.

As semelhanças com Sakamoto aparecem desde o início do disco, a começar pela belíssima faixa-título, capaz de romper tempos cronológicos através dos sons. O título já diz tudo: "moderno do século passado". Neste tema, que parecer ter saído da Paris da Belle Époque, Towa engendra com muita classe uma quase valsa baseada na sonoridade do piano, do quarteto de cordas e do charmoso acordeom, responsável por desenhar a melodia. Porém, moderno e vintage ao mesmo tempo, Towa compõe esse instrumental para um vocal feminino não em francês, mas em inglês, cantado com sotaque nipônico pela conterrânea Ua. Além disso, inclui robotic voices, como as da Kraftwerk e Giorgio Moroder, dando um toque ainda mais anacrônico para a faixa. Impossível ficar alheio a tamanha musicalidade.

O samba brasileiro, que Towa aprendeu direitinho com Bebel Gilberto, sua parceira musical desde o primeiro disco, é evocado em “A Ring”. Cheia de samples, traz a bossa nova com ares franceses, como a de Henri Salvador e Pierre Barouh, principalmente pelo doce vocal francófono de Pascale Borel ao estilo da trilha do filme “Un homme et une Femme”. 

Towa e Sakamoto em 1994: duas gerações
e admiração mútua
A rotação muda totalmente com o drum ‘n’ bass “Angel”, cantada pela modelo e cantora japonesa Ayumi Tanabe e pela também cantora, mas chinesa, Viv. Mesmo pulsante (como todo drum ‘n’ bass), Towa não perde a elegância. Ayumi e Viv são convocadas novamente para mais uma excelente do álbum, “Butterfly”, na qual dividem os microfones com Yukihiro Takahashi, irmão de Nobuyuki Takahashi, ex-parceiro de Sakamoto na lendária banda Yellow Magic Orchestra, uma das pioneiras do eletropop nos anos 70. Música de trabalho de “Last...”, une a batida acelerada do drum ‘n’ bass com pitadas de música brasileira no arranjo.

Em “Contact” e “Congratulations!”, tal como “Sound Museum”, música que abre e intitula seu segundo álbum, de 1997, Towa esbanja as habilidades de DJ, articulando vários samples, colagens e manipulações do ritmo. “Stretch Building Bamboo”, nessa linha, tem ainda a participação dos colegas DJs britânicos Jumpin Jack Frost e Die, que o auxiliam na brincadeira com as pick-ups. “Chatr”, na sequência, traz uma batida rap, que faz cama para uma voz infantil quase falada. 

Encaminhando-se para o fim, a Deee-Lite - que nunca saiu de dentro de Towa (haja vista músicas dele como “Happy” e "Higher", de outros álbuns) é revivida na deliciosa “Funkin' For Jamaica”. Várias referências sonoras convivem entre si, do funk ao jazz, da soul a disco, do AOR ao rap. Cantam as vozes soul da norte-americana Joanne e da dupla francesa Les Nubians, que muito fazem lembrar os vocais de Miss Kier. Contribuem para a faixa, ainda, o trompetista de jazz norte-americano Tom Brawne e o guitarrista japonês Hiroshi Takano.

Momento especial do disco, “Let me Know”, na remix do grupo francês The Might Bop, une a atmosfera do AOR com a bossa nova, porém com um cuidado todo especial na programação de ritmo, que reproduz, eletronicamente, até o repique da batida do samba. A voz da cantora japonese Chiara, dulcíssima e sensual, fecha perfeitamente com esse arranjo e melodia, que bem poderiam ter sido escritos por Sakamoto. Entre as participações que ajudam o número a ficar ainda melhor estão o brasileiro Romero Lubambo, que empresta aquela batida de violão a la João Gilberto; a harpa de Tomoyuki Asakawa; a percussão de Asa-Chang, o sax de Yasuaki Shimizu; e os teclados de outra lenda da música pop japonesa: Haruomi Hosono, o terceiro YMO junto com Sakamoto e Takahashi.

Depois dessa verdadeira joia, Towa ainda encerra com fineza numa reedição da faixa-título (apenas com sua sigla “LCM” agora). Mais curta, mas não menos bela. O acordeom do japonês Coba e as cordas da The Balanescu Quartet são complementadas por um breve, mas tocante coro de crianças, que entoa apenas melismas para fechar lindamente a faixa e o disco.

Mestre e discípulo, Sakamoto e Towa se cruzariam ainda algumas vezes. Towa colaborou com seu ídolo nos álbuns “Heartbeat” (1991) e “Sweet Revenge” (1994). O contrário também aconteceu, quando o célebre compositor retribuiu o carinho e deu seu toque inconfundível de piano a "Luv Connection", do já citado disco "Future Listening!" e, mais tarde, em “Milky Way”, do álbum “Flash” de Towa, de 2005. Mas o principal dessa afinidade, no entanto, já havia se configurado desde aquele primeiro contato entre ambos, quando perceberam o que havia em comum entre eles: a enorme musicalidade capaz de abranger o mundo todo sem deixar, contudo, de serem essencialmente japoneses.

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FAIXAS:
1. "Last Century Modern" (Participação: UA) - 2:48
2. "A Ring" (Participação: Pascale Borel) - 3:08
3. "Angel" (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:56
4. "Butterfly (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:04
5. "CHATR" - 2:33
6. "Funkin' For Jamaica" (Participação: Joanne, Les Nubians, Tom Browne, Wizdom Life) - 4:55
7. "Stretch Building Bamboo" - 2:55
8. "Congratulations!" (Participação: Cory Daye) - 4:47
9. "Let Me Know" (Participação: Chara) - 4:10
10. "Contact" (Participação: Die, Jumpin' Jack Frost) - 8:11
11. "LCM" - 1:48
Todas as composições de autoria de Towa Tei, exceto faixa 8 (James Harris III, Terry Lewis, Towa Tei)

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OUÇA


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Gal Costa - “Gal Canta Caymmi” (1976)


"Gal é uma coisa gostosa. Ela é cantada em prosa e verso e se eu falar alguma coisa mais, vão dizer que eu estou copiando. É das cabeludas mais bonitas que conheço".
Dorival Caymmi


Caetano Veloso observou certa vez que a obra de Dorival Caymmi, embora pequena em volume de canções em relação a de outros compositores contemporâneos a ele (tal Ary Barroso ou Lamartine Babo) ou mesmo dos baianos como o próprio Caetano, é proporcionalmente a mais revisitada. Caymmi é pedra-fundamental da música brasileira, um cancionista e poeta capaz de inventar uma nova tradição, a qual encerra o folclore, o samba rural e a vida cotidiana da Bahia de Todos os Santos. Muito fizeram em versá-lo, mas nem sempre com assertividade, visto que sua música leva a uma encruzilhada: de tão original que é, dificulta quem a acessa. De todos, quem melhor resolveu essa equação foi Gal Costa em “Gal Canta Caymmi”, de 1976, disco que completa 50 anos com o mesmo frescor de quando foi lançado, além do show homônimo, um sucesso de público, que estreava exatamente no dia 11 de fevereiro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Rainha das dunas de Ipanema que levavam seu nome, o ponto de encontro da contracultura carioca em tempos de ditadura, Gal exercia um papel central em meados dos anos 70. Era, ao mesmo tempo, a devota de João Gilberto e a roqueira janisjopliana, que havia irrompido no festival de 1968 e abraçado a psicodelia tropicalista, influenciando comportamentos e tornando-se um símbolo feminino libertário e contestador. Os parceiros Caetano e Gilberto Gil já haviam voltado do exílio, é bem verdade. Mas Gal, a diva resistente que segurou a barra do Tropicalismo sozinha na hora da linha-dura, conquistou seu espaço inconteste e ali reinava. Assim, tinha carta branca para empreitar o projeto que desejasse, como este, sugerido por Roberto Menescal, diretor artístico da sua gravadora, a Phillips, e prontamente aceito por ela. Por ideia dele, Gal havia gravado, um ano antes, “Modinha para Gabriela” para a novela da TV Globo, canção de Caymmi. Assim, não foi difícil identificar o próximo passo. Após o sucesso dos revolucionários “FA-TAL”, de 1971, e “Índia”, de 1973, era a vez da aguerrida Gal desafiar os padrões novamente, agora, modernizando o cancioneiro do autor de "Maracangalha" e outros eternos clássicos da MPB.

Mexer no que é sagrado não é para qualquer um, no entanto. E, claro, houve críticas. A imprensa inculta da época classificou "GCC" como "um crime à obra musical de Dorival Caymmi", "avacalhação" e "boçalidade". Porém, a cantora sabia o que estava fazendo e que não estava sozinha. Aliás, via-se muito bem acompanhada e amparada. Na trincheira com ela dois sólidos parceiros: Perinho Albuquerque e João Donato. Eles repetiam a química que definira o clássico “Cantar”, de 1974, marco da maturidade musical e artística de Gal. E se naquele álbum havia a batuta de Caetano orquestrando reportório e atmosfera, neste o papel ficava a cargo exclusivamente desses dois exímios arranjadores. A solução perfeita para versar Caymmi. Ora um, ora outro, produtor e diretor musical, respectivamente, eles assinam os arranjos de todas as faixas, equilibrando a pegada rock de um com o clima latin-jazz de outro sem deixar de soar com impressionante unidade. E, principal: ambos trabalham para dar o suporte necessário às formidáveis voz e interpretação de Gal, “a melhor cantora do Brasil” segundo João Gilberto.

Caymmi participando do show de Gal, em 1976,
no Teatro João Caetano (RJ)
Esse equilíbrio fica evidente nas duas faixas que abrem o álbum: os sambas “Vatapá”, um símbolo do cancioneiro caymmiano transformado em um soul jazz, e "Festa de Rua" (“Meu Senhor dos Navegantes, venha me valer”), numa pegada bastante pop. A primeira, a cargo do mestre Donato, com seus característicos arranjos de metais em tom médio. Já a seguinte, arranjada por Perinho, é colorida dos mesmos sopros e embalada num ritmo de samba soul. O samba-canção “Nem Eu”, da fase carioca de Caymmi, ganha a suavidade da voz de Gal em sua simplicidade composicional, a qual é traduzida em bossa-nova novamente pela mão de Donato, um dos precursores do gênero.

Aí, o negócio fica sério em duas em sequência: “Pescaria (Canoeiro)” e “O Vento”. O que Perinho faz com essas duas peças da célebre fase das “canções praieiras” de Caymmi é simplesmente deslumbrante. As músicas soam vigorosas, arrojadas, dando a medida da modernidade aplicada por Gal à obra do mestre. “Pescaria” conta com a sanfona de Dominguinhos, baixo de Novelli e violão de Menescal. Já em “O Vento”, piano de Antonio Adolfo e bateria de Paulinho Braga. Porém, deslumbrante mesmo é Gal cantando essas duas, certamente músicas que povoaram seu imaginário sonoro desde pequena em Salvador. O que é ela atingindo os agudos quando sobe um tom nos versos: “Ô canoeiro/ bota a rede no mar”?! Ou quando entoa, num ritmo funkeado: “Curimã ê, Curimã lambaio”?! É de arrepiar. A música está nela, capacidade que somente as grandes cantoras, como Sarah Vaughan, Elis Regina, Amy Winehouse ou Aretha Franklin, conseguem. Gal é uma delas.

O lado B, no formato original do LP, abre com mais um clássico inconteste da cidade de Salvador e do folclore baiano, que é "Rainha do Mar", dedicada à Iemanjá. Filha de Omulu, Gal era devota do candomblé, tendo se iniciado no referencial terreiro Ilê Iaomim Axé Iamassê com Mãe Menininha do Gantois. Ao ouvi-la cantar: “Minha sereia é rainha do mar/ Minha sereia é rainha do mar/ O canto dela faz admirar” tem-se a impressão de que está cantando sobre si mesma, tamanha a comunhão corpo/espírito que a música (e sua voz) consegue provocar.

Em seguida, noutra concatenada com Donato, mais um dos sambas cariocas, e outro show de interpretação de Gal. É "Só Louco", cuja melodia e letra têm visível influência de Lupicínio Rodrigues, com quem Caymmi convivera nos boêmios anos 30 no Rio de Janeiro. Animando o clima dor-de-cotovelo deixado pela anterior, "São Salvador" é daqueles temas solares feitos para o vocal de Gal brilhar. Igual a "Peguei Um 'Ita' No Norte", em que Donato novamente capricha no arranjo e onde Gal põe com delicadeza ímpar sua cristalina voz. Fechando num clima de festa, Perinho a ajuda a transformar o samba urbano "Dois de Fevereiro" em um samba-funk suingado.

Com “GCC”, Gal rompera uma barreira na indústria fonográfica brasileira ao produzir um álbum celebrando apenas um compositor, formato que ganharia o nome songbook mais tarde e se tornaria extremamente comum. Dois anos depois dele, foi a vez de Nara Leão gravar somente Roberto Carlos e Erasmo Carlos no disco “...E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno”, um de seus maiores sucessos na carreira, favorecendo-se do caminho aberto pela colega baiana. Sinal de que Gal, mais uma vez, estava à frente das coisas. Ao homenagear Caymmi, ela mostrou que era permitido ousar mantendo o respeito à tradição. Gal nasceu assim, cresceu assim, era mesmo assim e foi sempre assim: uma baiana à frente do seu tempo.

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FAIXAS:
1. "Vatapá" - 3:31
2. "Festa de Rua" - 2:10
3. "Nem Eu" - 3:48
4. "Pescaria (Canoeiro)" - 2:53
5. "O Vento" - 4:52
6. "Rainha do Mar" - 3:00
7. "Só Louco" - 3:12
8. "São Salvador" - 2:44
9. "Peguei um 'Ita' no Norte" - 3:28
10. "Dois de Fevereiro" - 3:45
Todas as composições de autoria de Dorival Caymmi

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ed Motta - “Aystelum” (2005)


"20 anos de 'Aystelum', um dos meus prediletos. Toques de free jazz com samba, Broadway, funk. Que sorte que pude gravar esse disco. 'Aystelum' tem a bênção de um santo protetor na minha vida".
Ed Motta

O cara se contradiz, é desrespeitoso, brigão e, por vezes, arrogante. Ao mesmo tempo, é sincero e fala verdades necessárias que poucos ousam dizer. Controverso, paga o preço por isso, sendo “cancelado” em vários meios. Mas uma coisa não se pode discordar: como o próprio se autodefine sem nenhum constrangimento pela soberba, ele é um dos “gênios da nossa latinoamerica”. Ed Motta, essa figura única, é, definitivamente, um dos músicos mais completos do mundo. Dono de um vocal cheio de técnica e timbre, este carioca nascido em família musical (sobrinho de Tim Maia, conviveu na infância com o tio e seus amigos Lincoln Olivetti, Cassiano, Hyldon entre outros, o suficiente para se encantar com o universo dos músicos) é capaz de, como nenhum outro cantor, compositor e instrumentista vivo, unir com tamanha densidade a soul, o jazz, o samba, o funk e os ritmos latinos. Nisso, há de se concordar com ele sem se contaminar pela insolência do próprio: Ed é o cara.

Prodígio, Ed teve carreira artística iniciada aos 16 anos já com os megassucessos “Manoel” e “Vamos Dançar”, da Ed Motta & Conexão Japeri, de 1988. Sua precocidade, aliada à personalidade contestadora e, por vezes difícil, no entanto, o prejudicaram ao longo dos anos no mainstream. Fez sucesso, rompeu com gravadoras, voltou atrás, fez mais sucesso, vendeu milhões e, a exemplo de seu tio, rompeu de novo com as gravadoras que faltavam até ficar escanteado. Disso tudo, a consequência: o trabalho realmente autoral de um artista que sempre buscou esse objetivo só pode ser realizado por ele mais de uma década depois de sua estreia: em “Aystelum”, de 2005, décimo álbum de Ed, que completa 20 anos de lançamento.

Fruto do encontro de Ed com o selo Trama, de João Marcelo Bôscoli, “Aystelum”, na esteira do excelente “Dwitza”, de três anos antes, e “Poptical”, o primeiro pela Trama, é o resultado da libertação criativa de um músico sem fronteiras de gêneros, estilos e temporalidade. É música pura – e no mais alto nível que o país de Moacir Santos, Tom Jobim, Tânia Maria, Filó Machado, Johnny Alf, Dom Salvador e tantos outros mestres de sua admiração pode produzir. Mas, claro, não somente estes professores musicais. Fã da música negra norte-americana desde criança, Ed usa e abusa nesse disco da sonoridade do afro jazz, do free jazz, do latin jazz e do spiritual jazz, sem deixar de referenciar suas bases da soul, Donny Hathaway, Donald Fagen, Gil Scott-Heron, Patrice Ruschen, entre outros. “Aystelum”, no entanto, ainda adiciona outra paixão de Ed: a música da Broadway de autores como Leonard Bernstein, George Gershwin, Stephen Sodenhein e Irvin Berlin.

Essa sonoridade livre está impressa na faixa de abertura, um afro jazz modal latino e spiritual em que brilham não somente o band leader, nos teclados, como toda a banda: o baixista Alberto Continentino; o baterista Renato Massa; o trompetista Jessé Sadoc Filho; o piano elétrico de Rafael Vernet; o guitarrista Paulinho Guitarra; o craque da percussão Armando Marçal; e o chileno Andrés Perez, “saxofonista tenor com a sonoridade do Coltrane, Joe Henderson, conhecimento alto das escalas e também de efeitos que o sax pode fazer, harmônicos, etc.”, como aponta Ed.

A então recente aproximação de Ed com a música brasileira – uma vez que, infantilmente, até pouco tempo antes a renegava em detrimento da norte-americana – fez com que ganhasse, aqui, dois presentes. Nei Lopes. compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas escreve-lhe as letras de “Pharmácias”, um samba-jazz influenciado pela música brasileira tradicional tocado só com instrumentos eletroacústicos, e a obra-prima “Samba Azul”. Nesta última, em especial, Ed encontra uma improvável intersecção entre samba-canção, blues, bossa-nova e bolero, tudo num arranjo primoroso do maestro Jota Moraes, parceiro de longa data. Mas não só isso: a música, além da magnífica letra de Lopes (“Tudo azul/ Beija-flor voa ao leu/ Sobre Vila Isabel/ Elegante/ Vai pousar distante/ Na Portela”), ainda tem um duo com Alcione, uma “força da natureza” cuja voz põe todo mundo no estúdio para “voar”, descreveu Ed.

A faixa-título, composta por uma palavra inventada por Ed sem nenhum sentido, apenas dotada de sonoridade, é outro jazz instrumental em que a turma arrebenta. O tema mais spiritual jazz de todos do repertório, lembrando bastante coisas de John Coltrane e Pharoah Sanders. Esse abstratismo é logo contraposto por “É Muita Gig Véi!!!”, que é puro ritmo. Baseada na ideia de improvisação, cada músico traz para dentro da jam suas experiências e bagagens. Samba e jazz em perfeita comunhão com direito a show de cuíca de Mestre Marçal. Outra espetacular nesta linha é “Partidid”, das melhores do disco, na qual fica evidente a reverência à sonoridade sofisticada e gingada de bandas como Azymuth e Black Rio.

Porém, sem se prender a nenhum formato, Ed traz para dentro desse caldeirão musical algo extremamente próprio e bonito, que é o musical norte-americano. Neste sentido, “Balendoah” é divisional. Mais uma dessas palavras tiradas da mente de Ed (que querem dizer, no fundo, apenas “muita musicalidade”), este número é fundamental para a narrativa do disco. Nele, Ed une os dois polos que o álbum propõe: o jazz de matriz africana e a música da Broadway. “Negros e judeus, o ápice da música que eu amo”, classificou ele próprio. Com a engenhosidade harmônica complexa extraída dos mestres Duke Ellington, Randy West, Moacir Santos e Charles Mingus, Ed amalgama uma melodia de voz que cria essa ponte com o teatro/cinema musical norte-americano. “Balendoah”, assim, além de uma música arrebatadora, abre caminho para a “segunda parte” do disco.

Tal virada em “Aystelum” surpreende, mas não destoa. O trecho de "7 - O Musical”, que Ed escreve para a peça musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, é um medley em que constam a graciosa “Abertura”, a atonal “Na Rua”, com vocal de timbres metálicos de Tetê Espíndola, e a bela “Canção Em Torno Dele”. Interessante notar o “libreto” em português e não em inglês, contrariando a própria lógica do tradicional musical, o que denota um Ed desprovido de afetação para com a língua inglesa, a qual teria maior naturalidade.

“A Charada”, parceria com Ronaldo Bastos, retoma a sonoridade soul num AOR romântico, que poderia tranquilamente ser uma música de trabalho não tivesse “Aystelum” feito tão pouco sucesso de público, que estranhou todo aquele experimentalismo. “Guezagui”, então, um funk tomado de groove e musicalidade, fecha a conta deste histórico e sui generis disco da discografia brasileira.

Ed já havia dado seu grito de independência com “Entre e Ouça”, de 1992, então apenas seu terceiro trabalho. Além de ainda muito jovem (só tinha 21 anos), naquela época não tinha a credibilidade e nem a experiência de um trintão amadurecido musicalmente como em “Aystelum”. Foram necessários que os anos lhe dessem tempo para agregar as diversas sonoridades entre as milhares que rondam sua cabeça, as quais absorve e traduz com espantoso poder de síntese e originalidade. Depois de tantos acertos e topadas, paixões e desavenças, fama e infortúnio, de tanto céu e inferno, Ed chegava, enfim, na paz da sua própria obra. Como quem toma a bênção de um santo protetor e pronuncia, em louvor, uma palavra que somente os deuses da música compreendem: “Aystelum”.

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


FAIXAS:
1. "Awunism" - 5:37
2. "Pharmácias" (Nei Lopes/ Ed Motta) - 3:17
3. "Aystelum" - 6:48
4. "É Muita Gig Véi!!!" - 3:53
5. "Samba Azul" (Lopes/ Motta) - 4:49
6. "Balendoah" - 4:19
"7 - O Musical (Medley)" (Claudio Botelho/ Motta)
7. "Abertura" - 1:33
8. "Na Rua" - 2:06
9. "Canção Em Torno Dele" - 1:54
10. "A Charada" (Ronaldo Bastos/ Motta) - 4:00
11. "Patidid" - 2:26
12. "Guezagui" - 3:50
Todas as composições de autoria de Ed Motta, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:
Ed Motta - "Aystelum"



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Capas de VHS Oscar - "Platoon" e "Salvador: O Martírio de um Povo"

 





RODRIGUES, Daniel
"Platoon" e "Salvador: O Martírio de um Povo"
Arte para VHS doméstico sobre os filmes de Oliver Stone: "Platoon", vencedor dos Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor som e melhor montagem, e "Salvador" , indicado os Oscar de melhor ator e melhor roteiro original, ambos de 1986
Recorte e colagem sobre papel
26 x 21 cm
Anos 1990

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

A arte do MDC em 2024

Mais um ano de Música da Cabeça, queridos radioelétricos! Porém, não apenas um simples ano, mas sim um desafiador 2024. A catástrofe natural das enchentes de maio que afetaram o Rio Grande do Sul, de onde mandamos o programa para o mundo, afetou também a Rádio Elétrica e a nossa produção, e tivemos mais de dois meses parados em razão disso. 

Contudo, música boa nunca morre. E como nos alimentamos disso, também aproveitamos esse poder de Fênix para exibirmos 41 programas, a grande maioria inéditos, entre janeiro e dezembro, mesmo com a devida parada forçada entre maio e julho e a boa atrapalhada que isso gerou para o restante dos meses. Igualmente às música que preenchem o programa, os temas que os motivam também tiveram aquelas artes que anunciam cada programa semanalmente. Baseadas em temas do cotidiano, fatos do Brasil ou do mundo, curiosidades ou até mesmo uma imagem interessante, essas artes formam uma espécie de vitrine cronológica do MDC ao longo do período. Reuni-las, assim, em retrospectiva, dá essa dimensão de crônica visual daquilo que formos expressando no ano.

Como já dito nos últimos anos desde que começamos a fazer esse resgate tal qual o blog já propunha há mais tempo com, essas sim, consideráveis artes de A Arte do Clyblog (feitas com a devida habilidade por meu irmão e coeditor Cly Reis), as produções artísticas do MDC não são lá essas coisas tecnicamente. Mas se se peca por perícia, compensa-se com criatividade e olhar, digamos, jornalístico para a escolha dos temas. Aí, sim, o MDC se acha. E rolou bastante coisa pra gente se inspirar em 2024! Teve de show da Madonna em Copacabana a prenúncio apocalíptico de Baby do Brasil, passando ainda por cadeirada do Datena, tiro na orelha do Trump, reverência a Rebeca Andrade nas Olimpíadas e Cate Blanchet confessando seu amor por Clarisse Lispector... e pelo MDC!

Fiquem com a seleção de algumas dessas artes em imagem e vídeo. Não deu pra ser tão rico como 2022 e 2023, certamente. Perdoem-nos. Mas não invalida nossa retrospectiva, que se saiu bem com o que foi possível fazer. Confiram.

*****************

Lá do início de 2024, o segundo MDC do ano e há exatos 365 dias dos atos golpistas de 2023. Sem anistia!


O começo do ano também teve coisa boa, como os 80 anos de
Angela Davis, celebrado no programa 355, de 31 de janeiro


E o Carnaval? Ah, a festa do Momo sempre nos guarda momentos insuspeitos, como este envolvendo
Ivete Sangalo e Baby do Brasil em Salvador. Não podíamos deixar de aproveitar essa deixa


2024 teve ano bissexto em fevereiro. Então, aproveitamos para trazer esse mapa astral - que, na verdade, não quer dizer nada, apenas um subterfúgio pra inventarmos a arte da edição 359, que reprisou a de nº 350


Na edição fechada de 360, demos, literalmente, um 360 graus em quadrinhos, cinema, história e muito
mais na entrevista especial com o amigo Christian Ordoque. Foi muito legal.



Ninguém gosta de perder um amigo, que foi o que sentimos quando Ziraldo
nos deixou e lhe fizemos a devida homenagem na edição de 10 de abril


Deu tempo de tirar um sarro da Madonna às vésperas dela fazer seu show histórico em Copacabana.
Mal sabíamos que este seria o último programa antes da parada por causa das enchentes no RS...


Mas se voltamos, voltamos com munição! Calhou do retorno ser na semana do atentado contra Donald Trump
no comício na Pensilvânia. Com a criatividade represada há mais de 2 meses, esta arte ficou legal


E, em junho, chegaram as Olimpíadas de Paris! Não tinha como não fazer meme com essa
cara de inveja da Simone Billes vendo a Rebeca Andrade se apresentar


Na semana seguinte, deu elas de novo: Simone, junto com Jordan Chiles, e Rebeca de protagonista sendo reverenciada como uma santa vitoriosa. Arte pura, que merecia estar no Louvre. A gente providenciou para a ed. 371 do MDC

    

O MDC ganhou o primeiro vídeo do ano somente em outubro, na ed. 378 Também pudera com essa memorável cadeirada do Datena no Marçal, né?



Cate: nós também amamos Clarice. Em retrospectiva, hoje se vê que ela já prenunciava o prestígio que o Brasil
passaria a ter no cenário artístico mundial com "Ainda Estou Aqui". Arte da ed. 379, do final setembro



O MDC especial 380 contou com vídeo de chamada e um inédito superquadro Cabeça dos Outros, com as participações dos brothers radioelétricos Rodrigo Dutra, Cláudio Mattos, Clayton Reis e Marcos dos Santos


O polêmico e necessário tema da escala 6x1 veio à tona e motivou nosso MDC 386, de 13 de novembro,
que contou com essa sagaz arte da amiga designer Mariluce Veiga


Na edição 388, mais uma vez inspirados pela arte, mas desta pela falta de criatividade
do italiano Maurizio Cattelan. Só achando graça mesmo - e viva Andy Warhol!


Ludmila inventou de usar o boi folclórico sem permissão e se deu mal.
Nossa arte - que ficou joinha - em cima deste fato ocorrido na semana de 23 de outubro


Só se falava em Vini Jr. pelas ruas e redes sociais. Claro, a gente falou também do
melhor do mundo, inegavelmente. Edição de 30 de outubro


Queda de ditador? Tivemos também em 2024. Bashar Al-Assad caiu, e o MDC tascou lá em uma
de suas últimas edições do ano, já em dezembro, para o programa especial de 390


Não só na Síria: aqui mesmo no Brasil os intocáveis começaram a cair também. Que confortante
(e pedagógico) ver Braga Neto, um general, recebendo voz de prisão. 2025 promete...


E Papai "Luloel" fechou nosso ano difícil, mas sempre com bom humor
- e, claro, sempre vale lembrar: é sem anistia, porraaaaa!



Daniel Rodrigues


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

João Gilberto - “Live at The 19th Montreux Jazz Festival” ou "Live In Montreux" (1985)

 

No topo, capa do LP original
lançado no Brasil e, abaixo,
a da edição americana

“É a grande soma da obra de João Gilberto. É o disco que dá a visão mais ampla da ideia que ele tem de repertório, de estilo”.
Caetano Veloso

Os baianos, mais do que qualquer outra gente, são donos de uma genialidade que às vezes beira a ingenuidade. Caetano Veloso conta que, certa vez, ao visitar Dorival Caymmi em sua casa numa quente tarde de Salvador, o anfitrião mal o deixou entrar pelo portão e já se pôs a mostrar-lhe uma novidade que havia descoberto para aliviar aquele intenso calor. Levou, então, Caetano até a sala e solenemente lhe apresentou sua mais nova obra de engenharia doméstica: havia disposto a cadeira na qual estava sentado só de bermuda e chinelos feito um Buda nagô de frente para um... ventilador! 

Por mais óbvio que pareça o raciocínio de Caymmi, ele guarda, no fundo, uma percepção que, muitas vezes, foge aos mortais preocupados em complexar a vida: a simplicidade. Foi valendo-se do mesmo senso natural que outro baiano favorecido pelos Céus, João Gilberto, chegou a uma conclusão semelhante. Além daquilo que produzia nos invariavelmente indispensáveis discos de estúdio desde o final dos anos 50, João costumava reinventar seu repertório a cada nova apresentação ao vivo. Geralmente, só ele é o inseparável violão. Uma magia inimitável a qualquer outro momento da história da música moderna. Então, do fundo de sua cabeça privilegiada mas distraída, pensou: "porque não gravo um disco ao vivo que transmita essa atmosfera?" 

Sim, passados mais de 30 anos de carreira, João nunca havia feito um álbum neste formato. Tinha até então dois ao vivo, todos com parcerias e/ou bandas/orquestra acompanhando: "Getz/Gilberto #2", em companhia do saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz, de 1965, e o especial da TV Globo "João Gilberto Prado Pereira de Oliveira", de 1980, no qual recebe vários convidados. Assim, só ele no palco, nunca.

O que parecia óbvio, por se tratar da essência do som do homem que inventou a moderna música brasileira com a concepção da bossa nova, ganhava, enfim, um registro fiel. Já havia se tornado comum a artistas brasileiros a partir dos anos 70 gravarem seus shows no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, desde que a curadoria do evento se abrira para a sonoridade da MPB como sendo cabível no gênero do "jazz moderno". De A Cor do Som a Elis Regina, passando por Gilberto Gil, Pepeu Gomes e Hermeto Pascoal. Faltava João.

E o Bruxo de Juazeiro não deixa por menos. Com seu repertório impecável selecionado cirurgicamente, une velhos sambas, como os de Ary Barroso, Haroldo Barbosa, Geraldo Pereira e Wilson Batista, a então novos clássicos. Melhor exemplo é "Menino do Rio", de Caetano, lançada em 1979 pelo autor e já versada pelo próprio João um anos depois. Mas ocorreu que a música fizera novamente muito sucesso em 1982 na voz de Baby Consuelo para a trilha do filme homônimo, e João, ao resgatá-la, transformava-a imediatamente de um hit para um clássico. 

João destila musicalidade. É tocante ouvir o trato de cada detalhe, de cada pronúncia, de cada acorde ou silêncio. A permanente confluência harmonia-melodia, as variações de ritmo, o casamento de cordas vocais e cordas de nylon num constante entendimento, entrelaçando-se, dançando. "Tim Tim Por Tim Tim", conhecida do repertório de João, abre com um verdadeiro show de gingado. Quem escuta ele tocando e cantando com tamanha naturalidade pode até pensar que se trata de um improvido. Mas o mais impressionante de João é que tudo aquilo faz parte de um exercício de controle absurdo, e ao vivo isso fica mais evidente. As soluções harmônicas, as escolhas de tempos, a voz afinadíssima mas sem vibrato, o controle da cadência, o que arpejar e o que silenciar: tudo se resolve ali, na hora, no palco, diante do microfone e da plateia. 

O público, neste show, aliás, merece uma atenção à parte. Até mais: merece também aplausos. Visivelmente formada por muitos brasileiros, mas certamente também por suíços e outros estrangeiros, na maioria da Europa, a plateia se emociona e transmite essa emoção para o artista, que retribui, numa corrente de energia poucas vezes vista ou perceptível em discos ao vivo. João brincando de "quém quém" ao cantar "O Pato" ou sambando com a voz em "Sem Compromisso" não deixam mentir. Mas, principalmente, "Adeus América". O samba de Haroldo Barbosa, escrito para outro símbolo mundial do Brasil (o maior deles), Carmem Miranda, como uma declaração de amor ao Brasil após ela ser tachada pelos compatriotas invejosos de "voltar americanizada" dos Estados Unidos, aqui soa (e ainda mais aos brasileiros da plateia) como um canto de exílio, um canto de saudade da terra mater. “Não posso mais, que saudade do Brasil/ Ai que vontade que eu tenho de voltar/ Adeus América, essa terra é muito boa/ Mas não posso ficar porque/ O samba mandou me chamar”. É certamente o momento mais emocionante do show, como talvez nenhuma outra gravação ao vivo de João neste ou noutros discos.

Há também a apropriação "mpbística" do jazz standart italiano "Estate", presente no memorável LP "Amoroso", de 1977, e, claro, a reverência à bossa nova. Mais precisamente, a Tom Jobim. Do maestro, João toca quatro das 15 do set-list: "Retrato em Branco e Preto", dois ícones da primeira fase bossanovista, "Garota de Ipanema" e "Desafinado"; e uma imbatível "A Felicidade", menos recorrente no repertório de João e até por isso ainda mais impactante.

Outro maestro, no entanto, é exaltado por João na histórica apresentação no 19º Festival de Montreux. Cabe ao legado de Ary Barroso fechar o show com três faixas: "Morena Boca de Ouro" e outras dois símbolos de brasilidade em música: as ufanistas "Isto Aqui o que É?" e aquele que é considerado o segundo hino da nação, "Aquarela do Brasil", numa execução de quase 10 minutos. João, que a havia protagonizado no disco "Brasil", de quatro anos antes e quando teve a companhia de Caetano e Gil para interpretá-la, encara aqui a empreitada sozinho. Coisa só de quem tem a mesma envergadura da própria música que entoa.

Prestes a completar 40 anos de seu lançamento, “Live at The 19th Montreux Jazz Festival” guarda a primazia de ser a primeira gravação fiel de um show de João Gilberto, abrindo caminho para vários outros que viriam nos anos seguinte e dos quais destacam-se pelo menos dois: “João Gilberto In Tokyo”, de 2004, e “Live At Umbria Jazz”, de 2002. No entanto, este registro evidentemente possui uma aura e uma importância especial. Mesmo que na maioria dos discos, inclusive os de estúdio, João fosse captado “just in time” pelas mesas de som, no palco não há o que editar ou refazer. É aquele pulsar orgânico e indelével. E no caso de João, isso vale mais do que o silêncio, como diz Caetano. 

E dizer que João levou mais de duas décadas para deixar essa óbvia joia da cultura brasileira para a posteridade... Às vezes, a obviedade é mesmo genial.

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Originalmente lançado no Brasil e no Japão em 1985 como LP duplo de 15 faixas, "Live At The 19th Montreux Jazz Festival", na versão norte-americana, de um ano após, chamou-se apenas de "Live In Montreux" e contendo 13 músicas: sem "Tim Tim Por Tim Tim", "Desafinado" e "O Pato" e tendo acrescida "Rosa Morena" (Dorival Caymmi).

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FAIXAS:
1. “Tim Tim Por Tim Tim” (Geraldo Jacques, Haroldo Barbosa) - 3:38
2. “Preconceito” (Marino Pinto, Wilson Batista) - 2:25
3. “Sem Compromisso” (Geraldo Pereira, Nelson Trigueira) - 4:05
4. “Menino Do Rio” (Caetano Veloso) - 3:45
5. “Retrato Em Branco e Preto (Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque) - 6:36
6. “Pra Que Discutir Com Madame?” (Haroldo Barbosa, Janet de Almeida) - 6:25
7. “Garota De Ipanema” (Antonio Carlos Jobim, Vinicius De Moraes) - 3:42
8. “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim, Newton Mendonça) - 4:53
9. “O Pato” (Jaime SIlva, Neuza Teixeira) - 6:08
10. “Adeus América” (Geraldo Jacques, Haroldo Barbosa) - 6:50
11. “Estate” (Bruno Brighetti, Bruno Martino) - 5:18
12. “Morena Boca de Ouro” ((Ary Barroso) - 5:37
13. “A Felicidade” (Antonio Carlos Jobim, Vinicius De Moraes) - 5:10
14. “Isto Aqui, O Que É? (Sandália de Prata”) (Ary Barroso) - 6:43
15. “Aquarela Do Brasil” (Ary Barroso) – 9:05



Daniel Rodrigues


sábado, 24 de agosto de 2024

“Movimentos Migratórios”, de Rogério Cathalá (2022)


Ode ao não-Kikito

A participação de um filme em um festival não significa necessariamente ser esse seu apogeu. Afora o feito de figurar entre os selecionados, o que muitas vezes já e quase uma premiação, principalmente a realizadores estreantes e ainda em processo inicial de carreira, não quer dizer que o festival irá enxergar a obra na hora de julgar. Pode-se dizer que algo próximo disso ocorreu na Mostra de Curtas-Metragens Brasileiros do 52º Festival de Cinema de Gramado, encerrado no último dia 17. Dos 12 títulos concorrentes, 11 deles levaram para casa algum tipo de premiação, menos um: o baiano “Movimentos Migratórios”, de Rogério Cathalá. Justamente, o que talvez seja o melhor de toda a seleção.

O fato de “Movimentos...” ter saído de mãos vazias de Gramado não quer dizer, portanto, que não guarde qualidades. Muitas. Num preto e branco limpo, quase esmaecido pelo sol calcinante de Salvador, o curta traz a história de Pedro, um imigrante sul-americano que se esforça para se adaptar ao novo país. Numa manhã, antes de sair de casa, um andorinha cai na sua sacada, e ele, bom coração, divide-se entre a rotina de busca por emprego e a tentativa de salvar o pássaro, enfrentando obstáculos que refletem a sua própria condição.

A história é contada a partir do ponto de vista de Pedro, o qual se reflete simbolicamente na visão da ave presa à caixa de sapatos onde achou para acomodá-la. A prisão da diáspora social, a prisão de quem perde a identidade, de quem está machucado e não pode usar as próprias asas. Artista, além da caixa, Pedro também levava debaixo do braço um inseparável violão, cujos acordes, quando tocados por ele na rua em troca de algumas moedas, perfaz a única trilha sonora do filme forçosamente incidental. Um artista e um pássaro sem ninho (um artista-pássaro sem ninho).

O imigrante Pedro vivido por Arturo Campos Begazo,
falecido antes do filme estrear

A concepção fotográfica (Rafael MacCulloch) e artística (Eva Freire) concorda com a abordagem crítica desta pequena obra, visto que, ao mostrar a geralmente vibrante capital baiana seca e sem cores, corrobora com uma visão antropológica também pouco convencional quando se fala no povo nordestino: a de uma gente receptiva e calorosa. Na sua caminhada, Pedro é tratado como uma pessoa menor e mal quista pela sociedade brasileira preconceituosa e xenofóbica. Não há cor no sol de Salvador.

Capaz de tornar possível ainda mais simbologias em um filme tão breve, o movimento de migração ao qual o título alude ganha ainda dois contornos possíveis e que se complementam. O primeiro deles é o de transformação pessoal, uma vez que, feliz em sua empreitada, o protagonista consegue um paradeiro seguro ao amigo alado, o que é sensivelmente transmitido na inversão (única) do ponto de vista dele para o do pássaro, que agora o olha com gratidão de dentro da caixa-abrigo. Já o segundo senso que “Movimentos...” traz só se descortina nos créditos finais. É quando se descobre que o ator principal, Arturo Campos Begazo, havia morrido, e que o filme lhe é dedicado. Tocante. É como se Pedro houvesse se materializado para, em seguida, ajeitar as asas e alçar o voo derradeiro. Virar pássaro.

A despeito dos bem premiados "Pastrana", "Fenda" e "Ponto e Vírgula", que conquistaram mais de um  Kikito,“Movimentos...”, curiosamente, não levou nenhum, Nem considerando a política distributiva que festivais como Gramado adota ao contemplar o máximo possível que concorre. Mas tudo isso não faz diferença. A sensível produção de Cathalá (que está em desenvolvimento de seu primeiro longa, “Sombra no Espelho”) se credencia tranquilamente a outros festivais  em algum desses aspectos fílmicos aos quais tão bem responde, a começar pela direção. Contudo, prêmio não é o que determina a qualidade de um filme, definitivamente, a se recordar na história do cinema de tantos outros diversos casos, como ano após ano se vê em premiações mundiais como o Oscar. Um salve aos filmes sem prêmio!


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Françoise Hardy - "Tant De Belles Choses” (2004)

 

"Henri Salvador, que tinha uma gravadora, viu minha apresentação na televisão e telefonou com a intenção de assinar um contrato comigo. A reunião nunca aconteceu, porque eu já estava sob contrato, mas eu sinto tontura toda vez que penso no meu desenvolvimento profissional e o curso que isso tomaria se um artista tão excepcional quanto Henri tivesse me colocado sob sua asa."
Françoise Hardy, em sua autobiografia "The Despair of Monkeys and Other Trifles: A Memoir by Françoise Hardy", de 2018

Ela havia completado 80 anos recentemente, o que foi motivo de celebração para os fãs desta artista cult que somente um país como a França podo gerar. Ela é Françoise Hardy, cantora, compositora, atriz e modelo, que além de linda e talentosa, reúne características daquilo que há de melhor na cultura de sua cidade-natal, Paris: o bom gosto, a delicadeza e a elegância. Mas um câncer a levou em junho deste ano, pouco mais de um mês antes da abertura das Olimpíadas iniciarem na própria Cidade-Luz. Quem sabe ela também não estaria na cerimônia de abertura às margens do Sena tocando?

Surgida como uma das principais figuras do movimento yé-yé nos anos 1960, ela conquistou a Europa com sua voz suave e estilo distinto. Instrumentista desde a adolescência, ela fez faculdade de Ciências Políticas e de Letras na Sorbonne, mas não conclui nenhum dos cursos, pois já havia descoberto sua vocação. Depois de passar em uma seleção de novos talentos da gravadora Vogue, em 1961, passa a cantar na TV francesa e logo foi catapultada ao sucesso com a canção "Tous les Garçons et les Filles", que vendeu milhões de cópias. Hardy não conquistou só o público francês, mas também ganhou notoriedade internacional, gravando versões de suas músicas em italiano, alemão e inglês.

Bela, foi também musa na moda e no cinema. Com o fotógrafo Jean-Marie Périer, com quem se relacionou até 1967, Françoise entrou no mundo da moda atuando como modelo e tornou-se um ícone fashion. Em colaboração com designers renomados como Yves Saint-Laurent e Paco Rabanne, ela influenciou a moda dos anos 1960 com seu estilo característico de minissaias e botas brancas. No cinema, foi dirigida por Jean-Luc Godard, Roger Vadim, Clive Donner e John Frankenheimer, quando contracenou com Peter Sellers e Peter O'Toole no clássico "Grand Prix", de 1966. Françoise era desejada por homens e mulheres, de David Bowie a Mick Jagger, de Brian Jones a John Lennon.

Na música, no entanto, foi onde mais se desenvolveu. Evoluiu do rock inocente e passou a gravar coisas como o folk “Suzanne”, de Leonard Cohen, e, em passagem pelo Brasil, voltou para a França na mala com uma versão francófona de “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim, intitulada “La Mésange”. As fronteiras sonoras de Françoise começavam a se expandir. Entre 1962 e 1973, ela lançou um álbum por ano, consolidando seu status como uma das principais artistas da época. Alguns de seus maiores sucessos incluem "Le Temps de l'Amour" e "Mon Amie la Rose". Ela trabalhou com compositores renomados como Serge Gainsbourg, que escreveu para ela o hit "Comment te Dire Adieu", e Michel Berger, que compôs duas canções para o álbum "Message Personnel" (1973). Com tudo sua voz ligeiramente rouca e afinada e muito bom gosto sonoro, tornou-se uma excelente melodista e letrista admirada por ícones como Henri Salvador, que até quis contratá-la no início da carreira.

Embora a extensa discografia, que adentrou os anos 70, 80 e 90, foi na maturidade que Françoise chegou a seu auge em termos de musicalidade. Ela já havia surpreendido crítica e público com o triunfante retorno aos estúdios depois de 4 anos de pausa com “Clair-Obscur”, de 2000, quando, além de suas excelentes interpretações, composições e versões, canta com gente como Iggy Pop, Olivier Ngog e o ex-marido e eterno parceiro musical Jacques Dutronc. Porém, precisariam mais quatro anos para que viesse, aí sim, com o irretocável “Tant De Belles Choses”, 24º de sua longa trajetória e que completa 20 de lançamento em 2024.

Françoise: ícone também
da moda e do cinema nos
anos 60 e 70
À época com 60 anos, parece que a idade dava a Françoise aquilo que poeticamente Caetano Veloso sentenciou sobre a velhice: “Já tem coragem de saber que é imortal”. A faixa-título e de abertura e encerramento, evidencia esse amadurecimento diante do mundo, diante das coisas, que se tornam graciosamente belas a seu olhar. Na sequência, a sempre presente influência da música brasileira na sonoridade dos franceses está na francesíssima bossa-nova “À L'ombre De La Lune”. Clima parecido tem “Jardinier Bénévole”, mais cadenciada e enigmática, contudo, principalmente pelas programações de ritmo, pelos teclados reverberantes e pelo contracanto de Alain Lubrano.

Balada triste e romântica, “Moments” é uma das duas cantadas em um inglês do álbum juntamente com o pop quase tribal “So Many Things” – ambas não coincidentemente muito parecidas com o som da Everything But the Girl, uma vez que a inglesa Tracey Torn certamente tem em Françoise uma grande inspiração no modo de cantar e compor. Já “Souir de Gala” é um dos belos exemplos da canção pop hardyana, com versos muito melodiosos e visivelmente composta ao violão, embora o piano faça a marcação enquanto a guitarra solta frases pontuais. A voz dela, aliás, sempre suave, bem colocada, sensual. Sem percussão, apenas sob teclados e efeitos, “Sur Quel Volcan?” é outra que merece muita atenção. Interrogativa e não menos reflexiva, a letra diz: “Eu peço emprestado passagens, becos/ Eu pego mensagens, segredos/ Neste espaço de filigrana/ Eu veria um pedaço da sua alma?/ Em qual vulcão/ Vamos dançar/ Você e eu/ A que custo?/ Quem vai queimar lá/ Você ou eu?”.

O jazz com traços franceses, que mestres como Henri Salvador e Francis Lai legaram à música ocidental, vem na gostosa “Grand Hôtel”. A linha jazzística permanece em “La Folie Ordinaire”, que antecipa a potente – e fantasticamente melódica – “Un Air de Guitare”, em que Françoise canta com urgência os versos, os quais fraciona em três instantes bem marcados. O violão, constante e premente, ganha a parceria da dona da música, a “guitare”, tocada pelo filho Thomas Dutronc. Que baita música! Já na tensa “Tard Dans La Nuit…” – que lembra os temas densos de Nico –, Françoise fala das dores e angústias que a noite esconde. “Ela não é quem deve ser culpada/ Tantos sonhos se dissipam/ É melhor se esconder nas sombras/ As ruas não são seguras/ Atrás das portas blindadas/ Cães latem impiedosamente/ Ninguém pôde dizer/ De onde vieram os golpes/ Tarde da noite”.

Finalizando, mais uma preciosidade: “Côté Jardin, Côté Cour”. Lindo refrão: melodioso, elegante, suave e intenso ao mesmo tempo. A faixa se liga diretamente com a segunda versão de “Tant De Belles Choses”, que ressurge para terminar o disco de maneira imponente. E embora Françoise tenha lançado ainda outros quatro bons trabalhos até o fim da vida, este parece melhor representar a si e ao país ao qual trazia o radical no nome. Com 20 anos de antecedência à própria despedida, ela versa, concordando com aquilo que Caetano disse, a seguinte frase: “O amor é mais forte que a morte”. Nada além da mais pura verdade quando se fala de uma artista imortal como Françoise Hardy.

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FAIXAS:
1. "Tant De Belles Choses" (Pascale Daniel/ Alain Lubrano) - 4:02
2. "À L'ombre De La Lune" (Benjamin Biolay) - 3:38
3. "Jardinier Bénévole" (Lubrano) - 4:02
4. "Moments" (Perry Blake/ Marco Sabiu) - 3:31
5. "Soir De Gala" (Thierry Stremler) - 2:46
6. "Sur Quel Volcan?" (Daniel) - 3:08
7. "So Many Things" (Blake/ Sabiu) - 3:29
8. "Grand Hôtel" (Stremler) - 3:13
9. "La Folie Ordinaire" (Ben Christophers) - 2:32
10. "Un Air De Guitare" (Françoise Hardy)  - 3:58
11. "Tard Dans La Nuit…" (Daniel/ Lubrano) - 3:27
12a. "Côté Jardin, Côté Cour" (Lubrano) - 4:10
12b "Tant De Belles Choses (Version)" (Daniel/ Lubrano) - 3:58

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Daniel Rodrigues