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domingo, 19 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - GRANDE FINAL

 




DISORDER VS TRANSMISSION


Disorder e Transmission, as duas grandes finalistas da Copa do Mundo Joy Division, entram no gramado.

Perfilam-se ao redor do grande círculo de acordo com o novo cerimonial da FIFA e ouvem a execução de "Atmosphere", que foi eliminada mas continua sendo o hino da banda. Escolhem os lados, a saída de bola, prestam um minuto de silêncio a Ian Curtis que teria completado 70 anos nesta última quarta-feira, e estão prontas pro jogo.

Contagem regressiva: 3,5, 0, 1, 2, 5..... Go!!!

E começa o jogo!

Agora é com nossos especialistas. Como será que cada um dos nossos mestres joydivisianos irá definir a parada?

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


CLY REIS:

Dois times com estilos parecidos, jogo acelerado, velocidade, duas baterias brilhantes, linhas de baixo marcantes e interpretações inspiradas. Jogo lá e cá, trocação pura.

Transmission é um clássico, tem um dos refrões mais conhecidos do grupo, mas poucos álbuns na história tem uma abertura como Disorder. O que se sente ao começar um disco ouvindo aquela introdução pela primeira vez é algo único.

Disorder pode ter perdido o sentimento mas tem o espírito, e na base da garra se impõe e vence o jogo.

DISORDER 1 X TRANSMISSION 0

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LUNA GENTILE:

O clássico começou eletrizante: Disorder abriu o placar com sua urgência característica, impulsionada pelo baixo pulsante de Peter Hook e pela bateria impecável de Stephen Morris. Mas Transmission respondeu rapidamente, encaixando uma jogada coletiva construída por sua batida hipnótica e pelo refrão explosivo, empatando a partida antes do intervalo.

No segundo tempo, o jogo ficou aberto. Disorder voltou a pressionar com guitarras afiadas, mudanças de ritmo e a interpretação intensa de Ian, recuperando a vantagem fazendo 2x1. Porém, Transmission mostrou mais eficiência: controlou a posse, acelerou as transições e aproveitou duas falhas da defesa para marcar os gols da virada. A torcida entrou no clima e o estádio inteiro parecia obedecer ao comando de "dance to the radio".

Nos minutos finais, Disorder lançou o time todo ao ataque, acertou uma bola na trave e obrigou o goleiro a fazer uma grande defesa, mas o placar permaneceu em 3 x 2. E Transmission é a grande campeã, uma das faixas mais fluentes na história do pós-punk.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 3

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ROBERTO SULZBACH:

De um lado, Transmission, que carrega em si tudo que a banda tinha de mais visceral e urgente. Do outro, Disorder, o portal para a realidade manchesteriana de Joy Division e para a mente do genial Ian Curtis.

Os dois times jogam de maneira intensa, entrosada. Transmission vai para cima de cara, ao ritmo dançante de sua batida. Disorder inicia mais retraída, cansada dos últimos grandes confrontos que encarou. Sendo assim, Transmission abre o placar: 1 a 0, querendo ainda mais.

Mas futebol é detalhe: uma jogada construída na base da insistência, erro da defesa, e a bola entra. Foi para 1 a 1, à base da raça de Disorder, com o estádio inteiro percebendo que a decisão vai ser no detalhe.

Perto dos minutos finais, Disorder encontra a fresta que precisava. Foi o lance de quem quer mais. A bola sobra na entrada da área depois de uma bola dividida, e o time que abriu o portal, que deu o pontapé inicial nessa história, marca o gol que sonhava desde o início.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 1

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DANIEL RODRIGUES:

Pode-se dizer uma final surpreendente, de dois times não necessariamente favoritos, mas que fizeram por onde para chegar onde chegaram. Direta ou indiretamente, Disorder e Transmission derrubaram clássicos consagrados, como Decades, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart e Atmosphere. Ou seja: estão longe de serem azarões. Uma, Com essa confiança toda, eles entram em campo para a grande final. Como todo jogo importante, muito estudo de cada lado. Jogo bom, mas estratégico, sem dar margem para erro. Disorder, mais atrevida e ligeira (afinal, é talvez a única da Joy composta em nota Sol, o que a torna a mais "alegre" da banda), assusta, mas desperdiça as oportunidades que cria. E diante de um forte adversário, não dá pra ratear.

Até que, na construção, no volume, na categoria, Transmission - que também sabe ser agressiva - aproveita a momentânea "desordem" da defesa adversária e faz o seu. É o gol da vitória. É o gol do título! E que privilégio: não precisa nem adotar música de outra banda pra cantar com a galera. Vai de Transmission mesmo!

DISORDER 0 X TRANSMISSION 1


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PLACARES SOMADOS

DISORDER 5 X TRANSMISSION 5


* O regulamento da International Blog, em seu artigo 3,5,0,1,2, 5, Go!, Exercise One, estabelece que em caso de empate entre os votantes, o resultado será decidido no saldo de gols. Persistindo o empate, o resultado final será decidido por um convidado, também especialista na obra da banda.


PRORROGAÇÃO


*convidado desempate

CHRISTIAN ORDOQUE:

Caraio!!!

Transmission! 

DISORDER 5 X TRANSMISSION 6



Pode comemorar!
Com dancinha, com dancinha...

🎵🎶🎵Dance, dance, dance, dance to the radio!🎵🎶🎵


"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)


Talvez nem todos saibam, mas o filme “Todos Já Sabem” já foi motivo de resenha no Clyblog, em 2019, pelas mãos do nosso colaborador Vagner Rodrigues. Na ocasião, Vagner apontou as qualidades desse trhiller misterioso, cuja composição é distinta e certeira: o talento do elenco (os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem mais o argentino Ricardo Darín), a competência do diretor (o iraniano Asghar Farhadi) e a história envolvente. Mas é exatamente essa junção exitosa que nos motiva a, novamente, falarmos do filme no blog. Afinal, hoje tem final da Copa do Mundo inédita entre Espanha e Argentina, e um filme que reúne “em campo” justamente esses dois países – e de forma tão certeira – merece, sim, ser revisitado diante da atual ocasião.

O roteiro do filme, se não todos, muitos já sabem, haja vista que a produção é de 8 anos atrás. Por isso, relembremos: “Todos...” conta a história de Laura (Penélope), que retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia de casamento de sua irmã. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.

Afora trazer na mesma produção Argentina e Espanha, “Todos...” nos apresenta semelhanças cinematográficas que também unem esses dois países. A história faz bem lembrar a ótima fase recente do cinema argentino, que produziu vários thrillers empolgantes como “O Segredo dos Seus Olhos”, “Vermelho Sol” e "Kóblic", além de jogar luzes sobre Darín, um dos melhores atores deste século. Igualmente, o filme faz remontar o clássico cinema espanhol, como o fantástico de Victor Erice e as tramas de suspense psicológico de obras como “Dispara!” e “O Sétimo Dia”, estes dois últimos do saudoso Carlos Saura - que, aliás, já havia feito a ponte entre seu país natal e o sul-americano nos documentários "Tango", de 1998, e "Argentina", de 2015. Colabora para este resultado a direção de Farhadi, representante de uma escola cinematográfica tão importante do novo cinema mundial como a do Irã. 

Espanha e Argentina em campo, só que no cinema, por meio dos astros
Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem

Igualmente, “Todos...” também aproxima os países finalistas da Copa por um motivo até então inédito na competição: será apenas a segunda vez em quase 100 anos que os dois principais times falam o mesmo idioma! Já teve de tudo em termos idiomáticos em Copas: português com italiano, espanhol com holandês, francês com croata, alemão com húngaro, italiano com checo... mas espanhol com espanhol só lá na primeira edição, em 1930, quando Argentina e Uruguai se enfrentaram. Geopoliticamente falando, é a primeira vez que, a rigor, um país colonizador enfrenta um colonizado por ele mesmo, relação esta que remonta a mais de 500 anos!

História à parte, será um grande jogo e que reescreverá, sim, um novo capítulo histórico, Em campo, o próprio estilo de jogo de cada equipe é parecido, valorizando a bola e contando com a força do coletivo. No cinema, arte essencialmente coletiva, essa química entre espanhóis e argentinos já deu muito certo, a se ver por outros títulos hispano-argentinos como o já citado "O Segredo...", "Um Conto Chinês" e “Truman”, todos, aliás, também com Darín. O suspense de Farhadi mostra bem isso, pois cada um dos países, Espanha e Argentina, são escolas craques nas quatro linhas que formam a câmera. Isso “todos los saben”, Agora, falta saber qual escola, mas a do futebol, se saíra melhor nas quatro linhas do gramado.

trailer de "Todos Já Sabem"


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"Todos Já Sabem"
Título Original: "Todos lo Saben"
Direção: Asghar Farhadi
Gênero: Thriller, Suspense
Elenco: Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín
Duração: 2h13min
Ano: 2018
País: Espanha, França, Itália, Argentina
Onde assistir: Prime Vídeo, Apple TV, Google Play Filmes

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Daniel Rodrigues

sábado, 18 de julho de 2026

"A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues - ed. Nova Fronteira (2013)

 


"É muito difícil elogiar
o Brasil no Brasil, 
é muito difícil elogiar
o brasileiro entre brasileiros."
Nelson Rodrigues


Época de Copa do Mundo e, mesmo quem não tem ligação forte com o futebol, tem ranço com o Neymar ou está cansado da desorganização da CBF, se pega torcendo para a Seleção Canarinho. É quando aqueles caras, em gramados estrangeiros, representam mais que jogadores de futebol, mais que estrelinhas mimadas interessadas prioritariamente em dinheiro, é quando, de certa forma, representam a Pátria.

Coletânea de crônicas organizadas pelo ex-Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, reunidas do período entre 1956 a 1977, "A Pátria de Chuteiras", de Nelson Rodrigues, traz toda o característico ufanismo entusiasta do escritor, logicamente acompanhado de muito talento, verborragia, e uma capacidade singular de adjetivações criativas e hiperbólicas.

Composto na maior parte por textos relacionados às Copas do Mundo que o cronista acompanhou, o livro também conta com textos a respeito de outros momentos marcantes do futebol brasileiro, como a vaia histórica de Julinho Botelho, uma atuação assombrosa do crucificado goleiro Barbosa contra o Santos de Pelé, na Taça Brasil de 1959, e o jogo de despedida de Garrincha no Maracanã, tudo sublinhado pelas expressões únicas que consagraram o texto rodriguiano, como complexo de vira-lata, João sem medo e o próprio título do livro, cunhado por ele, a pátria de chuteiras.

Exagerado, patriota a um extremo que chega a beirar o irritante, Nelson Rodrigues insistia para que o brasileiro se valorizasse, melhorasse sua autoestima e abandonasse o que chamava de complexo de vira-lata, diante dos europeus.

Nelson tinha razão em parte. Embora o brasileiro carregue, sim, uma autocrítica muitas vezes excessivamente pesada sobre si mesmo, e mereça um olhar um pouco mais condescendente e generoso, a verdade é que hoje em dia, especificamente no futebol, aquele discurso de que somos os melhores do mundo e ninguém tem talento como nós, já não serve mais. Podemos discutir os motivos: a evasão de jogadores jovens para o exterior, a adoção de sistemas de jogo europeus, a globalização e o ingresso de imigrantes e ex-colonizados em escolas de futebol antes muito rígidas e sistemáticas, enfim...  Mas fico me perguntando se Nelson Rodrigues manteria essa opinião sobre o monopólio do talento brasileiro vendo hoje um Musiala na Alemanha, um Saka na Inglaterra, um Olise, na França, um Yamal na Espanha, driblando e entortando a espinha dos adversários como um bom atacante brasileiro faria.

Acho que hoje em dia Nelson Rodrigues não se orgulharia muito da Seleção nacional e dos jogadores sem sangue e sem coração que vestem a amarelinha.



Cly Reis 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

COTIDIANAS Especial nº900 - O Tio Adão

 



Desde pequeno ouvia minha mãe contar que nossa família tivera um grande jogador de futebol que havia jogado inclusive pela Seleção Brasileira e participado de uma Copa do Mundo.

Por mais que sempre gostasse muito de futebol, quando garoto, a informação não se fazia totalmente relevante para mim, até porque, meio desencontrada e incompleta, parecia carente de precisão e confirmação. Não que minha mãe, minhas tias e outros parentes estivessem inventando, mentindo, mas talvez aquilo não fosse tão grande quanto colocavam. Minha mãe contava das aventuras dele em países nórdicos, suas fotos com as louras, com delegações de jogadores, mas ninguém sabia ao certo se havia jogado na Copa da Suécia, da Suíça, ou se havia realmente chegado a jogar uma Copa do Mundo. Já era motivo de orgulho por ter jogado na Seleção, e isso era fato, mas talvez tivesse sido um torneio de juniores, uma excursão avulsa ou algo  do tipo. Mas de todo modo, o Tio Adão sempre habitava nossa memória afetiva coletiva como o craque da família.

A era da informação e da Internet trouxe dados mais precisos que eliminaram aquelas imprecisões e só fizeram crescer minha admiração e colocá-lo no lugar de destaque que sempre mereceu.

Tio Adão para nós, ou Adãozinho, como era conhecido no mundo do futebol, fora um atacante de alto nível que atuara no meu time do coração, o Sport Club Internacional, e que entre diversas participações com a seleção nacional, integrou o grupo que participou da fatídica Copa do Mundo de 1950, no Brasil. Jogara mesmo uma Copa, como se contava! Mas fora por aqui mesmo, no próprio país.

Integrante da segunda formação da lendária equipe do Internacional chamada de Rolo Compressor, Adãozinho, imparável, veloz e artilheiro, tamanha era sua volúpia e indomabilidade fora alcunhado de Atacante Satânico. Seu prestígio permanece intacto, atravessa gerações tanto que, hoje, minha filha, colorada, admira e também se orgulha de ter um parente, mesmo que distante, representante das cores do nosso time da lendária camiseta brasileira.

As histórias com louras europeias deviam ser de algum torneio, amistoso ou uma convocação eventual, mas o fato é que a própria participação em um Mundial já atesta não se tratar de um jogador qualquer. Se hoje em dia qualquer jogador mediano, sem coração, veste a camisa da seleção, Tio Adão jogara em uma época repleta de craques na qual a concorrência era grande, além de ser um tempo em que o amor à camiseta que se vestia representava tudo.

Nada pode mudar isso: um dos nossos, do nosso sangue, fora um craque de Seleção Brasileira e jogara uma Copa do Mundo!


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Cly Reis


sábado, 11 de julho de 2026

"4x4", de Mariano Cohn (2019) vs. "A Jaula", de João Wainer (2022)

 



Quem é  melhor no futebol, Brasil ou Argentina? O Brasil tem mais Copas do Mundo, mas a Argentina é a atual campeã mundial. O maior jogador de todos os tempos é brasileiro, Pelé, mas muitos contestam e afirmam que seria o argentino Diego Maradona ou até  mesmo Lionel Messi. A Argentina ganhou mais vezes a Copa América, mas só o Brasil foi a todas as Copas do Mundo... E no cinema? A Argentina tem dois Oscar de melhor filme estrangeiro, o Brasil tem um, mas é o mais recente do continente. Enquanto a Argentina só tem a Palma de Ouro de curta-metragem, o brasileiro "O Pagador de Promessas" já teve a glória de ser escolhido o melhor filme em Cannes... Pois hoje a disputa cinefutebolística vai entrar definitivamente em campo. Não com duas equipes brilhantes, é verdade como recomendaria a tradição das duas escolas, mas times bons o suficiente para proporcionar um bom jogo.

O cinema argentino produziu o tenso suspense psicológico "4x4" em que um ladrão de carros, ao arrombar uma luxuosa SUV fica preso dentro dela, controlada remotamente pelo sádico proprietário do veículo que sujeita o criminoso a um terror físico e psicológico constante. O cinema brasileiro então resolveu refilmar o drama do meliante enclausurado no carro de luxo no longa "A Jaula", praticamente sem nenhuma mudança significativa. Mas apesar de não  mexer em quase nada em relação ao original, o filme brasileiro não consegue atingir a mesma intensidade do rival sul-americano.

Embora a Argentina também tenha lá seus problemas sociais sérios, o filme brasileiro tinha tudo para levar uma grande vantagem nesse ponto, mas não consegue fazer disso seu trunfo. Em parte pela escolha do protagonista, Chay Suede, um ladrão com cara de mauricinho que não convence ninguém. Talvez na ânsia de não estereotipar um delinquente, tenham optado por não colocar um negro, um nordestino, ou um ator com mais cara de povão, o que geraria um certo alvoroço, sim, mas retrataria de forma mais realista a situação social do país. O argentino, numa sociedade predominante branca, tem cara de bandido e fica bem caracterizado com um jeito chulé e uma camiseta do Boca Júniors. "A Jaula" até tenta compensar esse eufemismo poético que comete com o linchamento de um outro ladrão que tenta arrombar a pick-up na qual nosso protagonista já está dentro mas é visto pela vizinhança. Tem impacto? Tem, sem dúvida. Mas a presença  dentro do carro de um representante das faixas desfavorecidas e discriminadas da sociedade, seria um constante e pesado soco no estômago.


"4x4" (2019) - trailer



"A Jaula" (2022) - trailer


Não só por isso, é  claro, mas "4x4" se sobressai de maneira evidente em relação a "A Jaula", os detalhes, as escolhas, a fotografia limitada praticamente ao interior de um veículo mas tratada de forma mais intencional no original, garantem a ele vantagem eu relação ao remake.

O proprietário do carro quando aparece, um médico com síndromes, traumas, complexos de insegurança, é mais convincente que o pouco expressivo brasileiro (Alexandre Nero), o filme argentino constrói melhor o cerco policial e confere maior tensão à toda a cena do que a segunda versão, a intervenção do negociador tem elementos mais bem pensados, bem tratados, mais envolventes que na refilmagem, enfim, o longa argentino não deixa saída para o brasileiro. A favor de "A Jaula" tem as incursões no início e no fim do filme de um desses telejornais sensacionalistas, típicos desse tipo de situação, formadores de opinião pública, com a participação da grande Astrid Fontenelle como âncora, fazendo uma espécie de Datena.

Assim como vem acontecendo no futebol nos últimos anos, os Hermanos não dão a menor chance para a nossa Seleção. 4x1 para a Albiceleste.

À esquerda, Peter Lanzani em "4x4", e à direita, o pouco convincente Chay Suede, em "A Jaula".
Aqui pode-se dizer que o adversário, tanto do argentino quanto do brasileiro,
jogou fechadinho.


A 4x4 argentina acelera o jogo,
marca a saída,
e atropela o time brasileiro.




Cly Reis

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - quartas-de-finais - CLASSIFICADOS

Dois clássicos regionais, um clássico entre dois ícones da banda, um confronto de gigantes!

O que foram essas quartas-de-finais, meu amigo!!!

Nossos árbitros-especialistas tiveram muito mais dificuldade em definir os vencedores nessa fase. Mas é inevitável. Afunilou de vez e agora só tem camisa pesada.

Vamos ver então como foram as definições das quartas e os quatro classificados para as semifinais, segundo os critérios do nosso time de analistas:


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


LUNA GENTILE

A Means to an End 1 x Decades 2 - Nesse clássico do Closer A Means to an End começou em alta, com seu baixo pulsante, bateria precisa e um ritmo pós-punk envolvente que dominou a posse de bola.
Mas Decades cresceu no segundo tempo: os sintetizadores atmosféricos, o andamento mais lento e a interpretação encantadora de Curtis deram outro peso ao jogo, controlando o ritmo até a virada.


ROBERTO SULZBACH

Disorder 4 x Candidate 2 - Disorder é frenética e organizada. A linha de baixo carrega a canção como um “8” talentoso. Seu riff icônico icônico tem a ousadia digna de Garrincha. Disciplina, ritmo e inventividade, todos em um só time. Candidate, segue com a marcação na sua metade do campo, esperando pela bola do jogo. A diferença é que em um jogo de dois timaços, não vem apenas uma bola do jogo. Então, Candidate tentou aproveitar ao máximo as chances que teve.
Teve "Trocação" franca, mas Disorder conseguiu se sobressair no ataque e na importância no catálogo do grupo. Apesar de suas valências, Candidate não foi capaz de superar a favorita.
4 x 2 Disorder.

DANIEL RODRIGUES

Transmission 3 x Love Will Tear Us Apart 2 - Outra baita jogo. Clássico joydivisiano! As duas entram em campo com esquema tático parecido, a se ver pelo mesmo conceito de abertura, que vem num crescendo, e marcam um gol cedo cada uma, um após o outro. 1 x 1. Love, mais atrevida, amplia logo depois. Mas Transmission é cascuda, com jogo bem armado, que não se apavora com qualquer adversário mesmo com bom futebol. E empata. 2 x 2. No intervalo para hidratação, porém, o técnico “transmite” aos jogadores as palavras certas e acerta a estratégia. Resultado: Transmission marca mais um e segura o placar até o final mesmo com o abafa do adversário. Final: Transmission 3 x Love Will Tear Us Apart 2. E teve novamente dancinha ao som do rádio.


CLY REIS

Atmosphere 0 x New Dawn Fades 1 - Sabe quando os times se perfilam antes do jogo para a execução dos hinos? Aqui New Dawn Fades se alinha e tem que cantar nada menos que seu próprio adversário.
Atmosphere é um hino do joy division!
E como se faz para superar um símbolo tão forte, tão marcante?
Ah, tem que fazer o jogo perfeito, e ninguém melhor que New Dawn Fades para executar essa tarefa. Talvez a música mais completa do Joy division.
Um esquema de jogo bem traçado, a estratégia bem desenvolvida e todos os setores funcionando perfeitamente. 
ali, ali, no detalhe, New Dawn Fades supera o hino e o transforma em réquiem (que de certa forma, sempre foi)
adeus, Atmosphere!

 


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #467

 

Já é reprise o Brasil eliminado da Copa, como tem acontecido nas últimas seis edições do torneio. Mas reprise mesmo será a do nosso programa 296, de dezembro 2022, quando ocorria a Copa em Dubai - e a Seleção se despedia mais uma vez... No clima de futebol, mas sempre com muita música, como Whale, Joy Division, Criolo, Adoniran Barbosa, Arnaud Rodrigues e mais. Só pelos craques agora, o MDC segue prestigiando a Copa na classificada Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

domingo, 5 de julho de 2026

A Seleção do Gil

 


Não tem ninguém na música brasileira que seja tão identificado com futebol do que Gilberto Gil. Duvida? Então diz aí alguém que torce para vários times ao mesmo tempo como ele. Além do Bahia, seu time, digamos, "natal", Gil tem como característica ter um clube em cada Estado brasileiro. No Rio de Janeiro, é Fluminense; em São Paulo, Santos; no Rio Grande do Sul, veste a camiseta gremista; em Pernambuco, a do Santa Cruz e assim por diante. 

Quando se trata de Seleção Brasileira, então, aí o velho baiano se delicia. Tanto que essa paixão pelo esporte bretão está em várias músicas do cancioneiro gilbertiano. Desde os primeiros anos de carreira até os dias atuais, Gil traz o futebol entremeado à sua faraônica musicalidade. Por isso, com o Brasil avançando de fase na Copa do Mundo, assim como já fizemos com Jorge Benjor e Chico Buarque rodadas atrás, agora é a vez de escalarmos as 11 músicas de Gil, sejam para sua própria voz ou para a de outros artistas, sejam composições de sua autoria ou de outros. Independentemente de quem cante ou compõe, é a arte maior de Gil subindo neste palco de quatro linhas feito de grama. 

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"No tempo que Lessa era goleiro do Bahia
Um goleiro, uma garantia"







1. "Tradição", do álbum "Realce" (1979): Considerada uma das obras-primas de Gil, admirada por colegas como João Bosco e Caetano Veloso, “Tradição”, de “Realce”, de 1979, é uma verdadeira crônica soteropolitana feita de reminiscências do Gil de sua infância. Numa narrativa que lembra Jorge Amado, são contadas, pelo olhar da observadora criança, diversas situações da cidade, como a discriminação racial, o comportamento social e... o futebol, quando Gil refere-se ao arqueiro Walter Lessa, multicampeão pelo seu Bahia entre 1947 a 1950. Já que estamos falando do camisa 1, nada melhor para começar essa lista com o goleiro.

Ouça: Tradição










2. "O Bom Jogador", do álbum "O Viramundo - Ao Vivo" (1972-1998): Música da entressafra do Gil pós-exílio, “O Bom Jogador” fazia parte do repertório que ele levava para os diversos shows que fazia em pequenos teatros no início dos anos 70 após retornar de Londres. Não entrou em nenhum disco na época, vindo a aparecer apenas na caixa com sobras de 1998 e, posteriormente, no registro de show na USP em 1973, lançado nos anos 2000. Na curta letra, uma máxima futebolística: “O bom jogador não engana a geral”.

Ouça: O Bom Jogador



"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"






3. "Abre o Olho", do álbum "Gilberto Gil Ao Vivo" ou "Ao Vivo no Tuca" (1974): Não se trata de uma música necessariamente sobre futebol. Aliás, está mais para uma viagem lisérgica e filosófica de um homem frente a frente consigo mesmo diante do espelho. Mas o refrão não pode ser mais futebolístico - e nem tão emblemático: combinação de talento e "consumição" que deram ao Brasil os títulos mundiais de 1958 e 1970, representadas em Pelé e Zagallo, os quais, segundo Gil, "dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa”.

Ouça: Abre o Olho











4. "Samba Rubro-Negro (O Mais Querido)", com Germano Mathias, do álbum "Antologia do Samba-Choro" (1979)
: Prova de que Gil gosta mesmo é de futebol e não dá bola para rivalidades clubísticas é que ele também exalta seus adversários, caso de “Corintiá”, que ele grava, em 2010, mesmo sendo, em São Paulo, santista. A mesma coisa acontece com o rival de seu Fluminense no Rio, o Flamengo, para o qual ele grava, no seu desconhecido e raro disco “Antologia do Samba-Choro”, feito em parceria com o cantor e compositor paulistano Germano Mathias em 1978, “Samba Rubro-negro (O Mais Querido)”, de autoria de Wilson Batista e Jorge de Castro.

Ouça: Samba Rubro-Negro



"Magos da bola na Cidade Luz
Fazem milagres, transmutações
Dores e horrores que a vida produz
São transformados no balé da bola
Suor e sangue no balé da bola
Crime e castigo no balé da bola"




5. "Balé da Bola (Copa 98)", do single "Balé da Bola - Copa 98" (1998): Quando Gil inventa de compor sambas-enredo sempre sai coisa muito boa. Foi assim com “De Bob Marley a Bob Dylan, Um Samba-Provocação” e “Quilombo, O Eldorado Negro”. Para a Copa do Mundo de 1998, na França, o jornal O Globo contratou-o para compor um tema, que se tornaria na prática o tema daquela fatídica Copa em que o Brasil foi vice-campeão. Mas a música é uma maravilha, de alto poder poético e embalada ao ritmo de uma escola de samba. Só o olhar dele para ter tamanha arguição de ver que “Quando a seleção marcar um gol” serão séculos e mais séculos de nossa história, e que o mesmo vem desde os tupis e passa pela China, Grécia ou na França medieval. É muito craque!

Ouça: Balé da Bola










6. "Trinca de Ases", com Nando Reis e Gal Costa, do álbum "Gil, Nando & Gal - Trinca de Ases - Multishow Ao Vivo" (2018): Composta por Gil especialmente para o projeto deste nome em que ele divide "as quatro linhas" com Gal Costa e Nando Reis, a música faz analogias com o “estilo de jogo” de cada um. Ele, mais maduro, faz um jogo seguro e paciente. Nando, mais jovem, é “impetuoso e viril”. Já a “moça”, por sua vez, “corre livre”. Afinal, quem tem Gal no time tem que passar mesmo a bola pra ela e deixá-la fazer o gol. 

Ouça: Trinca de Ases



"Moleque saci
Saci-pererê
Um gol de Pelé
Que é pra gente ver"





7. "Saci Pererê", com Banda Black Rio, do álbum "Saci Pererê" (1980)
: Assim como "Meio de Campo", é dessas pérolas escritas por Gil para outros artistas, e que casualmente também trata de futebol. Neste caso, a música foi encomendada para a Banda Black Rio, grupo que Gil homenageara em “Refavela” (1977). Para o terceiro e último disco da Black Rio com a formação clássica, o baiano compõe esse reggae, que se tornaria nada menos que a faixa-título e no qual faz referência a um talentoso e intrépido moleque negro brasileiro que, embora perneta, joga muito melhor do que vários “pernas-de-pau” com os dois membros inferiores. Dê-se a camisa 7 pra esse atrevido atacante.

Ouça: Saci Pererê











8. "Meio de Campo", com Elis Regina, do álbum "Elis" (1973)
: Impossível haver combinação melhor: a maestria da composição de um dos maiores compositores da MPB feita para a voz da maior cantora do Brasil. Elis Regina eterniza este samba cheio de suingue, que desafia a Ditadura ao falar em forma de carta endereçada ao polêmico Afonsinho, um dos mais politizados e engajados jogadores do futebol brasileiro dos anos 70. Gil admite na letra que não é “Pelé nem nada”, e que, se muito for, é “um Tostão”. Se Chico Buarque é nosso Pelé na música, não é nenhum demérito a Gil ser um Tostão, não!

Ouça: Meio de Campo









9. "Balé de Berlim", do single "Balé de Berlim" (2006): O Brasil pode não ter ganhado em 1998, mas que a ideia de Gil compor tema da Copa deu certo, ah! Isso deu. Tanto que o baiano foi chamado novamente para a mesma empreitada, só que então para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. “Balé de Berlim” repete melodia e o clima de samba com letra atualizada para a ocasião e, desta vez, Gil convoca para fazer tabelinha com ele Zeca Pagodinho. Se, assim como na França, a música de Gil não deu a sorte que a Seleção precisava, ficou para a eternidade, ao menos, mais um belo tema dele sobre futebol.

Ouça: Balé de Berlim


"Alô, torcida do Flamengo
Aquele abraço!"






10. "Aquele Abraço", do álbum "Gilberto Gil" (1969): Gil estava com um pé no aeroporto rumo ao exílio forçado na Inglaterra por causa do Governo Militar, mas não sem antes deixar seu manifesto. E, claro, um manifesto com a sua cara: poético, resistente e em forma de samba de breque. O clássico "Aquele Abraço", além de tudo, põe o futebol no contexto político-social do País, chamando para sua celebração de resistência a "torcida do Flamengo", o que significa, como a própria expressão se popularizou, convocar o "todo o povo brasileiro". Música nota 10, merece a camisa 10!

Ouça: Aquele Abraço









11. "Campeão dos Campeões", com Os Doces Bárbaros, do álbum "Doces Bárbaros Bahia" (2000): A partir de um projeto encabeçado por J. Veloso, um dos irmãos de Caetano e Maria Bethânia, os Doces Bárbaros (que inclui, obviamente, ainda Gal e Gil) se reuniram para gravar um disco com versões de hinos e música em homenagem ao Sport Club Bahia. A Gil coube esse reggae de autoria de Zé Pretinho, Raquel e Bezerra da Silva – que, embora super ligado à malandragem carioca, era, na verdade, baiano. Quanto a Gil, este sim, não há dúvidas: por mais que vista a camiseta de outros clubes, na verdade, ele é mesmo "Baêah"!

Ouça: Campeão dos Campeões


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Daniel Rodrigues