Ditadura militar argentina. O governo do General Videla usa a Copa do Mundo como propaganda política, como cortina de fumaça para todos os problemas sociais, como pão-e-circo, e a seleção nacional, se campeã será o símbolo de um país no caminho certo.
Um grupo de agentes do governo, no dia da final da Copa do Mundo de 1978, entre um lance e outro do jogo, um jogo de cartas, uma conferida no placar, a ansiedade pelo resultado, pelo título inédito da Albieleste, tortura jovens rebeldes ao regime em uma instalação afastada de Buenos Aires. Buscam informações a respeito de um suposto grupo revolucionário e não economizam nos métodos cruéis e sádicos para arrancar dos presos a informação sobre a sede do tal movimento rebelde. Eles conseguem o endereço, vão ao tal local, invadem e prendem um grupo nada peculiar em atividades um tanto estranhas para um núcleo subversivo. Pois é... e não era mesmo uma organização insurgente. Informação errada! Tratava-se de um grupo satanista que realizava um ritual que, para azar dos agentes, se completaria, lá, dentro dos muros da ditadura.
Possuídos, os membros do culto, ficam incontroláveis, sedentos de sangue e famintos por carne humana promovendo uma terrível carnificina dentro da cadeia, não fazendo diferenciação entre torturadores e torturados.
Uma figura sobre o verdadeiro mal. O homem e suas ideologias políticas ou o que tememos como demoníaco ou sobrenatural. O que é pior?
Ambas as violências são terríveis e chocantes, mas, em nome do terror, o massacre dos demônios tem mais sangue, tripas e é bem mais impressionante para a telona. A cena em que devotas de satã arrancam o pênis de um dos torturadores é absolutamente brutal e repugnante, só para ficar em um momento desses horripilantes do filme.
No geral, "1978" não é um grande filme, se perde entre a mensagem política e o terror, e a amarração das duas coisas na trama é muito frágil, inconsistente, pouco trabalhada. Vale minimamente pela reflexão que levanta sobre qual é verdadeiro terror, e, para os fãs do gore, do splatter, é claro, vale especialmente pelo horror gráfico e pelo banho de sangue.
Queriam encontrar os 'vermelhos'? Tá aí o vermelho pra vocês.
"...E a rebelde endemoniada tira as bolas do torturador! Que beleza!" Isso sim é que é futebol arte.
porCly Reis
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"1978"
título original: "1978"
direção: Nicolás Onetti e Luciano Onetti
elenco: Agustín Olcese, Mario Alarcón, Carlos Portaluppi
Ninguém entende mais de futebol do que Jorge Benjor! Pelo menos, nenhum compositor sabe como ele colocar futebol em versos cantados. Mais do que qualquer outro artista da música, Jorge consegue associar esses universos de forma única e inspirada.
São diversas as canções dele em que o esporte paixão das multidões está presente de alguma forma, seja como tema principal, como personagem ou de forma sutil na forma de uma mera alusão ao clube do coração.
Então, no dia da estreia da Seleção na Copa do Mundo, decidimos escalar a Seleção do Jorge, as 11 titulares do Cavaleiro Imaculado.
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"Eu vou lhe avisar
Goleiro não pode falhar"
1."Goleiro", do álbum "23" (1993): Não poderia ser diferente e a gente começa com o goleiro. Jorge Benjor homenageou o jogador da posição mais solitária do campo em seu álbum "23". A canção "Goleiro" alerta para a responsabilidade da posição na qual qualquer falha pode ser fatal, e uma desatenção pode originar um frango vergonhoso.
2."Troca Troca", do álbum "A Banda do Zé Pretinho" (1978): Música que remete às criativas transações que o cartola tricolor Francisco Horta, dos anos 70, promovia entre os grandes clubes do Rio de Janeiro, incrementando o campeonato e alvoroçando os torcedores.
No mais famosos 'pacotão' de trocas, Horta levou para as Laranjeiras o goleiro Renato do Flamengo em troca do também arqueiro Robero do Fluminense, deu o argentino Doval em troca do atacante Zé Roberto do rubro-negro, e já que estamos falando de lateral, cedeu o lateral Rodrigues Neto do Fluzão, em troca de Toninho, do rival.
3."Zagueiro", do álbum "Solta o Pavão" (1975): E no centro da defesa ele, o zagueiro, impávido, imponente, aguerrido. Jorge Benjor descreve e canta de forma magistral a desenvoltura do dono da grande área com suas virtudes e atribuições, nesta que é, sem dúvida, uma das mais belas canções sobre futebol.
4."Cadê o Pênalti", do álbum "A Banda do Zé Pretinho" (1978): Caiu na área? É pênalti! Se o zagueiro não tomar cuidado, for driblado, perceber um perigo eminente, for seu último recurso e tiver que fazer a falta dentro da grande área, o juiz aponta pra marca da cal e aí já era. Jorge Benjor, também no disco "A Banda do Zé Pretinho" trata da infração mais séria e fatal do futebol: a penalidade máxima.
5."Meus filhos, Meu Tesouro", do álbum "África Brasil", (1976): Que menino nunca sonhou em ser jogador de futebol? Não foi diferente com Artur Miró, filho fictício da música "Meus filhos, meu tesouro". Ele, o irmão Jesus Corrêa e a irmã, Anabela Gorda, questionados pelo pai, na letra da canção integrante do disco "África Brasil", manifestam suas aspirações. O irmão, quer ser um empresário, ela, dona de casa ou 'dondoca' de sociedade, já Artur Miró, por sua vez, não hesita: "Eu quero ser jogador de futebol".
Jorge Benjor foi um desses meninos que tinha esse desejo e, dizem, tinha talento para tal. Até tentou alguma coisa na base do Flamengo antes da carreira artística. Acabou mesmo na música. Sorte a nossa.
6."Jesualda", do álbum "Solta o Pavão" (1976): Jogando na nossa lateral-esquerda ela que é simpática, pura e meiga e foi trabalhar na zona sul de cozinheira de forno e fogão. E o que é que a donzela Jesualda tem a ver com futebol? É que na volta do trabalho, no ponto de ônibus, num domingo à tarde, encontrou um sujeito meio apressado que ia com bandeira e tudo ao Maracanã e a partir daquele momento a sorte da moça suburbana mudou. Casou, espera um bebê e foi morar no exterior. Ah, o futebol... Unindo destinos e mudando vidas.
7."Fio Maravilha", do álbum "Ben" (1975): Somente Jorge Benjor conseguiria narrar um gol musicalmente como fez com a jogada celestial do atacante Fio.
Jorge descreve com inigualável inspiração, ritmo, musicalidade a jogada do gol de placa de um jogador carismático de seu clube do coração, o Flamengo. O tempo de jogo, o desenvolvimento da jogada, o sentimento do jogador, a reação da torcida... Um golaço de Jorge Benjor!
8."Ponta de Lança Africano (Umbabaruma)", do álbum "África Brasil" (1976): Este meia-atacante saído da mente luminosa do compositor é certamente o jogador fictício que todo fã de música imagina como seria e gostaria de ver jogando. Um ponta de lança decidido que pula, cai, levanta, sobe, desce, abre espaço e que é capaz de levar uma multidão ao estádio especialmente para vê-lo jogar. O jogador decisivo, o homem-gol.
Um samba-rock embalado e irresistível que tem, possivelmente, um dos melhores rifas da música brasileira.
9."O Nome do Rei é Pelé", do álbum "Reactivus Amor Est (Turba Philosophorum)" (2004): Homenagem de Jorge Benjor ao maior de todos. Canção pouco inspirada, pra falar a verdade, numa fase já menos genial do compositor. Jorge praticamente se limita a enumerar os feitos e listar estatísticas do rei, com ritmo, com balanço, bom refrão, é verdade, mas numa composição bem inferior a outras coisas que já fizera.
O Rei do Futebol poderia ter algo melhor do Rei das Músicas de Futebol.
10."Camisa 10 da Gávea", do álbum "África Brasil" (1976): Eu podia ter posto o 10 eterno, Pelé, com a camisa 10 da nossa seleção musical, mas não tem como não reservar este posto para uma canção cujo título é nada menos que o número da camisa. Jorge Benjor já se encantava com o garoto Zico antes dele se tornar tudo o que representou na história do Clube de Regatas do Flamengo. Numa canção mansa, malemolente, Benjor adverte do perigo fatal de cometer uma falta na entrada da área quando aquele jovem craque estava em campo. Isso alguns anos antes do Galinho de Quintino colocar o Flamengo no topo do mundo. Jorge Benjor entende mesmo de bola.
11."Camisa 12", do álbum "Salve, Jorge" - Inéditas e Raridades - 1963-1976 (2009): Quem fica com a nossa camisa 11 aqui é a "Camisa 12". Uma ode à mítica camiseta canarinho da Seleção Brasileira e a todos os apaixonados por ela. "Camisa 12", canção antiga recuperada em um álbum extra de raridades, exalta os jogadores que defendem, que honraram a camisa amarela e trouxeram cinco títulos mundiais para o Brasil, toda sua raça, sua determinação e sua técnica, além de reverenciar os torcedores, e a troca de energia que acontece quando a Seleção está em campo, especialmente em Mundiais.
Nada mais oportuno para o momento, no dia da estreia do Brasil em mais uma Copa do Mundo.
Tá, agora parou a brincadeira! Tirem as crianças da sala que aqui é conversa de gente grande. Se Japão vs. Itália não é um grande clássico no futebol, uma vez que os orientais não tem uma seleção tradicional e os italianos vem de fracassos e ausências recentes em Copas do Mundo, no cinema, pelo contrário, representam duas escolas clássicas e premiadas. E aqui o jogo é ainda maior por conta dos donos do espetáculo. De um lado Akira Kurosawa e do outro o italiano Sergio Leone que numa produção conjunta com Alemanha e Espanha, refilma o clássico do mestre japonês e tentar superá-lo.
Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.
Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.
Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é praticamente a mesma. O herói, ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.
"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado
Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...
E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.
O time italiano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.
Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor.
O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint. Dois times com matadores como esses só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo, quero dizer...muitos gols.
No duelo da espada contra a pistola,
ninguém ficou com a vantagem.
Tudo igual num jogo de craques na beira do campo e dentro dele.
A bola começa a rolar nos gramados da América do Norte e as publicações sobre futebol e países envolvidos no grande evento, começam a rolar por aqui.
Livros que trazem o futebol como tema, filmes em que este esporte é protagonista, confrontos de filmes originais contra remakes de países participantes da Copa como se fossem jogos de seleções, discos com artistas de nacionalidades diferentes, artes especiais remetendo a grandes jogos e grandes craques, e tirinhas tratando de tudo que acontecer nesse período do Mundial com muita atualidade e bom humor.
Mas calma, as 'grandes seleções' não entram ainda nesta fase. As que tiveram a honra de compor os únicos dois álbuns de estúdio lançados pela banda, terão o privilégio de entrar a partir da fase seguinte.
Nesta fase preliminar, os singles, inéditas e integrantes de coletâneas se enfrentam tentando seu lugar na elite. Eles que lutem!
É lógico que numa obra tão curta, algumas que deveriam ter entrado em álbuns mas não tiveram tempo para isso e mesmo assim ficaram eternizadas, terão que passar por essa pequena humilhação e enfrentar uma eliminatória, como é o caso de clássicos como "Atmosphere" e "Transmission", por exemplo. Mas imagino que não devam ter dificuldades para passar e devam se encontrar com suas iguais na fase seguinte...
Será?
Futebol pode ser uma caixinha de surpresas.
Então que tal conhecermos quem serão os adversários desses clássicos que não deveriam estar na série B, e todos os outros confrontos dessa fase pré?
Confiram aí então os confrontos da fase preliminar da Copa Joy Division que nós, os blogueiros do ClyBlog, Clayton e Daniel, juntamente com nossos convidados entendedores da obra da banda, Luna Gentile e Roberto Sulzbach, definiremos os vencedores e que avançarão à fase seguinte:
Rodrygo está fora da Copa, Militão está fora da Copa, Gnabry está fora da Copa, o Yamall é dúvida, mas quem tá na Copa, sem dúvida alguma, é o Clyblog.
Em ano de Copa do Mundo nossas seções ganham postagens especiais, temáticas, ligadas a futebol ou remetendo aos países sede, Estados Unidos, México e Canadá, e aos demais participantes nessa edição que conta com mais países, inclusive com alguns bem atípicos no universo mais tradicional do futebol.
Tá chegando, tá chegando!!! E a partir de agora Copa já é assunto por aqui. Filmes, discos, livros, contos, crônicas, músicas, vídeos, tirinhas, tudo tem Copa do Mundo no Clyblog.
Quanto ao Neymar eu não sei, mas o Clyblog tá na Copa!
Bola rolando...
Ilustrações de gols das campanhas dos 5 títulos do Brasil em Copas do Mundo
"Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura."
"Temos cada vez mais necessidade de ousar olhares originais contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo."
trechos do livro "O Corpo Encantado das Ruas"
"O Corpo Encantado das Ruas" é a exaltação daqueles hábitos urbanos que foram escasseando, sumindo, sendo aos poucos extintas, por conta das modernizações, da tecnologia, das pressões socais, do politicamente correto que sufocam a cidade e seus cidadãos roubando, a cada dia, um pouco do prazer de viver nas coisas simples.
Práticas, pessoas, lugares, comidas, são lembradas pelo sempre aprazível Luiz Antonio Simas, professor e historiador, mestre em história social, botafoguense apaixonado e especialista em carnaval, com a nostalgia de quem viveu coisas tão gostosas, puras, curiosas, ímpares do cotidiano carioca, mas que agora lamenta o impositivo sepultamento desses costumes que nos faziam um pouco mais humanos.
Simas nos apresenta personagens lendários das ruas do Rio, recupera os antigos blocos de bairro, festejos, fala com saudade das brincadeiras de rua como pipas e carrinhos de lomba, reverencia acepipes clássicos de boteco, cita remédios naturais da sabedoria do povo, lamenta a arenização do futebol e a elitização da torcida, e sobretudo exalta a cultura negra dentro do contexto da identidade do Rio de Janeiro, seja nos terreiros de umbanda, nas esquinas, nas comidas, na sabedoria popular ou no carnaval.
Livro gostoso em cada capítulo, cujos episódios e passagens são expostos de forma, às vezes, melancólica, é verdade, mas não por isso menos suave e, não raro, divertida e engraçada. Faz a gente ficar com uma certa saudade do tempo em que as coisas eram mais simples.
Varre, varre, varre. É lantejoula, é plástico, é papel, é pano. Aquele barracão fica um lixo só quando todo mundo sai. Ficam só uns pra dar os últimos acabamentos, deixar tudo prontinho. Pra não atrapalhar os últimos que ficaram pra dar aqueles retoques finais e aquelas frescuras, vou pra parte onde as coisas já estão prontas. Colares, chapéus, máscaras, penduricalhos... só varrer com cuidado sem derrubar nada.
Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock, hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?
Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?
Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.
Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.
Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.
Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.
Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.
Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.
E lá se foi mais um ano de Música da Cabeça! O oitavo, mais precisamente, sempre com estreia na Rádio Elétrica, às quartas, 21h, e cuja programação é divulgada semanalmente aqui no blog. Programação esta, aliás, invariavelmente associada a artes que, toda semana, haja programa inédito ou não, pintam aqui e nas redes sociais.
Por isso, como viemos fazendo nos últimos anos e a exemplo da retrospectiva da sessão Clyart, separamos as artes feitas para o MDC que rolaram durante 2026. Já com atraso, inclusive, visto que já estão rolando os programas deste ano. Mas a retrospectiva segue valendo para mostrar as linhas criativas que seguimos nos últimos meses, com temas geralmente do momento, aqueles que motivaram as nossas criações, quase como uma crônica visual.
São temas da política, da sociedade, dos acontecimentos internacionais ou até mesmo aquele fato curioso que estava pegando durante a semana: muitos deles se transformaram em chamadas para as nossas edições do MDC.
E dessa vez não teve desculpa de enchente, como a de 2024, que interrompeu o nosso programa por mais de um mês. Com um ano cheio, pudemos deitar e rolar em nossas chamadas. Ou seja: o que não ficou legal foi única e exclusivamente por conta de alguma inabilidade com as ferramentas de criação das artes. Contudo, o avançar dos anos, somado à constante prática de todas as semanas buscar levantar algo criativo visual e tematicamente, vem fazendo com que alguma evolução técnica apareça, mesmo que isso fique somente na menor dificuldade de executar. Pelo menos isso.
Mas saiu coisa legal, inegavelmente. E com muita variedade, seja em peças ou vídeos. De gozações com a febre nacional “Vale Tudo” à lenga-lenga da contratação de Carlo Ancellotti para técnico da Seleção Brasileira de Futebol Masculino, passando pelo conclave do novo Papa e a morte de ilustres como Sebastião Salgado e Sly Stone, teve de um tudo. Claro: os gritos de guerra “Sem Anistia” e o processo que levou pra cadeia a corja de golpistas, incluindo o execrável ex-presidente, foi acompanhado e registrado no programa, seja através das notícias, seja por meio de suas artes de divulgação.
Enfim, mais um ano cheio de acontecimentos e motivações pra que o programa existisse e, com ele, as artes do MDC, que a gente recupera aqui o que de melhor rolou em 2025.
Começamos o ano desejando tudo de bom para os ouvintes em 2025
E já na posse de Trump as coisa já não iam bem. Hillary Clinton que o diga
Mas 2025 começava também com alegria e orgulho pelo filme "Ainda Estou Aqui", naquele janeiro vencedor do Globo de Ouro e concorrente ao Oscar, bem como de Fernanda Torres, que dava show por onde passava - até quando ela falava do MDC
Olha as sandices do Trump de novo! Na ed. de 19 de fevereiro, ele estava querendo mudar o nome do Golfo do México para Golfo... do MDC, claro!
E foi assim que a gente chegou à Quarta-Feira de Cinzas: sorrindo com o Oscar de "Ainda Estou Aqui", para a ed. de 5 de março
O programa encerrou o segundo mês do ano com edição especial de nº 400, que teve a honra de entrevistar o músico, produtor e jornalista Thomas Pappon, direto de Londres, onde ele reside. Fizemos um vídeo-teaser bem legal, para este que foi um dos melhores programas MDC em 8 anos
Esta arte para a ed. 403, de 19 de março, em comemoração aos 80 anos de Elis Regina, foi das mais bonitas. A Pimentinha merece
Esta também, do programa 406, ficou interessante e visualmente instigante
Primeira vez que houve um díptico para chamar um programa, e foi na ed. 404, em março. Como foi bom ver essa gente sendo presa...
Mais uma bem legal de 2025, esta para a reprise da ed. 240, em abril, com o olhar característico do Carletto
E quando numa mesma semana se perde Nana Caymmi e Cristina Buarque? A gente uniu as duas em uma homenagem no MDC do começo de maio
E teve mais perdas entre maio e juno que viraram arte do MDC: Sebastião Salgado, Pepe Mujica e Sly Stone
Claro que a gente tinha que tirar um sarro da coqueluche do Brasil, "Vale Tudo", novela com a qual o MDC rivalizou tête-à-tête a audiência no horário nobre toda quarta-feira (#SQN)
E quando tivemos a felicidade de interromper a programação para dar a notícia do Plantão MDC, que o Bozo estava preso?! Começávamos a lavar a alma neste programa 422
O MDC 420 também teve atração especial, que foi a entrevista do músico e produtor Xuxa Levy, para o qual montamos esse pequeno vídeo em 23 de julho
E não é que em semanas subsequentes de final de agosto e início de setembro perdemos Jaguar e Verissimo? Só mesmo Sig e as Cobras para nos consolar
O soco que o Wanderlei Silva tomou não podia deixar de ilustrar a arte daquela semana de começo de outubro, né?
Pelo menos o MDC matou Odete Roitman, o que o fez com muita frieza e sem deixar vestígios em 8 de outubro, para o programa especial 430
Aí o "imbrochável" vai lá e enfia um ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Não tem como não virar arte do MDC!
Outros dois grandes que partiram: Hermeto Pascoal, em setembro, e Lô Borges já em novembro. Foram tema dos nossos MDC 427 e 434 respectivamente
Na semana da Consciência Negra, repetimos o programa de nº 200 com a entrevista com Jards Macalé, outro grande que a gente perdia repentinamente naquele mês, e por isso recuperamos o belo vídeo-teaser que montamos quando de sua exibição em 2011. Salve Macao!
Pra encerrar o ano com mais um prêmio, ninguém melhor que ela, Fernandinha, dando uma chinelada na cara da extrema-direita para nosso MDC de Natal