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| Wagner Moura no polêmico papel de Pablo Escobar. |
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
O Escobar do espanhol chiado
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (2025)
Numa trama envolvente e sinuosa, a história de “O Agente...”, que estreia hoje nos cinemas, se passa no ano de 1977, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, e conta a saga de Marcelo, um professor especializado em tecnologia que decide fugir de seu passado violento e misterioso. Ele se muda de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar a vida perto do filho. Porém, mesmo em plena semana de Carnaval, em que os ânimos estão exaltados pela festa do Momo, seus passos estão sendo vigiados, e ele percebe que a cidade que acreditou ser o seu refúgio é ainda mais perigosa para sua sobrevivência.
Kleber vale-se de muita habilidade narrativa para contar essa saga. Primeiro, que ele constrói um thriller que remete aos tradicionais filmes de espionagem dos anos 60 e 70, porém usando criatividade para fugir do óbvio. Nesse sentido, uma das melhores características do roteiro é o aspecto da frustração de expectativas e do deslocamento de suposições. Artifício empregado com maestria por cineastas como os irmãos Cohen (“Onde os Fracos não têm Vez” é exemplar nesse jogo narrativo), ambos recursos fazem com que a história surpreenda o espectador no seu desenrolar, ao mesmo tempo em que lhe tira a atenção se determinado elemento ou lhe "promete" entregar outros, mas sabiamente lhe frustra por lançar outra lógica no lugar.
Exemplo perfeito desse deslocamento intencional de sentido é a perna encontrada dentro da barriga de um tubarão no começo do filme. Por um lado, é algo que insere uma linha narrativa à trama, mas também amarra outros níveis narrativos mais simbólicos, do folclórico ("perna cabeluda") ao existencial (a impossibilidade de cidadãos honestos, transformados em refugiados políticos, em andar com as próprias pernas). Até mesmo o assassino de aluguel Vilmar (Kaiony Venâncio), em parte exitoso em seu serviço, é algoz e vítima ao mesmo tempo do perverso e violento sistema paralelo sustentado pelo regime militar brasileiro, visto que ele também é baleado justamente na perna.
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| Tânia Maria como d. Sebastiana: essencial para a trama |
O que resulta disso é mais uma obra impactante de Kleber, um filme empolgante que o coloca definitivamente entre os melhores realizadores do mundo em atividade ao lado de Yorgos Lanthimos, Sofia Coppola, Gaspar Noé e Jordan Peele. As 2 horas e 40 minutos de fita são aproveitadas internamente, sem qualquer excesso ou "barriga". Wagner, escolha perfeita para o papel, está deslumbrante, assim como Tânia Maria no papel de Dona Sebastiana, atriz veterana com quem o cineasta já havia trabalhado em "Bacurau" e que enxergou nela a possibilidade de aproveitar melhor seu talento. Deu muito certo, visto que Tânia - a quem empolgadas vozes vêm apontando-a como merecedora de indicação a Oscar pela atuação - recebe, desta vez, textos bastante bem elaborados, essenciais ao filme.
Já que se entrou nessa seara, então: e o Oscar? Parece cedo ainda para falar a respeito, visto que os favoritos, em geral, começam a surgir principalmente durante novembro e dezembro. São esses títulos de dentro da indústria e/ou responsivos ao contexto socio-politico-produtivo que saltam na frente em preferência.
Contudo, dá para arriscar o palpite de que “O Agente...”, dados os prêmios em Cannes e todo o eficiente marketing que vem ganhando - além, claro, da qualidade do filme - tem boas chances de emplacar indicações. A começar, pela de Filme Internacional, para o qual vem sendo bem cotado. Porém, é bem plausível supor que, na esteira de "Ainda Estou Aqui", brasileiro vencedor do Oscar de Filme Internacional do ano passado e concorrente na categoria de atriz, quando Fernanda Torres beliscou a estatueta, desta vez saia uma indicação para Melhor Ator para Moura, figura já conhecida do mercado norte-americano e internacional. Aposto também em indicação a Melhor Filme, assim como ocorreu com “Ainda...”, mas também de Direção para Kleber, cujo trabalho é naturalmente mais autoral do que o de Walter Salles em “Ainda...”, o que lhe pode contar pontos diante do novo contexto da Academia do Oscar, mais atenta a talentos de fora do eixo de anos para cá.
Previsões boas para um país como o Brasil, que vem despontando no cenário cinematográfico mundial de anos para cá e que parece manter-se assim. Talvez “O Agente...” supere “Ainda...” em indicações e, quiçá, em premiações - assim se espera - mas não em visibilidade de público nos cinemas brasileiros, visto que se trata de uma obra menos "palatável" do que a do filme de Waltinho, bem mais convencional em narrativa, o que o aproxima do espectador comum. Ou, quem sabe, depois que o filme estrear, a campanha de marketing, vultosa para os padrões brasileiros, não consiga atrair tanto público quanto o fenômeno de bilheteria “Ainda...”? Se propaganda serve para vender porcarias todos os dias, que sirva também para levar a um grande público coisas boas como “O Agente...”. Terá, enfim, a publicidade acertado alguma vez assim como Kleber, que acerta em todas.
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Daniel Rodrigues
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Oscar 2026 - Os Indicados
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| Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo! |
É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.
“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalamet por “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.
Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.
De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.
Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.
Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair.
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Melhor Filme
"Bugonia"
"F-1"
"Frankenstein"
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"O Agente Secreto"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
"Sonhos de Trem"
Melhor Direção
Chloé Zhao, por "Hamnet"
Josh Safdie, por "Marty Supreme"
Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"
Joachim Trier, por "Valor Sentimental"
Ryan Coogler, por "Pecadores"
Melhor Ator
Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"
Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"
Ethan Hawke, por "Blue Moon"
Michael B. Jordan, por "Pecadores"
Wagner Moura, por "O Agente Secreto"
Melhor Atriz
Jessie Buckley, por "Hamnet"
Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"
Kate Hudson, por "Song Sung Blue"
Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"
Emma Stone, por "Bugonia"
Melhor Ator Coadjuvante
Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"
Jacob Elordi, por "Frankenstein"
Delroy Lindo, por "Pecadores"
Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"
Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"
Melhor Atriz Coadjuvante
Elle Fanning, por "Valor Sentimental"
Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"
Amy Madigan, por "A Hora do Mal"
Wunmi Mosaku, por "Pecadores"
Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"
Melhor Elenco
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"O Agente Secreto"
"Pecadores"
Melhor Roteiro Original
"Blue Moon"
"Foi Apenas Um Acidente"
"Marty Supreme"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
Melhor Roteiro Adaptado
"Bugonia"
"Frankestein"
"Hamnet"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Sonhos de Trem"
Melhor Filme de Animação
"Arco"
"Elio"
"Guerreiras do K-pop"
"A Pequena Amélie"
"Zootopia 2"
Melhor Filme Internacional
"O Agente Secreto"
"Foi Apenas Um Acidente"
"Valor Sentimental"
"Sirāt"
"The Voice of Hind Rajab"
Melhor Documentário em Longa-Metragem
"Alabama: Presos no Alabama"
"Embaixo da Luz Neon"
"Cutting Through Rocks"
"Mr Nobody Against Putin"
"A Vizinha Perfeita"
Melhor Documentário em Curta-Metragem
"Quartos Vazios"
"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"
"Children No More: Were and are Gone"
"O Diabo Não Tem Descanso"
"Perfectly A Strangeness"
Melhor Curta-Metragem em Live Action
"Butcher's Stain"
"A Friend Of Dorothy"
"Jane Austen's Period Drama"
"The Singers"
"Two People Exchanging Saliva"
Melhor Animação em Curta-Metragem
"Butterfly"
"Forevergreen"
"The Girl Who Cried Pearls"
"Retirement Plan"
"The Three Sisters"
Melhor Trilha Sonora
"Bugonia"
"Frankestein"
"Hamnet"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Pecadores"
Melhor Canção Original
"Dear Me", de "Diane Warren: Relentless"
"Golden", de "Guerreiras do K-pop"
"I Lied To You", de "Pecadores"
"Sweet Dreams Of Joy", de "Viva Verdi!"
"Sonhos de Trem", de "Sonhos de Trem"
Melhor Som
"F-1"
"Frankenstein"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Pecadores"
"Sirāt"
Melhor Fotografia
"Frankenstein"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Sinners"
"Sonhos de Trem"
Melhor Design de Produção
"Frankenstein"
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Pecadores"
Melhor Figurino
"Avatar: Fogo e Cinzas"
"Frankenstein"
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Pecadores"
Melhor Cabelo e Maquiagem
"Frankenstein"
"Kokuho"
"Pecadores"
"Coração de Lutador: The Smashing Machine"
"A Meia-Irmã Feia"
Melhor Montagem
"F-1"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
Melhores Efeitos Visuais
"Avatar: Fogo e Cinzas"
"F-1"
"Jurassic World: Recomeço"
"O Ônibus Perdido"
"Pecadores"
Daniel Rodrigues
segunda-feira, 11 de julho de 2022
“Medida Provisória”, de Lázaro Ramos (2022)
A trama se passa num Brasil do futuro em que uma inciativa de reparação pelo passado escravocrata provoca uma reação no Congresso Nacional, que aprova uma medida provisória, que afeta diretamente os cidadãos negros. A vida de um casal, formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch, conhecido pela participação na franquia Harry Potter no papel do bruxo Dino Thomas), bem como a de seu primo, o jornalista André (Seu Jorge), vira de ponta-cabeça assim que a medida passa a vigorar e os negros, por meio da coação e da violência, começam a ser perseguidos para serem mandados de volta para a África. Por força das circunstâncias, os protagonistas são obrigados a se separarem e não sabem se conseguirão se reencontrar.
O longa é uma adaptação da bem-sucedida peça “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação, cuja história fantástica e distópica pode funcionar muito bem escrita, mas não necessariamente quando transposta para audiovisual. “Medida...”, mesmo que com resultado distinto do filme de Moura, uma dramatização biográfica, acerta na difícil equação entre fábula e crítica social sem pender para o artificial, a superficialidade ou, noutro extremo, o adensamento desnecessário. Lázaro consegue, pelo contrário, dar toques de drama, aventura, ficção, suspense, comédia e romance sem perder a mão.
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| Taís e Alfred vivem o casal protagonista |
Chamam atenção, por exemplo, as cenas de violência. Em nenhum momento há explicitação, com sangue, traumas ou coisa que o valha. Porém, é tudo muito crível, como nos lances em que a polícia (assustadora, mascarada e sem expressão) ataca as pessoas negras na rua. Nem carnificina, visto que a situação já é suficientemente terrível, nem a má encenação que por muito tempo foi típica de cinemas do “terceiro mundo” como o do Brasil, pobre tecnicamente até o início deste novo século. Mérito total da direção.
Uma única exceção: a querida e, literalmente, divina Dona Diva Guimarães, que quase compromete quando é exigida em atuação. Senhora das classes estudantis da vida, ela, que tanto embasbacou a Flip de 2017 com sua lucidez de mulher preta e emocionou o próprio Lázaro quando entrevistada no Espelho, do Canal Brasil, justificadamente não tem traquejo para isso. Sua representação já é muito bem aproveitada numa das cenas iniciais do longa, quando ela aparece como Dona Elenita, a primeira negra a receber a indenização pela dívida do estado pela escravidão, sem grandes exigências com atriz. Porém, Lázaro força um pouco a barra ao colocá-la, momentos depois, na sequência dos afrobunkers, a contracenar com Taís. Aí, ficou bem desigual. No entanto, mesmo com a importância simbólica dada a seu papel, o “amadorismo” não é suficiente para desequilibrar o filme. Afinal, quanta produção de Hollywood altamente qualificada tecnicamente que tem também atuações fracas?
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| Seu Jorge: ator coringa do cinema nacional |
Também por este aspecto, aliás, os filmes de Lázaro e Moura dialogam. De ângulos diferentes, porém complementares, ambos - juntamente com outro bom filme desta safra recente, "Doutor Gama", de Jeferson De - tratam da questão do negro e da necessidade de se olhar para o direto à cidadania como reparação histórica. A reflexão a este exercício, no entanto, faz-se de uma forma ou de outra: seja pela valorização de nossos heróis nacionais de verdade ou fazendo-nos refletir sobre uma história inventada como uma metáfora da nossa realidade como nação.
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trailer de "Medida Provisória", de Lázaro Ramos
sábado, 24 de maio de 2025
78º Festival de Cannes 2025 - Os Premiados
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| O pernambucano Kléber Mendonça Filho discursando após receber o prêmio de melhor diretor no Festival. |
Depois da gigantesca vitória no Oscar, com o prêmio de melhor filme internacional para "Ainda Estou Aqui", agora, no Festival de Cannes, outro dos eventos cinematográficos mais prestigiados do mundo, o Brasil volta a conquistar prêmios de grande relevância. "O Agente Secreto", filme pelo qual sempre se teve enorme expectativa e cuja previsão por reconhecimento internacional em festivais já era prevista, confirma o que se esperava e leva em Cannes os prêmios de melhor ator para Wagner Moura e melhor direção para Kleber Mendonça Filho, que por sinal, já conhecia o gostinho de uma vitória em Cannes com o Prêmio do Júri, em 2019, por "Bacurau". A Palma de Ouro, a categoria principal, que era uma possibilidade bastante plausível, dada a ótima recepção do filme na exibição pública no festival, acabou não vindo, mas ainda assim os dois vencidos representam definitivamente essa nova ascenção e reconhecimento do cinema que se faz por aqui.
A almejada Palma de Ouro acabou indo para Jafar Panahi com "Um Simples Acidente", garantindo a segunda vitória do cinema iraniano em Cannes.
Nessa onda de sucessos internacionais do cinema brasileiro e do retrospecto dos vencedores de Cannes no Oscar nos últimos anos, já começa-se a sonhar com um bicampeonato de melhor filme estrangeiro em Los Angeles no ano que vem... Será? Não assisti ainda mas, pelo que se diz, "O Agente Secreto" tem grande potencial. Desde já estamos na torcida.
Confira abaixo todos os vencedores na premiação de Cannes 2025:
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Jafar Panahi com a Palma de Ouro em mãos.
Palma de Ouro: 'It Was Just an Accident', de Jafar Panahi
Grand Prix: 'Sentimental Value', de Joachim Trier
Prêmio do Júri: 'Sirât, de Olivier Laxe' e 'Sound of Falling', de Mascha Schilinski
Melhor Diretor: Kleber Mendonça Filho, por 'O Agente Secreto'
Melhor Atriz: Nadia Melitti, por 'The Little Sister'
Melhor Ator: Wagner Moura, por 'O Agente Secreto'
Melhor Roteiro: 'Young Mothers', de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Prêmio Especial do Júri: 'Ressurection', de Bi Gan
Câmera de Ouro (filme de estreia): 'The President's Cake', de Hasan Hadi
C.R.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Globo de Ouro 2026 - Os Vencedores
Quando soube das filmagens de um novo filme de Kleber Mendonça Filho, ainda em 2024, que se passaria no período da ditadura militar no Brasil e que já se sabia que se chamaria "O Agente Secreto", já dava para imaginar que seria algo especial. Aí veio o reconhecimento no melhor festival de cinema do mundo, Cannes, onde o filme estreou e ganhou dois prêmios. Quando assisti, tempo depois, confirmei a expectativa. Depois, mais premiações importantes: 54 no total, sendo 20 internacionais.
Até que, enfim, "O Agente..." - já um pré-indicado a Oscar de Filme Internacional e provavelmente Filme e a ator pra Wagner Moura - chega ao Globo de Ouro e.... vence! E vence em duas categorias superimportantes: Filme em Língua Não-Inglesa e em Ator em Drama! Superando, inclusive, "Ainda Estou Aqui", que no ano passado deu o globo a Fernanda Torres, mas perdeu para o questionável "Emília Perez". E ainda o filme bate fortes concorrentes, como o essencial "Foi Apenas um Acidente", o Palma de Ouro do ano, e o badalado "Valor Sentimental" (que foi bem rejeitadinho, convenhamos).
Mas não teve pra ninguém! É o Brasil de novo nas cabeças! Ah, teve outras premiações, né? "Uma Batalha Após a Outra" levou os principais? "Hamnet" lascou o de Filme de Drama? "Adolescência" abocanhou o que devia em série de TV? Sim, mas permitam que, desta vez, eu destaque o filme brasileiro, que marcou história já ao ser indicado a três categorias no Globo de Ouro e, mais do que isso, levou dois!
Mas, ok, ok! Vou deixar que saibam quem foram os outros premiados. (mas já na torcida para "O Agente..." agora no Oscar!)
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Melhor filme de drama
"Hamnet: A vida antes de Hamlet"
Melhor filme de comédia ou musical
"Uma batalha após a outra"
Melhor ator em filme de drama
Wagner Moura, "O Agente Secreto"
Melhor atriz em filme de drama
Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet"
Melhor série de comédia ou musical
"The Studio"
Melhor minissérie, antologia ou filme para a TV
"Adolescência"
Melhor série de drama
"The Pitt"
Melhor atriz em série de drama
Rhea Seehorn, "Pluribus"
Melhor performance de comédia stand-up na TV
Ricky Gervais, "Ricky Gervais: Mortality"
Melhor atriz coadjuvante na TV
Erin Doherty, "Adolescência"
Melhor filme em língua não-inglesa
"O Agente Secreto"
Melhor filme de animação
"Guerreiras do K-Pop"
Melhor direção em filme
Paul Thomas Anderson, "Uma batalha após a outra"
Melhor destaque em bilheteria
"Pecadores"
Melhor atriz em minissérie, antologia ou filme para a TV
Michelle Williams, "Dying for Sex"
Melhor ator em minissérie, antologia ou filme para a TV
Stephen Graham, "Adolescência"
Melhor ator em filme de musical ou comédia
Timothée Chalamet, "Marty Supreme"
Melhor atriz em filme de musical ou comédia
Rose Byrne, "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria"
Melhor roteiro em filme
Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra"
Melhor trilha sonora de filme
"Pecadores"
Melhor canção em filme
"Golden", "Guerreiras do K-Pop"
Melhor podcast
"Good Hang with Amy Poehler"
Melhor ator em TV de musical ou comédia
Seth Rogen, "The Studio"
Melhor ator coadjuvante na TV
Owen Cooper, "Adolescência"
Melhor atriz em série de musical ou comédia
Jean Smart, "Hacks"
Melhor ator em série de drama
Noah Wyle, "The Pitt"
Melhor ator coadjuvante em filme
Stellan Skarsgard, "Valor Sentimental"
Melhor atriz coadjuvante em filme
Teyana Taylor, "Uma Batalha Após a Outra"
domingo, 9 de agosto de 2020
Claquete Especial Dia dos Pais - 9 filmes sobre paternidade
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| Gavino, já adulto, encara seu pai: amor e ódio |
STALKER, de Andrei Tarkowski (Rússia, 1979)
Em um país não nomeado, a suposta queda de um meteorito criou uma área com propriedades estranhas, onde as leis da física e da geografia não se aplicam, chamada de Zona. Dentro dela, segundo reza uma lenda local, existe um quarto onde todos os desejos são realizados por quem pisa seu chão. Com medo de uma invasão da população em busca do tal quarto, autoridades vigiam o local e proíbem a entrada de pessoas. Apenas alguns têm a habilidade de entrar e conseguir sobreviver lá dentro: os chamados "stalkers". É aí que um escritor, um cientista querem entrar e contratam um stalker para guiá-los lá dentro. No caminho até o quarto, vão passar por rotas misteriosas e muitas vezes, mutáveis, que simbolizam uma ida ao subconsciente e a verdades de suas próprias naturezas nem sempre afáveis. Acontece que este stalker (Alexandre Kaidanovski) quer salvar a sua filha mutante e desenganada alcançando o misterioso quarto.
Talvez o melhor filme de Tarkowski, “Stalker” é uma ficção-científica hermética e reflexiva sobre o homem e a sua existência, sendo a questão da paternidade a chave para tal reflexão. Trazendo a atmosfera onírica comum aos filmes do russo, vale-se do fantástico de “Solaris” (1971), porém burilando-lhe o cerebralismo existencial. A narrativa, transcorrida num clima de suspensão do tempo/espaço, tem como motor o amor de um pai desesperado em salvar sua filha. Ou seja: assim como em “Solaris”, a percepção difusa da realidade é totalmente explicável pelo estado de angústia vivido pelo protagonista. É como se, participante de sua busca, o espectador também adentre naquele mundo surreal. A sempre brilhante fotografia sombreada, o cenário apocalíptico e o recorrente uso de elementos sonoro-visual-narrativos como a água (símbolo da vida) unem-se ao ritmo muito peculiar, pois contemplativo e poético, de Tarkowski.
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| Os três homens adentram a Zona, mas é o pai que carrega a motivação mais genuína |
KRAMER VS. KRAMER, de Robert Benton (EUA, 1979)
Se já falamos da questão paterna nos confins da Itália rural, na Idade Média e num lugar imaginário, aqui o tema é colocado na modernidade urbana norte-americana. No enredo, Ted Kramer (Dustin Hoffman), leva seu trabalho acima de tudo, tanto da família quanto de Joanna (Maryl Streep), sua mulher. Descontente com a situação, ela sai de casa, deixando Billy, o filho do casal, com o pai. Ted, então, tem que se deparar com a necessidade de cuidar de uma vida que não apenas a dele, dividindo-se entre o trabalho, o cuidado com o filho e as tarefas domésticas. Quando consegue ajustar a estas novas responsabilidades, Joanna reaparece exigindo a guarda da criança. Ted porém se recusa e os dois vão para o tribunal lutar pela custódia de Billy.
“Kramer vs. Kramer” é arrebatador. Começando pelas interpretações dos magníficos Hoffman e Maryl. No entanto, mesmo com o talento que os é inerente, não estariam tão bem não fosse o roteiro contundente, que aprofunda o drama familiar e social aos olhos do espectador. Os diálogos são tão reais e bem escritos, que naturalmente transportam o espectador para situações conflituosas da vida cotidiana, gerando identificação com os personagens. Quantos pais já não foram despedidos do emprego justo no momento em que estava tentando se erguer. E qual pai não ficaria desesperado e sentindo-se culpado por um acidente com seu filho, principalmente quando o acontecido pode ser usado pela mãe para justificar a perda da guarda?
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| Ted aprendendo e gostando de ser pai |
A BUSCA, de Luciano Moura (Brasil, 2012)
Filme brasileiro relativamente recente, renova o olhar para o problema da distância entre pais e filhos (estado inicial e propulsor da narrativa de “Kramer...”) por questões sentimentais não resolvidas ou dialogadas. Theo Gadelha (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima) são casados e trabalham como médicos. O casal tem um filho, Pedro (Brás Antunes), que desaparece quando está perto de completar 15 anos. Para piorar a situação, Theo fica sabendo que Branca quer se separar dele e que seu mentor (Germano Haiut) está à beira da morte. Theo sai em busca do filho sumido, viagem que o impele a se redescobrir e a ressignificar a relação com o filho.
Road-movie muito bem realizado, “A Busca” tem na atuação de Moura, principalmente, a grande força da obra. Ele transmite ao espectador desde a irascibilidade e insensibilidade de um homem controlador e fechado em si próprio até, conforme o trama se desenrola nos lugares que percorre em busca do filho, passar pelo desespero, a frustração, a esperança e o encontro consigo mesmo. Todos estes momentos perfeitos por uma grande solidão emocional, estado ao qual o caminho lhe dá condições de repensar e transformar.
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| Wagner Moura em etapa do trajeto em busca de seu filho e de si mesmo |
IRONWEED, de Hector Babenco (EUA, 1987)
Francis Phelan (Jack Nicholson) e Helen Archer (Maryl Streep, olha ela aí de novo!) são dois alcoólatras que vivem mendigando nas ruas tentando sobreviver às lembranças do passado: Ela, deprimida por ter sido uma cantora e pianista cheia de glórias e hoje estar na sarjeta. Já o caso dele é o que tem a ver com o tema em questão: o motivo por viver como um vagabundo é a não superação do trauma de ter sido o responsável pela morte do filho, ao deixá-lo cair no chão ainda bebê 22 anos antes. Ao mesmo tempo, Francis precisa voltar à realidade, e conseguir um emprego para dar um pouco de conforto à companheira Helen, já muito doente e enfraquecida. E o sentimento de pai do protagonista é, ao mesmo tempo, pena e salvação, uma vez que se configura como a única força capaz de tirá-lo da condição de mendicância.
Ainda mais do que “Kramer...”, “Ironweed” é um filme sui generis na cinematografia dos Estados Unidos, e isso se deve, certamente, ao olhar sensível do platino-brasileiro Hector Babenco. Com o aval dos estúdios para fazer uma produção própria em terras yankees após o grande sucesso do oscarizado “O Beijo da Mulher Aranha”, produção financiada com dinheiro norte-americano mas bastante brasileira em conteúdo e abordagem, o cineasta transpõe para as telas – com a habilidade de quem havia extraído poesia do abandono infantil – o romance de William Kennedy e dá de presente para dois dos maiores atores da história do cinema um roteiro redondo. Isso, ajudado pela fotografia perfeita do craque Lauro Escorel e edição de outra perita, Anne Goursaud, responsável pela montagem de filmes com “Drácula de Bram Stocker” e “O Fundo do Coração”, ambos de Francis Ford Coppola.
À PROCURA DA FELICIDADE, de Gabriele Muccino (EUA, 2007)
Chris (Will Smith) enfrenta sérios problemas financeiros e Linda, sua esposa, decide partir e deixá-lo. Ele agora é pai solteiro e precisa cuidar de Christopher (Jaden Smith), seu filho de 5 anos. Chris tenta usar sua habilidade como vendedor de aparelhos de exames médicos para conseguir um emprego melhor, mas só consegue um estágio não remunerado numa grande empresa. Seus problemas financeiros, inadiáveis, não podem esperar uma promoção nesta empresa e eles acabam despejados. Chris e Christopher passam, então, a dormir em abrigos ou onde quer que consigam um refúgio, como o banheiro da estação de trem. Mas, apesar de todos os problemas, Chris continua a ser um pai afetuoso e dedicado, encarando o amor do filho como a força necessária para ultrapassar todos os obstáculos.
Se é difícil a vida de um pai solteiro na América urbana, como em “Kramer...”, imaginem um jovem-adulto negro e pobre 30 anos atrás? Baseado na história real do empresário Chris Gardner, este comovente filme tem alguns trunfos em sua realização. Primeiramente, o de trazer à luz a superação individual de um negro na sociedade norte-americana e no meio corporativo capitalista, ainda hoje majoritariamente dominado por brancos. Segundo, por revelar Jaden, filho de Will na vida real que, além de uma criança graciosa, é talentoso, vindo a lograr uma carreira de sucesso a partir de então a exemplo do pai, também um talento mirim no passado. Por fim, o êxito de consolidar Will como um dos mais importantes nomes de sua geração, daqueles Midas de Hollywood capazes de fazer brilhar onde quer que ponham a mão.
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| Will e Jaden: pai e filho no cinema e na vida real |
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com colaborações de Leocádia Costa e Cly Reis





























