Tá, agora parou a brincadeira! Tirem as crianças da sala que aqui é conversa de gente grande. Se Japão vs. Estados Unidos não é um grande clássico no futebol não representando duas seleções tradicionais e vitoriosas, no cinema, além de representarem duas escolas clássicas, tem embates históricos como os remakes de "O Chamado""Sempre a Seu Lado" e "O Grito", por exemplo. E aqui o jogo é ainda maior por conta dos donos do espetáculo. De um lado Akira Kurosawa e do outro o italiano Sergio Leone a quem os norte-americanos recorreram para tentar superar o mestre japonês.
Ótimo oponente, por sinal. Somente um especialista em faroestes como Leone para ousar desafiar as sagas de samurais errantes de Kurosawa.
Nos dois filmes, um forasteiro sem origem e sem destino chega a um vilarejo dominado por duas famílias rivais que impõe autoridade, pavor e submissão aos habitantes. O aventureiro percebe a oportunidade de ganhar alguns trocados por ali mas logo, desmandos, crueldades e injustiças fazem com que seu senso de moral fale mais alto que o dinheiro e ele passe a agir em prol dos oprimidos da pequena aldeia, especialmente um casal que é arbitrária e cruelmente afastado de seu filho pequeno.
Com algumas diferenças de andamento e de ação a trama das duas versões é praticamente a mesma. O herói, ardiloso e sagaz, se infiltra nas famílias e as corrói por dentro causando-lhes danos e prejuízos, fazendo com que cada vez mais uma se volte contra a outra.
"Yojimbo, O Guarda-Costas" (1961) vs. "Por Um Punhado de Dólares (1964) - lado a lado
Kurosawa dá um pouco mais de contextualização social, Leone imprime um pouco mais de dinâmica, o preto e branco do primeiro é elegante e salienta os contrastes, o colorido do outro reforça a aridez do ambiente, enquanto o italiano desde cedo sugere que exista alguma questão envolvendo uma família, o japonês só nos apresenta mesmo a situação da criança bem adiante, se o faroeste spaghetti de Leone tem a excitação das balas e dos tiros, a ação samurai tem o balé das espadas. Difícil estabelecer algo melhor...
E o que falar dos craques dos craques de cada time? Toshiro é o equilíbrio na medida certa entre a sobriedade e a intensidade, Clint, aquele personagem incógnito, indecifrável, inabalável.
O time americano conta com outro craque no time, o maestro Ennio Morricone na batuta, com mais uma trilha marcante, porém o menos conhecido no mundo ocidental, mas não menos competente Masuro Satō não deixa por menos e entrega uma trilha pontual e precisa.
Impossível dar a vitória para um dos dois. Esse é daqueles jogos históricos de Copa, tipo, 5x5. Daqueles duelos que ficam pra sempre na memória do torcedor.
O charme imponente de Toshiro e a tranquilidade impenetrável de Clint. Dois times com matadores só podia resultar num jogo de muitos mortos... digo, quero dizer...muitos gols.
No duelo da espada contra a pistola,
ninguém ficou com a vantagem.
Tudo igual num jogo de craques na beira do campo e dentro dele.
"'Banda dos Contentes' não é redondo, fechado, nem sufocante. É um trabalho livre, aberto, de um rock muito simples, girando em torno de um mundo real."
Eliane Martins, em matéria da revista Pop, na época do lançamento de "Banda dos Contentes"
"Mudei. Mudei para melhor. Agora não sou mais galã de Jovem Guarda. Não me preocupo mais com a imagem. Eu estava sufocado, agora estou mais livre."
Erasmo Carlos, em 1976
Roberto Carlos já havia deitado no divã da psicanálise 4 anos antes. Erasmo Carlos, coautor da canção gravada pelo “irmão camarada” em 1972, sentia que precisava de algo parecido. O Erasmo agora pai, casado, com carreira profissional consolidada e livre de vez da imagem do rapaz suburbano alçado ao estrelato da Jovem Guarda sabia que devia também se entender melhor. Mas se para alguns o processo terapêutico embaralha as emoções, para ele o aprofundamento em si mesmo foi revolucionário – e se deu através da própria música. “Banda dos Contentes”, álbum de 1976 que completa 50 anos de lançamento, é a prova disso, pois capta um homem honesto consigo e que, diante das mudanças do mundo daquela época, buscava se encontrar de coração e asas abertas.
Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante”Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.
A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...
A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.
Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos contra eles mesmos
Sem deixar cair a peteca, Erasmo traz um então pouco conhecido compositor cearense chamado Belchior, que Elis Regina e Vanusa já haviam gravado mas que ainda nem havia lançado seu primeiro álbum, o hoje histórico “Alucinação”, daquele ano. A faixa é a clássica “Paralelas”, com sua letra forte e poética (“E no escritório em que eu trabalho e fico rico/ Quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”) e melodia/arranjo tanto quanto.
E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...
Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.
Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.
Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.
O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal" e “descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas.
Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel
porJoão Pedro Gomes Bernardes
Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.
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O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar?
O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin.
Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.
Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU
Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.
A participação de Israel ao longo dos anos
A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”.
Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018.
A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela
primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.
Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU
Política no Eurovision: o negacionismo da EBU
Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.
Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.
Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.
O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma.
Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.
Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.
A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado
Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois
países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro
anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi
imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão
internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a
exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o
rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a
Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e
Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em
vigor.
A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele
ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT,
indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e
da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos
receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma
negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele
ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão
de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além
disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO.
Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU.
A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um
precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de
fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman:
“a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade.
O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no
concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a
Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de
participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.
O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio
O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques
terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis
lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como
kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram
vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas.
O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como
genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil
palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas
crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos
Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses
cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais
graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de
um povo e impor medidas para impedir nascimentos”.
A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma
narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do
Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade
internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The
New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo
israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da
época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam
ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a
criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível
votar até vinte vezes por meio de pagamento.
Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista
escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção
escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que
referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi
aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um
processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em
“Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final
do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na
classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do
chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa
funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.
Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao
Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi
criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma
atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação
em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do
que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu,
desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.
O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o
rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a
favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à
entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense
no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro,
mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a
decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão
imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de
Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras
anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de
pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e,
consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram
boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras,
como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que
demandava um apoio ao boicote.
Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan
e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político.
Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão
oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o
genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um
surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da
votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na
terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.
Existe um futuro para o Eurovision?
O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles
que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o
que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria
realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival?
Qual seria o impacto em termos de audiência?
Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o
aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de
forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que
participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo
acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam
uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a
Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.
Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa
entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode
ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para
melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade
financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão
grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é
o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de
atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é
porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os
avanços tecnológicos”.
Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision
precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo
de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do
evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa
está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU
condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando,
questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o
mesmo?’”.
O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não
toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o
dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através
da música.
Os tripulantes da Artemis II estão sobrevoando a Lua e observam o pôr-do-sol... mas o que é esse planeta no horizonte?! É o planeta Música, gente! Para quem matou essa aula, a gente explica: esse distinto astro, cientificamente chamado de MDC 454 d, é cheio de vida e emite sinais sonoros ao ritmo de Marina, The Kinks, Louis Armstrong, Banda Black Rio e Barão Vermelho. Ela também se compõe de melodias e arranjos de Luiz Eça, cuja estrela continua irradiando seu brilho pelo espaço mesmo após sua morte. A nave está programada para entrar na rotação da Terra às 21h na estelar Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um satélite na cabeça: Daniel Rodrigues
Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.
Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.
"Cassino Royale" (1967) - trailer
"Cassino Royale" (2006) - trailer
Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.
Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.
Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.
Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!
O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah Kerr, Peter Sellers, Woody Allen, Orson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.
Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!
"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura
"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza
Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1.
Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.
A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06
Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!
O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.
Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.
Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.
Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!
O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões. À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles; à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.
Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo!
Desde a manhã desta quinta-feira, 22 de fevereiro, nós brasileiros podemos afirmar: “ainda estamos aqui!” O “aqui” a que me refiro, claro, é o Oscar, que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, multivencedor em diversos festivais pelo mundo, inclusive o Globo de Ouro em duas categorias a pouco mais de uma semana, tornou-se um dos indicados a quatro estatuetas. O parafraseado que remete ao filme “Ainda Estou Aqui”, indicado a três Oscar e vencedor em Filme Internacional no ano passado, não é mera brincadeira semântica, visto que tem, sim, relação com o feito de “O Agente...”, que dá seguimento a esta visibilidade ao cinema nacional e também empata em indicações com outro filme brasileiro, “Cidade de Deus”, de 2002. Ou seja: já está fazendo história.
É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.
“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalametpor “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.
Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.
De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.
Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.
Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair.
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Melhor Filme
"Bugonia"
"F-1"
"Frankenstein"
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"O Agente Secreto"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
"Sonhos de Trem"
Melhor Direção
Chloé Zhao, por "Hamnet"
Josh Safdie, por "Marty Supreme"
Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"
Joachim Trier, por "Valor Sentimental"
Ryan Coogler, por "Pecadores"
Melhor Ator
Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"
Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"
Ethan Hawke, por "Blue Moon"
Michael B. Jordan, por "Pecadores"
Wagner Moura, por "O Agente Secreto"
Melhor Atriz
Jessie Buckley, por "Hamnet"
Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"
Kate Hudson, por "Song Sung Blue"
Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"
Emma Stone, por "Bugonia"
Melhor Ator Coadjuvante
Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"
Jacob Elordi, por "Frankenstein"
Delroy Lindo, por "Pecadores"
Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"
Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"
Melhor Atriz Coadjuvante
Elle Fanning, por "Valor Sentimental"
Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"
Amy Madigan, por "A Hora do Mal"
Wunmi Mosaku, por "Pecadores"
Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"
Melhor Elenco
"Hamnet"
"Marty Supreme"
"Uma Batalha Após A Outra"
"O Agente Secreto"
"Pecadores"
Melhor Roteiro Original
"Blue Moon"
"Foi Apenas Um Acidente"
"Marty Supreme"
"Valor Sentimental"
"Pecadores"
Melhor Roteiro Adaptado
"Bugonia"
"Frankestein"
"Hamnet"
"Uma Batalha Após A Outra"
"Sonhos de Trem"
Melhor Filme de Animação
"Arco"
"Elio"
"Guerreiras do K-pop"
"A Pequena Amélie"
"Zootopia 2"
Melhor Filme Internacional
"O Agente Secreto"
"Foi Apenas Um Acidente"
"Valor Sentimental"
"Sirāt"
"The Voice of Hind Rajab"
Melhor Documentário em Longa-Metragem
"Alabama: Presos no Alabama"
"Embaixo da Luz Neon"
"Cutting Through Rocks"
"Mr Nobody Against Putin"
"A Vizinha Perfeita"
Melhor Documentário em Curta-Metragem
"Quartos Vazios"
"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"
Há anti-heróis do cinema que, mesmo amorais e cheios de defeitos, fazem com que o espectador torça por eles. Pelo menos que se redimam um pouco ou que a jornada transcorrida no filme os faça ficaram um pouco melhores como pessoas. Exemplos não faltam: de Charles Foster Kane, de “Cidadão Kane”, a Capitão Nascimento, do brasileiro “Tropa de Elite”. Porém, em se tratando do nada carismático protagonista de “Marty Supreme”, filme de Josh Safdie, de 2025, é quase impossível ficar a favor deste jogador de tênis-de-mesa e trapaceiro em tempo quase integral chamado Marty Mauser. Arrogante, machista, interesseiro e egocêntrico, Mauser é um grande babaca que passa a maior parte do filme tentando se livrar das burradas que fez e a outra parte criando novas formas de ganhar dinheiro fácil para sustentar seu grande sonho, que é jogar tênis-de-mesa – para o qual tem, de fato, muito talento.
Inspirado na história de Marty Reisman, uma lenda desse esporte, Mauser, vivido pelo ator Timothée Chalamet, é um jovem judeu de classe média que se recusa a ser apenas mais um trabalhador precarizado na cidade de Nova York dos anos 1950. Assim, ele não medirá esforços para alcançar seus sonhos megalomaníacos de se tornar um grande nome dos torneios internacionais de pingue-pongue, nem mesmo se for preciso roubar. Sua obstinação o faz ir contra aqueles que duvidaram dele e a colecionar inimigos na caminhada até seu objetivo.
A direção de Safdie (“Joias Brutas” e “Bom Comportamento”) tem acertos, mas também tem erros. Uma qualidade é a trilha sonora, bastante pontuada e baseada em músicas dos anos 80 – com seus sintetizadores e aquela sonoridade típica da época, algo vintage hoje em dia, mas altamente tecnológico para os anos 50. Não só pelos temas legais selecionados (de New Order e Foreigner a Tears for Fears), mas porque essa textura sonora contrasta com o período temporal retratado, o qual transcorre 30 anos antes daquelas músicas existirem. Igualmente, isso empresta certa simbologia à personalidade irascível de Mauser, que faz lembrar os “enfant terribles” da “década perdida” como Steve Jobs e Bill Gates, gênios à frente do seu tempo. As cenas de jogos também são eletrizantes, com Chalamet (que treinou incansavelmente tênis-de-mesa para as filmagens) fazendo jogadas espetaculares na frente da câmera.
Chalamet, por sinal, está ótimo no papel, embora faça um personagem muito pouco empático. Mas o ator franco-americano não tem nada a ver com isso e cumpre o que deve. Enérgico e emocional, ele entrega uma atuação consistente, que o coloca como um forte candidato ao Oscar de Melhor Ator, ainda mais em se tratado de um “cara nova” de Hollywood, como a indústria do cinema gosta de valorizar. Quiçá, não mereça tanto a estatueta quanto Leonardo DiCaprio por “Uma Batalha Após a Outra” ou o brasileiro Wagner Moura por “O Agente Secreto”. Contudo, é muito provável que Chalamet leve.
Chalamet na pele de Marty Mouser: grande atuação, personagem babaca
Porém, há percalços no filme. Um tanto longo, o roteiro exagera no segundo terço da fita em sequências de ação confusas e histriônicas. Há um encadeamento de acontecimentos quase irrealizáveis, que tornam difícil de se acreditar que Marty Reisman fosse tão “vida loka”. Definitivamente, os acontecimentos “biográficos” parecem pouco críveis. Resulta disso uma edição meio desequilibrada.
Igualmente, é de se perguntar algo bem básico: Mauser jogava tão bem tênis-de-mesa que não precisava treinar? Não se vê em momento algum ele se preparando, inventando jogadas, desenvolvendo técnicas etc. Quando está diante de uma mesa é ou para disputar ou para passar os outros para trás. É tanta genialidade assim para que não precisasse melhorar como jogador? Isso difere gritantemente de seu rival, o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), visivelmente um atleta que se dedica 24 horas por dia a aperfeiçoar seu jogo. Mas se sabe onde se quer chegar com isso, evidentemente. É aquela velha máxima do cinema norte-americano: o talento inato e a “alma liberta” de seus filhos – o que os desculpa de quaisquer desvios de caráter – contra o tecnicismo frio do inimigo – de preferência aqueles que foram/são desafetos de guerras passadas. No caso, o Japão.
No todo “Marty Supreme” é um filme que diverte, mas não um bom transmissor de mensagens. Tem momentos interessantes? Tem. É legal ver o cineasta underground Abel Ferrara no papel do gângster Ezra Mishkin? Sim. Odessa A'zion como Rachel Mizler merece uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante? Merece. Mas nada disso faz com que se torça pelo mocinho. Pelo contrário: fica-se com vontade de que ele se dê mal, e isso, definitivamente, não pode ser um bom sinal para um filme.
trailer de "Marty Supreme"
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"Marty Supreme"
direção: Josh Safdie
elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Abel Ferrara