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sábado, 13 de dezembro de 2025

67º Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo - Melhor Reportagem Cultural a Daniel Rodrigues - Auditório da Farsul - Porto Alegre/RS (12/12/2025)


"Não por coincidência, o senso de justiça é parte crucial da história deste filho de Xangô com Oxum chamado Renato Dornelles. Jornalista, escritor e cineasta, Renatinho, como é conhecido entre colegas e amigos, aprendeu desde cedo que, como pessoa preta, precisava achar a sua forma vencer na vida."
Trecho da matéria do Jornal do Comércio vencedora do Prêmio ARI

E deu! 1º Lugar no Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo em Reportagem Cultural, concedido pela Associação Riograndense de Imprensa. Após minha conquista do Prêmio Açorianos de Literatura, em 2013, veio, mais de uma década depois, o reconhecimento àquilo que me é mais valioso enquanto fazer: o Jornalismo. 

Essa premiação representa a mim uma série de conquistas. Primeiro, pela qualidade dos finalistas com quem concorri, alguns deles, como o amigão Marcello Campos, e Juarez Fonseca, uma referência do Jornalismo Cultural no Brasil, caras de quem tenho os livros em casa e aprendo diariamente. Afora eles, também Ana Stobbe, do Jornal do Comércio, e Camila Bengo, de GZH, jovens jornalistas que merecem todo respeito.

Página inicial da matéria do JC
publicada em abril
Segundo, porque, como alguém do cinema, é uma enorme satisfação poder tratar desse assunto através da escrita. O Jornal do Comércio me abriu espaço este ano no caderno Viver para reportagens como esta, e ninguém menos simbólico pra isso como o objeto da minha matéria: o jornalista e cineasta Renato Dornelles. A matéria, intitulada "Das páginas policiais para as imagens do cinema", foi produzida em março e publicada em 17 de abril.

Sobre Renatinho, então, o terceiro e importante símbolo dessa vitória: trata-se de uma matéria de um jornalista preto sobre um outro jornalista preto cujas famílias, vindas do mesmo quilombo urbano (que hoje chamam de Rio BRANCO...), sustentam-se pela resistência e ancestralidade. Dividi essa alegria e orgulho, inclusive, com o ilustre presidente da ARI, José Maria Nunes, primeiro presidente preto da associação em nove décadas... Diz muito. 

A ARI, aliás, também merece um aparte: são 90 anos de instituição, criada, lá nos indos de 1935, por ninguém menos que Erico Verissimo, este totem da literatura e da cultura gaúcha e brasileira que, em 2025, completa 120 anos de nascimento e 50 de morte. Tudo muito simbólico, ainda mais num ano em que perdemos, justamente, seu ilustre filho, o genial Luis Fernando Verissimo. Fora isso, o Prêmio ARI em si, em sua 67ª edição, soube ser o mais longevo do Brasil - e não só no seguimento do Jornalismo, mas em todas as áreas!

Por fim, a conquista de alguém que se sente no seu lugar e premiado por seus pares: os jornalistas. A militância do repórter, reduzida por muitos anos, foi retomada por mim este ano a todo vapor pelas páginas do JC e... taí o resultado!

Fiquem, então, com alguns momentos desse feliz momento e a listagem de todos os premiados.

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Com o mestre Renato Dornelles celebrando o prêmio e nossa ancestralidade


Dividindo a felicidade preta com o atual presidente da ARI, José Maria Nunes


Selfie com a amiga - e também vencedora na categoria
Reportagem em TV - Isabel Ferrari


Presença preta no Prêmio ARI: colega de profissão e de ACCIRS
Chico Izidro com Renatinho e eu


Foto geral dos vencedores


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Troféu Reportagem Especial – FIERGS: RS Mais Forte”
"O Fim do Futuro" – Geórgia Santos e Filipe Speck (Vós)

Troféu ARI/Banrisul de Jornalismo Universitário
"Capital da Improvisação" – Cecília Filappi (UFRGS)

Categoria Profissional - Charge
1º Lugar : "Grande Sacada" – Gabriel Renner (Grupo Editorial Sinos)
2º Lugar: "Ponto de Vista" – Iotti (Fumetta.com)
3º Lugar: " Netanyahu” Elias Ramires (Jornal Grifo)
4º Lugar: “Enchente” Santiago (Revista Digital Grifo)
5º Lugar: A última ceia" – Iotti (Fumetta.com)

Categoria Profissional - Crônica
1º Lugar: "A noite em que cheguei sangrando no hospital" – Marcela Donini (Matinal)
2º Lugar: "Bons mestres não morrem" – Juliana Bublitz (Zero Hora e GZH)
3º Lugar: "O ano do mate" – Marcela Donini (Matinal)
4º Lugar: “Coisas do Coração” – Pedro Garcia (Diário Gaúcho)
5º Lugar: “ Só sei viver em esquinas” –  Vitor Necchi (Revista Parêntese/Matinal)

Categoria Profissional - Design Editorial
1º Lugar: "Novo projeto gráfico do Caderno GeraçãoE" – Gustavo Van Ondheusden (Jornal do Comércio)
2º Lugar: "Caderno Especial 130 Anos do Correio do Povo" – Pedro Dreher e Leandro Maciel (Correio do Povo)
3º Lugar: "Mapa Econômico do Rio Grande do Sul" – Gustavo Van Ondheusden (Jornal do Comércio)
4º Lugar:” Novo Projeto Gráfico do Correio do Povo – Pedro Dreher (Correio do Povo)
5º Lugar: Ilhota: símbolo da cultura negra de Porto Alegre e berço de figuras ilustres da dupla Gre-Nal – Carlos Garcia (Zero Hora e GZH)

Categoria Profissional - Documentário em Áudio
1º Lugar: "Coronéis do Futebol - A nova face do sistema" – Rodrigo Oliveira, Eduardo Gabardo e Rafael Lindemann (Rádio Gaúcha)
2º Lugar: "Quilombo - corredor do samba de Porto Alegre: ontem, hoje e sempre" – Alan Barcellos, Matheus Freitas da Rosa e Alexandre Leboutte da Fonseca (Rádio FM Cultura - 107,7)
3º Lugar: "Desabrigados: A vida e a esperança da população atingida pelas enchentes nos centros humanitários" – Fabrine Fiss Bartz (Grupo Bandeirantes)
4º Lugar: Cinco anos da Covid no RS – André Malinoski (Rádio Gaúcha)
5º Lugar: “Bioma Pampa: das raízes familiares à luta pela preservação” – Leno Falk (Agência Radioweb

Categoria Profissional - Documentário em Vídeo
1º Lugar: "Imprescindível Jair Krischke" – Milton Cougo, Marco Villalobos, Timóteo Santos Lopes e Daniele Alves (Chuva Filmes)
2º Lugar: "Huni Kuï - Povo Verdadeiro" – Renato Dornelles, Tatiana Sager e Gabriel Sager Rodrigues (Panda Filmes/Falange Produções)
3º Lugar: "RBS.Doc -1 ano da enchente" – Isabel Ferrari, Ariane Xavier Borba Jorej Nobre, Anderson Vargas, Mauricio Gasparetto e Caroline Berbick (RBS TV)
4º Lugar: “A Reconstrução” – Mariana Ferrari(RecordPlus / Record)
5º Lugar: “Darcy Fagundes: meu famoso pai desconhecido” – Luciane Fagundes (Produtora Século 21)

Categoria Profissional - Fotojornalismo
1º Lugar: "Superação do Trauma com Rodas que Transformam" – Ricardo Giusti Schuh Reif
2º Lugar: "Silêncio" – Itamar Aguiar (JÁ On Line)
3º Lugar: "A dor da mãe que perdeu a filha para o feminicídio" – Mateus Bruxel (Zero Hora)
4º Lugar: ” Cozinha Solidária exige passagem” – Jorge Leão – (Brasil de Fato)
5º Lugar: “O gato preto” – Duda Fortes (Zero Hora)

Categoria Profissional - Reportagem Cultural
1º Lugar: "Das páginas policiais para as imagens do cinema" – Daniel Rodrigues (Jornal do Comércio) 
2º Lugar: "Cruz Alta e Erico, entre o real e o imaginado" – Ana Stobbe (Jornal do Comércio)
3º Lugar: “Conheça a história de Nega Lu, ícone negro e LGBT+ que faz parte da memória coletiva de Porto Alegre” – Camila Bengo(GZH)
4º Lugar: “Cultura de Bandeja” – Marcello Campos (Jornal do Comércio)
5º Lugar:”Os 80 anos de Elis Regina” – Juarez Fonseca (Jornal do Comércio)

Categoria Profissional - Reportagem Econômica
1º Lugar: "Mapa Econômico RS" – Eduardo Torres, Ana Stobbe e Guilherme Kolling (Jornal do Comércio)
2º Lugar: "Trump quer transformar os EUA na maior ‘superpotência’ do bitcoin" – Marcus Meneghetti (Jornal do Comércio)
3º Lugar: "Passo Fundo tem ampla expansão imobiliária" – Ana Stobbe (Jornal do Comércio) 
4º Lugar: “Maior parte das empresas superou a enchente, mas quadro ainda traz desafios” – Karina Schuh Reif (Correio do Povo)
5º Lugar:” De peixe a café: bancas do Mercado Público se tornam indústrias e expandem negócios” – Guilherme Gonçalves (Zero Hora)

Categoria Profissional - Reportagem em Áudio
1º Lugar: "O Fim do Futuro" – Geórgia Santos e Filipe Speck (Vós)
2º Lugar: "Série Especial: Tragédia da Boate Kiss: memória, silêncio e impunidade" – Eduardo Covalesky (Grupo Radioweb)
3º Lugar: "Pequenos invisíveis: a cada 24 horas, sete crianças ou jovens sofreram maus-tratos no RS" – Kathlyn Moreira e Vicente Nolasco (Rádio Gaúcha)
4º Lugar:” Um maio depois: Histórias da enchente – Fabrine Fabrine Fiss Bartz (Grupo Bandeirantes)
5º Lugar:” Desatenção e hiperatividade: como é a vida de pessoas com TDAH?  - Renê Almeida (Agência Radioweb)

Categoria Profissional - Reportagem em Texto
1º Lugar: "Crianças órfãs de feminicídio : traumas, perdas e a luta por direitos" – Fabiana Reinholz (Brasil de Fato RS)
2º Lugar: "Evasão escolar pós-enchente" – Isabella Sander (Zero Hora)
3º Lugar: "Violência contra crianças e adolescentes cresce no RS e atinge níveis alarmantes, mostra levantamento" – Fabiana Reinholz (Brasil de Fato RS)
4º Lugar:” Crimes que marcaram o Rio Grande do Sul” – Deivison Ávila (Jornal do Comércio)
5º Lugar:” Violência no ambiente escolar: as lições para evitar o pior” – Ermilo Drews(Grupo Sinos)

Categoria Profissional - Reportagem em Vídeo
1º Lugar: "O drama da moradia provisória - um registro de 6 meses após a enchente" – Isabel Ferrari (Fantástico/Rede Globo)
2º Lugar: "JA Repórter: O sonho da moradia digna" – Mary Silva , Fayller Aprato, Felipe Toledo, Marco Matos, Bárbara Cezimbra, Ronaldo Sabin, Sid Rafael e Moisés Costa (RBS TV)
3º Lugar: "Artur: o menino cego que narrou futebol do estádio" – Kelly Teixeira da Costa, Bruno Halpern, Rafael Techera, William Ramos e Eduardo Ostermayer (RBS TV)
4º Lugar:” JA Repórter: caçadores promovem matança em área de preservação do RS – Vitor Rosa (RBS TV)
5º Lugar:” Corre RS: Histórias de Maratona – Eduardo Rachelle (RBS TV)

Categoria Profissional - Reportagem Esportiva
1º Lugar: "Por que as entrevistas sumiram do futebol?" – Victória Rodrigues e João Paulo Jobim Fontoura (Correio do Povo)
2º Lugar: "Como a internet mudou o cenário do futebol" – Carlos Correa (Correio do Povo)
3º Lugar: "Série especial 'Esporte Atrás das Grades'" – André R. Herzer (Zero Hora)
4º Lugar:” Nossa Voz 2024 –  Mariana Dionisio (RBS TV, ge.globo/rs, GZH, Zero Hora e Diário Gaúcho)
5º Lugar:” Acabou a Grandeza?!? – Fabrício Falkowski (Correio do Povo)

Categoria Profissional - Reportagem Nacional
1º Lugar: "Cortina de Vapor" – Pedro Nakamura (O Joio e o Trigo)
2º Lugar: "Tubarão ameaçado no prato" – Karla Mendes, Philip Jacobson, Kuang Keng Kuek Ser e Fernanda Wenzel (Mongabay Brasil)
3º Lugar: "As marcas do racismo na escola" – Iara Balduino, Paulo Leite, Rogerio Verçoza, André Pacheco, Sigmar Gonçalves, Carolina Oliveira, Patrícia Araújo, André Eustáquio, Márcio Stuckert, Alex Sakata, Caroline Ramos , Wagner Maia, Alexandre Souza, Dailton Matos, Edivan Viana , Rafael Calado e Thiago Pinto (TV Brasil)
4º Lugar:” A TECNOLOGIA USADA COMO INSTRUMENTO PARA FORTALECER A CULTURA DE UM POVO INDÍGENA DO ALTO XINGÚ EM MATO GROSDO” – Eunice Ramos (TV GLOBO / TVCA)
5º Lugar:” Perseguição institucional e distúrbios mentais: o efeito dos crimes sexuais nas forças policiais do país – Herculano Barreto Filho (Do UOL)

Categoria Universitária - Fotojornalismo
1º Lugar: "Capital da Improvisação" – Cecília Filappi (UFRGS)
2º Lugar: "Disposição para recomeçar" – Diogo Beltrão Duarte, Felipe Kramer Damian, Gabriel Vieira da Silva e Lorenzo Vieira de Castro (UFRGS)

Categoria Universitária - Projeto Especial em Jornalismo
1º Lugar: "5198: profissão prostituta" – Vittória Becker, Thayna Weissbach, Pedro Stahnke , Isadora Prigol e Gustavo Marchant (PUCRS)
2º Lugar: "Wacki Jacko: Uma análise da representação do cantor Michael Jackson nas matérias do jornal tabloide The Sun " – Renata Rosa (UFRGS)
3º Lugar Menção honrosa: “Bi-chas, trans e sapatões de Porto Alegre” – Vittória Becker, Thayna Weissbach e Alana Borges (PUCRS)
4º Lugar Menção honrosa :” O Papel do Jornalista no Resgate de Histórias Silenciadas: Uma análise da apuração de Christa Berger para a biografia
de Jurema Finamour”–  Ana Julia Zanotto(UFRGS)
5º Lugar Menção honrosa:'Show de Copa em Zero Hora': uma análise da cobertura do periódico da Copa do Mundo de 1970 – João Pedro Bernardes
( UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Áudio
1º Lugar: "Podcast Causa Mortis: Misoginia" – Maria Luiza Rocha, Amanda Steimetz Thiesen e Manuela Saudade Cassano (PUCRS)
2º Lugar : "O Preço da Sorte" – Felipe Kramer Damian, Lorenzo Vieira de Castro, Isabela Daudt e Diogo Beltrão Duarte (UFRGS)
3º Lugar Menção honrosa: "Comércio da Salvação" – Gabriel Magagnin Fernandes, Tainan Nunes, Roberta Kunt, Gabriela Dalmas, Sofia Utz,
Theo Castro e Jean Carlos (PUCRS)
4º Lugar Menção honrosa: Encurraladas - Histórias de mulheres jornalistas sobre violência de gênero – Laura Cunha( UniRitter)
5º Lugar Menção honrosa: Raízes que Resistem: Comunidades Quilombolas em Porto Alegre –  Amanda Schultz (UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Texto
1º Lugar: "Denúncia contra projeto do Zaffari expõe falhas no licenciamento ambiental em Porto Alegre" – Dener Pedro, Bárbara Cezimbra de Andrade e
Juliano Lannes de Oliveira (Unisinos)
2º Lugar: "Gerontologia ambiental traz alternativas para o envelhecimento seguro em meio às mudanças climáticas" – Francisco Avelino Conte (UFRGS)
3ºLugar Menção honrosa: "O que afasta os jovens do ensino superior? " – Rafaela Bobsin e Júlia Cristofoli Campos (UFRGS)
4º Lugar Menção honrosa: Tragédia sem rosto: quem eram as vítimas da Pousada Garoa? – Pedro Pereira (PUCRS)
5º Lugar Menção honrosa: Sobre viver no limbo –   Thomas Gregório (UFRGS)

Categoria Universitária - Reportagem em Vídeo
1º Lugar: "Os Centenários de Porto Alegre " – Arthur Reckziegel, Tânia Meinerz e Nathan Lemos (Unisinos)
2º Lugar: "Improviso e Resistência: A realidade das escolas indígenas gaúchas" – Fernanda Axelrud, Beatriz ,Antônio de Macedo Ferraz de Campos,
João Pedro Kovalezyk Bopp, André Jakubowski Zoratto, Ana Carolina Lorenzini e Nathalia Ferrari da Silveira (PUCRS)
3ºLugar Menção honrosa: "Vozes do Esporte" – Vitor Christofoli (UniRitter)
4º Lugar Menção honrosa: Direito à cidade: A luta por moradia em Porto Alegre – Luciana Weber (PUCRS)
5º Lugar Menção honrosa: Violência Policial no Rio Grande do Sul –  Nikelly de Souza (UFRGS)


texto: Daniel Rodrigues
fotos: Mariana Czamanski (ARI) e Isabel Ferrari

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Moacir Santos - "Coisas" (1965)


"Moacir Santos é um jedi."
Ed Motta

"Eu sou o 'Ouro Negro' do Brasil."
Moacir Santos

A música popular brasileira, mesmo com sua trajetória centenária, demorou a se reconhecer negra. O samba, ritmo mais característico do Brasil, embora a gênese africana, com elementos oriundos das nações Banto, Iorubá, Jeje, Mina, Bornu, Gurunsi e outras, sofreu, ao longo do tempo, com diversas intervenções que, às vezes propositalmente, o distanciaram da origem. Caso do "boleramento" do samba da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50, e da própria bossa-nova, demasiado jazz para ouvidos mais ortodoxos. O morro, mesmo, não aparecia no cenário. Ambas as ondas propunham características tão estrangeiras, que só faziam reduzir o espaço simbólico da verdadeira raiz da música brasileira, fosse por modismo, entreguismo ou, pior, vergonha.

Jorge Ben, com o emblemático “Samba Esquema Novo”, de 1963, foi o primeiro sopro de resgate deste africanismo na MPB. Instintivo, pop e moderno, levava a raiz afro-brasileira a outro nível ancorado na tradição violeira. Mas ainda era pouco. Se se olhar para uma das pinturas de Heitor dos Prazeres (aliás, também um grande sambista), que tematizam a gente do samba dos morros e das ruas, fica claro que havia uma série de outros instrumentos – e, portanto, outras texturas e tonalidades – nas rodas e cordões cariocas do início do século 20, que iam além do pandeiro e tarol. Como descreve José Ramos Tinhorão em seu “Os Sons Negros no Brasil”, cabia no samba toda a influência ibérica trazida da Europa pelos portugueses, como o fado e a fofa, mais as diversas culturas diaspóricas vindas da África, tal o batuque, o calundu, o folguedo e a umbigada.

Alguma coisa haveria de salvar a africanidade na música brasileira, e isso veio das mãos de Moacir Santos. Compositor, arranjador, saxofonista e vocalista, este pernambucano lança seu primeiro e absolutamente marcante álbum de estreia com base nas lições que ensinava a seus alunos, as despretensiosamente chamadas “coisas”. Acontece que essas "coisas" eram preciosidades, assim como os seus seguidores. Seus discípulos – entre eles, nada menos que Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal – aprenderam estes valiosos ensinamentos de harmonia e composição com um já maduro e experiente músico capaz de sinterizar mundos. Ex-integrante de orquestras de circo e bandas militares de diversas cidades do Nordeste, nos anos 40, Moacir, após trabalhar como instrumentista e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, em 1951, já no Rio de Janeiro, aperfeiçoou seus estudos eruditos com os maestros alemães Ernest Krenek (que o introduz na técnica dodecafônica) e o célebre Hans-Joachim Koellreuter, de quem se tornou assistente, além de estudar também com Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe.

Lançado há 60 anos pelo cultuado selo Forma – responsável por obras icônicas da música brasileira dos anos 60 como “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes e Baden, e a trilha sonora de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o filme de Glauber Rocha“Coisas” é justamente o nome dado ao disco que resume as avançadas ideias musicais de Moacir Santos. O trabalho revitaliza a bossa-nova sob a aura das matrizes africanas, ao passo de que também engendra harmonias jazzísticas e ritmos da cultura nordestina, como o frevo, o samba-de-roda, o maracatu e as bandas marciais. A valorização da cultura negra é perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a esse matiz. Coisa de gênio. 

São apenas 10 coisas, ou melhor: 10 lições instrumentais, que inventam esse Brasil profundo e sofisticado de Moa. "Coisa n° 4" não à toa passa à frente de suas três companheiras ordinárias para abrir o disco, visto que escolhida para provocar o impacto necessário ao florescer da obra. E o cumpre com louvor: um ritmo de ponto de candomblé se funde a uma base de metais em tom baixo, como o de uma banda marcial em dia de quermesse. É quando entra o trombone solo de Edmundo Maciel desenhando o riff, que serpenteia com elegância o ritmado carregado do culto de orixá. Depois, juntam-se trombone, metais e madeira, num desenvolvimento melódico airoso.

Moacir, revolucionário e mestre dos mestres
da música brasileira 
Dá tempo de recuperar o fôlego – talvez nem tanto assim – com a “nº 10”, uma bossa-nova com traços caribenhos com uma das melodias mais bonitas já escritas por Moacir. Samba-jazz puro, seja no toque sincopado do piano, seja na insinuante linha do trompete. Tudo muito apurado e com clara referência aos mestres Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato e Antônio Maria.

Recuperando o tema escrito dois anos antes para a trilha sonora de “Ganga Zumba”, o primeiro filme de Cacá Diegues, “Tema de Nanã” vira agora a “Coisa nº 5”. Novamente, como na abertura do disco, o toque percussivo prevalece, mas logo se transforma numa marcha, que dignifica o gênio militar do herói quilombola. O arranjo de Moacir é espantosamente bem arquitetado, conjugando todos os metais e madeiras (sax alto, sax barítono, sax tenor, trompete, trombone, trombone baixo e flauta). Um ano antes, Nara, com arranjos do próprio autor, a incluiria em seu celebrado álbum de estreia cantando-a apenas em melismas. Somente em 1972 a música ganharia letra – e em inglês – no LP “Maestro”, que Moacir gravaria já nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1967 para lecionar e exercer trabalhos free-lancer para cinema.

Enquanto o tema “3” é quase o estudo de um samba minimalista escrito sobre a combinação de três acordes, a “segunda coisa”, que vêm na sequência, esmera num jazz sensual e enigmático conduzido pela bateria de Wilson das Neves e o vibrafone do seu irmão, o também percussionista Cláudio das Neves. Desfilam solos da flauta de Copinha e o trombone baixo de Armando Pallas sobre uma base arranjada no tom médio dos metais. Nesta fica clara a habilidade melódico-harmônica de Moacir, que emprega escalas modais e ambíguas no uso das terças (ora maiores, ora menores), gesto que que torna o número ainda mais negro.

Outra estonteante é a de “nº 9”, subtitulada "Senzala", um lamento nagô com ares jazzísticos cujo toque do sax alto sustenta uma das melodias mais bonitas da música brasileira pós bossa-nova. Há algo arábico nessa melodia em permanente mistério, como uma saudade da mãe-África, como um banzo. Não se nota exaltação: apenas o sofrimento calado das correntes prendendo a pele escrava na escaldante noite no engenho. Já a “Coisa nº 6” acelera o compasso para um samba gafieira em que a volumosa instrumentalização dignifica Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Ritmada, suingada e lindamente melodiosa.

Não menos brilhante, a “sétima lição” é um samba-jazz exemplar, das melhores desse primeiro e referencial repertório de Moacir. Já a “Coisa nº 1”, não menos elegante, forja-se sobre uma sutil percussão de bongôs, um violão sincopado e a dança dos metais, que esculpem este samba cadenciado, que capta as lições da bossa nova e as ressignifica ao deslocar rítmicos e métricos, característica do compositor pernambucano.

Intitulada de “Navegação” em 2001, quando ganhou letra de Nei Lopes e vocal de Milton Nascimento para o álbum-tributo “Ouro Negro”, produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet, e um dos mais cultuados temas do cancioneiro de Moa, a “Coisa nº 8” é a escolhida para fechar essa pequena ópera preta. E no mais alto nível de musicalidade e sofisticação. Mesmo sem o vocal, é possível embarcar neste navio moaciriano e intuir os versos: “Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”.

Não é exagero dizer que, se não existisse “Coisas”, não existiriam “Os Afro-Sambas” de Vinicius e Baden, nem a África universal do Milton de “Minas"/"Geraes”, nem a “Maria Fumaça” soul-funk da Black Rio, nem o samba enraizado do Martinho da Vila de “Origens”, nem a “Refavela” de Gilberto Gil, nem a musicalidade colorida da Europa moura de Djavan. Não haveria lastro para tudo isso não fosse Moacir Santos e o salvamento que ele promoveu à música brasileira negra. Tal uma nova abolição. Como disse Ed Motta, Moacir é “essa mão de proteção sobre as nossas criações e de tudo que a gente tem pra fazer daqui pra frente”. O que quer dizer muita, mas muita coisa.

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FAIXAS:
1. "Coisa Nº 4" - 4:01
2. "Coisa Nº 10" (Moacir Santos, Mário Telles) - 3:06
3. "Coisa Nº 5 (Nanã)" (Santos, Telles) - 2:45
4. "Coisa Nº 3" - 3:00
5. "Coisa Nº 2" - 4:55
6. "Coisa Nº 9 (Senzala)" (Santos, Regina Werneck) - 3:08
7. "!Coisa Nº 6" - 3:22
8. "Coisa Nº 7 (Quem É Que Não Chora?)" (Santos, Telles) - 2:25
9. "Coisa Nº 1" (Santos, Clovis Mello) - 2:41
10. "Coisa Nº 8 (Navegação)" (Santos, Werneck) - 2:19
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Sinéad O'Connor - "Am I Not Your Girl?" (1992)

 



"São as músicas
que cresci ouvindo
e me fizeram querer
ser cantora."
Sinéad O'Connor



Sabe aqueles discos que a gente acha que ninguém mais gosta além de você? Pois é, "Am I Not Your Girl?", de Sinéad O'Connor era assim pra mim. Já era fã da cantora de seus trabalhos de carreira, mas aí na compilação "Red Hot + Blue" coletânea com vários artistas em homenagem a Cole Porter, descobri a veia jazz da irlandesa. No projeto da organização Red Hot, em benefício às vitimas da AIDS, Sinéad interpretava, de forma magnífica, a lindíssima "You do something to me" e aquilo me arrebatou. Mas acredito que a experiência tenha sido importante para ela também, uma vez que a cantora lançaria dois anos depois, um álbum só de standarts do jazz.

Sinéad canta com elegância, com precisão, confere a emoção exata para cada canção.

A faixa de abertura já justificaria todos os elogios à obra: "Why don't you do right?", canção originalmente do filme "As noivas do Tio Sam", mas imortalizada na voz da sensual personagem de desenho Jessica Rabbit, ganha carne e osso na boca de Sinéad O'Connor numa interpretação provocativa, insinuante, venenosa, digna da femme-fatale do desenho animado.

"Bewitched, Botched and Bewildered" que a segue, conjuga magicamente melancolia, delicadeza e graça, com a cantora colocando uma doçura tal, uma fragilidade na voz... que chega a ser algo realmente tocante. "Secret Love", originalmente cantada por Doris Day, nos anos 50, tem um arranjo mais aberto, mais luminoso, mas Sinéad canta num ar quase confidente ao revelar, "Once I had a secret love" e logo abre o peito para revelar que não  tem segredos para mais ninguém, "My secret love is no secret anymore". E "Black Coffee", gravada anteriormente por nomes como Sarah Vaughn e Ella Fitzgerald, e trilha do filme "Algemas Partidas" em 1960, confirma perfeitamente aquela atmosfera misteriosa de filme noir.

No entanto é em "Success has made a failure of our home" que a irlandesa despeja sua maior carga emocional em uma das canções do disco. Apoiada por um arranjo jazz-rock intenso, Sinéad numa interpretação dramática, encarna uma mulher desesperada, quase indo às  lágrimas, se desfazendo, se desintegrando diante de seu homem, implorando para que ele simplesmente diga que ela ainda é sua garota.

Outro ponto alto do disco é a ótima "I want to be loved by you", do filme "Quanto mais quente melhor", na qual Sinéad conserva a discontração e a leveza da original, interpretada por Marilyn Monroe, com direito até a um "Boop-boop-a-doop!", que, se não tem a mesma sensualidade da loira, tem graça e doçura.

A sombria canção do compositor húngaro Rezső Seress, letrada por László Jávor, "Gloomy Sunday", associada frequentemente a suicídios, traduzida para o inglês e cuja interpretação mais famosa é de Billie Holiday, ganha uma verão não menos emocional, intensa e cheia de possíveis "leituras" e "interpretações" na voz da irlandesa que, sabe-se bem, embora tenha morrido de causas naturais, tentara o suicídio diversas vezes durante a vida.

"Love Letters", clássico que já esteve nas trilhas de diversos filmes e peças, com os mais variados andamentos e ênfases, neste disco ganha uma sonoridade imponente de metais com uma poderosa introdução de uma orquestra de jazz, enquanto Sinéad, se comparada a outras grandes vozes como Nat King Cole e Elvis Presley que já interpretaram a canção, opta por uma interpretação sóbria, comedida, que lhe confere um aspecto ainda mais fragilizado.

Em uma leitura extremamente melancólica e dramática do clássico da bossa-nova, "Insensatez", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a irlandesa demonstra toda a importância e a influência da música brasileira em sua formação. "Scarlett Ribbons", canção de Natal na sua origem, aqui adquire uma carga quase fúnebre. Muito se dá pelo formato: a voz acompanhada apenas por uma flauta, e o tom cru do estúdio, com o ouvinte podendo captar todas as respirações, as pausas, os vazios...

"Don't cry for me, Argentina", do musical Evita, aparece em duas versões, uma cantada, que se não é nada excepcional, no mínimo é, inegavelmente, melhor do que a da Madonna, e uma instrumental, num jazz descontraído e acelerado, que, praticamente fecha o disco, que ainda tem uma mensagem pessoal da cantora sobre a dor (o que também fez ainda mais sentido depois das circunstâncias de sua morte).

Na época que soube do projeto da irlandesa, tratei de dar um jeito de dar um jeito de conseguir aquele seu novo álbum, só que duro como era na época (e ainda sou), o jeito foi gravar e ter em K7. Muito ouvi aquela fita. Gastei os cabeçotes do walkman com ela. Até evoluí depois, embora ainda sem grana, para o CD gravado, mas nunca havia tido uma mídia original. Até que numa dessas feiras de vinil, encontrei por um preço bem razoável o "Am I Not Your Girl?" em LP. O vendedor, um senhorzinho muito simpático que me contou ter sido DJ em festas disco dos anos 70, se derreteu pelo álbum. Disse ser aquele, na sua opinião, um grande disco, trabalho que muita gente não valoriza mas que para ele era o melhor da cantora, interpretações  incríveis e tudo mais... Se eu tivesse alguma dúvida, as teria abandonado naquele momento com uma manifestação tão  entusiástica como aquela. Mas a admiração pelo disco não parou nele: tenho o hábito de compartilhar nas redes sociais minhas trilhas sonoras do dia e num dia desses qualquer, ouvindo o álbum, lancei lá no Facebook, no Instagram, no Twitter, um "Ouvindo agora, "Am I Not Your Girl?", de Sinéad O'Connor". Ah, foi uma enxurrada de likes e comentários. "Grande disco", "Esse disco é muito bom", "Dos meus preferidos", e etc. Aí  que eu descobri que não sou só eu que adoro esse disco. E, cá entre nós, um disco com tantos clássicos, canções eternizadas pelo cinema, músicas já interpretadas por nomes imortais, admirado desta maneira, e com essa importância na vida de tanta gente, não pode ser considerado menos que um ÁLBUM FUNDAMENTAL

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FAIXAS:
1. "Why Don't You Do Right?" - Joe McCoy (2:30)
2. "Bewitched, Bothered and Bewildered" - Lorenz Hart, Richard Rodgers (6:15)
3. "Secret Love" - Sammy Fain, Paul Francis Webster (2:56)
4. "Black Coffee" - Sonny Burke, Paul Francis Webster (3:21)
5. "Success Has Made a Failure of Our Home" - Johnny Mullins (4:29)
6. "Don't Cry for Me Argentina" - Andrew Lloyd Webber, Tim Rice (5:39)
7. "I Want to Be Loved by You" - Bert Kalmar, Harry Ruby, Herbert Stothart (2:45)
8. "Gloomy Sunday" - László Jávor, Sam L. Lewis, Rezső Seress (3:56)
9. "Love Letters" Edward Heyman, Victor Young 3:07
10. "How Insensitive" - Vinicius de Moraes, Norman Gimbel, Antônio Carlos Jobim (3:28)
11. "Scarlet Ribbons" - Evelyn Danzig, Jack Segal (4:14)
12. "Don't Cry for Me Argentina" (Instrumental) - Andrew Lloyd Webber, Tim Rice (5:10)
13. "Personal message about pain (Jesus and the Money Changers)" (Hidden track) - O'Connor (2:00)

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Ouça:



por Cly Reis

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

20 filmes para entender o cinema brasileiro dos anos 90


Há cinco anos, publicávamos aqui no Clyblog uma série de três longas matérias com listas dos filmes essenciais para se entender o cinema brasileiro do século XX, fazendo um recorte de suas três principais décadas produtivas: 60, 70 e 80. Por motivos óbvios, os desfalcados anos 90 não entraram nessa primeira série, haja vista a impossibilidade de se equiparar em importância com estas outras décadas uma vez que seu esforço foi muito menos pela manutenção da qualidade obtida anteriormente do que, principalmente, pela sobrevivência do audiovisual brasileiro. A puxada de tapete do governo Collor ao destruir a exitosa Embrafilme não ofereceu nenhuma alternativa substitutiva à altura que garantisse a continuidade do trabalho de milhares de profissionais e da importante arte cinematográfica brasileira.

Porém, os anos se passaram aqui no blog e, com eles, chegamos ao final da década de 2010, em que o cinema brasileiro, devidamente retomado de seus percalços (será?!), torna a ganhar o circuito internacional com filmes não apenas bem realizados, como essenciais para a nova cinematografia mundial, caso de "Cidade de Deus", "Tropa de Elite" e, mais recentemente, “Bacurau”. Mesmo que o correto seja compreender o final da década assim que concluir o ano em que estamos, e só começar a contar uma nova década a partir de 2021, quem imaginaria que viria a Covid-19 para congelar tudo, afetando, principalmente, o setor cultural e, com ele, a produção cinematográfica? Se havia ainda alguma esperança de que novos títulos se somassem aos produzidos nos últimos 9 anos para cá, a pandemia, bastante ajudada pela política inimiga da cultura do atual governo brasileiro, forçou para que se acabasse de vez a década.

Entre a última década do século passado e a que estamos, restam, claro, os primeiros 10 anos do novo século. Vamos reconstruir, então, a essência do que foi produzido no cinema brasileiro nos últimos 30 anos, começando pelos 90. Se a recorrente falta de prioridade para com a cultura e a arte da política brasileira fez de tudo para acabar com o cinema nacional, fique esta sabendo que não conseguiu. Produções escassas, mirradas, prejudicadas, mas mesmo assim, resistentes. Deste modo, selecionamos aqui 20 títulos essenciais para entender esta década que, com todos estes percalços, ainda assim mantém qualidade suficiente para não deverem nada a títulos de outras décadas mais abastadas. Uma exceção fazemos aqui, no entanto: não apenas por contar fatalmente de menos filmes classificáveis, os anos 90 são sinônimo de “retomada” para o cinema no Brasil, fase a qual se encerraria apenas com o marco “Cidade de Deus”, de 2002, um ano depois da instituição da Ancine. Então, coerentemente com a construção histórica do novo cinema brasileiro, incluímos as produções do ano de 2000 nesta primeira listagem. A partir dali, uma nova era viria.





1 - “Carlota Joaquina: Princesa do Brazil”, de Carla Camurati (95): O filme de estreia de Camurati é o marco de resistência do cinema brasileiro pós-Collor, quase um manifesto, que bradava: “É possível, mesmo com toda a dificuldade, fazer cinema autoral no Brasil!”. Cheio de hiatos e desconexões (propositais ou não), tem, além desta simbologia (que já lhe seria suficiente para integrar esta lista), o mérito de trazer algumas características que se consolidariam no cinema brasileiro nas décadas seguintes: a coprodução com países estrangeiros, a linguagem cômica, a edição ágil e a abordagem crítica.






2 - “O Quatrilho”, de Fábio Barreto (95): Há quem torça o nariz para certa pasteurização do filme rodado no interior do Rio Grande do Sul sobre a obra de José Clemente Pozzenatto, mas é fato que, com ele, os Barreto reabriram as portas do Brasil para o mercado internacional com a inédita indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na história do cinema brasileiro – feito que ocorreria apenas mais duas vezes. E isso num momento em que jamais se esperaria algum reconhecimento vindo de um ainda agonizante cinema pela quebra da Embrafilme. Um bom romance, com seus méritos.





3 - “O Mandarim”, de Julio Bressane (95): Enquanto os Barreto encabeçavam uma nova investida na internacionalização do cinema brasileiro e Camurati tentava redirecionar os rumos das coisas por aqui, o bom e velho transgressor Julio Bressane aperfeiçoava seu cinema-poesia. Assim como em “Tabu”, “Brás Cubas” e os “Os Sermões”, a música é quase um personagem, neste caso, para contar a proto-biografia de Mário Reis (Fernando Eiras), mas não sem o “auxílio luxuoso” de Caetano Veloso, Chico Buarque (fazendo eles mesmos), Gilberto Gil (encarnando Sinhô) e Edu Lobo (fazendo as vezes de Tom Jobim). Tudo de forma artesanal, barata e genial.




4 - “Terra Estrangeira”, Walter Salles Jr. e Daniela Thomas (96): O filme de Waltinho e Daniela tem o poder de vencer a contramaré vivida pelo cinema nacional àqueles idos a ponte de tornar-se um dos mais importantes filmes da cinematografia nacional. Tanto que está na lista da Abraccine dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Uma história sobre solidão e resgate das próprias raízes motivado justamente pelo confisco promovido pelo mesmo presidente Collor que extinguiu tanto o dinheiro do brasileiro quanto o da Embrafilme. Fotografia impecável p&b de Walter Carvalho, trilha excelente de Zé Miguel Wisnik e até dedo de Millôr Fernandes nos diálogos. Um luxo em época de vacas magras.







5 - “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (96): Na esteira da mais revolucionária cena cultural do Brasil dos últimos 30 anos, o mangue beat, o filme marco da retomada do cinema pernambucano, retraz questões formativas da cultura nordestina (o cangaço, o “Ciclo do Recife” dos anos 20, os superoitistas dos anos 70, o sotaque, a antropomorfia) com uma roupagem moderna. Se não é necessariamente um filme bom, é altamente representativo e indispensável para se entender o cinema brasileiro de então, visto que abriu portas para a entrada de talentos de outros pernambucanos como Kleber Mendonça Filho, Cláudio Assis, Hilton Lacerda e Marcelo Lordello.







6 - “Guerra de Canudos”, de Sérgio Rezende (96): Afeito aos temas da História do Brasil, Rezende, após realizar seu grande filme, “O Homem da Capa Preta”, em 86, viu-se, assim como seus pares, totalmente descapitalizado para realizar seu trabalho. O que não foi motivo para abandonar o projeto sobre a real história do líder Antônio Conselheiro e a sangrenta guerra contra as forças do Império extraída do épico “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Wilker, que já havia protagonizado “O Homem...”, está brilhante no papel principal. Produção cara que, mesmo os justificáveis defeitos de produção, não apagam o brilho.







7 - “Tieta do Agreste”, de Cacá Diegues (96): O tarimbado Cacá foi dos que sofreu bastante com a quase inviabilização do cinema no Brasil da era Collor. Após o paupérrimo longa de episódios “Veja Esta Canção”, de 94, parecia que nunca mais viriam grandes produções de outrora como “Quilombo” ou “Xica da Silva”. Mas o sempre obstinado cineasta surpreende com um filme recheado de qualidades: texto baseado e revisado pelo próprio Jorge Amado, Sônia Braga brilhante como Tieta, Chico Anysio tornando a fazer cinema como o velho Zé Esteves, trilha de Caetano, fora outras. Uma delícia de filme.





8 - “A Ostra e o Vento”, de Walter Lima Jr. (97): Assim como Cacá e Bressane, Walter é outro experiente realizador nascido no Cinema Novo. Porém, tem como característica o empreendimento de projetos muito peculiares, como esta bela adaptação do romance de Moacir C. Lopes, que conta com roteiro dele e de Flávio Tambellini (que se tornaria um dos cineastas de vulto no cinema nacional), fotografia de Pedro Farkas, música de Wagner Tiso e a linda canção original de Chico. Lima Duarte, Castrinho e Fernando Torres excelentes, além da jovem Leandra Leal, estreando na tela grande com uma inesquecível atuação sobre um tema raramente explorado com tanta assertividade: o florescer da sexualidade feminina.






9 - “Os Matadores”, de Beto Brant (97): Fala-se muito de “O Invasor”, de 2002, mas em “Os Matadores”, primeiro longa do talentoso paulista Beto Brant, ele já introduzia sua contribuição ao cinema brasileiro com um estilo autoral, de forte apelo literário, com histórias inspiradas na realidade em diálogo com o tempo presente e onde o ator tem espaço para contribuir na narrativa. Além disso, em resposta à falta de perspectivas vivida pela classe cinematográfica brasileira no início dos anos 90, trazia um conceito “enxuto”: projetos racionalizados sob o ponto de vista da produção, com equipes de trabalho formadas por amigos, que se transformam em parceiros constantes. Na sua estreia, Brant já saiu abocanhando o prêmio de melhor direção no Festival de Cinema de Gramado.






10 - “O Que é Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto (97): Criado em 91 como mecanismo do incentivo à cultura, a Lei Rouanet começou a, de fato, render frutos anos depois. Após emplacar a inédita disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “O Quatrilho”, um ano depois o Brasil colocava outro candidato à estatueta: o bom “O Que...”, baseado no Best-seller biográfico de Fernando Gabeira. Novamente, são os Barreto os responsáveis pelo feito. Além das excelentes atuações de Pedro Cardoso, Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, o filme avança no espaço aberto por “Carlota Joaquina” no sentido da coprodução estrangeira, o que resulta nas participações do craque Alan Arkin no elenco e da excelente trilha do ex-Police Stewart Copeland.





11 - “Pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck (97): A Globo Filmes, a partir da década seguinte, vulgarizaria o estilo comédia feita com atores da emissora, lançando aos montes subproduções sem nenhuma qualidade, quanto menos pretensão cinematográfica. Mas isso ainda cabia naquele sétimo ano da década de 90, quando Sandra realizou esta comédia romântica deliciosa. Aquele final com “Futuros Amantes” do Chico é de arrebentar o coração até do mais insensível espectador. Atuações ótimas de Andrea Beltrão, Daniel Dantas, Glória Pires e Tony Ramos – estes dois últimos, que fariam dupla noutra comédia (um pouco menos) romântica “Se Eu Fosse Você” anos mais tarde.





12 - “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr. (98): É só deixar solto, que o sobrevivente cinema brasileiro se supera e, logo em seguida, se agiganta. Sete anos após a instituição da Lei Rouanet e minimamente restabelecido o mercado do audiovisual brasileiro, Waltinho vem com aquele que é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, certamente o melhor da década de 90. Tocante, envolvente, denunciador, poético, revelador. Um filme perfeito em tudo: fotografia, trilha, montagem, arte e, principalmente, a direção de atores. “Central...” traz algumas das mais célebres atuações do cinema brasileiro numa mesma obra: Marília Pêra, Othon Bastos, Matheus Nasctergaele, o pequeno Vinícius de Oliveira e, claro, a deusa Fernanda Montenegro, que, assim como o filme, o último concorrente ao Oscar de Filme Estrangeiro do cinema nacional, também disputou a estatueta – perdendo, junto com Meryl Streep e Cate Blanchett, para Gwyneth Paltrow. No entanto, levou Berlim de Melhor Atriz e Melhor Filme.




13 - “São Jerônimo”, de Julio Bressane (98): O hermético e experiente Bressane é original não apenas na narrativa e no seu inconfundível estilo pessoal, mas também nos temas que escolhe para filmar. Ao abordar a história do santo e obscuro intelectual do século IV autor da edição e da tradução completa da Bíblia, a chamada Vulgata, Bressane dava sua definitiva contribuição para a retomada provando que em cinema (principalmente, no Brasil) é possível conjugar estética exigente e verba exígua, poesia arrojada em prazo concentrado. Como São Jerônimo, Bressane operava milagres.




14 - “Estorvo”, de Ruy Guerra (98): Em 1991, emputecido com a vitória da velha política de Collor na primeira eleição democrática para presidente do Brasil (e a derrota da “nova” por parte do correligionário Lula), Chico Buarque lançava seu pequeno, mas potente primeiro romance, “Estorvo”, um sucesso que ganharia Jabuti. Mas para levar à tela um enredo tão subjetivo, somente alguém muito conhecedor da obra do autor de “Vai Passar”. Ninguém melhor, então, que o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra, companheiro de velhos tempos de Chico, seja no teatro, na música ou no próprio cinema. O clima perturbador da obra se potencializa nas tomadas distorcidas, na câmera nervosa, na montagem ousada e até no off com a voz do próprio Ruy, cujo sotaque arrevesado impõe a estranheza que a narrativa merece. Filme difícil, mas essencial.



15 - “A Causa Secreta”, de Sérgio Bianchi (96): O cinema deste paranaense radicado em Sampa nunca fez concessões. Desde o curta “Mato Eles?”, de 1982, quando denunciava o descaso com os índios, seu discurso é apontado para a crítica e toda a narrativa se mobiliza neste sentido. Em “A Causa Secreta”, o cineasta se vale de todas as suas armas para evidenciar a podridão moral da sociedade brasileira. E o faz com alto poder mimético, numa construção narrativa incomum, atuações e situações que incomodam de tão reais e agudas. Como outros filmes da década, peca por certo – e compreensível – déficit técnico, mas supera as dificuldades com a coesão da obra, essencial para entender o país em recente caminhada democrática e todos os problemas que ainda iria demorar a se livrar.




16 - “Dois Córregos - Verdades Submersas no Tempo”, de Carlos Reichembach (99): Filho da Boca do Lixo carioca, o gaúcho Carlão, mesmo à época das famigeradas pornochanchadas dos anos 70/80, produzia com qualidade, fosse na fotografia, a qual era um ótimo técnico, fosse na própria direção. Nos anos 90, já havia realizado o emocionante “Alma Corsária”, mas nada se compara tanto em emoção quanto em acerto com “Dois Córregos”. Um romance que envolve política, história e reminiscências do próprio cineasta, que filmou cenas na praia de Cidreira, no litoral do seu estado de origem. E tem trilha magnífica de Ivan Lins pra arrematar.





17 - “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky (2000): Entramos na leva de filmes de 2000, que sinalizam o começo do fim da retomada. E não se poderia iniciar com um título mais emblemático que esta estreia da talentosa Laís Bodanzky. Símbolo da retomada, é um dos filmes que denotaram que o cinema brasileiro saíra da pior fase e entrava numa outra nova e inédita. Além de lançar a cineasta e o hoje astro internacional Rodrigo Santoro, conta com uma estética e edição arrojadas, com sua câmera nervosa e atuações marcantes, tanto a do jovem protagonista quanto dos tarimbados Othon Bastos e Cássia Kiss. Vários prêmios: Qualidade Brasil, Grande Prêmio Cinema Brasil, Troféu APCA de "Melhor Filme", além de ser o filme mais premiado dos festivais de Brasília e do Recife. Além disso, também está nos 100 da Abracine. Trilha de André Abujamra e com músicas de Arnaldo Antunes.





18 - “Tolerância”, de Carlos Gerbase (00): O Rio Grande do Sul também é um dos protagonistas dessa virada do cinema brasileiro para a modernidade, e o responsável por isso é o primeiro e melhor longa do "replicante" Gerbase. Uma “história de sexo e violência” num thriller ao estilo do cineasta: trama envolvente, roteiro impecável e atuações conduzidas pela mão de quem carrega a experiência superoitista e da cena curta-metragem, que salvou na raça o cinema brasileiro quando nenhum longa era possível de ser feito. Maitê Proença, linda, está brilhante. 






19 - “Eu, Tu, Eles”, de Andrucha Waddington (00): Outro marcante filme "

00", este tocante, mas ao mesmo tempo divertido e denunciador romance, marca a entrada de vez de Andrucha no mundo da tela grande, ele consagrado como diretor de videoclipes célebres de artistas da música brasileira e realizador do acanhado “Gêmeas”, de um ano antes. A trilha de Gil cumpre um papel fundamental, amarrando a narrativa tanto em suas novas e antigas composições, quanto nas versões de Gonzagão. Grande Prêmio Cinema Brasil de Filme, Fotografia, Montagem e Atriz para Regina Casé, maravilhosa, assim como seus “maridos”: Lima Duarte, Stênio Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos.






20 - “O Auto da Compadecida”, de Guel Arraes (00): O cinema brasileiro fechava seu ciclo de maiores dificuldades estruturais com um sucesso de crítica e público (2 mi de expectadores). Guel, que havia construído uma carreira alternativa na dramaturgia através da televisão desde a TV Pirata e aperfeiçoando-a ao longo dos anos, chegou pronto ao seu primeiro longa, baseado na peça de Ariano Suassuna. Difícil ver uma trupe tão grande de ótimos atores/atuações juntos: Selton, Nachtergaele, Nanini, Denise, Diogo, Lima, Virgínia, Goulart... todos, todos impagáveis. João Grilo e Xicó formam uma das melhores duplas de personagens do cinema nacional. Comédia divertida – mas também dramática – com o pique de edição e cenografia de Guel. Um clássico imediato.


Daniel Rodrigues


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Música da Cabeça - Programa #171


Pereira, Jones, Reed, Buarque, Nascimento, Guðmundsdóttir e Drumont são alguns dos sobrenomes de sangue universal que estarão hoje no programa. Já deu pra suspeitar do que estamos falando, né? De música, claro! Para isso, vamos ter a ajuda destes e de Antônio Carlos Jobim, Adriana Calcanhotto, Ray Charles, Marisa Monte e mais. Também, “Música de Fato”, abordando as manifestações de racismo meio cultural gaúcho, “Cabeça dos Outros” com Caetano Veloso e “Palavra, Lê” em homenagem aos 40 anos da morte de Vinicius de Moraes. Tudo hoje, 21h, na nobre senzala da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e alforria: Daniel Rodrigues.



Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/