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quarta-feira, 1 de julho de 2020
Música da Cabeça - Programa #169
Orgulho? Temos! No Música da Cabeça é assim: muito amor-próprio e música. Sly & The Family Stone, Nando Reis, The Sonics, Ed Motta, The Beatles, Roberto Carlos e Diana Ross são alguns dos que estão nesta parada conosco. Ainda, homenagem às 78 rotações de Gilberto Gil e à semana do Orgulho LGBTQ+. Temos tudo isso hoje, às 21h, na altiva Rádio Elétrica, que tá super de bem consigo mesma. Produção, apresentação e bandeira multicolor: Daniel Rodrigues.
Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
The Sonics, The Wailers & The Galaxies - "Merry Christmas" (1965)
“Gozação com alegria e contemplação particular. A The Sonics capturou o espírito dessas duas atmosferas na contribuição para o álbum”.
“Em ‘Christmas Album’, eles [The Wailers] capturaram o clima que desejavam: a sensação de Natal em um novo estilo”.
“A The Galaxies expressa sons frescos e velozes como a neve do Natal”
Textos da contracapa do disco
Convenhamos: não é todo mundo que gosta de Natal. Talvez até mais pessoas que se suspeite, porque tem um monte das que verbalizam não gostarem e aquelas que se entristecem nessa época, resgatando tudo de ruim que aconteceu na vida inteira assim que dezembro entra. Quem não tem um parente ou amigo assim, que jogue a primeira pedra. Pois foi celebrando essa desconformidade, esse descompasso com as festas natalinas que o selo alternativo norte-americano Etiquette Records lançou, em 1965, “Merry Christimas”, o qual reúne faixas de três grupos de seu cast: The Sonics, The Wailers e The Galaxies.
No álbum “descomemorativo” está a raiz daquilo que se fortaleceria a partir de então nos EUA e na Inglaterra: as garage bands. Psicodélicas e arraigadas no rock e no blues, elas passariam a ser chamadas de proto-punk anos mais tarde por terem aberto caminho – mesmo sem saberem que estavam fazendo isso – para que Sex Pistols, Ramones, The Clash, Dead Boys, Buzzcocks e outras reivindicassem de vez a anarquia punk. Pois as três bandas de “Merry...”, juntamente com contemporâneas como The Chocolate Watchband, The Seeds, Deviants, The Troggs, Monks e outras, já criavam, quase uma década antes da onda punk explodir em Nova York e Londres, um som inconformado, agressivo e fora dos padrões da grande indústria. O pop-rock eles deixavam para os astros Beatles, Rolling Stones, Byrds e cia. Eles queriam mesmo era dar sua mensagem de contrariedade e fazer barulho. Muito barulho. Filhos dos mesmos traumas e transformações sociais do pós-Guerra, cabia a eles escancarar o grito contra o establishment. Nada mais apropriado para se criticar, então, do que um dos símbolos do capitalismo: o Natal.
Nessa, sobrou, claro, para o Papai Noel. A desavença com o Bom Velhinho fica clara na primeira faixa: “Santa Claus”, dos Sonics. Na letra, o jovem roqueiro cheio de ilusões pergunta: “Papai Noel, onde você tem andado?/ Eu estive esperando aqui apenas para deixá-lo entrar/ Sim, Papai Noel, o que você tem nas suas costas?/ Existe algo para mim que dentro de saco?/ Eu quero um carro novo, uma guitarra twangy/ uma pequena bonita e muito dinheiro/ Papai Noel, você não vai me dizer, por favor?/ O que você vai colocar debaixo da minha árvore de Natal?”. A resposta não poderia ser mais insensível e decepcionante. “E ele simplesmente disse:/ "Nada, nada, nada, nada.” Suficiente para suscitar a fúria juvenil. A guitarra fuzz rosnando, o riff básico quase "pogueante" e o jeito indolente de cantar do vocalista Gerry Rosie mostram o quanto a batata (ou o peru) do Papai Noel assou.
Num tom de rock embalado e romântico, a The Wailers vem com sua primeira do disco: “She's Comin' Home", em que o rapaz está implorando à garota para que volte para casa no Natal. A The Galaxies, por sua vez, abre a participação numa versão apimentada de "Rudolph the Red Nosed Reindeer", clássico do cancioneiro infanto-natalino, dando-lhe um ritmo entre a surf e o country rock.
A The Wailers não só retoma o country ao estilo Bob Dylan na batida de violão encorpada e na sonoridade “rancheira”, como também a contrariedade ao “espírito natalino”. É "Christmas Spirit??", assim mesmo, com DUAS interrogações. O órgão mantém-se permanente, enquanto a letra critica, já naquela época, o consumismo da sociedade moderna que engole a todos no Natal: “Entre numa fila/ Compre uma grande bola de barbante/ Qualquer coisa que você possa colocar em suas mãos/ Não importa o que você dá/ Só tenho que pegar um presente/ Não sabe o que você está dando/ A única coisa que conta é a marca e o valor/ Que vem de uma loja cara”.
Irascíveis, os Sonics voltam à carga contra o Papai Noel. Lembram do desaforo que ele fez deixando o cara na mão na música de abertura? Pois “The Village Idiot” é diretamente em homenagem a ele, o “Idiota da Aldeia”. Irônicos, dizem: “Como é divertido rir e cantar/ A canção hoje à noite num trenó”. A famosa melodia de “Jingle Bells” é totalmente avacalhada pela debochada turma. Gritos e alaridos de chacota acompanham o órgão, que desenha os acordes enquanto a bateria castiga as caixas e o bumbo. Tudo com doces sininhos tinindo ao fundo. Um desavisado poderia dizer tranquilamente que se trata de uma faixa de “The Great Rock ‘n’ Roll Swindle”, dos Sex Pistols, de 1979, haja vista a semelhança, inclusive, da galhofa de “Friggin’ in the Riggin’”. Subversiva ao extremo.
Cabe aos Sonics dar sequência, ou seja, uma nova pedrada: “Don't Believe in Christmas". Precisa dizer mais alguma coisa? Precisa. Olha a letra: “Bem, mamãe e papai disseram que podíamos/ Então eu fiz o que deveria/ Eu pendurei minha meia em uma parede/ Eu não entendi nada/ Porque eu não recebi nada no ano passado/ Bem, ficando acordado até tarde/ Para ver Santa Claus voar/ Bem, com certeza você não sabe/ O gordo não apareceu”. Como se vê, o velho furão frustrou a Noite Feliz da galera mais uma vez. Com refrão pegajoso e ritmo alucinante, daqueles que dá vontade de entrar numa roda punk, lembra a versão de “Too Much Monkey Business”, de Chuck Berry, feita pelos pais das garage bands, a The Kinks.
Depois disso, Wailers e Galaxies intercalam as quatro últimas faixas: as baladas "Please Come Home for Christmas" e “Christmas Eve”, ambas da Galaxies; e "Maybe This Year" e "The Christmas Song", da Wailers, que também apostam em duas canções açucaradas para terminar a coletânea. Afinal, a mensagem já estava dada. Entendem agora quando os Garotos Podres cantam: “Papai Noel, velho batuta/ Aquele porco capitalista”? Pois é, a primeira pedra estava lançada lá, em 1965, por estes heróis da contracultura. Nada mais rock ‘n’ roll do que um Natal de contestação.
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FAIXAS:
1 – "Santa Claus"- The Sonics (Gerald Roslie) - 2:49
2 - "She's Coming Home" – The Wailers (K. Morrill/R. Gardner) - 2:55
3 - "Rudolph The Red Nosed Reindeer" - The Galaxies (Johnny Marks) - 2:31
4 - "Christmas Spirit??" - The Wailers (K. Morrill/R. Gardner) - 3:05
5 - "The Village Idiot" ("Jingle Bells") - The Sonics (J. Pierpont) - 2:35
6 - "Don't Believe In Christmas" - The Sonics (Gerald Roslie) - 1:41
7 - "Please Come Home For Christmas" - The Galaxies (C. Brown/G. Redd) - 3:04
8 - "Maybe This Year" - The Wailers (K. Morrill/N. Anderson/R. Gardner) - 3:15
9 - "Christmas Eve" - The Galaxies (R. Gardner) - 4:05
10 - "The Christmas Song" ("Chestnuts Roasting On An Open Fire") - The Wailers (M. Torme/R. Wells) - 3:09
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OUÇA
The Sonics, The Wailers & The Galaxies - "Merry Christmas"
Daniel Rodrigues
Agradecimento a João Carneiro pela dica
Agradecimento a João Carneiro pela dica
terça-feira, 3 de maio de 2016
The Modern Lovers – “The Modern Lovers” (1976)
A capa original de 1976, só com o logo da banda e a da reedição em CD, de 1989. |
“The Modern Lovers
é a minha
banda de rock favorita
de todos os tempos”.
David Berson,
executivo da Warner
“Bem, algumas pessoas
tentam
pegar as meninas/
E são chamados de cuzões/
Isso nunca aconteceria
com Pablo
Picasso”
Jonathan Richman,
da letra de “Pablo Picasso”
Muito tem se falado sobre disco de estreia dos Ramones, o grande marco
inicial daquilo que o mundo pop passou a conhecer como punk-rock e que está
completando dignos 40 anos. Mas quem se embrenha um pouco mais na cena underground norte-americana sabe que
este movimento e sua sonoridade rebelde e anti-establishment – que remetia à simplicidade do rock ‘n’ roll básico
dos anos 50 e a culturas pop apreciadas por uma rapaziada contrária ao modo de
vida padrão da sociedade – vinha sendo alimentado desde meados dos anos 60.
Detroit, Boston, San Francisco e principalmente Nova York concentravam essa
galera criativa e crítica que não admitia que o planeta Terra se configurasse
daquele jeito que se anunciava: Guerra do Vietnã matando inocentes por nada,
crises econômicas mundo afora, ascensão de ditaduras, repressão militar e os
ecos de um inacabado 1968.
Uma das bandas fruto dessa efervescência é a The Modern Lovers. Liderados pelo inventivo Jonathan Richman, o
grupo de Boston estava, assim como o Ramones, tão de saco cheio com o sistema
político e social que seu discurso era, por pura ironia, totalmente apolítico. Nada
de afrontamentos políticos ou denúncia das mazelas sociais. A maneira de
protestarem era falar sobre aquilo que a sociedade não falava ou considerava coisa
de moleque de classe baixa: comer as menininhas do bairro, a falta de grana, se
chapar com a droga mais fuleira que tiver, andar de carro em alta velocidade
(sem ter carro para isso) e paixões raramente retribuídas. Temas que não eram
novidade no mundo jovem mas estavam esquecidos pelos grandes astros que a mídia
havia criado. Com o espírito punk do “faça você mesmo”, o Modern Lovers e os
tresloucados da cena punk revitalizaram tais questões com muita ironia, deboche
e realismo. Nada de carrões, de levar lindas modelos para a cama e
superequipamentos para superespetáculos em superestádios. O negócio era curtir
um pouco daquela merda de vida que tinham, sonhar em comer a garota gostosa do
bairro num motel barato e tocar em garajões fétidos de Nova York – como um em
plena East Village, chamado CBGB. Eram aquilo que viviam e pensavam, e tudo
isso está encapsulado no essencial “The
Modern Lovers”, o qual, assim como o primeiro dos Ramones, também faz
quatro décadas de seu lançamento.
A Modern Lovers mandava ver um som curto e grosso, mas com
inventividade. Sem grandes habilidades técnicas, compunham um rock básico,
vigoroso e pautado na realidade que vivenciavam nas ruas. Riffs magníficos saíam da cabeça do guitarrista e vocalista Richman
e seus parceiros de ensaio e de punheta: Ernie Brooks (baixo), Jerry Harrison
(teclados) e David Robinson (bateria). A produção do mestre underground John Cale avalizava aquele
primeiro trabalho de estúdio da Modern Lovers, cujo título é tão irônico quanto
autocrítico, haja vista que boa parte dos temas que abordavam era, justamente,
a fragilidade e inadequação sexual e afetiva daqueles jovens dentro da
sociedade moderna. Sem grana no bolso e longe de aparentarem os abastados
roqueiros do rock progressivo, astros da época, era difícil ser mais do que um
arremedo de “amante moderno”.
A nasalada e tristonha voz de Richman anuncia o que vem numa contagem
até 6. É “Roadrunner" abrindo o disco, clássico do rock alternativo que a
grande banda do punk britânico, o Sex Pistols, gravaria dois anos depois. Riff marcante e de acorde simples,
apenas três notas. “Roadrunner, roadrunner/ Going faster miles an
hour/ Gonna drive past the Stop 'n' Shop/ With the radio on”, canta Richaman com seu timbre
bonito, algo entre o vocal de Joey Ramone e o de outro contemporâneo deles,
Richard Hell. Bateria suja, guitarra e baixo e bem audíveis. A
sonoridade proposta por Cale junta a secura das garage bands dos anos 60, a irreverência do New York Dolls e a
atmosfera proto-punk do Velvet Underground com uma pitada daquilo que se chamaria anos depois de new wave. Isso muito ajudado pelos
teclados moog de Harrison, numa influência
direta do glam rock, mistura de punk
e pop que este ajudaria a levar para outra banda referencial da cena de Nova
York a qual formaria um ano depois: o Talking Heads.
Como Joey e Hell, Richman, guitarrista e líder da banda, era mais que
um vocalista: era um dos porta-vozes daquela turma. Seus versos muitas vezes
reproduziam as angústias e vontades daqueles jovens deslocados que não queriam
ser certinhos nem hippies: queriam
ser apenas eles mesmos. Com este substrato, Richman é capaz de criar versos
verdadeiramente geniais, formando rimas cantaroláveis e cheias de
expressividade. “Astral Plane” é um exemplo. Rockzão embalado, fala de um rapaz
sozinho em seu quarto, prestes a enlouquecer, pois sente que nunca mais terá a
garota que gosta. Seu desespero é tanto que já está aceitando até encontrá-la
num outro plano imaterial e, digamos, “não-carnal” (“O plano astral para o escuro da noite/ O plano astral ou eu vou
enlouquecer”).
Outro caso é o da clássica “Pablo Picasso”, em que, com criatividade e
atrevimento, engendra uma rima de “asshole”
(“cuzão”, em inglês) com "Picasso". Dentro
da sua classificação estilística, este tipo de rima pode ser considerado como
“rima rica”, quando a combinação é formada por vocábulos de classes gramaticais
distintas entre si. Além desta, a rima de Richman também se enquadra no que se
pode chamar de “rima preciosa”, ou seja, quando se combina em versos palavras de
dois idiomas diferentes. Ele altera a pronúncia da palavra estrangeira para
rimar com outra na língua vernácula da obra (inglês). Nos versos em questão, o
sobrenome do artista plástico espanhol, o substantivo próprio de origem
malaguenha "Picasso", é dito com uma leve distorção no seu último fonema, o que
faz com que se equipare fonética e sintaticamente a “asshole”, um adjetivo originário da linguagem chula. Além disso, a
letra em si é superespirituosa, pois endeusa a figura do autor da Guernica pelo
simples fato de ser um nome público, como se por causa disso jamais ele
passasse pelo vexame de não conseguir pegar as meninas como eles. Pura
inventividade.
Fora a letra, “Pablo Picasso” é um blues ruidoso no melhor estilo
Velvet, roupagem que Cale fez questão de dar ao intensificar a distorção das
guitarras sobre uma base quase de improviso, a exemplo de "The Gift" e
“European Son”. O produtor, inclusive, foi, um ano antes, o primeiro a gravá-la
no clássico álbum “Helen of Troy”, apresentando ao mundo do rock aquele jovem
criativo chamado Jonathan Richman. Com menos distorção mas de levada empolgante,
“Old World”, “Dignified And Old” e “She Cracked” são daquelas gostosas até de
poguear. Todas com um cuidado na linha dos teclados, inteligentemente utilizado
com diferentes texturas por Cale, o que cria atmosferas próprias para as
canções. “She Cracked”, em especial, que fala sobre o ciúme sentido por um
rapaz em relação a uma mulher madura e independente, é outra de refrão
pegajoso, das de cantar em coro com uma galera: “She cracked, I'm sad, but I won't/ She cracked, I'm hurt, you're
right”. O riff é de um
minimalismo quase burro: como uma “Waiting for the Man”, apenas uma nota
sustenta toda a base.
Já na meio-balada “Hospital”, de Harrison, a figura feminina
inatingível a um adolescente pobre do subúrbio está presente de novo: “Às vezes eu não suporto você/ E isso me faz
pensar em mim/ Que eu estou envolvido com você/ Mas eu estou apaixonado por
este poder que você mostra através de seus olhos”. Novo petardo: “Someone I
Care About”, com sua combinação de 4 notas, lembra direto Ramones, mas com um
toque mais apurado por conta da produção de estúdio. Reduzindo o ritmo
novamente, a balada ”Girl Friend” volta a falar sobre as meninas desejadas mas…
sem sucesso. A letra brinca com a sintaxe da palavra em inglês (olha aí Richman
mais uma vez se esmerando na poesia) juntando os dois vocábulos (“girlfriend”, namorada) ou separando-os (“girl friend”, garota amiga, justamente
com o que ele não se contenta, mas não tem coragem de confessar). Nesta, o
teclado soa como piano, dando-lhe um ar ainda mais melancólico.
Mais uma acelerada, “Modern World”, mesmo não sendo das conhecidas, é
um exemplo de rock bem feito: pulsação, melodia de voz eficiente, vocal
honesto, guitarras rasgando sem precisar de excesso de distorção. E a letra é
hilária: o rapaz, querendo convencer a garota a ir para a cama com ele, larga
um papo de que aderiu ao “mundo moderno” e à liberdade sexual. “If you'd share the modern world with me/ With me in love with the
U.S.A. now/ With me in love with the modern world now/ Put down the cigarette/
And share the modern world with me” (Se você quiser compartilhar o mundo
moderno comigo/ Comigo no amor com os EUA agora/ Comigo no amor com o mundo
moderno agora/ Largue o cigarro/ E compartilhe comigo o mundo moderno.”)
O álbum deu luzes à geração punk tanto nos Estados Unidos, como para
Talking Heads, Blondie e Television, quanto na Inglaterra, como Sex Pistols, The Clash, Jam, Buzzcocks e The Stranglers, bandas nas quais se vê claramente
toques da Modern Lovers. Várias outras, inclusive, da leva pós-punk, como The Cure, Gang of Four, Polyrock e P.I.L. beberiam também na fonte de Richman &
Cia. Se os Ramones elevaram a ideologia do “faça você mesmo” ao showbizz, revolucionando para sempre a
música pop, a The Modern Lovers, na mesma época, já dava a mensagem de que, o
importante era fazer por si próprio, sim, mas que havia espaço para refinar um
pouco aquela tosqueira toda.
.....................................................
A versão em CD lançada pelo selo Rhino em 1989 pode ser considerada a
definitiva deste álbum tão influente. Primeiro, por trazer o remaster das faixas originais do LP, evidenciando
o trabalho inteligente de Cale na mesa de som e o vigor sonoro da banda.
Segundo, porque traz faixas extras que, ao que se percebe, só não entraram na
edição de 1976 por pura falta de espaço no vinil. Estas, aliás, são fruto da
parceria do grupo com outro mestre da subversão, Kim Fowley. Ele produz duas das
melhores músicas do disco: “I’m Straight”, rock de veia blues em que,
hilariamente, um adolescente, fascinado pelo poder que rapaz tem para com as
mulheres, tenta reafirmar sua masculinidade dizendo: “Eu sou hétero” (mais uma vez, uma maravilha de rima rica de
Richman: “But I'm straight/ and I want to
take his place”). Fowley vale-se do expediente de aumentar o microfone do
vocal, fazendo com que se captem os mínimos suspiros. Junto, enche o timbre da
caixa da bateria, que estronda alta. Guitarra e baixo, em escala média, soam,
entretanto, bem audíveis, formando um som orgânico. Alguma semelhança com o
estilo de sonoridade dada por Steve Albini ao Pixies ou Nirvana não é mera coincidência.
A outra assinada por Fowley é a também muito boa: “Government Center”,
que desfecha-o CD num rock de ares de twist
mas que, pela característica da produção (as palmas acompanhando o ritmo, o moog, a marcação no baixo), remete a The
Seeds, The Sonics, The Monks e a outras garage
bands norte-americanas.
FAIXAS:
1. Roadrunner - 4:05
2. Astral Plane - 3:00
3. Old World - 4:03
4. Pablo Picasso - 4:21
5. I'm Straight - 4:18
6. Dignified And Old -
2:29
7. She Cracked - 2:56
8. Hospital (Jerry
Harrison) - 5:35
9. Someone I Care
About - 3:39
10. Girl Friend - 3:54
11. Modern World - 3:43
12. Government Center - 2:03
todas as composições de autoria
de Jonathan Richman, exceto indicada.
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OUÇA O DISCO:
por Daniel Rodrigues
domingo, 2 de agosto de 2015
Feira do Vinil – Groovaholic – Porto Alegre/RS (4/7/2015)
Nós na adorável tarde no Grovaholic
foto: Juliano Oster
|
Eu à cata dos LP's
foto: Leocádia Costa
|
Em seguida, entretanto, fui ao que mais interessava ali além
das companhias: os LP’s. Quando estive pela primeira vez enlouqueci pela
qualidade e variedade dos títulos oferecidos. Do rock anos 50, 60 e 70,
passando pela soul music e o rap anos
80 e 90 mas, principalmente, vários clássicos de jazz. Tudo em edições novas,
com arte de capa e encarte caprichados que reproduzem os originais, e gramatura
do acetato de 180 gramas. Uma finura. Desta vez, não foi diferente: muitos
títulos para escolher. No critério, esses aqui foram os que levamos pra casa:
"Crescent", John Coltrane Quartet (1963) – Dispensa apresentações. Talvez o melhor
disco do mestre Trane e seu famoso time de craques (McCoy Tyner, Elvin Jones e Jimmy Garrison), "Crescent" é nada mais nada menos que o último passo antes do
“mantra musical” "A Love Supreme". Para alguns, inclusive, passo esse já
definitivo e definidor até melhor do que o grande clássico de 1964. Tudo
é perfeito e elevado, mas as baladas! Meu amigo: que deslumbre! “Wise One” e
“Lonnie’s Lament”. Isso sem falar da grandiosa faixa-título, da homenagem a
Bessie Smith e da intensa “The Drum Thing”. Será ÁLBUNS FUNDAMENTAL certo.
"Loveless", My Bloody Valentine (1992) – Obra-prima do rock alternativo britânico, é maravilhoso
tê-lo no formato vinil. Listado entre os 30 melhores discos de rock de todos os
tempos pelo crítico musical e historiador italiano Piero Scaruffi (que também o
inclui como 1° na de shoegaze rock),
“Loveless” é uma verdadeira sinfonia das guitarras, tão distorcidas, sobrepostas
e reafinadas que, homogeneizados aos outros sons e timbres, compõem uma peça
única em que as faixas se tornam partes de um todo. Não à toa já é ÁLBUNS FUNDAMENTAL do Clyblog há horas.
“Speak no Evil!”, Wayne Shorter (1964) – Outro clássico do jazz, que completou louváveis
50 anos em 2014. Shorter, dos meus jazzistas preferidos, estava absolutamente
encantado nessa época (haja vista que cunhou outra obra-prima naquele mesmo
ano, "Night Dreamer"). Gosto muito desse disco também, em especial da faixa de
abertura, “Witch Hunt”, e a elegantérrima ”Fee-Fi-Fo-Fum” e a lânguida “Infant
Eyes”. Mas um dos motivos que me motivaram também a comprá-lo nesse formato é a
maravilhosa arte da capa de Reid Miles, para mim uma das mais geniais de todos
os tempos. Promete mais um ÁLBUM FUNDAMENTAL de Shorter.
“Black Monk Time”,
The Monks (1965) – Assim como The Sonics, The Seeds e The Troggs, os Monks são das minhas amadas garage bands
dos anos 60 que anteviram o punk. No caso deles, especificamente, o disco,
talvez o primeiro “álbum preto” da história do rock (abrindo caminho para os
vários “black” e “white” albuns que viriam depois, de Beatles a Metallica), mereceu essa
reedição é uma verdadeira preciosidade, muito bem acabada. Do sulco, sai pura corrosão!
É fantástico imaginar que essa galera (norte-americanos que, servindo na
Alemanha, gravaram-no em Berlim), travestindo-se de monges franciscanos (até no
corte de cabelo!) faziam um som tão revolucionário e agressivo. Merece muitas
audições.
por Daniel Rodrigues
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Ramones - "Ramones" (1976)
“Hey, Ho!
Let’s Go!”
Em pouco menos de uma semana e
com pouco mais de 6 mil dólares, aqueles quatro rapazes
esculhambados de calças jeans rasgadas, jaquetas de couro e cabelos
descuidados tinham mudado definitivamente a história da música.
Sim, o punk já vinha em curso, era um processo, foi o
experimentalismo, depois foi a sujeira, foi o minimalismo, o peso,
teve Kinks, Sonics, teve Doors, Velvet, Stooges, MC5, e tantos
outros, mas parece que tudo foi para que chegasse naquele ponto em
síntese e personificação. E essa materialização chamava-se Ramones.
Em seu primeiro disco, gravado meio às pressas e com o orçamento máximo que o agente da
banda Danny Fields conseguiu obter; com canções rápidas e certeiras,
poucos acordes, sem firulas, sem solos elaborados e com uma produção
bruta e tosca, os Ramones fizeram um dos discos mais importantes de
todos os tempos, pela musicalidade revolucionária, pela atitude, e
pela influência que passou a exercer dali para frente em
praticamente tudo o que se ouve (e se vê) em música pop até hoje.
Embora eu prefira o
terceiro, "Rocket to Russia", um pouco mais bem cuidado e mais
profissional, não tem como negar o valor, importância e a curtição
que é este “Ramones” de 1976.
As boas?
Todas!
Mas merecem menções especiais “Judy is a Punk” a primeira das garotas
punk dos nomes de músicas dos Ramones e que mais tarde ganharia a
companhia de outras como Sheena, Suzy e Jackie; "I Don't Wanna Walk Around With You", boa pra poguear; "I Wanna Be Your Boyfriend" que é, assim, uma espécie de canção romântica dos Ramones; e “Blitzkreig Bop”
que traz a expressão clássica que virou uma espécie de marca da
banda, “Hey, ho! Let’s Go!”.
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FAIXAS:
- "Blitzkrieg Bop" - 2:14 (Tommy Ramone, Dee Dee Ramone)
- "Beat On The Brat" - 2:31 (Joey Ramone)
- "Judy Is A Punk" - 1:32 (Joey Ramone, Dee Dee Ramone)
- "I Wanna Be Your Boyfriend" - 2:24 (Tommy Ramone)
- "Chain Saw" - 1:56 (Joey Ramone)
- "Now I Wanna Sniff Some Glue" - 1:35 (Dee Dee Ramone)
- "I Don't Wanna Go Down To The Basement" - 2:38 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone)
- "Loudmouth" - 2:14 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone)
- "Havana Affair" - 1:56 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone)
- "Listen To My Heart" - 1:58 (Ramones)
- "53rd & 3rd" - 2:21 (Dee Dee Ramone)
- "Let's Dance" - 1:51 (Jim Lee)
- "I Don't Wanna Walk Around With You" - 1:42 (Dee Dee Ramone)
- "Today Your Love, Tomorrow The World" - 2:12 (Ramones)
*********************************************
Ouvir:
terça-feira, 5 de março de 2013
Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS
E chegamos ao ducentésimo Álbum Fundamental aqui no clyblog .
Quem diria, não?
Quando comecei com isso ficava, exatamente, me perguntando
até quantas publicações iria e hoje, pelo que eu vejo, pelos grandes discos que
ainda há por destacar, acredito que essa brincadeira ainda possa ir um tanto
longe.
Nesse intervalo do A.F.
100 até aqui, além, é claro, de todas as obras que foram incluídas na
seção, tivemos o acréscimo de novos colaboradores que só fizeram enriquecer e
abrilhantar nosso blog. Somando-se ao Daniel Rodrigues,
Edu Wollf , Lucio Agacê e José Júnior,
figurinhas carimbadas por essas bandas, passaram a nos brindar com seus
conhecimentos e opiniões meu amigo Christian Ordoque
e a querida Michele
Santos, isso sem falar nas participações especiais de Guilherme Liedke, no número
de Natal e de Roberto Freitas, nosso Morrissey cover no último post, o de número 200.
Fazendo uma pequena retrospectiva, desde a primeira
publicação na seção, os ‘campeões’ de ÁLBUNS
FUNDAMENTAIS agora são 5, todos eles com 3 discos destacados: os Beatles,
os Rolling
Stones, Miles
Davis , Pink
Floyd e David
Bowie , já com 2 resenhas agora aparecem muitos, mas no caso dos
brasileiros especificamente vale destacar que os únicos que tem um bicampeonato
são Legião
Urbana, Titãs,
Caetano
Veloso, Gilberto
Gil, Jorge
Ben, Engenheiros
do Hawaii e João
Gilberto, sendo um deles com o músico americano Stan Getz. A propósito de
parcerias como esta de Getz/Gilberto,
no que diz respeito à nacionalidade, fica às vezes um pouco difícil estabelecer
a origem do disco ou da banda. Não só por essa questão de parceiros mas muitas
vezes também pelo fato do líder da banda ser de um lugar e o resto do time de
outro, de cada um dos integrantes ser de um canto do mundo ou coisas do tipo.
Neste ínterim, nem sempre adotei o mesmo critério para identificar o país de um
disco/artista, como no caso do Jimmi
Hendrix Experience, banda inglesa do guitarrista norte-americano, em que
preferi escolher a importância do membro principal que dá inclusive nome ao
projeto; ou do Talking
Heads, banda americana com vocalista escocês, David Byrne, que por mais que
fosse a cabeça pensante do grupo, não se sobrepunha ao fato da banda ser uma
das mais importantes do cenário nova-iorquino. Assim, analisando desta forma e
fazendo o levantamento, artistas (bandas/cantores) norte-americanos apareceram
por 73 vezes nos ÁLBUNS
FUNDAMENTAIS, os ingleses vem em segundo com 53 aparições e os brasileiros
em, 3º pintaram 36 vezes por aqui.
Como curiosidade, embora aqueles cinco destacados
anteriormente sejam os que têm mais álbuns apontados na lista, o artista que
mais apareceu em álbuns diferentes foi, incrivelmente, Robert Smith do The Cure, por 4 vezes,
pintando nos dois da própria banda ("Disintegration" e "Pornography"),
em um tocando com Siouxsie
and the Banshees e outra vez no seu
projeto paralelo do início dos anos ‘80, o The
Glove. Também aparece pipocando por aqui e por ali John Lydon, duas vezes
com o PIL
e uma com os Pistols;
Morrissey,
duas vezes com os Smiths e
uma solo; Lou Reed uma vez com o Velvet e outras duas solo; seu parceiro de Velvet underground, John Cale uma com a banda e outra solo; Neil
Young , uma vez solo e uma com Crosby,
Stills e Nash; a turma do New Order em seu "Brotherhood"
e com o 'Unknown
Pleasures" do Joy Division; e Iggy Pop 'solito' com seu "The Idiot" e com os ruidosos Stooges. E é claro, como não poderia deixar de ser,
um dos maiores andarilhos do rock: Eric Clapton, por enquanto aparecendo em 3 oportunidades,
duas com o Cream
e uma com Derek
and the Dominos, mas certamente o encontraremos mais vezes. E outra pequena particularidade, apenas para constar, é que vários artistas tem 2 álbuns fundamentais na lista (Massive Attack, Elvis, Stevie Wonder, Kraftwerk) mas apenas Bob Dylan e Johnny Cash colocaram dois seguidos, na colada.
No tocante à época, os anos ‘70 mandam nos A.F. com 53 álbuns;
seguidos dos discos dos anos ‘80 indicados 49 vezes; dos anos ‘90 com 43 aparições;
40 álbuns dos anos ‘60; 11 dos anos ‘50; 6 já do século XXI; 2 discos destacados dos
anos ‘30; e unzinho apenas dos anos ‘20. Destes, os anos campeões, por assim
dizer são os de 1986, ano
do ápice do rock nacional e 1991, ano do "Nevermind"
do Nirvana, ambos com 10 discos cada; seguidos de 1972, ano do clássico "Ziggy
Stardust" de David Bowie, com 9 aparições incluindo este do Camaleão; e
dos anos do final da década de ‘60 (1968 e 1969) cada um apresentando 8 grandes
álbuns. Chama a atenção a ausência de obras dos anos ‘40, mas o que pode ser,
em parte, explicado por alguns fatores: o período de Segunda Guerra Mundial, o
fato de se destacarem muitos líderes de orquestra e nomes efêmeros, era a época
dos espetáculos musicais que não necessariamente tinham registro fonográfico, o
fato do formato long-play ainda não ter sido lançado na época, e mesmo a
transição de estilos e linguagens que se deu mais fortemente a partir dos anos
50. Mas todos esses motivos não impedem que a qualquer momento algum artista
dos anos ‘40 (Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Cole Porter) apareça por aqui
mesmo em coletânea, como foi o caso, por exemplo, das remasterizações de Robert
Johnson dos anos ‘30 lançadas apenas no início dos anos 90. Por que não?
Também pode causar a indignação aos mais 'tradicionais', por assim chamar, o fato de uma
época tida como pobre como os anos ‘90 terem supremacia numérica sobre os
dourados anos 60, por exemplo. Não explico, mas posso compreender isso por uma
frase que li recentemente de Bob
Dylan dizendo que o melhor de uma década normalmente aparece mesmo, com
maior qualidade, no início para a metade da outra, que é quando o artista está
mais maduro, arrisca mais, já sabe os caminhos e tudo mais. Em ambos os casos,
não deixa de ser verdade, uma vez que vemos a década de 70 com tamanha vantagem
numérica aqui no blog por provável reflexo da qualidade de sessentistas como os
Troggs
ou os Zombies,
por exemplo, ousadia de Sonics, Iron Butterfly,
ou maturação no início da década seguinte ao surgimento como nos caso de Who
e Kinks.
Na outra ponta, percebemos o quanto a geração new-wave/sintetizadores do
início-metade dos anos ‘80 amadureceu e conseguiu fazer grandes discos alguns
anos depois de seu surgimento como no caso do Depeche
Mode, isso sem falar nos ‘filhotes’ daquela geração que souberam assimilar
e filtrar o que havia de melhor e produzir trabalhos interessantíssimos e
originais no início da década seguinte (veja-se Björk,
Beck, Nine
Inch Nails , só para citar alguns).
Bom, o que sei é que não dá pra agradar a todos nem para
atender a todas as expectativas. Nem é essa a intenção. A idéia é ser o mais
diversificado possível, sim, mas sem fugir das convicções musicais que me
norteiam e, tenho certeza que posso falar pelos meus parceiros, que o mesmo
vale para eles. Fazemos esta seção da maneira mais honesta e sincera possível, indicando
os álbuns que gostamos muito, que somos apaixonados, que recomendaríamos a um
amigo, não fazendo concessões meramente para ter mais visitas ao site ou atrair
mais público leitor. Orgulho-me, pessoalmente, de até hoje, no blog, em 200
publicações, de ter falado sempre de discos que tenho e que gosto, à exceção de
2 ou 3 que não tenho em casa mas que tenho coletâneas que abrangem todas as
faixas daquele álbum original, e de 2 que sinceramente nem gostava tanto mas
postei por consideração histórica ao artista. Fora isso, a gente aqui só faz o
que gosta. Mas não se preocupe, meu leitor eventual que tropeçou neste blog e
deu de cara com esta postagem, pois o time é qualificado e nossos gostos
musicais são tão abrangentes que tenho certeza que atenderemos sempre, de
alguma maneira, o maior número de estilos que possa-se imaginar. Afinal, tudo é
música e, acima de tudo, nós adoramos música.
Cly Reis
PLACAR POR ARTISTA:
- The Beatles: 3 álbuns
- The Rolling Stones: 3 álbuns
- David Bowie: 3 álbuns
- Miles Davis: 3 álbuns
- Pink Floyd: 3 álbuns
- Led Zeppelin; Massive Attack, Elvis Presley, Siouxsie and the Banshees; Nine Inch Nails, The Who; The Kinks; U2; Nirvana; Lou Reed; The Doors; Echo and the Bunnymen; Cream; Muddy Waters; Johnny Cash; Stevie Wonder; Van Morrison; Deep Purple; PIL; Bob Dylan; The Cure; The Smiths; Jorge Ben; Engenheiros do Hawaii; Caetano Veloso; Gilberto Gil; Legião Urbana; Titãs e João Gilberto: 2 álbuns
PLACAR POR DÉCADA:
- Anos 20: 1 álbum ("Bolero", Maurice Ravel)
- Anos 30: 2 álbuns ("The Complete Recordings", Robert Johnson e "Carmina Burana", de carl Orff)
- Anos 50: 11 álbuns
- Anos 60: 40 álbuns
- Anos 70: 53 álbuns
- Anos 80: 49 álbuns
- Anos 90: 43 álbuns
- Anos 00: 6 álbuns
PLACAR POR ANO:
- 1986 e 1991: 10 álbuns
- 1972: 9 álbuns
- 1968 e 1969: 8 álbuns
- 1987 e 1969: 7 álbuns
PLACAR POR NACIONALIDADE (ARTISTAS):
- EUA: 73
- Inglaterra: 53
- Brasil: 36
- Irlanda: 4
- Escócia: 3
- Alemanha: 2
- Canadá: 2
- Suiça; Jamaica; Islândia; França; País de Gales; Itália e Austrállia: 1 cada
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
The Troggs - "From Nowhere" (1966)
"troglodita".
Nos anos 60, muitos jovens, motivados pelo boom Beatles / Stones, montaram seu próprio conjunto para fazer versões de standards do blues e inventar canções próprias. Algumas alcançaram status e sucesso, como Yardbirds, Monkees e Byrds. Mas tinha a turma mais obscura em meio a toda aquela luminosidade estelar. Uma galera que, com pouca grana tanto para comprar bons instrumentos quanto para vestir os caros terninhos mods, juntava-se para ensaiar na garagem da casa de algum dos integrantes (provavelmente, quando os pais iam ao cinema) e, com muita vontade de tocar e criar, produzia alguns dos melhores sons que o rock já ouviu. É o caso do The Troggs, banda britânica que, com seu álbum de estreia, “From Nowhere”, influenciou, em música e postura, do punk ao metal.
Formada por Reg Presley (vocais), Chris Britton (guitarra), Pete Staples (baixo) e Ronnie Bond (bateria), a banda saiu da pacata cidade sulista de Andover para gravar seus primeiros compactos pelas mãos do empresário Larry Page, o mesmo do The Kinks. E não foi coincidência, afinal, tanto um grupo quanto outro fazia a linha rebelde, uma resposta às carinhas de bons moços dos Fab Four. A afronta já começava pelos nomes: um, selvagem e irreverente (The Troggs: “Os Trogloditas”); o outro, insinuante e debochado (The Kinks: “Os Pervertidos”). Faziam, além disso, um rock sujo, guitarrado, de bases simples e compasso acelerado. Quase punk.
Assim são, em “From Nowhere”, as versões de “Ride Your Pony”, “Jaguar and Thunderbird” e do clássico pré-punk “Louie Louie” – que, para uma garage band que se prestasse, não podia faltar! O vocalista, nascido Reginald Ball, autor da maioria do repertório e um grande blueser, pegou emprestado o sobrenome de Elvis com merecimento. É ele que dá o tom criativo de cada faixa, apresentando um cardápio variado do melhor blues-rock. São dele as melhores, como “Our Love Will Still Be There”, marcada no baixo e com frases de guitarra superdistorcida, “Lost Girl”, intensa e bruta, e “I Just Sing”, de ritmo tribal e um moog psicodélico na medida certa.
Entre blues quentes (“Evil”, "The Yella In Me") e boas baladas para conquistar as gatinhas (When I’m With You”), o Troggs manda ver na incrível “Your Love”, com uma bateria impressionantemente possante (algo raríssimo para os limitados recursos técnicos dos estúdios da época) e um matador riff de guitarra de apenas quatro notas. Estava ali uma fórmula diferente do rock de então, mais tosco, mais direto, mais agressivo. Quase punk.
“From Nowere” traz, porém, duas joias. A primeira delas é a marcante faixa de abertura: “Wild Thing”, versão para a música de Chip Taylor que virou a tradução do espírito rebelde e rocker da banda (“Wild thing/ You make my heart sing”). Maior sucesso comercial do grupo, abre com um acorde alto e distorcido de guitarra que se esvanece feito uma serpentina, mostrando de cara que eles não vinham pra brincadeira. Combinação de notas simples e um ritmo forte e marcado que já prenunciava o rock pogueado dos punks. Daquelas de ouvir balançando a cabeça. Detalhe interessante é o inventivo solo de flauta doce, que lhe dá um interessante exotismo medieval.
A outra grande do disco é mais uma de Presley: “From Home”. Se a música “Peaches en Regalia”, do Frank Zappa, foi capaz de, sozinha, motivar a criação de uma das duas mais importantes bandas de hard rock de todos os tempos, o Deep Purple, esse petardo do Troggs foi responsável por originar, nada mais, nada menos, do que a outra grande banda do rock pesado mundial: o Black Sabbath. Com o mesmo clima ritualístico de “Lost Girl”, mas adicionando agora um vocal rasgado e guitarras BEM distorcidas flutuando sobre tudo (igual ao que o heavy metal usaria largamente anos depois), “From Home”, confessadamente inspiração para a formação do Sabbath, traz aquela atmosfera macabra do som feito por Ozzy Osbourne e Cia. – e isso quatro anos antes de lançarem seu primeiro LP!
Se o Black Sabbath bebeu na fonte do Troggs, o que dizer, então, de Stooges, Dr. Feelgood, Modern Lovers? Junto com outras importantes bandas de garagem da época, como The Sonics, The Seeds e The Chocolate Watch Band, eles deram, com seu rock visceral, como que vindo das cavernas, as bases para aquilo que explodiria em Nova York e Londres nos anos 70 com o movimento punk, influenciando toda uma geração. Ah, se não fosse esses abençoados trogloditas!...
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FAIXAS:
1. "Wild Thing" (Taylor) - 2:34
2. "The Yella In Me" (Presley) - 2:38
3. "I Just Sing" (Presley) - 2:09
4. "Hi Hi Hazel" (Martin/Coulter) - 2:43
5. "Lost Girl" (Presley) - 2:31
6. "The Jaguar And The Thunderbird" (Berry) - 2:01
7. "Your Love" (Page/Julien) - 1:52
8. "Our Love Will Still Be There" (Presley) - 3:08
9. "Jingle Jangle" (Presley) - 2:26
10. "When I'm With You" (Presley) - 2:23
11. "From Home" (Presley) - 2:20
12. "Louie Louie" (Berry) - 3:01
13. "The Kitty Cat Song" (Roach/Spendel) - 2:11
14. "Ride Your Pony" (Neville) - 2:24
15. "Evil" (Singleton) - 3:13
16. "With A Girl Like You" (Presley) - 2:05*
17. "I Want You" (Page/Frechter) - 2:13*
18. "I Can't Control Myself" (Presley) - 3:03*
19. "Gonna Make You" (Page/Frechter) - 2:46*
20. "As I Ride By" (Bond) - 2:02*
* Faixas bônus
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Ouça:
The Troggs From Nowhere
por Daniel Rodrigues
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