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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Medéia, A Feiticeira do Amor", de Pier Paolo Pasolini (1969) vs. "Medéia", de Lars Von Trier (1988)




Jogaço!!!
A tetracampeã mundial, a Itália, não estará na copa do Mundo de futebol, mas aqui no nosso embate cinefutebolístico encara a Dinamarca que, no Catar, com a bola nos pés vai tentar, mais uma vez, escrever seu nome entre as grandes.
Mas aqui no Clássico é Clássico temos dois grandes times, dois grandes treinadores. Ousados, agressivos, polêmicos. Um com um futebol mais plástico, outro com um jogo mais cru, mas ambos extremamente competentes e destacados entre os grandes em sua atividade. O italiano Pier Paolo Pasolini, vencedor, entre outras premiações, do Urso de Ouro em Berlim, por seu "Contos de Canterbury", em 1972; e Lars Von Trier, também multipremiado, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2000, por "Dançando no Escuro".
Os dois, às suas épocas, adaptaram a peça do grego Eurípides, "Medéia", na qual a protagonista, depois de levada de seu reino e desposada por Jasão, algum tempo depois, é preterida pelo marido em favor da filha do rei de Corinto. Abandonada, humilhada, Medeia dotada de faculdades místicas, antes de ser banida pelo Rei Creonte, usa de seus feitiços para se vingar do esposo, matando sua nova noiva e até os próprios filhos que tivera com Jasão.
Pasolini parte de um pouco antes e conta a história desde a tomada do Velocino de Ouro, artefato supostamente mágico, reivindicado pelo rei de Lolcos como condição para restituir a Jasão o trono que lhe seria de direito. Já Trier começa pelo momento do exílio de Medéia, quando seu amado cai de encantos por Creusa, a princesa de Corinto.


"Medéia" (1969) - trailer

O trailer original era demasiadamente recortado, alegórico e desconexo, 
deste modo, optei por um trailer alemão que,
mesmo em uma língua mais estranha para nós brasileiros, dá uma ideia melhor de
alguns elementos do filme, como os cenários, figurinos, fotografia, além de alguma noção das atuações.


"Medéia" (1988) - cenas

Não consegui um trailer completo de "Médeia", de Lars Von Trier, provavelmente por ter sido um projeto originalmente feito para TV.
No entanto essa compilação de cenas dá uma ideia das escolhas cinematográficas e da estética proposta pelo diretor.


A vingança no filme de Pasolini se dá pelos trajes enviados por Medéia à princesa, sob pretexto de presentes de casamento, mas que, vestidos pela jovem noiva, entram em combustão e obrigam Creusa, em desespero a se jogar do alto do castelo, seguida pelo pai Creonte. Já na do diretor dinamarquês, igualmente fingindo de conformada com a situação do ex-marido, Medéia envia para a rival uma espécie de tiara, uma guirlanda, à qual, usando de suas artes mágicas, envenenara as partes agudas às quais espetando o dedo da nova noiva de Jasão, a leva à morte, bem como ao pai, que em desespero pela morte da filha, crava uma ponta da tiara em si propositalmente.
O interessante é que na peça de Eurípedes constam os dois itens, as vestes e a coroa, mas, curiosamente, cada um decidiu usar de um dos artifícios. E ambos o fizeram de maneira brilhante. A cena da jovem em chamas pelo jardim do castelo é espetacular! Bem como a tensão quase silenciosa do preparo da substância, a aplicação no denteado da peça, o arranhão no cavalo, a entrega do presente à amada de Jasão, a corrida desenfreada do cavalo concomitante ao espetar no dedo... Tudo incrível!!!
A seguir, outra diferença (aqui tem spoiler, caso alguém não conheça a história): no filme italiano, depois de usar os filhos para levar os "presentes" à inimiga, assim que eles retornam para casa, Medéia, calmamente os atende, lhes dá banho carinhosamente e mata a ambos com um punhal, ateando fogo à casa logo em seguida. Lars Von Trier ousa mais: depois do retorno dos meninos do castelo real, onde entregaram o regalo envenenado, ela foge com os filhos para um lugar bem afastado do reino e, numa sequência ao mesmo tempo chocante e belíssima esteticamente, enforca os dois filhos em uma árvore. 
No primeiro filme Jasão, sem poder alcançá-la, por conta das chamas (e na lenda, pelo fato da feiticeira estar elevada e protegida por Helios, o deus sol), clama para que Medéia, ao menos lhe entregue os corpos dos filhos para que os sepulte; na refilmagem, depois de encontrar os filhos pendurados na árvore, Jasão, sob efeito de uma de suas feitiçarias, corre em círculos infinitamente procurando Medéia enquanto ela foge numa nau para Atenas.  
Duas obras de arte!
Pasolini tem cenários impressionantes, locações exóticas da Capadócia, enquanto Trier traz ambientes opressivos e sombrios; a fotografia de Pasolini é arenosa, acre, árida, ao passo que a de Trier é nebulosa, cinzenta; os figurinos do italiano são extravagantes, pesados, trajes típicos das regiões da antiga Pérsia; os do dinamarquês são discretos, minimalistas, sóbrios. Se a Medéia de Pasolini é, ninguém menos que Maria Callas, o Jasão de Trier é o lendário Udo Kier. Ninguém leva vantagem!
Um dos maiores jogos do nosso certame cinefutebolístico.




Aqui, algumas imagens comparativas:
(sempre o filme de 1969 à esquerda, e o de 1988 à direita)
Na primeira imagem, a fotografia árida e as belas locações da Turquia, do primeiro filme,
e a atmosfera soturna do remake.
Na segunda linha, o interior de um castelo e os figurinos exóticos,
comparados à fotografia diáfana e indefinida do outro.
No centro, Medéia, em ambos os casos em uma cena externa:
a profundidade e a perspectiva do segundo filme são impressionantes.
Depois, os intérpretes de Jasão: o primeiro Giuseppe Gentile, ex-atleta,
mais belo, como Pasolini gostava, é claro,
mas do outro lado Udo Kier dava um show de talento.
E por último, as duas protagonistas:
A competente Kirsten Olesen, discreta, correta, dá conta do recado
mas Maria Callas, além de lindíssima, encarna a personagem de forma muito intensa e convincente
Craque de bola!



"Medéia", de Pier Paolo Pasolini é um clássico, mas o mesmo vale para a "Medéia", de Lars Von Trier. 
Dessa vez, sim, pode-se dizer que clássico é clássico e vice-versa.




por Cly Reis

domingo, 10 de maio de 2020

Mãe é Mãe - Algumas das Mães Mais Marcantes do Cinema


Todo mundo tem mãe e, como não podia deixar de ser, no cinema, todo personagem tem mãe. Muitas vezes elas não são mencionadas, não aparecem, são secundárias, não tem sequer relação com a história, mas sabemos que elas existem. Contudo, em outros casos, elas são tão essenciais ou têm participação tão destacada na trama que é impossível não lembrar delas. o ClyBlog destaca algumas dessas mães aqui. Sei que cometeremos injustiças, vai faltar uma que outra, alguém vai dizer que essa ou aquela não podia faltar, mas procuramos fazer uma lista interessante e heterogênea em características, estilos, época, nacionalidade, ambiente, gênero cinematográfico, etc.
Então, vamos à lista:
* (Cuidado! Pode conter spoilers)


************


Ela, inatingível, pairando sobre tudo.
1. "O Espelho", de Andrey Tarkovski (1975) - Para mim, desde que vi pela primeira vez, "O Espelho", filme semiautobiográfico do diretor russo Andrei Tarkovski, representa uma obra sobre mães. No filme Maria (Margarita Terekova), uma mãe abandonada pelo marido, voluntário para o exército, vive com seus dois filhos em uma propriedade campestre e ali acompanhamos parte do cotidiano desse núcleo familiar corajosamente conduzido por uma mulher. Filme cheio de simbologias e metáforas, embora traga elementos como infância, saudade, nostalgia e seja passível de diversas interpretações, para mim, é a maternidade o elemento que mais chama atenção e emociona. O olhar e as imagens sempre poéticas de Tarkovski mostram aquela mulher como uma espécie de entidade superior, uma criatura inabalável, altiva, incólume, impenetrável, mesmo com o mundo desabando à sua volta. A cena de sonho em que ela flutua, elevada da cama, confere a ela ares de divindade, de magia, de alguém com um poder inexplicável que talvez até ela mesmo desconheça. E, na maioria das vezes, não é bem assim que são nossas mães?



2. "Psicose", de Alfred Hitchcock (1960) - Esse é o caso de uma mãe que é fundamental para a trama mas, na verdade, não está presente fisicamente o tempo inteiro durante o filme. 
Hitchcock, genial como era, até nos deixa com a pulga atrás da orelha num primeiro momento, sugerindo alguma farsa ou assombração, uma vez que nos tornando conhecedores do fato que a mãe do dono do motel, Norman Bates, está morta, faz aparecer um vulto feminino na janela da casa, nos deixa ouvir uma bronca de voz feminina envelhecida no filho Norman e, por fim mostra-nos uma senhora de cabelos brancos e coque esfaqueando a cliente loura no chuveiro, numa das cenas mais clássicas do cinema. "Como assim?", pergunta-se o espectador de primeira viagem. Acho que não  vou dar *spoiler porque a essas alturas, mesmo quem não  viu, está  cansado de saber que é o próprio Norman que, perturbado e esquizofrênico assume o papel da mãe, vestindo-se como ela e punindo quem quer que seja que venha a despertar algum tipo de desejo no reprimido Norman.
É  incrível mas uma das mães  mais célebres  do cinema, não está verdadeiramente no filme. Loucura!

"Psicose" e sua famosa cena do chuveiro.








3. "O Bebê de Rosemary", de 
Roman Polanski (1968) - Rosemary (Mia Farrow) é uma futura mãe que pressente uma ameaça ao filho que ainda está  em sua barriga, vinda de seus vizinhos, um casal de velhotes estranhos e enxeridos e, por incrível que pareça, de seu próprio marido. Tudo começa quando se mudam para o novo apartamento, conhecem os vizinhos e não muito tempo depois, o esposo, um ator pouco valorizado, ganha um papel importante em um filme em virtude da morte do ator que interpretaria o papel. O marido passa agir estranhamente, os velhos passam a estar constante e inconscientemente presentes em sua casa e sua vida e até mesmo administram à grávida uma estranha dieta à base de algumas ervas de origem e efeitos duvidosos. Aos poucos Rosemary, fragilizada física  e emocionalmente, começa a desconfiar estar sendo vítima de alguma espécie de seita para a qual o bebê que leva dentro de si, provavelmente, virá a ser elemento chave.
Paranoia, imaginação, ansiedade, fantasia, reflexo de sua fraqueza física, estresse da gravidez? Exagero ou não, essa mãe vai brigar até o último instante para proteger seu filho de algo que, na verdade, nem ela sabe bem ao certo do que se trata mas que, pelo que vai se apresentando a ela, parece algo muito, muito maligno.




4. "Sexta-Feira Muito Louca", de Mark Walters (2003) - Quantas vezes já não ouvimos que só estando no lugar da outra pessoa para saber como ela se sente, não? Pois é, "Sexta-Feira Muito Louca" promove essa possibilidade justamente em uma relação de uma mãe e uma filha. Relação difícil, intolerância, falta de compreensão mútua... Só mesmo uma troca de corpos para fazer com que cada uma perceba as dificuldades da vida da outra. E nessa confusão quem sai ganhando é o espectador com situações muito divertidas, com Jamie Lee Curtis fazendo uma adolescente no corpo de uma "coroa", e da maluquete Lindsay Lohan curtindo uma de senhora responsável presa num corpo de garota de colégio. Mamãe vai entender, ou talvez lembrar, que existe pressão por notas, coleguinhas implicantes e insuportáveis, professores chatos, paqueras, necessidade de privacidade, tempo para lazer, etc. e talvez, a partir de tudo isso, se remodelar; e a filhota vai perceber que ser mãe, ter obrigações, preocupações, casa, trabalho, e, principalmente filhos aborrecentes, não é tarefa para qualquer uma.



 
Mães e filhas e suas histórias.
5. 
“Clube da Felicidade e da Sorte”, de Wayne Wang (1993) – Filme emocionante sobre mulheres que foram filhas, se tornaram mães e viram as filhas se tornarem mães.
Quatro chinesas com histórias diferentes em seu país de origem, vão parar nos Estados Unidos e lá constroem famílias, se conhecem e tornam-se grandes amigas. Muitos anos depois, após a morte de uma delas, Suyuan, é revelado à sua filha June, que as filhas gêmeas que a mãe tivera na China e que abandonara bebês durante a guerra em circunstâncias pouco esclarecidas, às quais todos acreditavam não terem sobrevivido, estavam, sim, vivas e dispostas a conhecê-la. Então, a festa de despedida de June, que embarcará para a China para conhecer as irmãs, serve de pano de fundo para conhecermos as histórias de vida de cada uma delas, de suas dificuldades na China, das particularidades das relações com suas próprias filhas quando crianças, e dos problemas da vida adulta destas como mulheres.
Traumas, reminiscências, roupa-suja, desabafos, remorsos, sacrifícios, esqueletos dentro do armário são trazidos à tona em momentos chave do filme de modo a preencher lacunas em aberto e colocar as coisas nos seus devidos lugares e apenas reafirmar aquilo que todos sabemos: que ela pode ter todos os defeito que tiver, mas que não existe ninguém como a mãe da gente.



6. "Dançando no Escuro", de Lars Von Trier (2000) - Tudo o que Selma queria era guardar um dinheirinho para fazer a cirurgia de olhos de seu filho para que ele não acabasse como ela, quase sem enxergar nada, uma vez que herdara dela a doença progressiva de perda de visão. Mas um vizinho, um policial proprietário do terreno onde ela vive num trailer com o filho, descobre sobre o dinheiro e rouba as economias da pobre coitada que, além de tudo, acabara de ser demitida da fábrica onde trabalhava. Tentando recuperar seu dinheiro, Selma acaba matando o vizinho e é presa por isso. Uma história dura, dramática, pesada, é verdade. Mas a vida de Selma, de certa forma, é embalada e seus momentos difíceis amenizada pela música. Amante dos musicais cinematográficos, Selma foge mentalmente de sua realidade imaginando estar em cenas de filmes musicais onde tudo à sua volta suscita sons e canções, desde as máquinas da metalúrgica onde trabalha ou mesmo passos, enquanto é levada pelos guardas na cadeia.
Filme do sempre controverso , com atuação brilhante da cantora Björk, no papel da protagonista, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.
Eis uma mãe que deu cada centavo de seu trabalho e fez tudo que estava a seu alcance pelo bem do filho. Até as últimas consequências.

"Dançando no Escuro", 107 passos




A maluca mãe de Carrie, disposta tudo para
que a filha continue pura.
7. "Carrie, A Estranha", de Brian De Palma (1976) - Não tem como falar em mães no cinema e não lembrar da maluca, crente e super-protetora mãe de Carrie White. Fanática religiosa, Margareth mantém a filha afastada e alienada em relação ao mundo que a rodeia, expondo a jovem a constrangimentos diários como, por exemplo, o do início do filme em que se desespera por ter menstruado e é ridicularizada pelas outras meninas no vestiário da escola. Ah, mas não é uma boa ideia zoar com uma garota como Carrie com poderes psicocinéticos que se manifestam especialmente quando ela se altera emocionalmente, e essa galera que adora tocar um terror nos outros, vai entender isso da forma mais dolorosa possível.
Uma das garotas do bullying no vestiário, verdadeiramente arrependida e na boa intenção de se redimir com Carrie, convence o namorado, os gostosão da escola, a convidá-la para o baile, de modo que a esquisitinha se enturme, socialize. A mãe, brilhantemente vivida por Piper Laurie, tenta evitar de todas as maneiras que a filha vá, utilizando-se de seus argumentos religiosos, chantagens psicológicas e sua por fim de sua autoridade de mãe, mas Carrie, decidida a viver pelo menos um dia de sua vida, começa a mostrar seus poderes em casa, contra a própria mãe e termina de fazê-lo na festa, onde vítima de um trote de muito mau gosto, do restante da turminha da pesada, proporciona um banho de sangue em uma das cenas mais marcantes da história do cinema.

A velha podia ser louca, mas não dá pra dizer que ela não avisou.



Sarah Connor não vai permitir que robô nenhum 
se meta com seu filho.
8. "O Exterminador do Futuro II – O Julgamento Final", de James Cameron (1991) - Tá certo que no início, lá no primeiro filme, por mais que tivesse sido informada por um carinha do futuro que seria a mãe de um líder da resistência humana numa guerra contra as máquinas, Sarah Connor estava mais interessada era em salvar a própria pele do que de um bebê que, a bem da verdade, ela nem tinha certeza se viria a existir mesmo. Mas a partir do momento que se convenceu, da pior forma possível, depois de ter sido perseguida por um ciborgue sanguinário e impiedoso, de que o papo de apocalipse das máquinas era quente, foi determinada em ter a criança e, no pouco tempo em que teve com ele antes de ser internada num hospital psiquiátrico, em treiná-lo e prepará-lo para cumprir seu destino no front dos humanos contra as máquinas.
Durante todo o tempo em que esteve mantida no manicômio penitenciário por ter destruído uma fábrica de eletrônicos e alegar que o fizera porque um robô exterminador teria vindo do futuro para matá-la e a seu filho, Sarah (Linda Hamilton) sempre ficou pensando numa maneira de sair dali para proteger o filho. A desconfiança que o garoto tem, posteriormente no filme, quando a resgata do hospício, de que a mãe está mais preocupada com a humanidade do que com ele, não demora para se desfazer diante de toda o amor com que ela o protege.
Ela é fria é pragmática, objetiva, dura, durona, mas não poderia ser de outra maneira quando se sabe que seu filho, além de já ser naturalmente importante somente por ser seu filho, pode ser a salvação da humanidade.




9. "Leonera", de Pablo Trapero (2008) - Circunstância estranhas... Um homem morto, outro ferido, uma mulher inconsciente. Um dos dois seria o assassino? Teria sido uma quarta pessoa? Por que não ela não lembra de nada? Teria sido drogada? Ou não quer lembrar? O fato é que nesse mistério todo, a garota é quem vai parar na cadeia, só que grávida como se encontra, é enviada a uma instituição onde é permitido que as internas tenham lá seus bebês e depois permaneçam com as crianças no presídio, até os 4 anos de idade. Revoltada com a gravidez, relutante e resistente em ter o filho, num primeiro instante, Julia Zarate (Martina Gusmán), aos poucos vai sendo conquistada pelo seu pequeno rebento e seu instinto e amor de mãe acabam prevalecendo, fazendo dela uma mãe atenciosa e carinhosa, mesmo dentro daquele ambiente prisional.
O lugar, mesmo com as características tradicionais de uma instituição carcerária, em muitos momentos acaba parecendo uma creche e a presença das crianças acaba iluminando um pouco o lugar e garantindo-lhe, de certa forma, sempre um rasgo de alegria e esperança.
Só que em meio às situações corriqueiras de um presídio, envolvimentos íntimos, desavenças com outras internas, visitas do advogado, audiências de apelação, Julia vê-se às voltas com as investidas de sua mãe para levar o neto dali daquele ambiente que considera pouco apropriado para a criação  de uma criança. Sob pretexto de tratar um resfriado do menino, a avó consegue convencer a mãe a tirá-lo de lá, em princípio, apenas para uma consulta médica, com a promessa de levá-lo de volta. Só que isso não acontece e aí Julia vai fazer de tudo para ter seu filho de volta.
Filme de uma mãe que até hesita um pouco no ofício divino que lhe é concedido mas que a partir do momento que se sente mãe, não vai deixar que ninguém tire isso dela. Uma leoa que protege sua cria a qualquer custo.




10. Kill Bill – vol.2”, de Quentin Tarantino (2004) – No final do volume 1 é revelado, apenas para o espectador, que a criança que a noiva baleada na cabeça num massacre numa igrejinha de interior, sobrevivera à chacina. Recuperada de um coma de quatro anos, a mãe, uma assassina treinada que não perdera seus instintos mortais, depois de se vingar de parte do grupo que tentara matá-la, vai agora em busca do líder e ex-amante, Bill. O tempo inteiro, a grande motivação da vingança de Beatrix Kiddo (Uma Thurman), também conhecida como a Mamba Negra, é o fato de terem-lhe tirado seu bebê, tanto que a primeira coisa que faz quanto desperta do coma, sem noção de quanto tempo estivera ali, é levar a mão à barriga e perceber que não tem mais ali a criança. Aquela é a vingança de uma mãe. Cada um que sucumbe a ela paga pelo fato de terem lhe tirado a oportunidade de poder ter um filho, estar perto da criança, curtir cada momento. Ah, todos terão que pagar por isso! O que ela não contava é que, às portas de seu confronto final, ao encontrar Bill, encontraria também uma graciosa menina, doce, dengosinha e com carinha de anjo. Ah, amigos, ela desaba! A determinação com que ela adentra a vila onde habita o algoz, de arma em punho, pronta para aniquilar o homem que lhe causara tanto sofrimento e privação, é completamente desestruturada assim que vê a menina.
Ele, cavelheiresco como é, apesar de seu ofício, permite a elas algumas horas juntas antes do inevitável duelo final entre os dois, que serão os momentos mais gostosos e bem aproveitados por aquela mãe. Horas que valerão por anos, até porque, ela não sabe o que acontecerá assim que sair daquele quarto e colocar sua espada Hatori Hanzo em ação contra a de seu oponente, o tão perseguido, Bill.



11. “Volver”, de Pedro Almodóvar (2003)Almodóvar gosta de destacar mulheres em seus filmes e não raro, trata especificamente de mães, como acontece, por exemplo em "Julieta" (2016), "A Flor do Meu Segredo" (1995) e, é claro, "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999). Mas não vamos cair na obviedade de destacar o filme que explicitamente dedica, já no título, sua temática às mães e sim um outro do qual gosto muito e que traz as questões das relações entre mães e filhas de uma maneira mais leve, mesmo contendo elementos dramáticos, polêmicos e sombrios. "Volver" é uma espécie de comédia surrealista onde uma mãe, Irene, brilhantemente interpretada por Carmen Maura, "retorna dos mortos" para alguns acertos, alguns ajustes, uma reconciliação com suas filhas, especialmente com Raimunda, vivida por Penélope Cruz, com quem nunca tivera, em vida, uma relação muito boa. Raimunda, diante da novidade da misteriosa volta da mãe, ainda vê-se às voltas com o assassinato cometido por sua filha adolescente  Paula,que matara o padrasto que tentara abusar sexualmente dela. A não ser pelos relatos de Raimunda, não sabemos como era a mãe quando viva, mas o que sabemos é que a Irene "fantasma" é um personagem adorável que dá um brilho todo especial ao filme de Almodóvar. Um filme delicioso com uma mãe que vai nos mostrando, e às filhas, que tudo o que sempre fez, foi protegê-las, assim como a filha Raimunda faz agora em relação à sua pequena Paula. Aquele instinto que passa de mãe para filha.



12. "Indochina", de Régis Wargnier (1992) - Eliane (Catherine Deneuve), dona de uma vasta extensão de seringais na Indochina francesa e mãe adotiva de uma garota indochinesa, se apaixona e tem um romance com um oficial francês da Marinha, Jean-Baptiste, mas o rapaz também cai nas graças da filha Camille em um incidente na rua onde o militar salva sua vida. Em parte por ciúmes, em parte para protegê-la do cenário efervescente pela libertação da colônia, Eliane, rica e influente consegue fazer com  que transfiram o oficial para os quintos-dos-infernos, numa ilha, literalmente, lá na cochinchina, de modo que fique longe da filha, imaginando assim que a jovem desista dele e, por fim, o esqueça. Só que aquela mãe não contava que o amor da menina pelo oficial fosse muito maior do que ela imaginava. A menina atravessa o país atrás do seu amor e, agora sem a proteção de sua posição social, como uma indochinesa comum e misturada a seu povo,  conhece a relidade local, se afeiçoa à sua gente ele e se solidariza com sua luta pela independência.
A busca e Camille por Jean-Baptiste é comovente e tem momentos verdadeiramente lindos, mas em paralelo a isso, a mãe, verdadeiramente amorosa apesar do ato egoísta, desesperada, não mede esforços para encontrar a menina e move mundos e fundos para tê-la de volta. Mas aí já é tarde, a pequena e frágil Camille já virou uma revolucionária procurada e praticamente uma lenda em seu país.
O fato de ter afastado a filha da pessoa que ela amava pode parecer desqualificar Eliane no quadro das grandes mães. É verdade, ela foi um tanto egoísta, autoritária, até insensível. Mas não se engane, leitor. É o tipo do caso da mãe que acha que está fazendo o melhor para o filho, mesmo que isso tenha que custar algum sacrifício o qual, neste caso específico, era para ambas. A gente até fica com uma raivinha dela durante o filme mas na cena do reencontro das duas é de morrer de pena daquela mãe.
mostrando que mãe adotiva é tão mãe quanto qualquer outra.


"Indochina" - trailer



Uma das mortes clássicas de "Sexta-Feira 13".
Jason aprendeu direitinho com a mamãe.
13. “Sexta-Feira 13”, de Sean S. Cunnigham (1980) – Quando pensamos em “Sexta-Feira 13”, a primeira lembrança que nos vem à mente é o assassino psicopata da máscara de hóquei, Jason Voorhees, mas pouca gente lembra que quem mata no primeiro filme da franquia (alerta de spoiler) é a mãe de Jason. Sim! Pamela Voorhees traumatizada e perturbada pela morte do filho, afogado por negligência dos monitores do acampamento de Crystal Lake, responsabiliza, de um modo geral, a todos os jovens cheios de vida e resolve que deve se vingar de todos aqueles que venham a acampar no lugar onde o filho morreu. E a mamãe capricha! É um banho de sangue com algumas cenas das mais clássicas do terror slasher como, por exemplo, a que Kevin Bacon, estreando, novinho ainda, tem a garganta atravessada por uma faca, deitado na cama. Caso em que o filho aprendeu direitinho os ensinamentos da mãe pois, dali em diante, nas  sequências da franquia, é Jason quem assume o facão e mostra-se extremamente competente em sua tarefa.
Quem assistiu a “Sexta-Feira 13 – parte 1”, jamais vai esquecer a frase, dita com aquela vozinha fininha, imitando a de uma criança, sempre antecedendo mais uma atrocidade: “Mata ele, mamãe!”.



14. "A Troca", de Clint Eastwood (2009) - Agora, imagina se seu filho desaparece, você denuncia o fato às autoridades e depois de algum tempo eles vem pra você com uma outra criança e querem que você engula e aceite aquilo. Cara, é exatamente o que acontece em "A Troca", filme dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Angelina Jolie, e o pior é que a coisa toda é baseada num fato real ocorrido em Los Angeles na década de 20. 
Aquela mãe insiste, Christine Collins, reafirma que não é o mesmo menino que sumira, tenta provar de todas as maneiras, com os professores, com exames médicos, com fotos, mas a polícia não só tenta lhe impor que é o garoto que ela procura como a acusa de insanidade mental por não reconhecer o próprio filho.
Uma história angustiante em que ficamos cada vez mais envolvidos e torcendo por aquela mãe. Mas infelizmente, amigos, tenho que revelar que a situação só piora.
Caso de uma mulher que não desiste do filho, não desiste da verdade, mas que, mãe solteira, vê-se impotente e cada vez mais sufocada pelas autoridades, pelo machismo e pela conjuntura social de sua época.



15. "Mãe!", de Darren Aronofsky (2017) - Essa é a mãe de todos nós. Salvo outras possíveis interpretações, a Mãe, interpretada por Jennifer Lawrence no filme de Darren Aronofsky, representa mãe natureza, a vida. E tudo o que aquela mãe mais quer é viver em paz e preservar sua casa, que é, na verdade, a nossa casa. A casa em questão, uma propriedade retirada em reformas, é onde ela vive com Ele, um escritor em crise criativa, vivido por Javier Barden, que, vaidoso e inconsequente, permite visitas inconvenientes que cada vez mais vão tumultuando a vida e o lar dos dois. Primeiro são um homem e uma mulher, convidados por Ele (Adão e Eva); depois uma multidão mal-educada que chega para o funeral de um dos filhos do homem e da mulher, morto pelo irmão (Caim e Abel), e com seu mau comportamento, mesmo diante de todas as advertências, acabam causando um enorme vazamento (Dilúvio) e a ira da dona da casa; e por fim, quando ela já está grávida, os convidados que chegam para celebrar a nova obra do escritor que finalmente rompera seu bloqueio criativo e que assim que ela tem o bebê, em meio à sua noite de consagração, exibido, faz questão de levar e entregar seu filho, recém nascido à turba de insensatos que..., (* alerta de spoiler)  literalmente, o devoram (Jesus Cristo).
Um filme complexo, para o qual cabem diversas outras interpretações ou variações, mas que não deixa dúvida quanto a uma coisa: o zelo que uma mãe tem pelo seu lar e pelos seus.
À parte as reflexões religiosas, com "Mãe!" você vai entender melhor o desespero da sua mãe quando chegava em casa e via aquele lugar de cabeça pra baixo. 



Alguns outros filmes com mães marcantes que merecem destaque e poderiam perfeitamente estar na nossa lista: "O Óleo de Lorenzo", de George Miller (1992); "Mamãe Faz Cem Anos", de Carlos Saura (1979); "Mommy", de Xavier Dolan (2014); "Minha Mãe é Uma Peça", de André Pellenz (2013); "Tudo Sobre Minha Mãe", de Pedro Almodóvar (1999); "Mom", de Ravi Udyawar (2017); "Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert (2015); "O Quarto de Jack", de Lenny Abrahamson (2016);  "Precisamos Falar Sobre Kevin", de Lynne Ramsay (2012), "Juno", de Jason Reitman (2008); "Zuzu Angel", de Sérgio Rezende (2006)





por Cly Reis




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

James Brown – “Live At the Apollo – Volume II” (1968)



“- O groove é uma batida do coração.
Mexe com tudo em você, forte e simples.
Isso é groove.
- E como você se define exatamente?
- Acabei de definir, moça.”
 Diálogo entre James Brown e uma repórter do filme
“James Brown – Get on Up”,
que estreia no Brasil este ano



Considero-me uma pessoa do meu tempo, por isso não lamento não ter vivido determinado momento no passado. Com raras exceções. Queria ter estado, por exemplo, em 1913, na estreia d’”A Sagração da Primavera”, de Stravinsky, quando a companhia Ballets Rousses, coreografada por Nijinsky, escandalizou Paris e o mundo com aquilo que se tornaria uma revolução nas artes cênicas e na música contemporânea. Também, se pudesse, estaria em 1940, na première de "Cidadão Kane", clássico divisor de águas do cinema moderno, de Orson Welles, quando, indignados com tamanhos “atrevimento” e “impropriedade”, exibidores jogavam na calçada da entrada de seus cinemas os rolos do filme para quem quisesse ficar com “aquilo”. Queria ter visto a surpresa na cara dos espectadores dentro da sala de cinema deparando-se com aquela narrativa irregular e até então inédita (vejam que não tem nada de homem pisando na lua ou título da Seleção de 70).

Pois outro desses raros eventos que gostaria de ter vivido é o show que James Brown apresentara no Apollo Theatre, casa de espetáculos encravada no bairro negro do Harlem, em Nova York, naquelas duas históricas noites de 24 e 25 de junho de 1967.  À época, nem pensava em nascer ainda. Mas para a minha felicidade e de toda a humanidade, esta apresentação foi registrada e transformada em dois LP’s um ano depois, o que diminui em parte meu pesar. Não dá pra enxergar Mr. Dynamite dançando enlouquecidamente, seus trejeitos sensuais, sua boca gesticulando para cantar, a expressão delirante no rosto do público, o suor escorrendo de sua testa e da dos integrantes da banda enquanto sustentam o som minutos a fio para Brown entreter a plateia. Não, não dá pra ver. Mas se sente. O show é tão contagiante, tão efusivo, tão emocionante que é quase como estar lá presente, no meio da galera. Delirando.

A exemplo do primeiro volume por ele gravado no mesmo teatro, em 1962, “Live at the Apollo” é esfuziante. Uma aula de soul music. O script em si já contém pompas de grande espetáculo. Antes de começar o show, o mestre-de-cerimônias Charles Bobbit entra no palco e anuncia, em ordem cronológica, os números que serão executados, ditando o título de cada um intercalado por um golpe na caixa da bateria. Como que dissesse: “preparem-se, pois vem aí chumbo grosso!”. E de fato é o que acontece. Finalizada a abertura, ouve-se Bobbit dizendo efusivamente: “James Brown, ladies and gentlemens!” A partir dali entra-se no mundo do Godfather of Soul. Brown sobe ao palco, enlouquecendo a plateia, que explode em festa. Imediatamente, o clássico “Think” começa a tocar seu ritmo contagiante de mais puro rithum n’ blues. Em dueto com Marva Whitney, Brown dá início àquela apresentação, que se tornaria memorável.

Mal “Think” termina e já emenda com “I Wont to be Around”, uma das baladas do repertório, que fez o ritmo desacelerar. Em compensação, os ânimos continuam a mil, dada a sensualidade e o groove que se emitem da rouca voz de Brown. Que vocal! Uma naturalidade e um alcance de tons impressionantes, que variam da emissão mais sussurrada ao famoso grito agudo, sua marca registrada, que só um verdadeiro cantor gospel criado nas igrejas Batista americanas é capaz de fazer. A banda, bem como a Famous Flames, dupla vocal formada por Bobby Byrd e Bobby Bennett que acompanha o grupo, está afiadíssima. É o que se vê no R&B “That’s Life” e no bluesão “Kansas City”. Depois de uma pausa, anunciada por Bobbit, o show reinicia, passando a ter apenas composições do próprio Brown (à exceção da linda “Prisioner of Love”), e aí a coisa esquenta de verdade! Uma sequência funk de tirar o fôlego engata “Let Yourself Go”, “There Was a Time”, “I Feel All Right” (na qual ele começa sua interatividade com a plateia, brincando com os tempos da música e gesticulando tão sugestivamente que dá pra enxergá-lo tal a reação do público) e “Cold Sweet”, esta, a música que inspirou o riff da clássica "So What" de Miles Davis (que, fã, inteligentemente apenas inverteu as notas). A já citada bateria de John “Jabo” Starks e Clyde Stubblefield, aliada à percussão de Ronald Selico, dão um show à parte. Timbre perfeito, encaixe perfeito, ritmação perfeita. Igualmente, as guitarras de Jimmy “Chank” Nolen e Alpholson “Country” Kellum seguram todas do início ao fim.

Comandados por Alfred “Pee Wee” Ellis, arranjador da banda e responsável pelo órgão e sax alto, Brown e Cia. arrasam na terceira parte do show. O naipe de metais (que ainda conta com Maceo Parker e L.D. Williams nos saxofones tenor; St. Clair Pinckney, no sax barítono; Waymon Reed e Joe Dupars, nos trumpetes; e Levi Harbury, no trombone de vara) manda a irresistível “It May Be the Last Time”, das melhores do mestre. O hit “I Got You (I Feel Good)” – talvez seu maior sucesso tanto na versão original, de 1964, quanto na mais funkeada, que gravara em 1975 – vem, aqui, num pequeno e agitado R&B, quase uma vinheta. Em seguida (antecedida pela ótima “Out of Sight”, também curta), “Try Me”, de seu primeiro disco, de 1959, tira o pé do acelerador novamente, noutra balada melodiosa. Aí vem talvez o melhor do show – o que, a esta altura, é uma atitude quase improvável. A quarta parte começa com a matadora “Bring it Up”, que põe todo mundo pra dançar (sei que não é possível ver, mas quem teria ousado ficar parado?).

Depois de incendiar bem o público é hora de descansá-los, certo? Mais ou menos. Que o ritmo cai, é fato. Mas o que os próximos 17 minutos e 27 segundos promovem é daquelas coisas que, essas sim, me deixam com inveja de não ter estado lá. “It's a Man's Man's Man's World”, das mais célebres canções de sua carreira, e “Lost Someone”, irrepreensível, formam um medley em que, se o compasso é mais lento, a interpretação de Brown, sua entrega, sua qualidade vocal, sua alma, sua interação orgânica e quase sexual com o público, ao contrário, deixam o clima realmente agitado.

Nestas duas, Brown despeja toda a intensidade existencial de ex-boxeur e quase marginal que, por essas obras divinas, virou um dos maiores artistas de seu tempo. Na letra de “It’s a Mans...”, ele critica a sociedade machista e se revela: “o homem está perdido na selva/ Ele está perdido na amargura”. E ainda complementa filosófica e romanticamente: “O homem fez os carros para nos levar para a estrada/ Homem fez os trens para transportar cargas pesadas/ O homem fez a luz elétrica para nos tirar do escuro/ O homem fez o barco para a água, como Noé fez a arca/ Trata-se de um homem, um homem, um mundo de homens/ Mas não seria nada, nada sem uma mulher ou uma garota. Gritos ensandecidos do público a cada frase cantada, a cada suspiro, a cada movimento sugestivo no palco, tomados por aquela força negra avassaladora à sua frente. Ele domina a plateia como um encantador de serpentes. O público, hipnotizado, acompanha todos os seus passos, atende a todos os seus comandos. Estão magnetizados.

O final disso? A apoteose. “Please, Please, Please”, num soul mil vezes mais quente que sua original, é a despedida e também quando e acontece uma cena tão marcante que chega a ser visível só ouvindo-a. Num estado catártico, Brown, tomado pela música, pelo show, pelo clima, pelo público, canta, grita e dança. O Apollo Theatre vem abaixo! No meio da performance, o rei do soul deixa o pedestal do microfone cair no chão mas, inebriado, nem percebe e segue dançando, enquanto a galera quase desvanece de tanto êxtase. O apresentador Charles Bobbit, então, recolhe o microfone e, sem mais o que dizer, simplesmente exalta aquele mito que está ali no palco, a seu lado, concluindo um show sabidamente histórico já naquele exato momento. “James Brown! James Brown! James Brown! Esse é Sr. Dynamite, o rei do rithum n’ blues. James Brown!”. O que mais ele conseguiria dizer, né?

A importância de James Brown para a história da música é incalculável. Criador de um dos gêneros musicais mais difundidos e absorvidos do mercado do entretenimento, o funk, foi inspiração para toda a geração em estilo, sonoridade, estética e atitude. A soul music, o rock, o jazz, a MPB, todos beberam nele. De Sly & Family Stone a Beatles, de George Clinton a Erasmo Carlos, de Rolling Stones a Lenny Kravitz, de Miles a Morcheeba. O rap ou o britpop dos anos 90 nem existiriam, pra se ter ideia. Além disso, foi Brown quem, de fato, ensinou o mundo pop a dançar, liberando o salão para outros grandes bailarinos populares como Michael JacksonMadonnaPrince e John Travolta. “Live at the Apollo”, evidentemente, não é o seu único grande álbum, mas é certamente um exemplo fiel da magnitude de sua obra. Ainda mais por superar o fato de ser duplo e ao vivo, o que me contraria duplamente, que geralmente prefiro os trabalhos de estúdio e em formato simples.

Contraria, entretanto, mais do que somente meu gosto pessoal. Lembro-me da difundida tese do filósofo da comunicação Walter Benjamin de que a obra de arte perde a sua “aura” quando reproduzida, ou seja, quando passada para outra plataforma, submergem-lhe junto suas autenticidade e alma, mesmo quando tecnicamente bem copiada. Parece que James Brown consegue, misteriosamente, subverter essa lógica e preservar intacta toda a emoção do “aqui e agora” que se presenciou naquelas fatídicas noites de junho de 1967. Quem esteve lá, viu; mas quem não esteve, consegue captar o calor da emoção, a “aura” do momento apenas ouvindo. Isso é possível perceber-se até hoje, quase 50 anos depois, através das milhares de cópias que o mundo tecnológico oferece. E quem há de duvidar um feito desses vindo de um cara cujo apelido é justamente “o padrinho da alma”?
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FAIXAS:
1. Introduction – 0:32
2. Think – com Marva Whitney (Pauling) – 2:54
3. I Wanna Be Around (Mercer/Vimmerstadt) – 3:09
4. James Brown Thanks – 1:11
5. That's Life (Duke/Harburg) – 4:05
6. Kansas City (Leiber/Stoller) – 4:49
7. Medley – 14:54:
- "Let Yourself Go" (Brown/Hobgood) – 6:34
- "There Was a Time" (Brown/Harris/Hobgood) – 2:45
- "I Feel All Right" (Brown/Hobgood) – 5:35
10. Cold Sweat (Brown/Ellis/Ellis/Lindup) – 4:43
11. It May Be the Last Time (Brown/Wright) – 3:06
12. I Got You (I Feel Good) (Brown) – 0:38
13. Prisoner of Love (Columbo/Gaskill/Robin) – 7:25
14. Out of Sight (Brown/Wright) – 0:26
15. Try Me (Brown/Marley) – 2:54
16. Bring It Up (Hipster's Avenue) (Brown/Jones) – 4:38
17. Medley – 17:27
- “It's a Man's Man's Man's World” (Brown/Jones/Newsome) – 11:16
- “Lost Someone (Brown/Byrd/Stallworth/Stallworth) – 6:21
18. Please, Please, Please (Brown/Terry) – 2:44

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OUÇA O DISCO:






terça-feira, 8 de dezembro de 2015

8º Mississipi Delta Blues Festival – Largo da Estação Férrea – Caxias do Sul/RS (28/11/2015)



Com Dylan no peito,
nada melhor para uma
noite de blues.
Quando assisti ao ótimo bluesman Kenny Neal em São Paulo mês passado pensei que aquele breve mas impecável show fosse uma compensação por não poder ir ao Mississipi Delta Blues Festival, que ocorreria dali a semanas na cidade gaúcha de Caxias do Sul. Mas era, na verdade, um bom presságio. Tal sentimento se dava por um misto de falta de disponibilidade e a possibilidade de se fazer outra boa programação mais próxima – e mais fácil. É que teria também o festival Som de Peso, que ocorreria em Porto Alegre justamente no mesmo dia e hora e onde tocariam bandas célebres do punk nacional, como Cólera e Olho Seco, e, além destas, a Vômitos & Náuseas, a grande banda de hardcore do meu primo Lucio Agacê. Dúvida cruel. Depois de muita combinação, tive que suplantar a vontade de ir ao Som de Peso, pois conseguimos Leocádia e eu nos organizar para subir a Serra e conferir pela primeira vez o MDBF, vontade alimentada há anos.

Stroger, comandando o grupo no baixo.
E o esforço não poderia ter sido mais bem recompensado. Com uma programação cuidadosa e qualificada, tanto no que se refere a atrações internacionais quanto nacionais, além de uma estrutura planejada e eficiente, o MDBF, em sua 8ª edição, provou (pelo menos a nós, que ainda não o conhecíamos) que é o melhor festival de música do Rio Grande do Sul do momento. Prova disso é que o dia em que fomos, o terceiro e último da edição de 2015, não por isso ficou devendo. Dividido em sete palcos, o festival apronta um rodízio de apresentações dos artistas por vários destes durante os três dias de evento, fazendo com que se possa assisti-los em mais de uma oportunidade. Igualmente, o local não poderia ser mais adequado: a antiga estação férrea de Caxias, prato cheio para Leocádia fazer várias fotos pois empresta uma atmosfera onírica àquela sonoridade melancólica, antiga e sensual típica do blues. A chuva que caía ajudou a aumentar o clima cinematográfico.

Bob Stroger posando para as lentes.
O blues rolava por todos os cantos, dos alto-falantes, dos palcos, das pessoas cantando, assobiando, dançando. Chegava a emanar de algumas figuras que ali estavam. Um desses seres iluminados era Bob Stroger, o incrível baixista californiano de (acredite-se) 85 anos. Stroger, que havia estado em Porto Alegre na semana anterior – e que, novamente por agenda e correria, não pudera assistir –, foi um dos principais motivos de irmos ao MDBF. Artista “residente” do festival, participou de todas as edições deste até agora, o que certamente continuará fazendo até não poder mais, haja vista seu prazer em estar ali. Ele dizia, faceiro: “This is my house”. Um dos primeiros a se apresentar naquele dia, ele referia-se não somente a Caxias e ao festival como ao Front Porch Stage, um caracterizado palco que reproduzia o ambiente de uma sacada de um rancho do Sul norte-americano, aquelas que a gente vê em filmes sobre negros pobres e trabalhadores de fazendas de algodão de antigamente. Para alguém como ele, do início do século passado, certamente aquilo era bem familiar. Estava se sentindo em casa mesmo, acarinhado e admirado pelo público.

Cokeyne, à direita, e sua banda de ilustres convidados.
Na verdade, Stroger fazia o ambiente se tornar real, visto que ele em si é uma entidade em pleno palco. De terno risca de giz escuro, sapatos e chapéu, é a encarnação daquilo que o mundo conheceu no início do século XX chamado blues, o gênero musical afro-americano que coloca, em ritmo sincopado, repetitivo e simples, os sofrimentos e tristezas dos negros escravos e apartados de sua terra. Blues, com suas raízes religiosas, de trabalho ou de protesto. Um estado de espírito. E Bob Stroger é a representação viva disso. Ele mesmo, orgulhoso, diz várias vezes: “I’m the blues”. Quem há de contrariá-lo? Entre as maravilhas que escutamos de sua voz sôfrega, mas com o aveludado que somente os negros de lá conseguem ter, “Just a Sad Boy”, “Talk to me Mamma”, “Don't You Lie to Me” e uma canção que, além de fantástica, se tornaria especial naquela noite: “Blind Man Blues”, autoria do próprio Stroger. Um bluesão embalado num riff de baixo contínuo e cheio de groove, que lhe põe naquele limiar entre o blues e o rock. Esta, comporia outro episódio importante horas depois...

"Don't You Lie To Me" - Bob Stroger - Mississipi Delta Blues Festival 2015

Sherman Lee Dillon, pura energia.
Tinham mais coisas a se aproveitar ainda. Noutro palco, o Bus Stage, iriamos conferir o nosso amigo Cokeyne Bluesman (Beto Petinelli, ex-Cascavelletes), que havia reunido uma galera especial para uma das apresentações. E olha: que apresentação! Disparado a mais empolgante da noite e que, mesmo não estando num dos palcos principais, ensandeceu o público que assistia. Que energia que saída dali, a ponto de as pessoas serem tomadas por ondas de euforia, respondidas pelos músicos e vice-versa. A química foi precisa: Cokeyne, referencial na guitarra solo e slide guitar; Lucas Chini, no baixo, um cabeludo psicodélico e tomado pela música que parecia ter se congelado no tempo, pois era tal um integrante de banda de rock-blues dos anos 60, uma Canned Heat ou The Band; e o norte-americano Sherman Lee Dillon, de quem se pode dizer apenas uma coisa: nossa! Aquele velhinho branco de camisa, calça social e quepe poderia ser, como bem Leocádia observou, o vendedor da banca da esquina ou o dono da tabacaria. Só que quando empunha a guitarra, sai de perto! É um furação em forma de blues.

Na bateria, Gutto Goffi.
Melhor amigo do saudoso B.B. King, Dillon, natural do Mississipi, mostrou ser um genuíno seguidor de Muddy Waters e Bo Diddley. Com sua harmônica e sua guitarra de metal, parecido com um banjo elétrico, ele incendiou o pequeno palco, pondo todo mundo pra se mexer. Uma das mais quentes foi a versão de “Maybelline”, clássico de Chuck Berry, que tocaram numa versão tão eletrizante quanto. Além disso, quem completava a banda na bateria era Guto Goffi, o baterista do Barão Vermelho, que estava ali animadíssimo tocando o que gosta e sem todo o aparato e multidões de que é acostumado. Cokeyne, o anfitrião, também não deixou por menos. Com solos arrebatadores, levantou a galera várias vezes, mesmo sem cantar como Dillon. Ainda teve a palhinha do músico gaúcho Andy Serrano, na gaita, o mesmo da banda de rockabilly que vimos anos atrás no Clube de Jazz Take Five, em Porto Alegre. Um empolgante e surpreendente show.

'Super Chikan' no palco principal do MDBF.
Entre uma programação e uma paradinha para comer, deu tempo de ver, no Moon Stage, palco principal, um bom pedaço da apresentação de outra das também principais atrações do MDBF desse ano: o norte-americano James "Super Chikan" Johnson, mais um filho do Mississipi. Outro arraso. O cara, que ganhou esse apelido na infância, quando ainda era jovem demais para trabalhar no campo e passava o seu tempo conversando com as galinhas, começou tocando o diddley bow, instrumento muito rudimentar que o ajudou a desenvolver sua capacidade de extrair sons de uma só corda. Essa forma de tocar é evidente em seu estilo, que aproveita ao limite uma sequência de notas, sempre com muito groove. Isso sem falar do característico grito que lança entre uma execução e outra imitando o cocoricó das galinhas com quem tanto conversava quando criança.

Eu com Rip Lee Pryor.
Voltando ao Front Porch Stage, pena que não deu tempo de assistir um pouquinho de outra lenda: o harmonicista Rip Lee Pryor (filho de Snooky Pryor), que ainda estava passando som e o pito na equipe técnica, que não acertava o que ele pedia. Na mesma hora – essas coincidências são inevitáveis, ainda mais para que foi em apenas um dos dias como nós – subiria no Magnolia Stage outra das que nos motivaram bastante a escolher por essa e não outra programação: a cantora Zora Young. Igualmente produto do Delta do Mississipi, é daqueles vários artistas de blues cujas famílias, depois da 2ª Guerra, migraram para Chicago em busca de novas oportunidades. Criada dentro das igrejas gospel, foi tomando com o passar do tempo gosto pelo Rhythym n' Blues a ponto de não o largar mais. A explicação talvez esteja no sangue: Zora tem em sua árvore genealógica uma das lendas do blues, Howlin' Wolf. No festival, ela mandou ver num show pulsante e dançante, com sua poderosa voz rouca muito trabalhada nos corais religiosos e nos pubs de blues. Interagindo com a plateia, Zora e sua banda fizeram um espetáculo daqueles que não dá vontade de sair mais (tanto que, quando vimos, já tinha acabado o de Pryor), com repertório de primeiríssima qualidade, solos afiadíssimos e, claro, a excelência da voz de Zora.

A divina cantora de raízes gospel e rythm'n blues,
Zora Young e o privilégio de ter na banda Stroger, ao fundo.
Mas por falar na banda de Zora Young, aqui vai aquela parte que havia ficado faltando sobre “Blind Man Blues”, de Bob Stroger. Aconteceu que, com receio de que sobrasse para nós algum daqueles esporros de Rip Lee Pryor com a equipe, saímos logo do Front Porch Stage e chegamos minutos antes para assistir Zora. Porém, para nossa surpresa quem sobre no palco são três músicos mais... Bob Stroger! ”Ué, será que mudaram o lugar do show dela?”, pensamos. Fomos perguntar a um rapaz do staff e ele nos confirmou que era ali, sim, o show da cantora. Pois não é que Stroger, nos seus já mencionados (mas que não custa relembrar) 85 anos foi, horas depois de ter aberto o festival, formar a banda de Zora Young? Na maior simplicidade e humildade. Coisa de músico de verdade. Já no final da noite, ele abriu com a mesma música que já tinha tocado no outro palco para depois tocar, como apenas mais um integrante, mais uma hora e meia – sem se sentar nem pedir água. Pelo contrário: no centro do palco, estava lá ele postado, elegante em seu terno risca de giz e chapéu, abrilhantando ainda mais o show da companheira de blues.

"The Thrill Is Gone"/ "I'm Freee" - Zora Young - Mississipi Delta Blues Festival 2015

Foi o próprio Bob Stroger que disse se sentir em casa. Sentimento compartilhado com muita gente ali, entre músicos e espectadores, que fazem o MDBF crescer a cada ano, sempre com a expectativa pela edição seguinte. Eu mesmo já estou me vendo, lá em novembro de 2016, cantando para convencer Leocádia: “Oh, baby, don't you want to go? Back to the land of Caxias do Sul/ To my sweet home, festival?”
Front Porch Stage, "this is my house".