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domingo, 15 de agosto de 2021

O Dia em que a Arte Dramática Brasileira Morreu

 

Em 2007, quando, com diferença de menos de 24 horas, os cineastas Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni faleciam, aquela fatídica virada de 29 para 30 de julho ficou conhecida como o “dia em que o cinema moderno morreu”. Semelhante sensação de perda e de triste coincidência se abateu sobre o mundo das artes dramáticas brasileira entre 11 e 12 deste mês de agosto ao despedirmo-nos de dois ícones: Paulo José e Tarcísio Meira. Poucas vezes em tão pouco tempo foi-se embora tanta beleza, tanta significância, tendo em vista a história de cada um para o cinema, a TV e o teatro brasileiros. Até mesmo na vida pessoal pareceram-se. Um, com 84, o outro, com um ano a mais. Na vida pessoal, amaram com fidelidade poucas mulheres igualmente do seu ciclo de atores: Tarcísio, casado com Glória Menezes por 61 anos; Paulo, viúvo de Dina Sfat e, posteriormente, parceiro da também atriz Zezé Polessa.

Paulo em "O Palhaço":
sensibilidade de veterano
Pertencentes a uma geração rara que forjou as artes cênicas no País, como Paulo Gracindo, Cacilda Becker, Sérgio Brito, Walmor Chagas, Bibi Ferreira e Paulo Autran, Paulo e Tarcísio, por meio desse ímpeto pioneiro, ajudaram a esculpir de certa forma o que conhecemos de Brasil. Tanto que é impensável pensar no teatro, no cinema ou na TV sem lembrar de ambos. Paulo, no teatro, criou o Teatro de Equipe, dirigiu o Teatro de Arena, encenou Guarnieri e Molière. Tarcísio, por sua vez, também forjado nos palcos e Prêmio Shell de Teatro por “O Camareiro”, ia de Shakespeare a Keiser.

Mas é no audiovisual que a carreira tanto de um quanto de outro se fez popular, por vários antagônicos motivos – o que só prova suas versatilidades. Como outro grande das artes cênicas recentemente falecido, o sueco Max Von Sydow, capaz de interpretar Jesus Cristo e um cavaleiro assombrado pelo Diabo, Tarcísio, especialmente, foi da cruz ao inferno. Assim como Sydow, o brasileiro foi o Salvador em “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha e, noutro extremo, fez a encarnação do demônio ao interpretar o vilão Hermógenes, de “O Grande Sertão: Veredas”, série dirigida por Walter Avancini para a Globo. Com Paulo, não é tão diferente. Se viveu o angustiado religioso de “O Padre e a Moça”, também vestiu o fanfarrão “Macunaíma”, noutro marco do Cinema Novo. 

"O Padre e a Moça", com Paulo José (1966)

"O Beijo no Asfalto", com Tarcísio Meira (1980)


Tarcisão na atuação
premiada de "A Muralha"
Aliás, não faltaram grandes que os dirigissem. Tarcisão, além dos já citados Glauber e Avancini, encarnou “O Marginal” no ótimo e raro filme de Carlos Manga pós-Chanchada, e protagonizou uma das mais emblemáticas cenas da história do cinema nacional com o “beijo mortal” de “O Beijo no Asfalto”, de Bruno Barreto. Tarcísio, e mais ninguém, teria tamanha autoridade para ser D. Pedro II ou o asqueroso Dom Jerônimo Taveira de “A Muralha” ou o “regenerado” Renato Villar de “Roda de Fogo”. 

Paulo, por sua vez, esteve sob as lentes de Joaquim Pedro de Andrade, Jorge Furtado, Domingos Oliveira, Júlio Bressane... Como não lembrar de seus papéis em “Faca de Dois Gumes”, do Murilo Salles, “O Palhaço”, do Selton Mello, “O Rei da Noite”, do Babenco?... Isso quando não era ele mesmo quem dirigia! Paulo oportunizou algo que une e simboliza a obra desses dois gigantes quando dirigiu, gaúcho como era, a série “O Tempo e o Vento”, da obra de Erico Verissimo, dando a Tarcísio com sabedoria o papel de Capitão Rodrigo, aquele que talvez melhor tenha marcado o ator paulista, mas que, com seu talento, identificou-se profundamente com os gaúchos. 

Considerando que, desta geração nascida por volta dos anos 30 e que erigiu a arte de encenar no maior país da América depois dos Estados Unidos, resta apenas Fernanda Montenegro (vida longa!), não é exagero dizer que esta semana de agosto de 2021 poderá ser lembrada pelo “dia em que a arte dramática brasileira morreu”. 

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PAULO JOSÉ GÓMEZ DE SOUSA
(1937-2021)



TARCÍSIO PEREIRA DE MAGALHÃES SOBRINHO
(1935-2021)



Daniel Rodrigues

sábado, 27 de setembro de 2025

Exposição “Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros” - Instituto Tomie Ohtake - São Paulo/SP

 

São Paulo, entre as várias delícias culturais e gastronômicas que vivenciamos nos dias em que estivemos lá em junho, trouxe a mim especialmente uma aproximação com um tema o qual já venho perscrutando cada vez mais: a negritude. Afora passar horas percorrendo os corredores do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, extremamente ricos em obras e referências ao tema, outro espaço que fizemos questão de visitar foi o Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, onde estava em cartaz a exposição “Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros”.

Projeto coletivo pioneiro iniciado em 1944 por Abdias Nascimento, o TEN foi criado para transformar, por meio do teatro, “as estruturas de dominação, opressão e exploração raciais implícitas na sociedade brasileira dominante”. Ativo e militante nos palcos até a década de 1960, o grupo desenvolveu obras de forte impacto, enfrentou o racismo e abriu caminhos para a formação e o reconhecimento de expoentes como Ruth de Souza e Léa Garcia.

A magnífica arquitetura interna do
Instituto recebendo a expo sobre o TEN 
A mostra, uma parceria do Instituto Tomie Ohtake e do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), trouxe fotos do consagrado fotógrafo José Medeiros, que ao longo de anos, produziu diversos registros fotográficos do grupo e presenteou Abdias Nascimento com um importante acervo onde convergem fotografia, teatro e engajamento. Com poses e enquadramentos modernos influenciados pela prática teatral, as fotos, imponentes, são um testamento do orgulho e da força do artista negro em uma época em que isso era uma ofensa.

Presenciar essa exposição fotográfica foi um reencontro. Primeiro, no que se refere ao Instituto Tomie Ohtake, o belíssimo prédio em homenagem à artista visual nipo-brasileira projetado pelo seu filho, o arquiteto Ruy Ohtake e o qual havia conhecido em 2010, em visita a São Paulo na companhia de minha mãe. Desta vez, a parceria foi de Leocádia, que pisava neste espaço cultural pela primeira vez como eu fazia há 15 anos. Hoje, é possível perceber que a programação do local conta com diversas atividades e parcerias que tocam na questão da negritude, seja por meio de cursos, debates, exposições, etc.

Mas o reencontro maior se deu, claro, pelo objeto da exposição: o TeatroExperimental do Negro. No curso sobre cinema negro que ministro, há cruzamentos que traço com o TEN, como a presença dos atores Aguinaldo Camargo e Ruth de Souza em um dos filmes clássicos dessa temática no Brasil, “Também Somos Irmãos”, de 1948, que bebe bastante na fonte da companhia teatral através do conceito de atuação e, mais que isso, no protagonismo dado a eles e à questão racial, bastante abafada àqueles idos.

Além de Ruth, Léa e Aguinaldo, já mencionadas, as fotos de Medeiros trazem outras figuras emblemáticas das artes cênicas pretas brasileiras, como Haroldo Costa, Marina Gonçalves, José Monteiro, Renée Ferreira e, claro, o próprio Abdias, descrito pelo Ipeafro como o mais completo intelectual e homem de cultura do mundo africano do século XX. Poeta, escritor, dramaturgo, artista visual e ativista pan-africanista, é ele quem mobiliza as ações do TEN, montando a pioneira peça “O imperador Jones”, em 1945, e diversas outras, como “Todos os Filhos de Deus têm Asas” (1946), “Auto da Noiva” (1947) e “Othello” (1949).

Abdias, a mente pro trás do TEN

Na sequência, alguns registros das fotos de José Medeiros, que carregam a força e a expressividade da arte preta brasileira nos palcos e nos seus arredores de coxias, camarins e ensaios. As fotos mesmo falam por si, tendo em vista que algumas foram tiradas em condições de iluminação precárias, mas que, mesmo assim, e com muita habilidade técnica do fotógrafo, existiram. Persistiram. Resistiram.

🎭🎭🎭🎭🎭🎭🎭🎭

Então, vamos à exposição!

 Ensaio da peça O filho pródigo, com Ruth de Souza, Abdias Nascimento, José Monteiro,
Aguinaldo Camargo, Marina Gonçalves e Roney da Silva

Impressionante foto de Aguinaldo Camargo em
elenco em impressionante cena de O imperador Jones

 Ruth de Souza e Ilena Teixeira na peça
"Todos os filhos de Deus têm asas"

Ruth novamente, em Othello, totalmente diva negra

Elenco masculino ensaiando a pioneira peça "O Imperador Jones", de 1945 

Abdias e Léa Garcia em cena: que dupla

Uma panorâmica pela exposição de 
José Medeiros sobreo TEN


Detalhe de cena com Aguinaldo Camargo e Fernando Araújo

A  Orquestra Afro-Brasileira, que mantinha parceria com o TEN

José Medeiros captou também o momento de pausa na aula de balé

O jovem Haroldo Costa

 Aula de alfabetização oferecida pelo TEN à comunidade
preta  dos anos 40. Revolucionário

Em "Filhos de santo", Addias contracena com Ruth (1949)

Retratos: Haroldo, Abdias, Ruth e Léa

Foto imperfeita tecnicamente, mas brilhante em expressividade

Outro pioneirismo do TEN: o jornal Quilombo,
publicação só sobre assuntos da negritude

A bela Renée Ferreira em "Aruanda", de 1948

Outra preciosidade de José Medeiros: Abdias
e Léa encenando Shakespeare



fotos e vídeo: Leocádia Costa, Daniel Rodrigues e Acervo Abdias Nascimento / Ipeafro

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Os meus 10 melhores filmes gaúchos


Furtado, cineasta com mais títulos na lista entre
longas e curtas
Por conta de um grupo do qual participo, fui instigado a pensar nos filmes produzidos no Rio Grande do Sul em toda a sua história cinematográfica. Isso, incluindo até os não necessariamente feitos por cineastas/equipes gaúchas, mas também rodados ou produzidos. São diversos os talentos que são ou saíram desse extremo-Sul brasileiro, como Jorge Furtado, Carlos Reichenbach, Carlos Gerbase, Ana Luiza Azevedo, Paulo José, Walmor Chagas, José Lowgoy, Ítala Nandi, entre outros técnicos e realizadores. Por isso, e até em razão do recorte ao qual se pretende chegar com essa pesquisa a qual me referi, senti-me à vontade para montar uma lista dos meus filmes preferidos feitos no Estado onde nasci e vivo. Assim, bem pessoal e cinéfila.

Bastante prolífica, a produção gaúcha data do início do século, sendo dessas terras de onde saiu a primeira produção de cinema que se tem registro no Brasil: “Os Óculos do Vovô”, de 1913, de Francisco Santos, realizado numa cidade com a qual mantenho saudável proximidade, Pelotas. Não bastasse essa importância histórica para o cinema nacional, o Rio Grande do Sul também é dos estados de maior produção ao longo do último século e, certamente, deste em que estamos. Somente do ano 2000 para cá, há cerca de 100 longa-metragens, além de uma infinidade de curtas – formato, aliás, no qual se construiu considerável tradição no audiovisual gaúcho, principalmente a partir dos anos 80.

Além disso, a grande maioria do que fora rodado não se trata apenas de negativos gastos sem finalidade. Criatividade, diversidade de estilos e gêneros e qualidade técnica pautam uma parte considerável dos filmes. Goste-se ou não do resultado, trata-se de uma produção qualificada e, por outro ângulo, sociologicamente importante em seu papel de registro da cultura gaúcha. Por ser um estado froteiriço, muito de sua produção audiovisual tem influência dessa proximidade com os vizinhos platinos, tendo papel essencial para a realização de coproduções com Argentina e Uruguai principalmente.

Em termos de projeção, igualmente. É na ponta de baixo do País que ocorre o festival de cinema mais longevo e ininterrupto do Brasil, o Festival de Gramado. No que se refere a premiações, não são poucos os premiados no Brasil e no exterior ao longo da história, chegando-se ao apogeu com o multipremiado curta “Ilha das Flores”, que abocanhou láureas na França, Alemanha, Estados Unidos e no próprio País.

Isso tudo coloca a terra de P.F. Gastal tranquilamente entre os cinco polos cinematográficos mais importantes do Brasil, atrás apenas de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e, quiçá, igualado por Bahia. Claro que, desses, tenho meus preferidos, que lanço aqui os 10 principais, incluindo curtas, aliás. Pude, por isso, dispensar títulos de produções rodadas no Estado, como os ótimos “A Intrusa”, produção carioca do cineasta argentino-brasileiro Carlos Hugo Christensen, ou “Cão sem Dono”, do paulistano Beto Brant. Assim, predominam os filmes da Casa de Cinema de Porto Alegre e dos anos 80, tendo Furtado o destaque, com três deles. Porém não podia deixar de elencar o essencial "Vento Norte", primeiro longa sonoro feito nesses pagos, e dois títulos da nova safra, somando, junto com outro de Furtado, três realizações do século XXI.
Então, vamos à lista:


1 – “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado (1989)










2 – “Verdes Anos”, de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase (1984)
3 – “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1986)
4 – “Vento Norte”, de Salomão Scliar (1951)



5 – “Deu Pra ti, Anos 70”, de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil (1981)
6 – “O Mentiroso”, de Werner Schunemann (1988)
7 – “O Homem que Copiava”, de Jorge Furtado (2003)
8 – “3 Minutos”, de Ana Luiza Azevedo (1999)




9 – “A Mulher do Pai”, de Cristiane Oliveira (2016)
10 – “Castanha”, de Davi Pretto  (2014)


O ator José Carlos Castanha interpretando a si mesmo no
impressionante filme de Davi Pretto


por Daniel Rodrigues

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Navegante Errante





foto: Doris de Oliveira - fototeca Cioma Breitman
Museu Joaquim José Felizardo - Pref. mun. de Porto Alegre
O Naval foi e sempre será o bar da minha infância. Encravado em pleno Mercado Público de Porto Alegre, centro histórico da cidade, o típico boteco, aberto nos longínquos anos de 1907, é parte essencial da história de porto-alegrenses como eu, tendo em vista sua tradição e notoriedade. Aquele pé-direito altíssimo; as portas de madeira estilo português; o piso de lajotas intercalando preto e branco; o cheiro de trago no ar; as mesas de madeira com plástico grosso por cima; os porta-retratos com fotos antigas; os afrescos do teto; o enorme cartaz acima das cabeças com a imagem de um navio; as fotografias pitorescas nas paredes; o ar que parecia tomado por uma neblina de satisfação. Tudo ali me encantava desde quando, guri, levado por meu pai e, muitas vezes, juntamente com meu irmão, comecei a frequentar o bar Naval. Ia a vários outros com meu pai, mas ao Naval era especial. Não era sempre. Às vezes, no dia de pagamento de meu pai, funcionário da prefeitura, saíamos da repartição dele na Borges de Medeiros e rumávamos direto para lá, felizes. E mesmo com essa frequência menos assídua era incrível como sempre me senti em casa, tal como se o bar fosse uma extensão da minha.

Aquela aura do local me dava impressão de que, ao adentrar pela porta, fosse pela de dentro do Mercado, fosse pela da calçada, que dá para a rua, saíamos do resto do mundo para entrar, exclusivamente, no Naval, como navegantes num barco solto no meio do mar. A percepção de criança fazia com que, inclusive, eu nunca atinasse exatamente de qual dos quatro lados do Mercado Público se entrava para acessá-lo. Parecia que era pelo lado do Guaíba... mas, não, era pelo Largo... ou pelo lado da Prefeitura...? Afora a justificativa do senso de direção ainda em desenvolvimento em uma criança como eu, não posso deixar de pensar hoje que a entrada para aquele museu boêmio era, na verdade, imaginária.

A melhor parte para nós eram as comidas. Comida de boteco típica, daquelas suculentas, sempre com o mesmo gosto anos a fio. Tínhamos nossos pratos prediletos: as almôndegas gigantes, espetacularmente bem fritas, e a chuleta de porco, um respeitável bife cujo sabor especial era um verdadeiro segredo. Tinha também uma pimenta maravilhosa, a melhor que já comi na vida, feira na casa, que só passei a apreciar mais velho, pois era muito forte para meu paladar naquela época.

Não bastasse todo esse espírito, ainda o aspecto humano era de total acolhimento por parte dos garçons, que, na minha mente infantil, estavam ali desde sempre (e, quem sabe, não estavam?). Paulo Naval, um português de olhar entre o arguto e o carinhoso cujo nome resume a simbiose de sua existência com o local, visto que ele e o bar eram parte da mesma coisa; e Mauro, tipo turco dono de olhos verdes intimidadores até o momento em que abria seu sorriso largo e receptivo. Ambos eram amigos de meu pai, a quem tratavam como verdadeira deferência. No entanto e até por isso, Paulo chamava-o, com uma permissividade cúmplice de quem sabia de muita safadeza de meu pai, de “negro sem-vergonha”. O local sempre recebeu desde cidadãos comuns até personalidades, como Lupicínio Rodrigues, Carlos Gardel, Túlio Piva, Elis Regina, Glênio Peres, Leonel Brizola, Jânio Quadros, Olívio Dutra. Mas não havia distinção: podia ser político, conhecido, operário, personalidade, artista, zé-niguém, jovem, ancião, bicha, vesgo. Independia: anônimos ou famosos, todos os clientes eram tratados com o maior dos respeitos e atenção, e, alguns, como meu pai, pessoa comumente querida aonde ia (ainda mais nas rodas de birita e botecos da vida), ganhavam, sim, uma atenção especial.

Episódio clássico que mostra essa afetuosidade foi a ocasião em que meu pai, num dos tais dias de pagamento, pegou todo seu ordenado e se atirou para o Naval, sozinho. Lá, tomou todas a ponto de não ter condições de voltar para casa tamanho o porre. Tentou dar uns passos, mas caiu em plena rua. Pois então que o Paulo, sabendo que o pai tinha recém recebido o salário e que estava com este todo sacado dentro da bolsa, tomou a liberdade de abri-la e guardar o dinheiro consigo. Depois, chamou um taxi, pagou do seu bolso o taxista e mandou meu pai pra casa. No dia seguinte, já refeito do pileque, meu pai voltou ao bar para resgatar seu pertence, agradecer e pagar o taxi. Paulo não aceitou o dinheiro. Meu pai sempre se emocionava ao se lembrar desse ato de pura amizade, tanto pela consideração que tiveram com ele, rara para com um cliente, quanto pela ética de como agiram.

Por essas e outras, não à toa o Naval me parecia algo realmente poético. E Paulo Naval era um poeta de mão cheia, autor do livro "O Garçom e o Cliente - No Balcão do Naval" cujo lançamento ocorreu em pleno bar num concorrido coquetel. Recordo de uma vez que, sentados numa das mesas, ele, orgulhoso, de avental enxovalhado e paninho branco úmido na mão, recitou uma de suas obras. Momento inesquecível para mim.

Na esteira de meu pai, eu e meus irmãos também éramos muito queridos lá. Lembro da primeira vez que fomos com minha irmã, ainda uma criança de uns 4 ou 5 anos, sob os olhos arregalados de minha mãe, que permitiu o passeio com a pequena mas não sem certo receio. Mas deu tudo certo. Engraçado que, por conta daqueles dias de calor louco de Porto Alegre, misturado ao cansaço de sair cedo de casa conosco, ela acabou dormindo profundamente em nosso colo, chegando a ficar com o corpo todo mole. Parecia uma boneca de pano, pois, além de não acordar, precisava ser segurada permanentemente para não desmoronar. Naquele dia, Paulo e Mauro, felizes com a ilustre visita como se fosse a de uma familiar sua, bateram uma foto dela ainda acordada, tomando uma Mirinda de garrafa. Essa foto foi parar na parede do bar, ficando ali desde então.

Os anos se passaram. Cresci, a dinâmica de minha vida se alterou e, nesse meio tempo, entre outras mudanças, meu pai, motivo de meu contato primeiro com o Naval, foi para o outro plano. Mesmo assim, sempre procurei com uma frequência até parecida com a que tinha na infância dar uma passada por lá, fosse para sentar e comer, levar algo pronto para casa ou apenas dar um alô para o Paulo e o Mauro. Sentia-me, no fundo, com certa responsabilidade de manter a herança emocional de meu pai para com eles. Via-os nessas ocasiões, e era muito bom. Mas os anos de casa e a rotina religiosamente diária já os havia desgastado. Normal. Envelhecidos, mantinham a mesma simpatia e sorriso aberto, fazendo as mesmas perguntas a cada vez que eu ia (em que eu e meu irmão trabalhávamos, se eu ou meu irmão que é arquiteto, como estavam minha mãe e minha irmã, essas coisas de gente afeita a ti). No entanto, era perceptível que estavam cansados e que aquele cenário se alteraria, mas eu, talvez por apego ao sentimento de magia alimentado desde a infância, nem pensei em cogitar.

Mas as mudanças, de fato, ocorreram. Outro dia, dando voltas no Mercado Público, resolvi, como de costume, visitar os amigos Paulo e Mauro. Fui tomado de surpresa quando cheguei à porta do Naval. O local, todo reformado, agora tinha límpidas paredes brancas, arquitetura requintada e ar totalmente asséptico. Descaracterização própria de uma protomodernidade ignorantemente desmemoriada. A foto de minha irmã não estava mais lá, assim como os porta-retratos velhos, o cartaz do navio e tampouco a névoa de prazer. Até a porta que dava pra rua havia virado uma simplória janela. Dava pra ver que uma conceituada consultoria empresarial havia agido ali implacavelmente e passado o rodo em tudo que fosse nostálgico e não-moderno, deixando o local com cara não de botequim do Mercado Público de Porto Alegre, mas com cara de boteco bacaninha da Vila Madalena paulista. E, eu, com cara de bobo.

Perguntei a um garçom, um loiro baixinho, onde estavam o Sr. Paulo e o. Sr. Mauro. “Se aposentaram”, respondeu, olhando-me com uma expressão de estranhamento desdenhoso como se eu fosse um navegante errante em águas alheias. Mas meu desapontamento era a maior prova de que, na verdade, era ele o deslocado. Aquela indiferença modernosa e acéfala, que valoriza apenas o novo e cuja falta de alcance nem se presta a procurar no passado sentidos para o hoje, era o maior sinal da ação desrespeitosa desses tempos atuais. De fato, tudo que não fosse jovem tinha ficado para trás ali: aquelas conversas revolucionárias ou jogadas fora, aquelas bebedeiras homéricas ou o simples trago no fim do expediente, aqueles amores arrebatadores ou meros galanteios, aquelas figuras pitorescas ou cidadãos comuns, aquelas geniais ideias artísticas ou importantes acordos políticos. Tudo isso pertenceu a um tempo espacial diferente disso que se vive no dia a dia. Um tempo não-racional impossível de ser percebido por um simples garçom como os de hoje, que bate ponto como um escriturário. Tive o impulso de perguntar onde tinham posto a foto de minha irmã... mas recolhi a fala. Agradeci e fui embora, com um fio de melancolia e resignado com um mundo que insiste em ser muito real.

Mesmo assim, não deixei de frequentar o Naval. Volto lá de vez em quando. A comida é outra, gostosa também. Mas incomparável. Trata-se de outro Naval, pois “aquele” Naval, dos mocotós violentos, dos saraus de poesia, dos bate-papos inflamados, do chope perfeitamente tirado e dos tipos elegantemente extravagantes e encantadores, como foi meu pai, não existe mais. Perdeu-se no horizonte do oceano de lembrança, rumando para outra dimensão de tempo e espaço. Contudo, talvez minha paixão pelo Naval permaneça porque explique, justamente, esta minha atemporalidade ou o sentimento de, às vezes, estar deslocado no tempo. Assim como me acontecia quando subia à proa do Naval e me sentava à nau, com as pernas curtinhas que não encostavam o convés do tombadilho, para navegar longe sem sair do lugar. 

domingo, 11 de outubro de 2026

Tom Zé - "Todos os Olhos" (1973)


"aqui, vão, pois, os meus olhos, que já estão ficando velhos, com um abraço para o novo tomzé por este que é o melhor dos seus discos. a carne viva de brigitte, todos os olhos, a noite de meu bem ou a claridade cortante de o riso e a faca ou a pergunta-sem-resposta de cademar são choques de beleza crua para nós e até para ele, que está mais tomzé e mais novo do que nunca."
Augusto de Campos,
no texto do encarte do disco

O antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss conta, em seu célebre livro “Tristes Trópicos”, onde narra sua passagem pelo Brasil profundo de povos originários, comunidades isoladas e organizações sociais da vida brasileira, a experiência vivida enquanto “viajante” na aldeia indígena Nambikwaras, no estado de Mato Grosso. Observando aquela “humanidade completamente desvalida”, “esmagada” e “ingênua”, Lévi-Strauss capta daquela tribo, entretanto, uma profunda “doçura” e “comovente ternura”. Tal observância só pode existir, justamente, pelo olhar “viajante” daquele que não pertence originalmente ao lugar mas que, diante de tamanha empatia e cumplicidade, acaba por, pelo menos naquele instante, pertencer também à terra estrangeira.

Recorrer a uma explicação antropológica talvez seja a única forma de compreender a complexidade da figura de um artista tão incomum Tom Zé, em última análise, um estrangeiro neste mundo deslocado. Natural de Irará, cidade do interior da Bahia localizada no chamado Portal do Sertão, Antônio José Santana Martins nasceu há exatos 90 anos e tornou-se, ao se mudar para São Paulo em plena fase de consolidação desta como centro nervoso do País, o mais moderno músico paulistano de sua geração. Estrangeiro também porque é o primeiro tropicalista, não só por ser mais velho que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, mas porque, ainda em sua cidade-natal, no final dos anos 50, já escrevia, antes deles todos, músicas totalmente distintas de qualquer tradição local. Estrangeiro, pois, capaz de unir, com intencionalidade monástica, seresta sertaneja, samba rural e música sacra à mais rebuscada dodecafonia da vanguarda europeia.

Este artista tão ímpar, cujos estudos antropológicos ainda hão de dar conta, faz recordar mais uma vez da visão/posição de viajante de Lévi-Strauss quando trata da São Paulo que o abrigou. Tom Zé já havia composto canções que viraram verdadeiros hinos alternativos da capital paulista, como “São São Paulo”, de 1968, mas é em “Todos os Olhos” que ele extravasa essa vivência de “estrangeiro nativo”. Disco de 1973, quando dos anos de chumbo do Governo Militar, é uma obra totalmente madura de Tom Zé musicalmente falando, mas também enquanto ser político e crítico. Auge do chamado pós-tropicalismo, é também um marco do movimento concretista, tanto pela música quanto, principalmente, pelo conceito, uma vez que o poema popcreto "olho por olho", do amigo e parceiro Augusto de Campos, de 1964, inspira o trabalho como um todo. Ainda, a icônica e polêmica capa de “Todos...”, de autoria de outro poeta e artista visual paulistano e concretista, Décio Pignatari, é a da famosa foto em superclose de um ânus com uma bolita. Claro, os censores da Ditadura não identificaram nada de estranho e a aprovaram. Ora, para representar com ironia e fúria “todos os olhos” da vigília, nada melhor que o olho do cu.

“Todos...” é daqueles discos em que o recheio acompanha plenamente o invólucro. Ironia, poesia, tradição, ritmo, crítica social. E autocrítica, a se ver pela brilhante e impactante faixa de abertura “Complexo de Épico”. Em um ritmo desconstruído, algo que talvez formulasse um samba caso estivessem suas partes conjuntadas, a letra, genial, fala dele mesmo, Tom Zé, mas cutuca toda a turma da MPB diante daquele momento político tão problemático. “Todo compositor brasileiro é um complexado/ Por que, então, essa mania danada/ Essa preocupação de parecer tão sério?” Tom Zé indaga seus colegas: para quem vocês estão falando? Há efetividade na mensagem de suas canções? E conclui, sem clemência: “Ah, meu Deus do céu/ Vá ser sério assim no inferno!”.

Se o número de abertura fala aos pares, a segunda faixa evoca uma outra compositora da música brasileira, Dolores Duran, numa versão dissonante do samba-canção "A Noite do meu Bem". Em seguida, uma que fala diretamente à sua amada São Paulo: “Cademar”. Escrita sobre uma poesia de Augusto de Campos, fala em seus poucos versos sobre uma das peculiaridades da capital paulista: a ausência do mar. Ao mesmo tempo, dá a ideia de saudade e também faz uma analogia a um amor que foi embora, ausente daquele território, como que antecipando os versos de Criolo: “Não existe amor em SP”. E Tom Zé faz isso numa pequena obra-prima de música concreta. A letra é construída a partir da fragmentação sonora e visual da pergunta: "Ô, cadê Maria que não vem?", transformando-a em uma estrutura sincopada, repetitiva e não discursiva que lembra o bater de um metrônomo – ou de um coração.

Poema visual popcreto "olho por olho", de Augusto de Campos,
que inspirou o conceito do disco de Tom Zé e presente no encarte

O experimentalismo, então, desdobra-se num ato essencialmente orgânico na faixa-título. Estrategicamente alocada no quarto lugar, quando o disco já transcorria “naturalmente” e distraída a atenção dos censores, chegava a hora de ser mais contundente na denúncia à Ditatura. Do batimento cardíaco, o aceleramento angustiado; do sentimento romântico, o de medo da morte. “Todos os Olhos” diz, numa pouco disfarçada referência às torturas: “De vez em quando/ todos os olhos se voltam pra mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói/ Mas eu sou inocente”. E termina jurando inocência, agonizante, como se realmente estivesse em uma sessão de tortura. Corajosa e mordaz.

"Dodó e Zezé", com cavaquinho do maestro tropicalista Rogério Duprat, vale-se da música interiorana paulista para travar um engraçado e ferino diálogo com Odair Cabeça de Poeta, coautor com Tom Zé, numa espécie de rap-sertanejo. Como que pitando uma palha e sentados à praça, os dois conversam sobre os mais filosóficos temas, redundando sempre em alguma conclusão tão caipira quanto nada simplória. Por exemplo: Dodó pergunta: “E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé”. Ao que ele responde: “É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?”. Sem refrão, num tempo melódico atípico. Traços de uma São Paulo rural a qual, literalmente, se constrói em outro tempo, que não o a velocidade insana da metrópole.

O delicioso xote “Quando Eu Era Sem Ninguém", com participação do grupo Capote, antecipa outra em que a avant garde prevalece, que é "Brigitte Bardot". Sem centro tonal, sem ritmo, sem refrão, constrói-se num texto sobre o inevitável envelhecimento da sex symbol francesa. Quase uma resposta a “Dodó e Zezé” (mas também a “Complexo de Épico”), reflete as consequências da inexorável passagem do tempo. “Os nossos sonhos querem pedir divórcio.” Até os mitos morrem.

O clássico "Augusta, Angélica e Consolação" é outra leitura do “viajante” em terras estrangeiras, que vira imediatamente um segundo hino de São Paulo. Samba-canção sobre casos de amor não retribuídos, faz uma analogia geoafetiva com a cidade, transformando as conhecidas vias urbanas em musas, cada uma com sua personalidade – não à toa, a ver com a própria avenida. Augusta, vaidosa como as lojas de roupas importadas de seu entorno. Já Angélica, focada apenas no trabalho a ponto de cheirar como os consultórios médicos que lhe povoam. Contudo, Consolação - bairro da vida alternativa da cidade - foi-lhe a única a corresponder o amor. Para quem havia composto um ano antes "A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel", colocando em um contexto anedótico os dois prédios icônicos da arquitetura paulistana, "Augusta..." é um avanço nessa interação poética do artista com a fisiologia da cidade.

Sampa permanece em “Botaram Tanta Fumaça”. Mas agora, ao invés de uma ode, um banho de realidade. Samba com frescor da MPB universitária, tem o inteligente riff de cavaquinho, uma das características da síntese que Tom Zé faz do samba em suas diversas vertentes, ao passo que também aproxima o ritmo brasileiro dos modos minimalistas da vanguarda (algo que se agigantaria no seu trabalho seguinte, o notável “Estudando o Samba”). A letra, por sua vez, é pura crítica e sarcasmo para falar da poluição do ar (e das mentes): “Botaram tanto lixo/ Botaram tanta fumaça (...) por baixo da consciência da cidade/ que a cidade tá (...) com a consciência podre”.

Encaminhando para o final do álbum, a bela e contundente valsa “O Riso e a Faca” (“Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”) precisa de pouca instrumentalização para propor sua melodia dissonante e seu canto fragmentado. Esta vem prosseguida de outra quase vinheta, mas de muito conteúdo assim como “Cademar” e “Complexo...”, que é "Um 'Oh' e um 'Ah'". Brincadeira musical com os vocálicos “a” e “o”, tornou-se, anos mais tarde, inspiração para o belo trabalho infantil de Tom Zé em parceria com o artista visual Elifas Andreato em que criam todo um universo léxico sobre esta ideia. Música, aliás, que, sozinha, inspiraria também projetos igualmente paulistas e lúdicos como Premê, Os Mulheres Negras e Palavra Cantada.

O distanciamento estratégico de Tom Zé, seja para com sua adotiva São Paulo, seja para com todo o universo musical e filosófico que o coloca entre os grandes criadores da música brasileira moderna, deu a ele as condições de compor um dos mais brilhantes discos da MPB dos anos 70. E esse feito não diz pouco. Como um viajante capaz de enxergar o que os nativos nem prestam atenção, o baiano de Irará não apenas identifica a profunda ternura que há na terra alheia como, encantado e absorvido pela própria, também se torna parte do corpo daquele lugar. Nem que seja por um instante equivalente a 90 anos de vida.

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FAIXAS:
1. "Complexo De Épico" - 1:19
2. "A Noite Do Meu Bem" (Dolores Duran) - 3:06
3. "Cademar" (Augusto de Campos, Tom Zé) - 0:45
4. "Todos os Olhos" - 3:31
5. "Dodó e Zezé" (Odair Cabeça de Poeta, Tom Zé) - 3:59
6. "Quando Eu Era Sem Ninguém" - 3:19
7. "Brigitte Bardot" - 2:57
8. "Augusta, Angélica e Consolação" - 3:45
9. "Botaram Tanta Fumaça" - 2:46
10. "O Riso e a Faca" - 2:43
11. "Um 'Oh' e um 'Ah'" - 1:02
12. "Complexo De Épico (reprise)" - 6:47
Todas as composições de autoria de Tom Zé, exceto indicadas

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

CLAQUETE ESPECIAL 15 ANOS DO CLYBLOG - Cinema Brasileiro: 110 anos, 110 filmes (parte 4)

 

Os clássicos absolutos chegaram, entre eles,
"O Beijo da Mulher Aranha", primeiro filme
brasileiro a vencer um Oscar
Demorou um pouco além do normal, mas voltamos com mais uma parte da nossa série especial “Cinema Brasileiro: 110 anos, 110 filmes”. E tem justificativa para esta demora. Isso porque reservamos este quarto e penúltimo recorte da lista para o mês de agosto, o de aniversário do Clyblog, uma vez que este Claquete Especial, iniciado em abril, é justamente em celebração dos 15 anos do blog.

Talvez somente esta justificativa não baste, entendemos. Então, já que vínhamos mês a mês postando uma nova listagem com 20 títulos cada, propositalmente falhamos em julho para que agora, no mês do aniversário, fizéssemos uma sequência não apenas de 20 filmes, mas de 40 de uma vez. E não se tratam de quaisquer quatro dezenas! Afinal, a seleção inteira é tão rica, que igualável em qualidade a qualquer cinematografia mundial. Mas, especialmente, porque estes novos compreendem as posições do 50º ao 11º. Ou seja: aqueles “top top” mesmo, quase chegando nos “finalmentes”.

Waltinho, um dos 6 com 2 filmes entre
os 40 melhores
E se o adensamento já vinha acontecendo fortemente, com a presença de grandes realizadores, títulos clássicos e premiados e escolas reconhecidas somadas às novas produções do furtivo século XXI, agora, então, esta confluência se faz ainda mais presente. Dá para se ter ideia pelos nomes de cineastas de primeira linha como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Walter Salles Jr., Luis Sergio Person, Hector Babenco e Eduardo Coutinho, que já deram as caras com obras anteriormente e, desta feita, emplacam dois filmes cada entre os selecionados, até então os mais bem colocados. Somam-se a eles os altamente competentes João Moreira Salles, Jorge Furtado e Bruno Barreto, também com dois entre os 40.

Pode-se dizer que, agora, é quando de fato entram os clássicos incontestes, aqueles “divisores de águas” do cinema nacional (e, por que não, mundial), como “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro, "O Beijo da Mulher Aranha", de Babenco, “São Paulo S/A”, de Person, e “Tropa de Elite”, de José Padilha. Mas também pedem passagem “novos clássicos”, tal o perturbador documentário “Estamira” e o premiado “Bacurau”, de 2019, quarto mais recente entre os 110 atrás apenas de “Três Verões” (63º), “Marte Um” (79º) e “Marighella” (106º).

Elas, as cineastas mulheres, se ainda em desigualdade na contagem geral, marcam forte presença nesta fatia mais qualificada até aqui. Estão entre elas Kátia Lund, Daniela Thomas e Anna Muylaert, esta última, responsável por um dos filmes mais tocantes e críticos do cinema brasileiro, “Que Horas Ela Volta?”. Então, pegando carona na expressão, para quem estava nos perguntando "que horas eles voltariam?”: voltamos. E voltamos abalando com 40 filmes imperdíveis, que dignificam o cinema brasileiro e latino-americano. Pensa bem: apenas 10 títulos os separam do melhor cinema do Brasil. Isso diz muito.

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50. "Estamira”, Marcos Prado (2004)

Dentre as dezenas de documentários realizados na década 00, um merece especial destaque por sua força expressiva incomum: "Estamira". Certamente o que colabora para esta pungência do filme do até então apenas produtor Marcos Prado, sócio de José Padilha à época, é a abordagem sem filtro e nem concessões da personagem central, uma mulher catadora de lixo com sério desequilíbrio mental, capaz de extravasar o mais colérico impulso e a mais profunda sabedoria filosófica. A própria presença da câmera, aliás, é bastantemente honesta, visto que por vezes perturba Estamira. Obra bela e inquietante. Melhor doc do FestRio, Mostra de SP, Karlovy Vary e Marselha, além de prêmios em Belém, Miami e Nuremberg.




49. “Tropa de Elite”, de José Padilha (2007)
48. “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratón (2007)
47. “Terra Estrangeira”, Walter Salles Jr. e Daniela Thomas (1996) 
46. “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1986)
45. “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis (2002)



44. “Nunca Fomos Tão Felizes”, Murilo Salles (1984) 
43. “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho (2002)
42. “O Homem da Capa Preta”, Sérgio Rezende (1986)
41. “O Beijo da Mulher Aranha”, Hector Babenco (1985)


40. 
“São Bernardo”, Leon Hirszman (1971) 

Adaptação do livro do Graciliano Ramos, que transporta para a tela não só a história, mas a secura das relações e a incomunicabilidade numa grande fazenda do início do século XX, escorada na desigualdade dos latifúndios. Não há diálogo: a vida é assim e pronto. Daqueles filmes impecáveis em narrativa e concepção. E Leon, comunista como era, não deixa de, num deslocamento temporal, dar seu recado quanto à reforma agrária. A trilha, vanguarda e folk, algo varèsiana e smetakiana, é de Caetano Veloso, que acompanha a secura da narrativa e cria uma "música" totalmente vocal em cima de melismas lamentosos e desconcertados. Recebeu vários prêmios em festivais, entre eles o de melhor ator para Othon Bastos no Festival de Gramado, o Prêmio Air France de melhor filme, diretor, ator e atriz (Isabel Ribeiro), além do Coruja de Ouro de melhor diretor e atriz coadjuvante (Vanda Lacerda). 



39. “Carandiru”, de Hector Babenco (2002)
38. “O Som do Redor”, Kleber Mendonça Filho (2012)
37. “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert (2015) 
36. “Notícias de uma Guerra Particular”, Kátia Lund e João Moreira Salles (1999)
35. “Ganga Bruta”, Humberto Mauro (1933)



34. “Lavoura Arcaica”, Luiz Fernando Carvalho (2001)
33. “Bar Esperança, O Último que Fecha”, Hugo Carvana (1982) 
32. “Couro de Gato”, Joaquim Pedro de Andrade (1962)
31. “Os Fuzis”, Ruy Guerra (1964)


30. “O Bandido da Luz Vermelha”, Rogério Sganzerla (1968) 

Se existe cinema marginal, esta classificação se deve a “O Bandido...”. Transgressor, louco, efervescente, non-sense, crítico, revolucionário. Adjetivos são pouco pra definir a obra inaugural de Sganzerla, que trilharia pela "marginalidade" até o final da coerente carreira. Um filme de manifesto, questionamento de ordem política, de uma estética diferente e bela (apesar do baixo orçamento) e a vontade de avacalhar com tudo. "Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba". Grande vencedor do Festival de Brasília de 1968. O filme que fez o “terceiro mundo explodir” de criatividade.


29. "Santiago", de João Moreira Salles (2007)
28. “Jogo de Cena”, Eduardo Coutinho (2007)
27. “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, Glauber Rocha (1968)
26. “Noite Vazia”, Walter Hugo Khouri (1964)
25. “São Paulo S/A”, Luis Sérgio Person (1965) 



24. "Terra em Transe", Glauber Rocha (1967) 
23. "Sargento Getúlio”, Hermano Penna (1981) 
22. “O Caso dos Irmãos Naves”, Luis Sergio Person (1967) 
21. “Memórias do Cárcere”, Nelson Pereira dos Santos (1984) 

20. 
 “Ilha das Flores”, Jorge Furtado (1989)

É incontestável a importância de "Ilha das Flores" para a cinematografia gaúcha e nacional. O filme que, em plenos anos 80 ainda de fim do período de Ditadura, expôs ao mundo uma realidade muito pouco enxergada, o fez de forma absolutamente criativa e impactante. Ao acompanhar o percurso de um mero tomate da horta até o lixão a céu aberto onde vive uma fatia da população em total miséria e descaso social, Furtado virou de cabeça para baixo a narrativa do audiovisual brasileiro, influenciado diretamente as produções de TV dos anos 80 e 90 e o cinema pós-retomada nos anos 2000. Urso de Prata para curta-metragem no 40° Festival de Berlim, Prêmio Especial do Júri e Melhor Filme do Júri Popular no 3° Festival de Clermont-Ferrand, França, entre outras premiações na Alemanha, Estados Unidos e Brasil. Um clássico ainda hoje perturbador.



19. “O Beijo no Asfalto”, Bruno Barreto (1980) 
18. “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr. (1998) 
17. “Dnª Flor e seus Dois Maridos”, Bruno Barreto (1976)
16. “Garrincha, A Alegria do Povo”, Joaquim Pedro de Andrade (1962)
15. “Barravento”, Glauber Rocha (1962)


14. “Rio 40 Graus”, Nelson Pereira dos Santos (1955)
13. “Bacurau”, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019)
12. “Assalto ao Trem Pagador”, Roberto Faria (1962) 
11. “Bye Bye Brasil”, Cacá Diegues (1979) 



Daniel Rodrigues