Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Kleber Mendonça. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Kleber Mendonça. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Oscar 2026 - Os Indicados


Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo!
Desde a manhã desta quinta-feira, 22 de fevereiro, nós brasileiros podemos afirmar: “ainda estamos aqui!” O “aqui” a que me refiro, claro, é o Oscar, que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, multivencedor em diversos festivais pelo mundo, inclusive o Globo de Ouro em duas categorias a pouco mais de uma semana, tornou-se um dos indicados a quatro estatuetas. O parafraseado que remete ao filme “Ainda Estou Aqui”, indicado a três Oscar e vencedor em Filme Internacional no ano passado, não é mera brincadeira semântica, visto que tem, sim, relação com o feito de “O Agente...”, que dá seguimento a esta visibilidade ao cinema nacional e também empata em indicações com outro filme brasileiro, “Cidade de Deus”, de 2002. Ou seja: já está fazendo história.

É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.

“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalamet por “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.

Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.

De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.

Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.

Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair. 

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

Melhor Filme

"Bugonia"

"F-1"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"

"Sonhos de Trem"


Melhor Direção

Chloé Zhao, por "Hamnet"

Josh Safdie, por "Marty Supreme"

Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"

Joachim Trier, por "Valor Sentimental"

Ryan Coogler, por "Pecadores"


Melhor Ator

Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"

Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"

Ethan Hawke, por "Blue Moon"

Michael B. Jordan, por "Pecadores"

Wagner Moura, por "O Agente Secreto"


Melhor Atriz

Jessie Buckley, por "Hamnet"

Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"

Kate Hudson, por "Song Sung Blue"

Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"

Emma Stone, por "Bugonia"


Melhor Ator Coadjuvante

Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"

Jacob Elordi, por "Frankenstein"

Delroy Lindo, por "Pecadores"

Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"

Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"


Melhor Atriz Coadjuvante

Elle Fanning, por "Valor Sentimental"

Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"

Amy Madigan, por "A Hora do Mal"

Wunmi Mosaku, por "Pecadores"

Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"


Melhor Elenco

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Original

"Blue Moon"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Marty Supreme"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Adaptado

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sonhos de Trem"


Melhor Filme de Animação

"Arco"

"Elio"

"Guerreiras do K-pop"

"A Pequena Amélie"

"Zootopia 2"


Melhor Filme Internacional

"O Agente Secreto"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Valor Sentimental"

"Sirāt"

"The Voice of Hind Rajab"


Melhor Documentário em Longa-Metragem

"Alabama: Presos no Alabama"

"Embaixo da Luz Neon"

"Cutting Through Rocks"

"Mr Nobody Against Putin"

"A Vizinha Perfeita"


Melhor Documentário em Curta-Metragem

"Quartos Vazios"

"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"

"Children No More: Were and are Gone"

"O Diabo Não Tem Descanso"

"Perfectly A Strangeness"


Melhor Curta-Metragem em Live Action

"Butcher's Stain"

"A Friend Of Dorothy"

"Jane Austen's Period Drama"

"The Singers"

"Two People Exchanging Saliva"


Melhor Animação em Curta-Metragem

"Butterfly"

"Forevergreen"

"The Girl Who Cried Pearls"

"Retirement Plan"

"The Three Sisters"


Melhor Trilha Sonora

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Canção Original

"Dear Me", de "Diane Warren: Relentless"

"Golden", de "Guerreiras do K-pop"

"I Lied To You", de "Pecadores"

"Sweet Dreams Of Joy", de "Viva Verdi!"

"Sonhos de Trem", de "Sonhos de Trem"


Melhor Som

"F-1"

"Frankenstein"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"

"Sirāt"


Melhor Fotografia

"Frankenstein"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sinners"

"Sonhos de Trem"


Melhor Design de Produção

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Figurino

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Pecadores"


Melhor Cabelo e Maquiagem

"Frankenstein"

"Kokuho"

"Pecadores"

"Coração de Lutador: The Smashing Machine"

"A Meia-Irmã Feia"


Melhor Montagem

"F-1"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhores Efeitos Visuais

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"F-1"

"Jurassic World: Recomeço"

"O Ônibus Perdido"

"Pecadores"


Daniel Rodrigues


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Globo de Ouro 2026 - Os Vencedores

 

Quando soube das filmagens de um novo filme de Kleber Mendonça Filho, ainda em 2024, que se passaria no período da ditadura militar no Brasil e que já se sabia que se chamaria "O Agente Secreto", já dava para imaginar que seria algo especial. Aí veio o reconhecimento no melhor festival de cinema do mundo, Cannes, onde o filme estreou e ganhou dois prêmios. Quando assisti, tempo depois, confirmei a expectativa. Depois, mais premiações importantes: 54 no total, sendo 20 internacionais.

Até que, enfim, "O Agente..." - já um pré-indicado a Oscar de Filme Internacional e provavelmente Filme e a ator pra Wagner Moura - chega ao Globo de Ouro e.... vence! E vence em duas categorias superimportantes: Filme em Língua Não-Inglesa e em Ator em Drama! Superando, inclusive, "Ainda Estou Aqui", que no ano passado deu o globo a Fernanda Torres, mas perdeu para o questionável "Emília Perez". E ainda o filme bate fortes concorrentes, como o essencial "Foi Apenas um Acidente", o Palma de Ouro do ano, e o badalado "Valor Sentimental" (que foi bem rejeitadinho, convenhamos).

Mas não teve pra ninguém! É o Brasil de novo nas cabeças! Ah, teve outras premiações, né? "Uma Batalha Após a Outra" levou os principais? "Hamnet" lascou o de Filme de Drama? "Adolescência" abocanhou o que devia em série de TV? Sim, mas permitam que, desta vez, eu destaque o filme brasileiro, que marcou história já ao ser indicado a três categorias no Globo de Ouro e, mais do que isso, levou dois!

Mas, ok, ok! Vou deixar que saibam quem foram os outros premiados. (mas já na torcida para "O Agente..." agora no Oscar!)

🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

Melhor filme de drama

"Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor filme de comédia ou musical

"Uma batalha após a outra" 


Melhor ator em filme de drama

Wagner Moura, "O Agente Secreto" 


Melhor atriz em filme de drama

Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor série de comédia ou musical

"The Studio"


Melhor minissérie, antologia ou filme para a TV

"Adolescência"


Melhor série de drama

"The Pitt"


Melhor atriz em série de drama

Rhea Seehorn, "Pluribus"


Melhor performance de comédia stand-up na TV

Ricky Gervais, "Ricky Gervais: Mortality"


Melhor atriz coadjuvante na TV

Erin Doherty, "Adolescência"


Melhor filme em língua não-inglesa

"O Agente Secreto"


Melhor filme de animação

"Guerreiras do K-Pop" 


Melhor direção em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma batalha após a outra"


Melhor destaque em bilheteria

"Pecadores"


Melhor atriz em minissérie, antologia ou filme para a TV

Michelle Williams, "Dying for Sex"


Melhor ator em minissérie, antologia ou filme para a TV

Stephen Graham, "Adolescência"


Melhor ator em filme de musical ou comédia

Timothée Chalamet, "Marty Supreme"


Melhor atriz em filme de musical ou comédia

Rose Byrne, "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria"


Melhor roteiro em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra"


Melhor trilha sonora de filme

"Pecadores" 


Melhor canção em filme

"Golden", "Guerreiras do K-Pop"


Melhor podcast

"Good Hang with Amy Poehler" 


Melhor ator em TV de musical ou comédia

Seth Rogen, "The Studio"


Melhor ator coadjuvante na TV

Owen Cooper, "Adolescência" 


Melhor atriz em série de musical ou comédia

Jean Smart, "Hacks"


Melhor ator em série de drama

Noah Wyle, "The Pitt"


Melhor ator coadjuvante em filme

Stellan Skarsgard, "Valor Sentimental"


Melhor atriz coadjuvante em filme

Teyana Taylor, "Uma Batalha Após a Outra"



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (2025)

 

Ainda no calor da exibição, enquanto os créditos finais passavam, uma senhora sentada ao meu lado na lotada sala de cinema para a pré-estreia de “O Agente Secreto”, disse-me impressionada: "O Kleber não erra uma!". Nada mais fiz do que concordar com ela: Kleber Mendonça Filho não erra, repetindo, obra após obra, somente acertos. Neste seu quinto longa-metragem, estrelado por Wagner Moura e vencedor de diversos prêmios, dentre estes três no Festival de Cannes (Melhor Ator, Melhor Diretor e prêmio da Crítica FIPRSCI de Melhor Filme), o cineasta pernambucano apresenta mais um grande filme. Com um estilo próprio de filmar, Kleber, no entanto, não fecha seu cinema somente a um modelo. E aí talvez esteja o seu principal acerto.

Numa trama envolvente e sinuosa, a história de “O Agente...”, que estreia hoje nos cinemas, se passa no ano de 1977, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, e conta a saga de Marcelo, um professor especializado em tecnologia que decide fugir de seu passado violento e misterioso. Ele se muda de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar a vida perto do filho. Porém, mesmo em plena semana de Carnaval, em que os ânimos estão exaltados pela festa do Momo, seus passos estão sendo vigiados, e ele percebe que a cidade que acreditou ser o seu refúgio é ainda mais perigosa para sua sobrevivência.

Kleber vale-se de muita habilidade narrativa para contar essa saga. Primeiro, que ele constrói um thriller que remete aos tradicionais filmes de espionagem dos anos 60 e 70, porém usando criatividade para fugir do óbvio. Nesse sentido, uma das melhores características do roteiro é o aspecto da frustração de expectativas e do deslocamento de suposições. Artifício empregado com maestria por cineastas como os irmãos Cohen (“Onde os Fracos não têm Vez” é exemplar nesse jogo narrativo), ambos recursos fazem com que a história surpreenda o espectador no seu desenrolar, ao mesmo tempo em que lhe tira a atenção se determinado elemento ou lhe "promete" entregar outros, mas sabiamente lhe frustra por lançar outra lógica no lugar.

Exemplo perfeito desse deslocamento intencional de sentido é a perna encontrada dentro da barriga de um tubarão no começo do filme. Por um lado, é algo que insere uma linha narrativa à trama, mas também amarra outros níveis narrativos mais simbólicos, do folclórico ("perna cabeluda") ao existencial (a impossibilidade de cidadãos honestos, transformados em refugiados políticos, em andar com as próprias pernas). Até mesmo o assassino de aluguel Vilmar (Kaiony Venâncio), em parte exitoso em seu serviço, é algoz e vítima ao mesmo tempo do perverso e violento sistema paralelo sustentado pelo regime militar brasileiro, visto que ele também é baleado justamente na perna.

Tânia Maria como d. Sebastiana:
essencial para a trama
Essa amarração simbólica é um dos predicados de Kleber, o que torna seus filmes ao mesmo tempo únicos e similares. A grande qualidade de sua obra está em nunca se repetir, mas mantendo uma linha ideológica, narrativa e estética comum, que traz a cultura local, recifense, pernambucana e nordestina para um patamar de crítica. A barbárie e a violência humanas, por exemplo, são espelhadas na iminência do perigo do tubarão, comum nas praias de Recife, elemento presente em seu primeiro filme, “O Som ao Redor” (2012), e também em “Aquarius” (2016) e no documentário “Retratos Fantasmas” (2023). “O Agente...” é totalmente diferente destes três, assim como de “Bacurau” (2019, codirigido por Juliano Dornelles), mas todos, em maior ou menor grau entre si, trazem parecenças de estilo de filmar (os zoons in e out eficientes, as passagens entre cenas, os diálogos densos, a divisão em capítulos) como temáticas (o contexto político, a denúncia social, a oposição entre barbárie e humanismo).

O que resulta disso é mais uma obra impactante de Kleber, um filme empolgante que o coloca definitivamente entre os melhores realizadores do mundo em atividade ao lado de Yorgos Lanthimos, Sofia Coppola, Gaspar Noé e Jordan Peele. As 2 horas e 40 minutos de fita são aproveitadas internamente, sem qualquer excesso ou "barriga". Wagner, escolha perfeita para o papel, está deslumbrante, assim como Tânia Maria no papel de Dona Sebastiana, atriz veterana com quem o cineasta já havia trabalhado em "Bacurau" e que enxergou nela a possibilidade de aproveitar melhor seu talento. Deu muito certo, visto que Tânia - a quem empolgadas vozes vêm apontando-a como merecedora de indicação a Oscar pela atuação - recebe, desta vez, textos bastante bem elaborados, essenciais ao filme.

Já que se entrou nessa seara, então: e o Oscar? Parece cedo ainda para falar a respeito, visto que os favoritos, em geral, começam a surgir principalmente durante novembro e dezembro. São esses títulos de dentro da indústria e/ou responsivos ao contexto socio-politico-produtivo que saltam na frente em preferência.

Contudo, dá para arriscar o palpite de que “O Agente...”, dados os prêmios em Cannes e todo o eficiente marketing que vem ganhando - além, claro, da qualidade do filme - tem boas chances de emplacar indicações. A começar, pela de Filme Internacional, para o qual vem sendo bem cotado. Porém, é bem plausível supor que, na esteira de "Ainda Estou Aqui", brasileiro vencedor do Oscar de Filme Internacional do ano passado e concorrente na categoria de atriz, quando Fernanda Torres beliscou a estatueta, desta vez saia uma indicação para Melhor Ator para Moura, figura já conhecida do mercado norte-americano e internacional. Aposto também em indicação a Melhor Filme, assim como ocorreu com “Ainda...”, mas também de Direção para Kleber, cujo trabalho é naturalmente mais autoral do que o de Walter Salles em “Ainda...”, o que lhe pode contar pontos diante do novo contexto da Academia do Oscar, mais atenta a talentos de fora do eixo de anos para cá.

Previsões boas para um país como o Brasil, que vem despontando no cenário cinematográfico mundial de anos para cá e que parece manter-se assim. Talvez “O Agente...” supere “Ainda...” em indicações e, quiçá, em premiações - assim se espera - mas não em visibilidade de público nos cinemas brasileiros, visto que se trata de uma obra menos "palatável" do que a do filme de Waltinho, bem mais convencional em narrativa, o que o aproxima do espectador comum. Ou, quem sabe, depois que o filme estrear, a campanha de marketing, vultosa para os padrões brasileiros, não consiga atrair tanto público quanto o fenômeno de bilheteria “Ainda...”? Se propaganda serve para vender porcarias todos os dias, que sirva também para levar a um grande público coisas boas como “O Agente...”. Terá, enfim, a publicidade acertado alguma vez assim como Kleber, que acerta em todas.

🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬


Trailer oficial de "O Agente Secreto"


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

"O Agente Secreto"
direção: Kleber Mendonça Filho
elenco: Wagner Moura, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Udo Kier, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Roney Villela
gênero: drama, policial
duração: 2h41min.
país: Brasil, França, Países Baixos, Alemanha
ano: 2025
onde assistir: Nos cinemas


Daniel Rodrigues


sábado, 24 de maio de 2025

78º Festival de Cannes 2025 - Os Premiados

 


O pernambucano Kléber Mendonça Filho discursando
após receber o prêmio de melhor diretor no Festival.
E só dá Brasil!!!

Depois da gigantesca vitória no Oscar, com o prêmio de melhor filme internacional para "Ainda Estou Aqui", agora, no Festival de Cannes, outro dos eventos cinematográficos mais prestigiados do mundo, o Brasil volta a conquistar prêmios de grande relevância. "O Agente Secreto", filme pelo qual sempre se teve enorme expectativa e cuja previsão por reconhecimento internacional em festivais já era prevista, confirma o que se esperava e leva em Cannes os prêmios de melhor ator para Wagner Moura e melhor direção para Kleber Mendonça Filho, que por sinal, já conhecia o gostinho de uma vitória em Cannes com o Prêmio do Júri, em 2019, por "Bacurau". A Palma de Ouro, a categoria principal, que era uma possibilidade bastante plausível, dada a ótima recepção do filme na exibição pública no festival, acabou não vindo, mas ainda assim os dois vencidos representam definitivamente essa nova ascenção e reconhecimento do cinema que se faz por aqui.

A almejada Palma de Ouro acabou indo para Jafar Panahi com "Um Simples Acidente", garantindo a segunda vitória do cinema iraniano em Cannes. 

Nessa onda de sucessos internacionais do cinema brasileiro e do retrospecto dos vencedores de Cannes no Oscar nos últimos anos, já começa-se a sonhar com um bicampeonato de melhor filme estrangeiro em Los Angeles no ano que vem... Será? Não assisti ainda mas, pelo que se diz, "O Agente Secreto" tem grande potencial. Desde já estamos na torcida.

Confira abaixo todos os vencedores na premiação de Cannes 2025:


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬


Jafar Panahi com a Palma de Ouro em mãos.

Palma de Ouro
: 'It Was Just an Accident', de Jafar Panahi

Grand Prix: 'Sentimental Value', de Joachim Trier

Prêmio do Júri: 'Sirât, de Olivier Laxe' e 'Sound of Falling', de Mascha Schilinski

Melhor Diretor: Kleber Mendonça Filho, por 'O Agente Secreto'

Melhor Atriz: Nadia Melitti, por 'The Little Sister'

Melhor Ator: Wagner Moura, por 'O Agente Secreto'

Melhor Roteiro: 'Young Mothers', de Luc e Jean-Pierre Dardenne

Prêmio Especial do Júri: 'Ressurection', de Bi Gan

Câmera de Ouro (filme de estreia): 'The President's Cake', de Hasan Hadi



C.R.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

"Propriedade", de Daniel Bandeira (2022)

 

Não é coincidência que, numa das sessões da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Reforma Agrária e Urbana, a chamada CPMI “da Terra”, em 2023, tenha-se recorrido a Karl Marx para evidenciar a incongruência daquela comissão. Constituída “com o objetivo de realizar amplo diagnóstico sobre a estrutura fundiária brasileira, os processos de reforma agrária e urbana, os movimentos sociais de trabalhadores, assim como os movimentos de proprietários de terras”, a tal CPMI não apenas sucumbiu por falta de autossustentação como, no final do dia, não olhou para a prioridade: ser uma ferramenta para resolução da questão do campo no Brasil. Em depoimento, o presidente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, valeu-se dos conceitos do filósofo alemão para uma explicação bem didática sobre a estrutura sociopolítica contemporânea pautada pelos valores capitalistas. E isso por um simples, mas profundo fator: o de que o ideário marxista inclui, ineditamente na história da Sociologia, a classe trabalhadora no contexto desta reflexão. Depois de Marx, foi impossível dissociar o trabalhador das relações de poder e, consequentemente, relativizar o conceito de “propriedade”.

A própria investigação da CMPI em si, em pleno 2023, denota o quanto a questão fundiária no Brasil permanece mal resolvida. Está relacionada diretamente a chagas da sociedade provocadas pela histórica mentalidade escravista e potencializada pelas relações de poder capitalistas. Pois que a exploração de mão de obra, o monopólio da elite, as péssimas condições de trabalho e a alienação ao acesso à saúde e à educação, tudo isso está hibridizado num fundamental filme cujo título traz o cerne dessa questão: "Propriedade". A obra, do jovem cineasta pernambucano Daniel Bandeira, é, ao mesmo tempo, de uma enorme riqueza narrativa quanto, principalmente, de um realismo crível e tragicamente plausível. Em forma thriller à brasileira, o filme expõe situações prementes da sociedade brasileira atual, desde a escravidão moderna, a especulação imobiliária e o velho coronelismo, incrustado como uma doença secular na sociedade nordestina.

Na trama, a reclusa estilista Tereza (Malu Galli), esposa de um rico empresário e proprietário de terras (Tavinho Teixeira, como Roberto), deixa a cidade para refugiar-se com o marido em uma fazenda da família na tentativa de se recuperar. Mas, quando os explorados trabalhadores do local sabem da intenção do patrão de vender as terras e dispensá-los sem nenhum direito e indenização, um levante acontece. Para se proteger da violenta revolta dos trabalhadores, Tereza se enclausura em seu carro blindado. Mesmo separados por uma camada impenetrável de vidro, o conflito é inevitável e escalável, pois balizado por um elemento muito menos material e, sim, simbólico: a luta de classes.

Malu Galli como Tereza em cena tensa de "Propriedade": terror à brasileira

Segundo longa de Bandeira, "Propriedade" – provavelmente o melhor filme nacional de 2023 – tem o poder de consolidar uma época. Assim como outras escolas ou movimentos cinematográficos ao longo da história, o filme junta-se a obras irmãs, formando um panorama ideológico e produtivo robusto representativo do seu tempo/espaço. A exemplo do neorrealismo italiano, do novo cinema iraniano ou do Dogma 95 dinamarquês, cujos filmes dialogam entre si dentro de seus próprios círculos, "Propriedade" responde a temas muito caros a outros filmes da cinematografia contemporânea de Pernambuco, que se consolida como um dos mais frutíferos polos de produção de cinema no Brasil neste século. É fácil notar semelhanças com elementos da crítica social recorrentemente trazida pelos autores desta cena. "Piedade", de Cláudio Assis (especulação imobiliária), "Carro Rei", de Renata Pinheiro (repressão do Estado) e "Fim de Festa", de Hilton Lacerda (violência urbana), são alguns deles.

Porém, "Propriedade" traz ainda mais para próximo de si os filmes de Kleber Mendonça Filho, com quem Bandeira trabalhara desde 2002 no curta "A Menina do Algodão", o qual roteirizou e atuou. A referência temática e fotográfica a "Bacurau" (2019), de Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é notória, assim como soluções narrativas de desfecho, que interligam ainda mais ambos. Igualmente, "Aquarius" (2016), outro de Mendonça Filho, que também avança sobre a questão do oportunismo do setor imobiliário e da luta pela preservação cultural diante da modernização desenfreada do liberalismo. Contudo, "Propriedade" principalmente retraz a discussão basal de "O Som ao Redor" (2012), primeiro longa de Mendonça Filho, uma contundente crítica ao antagonismo entre público e privado, entre pobreza e riqueza, entre velho e novo, entre impotência e poder, entre humanidade e barbárie.

"Propriedade" e "Bacurau": semelhança temática, cenográfica e fotográfica
entre os filmes de Bandeira e Mendonça Filho

O que "Propriedade" expõe é o choque entre elite e proletariado, uma vez que o sistema vigorante favorece as desigualdades. Não apenas isso: baseia-se nelas. O capital supõe mediar um equilíbrio, mas só faz provocar revolta nos que o geram, mas não o detém, e medo nos que o detém, mas não o geram. A tensão é permanente e dos dois lados. Veja-se a frase que liga o automóvel de Roberto por meio de IA: o verso inicial da música "Dê um Rolê". Cantado por Gal Costa no clássico disco "Fa-Tal", de 1971, marco da resistência aos anos de chumbo no Brasil, o verso diz: “Não se assuste, pessoa”. Mostra da obviedade sem criatividade da elite, que se apropria do discurso dissonante da esquerda para vestir seus modos ideológicos distorcidos, a música é usada por ele como se esta condissesse com seu comportamento imperialista, distorcendo a essência da obra e, por consequência, transformando-a num mero produto de consumo.

Mas os vieses, claro, não são absorvidos por quem raciocina apenas a favor do (seu) capital. O fato de este pequeno enunciado servir como chave para acionar o veículo também funciona, noutro patamar, como uma chave muito mais simbólica, pois capaz de ativar de forma verbal o medo e a neura de uma fatia da sociedade hedonista, que se vitimiza, mas não questiona o quanto seu comportamento sustenta desigualdades que remontam à escravatura. Como Caetano Veloso escreveu certa vez para a voz da mesma Gal Costa: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo, mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”.

Trabalhadores rurais e os
limites das relações de poder
Quando trata da base da pirâmide, o filme traz à discussão um tema essencial e controverso, que é o direito à terra. O principal motivo que faz os campesinos se manterem na fazenda a qual já se sabiam dispensados é a presunção de que, por terem dedicado suas forças de trabalho de maneira tão intensa e indigna há tantos anos e gerações, mereciam tornarem-se eles os donos dela. Uma reparação a si e a todo um povo massacrado há séculos pelos poderosos. Reivindicação justa ou não, legal ou não, mas que encontra na ação presente do MST um fundo de verdade, uma vez que o movimento, muitas vezes acusado de fora-da-lei, é, por exemplo, o grupo que mais produz arroz orgânico no Brasil, correspondendo a 70% do grão produzido nacionalmente, segundo dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga).

Renovando a discussão sobre a reforma agrária, tão presente no cinema brasileiro dos anos 1960 e 1970 em filmes como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Vidas Secas", "Maioria Absoluta" e "O País de São Saruê", Propriedade traz para o contexto do Brasil atual em que o liberalismo exerce forte influência no mercado e na sociedade. Não é de se estranhar que um filme tão agudo e necessário seja do mesmo ano em que se revelou, no Rio Grande do Sul, na rica e conceituada região da Serra, casos análogos à escravidão com trabalhadores rurais, mesmo quase 135 anos após a Abolição. E não para com conterrâneos gaúchos, mas justamente com imigrantes nordestinos sujeitos a condições desumanas longe de sua terra.

Em "Propriedade", o que se sugere é um momento de fratura. Rompidas as grades da “senzala” e da “casa grande”, ora representadas pela porteira da fazenda do interior e pelas torres residenciais da cidade, o que resta é a colisão entre estes dois opostos sociais, até que um enterre o outro. Nem vidros blindados ou camuflados são capazes de conter. A CPMI “da Terra”, por óbvio, inconclusiva, haja vista que originalmente mal sustentada, denota o quanto os ensinamentos de Marx prevalecem e que não cabe (como nunca coube ou deveria ter cabido) mais espaço para a iniquidade em tempos atuais. A feroz e coerente reação dos personagens revoltosos de "Propriedade", bem como a consequente escalada de violência da trama, serve como um aviso de que a questão da terra deve ser encarada de frente e sem filtros. Um “basta” para um problema basal da sociedade brasileira de difícil resolução, mas de necessária atenção. E a quem quiser prosseguir mantendo a desigualdade e o desrespeito aos direitos humanos, um alerta: assustem-se, pessoas. Não acreditem em Gal quando ela diz que a vida, assim, é boa.

***********

trailer de "Propriedade", de Daniel Bandeiras


Daniel Rodrigues

Artigo originalmente publicado no Blog Roger Lerina/ Matina Jornalismo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Melhores do Ano Accirs 2023


Como ocorre tradicionalmente, a Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), da qual faço parte, elegeu os Melhores do Ano, destacados entre produções lançadas em mostras e festivais, no circuito comercial e também em plataformas de streaming. A votação é referente ao ano de 2023, quando a Associação atingiu um grande marco ao celebrar seu 15º aniversário consolidada como uma instituição cada vez mais atuante e importante no ambiente cinematográfico do Rio Grande do Sul e do país.

Dividida em dois turnos, a eleição traz os melhores longas-metragens estrangeiro, brasileiro e gaúcho, além do melhor curta gaúcho do ano. A maioria destes filmes, aliás, fomos reportando aqui no blog ao longo do ano na seção Claquete. Fora desta seleção, a premiação da Accirs entrega, desde sua primeira edição, o Prêmio Luís César Cozzatti, que reconhece filmes, projetos, instituições ou pessoas de destaque no cenário audiovisual gaúcho.

Confira os vencedores do Prêmio Accirs 2023:


Melhor curta-metragem gaúcho: 
"Centenário de Minha Bisa", de Cristyelen Ambrozio

Tocante documentário poético da realizadora indígena Cristyelen Ambrozio, confirmando a escolha da nossa associação que, em agosto, no Festival de Cinema de Gramado, concedemos-lhe o prêmio de Melhor Curta Gaúcho pelo Júri da Crítica. O filme tece diversas camadas simbólicas, desde a visão feminina, a dos povos originários, a necropolítica, a herança cultural. Uma joia de Cristyelen, de quem se espera que rendam novos frutos.





Melhor longa-metragem gaúcho: 
"Casa Vazia", de Giovani Borba

O excelente filme de Giovani Borba, do qual tive a felicidade de participar de um debate em setembro, na Cinemateca Paulo Amorim, ao lado deste jovem realizador e da minha colega de Accirs e coordenadora da cinemateca Mônica Kanitz, era também meu preferido entre os longas gaúchos. Afinal, este thiller gaudério, misto de western e drama fantástico, pode ser visto com um marco do novo cinema no Rio Grande do Sul com obras como "Castanha" e "Mulher do Pai".



Melhor longa-metragem nacional: 
"Retratos Fantasmas", de Kleber Mendonça Filho

Outro documentário entre nossos premiados, e outro documentário de um olhar muito pessoal. Mas aqui, no caso, do grande nome do cinema nacional dos últimos anos, o pernambucano Kléber Mendonça Filho. Para quem acompanha sua obra tão marcante, ver o caminho afetivo percorrido por ele para a composição de seus curtas e, principalmente, os longas urbanos "O Som ao Redor" e "Aquarius", é emocionante e revelador. Foi o filme (mal) indicado a representar o Brasil no Oscar mas, mais uma vez, não ficou entre os selecionados. Não tem mesmo o perfil, pois trata-se de uma obra muito poética para o gosto da Academia.


Melhor longa-metragem estrangeiro: 
"Assassinos da Lua das Flores", de Martin Scorsese

Ah, o velho Scorsese, hein? Já discorri mais amplamente sobre este novo filme do mestre do cinema norte-americano e mundial, mas não custa repetir, que "Assassinos..." é um dos grandes filmes de sua extensa filmografia. A visão revisionista da história "yankee" é não só mais um capítulo em seu importante papel para a reconfiguração dos mitos imperialistas como pertinente para o momento de valorização dos povos originários. Mestre.




Poster do curta "Glênio",
de Luiz Alberto Cassol e
exibido em Gramado
Prêmio Luís César Cozzatti (destaque gaúcho): 
Glênio Póvoas

Glênio Nicola Póvoas é pesquisador, professor, diretor e roteirista, Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação Social pela PUC-RS. Com uma longeva carreira profissional dedicada ao cinema, em especial ao gaúcho, foi um dos principais responsáveis pelo lançamento do Portal do Cinema Gaúcho e assina a coordenação geral do projeto – um grandioso banco de dados sobre nosso cinema, apresentado em 2023. Tive o prazer de ser seu aluno na cadeira de Cinema na faculdade de Jornalismo.





Daniel Rodrigues

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

CLAQUETE ESPECIAL 15 ANOS DO CLYBLOG - Cinema Brasileiro: 110 anos, 110 filmes (parte 4)

 

Os clássicos absolutos chegaram, entre eles,
"O Beijo da Mulher Aranha", primeiro filme
brasileiro a vencer um Oscar
Demorou um pouco além do normal, mas voltamos com mais uma parte da nossa série especial “Cinema Brasileiro: 110 anos, 110 filmes”. E tem justificativa para esta demora. Isso porque reservamos este quarto e penúltimo recorte da lista para o mês de agosto, o de aniversário do Clyblog, uma vez que este Claquete Especial, iniciado em abril, é justamente em celebração dos 15 anos do blog.

Talvez somente esta justificativa não baste, entendemos. Então, já que vínhamos mês a mês postando uma nova listagem com 20 títulos cada, propositalmente falhamos em julho para que agora, no mês do aniversário, fizéssemos uma sequência não apenas de 20 filmes, mas de 40 de uma vez. E não se tratam de quaisquer quatro dezenas! Afinal, a seleção inteira é tão rica, que igualável em qualidade a qualquer cinematografia mundial. Mas, especialmente, porque estes novos compreendem as posições do 50º ao 11º. Ou seja: aqueles “top top” mesmo, quase chegando nos “finalmentes”.

Waltinho, um dos 6 com 2 filmes entre
os 40 melhores
E se o adensamento já vinha acontecendo fortemente, com a presença de grandes realizadores, títulos clássicos e premiados e escolas reconhecidas somadas às novas produções do furtivo século XXI, agora, então, esta confluência se faz ainda mais presente. Dá para se ter ideia pelos nomes de cineastas de primeira linha como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Walter Salles Jr., Luis Sergio Person, Hector Babenco e Eduardo Coutinho, que já deram as caras com obras anteriormente e, desta feita, emplacam dois filmes cada entre os selecionados, até então os mais bem colocados. Somam-se a eles os altamente competentes João Moreira Salles, Jorge Furtado e Bruno Barreto, também com dois entre os 40.

Pode-se dizer que, agora, é quando de fato entram os clássicos incontestes, aqueles “divisores de águas” do cinema nacional (e, por que não, mundial), como “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro, "O Beijo da Mulher Aranha", de Babenco, “São Paulo S/A”, de Person, e “Tropa de Elite”, de José Padilha. Mas também pedem passagem “novos clássicos”, tal o perturbador documentário “Estamira” e o premiado “Bacurau”, de 2019, quarto mais recente entre os 110 atrás apenas de “Três Verões” (63º), “Marte Um” (79º) e “Marighella” (106º).

Elas, as cineastas mulheres, se ainda em desigualdade na contagem geral, marcam forte presença nesta fatia mais qualificada até aqui. Estão entre elas Kátia Lund, Daniela Thomas e Anna Muylaert, esta última, responsável por um dos filmes mais tocantes e críticos do cinema brasileiro, “Que Horas Ela Volta?”. Então, pegando carona na expressão, para quem estava nos perguntando "que horas eles voltariam?”: voltamos. E voltamos abalando com 40 filmes imperdíveis, que dignificam o cinema brasileiro e latino-americano. Pensa bem: apenas 10 títulos os separam do melhor cinema do Brasil. Isso diz muito.

************

50. "Estamira”, Marcos Prado (2004)

Dentre as dezenas de documentários realizados na década 00, um merece especial destaque por sua força expressiva incomum: "Estamira". Certamente o que colabora para esta pungência do filme do até então apenas produtor Marcos Prado, sócio de José Padilha à época, é a abordagem sem filtro e nem concessões da personagem central, uma mulher catadora de lixo com sério desequilíbrio mental, capaz de extravasar o mais colérico impulso e a mais profunda sabedoria filosófica. A própria presença da câmera, aliás, é bastantemente honesta, visto que por vezes perturba Estamira. Obra bela e inquietante. Melhor doc do FestRio, Mostra de SP, Karlovy Vary e Marselha, além de prêmios em Belém, Miami e Nuremberg.




49. “Tropa de Elite”, de José Padilha (2007)
48. “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratón (2007)
47. “Terra Estrangeira”, Walter Salles Jr. e Daniela Thomas (1996) 
46. “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, Jorge Furtado e José Pedro Goulart (1986)
45. “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis (2002)



44. “Nunca Fomos Tão Felizes”, Murilo Salles (1984) 
43. “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho (2002)
42. “O Homem da Capa Preta”, Sérgio Rezende (1986)
41. “O Beijo da Mulher Aranha”, Hector Babenco (1985)


40. 
“São Bernardo”, Leon Hirszman (1971) 

Adaptação do livro do Graciliano Ramos, que transporta para a tela não só a história, mas a secura das relações e a incomunicabilidade numa grande fazenda do início do século XX, escorada na desigualdade dos latifúndios. Não há diálogo: a vida é assim e pronto. Daqueles filmes impecáveis em narrativa e concepção. E Leon, comunista como era, não deixa de, num deslocamento temporal, dar seu recado quanto à reforma agrária. A trilha, vanguarda e folk, algo varèsiana e smetakiana, é de Caetano Veloso, que acompanha a secura da narrativa e cria uma "música" totalmente vocal em cima de melismas lamentosos e desconcertados. Recebeu vários prêmios em festivais, entre eles o de melhor ator para Othon Bastos no Festival de Gramado, o Prêmio Air France de melhor filme, diretor, ator e atriz (Isabel Ribeiro), além do Coruja de Ouro de melhor diretor e atriz coadjuvante (Vanda Lacerda). 



39. “Carandiru”, de Hector Babenco (2002)
38. “O Som do Redor”, Kleber Mendonça Filho (2012)
37. “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert (2015) 
36. “Notícias de uma Guerra Particular”, Kátia Lund e João Moreira Salles (1999)
35. “Ganga Bruta”, Humberto Mauro (1933)



34. “Lavoura Arcaica”, Luiz Fernando Carvalho (2001)
33. “Bar Esperança, O Último que Fecha”, Hugo Carvana (1982) 
32. “Couro de Gato”, Joaquim Pedro de Andrade (1962)
31. “Os Fuzis”, Ruy Guerra (1964)


30. “O Bandido da Luz Vermelha”, Rogério Sganzerla (1968) 

Se existe cinema marginal, esta classificação se deve a “O Bandido...”. Transgressor, louco, efervescente, non-sense, crítico, revolucionário. Adjetivos são pouco pra definir a obra inaugural de Sganzerla, que trilharia pela "marginalidade" até o final da coerente carreira. Um filme de manifesto, questionamento de ordem política, de uma estética diferente e bela (apesar do baixo orçamento) e a vontade de avacalhar com tudo. "Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba". Grande vencedor do Festival de Brasília de 1968. O filme que fez o “terceiro mundo explodir” de criatividade.


29. "Santiago", de João Moreira Salles (2007)
28. “Jogo de Cena”, Eduardo Coutinho (2007)
27. “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, Glauber Rocha (1968)
26. “Noite Vazia”, Walter Hugo Khouri (1964)
25. “São Paulo S/A”, Luis Sérgio Person (1965) 



24. "Terra em Transe", Glauber Rocha (1967) 
23. "Sargento Getúlio”, Hermano Penna (1981) 
22. “O Caso dos Irmãos Naves”, Luis Sergio Person (1967) 
21. “Memórias do Cárcere”, Nelson Pereira dos Santos (1984) 

20. 
 “Ilha das Flores”, Jorge Furtado (1989)

É incontestável a importância de "Ilha das Flores" para a cinematografia gaúcha e nacional. O filme que, em plenos anos 80 ainda de fim do período de Ditadura, expôs ao mundo uma realidade muito pouco enxergada, o fez de forma absolutamente criativa e impactante. Ao acompanhar o percurso de um mero tomate da horta até o lixão a céu aberto onde vive uma fatia da população em total miséria e descaso social, Furtado virou de cabeça para baixo a narrativa do audiovisual brasileiro, influenciado diretamente as produções de TV dos anos 80 e 90 e o cinema pós-retomada nos anos 2000. Urso de Prata para curta-metragem no 40° Festival de Berlim, Prêmio Especial do Júri e Melhor Filme do Júri Popular no 3° Festival de Clermont-Ferrand, França, entre outras premiações na Alemanha, Estados Unidos e Brasil. Um clássico ainda hoje perturbador.



19. “O Beijo no Asfalto”, Bruno Barreto (1980) 
18. “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr. (1998) 
17. “Dnª Flor e seus Dois Maridos”, Bruno Barreto (1976)
16. “Garrincha, A Alegria do Povo”, Joaquim Pedro de Andrade (1962)
15. “Barravento”, Glauber Rocha (1962)


14. “Rio 40 Graus”, Nelson Pereira dos Santos (1955)
13. “Bacurau”, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019)
12. “Assalto ao Trem Pagador”, Roberto Faria (1962) 
11. “Bye Bye Brasil”, Cacá Diegues (1979) 



Daniel Rodrigues