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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Se Jogadores de Futebol Gravassem Discos







O ClyBlog já de muito versa sobre música e sobre futebol, não raro os dois juntos e misturados. A ver pelas competições entre bandas, como a Copa The Cure, a Copa Legião Urbana e a Copa Beatles – esta, em suas fases finais neste momento –, mas também por conta de crônicas, contos, ÁLBUNS FUNDAMENTAIS e até poesias, vários deles debaixo do guarda-chuva ClyBola, seção motivada pelo clima de Copa do Mundo no Brasil.

Pois eis que, nesta mesma vibe, o designer inglês James Campbell Taylor também captou tal sinergia entre bola e ritmo e inventou brilhantes capas de discos como se jogadores emblemáticos da história do futebol fossem também cantores – afinal, o “palco” desses artistas da bola eram os gramados. E que trabalho criativo! Sem recorrer a obviedades, mas também salientando particularidades dos jogadores como apelidos, comportamento dentro de campo e marcos de suas carreiras, Taylor (torcedor do Leicester City) casou essa naturalidade de cada atleta às tendências gráficas de seu país no tempo em que jogavam. Para isso, baseou-se, principalmente, no conceito visual de selos e gravadoras como Capitol, Parlophone, Verve, Columbia e Sire para atingir esse objetivo.

E Taylor marcou um golaço. Além de ricos detalhes como autógrafos rabiscados, o desgaste do papelão da capa do vinil e a saliência provocada pela pressão exercida pela gramatura do disco dentro do envelope, a concepção para cada um ficou redondinha como um chute certeiro. Destaque para as do Ronaldo Fenômeno e do Roberto Baggio que, não bastasse o esmero de comporem uma arte minimalista usando as clássicas combinações entre cores e caracteres, tal como faz a Blue Note, ainda escreve abaixo os clubes onde cada um jogou, igual à nominata dos músicos participantes daquela gravação que o selo sempre usa. Outras geniais: a do craque alemão Franz Beckenbauer no álbum “Der Kaiser” ao estilo dos LP’s de música clássica da Deustsche Grammophon; a do irlandês Georges Best, super mod anos 60; ou a do inglês David Beckham, que (afora o bem sacado título: “Spice Boy”) brinca com o design pop-mainstream da Mercury nos anos 90.

Veja as 24 artes, que fazem dar até vontade de escutar os discos. Fica a pergunta no ar: será que além do talento com os pés eles também mandariam bem no gogó?

Arthur Antunes Coimbra - "Zico"
A&M Records

Roberto Baggio - "Il Divino Codino"
Blue Note

David Beckham - "Spice Boy"
Mercury Records

Bob Charlton - "War Kid"
Decca

Emilio Butragueño - "El Buitre"
Warner

Eusébio da Silva Ferreira - "Pantera Negra"
Verve

Franz Beckenbauer - "Der Kaiser"
Gramophon

George Best - "Best! The Fifth Beatle"
Parlophone

Gerd Müller - "Der Bomber"
iR

Gianni Rivera - "Golden Boy"
RCA Victor

Jairzinho - "Furacão da Copa"
TAMLA

Johan Cruyff - "Totaal Voetbal"
Philips

Lineker and Gascoine - "Have a Word With Him"
Factory

Diego Armando Maradona - "El Pibe de Oro"
Atlantic

Mario Kempes - "El Matador"
Capitol

Michel Platini - "Le Roi"
Epic

Paolo Rossi & Marco Tardelli - "Eroi di Madrid"
RCA

Edson Arantes do Nascimento - "O Rei Pelé"
Capitol Records

Roger Milla - "Dance Party"
Island Records

Ronaldo Luís Nazário de Lima - "O Fenômeno"
Blue Note

Doutor Sócrates - "Calcanhar de Ouro"
Sire Records

Carlos Valderrama - "El Pibe"
Columbia

Marco Van Basten - "De Hollandse Zwan"
Polygram

Zinedine Zidane - "Zizou"
EMI








segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

The Smiths - "The Smiths" (1984)



"Agora eu sei como Joana D'Arc se sentiu
Enquanto as chamas subiam até seu perfil romano
E seu walkman começava a derreter."
verso de "Bigmouth strikes Again"


A propósito de show cover dos Smiths, já postei aqui sobre discos de diversas bandas mas nunca desta que é uma das minhas preferidas. Há um certo consenso dos fãs em torno da preferência pelo álbum “The Queen Is Dead”, que inegavelmente é um discaço, com as clássicas “Bigmouth Strikes Again” e “There’s a Light that Never Goes Out”; mas particularmente, poucas vezes ouvi um disco de estréia tão notável quanto “The Smiths” de 1984. Chegando com um nome simples, em contraponto aos elaborados de outras bandas da época e com um som limpo e TOCADO, num contexto cheio de bandas que só ligavam os sintetizadores e a bateria eletrônica e o resultado acabava sendo quase o mesmo; o quarteto de jovens de Manchester não demorou nada a se destacar no cenário musical. Parecia que era tudo o que o pop precisava. Melodias, guitarras, sensibilidade, letras inteligentes e bem elaboradas, vocal singular e autêntico. Era finalmente uma banda de gente. De gente como a gente. Não à toa, logo os jovens perceberam que Morrissey se colocava muito próximo a eles nas suas angústias, nas suas aflições, no seu sarcasmo e medida agressividade e a relação fãs-banda, desde então, passou as ser mais do que meramente musical.

"The Smiths (1984)” é doce, é violento, é apaixonante e apaixonado. “Reel Around the Fountain” que abre a seleção traz um início com uma bateria marcada que logo deixa entrar a voz terna de Morrissey cantando sobre uma relação complicada que sofreu acusações de pedofilia na época do lançamento do álbum. Johnny Marr já mostra seu cartão de visitas, com uma melodia aparentemente simples mas, como o restante da obra virá a mostrar, é altamente bem elaborada mas sem espalhafato, distorções ou grandes solos. “Miserable Lie”, uma das minhas prediletas do álbum é quase uma exceção a obra dos caras, com sua estrutura diferenciada, partindo de uma levada lenta até explodir em fúria e passar daí a evoluções vocais extremamente afetadas. Tudo isso com uma bateria inapelavelmente punk e curiosamente com uma guitarra sem distorção.

“This Charming Man”, um dos grandes clássicos da banda, que não saiu na edição inglesa, é outra destas coisas primorosas da história do rock com aquele riff marcante e inconfundível de Johnny Marr e com aquele vocal totalmente auto-revelador de Morrissey.

“Still Ill” é outra das fantásticas! Esta mais vigorosa e com a verve potente de Moz. Falar da guitarra de Marr já é redundância. Ele simplesmente dilacera tudo do início ao fim.

“What Difference Does It Make?”, falando sobre rejeição provavelmente seja uma das que representam mais perfeitamente a mistura amor-ódio-sarcasmo do mestre . Talvez tenha as frases mais apaixonadas e frustradas da história do rock: “...eu me jogaria em frente a uma bala voando por você”, ou “eu roubei e menti (...) porque você me pediu”, trazem toda a dedicação e o desgosto com uma pessoa amada.

A rotação depois dela dá uma aliviada com as ótimas “I Don’t Owe You Anything” e “Suffer Little Children” com aquele final provocante com umas risadinhas safadas.

Ainda hoje, mais ou menos uns 12 ou 13 anos depois de tê-lo ouvido pela primeira vez, ainda me impressiona e me faz acabar a audição com um sorriso no rosto.

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FAIXAS:
1. Reel Around The Fountain 5:55
2. You've Got Everything Now 3:58
3. Miserable Lie 4:27
4. Pretty Girls Make Graves 3:41
5. The Hand That Rocks The Cradle 3:45
6. This Charming Man 2:52
7. Still Ill 3:19
8. Hand In Glove 3:23
9. What Difference Does It Make? 3:49
10. I Don't Owe You Anything 4:04
11. Suffer Little Children 5:29

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Ouça:
The Smiths 1984




Cly Reis

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Dexter Gordon - "One Flight Up" (1964)

 

“Não sei se houve algum significado especial no título deste álbum mas, de qualquer forma, poderia ser interpretado apropriadamente como o significando de que os pretendentes avançaram num voo em criatividade, que seus voos de fantasia são mais livres do que nunca sob os céus de Paris. Juntos, os cinco oferecem uma demonstração esplêndida de como falar a língua internacional do jazz.”
Leonard Feather, do texto original da contracapa do disco

Quase chegada a metade dos anos 60, Dexter Gordon já estava consagrado como um gigante do jazz norte-americano. Saxofonista "à moda antiga", carregava no corpanzil de 1,96m a estatura de mitos do sax tenor que o antecederam, como Coleman Hawkins, Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster. Nem a aparição àqueles idos de jovens talentos do instrumento, como John Coltrane, Sonny Rollins, Joe Henderson e Wayne Shorter intimidavam o velho músico. Menos ainda as inovações sonoras e conceituais pareciam abalá-lo. Free Jazz? Avant Garde? Pós-bop? Creative jazz? Não importava. Confiante e em plena forma, seguia na sua linha clássica como um dos precursores do bebop.

O período em que esteve na Blue Note é o melhor recorte desta boa fase. Após anos pulando entre os selos Decca, Savoy, Jazzland e outros – sem, contudo, estabelecer-se em nenhum deles –, ele emenda, entre 1961 e 1966, uma série de sete álbuns memoráveis como "Doin' Alright", "Dexter Calling" e o aclamado "Go", constante invariavelmente em listas de obras fundamentais da história jazz. Todos no melhor estilo hard-bop, sua jurisdição. Somado a isso, recebe a acolhida de braços abertos da Europa, que, assim como para com diversos outros nomes do jazz, o idolatrava. Muda-se para Paris e vive um momento iluminado na – e pela –“Cidade Luz”. A confiança era tamanha que, para sustentar toda a envergadura de Dex, fosse física ou musical, precisava de tanto chão que não cabia nem nas dimensões territoriais de Estados Unidos e França juntas. Por isso, não era se de estranhar que passasse a também pisar novos terrenos. Foi o que fez em "One Flight Up", de 1964, passo firme do músico nos domínios do jazz moderno. 

Mas como estreitar a ponte entre Novo e Velho Mundo? Levando seus músicos para gravar no Barclay Studios, em Paris, ora. Aos 41 anos, assimilando como um garoto os preceitos do jazz modal – os quais haviam se tornado comuns ao repertório jazzístico havia uns 5 anos pelas mãos, principalmente, de Miles Davis e Dave Bruback –, Gordon, como vinha procedendo já de trabalhos anteriores, rodeia-se de uma banda que casa juventude e experiência: os conterrâneos Donald Byrd, ao trompete (32 anos); Kenny Drew, piano (36); e Art Taylor, bateria (30), mais o dinamarquês Niels-Henning Orsted Pedersen (de apenas 18 anos), ao baixo. O conjunto lhe dá, ao mesmo tempo, suporte à sua verve solística admirável e o municia desse ímpeto modernizante. O resultado é uma química perfeita entre o veterano saxofonista e grupo em apenas três faixas, todas irretocáveis.

E se é pra aderir àquelas que se apresentavam como novas formas, então que seja, literalmente, com grandeza. "Tanya" é isso: 18 min e 21 seg que preenchem o lado A com a fluidez controlada das escalas modais, o que não impede (até ressalta, aliás) as capacidades de improviso. Gordon, be-bopper nato acostumado a números extensos como os que executava nos night clubs desde os anos 40, destrincha um solo magnífico em que alia seu tradicional lirismo a um vigor renovado. Mas o band leader não monopoliza o espaço, dando igual prestígio a seus companheiros, a se ver pela participação de Byrd, autor da música, e um ainda mais inspirado Drew. Isso sem falar na linha de baixo marcante de Pedersen, das melhores performances do gigante de quatro cordas que o jazz já presenciou, digna de um Ron Carter, Paul Chambers ou Dave Holland.

Fôlego recuperado, o segundo lado do álbum traz "Coppin' the Haven", escrita por outro membro da banda, o pianista Kenny Drew. Suingue com alma de blues e bossa nova, casa a classe do bebop com texturas modernas, a se ver pelo toque destacado da bateria de Taylor, potente e sem discrição nas investidas na caixa como faziam os contemporâneos Elvin Jones e Tony Williams à época. Sinais de que os gêneros pop como o a soul, o rock e a música étnica já contaminavam o ambiente jazzístico. E Gordon os assimila com generosidade madura. A se destacarem ainda os solos – além do de Gordon, impecável – de Byrd ao trompete, forte e pronunciado, e de Drew ao piano, habilidoso em conduzir o improviso e não esquecer de manter a base.

O disco finaliza com um popular song de 1939 cujos acordes o jazz já havia incorporado havia anos. Aí, sai da frente, que Dexter Gordon vem com um show de interpretação! É a balada "Darn that Dream", imortalizada na voz de Billie Holliday e gravada por Miles Davis em seu clássico "Birth of the Cool", de 1949. Com Gordon e seu quarteto, o standart se redimensiona, ganhando uma amplitude onírica invejável que somente tenoristas daquela estirpe são capazes. Quanta fineza e sensibilidade! Notas e acordes saem elegantes, altivos e esguios como o seu emissor.

Apenas em 1976, de volta à terra natal, terminaria a temporada europeia de Gordon, a qual, além de extensa, findava-se absolutamente produtiva, ajudando a reforçar a mitologia em torno do lendário artista. “One...” é um retrato desta fase áurea, a verdadeira Conexão França do jazz. Só mesmo um gigante como Gordon para plantar com tamanha autoridade e firmeza um pé em cada continente.

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FAIXAS:
1. "Tanya" (Donald Byrd) - 18:18
2. "Coppin' the Haven" (Kenny Drew) - 11:17
3. "Darn That Dream" (Eddie DeLange, Jimmy Van Heusen) - 7:30
4. "Kong Neptune” (Dexter Gordon)*
*Faixa-bônus da versão em CD remasterizada de 2015

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Criolo - Turnê "Criolo50" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre/RS (17/10/2025)



“Nem estou acreditando que estou chegando nos 50. Esse projeto não é só sobre mim: é sobre todas as pessoas que me ajudaram a não desistir”.
Criolo

Que Criolo é o cara da nova música brasileira, isso já se sabe. Que este músico paulista, iniciado no rap, desenvolveu-se em tudo que é gênero musical, do samba ao afrobeat, também não é novidade. Que é um poeta raro, idem. Que é um dos artistas mais inovadores e influentes da música brasileira contemporânea, igualmente é outra certeza, assim como que ele já ocupa o panteão dos grandes da MPB. Porém, o palco ainda era uma dúvida, pois parecia carecer de uma afirmação. Afinal, é ali que se confirma um grande artista. É onde sua alma é impressa. Já havíamos Leocádia e eu assistido alguns shows de Criolo pela tevê, uns melhores e outros nem tanto. Mas o que não era possível captar à distância era justamente aquilo que se pode confirmar na inesquecível apresentação deste artista no Araújo Vianna, em Porto Alegre: a impressão de sua alma. E ela estava lá.

Comemorando seus 50 anos de idade - uma vitória para um rapaz preto e da periferia num país aporofóbico e racista, como ele mesmo observou -, Criolo e sua ótima banda mandaram ver num show empolgante, pois bem realizado em todos os aspectos: som, luz, projeções/arte, narrativa, repertório e, o mais importante, sintonia com a plateia. O carisma, a vibe zen e o bonito vocal de Criolo, dotado de pouca extensão mas que funciona mais em estúdio, é compensado, no palco, pela energia e o vozeirão do MC e DJ DanDan, parceiro antigo. Eles comandam o show, que percorre, num apanhado cirúrgico, o repertório dos cinco álbuns solo de carreira de Criolo dando especial destaque aos excelentes "Nó na Orelha" (2011) e "Convoque seu Buda" (2014), e o seu último, "Sobre Viver" (2022), além do disco de samba "Espiral da Ilusão" (2017).

Foram só pedradas, novos clássicos da música brasileira. Começando por "Mariô" e "Duas de Cinco", que abrem a apresentação puxando versos impactantes: "Tenho pra você uma caixa de lama/ Um lençol de féu pra forrar a sua cama/ Na força do verso a rima que espanca/ A hipocrisia doce que alicia nossas crianças" ou "Compro uma pistola do vapor/ Visto o jaco califórnia azul/ Faço uma mandinga pro terror/ E vou". Seguiram-se "Sistema Obtuso" e "Esquiva da Esgrima", esta, das preferidas do público. Em "Ogum Ogum" e "Iemanjá Chegou", duas de "Sobre...", Criolo abre espaço para a religiosidade afro, assim como faz para outros dois blocos distintos. Um deles, o momento reggae, em que canta "Samba Sambei" e "Pé de Breque", além de um novo arranjo para o rap "Sucrilhos", agora ao estilo de Bob Marley.

A clássica "Subirodoistiozin" pondo o 
público gaúcho para cantar

Outro ponto especial é a parte reservada ao samba, gênero que Criolo domina como poucos. O divertido partido-alto "Lá Vem Você" e o samba-canção engajado "Menino Mimado", ambas de "Espiral...", se juntam a "Linha de Frente", célebre samba de encerramento de "Nó..." ("O nó da tua orelha ainda dói em mim/ E Cebolinha mandou avisar/ Que quando a 'fleguesa' chegar/ Muitos pãezinhos há de degustar") em que Criolo já anunciava essa sua verve composicional. 

Mais clássicos contemporâneos: "Grajauex", "Não Existe Amor em SP", cantadas em coro pelo público, e "Subirodoistiozin", que ganha, ao final, um arrasador arranjo drum 'n' bass do DJ DanDan. Para fechar, uma versão do samba triste de Benito Di Paula "Retalhos de Cetim" ("Mas chegou o carnaval/ E ela não desfilou/ Eu chorei na avenida, eu chorei...") e o matador rap-ninja "Convoque seu Buda" para encerrar, quando todos fizeram o tradicional movimento de balançar a mão de cima para baixo como nos clipes de hip hop.

Se faltava a Criolo o atestado do palco, o show do Araújo Vianna foi uma mostra de que, chegado aos 50 anos e experiente como artista, não falta nada mais a ele, Sua alma estava lá, definitivamente. E se lhe foi uma vitória chegar ao primeiro meio século, esperamos que o Brasil lhe oportunize a partir de agora novos 50 anos de brilho, dignidade e sucesso. Ele merece.


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Aguardando Criolo!


Começando o show com alta energia


Criolo em sintonia com o público


Seja rap, soul, samba, afrobeat: Criolo manda bem no que vier


Sessão de samba do show


A linda projeção completando a arte do espetáculo


O rap se mistura à musicalidade brasileira no trabalho de Criolo  


Uma matadora "Convoque seu Buda" para encerrar 
o grande show de Criolo em Porto Alegre



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Chico Buarque - "Chico" (2011)

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora."
trecho de "Essa Pequena"


Fui cheio de dedos ouvir o novo CD de Chico Buarque emprestado pela minha irmã que é mais louca que eu pela música do cara. Estranho foi que esta fãzoca me advertira que o disco não era ‘lá essas coisas’, meio fraco e coisa e tal, só que para ela colocar alguma restrição a um trabalho dele, olha..., era realmente de recear pelo pior. Como agravante, de minha parte já considero há algum tempo que, atualmente, Chico Buarque de Hollanda está mais para um ótimo escritor que faz música do que propriamente para um grande músico, o que tornava minha muito provável minha concordância com o conceito da fã em questão, dona do CD.
Peguei então para escutar descompromissadamente, meio assim, durante o café da manhã; e talvez por não esperar muito, a cada faixa que se seguia se me apresentava uma positiva surpresa. O disco não era tão mal quanto ela tinha pintado. Não, não! De fato é um bom disco. Passa a falsa impressão de ser ‘fraco’ por ser mais lento, ter um andamento mais cadenciado que de costume mas definitivamente para ruim não serve. O problema é que, também, o parâmetro de comparação de Chico Buarque é a própria obra de Chico Buarque, especialmente até a metade dos anos 80, e aí é covardia com ele mesmo cobrarmos sempre um “Almanaque”, um “Chico Buarque (1984), e coisas do tipo. Não é sempre que se faz discos assim.
Mas “Chico” (2011) é sim um bom disco. Ao longo das faixas a gente vai gostando, vai percebendo detalhes, méritos, qualidades e virtudes. “Querido Diário” que abre o CD e que funcionou como uma espécie de faixa-promocional, lançada previamente na internet, não é nada mais que simpática e dá a falsa impressão de que não teremos nada muito melhor pela frente ; “Rubato”, que a segue, é uma marchinha inusitada que causa uma certa estranheza pelo sutil descompasso de melodia e voz numa estruturação ousada de Chico com o parceiro João Helder.
Claramente sob efeito dos encantos de uma jovem, que minha irmã me informou ser a nova musa do compositor ds olhos verdes, Chico deixa transparecer em algumas faixas essa inspiração, mais evidentemente em “Essa pequena”, onde de alguma forma fala das diferenças deles dentro desta relação com idades tão distantes; mas também dá ‘letrinhas’ do assunto na ótima “Tipo um Baião”, ("Não sei para que outra história de amor a essa hora...") a melhor do disco na minha opinião, e na gostosa “Se eu soubesse” uma adorável valsinha que parece algo meio como a visão dela da coisa ("Ah, se eu pudesse não caía na tua conversa mole, outra vez/ Não dava mole à tua pessoa (...)/ Mas acontece que eu sorri para ti / E aí, larari, lairiri, por aí").
Se o Chico compositor está sempre rondando o Chico escritor, o inverso também vale e em faixas como na muito legal “Barafunda” toda a verve romancista com o traço característico dos seus livros está lá, com uma grande ‘confusão’ de memória que embaralha fatos, lugares e pessoas. Em “Nina” pode notar-se traços ou ideias não aproveitadas do seu romance "Budapeste" e em “Sinhá” alguma coisa talvez descartada ou resultante da concepção de  "Leite Derramado".
Merecem também destaque o samba composto com Ivan Lins, já conhecido a voz de Diogo Nogueira, “Sou eu”, que lembra de certa forma sua antiga “Deixa a Menina”; e a retomada da parceria com João Bosco, que já havia feito com ele a ótima "Mano a Mano" , na já referida, “Sinhá”, um comovente e triste samba de senzala que encerra o disco.
Não é o "Construção" , é verdade, não é um “Paratodos”, tá bem, mas não é em nada desprezível o novo trabalho musical deste grande escultor das palavras. Até que dá para dar um crédito para este escritor aí que andou se aventurando a gravar um CD. Tem futuro, tem futuro o garoto.
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Ouça:
Chico Buarque - "Chico" (2011)




Cly Reis

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart", de Gavin Hopps - ed. Continuum (2009)

Morrissey é o melhor letrista britânico de todos os tempos



Li hoje uma pequena matéria na Internet que confirma uma impressão que sempre tive desde que comecei a ouvir os Smiths e me interessei em saber o que diziam as letras que acompanhavam aquelas melodias encantadoras e cantadas daquele jeito tão emocional: Morrissey é o melhor letrista do mundo da música! É o que também afirma o sr. Gavin Hopps, palestrante da Universidade St Andrews, e especialista em romantismo britânico que escreveu o livro Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart. Segundo o ensaísta, que já discorreu em outras oportunidades sobre o mundo pop-rock, a qualidade do ex-Smiths pode ser comparada à de mestres das letras inglesas, inclusive a um dos ídolos do cantor (e meu também), Oscar Wilde.
Principalmente quando descobri Smiths ficava vendo aquelas letras e percebia que aquilo era algo diferente. Tinha conteúdo, tinha sensibilidade, poesia, tinha texto e qualidade de escrita. Muito raramente se vê boa qualidade de escrita em música. Muitos tem contundência, muitos tem mensagem, muitos tem boa construção mas tudo junto, somado a um bom texto, não sei..., talvez só Dylan tenha.
Mas ainda que admita que outros tenham letras tão boas, Mozz tem ainda um diferencial: o jeito que canta. Poucas vezes eu senti alguém conferir tão perfeitamente o significado das palavras, expressões, das frases. Seja extremamente triste, seja cínico, seja apaixonado, irado, ele coloca a entonação exata no que canta.
Mas no que diz respeito às letras, em particular, considerava exatamente isso que afirma o professor Hopps, sem a mesma bagagem de estudo dele, de que Morrissey é um genuíno herdeiro da grande tradição de letras britânica. Em Londres mesmo, em uma revista li também algo a respeito reverenciando esta verve literário-poética deste inglês; recentemente li também o crítico, ex-roqueiro, Kid Vinil também tecer loas à pena de Morrissey.
É legal para fã ver este tipo de análise qualificada. Não que a do fã não tenha qualidade -pode ter, sim-, mas muitas vezes nos perguntamos até que ponto a admiração nos conduz, nos cega e acaba elevando o ídolo mais alto do que ele mereça. No caso de Morrissey cada vez mais fica evidente que nós fãs não estamos enxergando demais. É isso aí, mesmo. Morrissey escreve como ninguém.





Cly Reis

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Herbie Hancock - "Empyrean Isles" (1964)

 



Hancock estreita as fronteiras entre o hard bop, encontrando brilhantemente um sugestivo equilíbrio entre o bop tradicional, 

injetando-lhe grooves do soul,

e experimental, jazz pós-modal.” 

Stephen Thomas Erlewine,

crítico musical e biógrafo




O jazz já era o maior gênero musical norte-americano desde os anos 20, mas é inegável que as décadas de 50 e 60 foram memoráveis para sua história. A cada ano, vários artistas – muitos em seu auge; alguns, iniciando; outros, veteranos em plena forma – lançavam um ou mais álbuns impecáveis e inovadores, considerados fundamentais até hoje, fosse pela Impulse!, Blue Note, ECM, Atlantic, Columbia, Verve e outros selos. Destes, a passagem de 1963 para 1964 talvez seja a que reúna o crème de la creme pós-Segunda Guerra. Provavelmente, iguale-se apenas ao revolucionário ano de 1959, que presenteou o mundo com as inovações modais de "Kind of Blue", do Miles Davis, com o libelo free jazz de “The Shape of Jazz to Come”, do Ornette Coleman, e o petardo hard-bop “Giant Steps”, do John Coltrane. Se nem tanto em transformação do estilo, o quinto ano da década de 60 não fica para trás em qualidade e importância. Gravaram-se, durante seus 365 dias, por exemplo, joias como "Night Dreamer", do Wayne Shorter, "Matador", do Grant Green” (ambos já resenhados aqui nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS), “Out to Lunch”, do Eric Dolphy, e “Witches and Devils”, do Albert Ayler. Todos completando expressivos 50 anos em 2014.

Um dos mais felizes desses cinquentões foi registrado a 17 dias do mês de junho daquele fatídico ano para o jazz. Foi quando, pela Blue Note, um dos maiores mestres da música moderna entrou nos estúdios Van Gelder, em New Jersey, com um timaço que tinha Freddie Hubbard, no trompete, corneta e flugelhorn, Ron Carter, no baixo, e Tony Williams, na bateria. Aquele dia marcaria a sessão de gravação de mais uma obra-prima do jazz: “Empyrean Isles”, do pianista, compositor e arranjador Herbie Hancock. Um dos mais versáteis, influentes, celebrados e até controversos ícones da música mundial, Hancock, aos 64 anos de vida e mais de 50 de carreira, já foi do be-bop ao break, passando pelo afro-jazz, fusion, funk, modal, clássico e outros gêneros, seja pilotando o piano ou o sintetizador. E sempre com a maior integridade, sem perder seu fraseado característico e a complexidade harmônica inspirada em músicos de diversas vertentes como Bill EvansMiles DavisJames BrownGeorge GershwinTom Jobim e Sergei Rachmaninoff. Como seus mestres, serve de referência não só para a geração do jazz que lhe sucedera mas, igualmente, a músicos de outros estilos como Joni Mitchell, Jeff BeckStevie Wonder, Brian Jackson, Dom Salvador, Ike White, Marcos Valle, Public Enemy, entre centenas de outros.

Quinto disco solo do músico, “Empyrean Isles” é o exemplo máximo do hard-bop hancockiano e cuja influência e profusão através dos tempos é das mais fortes de sua trajetória ainda em plena atividade. A começar por dois monumentos do jazz moderno: "One Finger Snap" e "Oliloqui Valley". A primeira, ritmada e pulsante, começa com Hubbard arrebentando na corneta sobre uma base swingada de Williams, que, com as baquetas, conjuga com equilíbrio caixa, chipô e prato de ataque. Mas, como o próprio título sugere, a preciosidade está nos dedos de Hancock. Como diria Ed Motta, “a mão esquerda mais inteligente do mundo”. Um show de agilidade e engenhosidade de improviso. La no fim, quando se pensa que tocaram o chorus derradeiro, Tony Williams ainda apresenta um arrasador solo para, daí sim, desfecharem. Uau!

Já "Oliloqui...” quem começa incrivelmente é Carter, com seu toque trasteado inconfundível. Mais cadenciada e bluesy, nesta é o pianista quem inicia os trabalhos de improvisação, novamente (e como sempre!) com a mais alta qualidade que se pode esperar. Um fraseado limpo, cristalino, soul mas erudito ao mesmo tempo. Hubbard, por sua vez, também não deixa por menos, com um solo de emoção crescente que concilia lirismo e agilidade. O mestre Carter, que havia iniciado tão marcantemente a faixa com sua assinatura sonora, tem a chance de desenvolvê-la ainda mais. É tão bonito e impactante que o restante da banda para que ele toque, voltando, em seguida, todo o conjunto ao riff inicial. Mais um solo de trompete, atilado e curto, para terminar o número em desce-som.

E o que dizer da maravilhosa "Cantoloup Island"? Um colosso da música do século XX. Que base do piano, que harmonia, que groove, que chorus! Os quatro parecem saber tocar a melodia desde crianças tamanha a naturalidade do arranjo, que se resolve entre o quarteto intuitivamente, sabendo com exatidão a hora de cada um entrar, a precisão da cadência, o ataque ou a supressão certa em cada solo. No chorus, repetido a cada estampido seco de Williams na caixa, como um comando, é de uma beleza indecifrável a delicadeza do quase sugestivo último acorde ao final de cada frase, pronunciado propositadamente fraco, como uma respiração, como um suspiro que o ouvido já sabe como será – a adora confirmar o que já sabia depois que o escuta. A sensação que se tem em "Cantoloupe ..." é rara em música. Como Dear Prudence, dos Beatles, seu riff é tão natural e sugestivo que é como se sempre estivesse ali, no ar; só nós que, seres limitados, não o ouvimos. É preciso esses gênios mal acionem as moléculas para que, atritadas, gerem o som e percebamos o óbvio. Longe da conjectura matemática do serialismo dodecafônico, intricada e lógica, a previsibilidade delas é sentida no coração.

Mas mais do que o conhecido riff funky (muito bem “chupado” pelo grupo Us3 em sua “Cataloop”, em 1993, porém inevitavelmente inferior), Hubbard e Hancock desenvolvem solos que experimentam os limites do hard-bop. Hubbard, logo após o primeiro chorus, sobe um tom e entra rasgando, guinada inteligentemente acompanhada por toda a banda no mesmo instante. Um dos solos mais clássicos do cancioneiro jazz. Em seguida, cabe ao próprio Hancock, criador da obra, imprimir-lhe uma carga descomunal de groove como até então não se vira no jazz. Era James Brown materializando-se na “simplicidade complexa” do jazz.

Para fechar, “The Egg”, em extensos mas nem de longe monótonos 14 minutos, um exercício minimalista brilhante e desafiador. Primeiro, pela base de piano repetitiva em um esquisito tempo 4 + 3. Junto a isso, a bateria de Williams, não menos criativa, mantém o compasso em curtos rufares. Por fim, claro, as improvisações individuais de cada um: prolongadas, em que cada músico usa da inventividade de forma livre, namorando com o avant-garde que Coltrane, Ayler e Don Cherry desenvolveriam a partir de então. O diálogo com a vanguarda já se sente quando Carter surpreende e saca um arco para fazer de seu baixo uma espécie de cello, tangendo as cordas ao invés de dedilhá-las. Nisso, Hancock faz a música ganhar outras dimensões, passeando pelo free jazz, retornando ao cool dos anos 50, mas, mais do que isso, remetendo aos eruditos contemporâneos em lances de pura atonalidade. Quanta musicalidade! Em “The Egg”, Hancock antecipa o jazz fusion que ele mesmo ajudaria a criar anos depois. O fim da faixa, que também encerra o disco, é tão arrojado quanto sua abertura, como se um piano tivesse quebrado e repetisse somente e justo aqueles acordes.

Um disco memorável que, afora a data comemorativa, merece ser reouvido e revisto a qualquer época, tamanha sua qualidade e importância. Junto com outro trabalho definitivo do soul jazz, “The Sidewinder”, do trompetista Lee Morgan (do mesmo ano!), “Empyrean Isles”, com seus riffs e levadas funk somados à sua engenhosidade harmônica, inspiraram toda a geração posterior de jazzistas (Chick CoreaVince Guaraldi, Hubert Laws, irmãos Marsalis) e não-jazzistas, como a Blacksplotation dos anos 70, o pop dos anos 80 e músicos de todas as partes do planeta até hoje que chega a ser difícil até dimensionar. E essa força perdura desde aquele longínquo 1964. A fase era tão fértil que, pouco menos de um ano depois, Hancock comandaria a mesma banda no também espetacular “Maiden Voyage”, avançando ainda mais alguns passos em estética e forma. Mas os 50 anos desta outra obra-prima serão completos somente ano que vem...


Herbie Hancock - "Cantaloupe Island"


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FAIXAS:
  1. "One Finger Snap" – 7:20
  2. "Oliloqui Valley" – 8:28
  3. "Cantaloupe Island" – 5:32
  4. "The Egg" – 14:00
todas as faixas compostas por Herbie Hancock

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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Kenny Dorham - "Quiet Kenny" (1959)

 

“Foi no trompete que Kenny expressou seus sentimentos e emoções mais profundos e, como 'Quiet Kenny' demonstra de forma conclusiva, suas ideias e sua capacidade de trazê-las à vida o colocam entre os melhores."
Dan Morgenstein, do texto da reedição especial de Quiet Kenny de 2005

Os orientais são os que mais celebram o silêncio dentro da música. Aquilo que chamam de "ma" (algo como “intervalo”, “tempo”, “espaço”) pode ser interpretado e captado de diversas formas, seja filosófica, prática ou formalmente. Advinda da filosofia dualista do yin e yang, a ideia de “silêncio” trazida do Oriente se incutiu também em músicos do Ocidente, aqueles cujos ouvidos e sentimentos souberam compreender essa sabedoria milenar originária da própria natureza. Kenny Dorham foi um desses perspicazes aprendizes. Como um mestre taoísta, ele transpôs para seu trompete a sabedoria do silêncio oriental através de uma das formas mais sublimes que os sentidos humanos podem captar: a quietude. Não por coincidência, seu melhor disco chama-se “Quiet Kenny”, uma definição sintética, didática e até profética de si mesmo.

Dorham, formado nas big-bands de be-bop dos anos 50 de Lionel Hampton, Billy Eckstine, Dizzy Gillespie e Mercer Ellington, além do quinteto de Charlie Parker e a primeira formação da Jazz Massangers de Art Blakey, curiosamente não é tão celebrado quanto alguns de seus colegas de instrumento como Miles Davis, Lee Morgan e Chet Baker. Os motivos podem ser vários para ser considerado, como disse o crítico e escritor Gary Giddins, “sinônimo de subestimado”. Uma suspeita pode-se levantar: “Quiet...”, um trabalho tão definidor de sua verve e sua primeira incursão no selo Prestige, saiu justo no mesmo ano do acachapante “Kind of Blue”, de Miles, que, além de ser o álbum de jazz mais vendido da história e revolucionário por "inventar" um subgênero, o jazz modal, marcou justamente a saída de Miles do selo Prestige para a abastada gravadora Columbia. “Quiet...”, com a sombra ainda de outras obras daquele ano, como “The Shape of Jazz to Come”, de Ornette Coleman, e “Time Out”, de Dave Brubeck, igualmente marcantes para o jazz, pareceu, como o título sugere, aquietar-se.

No entanto, passados os anos e o impacto midiático de seus concorrentes, “Quiet...” mostra-se tão fresco e brilhante quanto merecia ter sido recebido à época de seu lançamento. O estilo depurado de Dorham, tanto de compor e versar quanto de, principalmente, tocar, estão cristalinos no disco. Acompanhado de Tommy Flanagan, ao piano, Paul Chambers, no baixo, e Art Taylor, bateria, Dorham desfila estilo e classe sem, contudo, perder o diálogo com seu ouvinte ao exercitar uma pronúncia clara e sem rodeios do trompete. Essa proposta fica bem evidente em "Blue Friday" e "Blue Spring Shuffle", em que preserva a linguagem pop do blues ao lhe captar a essência e sem complexá-la desnecessariamente. Simplicidade. Até os ouvidos menos rebuscados conseguem sorvê-las saborosamente.

Antes disso, porém Dorham mostra que também sabia ousar, provando que apenas os desatentos o subestimavam. "Lotus Blossom", que abre o álbum, é um dos mais originais e engenhosos temas do jazz daquele final de anos 50, quiçá de toda a história do hard-bop. Intensa, lírica, dissonante, desconcertante. De andamento que ondula, surpreende por seu riff inteligente, mas também pela variação de ritmos e encadeamentos, bastante a cargo, aliás, das baquetas de Taylor. "Lotus...”, aberta referência ao Oriente, tem condensado, em menos de 5 min, tudo isso: solos incríveis de Dorham, Flanagan e de Taylor, subidas e descidas, be-bop, blues e música indiana.

Se a serenidade está mais escondida numa faixa tão vívida quanto a de abertura, nada melhor do que aplicá-la num clima de balada. É o que Dorham sabiamente faz na versão de "My Ideal", em que conta com uma rica dobradinha com o piano de Flanagan e a condução consciente de Taylor, só nas escovinhas e pratos, e de Chambers, acostumado com estas ocasiões sonoras visto que recentemente saído do quinteto que acompanhou anos Miles em seus clássicos discos pela Prestige, tais “Steamin’” e “Cookin’”. Tratamento delicado e semelhante o band leader traz para outra adaptação: "Alone Together". O trompete, que atinge notas altas de pura emoção romântica, é transparente, sem exaltação, um exemplo de como utilizar as pausas e ataques de forma sutil e fluida. Nota-se a mesma limpidez do conjunto sonoro – muito ajudada pela captação sempre perfeita do engenheiro de som Rudy Van Gelder – nos “quiet blues” "I Had the Craziest Dream" e "Old Folks". Em ambas, contracenando com Dorham, o piano de Flanagan prioriza as teclas pretas, agudas e faceiras, enquanto o baixo e a bateria mantêm a base ideal para o desenvolvimento harmônico. 

Kenny Dorham é fatalmente menos lembrado que outros trompetistas contemporâneos a ele. O temperamento reservado que manteve até sua morte sem alardes, aos 72 anos, após anos de doença renal, provavelmente explique o descompasso entre reconhecimento e qualidade artística. Esse ofuscamento pode ter sido também pela genialidade ou pela personalidade explosiva de Miles? Pelo carisma ou a intempestividade midiática de Lee Morgan? Pelo charme ou a face polêmica de Chet Baker? Probabilidades. Há de se supor, quem sabe, que a diferença de prestígio recaia sobre o estilo, quiçá mais identificável nestes outros. De fato, diversamente destes, Dorham não vai nem pela economia estruturada de Miles, nem pelo virtuosismo jovem de Morgan e nem pela expressividade cool de Chet, mas, sim, pela simplicidade. Esse era seu campo e onde atuava com desenvoltura. 

Não se sabem ao certo os motivos, porém nada disso impediu que Dorham, a seu modo, demarcasse o seu lugar entre os grandes do jazz norte-americano. Tranquilo, discreto e quieto como classificou a si próprio, Dorham não promoveu uma revolução do nível do free jazz, da avant-garde, do modal ou cool jazz, mas sim, uma (quase) silenciosa. A sua própria revolução: interna e consciente. Como um sensei do jazz.

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FAIXAS:

1. "Lotus Blossom" [also known as "Asiatic Raes"] (Kenny Dorham) - 4:39
2. "My Ideal" (Richard A. Whiting/Newell Chase) - 5:06
3. "Blue Friday" (Dorham) - 8:46
4. "Alone Together" (Howard Dietz/Arthur Schwartz) - 3:11
5. "Blue Spring Shuffle" (Dorham) - 7:38
6. "I Had the Craziest Dream" (Harry Warren/Mack Gordon) - 4:40
7. "Old Folks" (Dedette Lee Hill/Willard Robison) - 5:11
8. "Mack the Knife" (Bertolt Brecht/Kurt Weill) - 3:02 (faixa bônus da reedição em CD)

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues