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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Oscar 2026 - Os Indicados


Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo!
Desde a manhã desta quinta-feira, 22 de fevereiro, nós brasileiros podemos afirmar: “ainda estamos aqui!” O “aqui” a que me refiro, claro, é o Oscar, que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, multivencedor em diversos festivais pelo mundo, inclusive o Globo de Ouro em duas categorias a pouco mais de uma semana, tornou-se um dos indicados a quatro estatuetas. O parafraseado que remete ao filme “Ainda Estou Aqui”, indicado a três Oscar e vencedor em Filme Internacional no ano passado, não é mera brincadeira semântica, visto que tem, sim, relação com o feito de “O Agente...”, que dá seguimento a esta visibilidade ao cinema nacional e também empata em indicações com outro filme brasileiro, “Cidade de Deus”, de 2002. Ou seja: já está fazendo história.

É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.

“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalamet por “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.

Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.

De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.

Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.

Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair. 

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

Melhor Filme

"Bugonia"

"F-1"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"

"Sonhos de Trem"


Melhor Direção

Chloé Zhao, por "Hamnet"

Josh Safdie, por "Marty Supreme"

Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"

Joachim Trier, por "Valor Sentimental"

Ryan Coogler, por "Pecadores"


Melhor Ator

Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"

Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"

Ethan Hawke, por "Blue Moon"

Michael B. Jordan, por "Pecadores"

Wagner Moura, por "O Agente Secreto"


Melhor Atriz

Jessie Buckley, por "Hamnet"

Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"

Kate Hudson, por "Song Sung Blue"

Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"

Emma Stone, por "Bugonia"


Melhor Ator Coadjuvante

Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"

Jacob Elordi, por "Frankenstein"

Delroy Lindo, por "Pecadores"

Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"

Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"


Melhor Atriz Coadjuvante

Elle Fanning, por "Valor Sentimental"

Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"

Amy Madigan, por "A Hora do Mal"

Wunmi Mosaku, por "Pecadores"

Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"


Melhor Elenco

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Original

"Blue Moon"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Marty Supreme"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Adaptado

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sonhos de Trem"


Melhor Filme de Animação

"Arco"

"Elio"

"Guerreiras do K-pop"

"A Pequena Amélie"

"Zootopia 2"


Melhor Filme Internacional

"O Agente Secreto"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Valor Sentimental"

"Sirāt"

"The Voice of Hind Rajab"


Melhor Documentário em Longa-Metragem

"Alabama: Presos no Alabama"

"Embaixo da Luz Neon"

"Cutting Through Rocks"

"Mr Nobody Against Putin"

"A Vizinha Perfeita"


Melhor Documentário em Curta-Metragem

"Quartos Vazios"

"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"

"Children No More: Were and are Gone"

"O Diabo Não Tem Descanso"

"Perfectly A Strangeness"


Melhor Curta-Metragem em Live Action

"Butcher's Stain"

"A Friend Of Dorothy"

"Jane Austen's Period Drama"

"The Singers"

"Two People Exchanging Saliva"


Melhor Animação em Curta-Metragem

"Butterfly"

"Forevergreen"

"The Girl Who Cried Pearls"

"Retirement Plan"

"The Three Sisters"


Melhor Trilha Sonora

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Canção Original

"Dear Me", de "Diane Warren: Relentless"

"Golden", de "Guerreiras do K-pop"

"I Lied To You", de "Pecadores"

"Sweet Dreams Of Joy", de "Viva Verdi!"

"Sonhos de Trem", de "Sonhos de Trem"


Melhor Som

"F-1"

"Frankenstein"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"

"Sirāt"


Melhor Fotografia

"Frankenstein"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sinners"

"Sonhos de Trem"


Melhor Design de Produção

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Figurino

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Pecadores"


Melhor Cabelo e Maquiagem

"Frankenstein"

"Kokuho"

"Pecadores"

"Coração de Lutador: The Smashing Machine"

"A Meia-Irmã Feia"


Melhor Montagem

"F-1"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhores Efeitos Visuais

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"F-1"

"Jurassic World: Recomeço"

"O Ônibus Perdido"

"Pecadores"


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"Marty Supreme", de Josh Safdie (2025)

INDICAÇÕES
MELHOR FILME
MELHOR ATOR
MELHOR ELENCO
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
MELHOR FOTOGRAFIA
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
MELHOR FIGURINO
MELHOR MONTAGEM

Há anti-heróis do cinema que, mesmo amorais e cheios de defeitos, fazem com que o espectador torça por eles. Pelo menos que se redimam um pouco ou que a jornada transcorrida no filme os faça ficaram um pouco melhores como pessoas. Exemplos não faltam: de Charles Foster Kane, de “Cidadão Kane”, a Capitão Nascimento, do brasileiro “Tropa de Elite”. Porém, em se tratando do nada carismático protagonista de “Marty Supreme”, filme de Josh Safdie, de 2025, é quase impossível ficar a favor deste jogador de tênis-de-mesa e trapaceiro em tempo quase integral chamado Marty Mauser. Arrogante, machista, interesseiro e egocêntrico, Mauser é um grande babaca que passa a maior parte do filme tentando se livrar das burradas que fez e a outra parte criando novas formas de ganhar dinheiro fácil para sustentar seu grande sonho, que é jogar tênis-de-mesa – para o qual tem, de fato, muito talento.

Inspirado na história de Marty Reisman, uma lenda desse esporte, Mauser, vivido pelo ator Timothée Chalamet, é um jovem judeu de classe média que se recusa a ser apenas mais um trabalhador precarizado na cidade de Nova York dos anos 1950. Assim, ele não medirá esforços para alcançar seus sonhos megalomaníacos de se tornar um grande nome dos torneios internacionais de pingue-pongue, nem mesmo se for preciso roubar. Sua obstinação o faz ir contra aqueles que duvidaram dele e a colecionar inimigos na caminhada até seu objetivo.

A direção de Safdie (“Joias Brutas” e “Bom Comportamento”) tem acertos, mas também tem erros. Uma qualidade é a trilha sonora, bastante pontuada e baseada em músicas dos anos 80 – com seus sintetizadores e aquela sonoridade típica da época, algo vintage hoje em dia, mas altamente tecnológico para os anos 50. Não só pelos temas legais selecionados (de New Order e Foreigner a Tears for Fears), mas porque essa textura sonora contrasta com o período temporal retratado, o qual transcorre 30 anos antes daquelas músicas existirem. Igualmente, isso empresta certa simbologia à personalidade irascível de Mauser, que faz lembrar os “enfant terribles” da “década perdida” como Steve Jobs e Bill Gates, gênios à frente do seu tempo. As cenas de jogos também são eletrizantes, com Chalamet (que treinou incansavelmente tênis-de-mesa para as filmagens) fazendo jogadas espetaculares na frente da câmera.

Chalamet, por sinal, está ótimo no papel, embora faça um personagem muito pouco empático. Mas o ator franco-americano não tem nada a ver com isso e cumpre o que deve. Enérgico e emocional, ele entrega uma atuação consistente, que o coloca como um forte candidato ao Oscar de Melhor Ator, ainda mais em se tratado de um “cara nova” de Hollywood, como a indústria do cinema gosta de valorizar. Quiçá, não mereça tanto a estatueta quanto Leonardo DiCaprio por “Uma Batalha Após a Outra” ou o brasileiro Wagner Moura por “O Agente Secreto”. Contudo, é muito provável que Chalamet leve.

Chalamet na pele de Marty Mouser: grande atuação, personagem babaca

Porém, há percalços no filme. Um tanto longo, o roteiro exagera no segundo terço da fita em sequências de ação confusas e histriônicas. Há um encadeamento de acontecimentos quase irrealizáveis, que tornam difícil de se acreditar que Marty Reisman fosse tão “vida loka”. Definitivamente, os acontecimentos “biográficos” parecem pouco críveis. Resulta disso uma edição meio desequilibrada.

Igualmente, é de se perguntar algo bem básico: Mauser jogava tão bem tênis-de-mesa que não precisava treinar? Não se vê em momento algum ele se preparando, inventando jogadas, desenvolvendo técnicas etc. Quando está diante de uma mesa é ou para disputar ou para passar os outros para trás. É tanta genialidade assim para que não precisasse melhorar como jogador? Isso difere gritantemente de seu rival, o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), visivelmente um atleta que se dedica 24 horas por dia a aperfeiçoar seu jogo. Mas se sabe onde se quer chegar com isso, evidentemente. É aquela velha máxima do cinema norte-americano: o talento inato e a “alma liberta” de seus filhos – o que os desculpa de quaisquer desvios de caráter – contra o tecnicismo frio do inimigo – de preferência aqueles que foram/são desafetos de guerras passadas. No caso, o Japão.

No todo “Marty Supreme” é um filme que diverte, mas não um bom transmissor de mensagens. Tem momentos interessantes? Tem. É legal ver o cineasta underground Abel Ferrara no papel do gângster Ezra Mishkin? Sim. Odessa A'zion como Rachel Mizler merece uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante? Merece. Mas nada disso faz com que se torça pelo mocinho. Pelo contrário: fica-se com vontade de que ele se dê mal, e isso, definitivamente, não pode ser um bom sinal para um filme.

trailer de "Marty Supreme"


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"Marty Supreme"
direção: Josh Safdie
elenco:  Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Abel Ferrara
gênero: drama biográfico, comédia
duração: 2h29min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Cinemas

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Daniel Rodrigues



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Globo de Ouro 2026 - Os Vencedores

 

Quando soube das filmagens de um novo filme de Kleber Mendonça Filho, ainda em 2024, que se passaria no período da ditadura militar no Brasil e que já se sabia que se chamaria "O Agente Secreto", já dava para imaginar que seria algo especial. Aí veio o reconhecimento no melhor festival de cinema do mundo, Cannes, onde o filme estreou e ganhou dois prêmios. Quando assisti, tempo depois, confirmei a expectativa. Depois, mais premiações importantes: 54 no total, sendo 20 internacionais.

Até que, enfim, "O Agente..." - já um pré-indicado a Oscar de Filme Internacional e provavelmente Filme e a ator pra Wagner Moura - chega ao Globo de Ouro e.... vence! E vence em duas categorias superimportantes: Filme em Língua Não-Inglesa e em Ator em Drama! Superando, inclusive, "Ainda Estou Aqui", que no ano passado deu o globo a Fernanda Torres, mas perdeu para o questionável "Emília Perez". E ainda o filme bate fortes concorrentes, como o essencial "Foi Apenas um Acidente", o Palma de Ouro do ano, e o badalado "Valor Sentimental" (que foi bem rejeitadinho, convenhamos).

Mas não teve pra ninguém! É o Brasil de novo nas cabeças! Ah, teve outras premiações, né? "Uma Batalha Após a Outra" levou os principais? "Hamnet" lascou o de Filme de Drama? "Adolescência" abocanhou o que devia em série de TV? Sim, mas permitam que, desta vez, eu destaque o filme brasileiro, que marcou história já ao ser indicado a três categorias no Globo de Ouro e, mais do que isso, levou dois!

Mas, ok, ok! Vou deixar que saibam quem foram os outros premiados. (mas já na torcida para "O Agente..." agora no Oscar!)

🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

Melhor filme de drama

"Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor filme de comédia ou musical

"Uma batalha após a outra" 


Melhor ator em filme de drama

Wagner Moura, "O Agente Secreto" 


Melhor atriz em filme de drama

Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor série de comédia ou musical

"The Studio"


Melhor minissérie, antologia ou filme para a TV

"Adolescência"


Melhor série de drama

"The Pitt"


Melhor atriz em série de drama

Rhea Seehorn, "Pluribus"


Melhor performance de comédia stand-up na TV

Ricky Gervais, "Ricky Gervais: Mortality"


Melhor atriz coadjuvante na TV

Erin Doherty, "Adolescência"


Melhor filme em língua não-inglesa

"O Agente Secreto"


Melhor filme de animação

"Guerreiras do K-Pop" 


Melhor direção em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma batalha após a outra"


Melhor destaque em bilheteria

"Pecadores"


Melhor atriz em minissérie, antologia ou filme para a TV

Michelle Williams, "Dying for Sex"


Melhor ator em minissérie, antologia ou filme para a TV

Stephen Graham, "Adolescência"


Melhor ator em filme de musical ou comédia

Timothée Chalamet, "Marty Supreme"


Melhor atriz em filme de musical ou comédia

Rose Byrne, "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria"


Melhor roteiro em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra"


Melhor trilha sonora de filme

"Pecadores" 


Melhor canção em filme

"Golden", "Guerreiras do K-Pop"


Melhor podcast

"Good Hang with Amy Poehler" 


Melhor ator em TV de musical ou comédia

Seth Rogen, "The Studio"


Melhor ator coadjuvante na TV

Owen Cooper, "Adolescência" 


Melhor atriz em série de musical ou comédia

Jean Smart, "Hacks"


Melhor ator em série de drama

Noah Wyle, "The Pitt"


Melhor ator coadjuvante em filme

Stellan Skarsgard, "Valor Sentimental"


Melhor atriz coadjuvante em filme

Teyana Taylor, "Uma Batalha Após a Outra"



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (2025)

 

A premiação do Oscar, às vezes, depende da configuração dos astros. Mas não os daqui da Terra, aqueles que estrelam os milionários filmes de Hollywood e, sim, os que estão no firmamento e que comandam os movimentos do universo. Isso talvez explique por que há casos em que determinado cineasta não ganha a estatueta por filmes que merecia mas, curiosamente, seja premiado justamente por um não necessariamente o seu melhor trabalho. Isso já aconteceu com Martin Scorsese, por exemplo. Várias vezes indicados por grandes filmes durante quatro décadas, só foi receber o Oscar em 2006, por “Os Infiltrados”, obra, sim, carregada de seus elementos fílmicos, mas não uma obra-prima como “Os Bons Companheiros” ou “Touro Indomável”. E tudo bem. Antes tarde do que nunca.

Algo semelhante deve ocorrer com outro desses multi-indicados ao Oscar neste ano: o cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. Ele provavelmente concorrerá com o empolgante “Uma Batalha Após a Outra”, o qual tem boas chances de levar para casa o título tanto de Filme quanto de Direção. Porém, por melhor que seja, e semelhantemente a seu mestre Scorsese, não supera aquilo que ele mesmo já fez, no caso, as obras-primas “Magnólia”, “Boogie Nights: Prazer sem Limites” e “Sangue Negro”. Indicado 16 vezes ao Oscar tanto como roteirista quanto como diretor, Anderson, porém, tem tudo para, desta vez, emplacar com sua nova e fabulosa aventura cômica sobre os limites do extremismo político.

Na trama, Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) fazem parte do grupo revolucionário antifascista 75 Franceses. Eles têm como missão mudar o mundo a partir da fronteira entre os Estados Unidos e o México por meio de atos de terrorismo doméstico, principalmente em defesa dos imigrantes. Mas tudo dá errado quando Perfídia é capturada por seu arqui-inimigo, o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). 19 anos depois, Perfídia se foi, e Bob, agora drogado e paranoico, vive isolado de qualquer façanha revolucionária, dedicado à criação de sua filha adolescente, Willa (Chase Infiniti). Enquanto isso, Lockjaw aspira se juntar a um tipo de organização maçônica elitista e supremacista, mas tem medo que segredos de seu passado venham à tona. A decisão, então, é eliminar qualquer vestígio de evidência, algo que Bob será forçado a sair da inércia e impedir.

Com a edição caprichada de sempre, a excelente trilha do “Radiohead” Johnny Greenwood, cenas tecnicamente perfeitas e – também como sempre – direção de atores muito bem conduzida por Anderson, trata-se de um filme distinto e, ao mesmo tempo, necessário para estes tempos de polarização política no mundo. Senhor de algumas das melhores cenas da história do cinema dos últimos 30 anos, como a da explosão do poço de petróleo em "Sangue..." ou o plano-sequência da festa de ano novo de final trágico de "Boogie...", Anderson não deixa por menos em "Uma Batalha...". São várias as ótimas cenas do filme, espacialmente a da perseguição de carros na estrada com declives em que se vale de movimentos de câmera muito bem pensados e diferentes lentes para adicionar uma sensação de vertigem à eletrizante ação. 

Ao passo que escancara a fragilidade e o isolamento existencial provocados pela utopia da extrema-esquerda, o filme também evidencia o quão patéticos são os poderosos fascistas travestidos de liberais. O que estes têm é poder e dinheiro, mas nenhuma ética ou sensibilidade humanística. Os radicais revolucionários, no entanto, embora também criticados, são, no fim das contas, desculpados em sua inocência por Anderson, pois estão a serviço de uma causa maior. Igualmente à regeneração dos viciados em sexo e drogas de “Boogie...”, ou à memorável chuva de sapos de “Magnólia”, responsável por render as pessoas ao perdão, em seu novo filme o diretor mostra que “a batalha continua”. Uma após a outra, uma a cada dia para desbancar esse mundo perverso e assassino da classe dominante. 

Sean Penn brilhante no papel do escroto (e patético) Coronel Steven

Afora Anderson e seu filme, o Oscar pode também cair no colo Penn ou Del Toro como Ator Coadjuvante. Para qualquer um dos dois, se vier, está bem entregue. Já a categoria de Ator, por mais que DiCaprio desempenhe como só ele sabe fazer, em princípio parece que, nesta corrida, ele perde para outros concorrentes, inclusive Wagner Moura por “O Agente Secreto”. É outro caso de oscarizado que já fazia por merecer há bastante tempo até, enfim, recebê-lo por “O Regresso”, em 2015. Desta vez, não parece que a Academia esteja disposta a premiá-lo novamente.

Premiado ou não, DiCaprio está impecável. Poucos ou nenhum ator da atualidade é capaz como ele de dar a medida certa a personagens tão desiguais como Bob. Não à toa diretores como Scorsese, Clint EastwoodQuentin Tarantino e Alejandro González Iñárritu procuram-no, pois DiCaprio é hábil nesses papeis de difícil equação. Como Bob, ele vai da candura ao cômico, da insegurança à histeria sem perder o fio. Há algo neste papel de Jordan Belfort, de "O Lobo de Wall Street", de Randall Mindy, de "Não Olhe para Cima", e Rick Dalton, de "Era Uma Vez... em Hollywood", todos em que precisou exercitar extremos de expressividade cênica.

Quanto às chances do filme, embora mudanças possam ocorrer nessa última corrida até o Oscar, em março, ocorre que entre alguns dos principais concorrentes de “Uma Batalha...” estão títulos bem cotados para Filme Internacional, casos do norueguês “Valor Sentimental”, do franco-iraniano “Foi Apenas um Acidente” e, claro, do brasileiro “O Agente...”. Ou seja: esses possivelmente disputem entre si nesta segunda categoria, deixando-lhe o caminho mais livre. Já das outras produções norte-americanas, parecem ter menos força “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Pecadores” ou mesmo “Bugonia”, “Jay Kelly” e “Hamnet”. A de Direção, um pouco mais descolada de Filme, é mais incerto, mas possível que vá para P.T. Anderson. Para alguém tão talentoso e que já bateu na trave tantas vezes, talvez os astros se alinhem desta para premiá-lo. Só ele sabe o quanto é necessário trilhar sua trajetória com um filme após o outro para, quem sabe, um dia receber o reconhecimento que há tantos anos merece. 

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trailer de "Uma Batalha Após a Outra"


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"Uma Batalha Após a Outra"
título original: "One Battle After Another"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Paul Thomas Anderson
gênero: ação, comédia, aventura
duração: 2h41min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max, Amazon Prime e Apple TV



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", de Chloé Zhao (2025)


É interessante perceber como o cinema, mesmo com seu alto grau de imaginação e artificialidade, consegue trazer para o mundo dos mortais aqueles que, no imaginário popular, são tidos como seres sobre-humanos, mitológica, perfeitos. Não raro, há, inclusive, um sentimento de decepção por parte do espectador quando cai uma máscara revestida de endeusamento. Os filmes já trouxeram à realidade terrena figuras públicas intocadas como Elvis Presley, Michelangelo, Steve Jobs e Nelson Mandela, para citar alguns, mostrando-os, quando transpostos para a tela de forma dramatizada, que eles, sim, são imperfeitos e sofrem tal qual todos os seres que pisam a Terra.

Em seu quarto longa-metragem, a talentosa cineasta chinesa Chloé Zhao atinge esse propósito, porém de uma maneira particular. Considerada uma das principais diretoras do cinema da atualidade, a vencedora do Oscar de Melhor Direção e Filme por "Nomadland", em 2021, em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" ela extrai da imagem mítica do dramaturgo inglês William Shakespeare esse grau de humanismo, só que a partir de um olhar diferenciado, que passa necessariamente pelo feminino.

A história se passa na Inglaterra rural do século 16, quando o então jovem professor de latim William (Paul Mescal) encontra aquela que se tornaria seu grande amor e mãe de seus filhos, a “feiticeira” (leia-se: feminina) Agnés, vivida por Jessie Buckley, grande candidata ao Oscar de Atriz. A partir da experiência do luto pela perda de um filho do casal, o filme explora a capacidade interior de superação e ressignificação individual, ao mesmo tempo em que revela o pano de fundo para a criação da tragédia “Hamlet”, a obra mais famosa do autor britânico.

O filme trata sobre questões humanas muito profundas e conflitantes, como as escolhas entre vida profissional e familiar e os sacrifícios necessários para que se chegue a algum propósito na vida. No caso, sacrifícios pautados principalmente pelos esforços que a mulher é obrigada a fazer em nome de uma causa maior. Não se exclui a manifesta dor do pai em relação à perda do filho quando ele, trabalhando longe do pequeno vilarejo de Stratford-upon-Avon, estava ausente. Tanto é que, numa forma de sublimar essa perda, genialmente ele transpõe essa dor para a peça, a qual se transformaria num epiteto da arte universal por tantos séculos.

Porém, a abordagem dada por Zhao e a roteirista Maggie O’Farrell – esta, autora do livro que dá origem ao enredo – pretende privilegiar o olhar feminino e seu poder de realização do mundo. É ela que gera, que pare e que sofre, in loco, com a morte. Por mais compartilhada que possa ser o sofrimento da perda (bem como os perrengues diários de uma vida provinciana, a qual ele havia praticamente deixado para trás para correr atrás do seu sonho no teatro), é Agnés, a figura da mulher, quem está de corpo presente. Tão essencial é seu papel para a história da família – e, por consequência, para a história inglesa e da arte ocidental – que, não fosse sua sensibilidade e senso de desapego, o marido padeceria com seu imenso talento em um pequeno povoado retrógrado e pobre.

Jessie Buckley como a forte e sofrida Agnés: possível candidata a Oscar

Há um aspecto de condução narrativa também a se observar. A diretora propositalmente desloca não somente o foco do protagonista, que não é o célebre escritor, mas, sim, sua esposa Agnés, bem como, epistemologicamente, o próprio título do filme, que funciona como uma licença poética. Hamnet, o filho do casal morto quando criança, tem participação pontual no decorrer da trama, porém suficiente para justificar o destaque a seu nome, mesmo que o título o falseie como principal.

Afora isso, o roteiro em forma de diálogos e texto é bem escrito, mas não surpreende. Além de algumas repetições um tanto desnecessárias, artifício para facilitar a apreensão por parte do espectador, a dualidade “morte versus existência”, centro tensor e filosófico de “Hamlet”, é trazida para dentro do filme até com certa banalidade. É como se a famosa peça se reduzisse à importante - mas batida – frase: “Ser ou não ser: eis a questão”, semelhante a resumir Nietsche somente ao pensamento “o que não me mata me fortalece” ou Descartes a “penso, logo, existo”. Até mesmo o Soneto 12 (muito mais criativamente utilizado por Jorge Furtado em “O Homem que Copiava”, de 2003), que igualmente trata da questão de morte (envelhecimento) e existência (continuidade da prole), é evocado. Nada muito rebuscado diante de uma obra rica e complexa como a de Shakespeare.

A bela fotografia (Łukasz Żal), a trilha (Max Richter) e a direção sensível da Zhao certamente credenciam “Hamnet” a concorrer ao Oscar pelo menos nestas duas categorias, afora as de Filme e Atriz, como já mencionado. Igualmente, está entre os principais indicadas ao Globo e Ouro e ao Critics Choice Awards, cujos premiados serão revelados em janeiro próximo. Entretanto, trata-se de apenas um bom filme, que está longe, aliás, do essencial e original "Nomadland". É salutar, contudo, o olhar feminino sobre questões até então vistas massivamente pelos olhos masculinos, brancocentrados e europeizados. Neste começo de segundo quarto do século 21, se é para se quebrar arquétipos de endeusamento, que seja, então, pela visão das mulheres.

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 trailer de "“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

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"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
direção: Chloé Zhao
título original: "Hamnet"
elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson
gênero: drama, biografia
duração: 2h05min.
país: Reino Unido, Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Nos cinemas (a partir de 29 de janeiro de 2026)



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (2025)

 

Ainda no calor da exibição, enquanto os créditos finais passavam, uma senhora sentada ao meu lado na lotada sala de cinema para a pré-estreia de “O Agente Secreto”, disse-me impressionada: "O Kleber não erra uma!". Nada mais fiz do que concordar com ela: Kleber Mendonça Filho não erra, repetindo, obra após obra, somente acertos. Neste seu quinto longa-metragem, estrelado por Wagner Moura e vencedor de diversos prêmios, dentre estes três no Festival de Cannes (Melhor Ator, Melhor Diretor e prêmio da Crítica FIPRSCI de Melhor Filme), o cineasta pernambucano apresenta mais um grande filme. Com um estilo próprio de filmar, Kleber, no entanto, não fecha seu cinema somente a um modelo. E aí talvez esteja o seu principal acerto.

Numa trama envolvente e sinuosa, a história de “O Agente...”, que estreia hoje nos cinemas, se passa no ano de 1977, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, e conta a saga de Marcelo, um professor especializado em tecnologia que decide fugir de seu passado violento e misterioso. Ele se muda de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar a vida perto do filho. Porém, mesmo em plena semana de Carnaval, em que os ânimos estão exaltados pela festa do Momo, seus passos estão sendo vigiados, e ele percebe que a cidade que acreditou ser o seu refúgio é ainda mais perigosa para sua sobrevivência.

Kleber vale-se de muita habilidade narrativa para contar essa saga. Primeiro, que ele constrói um thriller que remete aos tradicionais filmes de espionagem dos anos 60 e 70, porém usando criatividade para fugir do óbvio. Nesse sentido, uma das melhores características do roteiro é o aspecto da frustração de expectativas e do deslocamento de suposições. Artifício empregado com maestria por cineastas como os irmãos Cohen (“Onde os Fracos não têm Vez” é exemplar nesse jogo narrativo), ambos recursos fazem com que a história surpreenda o espectador no seu desenrolar, ao mesmo tempo em que lhe tira a atenção se determinado elemento ou lhe "promete" entregar outros, mas sabiamente lhe frustra por lançar outra lógica no lugar.

Exemplo perfeito desse deslocamento intencional de sentido é a perna encontrada dentro da barriga de um tubarão no começo do filme. Por um lado, é algo que insere uma linha narrativa à trama, mas também amarra outros níveis narrativos mais simbólicos, do folclórico ("perna cabeluda") ao existencial (a impossibilidade de cidadãos honestos, transformados em refugiados políticos, em andar com as próprias pernas). Até mesmo o assassino de aluguel Vilmar (Kaiony Venâncio), em parte exitoso em seu serviço, é algoz e vítima ao mesmo tempo do perverso e violento sistema paralelo sustentado pelo regime militar brasileiro, visto que ele também é baleado justamente na perna.

Tânia Maria como d. Sebastiana:
essencial para a trama
Essa amarração simbólica é um dos predicados de Kleber, o que torna seus filmes ao mesmo tempo únicos e similares. A grande qualidade de sua obra está em nunca se repetir, mas mantendo uma linha ideológica, narrativa e estética comum, que traz a cultura local, recifense, pernambucana e nordestina para um patamar de crítica. A barbárie e a violência humanas, por exemplo, são espelhadas na iminência do perigo do tubarão, comum nas praias de Recife, elemento presente em seu primeiro filme, “O Som ao Redor” (2012), e também em “Aquarius” (2016) e no documentário “Retratos Fantasmas” (2023). “O Agente...” é totalmente diferente destes três, assim como de “Bacurau” (2019, codirigido por Juliano Dornelles), mas todos, em maior ou menor grau entre si, trazem parecenças de estilo de filmar (os zoons in e out eficientes, as passagens entre cenas, os diálogos densos, a divisão em capítulos) como temáticas (o contexto político, a denúncia social, a oposição entre barbárie e humanismo).

O que resulta disso é mais uma obra impactante de Kleber, um filme empolgante que o coloca definitivamente entre os melhores realizadores do mundo em atividade ao lado de Yorgos Lanthimos, Sofia Coppola, Gaspar Noé e Jordan Peele. As 2 horas e 40 minutos de fita são aproveitadas internamente, sem qualquer excesso ou "barriga". Wagner, escolha perfeita para o papel, está deslumbrante, assim como Tânia Maria no papel de Dona Sebastiana, atriz veterana com quem o cineasta já havia trabalhado em "Bacurau" e que enxergou nela a possibilidade de aproveitar melhor seu talento. Deu muito certo, visto que Tânia - a quem empolgadas vozes vêm apontando-a como merecedora de indicação a Oscar pela atuação - recebe, desta vez, textos bastante bem elaborados, essenciais ao filme.

Já que se entrou nessa seara, então: e o Oscar? Parece cedo ainda para falar a respeito, visto que os favoritos, em geral, começam a surgir principalmente durante novembro e dezembro. São esses títulos de dentro da indústria e/ou responsivos ao contexto socio-politico-produtivo que saltam na frente em preferência.

Contudo, dá para arriscar o palpite de que “O Agente...”, dados os prêmios em Cannes e todo o eficiente marketing que vem ganhando - além, claro, da qualidade do filme - tem boas chances de emplacar indicações. A começar, pela de Filme Internacional, para o qual vem sendo bem cotado. Porém, é bem plausível supor que, na esteira de "Ainda Estou Aqui", brasileiro vencedor do Oscar de Filme Internacional do ano passado e concorrente na categoria de atriz, quando Fernanda Torres beliscou a estatueta, desta vez saia uma indicação para Melhor Ator para Moura, figura já conhecida do mercado norte-americano e internacional. Aposto também em indicação a Melhor Filme, assim como ocorreu com “Ainda...”, mas também de Direção para Kleber, cujo trabalho é naturalmente mais autoral do que o de Walter Salles em “Ainda...”, o que lhe pode contar pontos diante do novo contexto da Academia do Oscar, mais atenta a talentos de fora do eixo de anos para cá.

Previsões boas para um país como o Brasil, que vem despontando no cenário cinematográfico mundial de anos para cá e que parece manter-se assim. Talvez “O Agente...” supere “Ainda...” em indicações e, quiçá, em premiações - assim se espera - mas não em visibilidade de público nos cinemas brasileiros, visto que se trata de uma obra menos "palatável" do que a do filme de Waltinho, bem mais convencional em narrativa, o que o aproxima do espectador comum. Ou, quem sabe, depois que o filme estrear, a campanha de marketing, vultosa para os padrões brasileiros, não consiga atrair tanto público quanto o fenômeno de bilheteria “Ainda...”? Se propaganda serve para vender porcarias todos os dias, que sirva também para levar a um grande público coisas boas como “O Agente...”. Terá, enfim, a publicidade acertado alguma vez assim como Kleber, que acerta em todas.

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Trailer oficial de "O Agente Secreto"


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"O Agente Secreto"
direção: Kleber Mendonça Filho
elenco: Wagner Moura, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Udo Kier, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Roney Villela
gênero: drama, policial
duração: 2h41min.
país: Brasil, França, Países Baixos, Alemanha
ano: 2025
onde assistir: Nos cinemas


Daniel Rodrigues


domingo, 26 de outubro de 2025

"Se Eu Fosse Minha Mãe", de Gary Nelson (1976) vs. "Sexta-Feira Muito Louca", de Mark Waters (2003)

 


Sabe quando um time não tá funcionando bem, pinta aquela crise no vestiário e um setor começa a reclamar do outro? O pessoal do ataque cobra da defesa por tomar tantos gols, mas aí o pessoal da zaga argumenta que os atacantes não tem a menos noção da dificuldade que é marcar porque nunca se preocupam com isso e não ajudam nem na saída de bola. Os dianteiros, por sua vez, se defendem alegando que o meio deveria colaborar mais, que jogam muito espaçados e que o volante deveria proteger a área. Aí é a meiúca que acusa os laterais de avançarem muito e deixarem a parte defensiva muito exposta. Os homens dos flancos, por seu turno, ofendidos, alegam que tem que ir e voltar o tempo todo e que ninguém trabalha como eles no time... "Queria ver se fossem vocês!", dizem. Enfim, ninguém se entende!

No nosso duelo cinefutebolístico da vez, pegamos dois filmes em que, exatamente, uma personagem não tem a exata noção das dificuldades da outra e acaba precisando viver na pele os problemas do outro lado para perceber que perrengues não são exclusividade sua.

"Se eu Fosse Minha Mãe" e "Sexta-Feira Muito Louca" têm basicamente a mesma história. Mãe e filha, intolerantes às questões da outra, depois de uma discussão (mais uma!!!) acabam por um incidente metafísico trocando de lugar, mudando de corpo. A mãe no corpo da filha e a filha no corpo da mãe, mas com a mesma cabeça, os mesmos conceitos, os mesmos pensamentos e preocupações. Em nome de manter as aparências e tentar deixar as coisas sob controle até que, de alguma forma, tudo volte ao normal, elas concordam em assumir seus papéis durante aquele dia e cumprir as tarefas uma da outra. Aí é passar um dia encarando os desafios cotidianos do outro lado tão subestimados por cada uma delas.

No original de 1976, a mãe, Ellen, vivida por Barbara Harris, é meramente uma dona de casa e suas particularidades basicamente se limitam à rotina do lar, como preparar a comida, lavar a roupa, cuidar do marido, solicitar manutenções, etc., retrato da época e do padrão desejado para uma mulher na sociedade dos anos 70. O universo da filha Annabelle, vivida por uma jovem Jodie Foster ainda em seus tenros 14 anos, além da escola, do convívio das amigas, inclui atividades esportivas nas quais, por sinal, ela se destaca, como hóquei e esqui aquático, o que representará dificuldades adicionais a quem assuma sua identidade.

Não precisaria nem dizer que a filha, no corpo da mãe, em casa tendo que atender o fogão, máquina de lavar, serviços de entrega, relações sociais e tudo mais, fica perdidinha e só toma decisões erradas. E a mãe, na escola, no corpo da filha, além de perceber que o universo escolar é mais complexo do que imaginava, nas atividades extraescolares não terá a menor destreza com tacos de hóquei, esquis e coisas do tipo.

Na refilmagem de 2003, a atualização é preciosa e rende muitos ganhos à nova versão. Tess, a mãe, interpretada por Jamie Lee Curtis, é uma mulher independente, de sucesso, trabalha fora, é viúva mas tenta dar uma nova chance à sua vida com um novo parceiro que, por sinal, é muito mal recebido pela filha adolescente Anna, ainda muito sentida pela perda recente do pai. Anna tem preguiça pra acordar pra ir pra escola, briga com o endiabrado irmãozinho menor, não é má aluna mas tem suas dificuldades na escola, seja com outras meninas, seja com professores implicantes. Tem uma quedinha por um gatinho da escola, tem personalidade forte, discute com a mãe por quase tudo e tem uma banda de rock que além de seu lazer, seu prazer, é quase seu escape para todo os estresses do dia a dia. O problema é que a mami não vê  bem assim. Acha que é só uma barulheira, é só mania, brincadeira de adolescente, que não tem importância alguma e no dia que pode ser o mais importante para o futuro musical da filha, ela quer pôr seu interesse à frente obrigando a garota a ir em sua festa do noivado com o futuro padrasto. Aí não, né! É claro que vai dar treta! Tá certo que Anna tem que entender que a mãe precisa de uma nova chance na vida, passado o luto, e que aquele é um momento especial, mas Tess também podia ter um pouquinho de noção que uma batalha de bandas, uma chance de mostrar seu talento, exibir aquilo que você curte e faz bem, de se autoafirmar como pessoa, é algo que não se pode deixar passar.

Só esse recorte já demonstra o quanto "Sexta-Feira Muito Louca" é mais bem estruturado, mais bem costurado, bem construído, ao passo que o outro tem questões pontuais, dilemas mais isolados e o problema final que é o de Ellen no corpo da filha tendo que participar de uma demonstração de esqui, enquanto Annabelle no corpo da mãe, com uma licença de adulto mas sem nenhuma prática na direção, tem que dirigir até o local do evento aquático para impedir que algo de pior aconteça à filha..., digo à mãe..., a mãe que na verdade é filha... Ah, sei lá! Até já me confundi.

Fato é que o remake é muito superior. A própria troca de papéis tem uma "lógica" mais justificável na segunda versão, com os biscoitos da sorte no restaurante chinês, do que no primeiro filme quando se dá simplesmente durante mais uma discussão na qual ambas acabam falando ao mesmo tempo. Sem falar na rotina escolar de Anna, no cotidiano mais complexo da mãe, na relação mais engraçada da garota com o irmão, a situação do namoradinho que se encanta com a mulher mais velha, que no primeiro é meramente um bocó da vizinhança enquanto na refilmagem é um gatão de moto e que tem participação relevante em um elemento importante da trama.  Ou seja, "Sexta-Feira Muito Louca" tem tudo para passar por cima de "Se Eu Fosse Minha Mãe".

Mas futebol e cinema se decide dentro das quatro linhas e, apesar das aparências, o filme de 1976 não é nenhuma galinha-morta. Dois times com boas duplas de ataque! De um lado, "Se eu fosse minha mãe" tem a belíssima Barbara Harris num papel até bem competente dadas as limitações do personagem, e a jovem Jodie Foster que viria a ter dois prêmios The Best FIFA na estante (ou seja, dois Oscar da Academia) mas que até aquele instante era apenas mais uma boa promessa do sub-15. Mas se não era possível prever que no futuro aquela adolescente sardentinha seria uma oscarizada, quem apostaria que um dia a final-girl de Halloween, Jamie Lee Curtis também teria um Oscar pra chamar de seu? Pois é, alguns anos depois, uma das primeiras rainhas do grito, também viria a levar seu 'premio FIFA' por "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo". Ou seja, se o negócio é prêmio grande, TEMOS.  E pros dois lados.

Já a mãe da versão original e a filha da versão nova, nunca chegaram a ter essa projeção toda, embora Harris tenha recebido uma indicação ao Oscar e Lindsay Lohan tenha sido um ícone de sua geração especialmente nas comédias juvenis. O problema com LL é que foi tipo aquele jogador porra-louca que teve bom desempenho em duas ou três temporadas depois de subir pro profissional mas estragou tudo e jogou a carreira fora.

Mas, pasmem, aqui, no estágio da carreira de cada uma, a Lindsay 'Lôca', supera a bi-oscarizada Jodie Foster. O retrato de adolescente, as particularidades da sua época, as atualizações do roteiro, a parte musical, favorecem enormemente a maluquete dos anos 2000 e ela desequilibra a favor do seu time.

"Se Eu Fosse Minha Mãe" - Abertura


Apesar de tudo indicar uma vitória fácil do remake, para surpresa geral, o original é quem abre o placar nos primeiros segundos de jogo. A abertura em animação, graciosa e cativante é um diferencial do time de 1976. Muito bonitinha! Gol relâmpago! SEFMM 1x0.

Mas parece que era tudo que o time setentista tinha para dar. A dinâmica do remake, os contextos familiar e escolar, a atualização do olhar sobre a mulher, a introdução do elemento do padrasto, a existência da banda, tudo isso representa um ganho considerável para o novo filme. Jogada coletiva, toca daqui toca de lá e SFML empata rapidamente. 1x1.

Numa tabelinha espetacular de Jamie Lee Curtis com Lindsey Lohan, SFML faz o segundo. As situações em que elas contracenam logo após a troca, quando compreendem que mudaram de corpo e teriam que encarar pelo menos um dia daquele jeito, são de se mijar de rir. Cada uma pegando as falas, as manias, os trejeitos da outra é algo absolutamente hilário! Experiência aliada à juventude e SFML vira o jogo: 1x2.

Por falar em experiência e juventude, a cena em que o crush de Anna, Jake, um rapaz da escola que ajuda na detenção, dá carona de moto para a mãe, achando que está caidinho por ela (mas é pela filha), além de saborosa e engraçada, é embalada por uma versão matadora de Joey Ramone para o clássico "What a Wonderfull World". Aí não tem como, né? É gol do time de 2003. 1x3 no placar.


"Sexta-Feira Muito Louca" - cena da moto
"What a Wonderfull World", Joey Ramone


A relação com o irmão menor é mais engraçada na segunda versão mas não faz tanta diferença para representar um gol; a origem da "maldição", com o restaurante chinês, o biscoito da sorte e tudo mais é apenas mais bem resolvida na refilmagem que o do original, mas não chega a ser nada genial e não  representa, um diferencial considerável. O que faz a diferença, sim, é a sequência final que, enquanto no primeiro filme se resume a uma desastrada demonstração de esqui aquático e uma perseguição automobilística totalmente pastelão, na nova versão tem o clímax dividido entre a festa de noivado da mãe e a batalha de bandas da filha, colocando frente a frente os interesses de cada uma e a capacidade de compreender a necessidade da outra. A sequência toda culmina em nada menos do que um show de rock com um solo de guitarra de Anna, no corpo da mãe Tess, salvando a própria pele, uma vez que a quem está ali no palco, pelo menos em corpo, é ela mesmo. Literalmente..., show!1x4.

Num jogo realizado numa sexta-feira e em que tudo parecia fora do lugar - o volante jogando de ponta esquerda, o zagueiro de centroavante, o lateral na meia - "Sexta-Feira Muito Louca" mostra mais qualidades, mais variações de jogo, troca de posições, e atropela seu original dos anos '70. Se eu fosse a Jodie Foster, eu chamava minha mãe porque a surra foi feia.

Pois é, futebol moderno exige que os jogadores atuem em mais de uma função.
Tem que aprender a jogar na posição da outra.
(À esquerda, Annabelle e Ellen, na primeira versão,
e à direita, Anna e Tess, na refilmagem)



A defesa do time de 1976 foi uma mãe e

 facilitou a vitória do time de 2003.


por Cly Reis