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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Oscar 2026 - Os Indicados


Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo!
Desde a manhã desta quinta-feira, 22 de fevereiro, nós brasileiros podemos afirmar: “ainda estamos aqui!” O “aqui” a que me refiro, claro, é o Oscar, que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, multivencedor em diversos festivais pelo mundo, inclusive o Globo de Ouro em duas categorias a pouco mais de uma semana, tornou-se um dos indicados a quatro estatuetas. O parafraseado que remete ao filme “Ainda Estou Aqui”, indicado a três Oscar e vencedor em Filme Internacional no ano passado, não é mera brincadeira semântica, visto que tem, sim, relação com o feito de “O Agente...”, que dá seguimento a esta visibilidade ao cinema nacional e também empata em indicações com outro filme brasileiro, “Cidade de Deus”, de 2002. Ou seja: já está fazendo história.

É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.

“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalamet por “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.

Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.

De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.

Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.

Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair. 

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

Melhor Filme

"Bugonia"

"F-1"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"

"Sonhos de Trem"


Melhor Direção

Chloé Zhao, por "Hamnet"

Josh Safdie, por "Marty Supreme"

Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"

Joachim Trier, por "Valor Sentimental"

Ryan Coogler, por "Pecadores"


Melhor Ator

Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"

Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"

Ethan Hawke, por "Blue Moon"

Michael B. Jordan, por "Pecadores"

Wagner Moura, por "O Agente Secreto"


Melhor Atriz

Jessie Buckley, por "Hamnet"

Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"

Kate Hudson, por "Song Sung Blue"

Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"

Emma Stone, por "Bugonia"


Melhor Ator Coadjuvante

Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"

Jacob Elordi, por "Frankenstein"

Delroy Lindo, por "Pecadores"

Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"

Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"


Melhor Atriz Coadjuvante

Elle Fanning, por "Valor Sentimental"

Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"

Amy Madigan, por "A Hora do Mal"

Wunmi Mosaku, por "Pecadores"

Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"


Melhor Elenco

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Original

"Blue Moon"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Marty Supreme"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Adaptado

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sonhos de Trem"


Melhor Filme de Animação

"Arco"

"Elio"

"Guerreiras do K-pop"

"A Pequena Amélie"

"Zootopia 2"


Melhor Filme Internacional

"O Agente Secreto"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Valor Sentimental"

"Sirāt"

"The Voice of Hind Rajab"


Melhor Documentário em Longa-Metragem

"Alabama: Presos no Alabama"

"Embaixo da Luz Neon"

"Cutting Through Rocks"

"Mr Nobody Against Putin"

"A Vizinha Perfeita"


Melhor Documentário em Curta-Metragem

"Quartos Vazios"

"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"

"Children No More: Were and are Gone"

"O Diabo Não Tem Descanso"

"Perfectly A Strangeness"


Melhor Curta-Metragem em Live Action

"Butcher's Stain"

"A Friend Of Dorothy"

"Jane Austen's Period Drama"

"The Singers"

"Two People Exchanging Saliva"


Melhor Animação em Curta-Metragem

"Butterfly"

"Forevergreen"

"The Girl Who Cried Pearls"

"Retirement Plan"

"The Three Sisters"


Melhor Trilha Sonora

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Canção Original

"Dear Me", de "Diane Warren: Relentless"

"Golden", de "Guerreiras do K-pop"

"I Lied To You", de "Pecadores"

"Sweet Dreams Of Joy", de "Viva Verdi!"

"Sonhos de Trem", de "Sonhos de Trem"


Melhor Som

"F-1"

"Frankenstein"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"

"Sirāt"


Melhor Fotografia

"Frankenstein"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sinners"

"Sonhos de Trem"


Melhor Design de Produção

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Figurino

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Pecadores"


Melhor Cabelo e Maquiagem

"Frankenstein"

"Kokuho"

"Pecadores"

"Coração de Lutador: The Smashing Machine"

"A Meia-Irmã Feia"


Melhor Montagem

"F-1"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhores Efeitos Visuais

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"F-1"

"Jurassic World: Recomeço"

"O Ônibus Perdido"

"Pecadores"


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Arte do ClyBlog em 2025

 





Antes tarde do que nunca!

A nossa retrospectiva da produção visual do ClyBlog acabou atrasando por diversos fatores, mas em tempo, destacamos aqui alguns dos trabalhos digitais, manuais, de vídeo da seção ClyArt, anúncios e chamadas em redes sociais, variações dos logos do blog e das nossas seções. Um pouco da criatividade visual que expressamos no ClyBlog ao longo do ano passado.


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O logo, como sempre ganhando variações de luzes, cores e texturas

Os logos das seções também ganham variações em ocasiões especiais,
mas se tem um que sempre muda conforme o tema da postagem é o ClyArt 

A seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, por exemplo, é uma que também celebra
datas e acontecimentos importantes. E homenageia aqueles que nos proporcionam grandes discos.
Esse ano, um dos lembrados, foi o novo oitentão, Ivan Lins

E teve estreia de seção nova no blog.
A Clyblood, parte da Claquete dedicada aos filmes de horror,
cjhega derramando sangue no visual do ClyBlog



As artes digitais que transformam MPB em HQ's ou em filmes apareceram de novo no ClyArt.
Destaque aqui para Maria Bethânia comandando os raios e para os heróis (ou anti-heróis) brasileiros do Sepultura

Recuperamos as antigas capas de fita K7 feitas artesanalmente, recorte, colagem e muita criatividade.
Aqui a capa de Gil & Jorge, feita por Daniel Rodrigues


Imagens sempre ilustram os contos, crônicas e poemas da seção Cotidianas.
Aqui, arte de Cly Reis, 'Eu Sou a Ressurreição'.

A inteligência artificial também foi usada para ajudar na arte 
do conto "Meu Pobre English"

A gente divulga o ClyBlog nas redes sociais e esta foi
uma das artes que produzimos e espalhamos por aí no ano que passou

A vídeoarte também foi destaque no ClyBlog e Daniel Rodrigues 
produziu a instigante e enigmática 'Waterfire"


 


CR e DR




segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Globo de Ouro 2026 - Os Vencedores

 

Quando soube das filmagens de um novo filme de Kleber Mendonça Filho, ainda em 2024, que se passaria no período da ditadura militar no Brasil e que já se sabia que se chamaria "O Agente Secreto", já dava para imaginar que seria algo especial. Aí veio o reconhecimento no melhor festival de cinema do mundo, Cannes, onde o filme estreou e ganhou dois prêmios. Quando assisti, tempo depois, confirmei a expectativa. Depois, mais premiações importantes: 54 no total, sendo 20 internacionais.

Até que, enfim, "O Agente..." - já um pré-indicado a Oscar de Filme Internacional e provavelmente Filme e a ator pra Wagner Moura - chega ao Globo de Ouro e.... vence! E vence em duas categorias superimportantes: Filme em Língua Não-Inglesa e em Ator em Drama! Superando, inclusive, "Ainda Estou Aqui", que no ano passado deu o globo a Fernanda Torres, mas perdeu para o questionável "Emília Perez". E ainda o filme bate fortes concorrentes, como o essencial "Foi Apenas um Acidente", o Palma de Ouro do ano, e o badalado "Valor Sentimental" (que foi bem rejeitadinho, convenhamos).

Mas não teve pra ninguém! É o Brasil de novo nas cabeças! Ah, teve outras premiações, né? "Uma Batalha Após a Outra" levou os principais? "Hamnet" lascou o de Filme de Drama? "Adolescência" abocanhou o que devia em série de TV? Sim, mas permitam que, desta vez, eu destaque o filme brasileiro, que marcou história já ao ser indicado a três categorias no Globo de Ouro e, mais do que isso, levou dois!

Mas, ok, ok! Vou deixar que saibam quem foram os outros premiados. (mas já na torcida para "O Agente..." agora no Oscar!)

🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

Melhor filme de drama

"Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor filme de comédia ou musical

"Uma batalha após a outra" 


Melhor ator em filme de drama

Wagner Moura, "O Agente Secreto" 


Melhor atriz em filme de drama

Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet"


Melhor série de comédia ou musical

"The Studio"


Melhor minissérie, antologia ou filme para a TV

"Adolescência"


Melhor série de drama

"The Pitt"


Melhor atriz em série de drama

Rhea Seehorn, "Pluribus"


Melhor performance de comédia stand-up na TV

Ricky Gervais, "Ricky Gervais: Mortality"


Melhor atriz coadjuvante na TV

Erin Doherty, "Adolescência"


Melhor filme em língua não-inglesa

"O Agente Secreto"


Melhor filme de animação

"Guerreiras do K-Pop" 


Melhor direção em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma batalha após a outra"


Melhor destaque em bilheteria

"Pecadores"


Melhor atriz em minissérie, antologia ou filme para a TV

Michelle Williams, "Dying for Sex"


Melhor ator em minissérie, antologia ou filme para a TV

Stephen Graham, "Adolescência"


Melhor ator em filme de musical ou comédia

Timothée Chalamet, "Marty Supreme"


Melhor atriz em filme de musical ou comédia

Rose Byrne, "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria"


Melhor roteiro em filme

Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra"


Melhor trilha sonora de filme

"Pecadores" 


Melhor canção em filme

"Golden", "Guerreiras do K-Pop"


Melhor podcast

"Good Hang with Amy Poehler" 


Melhor ator em TV de musical ou comédia

Seth Rogen, "The Studio"


Melhor ator coadjuvante na TV

Owen Cooper, "Adolescência" 


Melhor atriz em série de musical ou comédia

Jean Smart, "Hacks"


Melhor ator em série de drama

Noah Wyle, "The Pitt"


Melhor ator coadjuvante em filme

Stellan Skarsgard, "Valor Sentimental"


Melhor atriz coadjuvante em filme

Teyana Taylor, "Uma Batalha Após a Outra"



Daniel Rodrigues

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

“Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (2025)

 

A premiação do Oscar, às vezes, depende da configuração dos astros. Mas não os daqui da Terra, aqueles que estrelam os milionários filmes de Hollywood e, sim, os que estão no firmamento e que comandam os movimentos do universo. Isso talvez explique por que há casos em que determinado cineasta não ganha a estatueta por filmes que merecia mas, curiosamente, seja premiado justamente por um não necessariamente o seu melhor trabalho. Isso já aconteceu com Martin Scorsese, por exemplo. Várias vezes indicados por grandes filmes durante quatro décadas, só foi receber o Oscar em 2006, por “Os Infiltrados”, obra, sim, carregada de seus elementos fílmicos, mas não uma obra-prima como “Os Bons Companheiros” ou “Touro Indomável”. E tudo bem. Antes tarde do que nunca.

Algo semelhante deve ocorrer com outro desses multi-indicados ao Oscar neste ano: o cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. Ele provavelmente concorrerá com o empolgante “Uma Batalha Após a Outra”, o qual tem boas chances de levar para casa o título tanto de Filme quanto de Direção. Porém, por melhor que seja, e semelhantemente a seu mestre Scorsese, não supera aquilo que ele mesmo já fez, no caso, as obras-primas “Magnólia”, “Boogie Nights: Prazer sem Limites” e “Sangue Negro”. Indicado 16 vezes ao Oscar tanto como roteirista quanto como diretor, Anderson, porém, tem tudo para, desta vez, emplacar com sua nova e fabulosa aventura cômica sobre os limites do extremismo político.

Na trama, Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) fazem parte do grupo revolucionário antifascista 75 Franceses. Eles têm como missão mudar o mundo a partir da fronteira entre os Estados Unidos e o México por meio de atos de terrorismo doméstico, principalmente em defesa dos imigrantes. Mas tudo dá errado quando Perfídia é capturada por seu arqui-inimigo, o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). 19 anos depois, Perfídia se foi, e Bob, agora drogado e paranoico, vive isolado de qualquer façanha revolucionária, dedicado à criação de sua filha adolescente, Willa (Chase Infiniti). Enquanto isso, Lockjaw aspira se juntar a um tipo de organização maçônica elitista e supremacista, mas tem medo que segredos de seu passado venham à tona. A decisão, então, é eliminar qualquer vestígio de evidência, algo que Bob será forçado a sair da inércia e impedir.

Com a edição caprichada de sempre, a excelente trilha do “Radiohead” Johnny Greenwood, cenas tecnicamente perfeitas e – também como sempre – direção de atores muito bem conduzida por Anderson, trata-se de um filme distinto e, ao mesmo tempo, necessário para estes tempos de polarização política no mundo. Senhor de algumas das melhores cenas da história do cinema dos últimos 30 anos, como a da explosão do poço de petróleo em "Sangue..." ou o plano-sequência da festa de ano novo de final trágico de "Boogie...", Anderson não deixa por menos em "Uma Batalha...". São várias as ótimas cenas do filme, espacialmente a da perseguição de carros na estrada com declives em que se vale de movimentos de câmera muito bem pensados e diferentes lentes para adicionar uma sensação de vertigem à eletrizante ação. 

Ao passo que escancara a fragilidade e o isolamento existencial provocados pela utopia da extrema-esquerda, o filme também evidencia o quão patéticos são os poderosos fascistas travestidos de liberais. O que estes têm é poder e dinheiro, mas nenhuma ética ou sensibilidade humanística. Os radicais revolucionários, no entanto, embora também criticados, são, no fim das contas, desculpados em sua inocência por Anderson, pois estão a serviço de uma causa maior. Igualmente à regeneração dos viciados em sexo e drogas de “Boogie...”, ou à memorável chuva de sapos de “Magnólia”, responsável por render as pessoas ao perdão, em seu novo filme o diretor mostra que “a batalha continua”. Uma após a outra, uma a cada dia para desbancar esse mundo perverso e assassino da classe dominante. 

Sean Penn brilhante no papel do escroto (e patético) Coronel Steven

Afora Anderson e seu filme, o Oscar pode também cair no colo Penn ou Del Toro como Ator Coadjuvante. Para qualquer um dos dois, se vier, está bem entregue. Já a categoria de Ator, por mais que DiCaprio desempenhe como só ele sabe fazer, em princípio parece que, nesta corrida, ele perde para outros concorrentes, inclusive Wagner Moura por “O Agente Secreto”. É outro caso de oscarizado que já fazia por merecer há bastante tempo até, enfim, recebê-lo por “O Regresso”, em 2015. Desta vez, não parece que a Academia esteja disposta a premiá-lo novamente.

Premiado ou não, DiCaprio está impecável. Poucos ou nenhum ator da atualidade é capaz como ele de dar a medida certa a personagens tão desiguais como Bob. Não à toa diretores como Scorsese, Clint EastwoodQuentin Tarantino e Alejandro González Iñárritu procuram-no, pois DiCaprio é hábil nesses papeis de difícil equação. Como Bob, ele vai da candura ao cômico, da insegurança à histeria sem perder o fio. Há algo neste papel de Jordan Belfort, de "O Lobo de Wall Street", de Randall Mindy, de "Não Olhe para Cima", e Rick Dalton, de "Era Uma Vez... em Hollywood", todos em que precisou exercitar extremos de expressividade cênica.

Quanto às chances do filme, embora mudanças possam ocorrer nessa última corrida até o Oscar, em março, ocorre que entre alguns dos principais concorrentes de “Uma Batalha...” estão títulos bem cotados para Filme Internacional, casos do norueguês “Valor Sentimental”, do franco-iraniano “Foi Apenas um Acidente” e, claro, do brasileiro “O Agente...”. Ou seja: esses possivelmente disputem entre si nesta segunda categoria, deixando-lhe o caminho mais livre. Já das outras produções norte-americanas, parecem ter menos força “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Pecadores” ou mesmo “Bugonia”, “Jay Kelly” e “Hamnet”. A de Direção, um pouco mais descolada de Filme, é mais incerto, mas possível que vá para P.T. Anderson. Para alguém tão talentoso e que já bateu na trave tantas vezes, talvez os astros se alinhem desta para premiá-lo. Só ele sabe o quanto é necessário trilhar sua trajetória com um filme após o outro para, quem sabe, um dia receber o reconhecimento que há tantos anos merece. 

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trailer de "Uma Batalha Após a Outra"


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"Uma Batalha Após a Outra"
título original: "One Battle After Another"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Paul Thomas Anderson
gênero: ação, comédia, aventura
duração: 2h41min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max, Amazon Prime e Apple TV



Daniel Rodrigues

sábado, 3 de janeiro de 2026

Clyblood #7 - "Os Gritos de Blácula”, de Bob Kelljan (1973)

 

Sempre enxerguei a Blackexpliotation com uma certa desconfiança. É um gênero do cinema muito atrativo, esteticamente sedutor, exaltador da fantástica cultura afro-americana mas, em última análise, uma mera reprodução dos padrões branconcêntricos e imperialistas. Esse cinema é, em grande parte, alimentado pela teoria do filósofo e médico psiquiatra Frantz Fanon de que o negro, para vencer a alienação imposta pela sociedade branca e passar a oferecer a devida“resistência ontológica”, precisava, necessariamente, passar por um processo de afirmação cultural. Pronto: tudo que vinha acumulado por décadas e décadas de opressão, violência e desumanização da figura do negro norte-americano, foi, por volta dos anos 70, momento culminante desse desenvolvimento social-antropológico, posto em obras cinematográficas como uma forma reativa de se combater o racismo. O método: afirmando a existência do negro com sua cultura e beleza.

Acontece que, como qualquer ação meramente reativa, a chance de se incorrer na superficialidade é grande. E foi o que o ocorreu com a Blackexploitation enquanto movimento: combate à “exploração” da imagem do “negro” através de uma resposta imediata em forma de transposição do espaço ocupado pelo branco, só que agora com figuras pretas na tela. Simples assim: branco por preto, preto no branco. Afora a potência de filmes como “Shaft”, “César Negro” ou “Superfly”, e por conter uma série de qualidades, desde as maravilhosas trilhas sonoras assinadas por gênios da música negra norte-americana até a formação de astros como Pam Grier e Richard Roundtree, há de se dizer que não deu tão certo assim enquanto ação afirmativa. 

Era o momento do movimento Black Power, de um país a poucos anos da conquista dos Direitos Civis, dos Panteras Negras, de conflitos raciais e, ao mesmo tempo, de ascendência de ídolos pretos como James Brown, Sly Stone, Sidney Potier e Angela Davis, Ou seja: muita coisa para se elaborar em muito pouco tempo, e o resultado foi a utilização das ferramentas inadequadas. Para ocupar seu espaço, meramente o inverteu. É o que o próprio Fanon chama de “mímica da representação dos senhores”. Tanto que, após o boom da Blackexploitation, precisou que se caminhasse pelo menos mais 40 anos para que, carregados pela mão firme de Spike Lee até então, o cinema norte-americano, enfim, passasse a contar sua história com a consistência merecida através de nomes como Jordan Peele, Steve McQueen, Ryan Coogler, entre outros.

Tudo isso para dizer que “Os Gritos de Blácula”,  de Bob Kelljan, filme da Blackexploitatiion de 1973, é uma boa exceção àquele discurso autoenganado dos negros norte-americanos com esse cinema. Tive a felicidade de apresentá-lo, no dia 4 de dezembro do ano passado, durante a 12ª edição do festival A Vingança dos Filmes B, coordenado pelo amigo, colega de Associação de Críticos do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e colaborador deste blog, Cristian Verardi. Continuação de “Blácula – O Vampiro Negro”, de 1972, “Os Gritos...” se sai melhor do que seu original, visto que consegue avançar não apenas para com sua obra-matriz mas em relação a praticamente todos os outros Blackexploitation na discussão da negritude.

William Marshall no papel de Blácula: patologia e conflito 

O filme começa com a morte da rainha vodu Mama Loa, o que motiva os membros de seu culto a votarem na aprendiz adotiva Lisa Fortier (Pam Grier) como sua sucessora. Isso deixa indignado o arrogante filho biológico da matriarca, Willis (Richard Lawson). Inconformado, ele procura um feiticeiro e, partir dos ossos do Príncipe Mamuwalde, ressuscita Blácula (William Marshall) para vingar-se, mas acaba virando seu escravo. Enquanto um exército sedento por sangue se forma, um policial obcecado por ocultismo passa a perseguir Blácula com o objetivo de dar fim ao reinado do vampiro definitivamente.

Grande qualidade de “Os Gritos...” está, justamente, nessa apropriação da lenda de Drácula, tão branca quanto europeia, trazendo seu conflito para o cerne da questão racial. Príncipe Mamuwalde é, ao mesmo tempo, uma figura essencialmente ligada à ancestralidade africana, como ele mesmo expõe na cena em que presencia o leilão de objetos africanos. Contraditoriamente, entretanto, é amaldiçoado justamente por isso. O que lhe constitui é algo que ele considera impuro, doentio, psicopatológico, mas... é o que lhe constitui. Então, para ser ele mesmo, tem que deixar de ser ele mesmo. Alto grau de conflito existencial – e racial.

Eu na sessão do festival
A Vingança dos Filmes B
Voltando a Fanon, é ainda mais interessante notar como o filme evoca uma das questões cruciais da filosofia do pensador martinicano, que é a da dicotomia “visibilidade e invisibilidade”. Para ele, a experiência vivida do negro será sobretudo dada pelo olhar imperialista do branco, que o inferioriza e, imediatamente, o invisibiliza. Assim, a invenção do negro como um ser inferior o reduz ao silêncio, à não-existência, a nada. Esses atributos negativos podem bem ser empregados à figura do Blácula, cujos instintos selvagens, presentes no personagem original de Bram Stoker, são aqui potencializados pela corporalidade estereotipada que marca o negro. Blácula, que suga o sangue de mulheres e homens indistintamente, é uma ameaça tão sexual quanto de violência, tal qual o negro na sociedade racista.

Cena bastante simbólica desse dilema é a que Blácula dialoga com seu “pupilo” Willis, logo no começo da fita. Ainda sem entender a extensão da maldição que se abateu sobre ele, Willis arruma-se para sair de casa e ir ao uma festa. Além da proibição por parte do carrasco, chama atenção a reação de Willis em relação à famosa característica dos vampiros: não se enxergar no espelho. Incrédulo de que a partir dali nunca mais poderá ver seu reflexo, chega a pedir a Blácula que avalie seu visual, tamanha importância que ele como um negro norte-americano daquela época de “black is beautiful” dava a este aspecto. Não é apenas uma mera afetação ou vaidade: é o “reflexo” de uma comunidade precisando se ver representada, precisando cumprir a sina fanoniana de derrubar as máscaras brancas. Sem ver-se no espelho, isso é impossível.

Talvez não tão consciente de seus próprios apontamentos, “Os Gritos...” é, sim, um filme bem realizado e que dá um passo adiante na proposta reativa da Blackexploitatiion, abrindo caminho para o que, anos depois, um cineasta como Peele faria com profundidade discursiva dentro do próprio gênero terror. Como obra, é um thriller bastante interessante, de ótima fotografia, estética pop, trucagens eficientes, enquadramentos bem sacados e, claro, trilha excepcional (a cargo de Bill Marx), característica dos filmes Blackexploitatiion. Curioso pensar que o “novo humanismo” proposto por Fanon, ferramenta com a qual se superaria essa desumanização, tenha, no cinema negro norte-americano, partido justamente de uma figura não-humana. Como disse o próprio Fanon: “o homem também é um não”.

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trailer de "Os Gritos de Blácula"

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"Os Gritos de Blácula"
título original: "Scream Blacula Scream"
direção: Bob Kelljan
elenco: William H. Marshall, Don Mitchell, Pam Grier, Michael Conrad, Bernie Hamilton, Richard Lawson
gênero: terror, vampiro, Blackexplotation, policial
duração: 96min.
país: Estados Unidos
ano: 1973
onde assistir: YouTube


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

cotidianas #883 - "Feliz Homem Novo"

 

O ano novo se aproximava.

Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."

No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".

No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".

Deu ano novo...

Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.

Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.

Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.

Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.

Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".

Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.

cly


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ClyBlood#6 - Especial de Natal - "A Invasora", de Alexandre Bustillo e Julien Maury (2007)



Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.

Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.

O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.

Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo. 

Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida
que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal.


Cly Reis

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"A Invasora"
título original: "À l'intérieur"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Alysson Paradis, Béatrice Dalle
gênero: horror, terror psicológico, gore
duração: 78min.
país: França
ano: 2007
onde assistir: MUBI, TV Macabra e YouTube

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Música da Cabeça - Programa #440

 

Não tem quem não esteja assim nesse fim de ano. Mas aguenta firme mais um pouquinho antes de tombar de vez pra escutar o MDC desta semana. Temos certeza que não vai se arrepender com a edição especial de nº 440. Afinal, uma combinação de Tina Turner, Cátia de França, Neil Young, Titãs e Adélia Prado põe qualquer um de pé de novo. Ainda mais com a homenagem que a gente vai fazer a Tony Williams, grande baterista que completaria 80 anos se vivo. Com as últimas forças de 2025, o programa vai ao ar às 21h na brava Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem esmorecer: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Arvo Pärt - “Tabula Rasa” (1977)



Duas das edições mais conhecidas
de "Tabula Rasa": ECM e DG
“A música de Arvo Pärt é como bater em uma parede e um buraco aparece nela, onde você pode ver um novo mundo do qual você não tinha a menor ideia de que existia.” 
Thom Yorke

“Pärt dá espaço para o ouvinte, e ele pode entrar e viver ali.” 
Björk

O século 21 decretou a morte da música erudita. Dos poucos compositores que restaram dos importantes para a história dessa tradição secular, quase todos sucumbiram. O começo do novo milênio os viu, um a um, se despedirem: Luciano Berio (2003), György Ligeti (2006), Karlheinz Stockhausen (2007), Pierre Boulez (2016), Sir Peter Maxuell Davies (2016). Até mesmo os “trilheiros” John Williams e Philip Glass ficaram sozinhos com a ida, praticamente nas duas últimas décadas, de Jerry Goldsmith (2004), Ennio Morricone (2020) e, mais recentemente, Ryuichi Sakamoto (2023).

Após séculos de permanente produção, de obras-primas da humanidade, de sublimações, de revoluções, de genialidades, de invenções de mundos, a arte musical clássica, enfim, se desgastava. Da era antiga ao Renascimento, do Barroco ao Romantismo, do Modernismo às vanguardas, parece que nada mais restara para se apresentar, entender, aprender ou subverter. Algo haveria de salvar a música clássica desta crise. Mas o quê? A resposta estava na batuta do maestro e compositor estoniano Arvo Pärt, o último bastião da música clássica mundial, que completou 90 anos em 2025. Sua obra-símbolo: “Tabula Rasa”, de 1977, marco na história da música do século 20 e talvez a última grande obra da música erudita – até aqui.

Pärt é um desses compositores cuja produção criativa mudou significativamente a forma como se entende a natureza da música. Em 1976, após anos de pesquisa, interrupções e introspecção, e por ter passado pelos mais variados estilos (neoclassicismo, dodecafonia, serialismo, sonorismo, colagem e aleatoriedade), ele criou uma linguagem musical única chamada tintinnabuli (latim para "pequeno sino"), a qual define seu trabalho até hoje. A técnica, em essência, une duas linhas monódicas de estrutura – melodia e tríade – em um conjunto inseparável. Ela cria uma dualidade original de vozes através da qual confere um novo significado aos eixos horizontal e vertical da música, ampliando a percepção da música tonal e modal em seu sentido mais amplo.

Claro que, como todo compositor talentoso da União Soviética comunista, a exemplo dos conterrâneos Shostakovitch, Prokofiev e Stravinsky, uma vez que sua Letônia só se emancipara do Bloco em 1991, Pärt teve problemas com o governo. Por um lado, ele era visto como um dos compositores mais originais e notáveis de sua geração. Por outro, muitas de suas obras compostas na década de 1960 foram duramente criticadas, sobretudo “Credo”, de 1968, pelo impacto "perigosamente" forte que teve sobre o público. O texto em latim "Credo in Iesum Christum", constante no libreto, era uma confissão aberta e sincera do compositor de sua religiosidade cristã, o que foi considerado provocativo e contrário ao regime soviético da época. “Credo” foi praticamente proibida e Pärt, assim como sua música, caiu em desgraça por vários anos.

Curiosamente, foi justamente nesse período de reclusão e crise interna, o qual durou até 1976, que fez o compositor chegar à sua autoexpressão. Convertido à Igreja Ortodoxa, em 1972, e voltado intensamente para a música antiga, dedicando-se ao estudo do canto gregoriano, da Escola de Notre Dame e da polifonia renascentista, Pärt chega, enfim, ao tintinnabuli. “Tabula Rasa” (“Folha em Branco”, na tradução do latim), dos primeiros trabalhos resultantes desse longo processo do autor, não poderia ter um nome mais significativo.

Concerto de pouco menos de meia hora de duração escrita para cordas, piano preparado e dois violinos solo, "Tabula Rasa" contém apenas dois movimentos: “Ludus” e “Silentium”, que se complementam entre si em estrutura e expressão. “Ludus” (“Jogo”) mostra os dois violinos solo brincando em campos de lá menor, suavemente a princípio (após sua declaração fortissimo do centro tonal) e frequentemente interrompidos por silêncios. O “jogo” cresce em volume e atividade rítmica até explodir em uma cadência climática, um turbilhão de arpejos para os solistas e o piano preparado (ou seja, parafusos de metal e feltros inseridos entre as cordas do piano, produzindo "um efeito de cor tonal alienada"). A sensação gerada por Pärt neste movimento é de elevação. O Deus de Pärt está ali, definitivamente. Impossível o ouvinte ficar passivo à sua força emocional.

Já “Silentium” (“Silêncio”) é puro "tintinnabulismo": com elementos que conversam com a primeira parte, traz suaves oscilações triádicas sobre escalas no baixo. No final, os instrumentos vão desaparecendo gradualmente à medida que a música penetra nas profundezas. Densa, contristada, absoluta de espírito. Sem pressa em sua fé e expressividade.

Pärt e seu tintinnabuli influenciariam grande parte da música contemporânea, como Björk, Steve Reich, Radiohead, PJ Harvey e Nick Cave, que celebram ainda outras obras marcantes do compositor como "Spiegel im Spiegel" (1978), "Cantus in Memory of Benjamin Britten" (1977), "Collage über BACH" (1964) e "Te Deum" (1993). Diferentemente de outros inventores de técnicas composicionais modernos, como o jazzista norte-americano Anthony Braxton e o modernista lituano Osvaldas Balakauskas, cujos métodos são tão intrincados como exclusivos, Pärt, com seu proveito dramático dos silêncios, os ataques poderosos, o uso estratégico das dissonâncias e a expressão de uma profunda espiritualidade, alcançou o coração das pessoas. Se a música erudita tal qual a humanidade conhece acaba em Pärt, ao menos simboliza um final à altura. Mais do que isso, um final em que, curiosa e simbolicamente, termina onde tudo começou: nos primórdios da humanidade. Numa "tabula rasa".

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O CD "Tabula Rasa", editado pela Deutsche Gramophon em 1999, traz, além deste concerto, "Fraters", composição da mesma fase e ano que a obra principal, 1977, e a "Sinfonia nº 3", de 1971, considerada uma composição precedente do ainda não criado método composicional pärtiano. Já a versão da ECM, que detém os direitos da obra do compositor estoniano, editada em 1984, reúne duas versões de "Fraters": uma com a luxuosa execução de Gidon Kremer, ao violino, e Keith Jarrett, ao piano, e outra com arranjo da Orquestra de 12 Celistas da Filarmônica de Berlim. Inclui também "Cantus In Memory of Benjamin Britten" (Orquestra Staatsorchester de Stuttgart) e, claro, a própria "Tabula Rasa", que ganha execução da Lithuanian Chamber Orchestra, sob regência de Saulus Sondeckis, piano preparado pelo pianista e compositor russo Alfred Schnittke e violinos de Gidon Kremer e Tatjana Grindenko.

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FAIXAS:
Ed. Deutcsche Gramophon:
1. "Fratres" - For Violin, String Orchestra And Percussion (Roger Carlsson, Gil Shaham, Göteborgs Symfoniker, Neeme Järvi) - 09:43
a. "Ludus: Con moto" - 09:50
b. "Silentium: Senza moto" - 13:17
3. "Symphony No.3" (Göteborgs Symfoniker, Neeme Järvi)
a. "Attacca" - 06:59
b. "Più mosso Attacca" - 09:09
c. "Alla breve" - 09:09

Ed. ECM:
1. "Fratres" (Piano – Keith Jarrett/ Violin – Gidon Kremer) - 11:24
2. "Cantus In Memory Of Benjamin Britten" (Conductor – Dennis Russell Davies/ Orchestra – Staatsorchester Stuttgart) - 5:00
3. "Fratres" (The 12 Cellists Of The Berlin Philharmonic Orchestra) - 11:49
4. "Tabula Rasa" (Conductor – Saulus Sondeckis/ Orchestra – Lithuanian Chamber Orchestra/ 
Piano Prepared – Alfred Schnittke/ Violin – Gidon Kremer, Tatjana Grindenko) - 26:26

OUÇA:

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Daniel Rodrigues