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terça-feira, 19 de agosto de 2014

ARQUIVO DE VIAGEM - Museu Oscar Niemeyer (MON) - Curitiba / PR



A impactante visão do "olho"
espelhado do MON


Mais do que qualquer exposição ou parque (e olha que lá têm muitos), certamente o que mais me impactou em Curitiba foi o Museu Oscar Niemeyer, o MON. É fantástica a emoção que se tem ao chegar pela estreita Rua Marechal Hermes, no bairro Centro Cívico, e, ao desvencilhar o olhar das árvores do entorno, dar de frente com aquele impressionante olho suspenso e espelhado. Tal como foi quando estivemos Leocádia e eu no MAC, de Niterói, no Rio, ao ver aquela nave-flor totalmente integrada com a natureza e a topografia.

Rampa de entrada para o
prédio principal com a torre
e o lago artificial
Nesta obra, a arquitetura de Niemeyer, embora num ambiente menos privilegiado naturalmente do que o de Niterói, traz novamente esta sensação impactante e de fusão com o que lhe cerca. O MON une duas épocas de sua carreira e da Arquitetura como um todo. Isso porque o projeto original foi composto pelo arquiteto em 1967 para as instalações do Instituto de Educação. Esta primeira obra comportava já o prédio em linhas retas que fica ao fundo, o qual dá de costas para o Parque Polonês, uma área verde de convívio ligada à outra de mata fechada. Pois em 2002, Niemeyer, já em sua fase mais madura, foi chamado para reelaborar o projeto, onde seria construído, enfim, o museu que leva seu nome.

Em primeiro plano,
a escultura em aço, La Luna,
de Niemeyer
Escultura em bronze do
modernista Bruno Giorgi
Foi quando se ergueu o chamado “olho”, que, na verdade, foi inspirado no formato de uma pinha de araucária, árvore característica da região e daqui do Sul. Sobre um lago artificial, o olho – cujo traço da borda em concreto armado branco é de uma beleza infindável – é sustentado por uma “sutil” base retangular, a “Torre”, em cor amarelo-canário, onde se estampam a traço preto desenhos do mestre que dialogam com outros feitos por ele em Niterói para o Caminho Niemeyer, obra também pertencente à sua última fase. Digo “sutil”, pois, como é natural em Niemeyer, as dimensões gigantescas se aliam à precisão das proporções dentro do todo, fazendo com que se percebam claramente os volumes, distinguindo o que é menor e o que é maior. O que não quer dizer que o “menor” seja necessariamente pequeno. Pelo contrário: ao todo, são 35 mil metros quadrados de área construída. Somente dentro da base amarela, vimos depois, há três andares de espaço expositivo mais o do próprio olho anexo. Isso, rodeado de rampas curvas que, além da função de acesso e mobilidade, emprestam movimento ao desenho.

Espaço Niemeyer traz maquetes, fotos e vídeos
dos principais projetos do arquiteto pelo mundo
Ao fundo, então, o prédio principal, distribuído em três pisos. Reto, amplo, moderníssimo. À Bauhaus. A estrutura do prédio é de concreto protendido, que permite vencer os grandes vãos da edificação com um enorme arrojo estrutural. Nele, estão nove salas de exposição, a maioria do museu. Além das mostras temporárias, há duas permanentes que cabem muito bem serem destacadas. A primeira fica na área externa do subsolo, que é o Pátio das Esculturas. Ali é possível perambular entre obras de Tomie Ohtake, Xico Stockinger, Erbo Stenzel, Amélia Toledo, Bruno Giorgi e até do Niemeyer.

Leocádia percorre o tunel a la "Solaris"
que liga o prédio principal
à "torre do olho"
A outra exposição permanente digna de realce refere-se ao próprio Oscar Niemeyer, num espaço reservado à sua obra, com projetos, fotos e maquetes do arquiteto de vários países do mundo, como os clássicos Cassino da Pampulha, o MAC, o Ibirapuera, as obras de Brasília, o Centro Cultural Le Havre (Paris), entre outros. Interessantíssimo, embora a proposta seja generalista, visto que não apresenta projetos dele menos famosos mas tão legais quanto, como a sede do Partido Comunista da França, em Paris, ou o Palazzo Mondadori, em Milão, Itália. Mas pra arrematar o desbunde, saindo dali, um lindo corredor em concreto que liga o prédio principal à torre, o qual passa por debaixo do lago artificial da entrada. Desenhada em curvas, dá a sensação de se estar percorrendo os corredores da nave espacial do "Solaris", do Tarkovski – só para se ter uma ideia do barato que dá.

Nós entre as esculturas
Enfim, para nós que, aonde vamos, procuramos sempre conhecer algo do Niemeyer que tenha no local, foi uma visita mais uma vez deslumbrante. Um museu organizadíssimo que, mesmo que não se veja nenhuma exposição, por si só, vale como passeio.

Para quem quer saber mais sobre o MON: www.museuoscarniemeyer.org.br










vídeo do Espaço Niemeyer - por Leocádia Costa




**********************************

As 'costas do olho', com o desenho
da Ártemis dançarina de Niemeyer
Museu Oscar Niemeyer
Endereço: Rua Marechal Hermes 999, Centro Cívico – Curitiba/PR
Visitação: Terça a domingo (10h às 18h)
Entrada: R$6,00








texto:
vídeo:

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cinema Marginal #6 - "Copacabana Mon Amour", de Rogério Sganzerla (1970)



Vamos lá, isso mesmo, mais uma vez Sganzerla e mais uma vez uma grande obra. Atenção, família tradicional brasileira, tome muito cuidado ao assistir a "Copacabana Mon Amour".
Sônia Silk (Helena Ignez) circula por Copacabana, no Rio de Janeiro, com o grande sonho de ser cantora da Rádio Nacional. Silk é irmã de Vidimar, empregado apaixonado pelo patrão, o Dr. Grilo.
Se chegamos desavisados, o filme é  uma grande bagunça, uma história difícil de entender, muitos gritos, mas muitos mesmo, na verdade a obra e praticamente toda gritada. Agora já temos cores, a qualidade da imagem melhora bastante em relação a alguns filmes anteriores de Sganzerla mas o som continua sendo um problema. Devido ao fato de muitas cenas terem sido filmadas na rua e os microfones da produção não serem grande coisa, nem a técnica de som da época era tão avançada, o diretor mais uma vez escolhe dublar todas as falas do longa e elas dessincronizam em todo o filme (falas dubladas pelos próprios atores).
O estranho relacionamento entre os dois irmãos.
Os diálogos das obras desse diretor são sempre um destaque assim como a maneira que ele pega coisas totalmente deixadas de lado ou muitas vezes vistas com olhar preconceituoso e coloca como grande destaque dos seus filmes. Helena Ignez, sempre muito sensual, (Nossa, essa mulher era a sensualidade em pessoa!), tem atuação hipnotizante. Logo na primeira cena temos uma narração em off relatando quem são os “deuses”, divindades, orixás, da cultura do candomblé, e a partir daí o candomblé segue fazendo parte do enredo até o final do filme. Temos até uma cena onde um dos personagens está fazendo um “trabalho”, temos cenas de “possessão”, e batuques de tambor também são bem frequentes. A trilha sonora foi composta por Gilberto Gil e tem um destaque bastante grande dentro do filme entrando sempre em momentos oportunos, isso sem falar na sua incrível originalidade, conseguindo ser uma daquelas obras que une com perfeição a tropicália e o cinema.
As cenas deste filme são de uma força, de um impacto fortíssimo. Como disse ele é gritado, mas é GRITADO em todos os sentidos: as cenas de violência física são constantes por parte do patrão com seu empregado, mas as falas, sempre duras, chegam muitas vezes a serem mais fortes que agressões fisicas. Uma dominação completa. As cenas de sexo também têm sua selvageria e misturam-se com o candomblé, numa combinação que Rogério Sganzerla faz como ninguém.
Mais um achado do cinema nacional, "Copacabana, Mon Amour" pode parecer confuso, pode parecer meramente provocador, e pra falar a verdade realmente é, mas também é um pouco mais que isso: pega a cultura que foi jogada lá em baixo, crenças que foram jogadas lá em baixo e pessoas que são jogadas completamente à margem, e as colocas no ponto alto, as valorizando e humanizando. Parabéns, Mister Sganzerla.
Um pouco do muito de candomblé que o filme tem.




segunda-feira, 13 de março de 2017

ARQUIVO DE VIAGEM – Caminho Niemeyer - Niterói/RJ – 04/01/2017




“Não foi difícil projetar para Niterói, porque esta é uma cidade de orla tão bela que possibilita a criação a céu aberto, como um itinerário cultural e religioso.” 
Oscar Niemeyer

Já havia ido duas vezes a Niterói por conta, obviamente, do Museu de Arte Contemporânea, o MAC, aquele monumento que a cidade carioca abriga. Entretanto, sempre tivemos curiosidade de conhecer também o Caminho Niemeyer, altamente recomendado por concentrar o segundo maior conjunto arquitetônico assinado por esse genial brasileiro depois de Brasília, e também por estes serem alguns de seus últimos projetos construídos. Aliás, Oscar Niemeyer nos é um dos fatores turísticos mais instigantes sempre que viajamos, e isso em várias partes do mundo. Embora conheçamos pessoalmente apenas algumas delas e apenas brasileiras, todo local que conte com construções suas, seja São Paulo, Belo Horizonte, Tel Aviv, Paris, Milão ou Nova York, são, se não pelo óbvio, destinos turísticos interessantes também por conterem obras do arquiteto em suas paisagens.

Pois é a paisagem litorânea de Niterói, beirada à Baía de Guanabara e a qual se contempla a cidade do Rio de Janeiro ao fundo, que faz cenário para o Caminho Niemeyer, que finalmente visitamos Leocádia, Carolina e Iara em nossa estada no Rio em dezembro. Ao todo, ali na Praça Popular de Niterói, são 3 prédios – sem contar com o administrativo, simples mas bonito: a Fundação Oscar Niemeyer, o Memorial Roberto Silveira e o Teatro Popular de Niterói. Mas ao longo da orla da cidade há também outros edifícios espalhados: o Terminal de Barcas de Charitas, o Centro Petrobras de Cinema e a Praça JK. Da catedral da cidade, que deve ser erguida, vimos o lindo projeto: um alto prédio que remete a um galero religioso.

O exuberante teatro com formar que
lembram o corpo feminino
Embora não tenhamos conseguido entrar em nenhum deles, visto que fomos num horário da manhã que não havia nenhum funcionamento, admirar os prédios e integrar-se com eles já vale a visita à Praça. O Teatro Popular é um desbunde. Com traços artísticos que lembram o curvilíneo corpo feminino, dialoga com outras de suas últimas obras, como o Museu Oscar Niemeyer (MON), de Curitiba. É o prédio que mais interage com a natureza da Baía entre todos dali, até pela proximidade com o mar. Isso se percebe tanto no foyer inferior, com pilotis espaçados que lhe conferem profundidade e amplitude, quanto no andar de cima, entre o mural com a marcha do MST e a entrada para o teatro. O desenho da bailarina, o mesmo do MON, está lá em impressão feita sobre os ladrilhos. Por falar no traço de Niemeyer, o espetacular mural, propositadamente incompleto, traz a ideia das transformações sociais ainda em curso em que o povo virá a protagonizar na ideia sonhadora do comunista Niemeyer. O Teatro traz ainda os vidros escuros que abrem “olhos” na arquitetura, mesmo material usado nos outros prédios, dando unidade ao complexo.

O Memorial Roberto Silveira lembra bastante a Oca do Ibirapuera, em São Paulo, e o Museu Nacional da República Honestino Guimarães, de Brasília, mas num formato menor, como uma pequena nave espacial branca ali assentada. Já o da Fundação Oscar Niemeyer – cujo conteúdo original fora transferido para a sede da mesma em Brasília, estando atualmente funcionando uma sessão administrativa da prefeitura de Niterói – foi possível subir a rampa curva e admirar o olho d'água logo abaixo, que dialoga com a Baía de Guanabara  (assim como, mais adiante mas dentro do mesmo complexo de obras, o MAC o faz novamente, porém espelhando do alto do morro a água do mar).

Não deu pra tirar mais fotos, que o sol começou a ficar castigante a certa altura, mas esses registros aqui dão noção do quão deslumbrante é.

Espaço amplo do foyer com vista para a cidade do Rio

Leocádia integrando-se à arquitetura do Teatro do Povo

Eu em frente ao belíssimo painel desenhado por Niemeyer em homenagem à luta no campo

Caminhando em direção à Oca

Na entrada do Memorial Roberto Silveira 

Mais um detalhe do fabuloso Teatro, as bailarinas, as mesmas vistas no MON, em Curitiba

Na rampa de acesso ao prédio da Fundação Niemeyer


texto: Daniel Rodrigues
fotos: Leocádia Costa, Carolina Costa e Daniel Rodrigues

segunda-feira, 30 de março de 2015

cotidianas #360 - Na Massa



"Na Massa"
foto: Leocádia Costa
Vai de mon amour
Blusa de abajur
Óculos escuro
Apaziguando o sol
No domingo
A caminho da praça

Óculos Ray-Ban
Raio de tupã
No pulso pulseira
No corpo collant
Mostra a pele
Pelo rasgo da calça

Pode ser
De farda ou fralda
Arrastando
O véu da cauda
Joia de bijuteria
Lantejoula e purpurina
Manto de garrafa pet
Tatuagem de chiclete
De coroa ou de cocar
Pode se misturar

Na massa
Na massa
Na massa
Some na massa

Sai de chafariz
Bico de verniz
Saia de safári
Sorriso de miss
Camiseta
De Che Guevara

Plástico metal
Árvore de natal
De biquíni, xale
Bata ou avental
E uma pinta
Pintada na cara

Pode vir
De esporte ou gala
De uniforme
Com medalha
Braço cheio de pacote
Nada debaixo do short
Derramando seu decote
Gargantilha no cangote
Segue a moda de ninguém
Usa o que lhe convém

Vai de my cherri
Vai de mon amour
Vai de bem-me-quer
Vai do que vier

Na massa
Na massa
Na massa
Some na massa

Anda de abadá
Dança o bragadá
Turbante importado
Lá de Bagdá
Fantasia
De anjo sem asa

Sola de pneu
Todo mundo é eu
Roupa de princesa
Em pele de plebeu
No passeio
De volta pra casa

Passa de cabelo moicano
Ou com lenço de cigano
México chapéu cabana
Capacete de bacana
De sarongue ou de batina
Tanga de miçanga fina
Moda tem a sua só
Passo de carimbó

Na massa
Na massa
Some na massa

Usa pele da roupa
Da pele da roupa da pele
Usa a roupa da pele
Da roupa da pele
Da roupa

Na massa
Na massa
(Boca sino e mocassim)
Tá massa

Some na massa

***********
"Na Massa"
(Arnaldo Antunes/ Davi Moraes)

terça-feira, 6 de agosto de 2024

10 músicas francesas de autores não-franceses


Eles não são franceses, mas manjam dos “mon amour”. A sonoridade do idioma francês enseja à musicalidade. E que músico que não gostaria de cantar uma canção em francês? Há os que se aventuraram com muito sucesso, a se ver por Cássia Eller com "Non, je ne regrette rien", Grace Jones com “Libertango” ou Caetano Veloso em "Dans mon Ile". 

No entanto, cantar em francês é uma coisa. Agora, compor não sendo da terra de Piaf é, aí sim, tarefa para poucos. 

Poucos e bons, é possível dizer. Em época de Olimpíadas de Paris, fizemos aqui uma pequena lista de músicos não-franceses e suas composições, originais, na língua de Hugo. E é cada preciosidade, que Aznavour diria, com toda a certeza: “Oh là là”!, elogio que até quem não é da França compreende.

Semelhante ao que fizemos há 3 anos quando das Olimpíadas de Tóquio, pinçamos só coisas interessantes, desde roqueiros a jazzistas, de músicos populares a eletrônicos. Só coisa boa, só "crème de la crème". Confiram aí!

PS: Pensaram que a gente ia puxar a Gretchen cantando "Melô Do Piripipi", hein!?




“La Renaissance Africaine” – Gilberto Gil
Certa vez, nos anos 90, assistia na TV5, canal de televisão estatal francês, a uma entrevista do craque Raí, cidadão francês e ídolo por lá. Até que, de repente, quem o apresentador chama para entrar no estúdio? Gilberto Gil. Com um francês em dia, o mestre teria uma lista só sua de composições francófonas. Uma delas, destacamos aqui, talvez a mais bela de todas, originalmente de 2008 e gravada de maneira gigante em "Concerto De Cordas & Máquinas De Ritmo". Numa Olimpíadas em que grande parte dos atletas da casa são descendentes diretos de africanos, esta música se torna cada vez mais pertinente e poética.




“Dis-mois Comment” – Chico Buarque
O cara tem casa em Paris, onde, aliás, passou o seu recente aniversário de 80 anos. É outro da MPB que domina o francês talvez tanto quanto o português pelo qual é multipremiado como escritor. Tanto que é capaz de escrever canções como “Joana Francesa”, feita para a voz de Jeanne Moreau para o filme homônimo de 1973 na qual brinca com a sonoridade de um idioma e outro. Mas esta aqui, em especial, é integralmente em francês. Trata-se de ser uma das 14 joias da parceria Chico Buarque e Tom Jobim, que nada mais é do que "Eu te Amo", que o autor gravou com a cantora Cecília Leite em 2005.





“Le Petit Chevalier” – Nico
Nico iniciou a carreira musical muito bem amparada por nomes como Bob Dylan, Jackson Browne, Lou Reed e John Cale. Porém, embora o inquestionável talento dessa turma, ela ficava sempre muito dependente e, pior, subjugada a homens e relegada apenas a uma intérprete. Foi então que, em 1971, ela mesma compôs faixa a faixa aquele que é seu melhor álbum: “Desertshore”, no qual consta esta bela canção de ninar cantada em francês pela voz do pequeno francesinho Ari Boulogne, filho da musicista e modelo com o ator Alain Delon, à época com 9 anos. Uma preciosidade, ou melhor, "un bijou".






“Orléans” – David Crosby
Neil Young é amado pelos fãs de rock, mas da turma do folk rock da Costa Oeste David Crosby talvez seja o mais lendário deles. Após encabeçar projetos célebres como a The Byrds, a Crosby, Stills, Nash & Young, ele lança, em 1971, seu primeiro disco solo. Afiado melodista assim como seus parceiros de estrada, ele traz no seu maravilhoso “If I Could Only Remember My Name”  a linda “Orléans”. Tá certo: trata-se de um tema tradicional do folclore norte-americano, mas a roupagem dada pelo arranjo de Crosby justifica o crédito.





“Aéro Dynamik” – Kraftwerk
Por meio e através das máquinas, eles criaram sons universais. Nada mais natural, então, de criarem músicas não apenas no alemão, seu idioma original, mas em outros diversos como inglês, espanhol, português e até japonês. Para a língua da França, no entanto, a Kraftwerk guardou um trabalho especialmente dedicado, que é o belíssimo disco “Tour de France Soundtracks”, de 2003. Todas as músicas não instrumentais receberam letra em francês, como esta, que fala sobre um dos elementos essenciais para o ciclismo e outros esportes de velocidade: a aerodinâmica.





“La Pli Tombé” – Marku Ribas
Marku Ribas é daqueles craques da música brasileira que o Brasil não conhece. Talvez até por isso, ele seja mais bem entendido por quem fala francês. Tendo morado em Paris no final dos anos 60 (atuou neste período em filmes de Robert Bresson e Jean-Marc Tibeau, no qual interpreta o líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes, inclusive), este mineiro incontrolável foi parar na Martinica, onde oficialmente fala-se francês, mas não-oficialmente o crioulo. Numa mistura dessas duas fontes, Marku escreveu algumas de suas canções, como esta, baseada em um folclore tradicional martinicano, que grava em seu excepcional disco “Marku”, de 1976.





“Bonjour, Monsieur Gendarme” – Chico César
Outro talentoso músico brasileiro também se aventurou pelo bom “français”. Chico César, em seu álbum “Vestido de Amor”, de 2022, gravado em Paris e que tem, além da produção do franco-belga Jean Lamoot, toques de músicos africanos, brasileiros e franceses. Primeira composição feita por Chico em francês, foi uma das iscas para atrair os ouvintes de lá para a edição estendida do álbum. Espertinho esse Chico César.





Valse Au Beurre Blanc” – Ed Motta
O ouvido de Ed Motta capta e absorve tudo que é som do mundo. Da tão admirável Paris, não seria diferente. No seu “Dwitza”, de 2009, considerado por muitos seu melhor trabalho, ele manda ver nesta genial “chanson” – e com uma pronúncia daquelas de quem sabe o que está cantando. Mais do que isso: convida para os vocais um coro de barítono e sopranos e ao estilo Bel Canto elegantérrimo. Ah, detalhe: é ele, Ed, quem toca todos os instrumentos. “Va te faire foutre!”, é só o que posso dizer.





Le Mali Chez la Carte Invisible” – Tiganá Santana
O primeiro álbum do compositor, cantor e instrumentista baiano Tiganá Santana, "Maçalê", lançado em 2010, é nada mais, nada menos, do que o primeiro álbum na história fonográfica do Brasil em que um autor apresenta canções próprias em línguas africanas. São línguas do tronco linguístico bantu, mas onde também entra bela canção em francês inspirada em reconstruções idiomáticas de várias pessoas que habitam o solo do continente africano.




Purquá Mecê” – Os Mulheres Negras
A música saiu na gozação com o idioma francês, daquelas típicas da dupla Maurício Pereira e André Abujamra, principalmente, que faria várias dessas na sua banda Karnak anos depois com o russo, o espanhol, o esperanto e por aí vai. Além de ser um barato, a letra, que não diz coisa com coisa, explora a sonoridade do francês e tenta (sim, tenta) traduzir para o português. Clássico d'Os Mulheres Negras.




Daniel Rodrigues

segunda-feira, 16 de março de 2015

A Menina da Casa Azul








Consegui sair bem – Prometi não voltar atrás e cumpri a promessa. (...) Graças ao povo soviético, ao povo chinês, tcheco-eslovaco e polônes e ao povo do México, sobretudo ao de Coyoacán onde nasceu minha primeira célula, concebida em Oaxaca, no ventre de minha mãe, que havia nascido lá era casada com Guillermo Kahlo – minha mãe Matilde Calderón, morena esbelta de Oaxaca.”
(Frida Kahlo, 1957)
Minha infância foi maravilhosa. Ainda que meu pai estivesse enfermo (sofria vertigens cada mês e meio), para mim constituía um exemplo imenso de ternura e trabalho (como fotógrafo e pintor) e, sobre tudo, de compreensão para todos os meus problemas.”
(Herrera, 1984)
Pés, para que te quero, se tenho asas para voar?”
(Frida Kahlo, 1953)



Frida Kahlo nunca deixou de ser a menina da Casa Azul. Filha de pais de origens étnicas diferentes: Guillermo, judeu-alemão, e Matilde, uma mestiça mexicana indígena. Frida viveu 47 anos sendo a criança modelo das fotos de seu pai. Teve uma vida de constante sofrimento corporal que a levou a crises emocionais também constantes, mas quem de nós não possui seus traumas e suas feridas? Em Frida estas vivências estiveram sempre presentes. Mas a existência de algumas pessoas passa encoberta pela grosseira vestimenta corporal humana, que morre junto com elas. Em outras, o corpo dilacera-se para mostrar o quanto forte e bela é a alma. Este é o caso de Frida.
Francisco Haghenbeck, Rosa Montero, Frederico Morais, eu e a torcida “pop” do mundo são admiradores de Frida Kahlo. Já perceberam quanto o pop tende a endeusar pessoas que aparentemente tiveram vidas “desajustadas”, “fora de padrão”, “incômodas” a quem se diz normal? Esta mulher, ainda hoje, 61 anos após seu desencarne, é comentada sob o viés humano do “coitadismo” e da maledicência, mas poucos se atentam que ela deixou uma obra que poucos de nós ousaríamos produzir se estivéssemos assim, em estado de “desintegração”, como ela se definia. Frida era uma legítima personalidade azul-índigo que não à toa, vazou os limites corporais e fixou-se nas paredes da Casa Azul, em Coyoacán, onde até hoje está parte da sua produção, parte das suas vivências íntimas e histórias imaginárias, transmitidas no meio das Artes por pessoas que nela se inspiram.
Admiro Frida desde que vi sua primeira obra e isso me basta, me inunda e me intriga. Sempre gostei do seu “estilo artístico”, talvez porque o Surrealismo sempre tenha sido uma escola que falasse o meu idioma mais interno. Sonho, distância e inconscientes, todos ali pulsando. O feminino sempre em evidência de maneira exposta, sem meandros e firulas. Sentindo tudo o que se passa e aquilo que perpassa o invisível, o mais íntimo.
Diferente da maioria das pessoas que fala sobre Frida só fui saber dos detalhes biográficos de sua vida anos após de ver a primeira reprodução de seus quadros. A mistura entre a biografia de artistas referenciais, a vida e a sua produção artística me deixam incomodada assim num primeiro momento. É claro que saber do contexto em que um artista viveu e quais foram suas trilhas humanas pode interessar, mas só em parte. A análise superficial e o grau de preciosismo é muito abaixo do que se tem sobre sua Arte se comparar com o demasiado excesso de comentários sobre sua vida, suas doenças. Com isso eu não compactuo, porque simplesmente não faz diferença para mim sua opção sexual, suas relações amorosas, sua escolha política ou quantas cirurgias e abortos passaram. A Arte vai além das humanidades: é algo oriundo d’alma de quem se coloca como um intermediário, um leitor atento de si e do meio em que está em prol dos outros. Interessa-me a Arte mais puramente genuína, os seus guardados, como por exemplo: a descoberta de um “diário”, a ideia da perda literária de um imaginário “livro de receitas” ou a grande concha-azul: a casa de Coyoacán.
Por isso, quando escuto algo sobre ela sempre me vem perguntas: “Quais os temas que Frida pintou que de forma surreal não percebemos num primeiro contato?” “Quais mensagens ela quis registrar com essas pinturas?” “É acaso a pintora reproduzir seus retratos incessantemente?” “Quais vestígios ela quis nos deixar com seus quadros e códigos do inconsciente?” “Quem de fato se aventura a mergulhar aí, neste universo particular da pintora?” Porque, convenhamos, discorrer sobre criticas padrão no mundo das Artes é algo que não cabe na escola surrealista.


Quem diria que as manchas vivem e ajudam a viver?
Tinta, sangue, cheiro. Não sei que tinta usar, qual delas gostaria de deixar desse modo o seu vestígio.”
(Frida Kahlo)




Ela costumava dizer: “Pinto a mim mesma porque estou frequentemente sozinha e porque sou o tema que melhor conheço”. Mas se formos mergulhar em sua história, a pintura é uma continuidade do gesto de seu pai fotografando-a. Ele, sua maior referência, era fotógrafo e retratista. Como filha, ela se transformou, assim, para sempre, em pintora de seus próprios retratos. A retratada reproduzindo incessantemente sua face, sua persona criada como primeiro plano de seu universo inconsciente.
Visitando a exposição “Frida Kahlo – As suas fotografias”, apresentada ano passado no Brasil somente no Museu Oscar Niemeyer/MON, em Curitiba, com curadoria do mexicano Pablo Ortiz Monasterio pude refletir sobre a forma como se fala e se transmite a história e a Arte de um artista após a sua ausência física.
Frida transitou sempre entre dois mundos: o real e o imaginário. Muito do que ela pintou está neste intervalo entre o que vemos registrado historicamente e o que é sentido como um bem individual da artista. As pistas de Frida são inúmeras e simbólicas. Canceriana literal, porque vivenciou uma relação direta com a imagem seja ela em movimento ou fixa, de natureza totalmente passional, Frida guardou as imagens de sua vida, acumulando cerca de 6.500 fotografias. Dessas, somente 241 foram selecionadas para o MON.


Por isso a morte é tão magnifica. Porque não existe, porque só morre aquele que não viveu”.
(Frida Kahlo)






A exposição tinha uma particularidade: não podia ser fotografada. Então o que guardo após a visita são as bagagens e as correlações que posso buscar dentro da minha alma feminina, como admiradora de Frida.
Chamou-me atenção para onde os olhares de Frida convergiam. A família, os amigos, os amores, a morte, a política e os animais. Vejam: somente temas comuns a todos nós, seres humanos daquele e desse século.
Muitas imagens eram do acervo familiar de seu pai, Guillermo. Frida e ele têm entre si essa sutil e intensa ligação. Um fotografou com a câmera e o outro com o pincel. Outras imagens, estas claramente guardadas e clicadas por Frida, são os seus olhares sobre temas de sua vida. Num jogo de esconde-esconde, por entre os meandros do pátio da Casa Azul e o que há lá fora. Vemos fotografias recortadas sem uma forma definida ou repetida. Recortadas sem uma edição consciente propositada, mas com foco, seja ocultando rostos, parte da cena e, muitas vezes, inviabilizando a percepção do que estava acontecendo ou quem eram as pessoas naquele momento do registro.
Voltando aos seus quadros, alguns nos deixam no limiar do intraduzível, do não dito, do não visualizado. Na vida e na Arte Frida mostrava-se em primeiro plano e escondia o que não interessava ou estava mais oculto, em plano de fundo. Cenas, bichos, cores faziam esse plano quase sempre muito detalhado um ocasional cenário para a sua posição central, de retratada. Aí ela assumia a figura do pai e o seu próprio ofício de forma sintetizada e interligada. Não esqueçamos que para os cancerianos, a família é sempre muito referencial, às vezes quase assume um papel simbiótico e interminável em suas vidas. Como se a criança estivesse sempre naquele momento onde tudo era melhor, era confortável e prazeroso. Como se o tempo tivesse congelado as emoções e nada após esse tempo pudesse dar certo, ser mais importante ou significativo.
Volto a dizer, porque ela destinou parte de sua produção aos retratos? Talvez para resgatar um pouco daquela vida normal até os cinco anos de idade quando a fotografia e o retrato a deixavam bela e em destaque na vida familiar. Quem sabe?
Frida foi dona de uma “mexicanidade” como exalta Frederico Morais (em seu texto “Frida Kahlo: Tudo é autorretrato”) uma mulher fruto desse misto entre culturas (a europeia e a pré-colombiana). Sempre exuberante em sua apresentação através dos vestidos, penteados, pratarias e referenciais estéticos tehuanas, claro, mas a história dessa obra diz muito mais e é comentada pela própria artista.

''Origem das duas Fridas. Lembranças. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (...) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas (...) Sozinha com a minha grande felicidade e a nítida lembrança da menina. Passaram-se 34 anos desde que vivi aquela amizade mágica e cada vez que a recordo mais ela se aviva e mais cresce dentro do meu mundo.”
(Pinzón, 1950, As Duas Fridas)


Frida foi uma mulher concha. Carregou consigo suas vivências e transpôs cada uma delas a seu jeito para as suas telas. Não foram muitas, dizem alguns - cerca de 200 pinturas, mas todas guardam uma força e uma vida incrível. Frida ao contrário do que muitos pensam nunca negou a morte, mas conviveu com a sua presença constantemente. Nos mostra em sua Arte que ela é muito real, mas que a sua alma é livre. Quem de nós em situação tão adversa produzira tanto? Quem de nós?
Deixemos de lado um pouco a vida dos artistas, isso não interessa tanto. Deixemos que a Arte venha com a força transformadora que o feminino possui. Vamos buscar o que de fato interessa na Arte. Este é o caminho, senão ficaríamos todos vivos e a Arte morreria. E sabemos que aquilo que acontece é bem o contrário: as pessoas passam, mas suas Artes boas ou más ficam através dos tempos. Cabe a nós selecionar as mensagens, desvendar os códigos, ir mais fundo e voltar nutridos dessa vivência. Uma forma de sermos muitos através do aprendizado dos outros que vivenciaram fatos que talvez nunca saibamos como são. Pistas certeiras do quanto se pode voar alto, quando estamos libertos, de asas abertas para sentir a vida do jeito que ela é.


(Frida Kahlo: 06 de julho de 1907/ 13 de julho de 1954 - Coyoacán/México)