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1,87%. Número que se torna um mantra para as próximas semanas. Mas vamos nos ater, pelo menos hoje, a outro número: o das 480 edições do MDC. Para marcar essa data, teremos convidados do calibre de Paulinho da Viola, Steve Reich, Silas de Oliveira, BaianaSystem, Suzanne Vega e mais. Rumo ao infinito, o programa especial entra no segundo turno às 21h na decisiva Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mangas arregaçadas: Daniel Rodrigues
Com a nobreza que reveste algumas figuras míticas dos subúrbios do Rio, Hermínio Bello de Carvalho desenha o perfil de Aracy de Almeida em "Araca – Arquiduquesa do Encantado" (Folha Seca). Não espere um retrato convencional, rico em detalhes, linear na estrutura e repleto de informações. Hermínio nem sequer informa direito onde e quando Aracy nasceu. Conclui-se que, se em 1986 ela tinha 72 anos, é sinal que morreu com 74 em 1988, vítima de um derrame.
O que Hermínio oferece em Araca é, sim, um olhar único e peculiar sobre uma das artistas mais originais que o Brasil já teve. Uma visão impressionista de quem aproxima a homenageada do leitor, sem ranço ou reverência, ressaltando as pequenas histórias – como o fato de Aracy não usar calcinhas, preferindo as cuecas samba-canção brancas (com monograma bordado, detalhe importante) – e as tiradas espirituosas que caracterizavam a personagem.
Intérprete de timbre marcante, com voz anasalada e os "erres" arrastados, que deslumbrou Mário de Andrade e Noel Rosa (para citar apenas dois), Aracy surge em Araca como a doidivanas que beira o folclore, mas também como a artista sensível, capaz de apreciar Bach, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e os tangos de Gardel. Até ópera entrava no repertório afetivo-musical de Aracy "Ih, adoro aquele berreiro", costumava dizer entre o jocoso e o respeitoso.
Personagem que foi maior do que a sua obra, Aracy foi existencialista antes do existencialismo e hippie antes de Woodstock. Era uma boêmia que gostava de ficar em casa cozinhando para os amigos, que bebia muito uísque escocês só com gelo e que, apesar de não gostar de crianças, dava festas de Natal inesquecíveis. Não gostava de dar canjas musicais e, quando convocada, respondia rispidamente com uma de suas frases preferidas: "Quem canta de graça é galo". Era irreverente, às vezes até inconveniente, como quando perguntou a Sérgio Cabral, que estava com a namorada: "Tens copulado muito?", ou quando, abordada por uma jovem fã que queria saber como estava passando, saiu-se com essa: "Ah, minha filha, eu ando muito fodida". Para Hermínio, Aracy elevou o palavrão à condição de cantata de Bach.
A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.
Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:
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PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)
The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale* **: 5 álbuns cada
The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"
**contando com o álbum Lou Reed e John Cale, "Songs for Drella"
*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.
PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)
Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
Chico Buarque ++ #: 7 álbuns
Jorge Ben ** e João Gilberto* **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil
**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"
*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"
**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"
***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"
+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"
++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"
# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo"
º contando com o álbum Milton Nascimento e Criolo "Existe Amor"
>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter
PLACAR POR DÉCADA
anos 20: 2
anos 30: 3
anos 40: 1
anos 50: 121
anos 60: 103
anos 70: 171
anos 80: 146
anos 90: 111
anos 2000: 22
anos 2010: 19
anos 2020: 3
*séc. XIX: 2 *séc. XVIII: 1 PLACAR POR ANO
1986: 24 álbuns
1977: 22 álbuns
1972: 21 álbuns
1969 e 1985: 20 álbuns
1976: 19 álbuns
1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
1967 e 1980: 16 álbuns cada
1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
1987: 13 álbuns
PLACAR POR NACIONALIDADE*
Estados Unidos: 224 obras de artistas*
Brasil: 174 obras
Inglaterra: 131 obras
Alemanha: 12 obras
Irlanda: 8 obras
Canadá: 5 obras
Escócia: 4 obras
Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
Austrália, França e Japão: 2 cada
Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada
*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)
A gente tá igualzinho ao Wagner Moura: rindo à toa! E não só por causa do sucesso de O Agente Secreto, mas porque vamos ter o primeiro MDC inédito de 2026! Alegrando nossos ouvidos, The Cure, Paulinho da Viola, Stephen Stills, Manoel Carlos e muito mais. Ainda, pra começar o ano com um sorrisão estampado, um Sete-List no quadro especial. Só alegria, o programa vai ao ar na risonha Rádio Elétrica às 21h. Produção, apresentação e motivos de felicidade: Daniel Rodrigues
No Brasil, são 12.284.478 Marias, 5.164.752 Josés e 34.030.104 Silvas. Mas o que o Censo não revela é a sigla mais falada no Brasil: MDC. Afinal, são 435 no total, trazendo sempre consigo nomes dos mais destacados como Paulinho da Viola, The Cure, Velvet Underground, SZA, João Donato e mais. Nesse ranking também entram outros sete nomes, que vão compor o nosso quadro Sete List da semana. Dando nome aos bois, o programa vai ao ar às 21h na estatística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e outros 770.743 primeiros nomes iguais: Daniel Rodrigues.
Visitar o Rio de Janeiro, o que fazemos geralmente uma vez ao ano, sempre rende bons passeios. Mas desta vez dá pra dizer que os passeios foram menos in do que outdoor. Afinal, foram as feiras de rua que nos mobilizaram bem mais do que as exposições ou atividades e lugares fechados.
Além das feiras do Beco do Pinheiro, no bairro das Laranjeiras, e a da Glória, que se agigantou em tamanho do ano passado para cá, estivemos duas vezes em feirinhas no Museu da República, que abriga o Palácio do Catete, o famigerado e histórico prédio onde Getúlio Vargas tirou a vida nos idos de 1954.
Mas os passeios por lá nada tem a ver com episódios trágicos e remotos. Pelo contrário. Foram agradáveis momentos em que pudemos conferir quiosques de roupas, acessórios, souvenires, bijus, comidinhas, cerveja artesanal, mas principalmente, estar na natureza e ver gente. Famílias, amigos, casais, crianças, idosos, jovens. De tudo, e sempre com muita gente, essa coisa admirável do Rio, que é de as pessoas aproveitarem a rua.
Show gostoso de MPB com Fhernanda Fernandes
Numa dessas duas idas ao Museu da República, Leocádia e eu tivemos a companhia de minha mãe, Iara, e de meu irmão e coeditor desse blog, Cly Reis, quando foi possível conferirmos a feira Brasilidades. Além de tudo isso que já descrevi e do belo paisagismo do enorme pátio deste antigo palácio, tinha ainda música ao vivo. E boa música, diga-se de passagem! Com um repertório de bom gosto, a veterana cantora e violonista Fhernanda Fernandes desfilou clássicos da MPB juntamente com um baterista. Teve de Zeca Pagodinho ("Deixa a Vida me Levar") a Beth Carvalho ("Andança"), de Elis Regina ("Vou Deitar e Rolar") a Isolda ("Outra Vez"), de Paulinho da Viola ("Pecado Capital") a Dona Ivone Lara ("Alguém me Avisou") e maus um monte de boas músicas.
Confiram aí então, um pouco do que registamos desses dois domingos de passeio pelas feiras do Museu da República:
🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴🌴
Feira entre as palmeiras imperiais do Museu da República
Existem talentos especiais que passam pela Terra quase
despercebidos. Embora esse descuido possa ocorrer em qualquer canto do planeta,
não é difícil de se supor que os vícios de alguns lugares favoreçam a que
preciosidades sejam obscurecidas – às vezes, por uma vida inteira. O Brasil,
país jovem e com sérias dificuldades históricas de autoidentificação, é
prodígio quando o assunto é apagar seus próprios iluminados, quanto mais, os da
cultura popular. Com o samba, que sofreu por décadas perseguição, proibição e
preconceito, a demora no reconhecimento de atores fundamentais para a
construção do gênero musical mais original e identitário brasileiro promoveu um
atraso quase irrecuperável. Dona Yvone Lara, Adoniran Barbosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e Nelson Sargento, por exemplo, só lançaram
seus discos de estreia na terceira idade. A vida humilde, a discriminação e a
ralação do dia a dia sempre lhes foi uma realidade inescapável.
Se com esses grandes nomes quase não deu tempo de
aproveitá-los, imagine-se com os sambistas de comunidade, menos midiáticos. É o
caso de Argemiro Patrocínio, também conhecido por Argemiro do Pandeiro, Argemiro
da Portela ou, simplesmente, Seu Argemiro, como era chamado em Madureira e
Oswaldo Cruz, chão dos portelenses. De uma geração à frente de Monarco ou
Candeia, dois referenciais bambas da Escola, Argemiro foi um compositor de mão
cheia, mas que nunca teve espaço suficiente para desaguar suas autorias fora da
quadra da escola. Os mais atentos podem lembrar dele na capa do disco de
estreia de D. Yvone, “Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz”, de 1978, atrás
dela, à direita e junto com outros companheiros de samba, em que aparece meio
de soslaio quase escondido pelo inseparável chapéu. Ou na cena dos partideiros no pátio da casa de Candeia no filme “Partido Alto”, de Leon Hirszman, de 1982. Como se
vê, aparições sempre secundárias: integrado ao grupo, mas dissolvido nele.
Argemiro, contudo, começou cedo sua relação com o samba. Foi
levado, nos anos 50, pelos históricos Paulo da Portela (então diretor) e Betinho (diretor de
bateria) para a Portela, passando a integrar a Ala dos Pandeiros. Pai do Mestre
Sala Jerônimo (da Portela e Imperatriz Leopoldinense), mais tarde entrou na Ala
dos Compositores e também na velha-guarda da Escola, a qual, apadrinhada por
Paulinho da Viola, se tornou uma referência entre as velhas-guardas cariocas a partir dos anos 70.
Homem de pouco estudo, mas de enorme sabedoria e
inteligência, Argemiro trabalhou duro como técnico em refrigeração, profissão
pela qual se aposentou de forma humilde. Isso explica em parte porque só
começou a compor aos 56 anos, no final dos anos 70. Não demorou para que suas
músicas, as mais de 100 que anotava com esmero num caderno, fossem
reconhecidas. Em 1980, a madrinha do samba Beth Carvalho gravou a primeira
composição sua, “A Chuva Cai”, parceria com Casquinha. Entre discos da
Velha Guarda da Portela, participações em trabalhos de Zeca Pagodinho, Teresa
Cristina e Grupo Semente, ganhou reconhecimento como o autor original que é, principalmente, na virada para o século 21. Ou seja: já na velhice. Não somente ele, como
também os companheiros de Velha Guarda Casquinha e Jair do Cavaquinho, que
tiveram, após o lançamento do álbum “Tudo Azul”, da Velha Guarda, em 2000, seus
também primeiros discos gravados todos pelo selo Phonomotor, de Marisa Monte, um em
2001 e outro em 2002. Argemiro, que esperara oito décadas para isso, foi o
terceiro da fila e não desperdiçou a oportunidade de marcar de vez seu
nome na história da discografia do samba.
Poeta romântico e melodista precioso, Argemiro abre o disco com um
soar de cavaquinho e a voz às vezes sôfrega e sibilante, mas naturalmente elegante e carregada de experiência
vocal (e de vida). Ele canta os poéticos versos, que impressionam pela concisão
das poucas palavras: “Não sei/ Porque/ Tudo de mal/ Acontece comigo/ Tentei/ Mudar/
Em vão/ Mas não consigo”. E arremata: “Ninguém pode fugir do seu destino/ Esse
meu sofrimento é desde os tempos de menino”. Argemiro dá o tom da sua poética,
calcada na tradição do samba de terreiro: o amor não correspondido, o
sofrimento do coração partido, a mulher que abandona. Emendada, “Tudo Mudou Tão de Repente", uma das parcerias com outro célebre portelense, Chico
Santana, segue na mesma linha: “Eu não sei se é meu destino/ Desde os tempos de
menino/ Vivo sofrendo assim”. A sina do sambista, este eterno sofredor.
O violão de Paulão 7 Cordas, o cavaquinho de Mauro Diniz
(filho de Monarco) e a “cozinha” de Felipe D’Angola e Marcelo Moreira dão a
Argemiro o espaço necessário para ele entrar com seu pandeiro e sua voz. A
magnífica “Solidão”, de tão classuda, ganha o toque do violoncelo de Jacques Morelenbaum. E olha que poética! “Um fantasma que mata/ E que maltrata o
coração/ É dor, angústia e sofrimento O tédio é um eterno tormento/ Assim é a
solidão”. Sua clássica "A Chuva Cai”, já ouvida na voz de Beth Carvalho,
Renata Arruda, Grupo Explosão do Samba, Régis Clemente e outros, tem agora,
enfim, a do seu próprio autor. A história da música no Brasil devia isso ao
samba.
Marisa Monte, produtora do disco, sabia dessa importância
histórica e dá ao conteúdo musical e até antropológico o devido capricho.
Marisa, por sinal, vinha de alguns anos encabeçando o projeto de valorização da
Velha Guarda da Portela. Primeiro, com o disco “Tudo Azul”, também produzido
por ela. Mais tarde, os de Casquinha, Jair do Cavaquinho e este, além do belo
documentário “O Mistério do Samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina
Jabor, de 2008, que a tem como cicerone. É neste filme, aliás, que
Argemiro ganha seu primeiro protagonismo em vida, tratado como um dos
personagens centrais da Portela. Constantes no filme, "Deslize Da
Vida" (“A vida/ Não é somente doçura/ Tem que haver amargura/ Para se dar
o valor”) e a maravilhosa "A Saudade me Traz", com direito a "clipe",
tem a ilustre participação de Zeca Pagodinho e das vozes femininas da Velha
Guarda, as Pastoras – leia-se Tia Doca, Tia Eunice, Tia Surica e Áurea Maria. Uma
das melodias mais bonitas da história do samba carioca e com uma letra, que é
um show de domínio de prosódia e sintaxe: “A saudade me traz/ Quero rever
alguém/ Que do meu coração não sai/ Eu vivo nessa agonia sem fim/ Eu canto, eu
bebo para esquecer/ Mas nem assim”. Luxo só.
trecho do filme "O Mistério do Samba" com o "clipe" "A Saudade me Traz"
Capricho também se vê no arranjo especial dado a cada faixa.
"Cadê Rosalina", um samba-de-roda com ares rurais, recebe, além das
vozes tão afinadas quanto agudas das Pastoras, o
acordeom de Waldonys. Trato semelhante em conceito tem “Vem Amor”, samba cadenciado
em que o violino de Nicolas Krassik escreve frases líricas sobre a base de
tamborim e o limpo cavaquinho de Mauro Diniz; bem como o samba romântico
"Dizem Que o Amor", toda na voz delicada de Marisa e cujo
arranjo valoriza as cordas do cavaquinho, do violão e do cello de Jacquinho.
Por falar em voz feminina, é a da fã e parceira Teresa Cristina que aparece em
“Amém” para dividir os microfones com o ídolo. Um samba recente, mas com cara
de clássico das antigas.
Galanteador, malandro da velha estirpe e cheio de histórias,
Argemiro transpõe para seus sambas embates amorosos como o de ‘Nuvem que Passou”.
"Essa saiu de repente, inteira por causa de uma mulher que não deu certo.
Nós nos encontramos, ela veio com saudade, mas eu não quis dar o braço a
torcer", resume. Outra nesta linha é a divertida (mas não menos melodiosa) “Saia da Casa dos Outros”, na qual Argemiro lembra outra companheira
que era frequentadora assídua da vizinha, em frente a uma vila em que ele
morava em Oswaldo Cruz.
O próprio Argemiro comanda o pandeiro – e apenas mais o
cavaquinho – em "Lamento de um Portelense", quase uma vinheta, que
antecede outra das joias do álbum: "Em uma Noite de Verão". Samba-canção valseado, com harmonia complexa e engenhosa e de letra de alta
expressividade e lirismo. “Até o brilho das estrelas/ Se fez presente aos olhos
meus/ Como foi maravilhoso vê-las/ Que bom seria se não fosse o adeus”. É ou
não é de dar inveja em muito compositor/letrista com bastantes mais condições na
vida?
E o que dizer da maestria de "Vou-me Embora pra Bem
Longe"? Esta é tão melodiosa e especial, que rendeu não uma faixa, mas
duas no disco. A primeira, na voz de Moreno Veloso, com breve participação do
seu autor. A segunda, num eletro-samba remixado por Marcelo D2 que, esta sim,
traz o vocal inconfundível de Seu Argemiro. A letra? Essa maravilha aqui: “Vou
embora para bem longe/ Não posso mais ficar/ Você não me corresponde/ E os meus
anseios não podem esperar”. Note-se o domínio do fraseado e do bom uso dos
recursos linguísticos (mesmo que isso se dê de forma totalmente inata): “Amar,
como eu amei/ Até pensei que fosse minha um dia/ Cantar, também cantei/
Extravasei a minha alegria/ Mas tudo não passou de fantasia”. Uma estrutura literária
própria dos grandes poetas.
A notoriedade que Argemiro recebeu, enfim, ainda em vida,
infelizmente durou pouco. Em 2003, ao lado de Teresa Cristina, Jair do
Cavaquinho e Grupo Semente, apresentou-se no Centro Cultural Carioca, na Praça
Tiradentes, no Rio de Janeiro. Pouco depois, vítima de uma parada cardíaca, viria
a falecer, aos 81 anos, meses depois de lançar seu único disco solo. Quase não deu tempo de registrar essa preciosidade da música brasileira.
Ah, mas Seu Argemiro sempre tinha mais uma história! E esta
aqui envolveu Vinícius de Moraes. Depois do sucesso de “A Chuva Cai”, Paulinho
da Viola levou Argemiro num bar onde estavam Vinicius e Chico Buarque para apresentar-lhes o "novo compositor". Provocador, Vinícius, informado da capacidade de Argemiro fazer samba de partido-alto, aquele inventado na hora, olhou para ele e falou. “Faz música, mesmo? Então faz uma sobre essa garrafa aí
na mesa”. Argemiro fechou o semblante e respondeu que não ia escrever sobre a
garrafa, pois não estava sentido nada por ela. Ficou um climão, mas Argemiro foi
para casa com aquilo na cabeça. Na semana seguinte, pediu para Paulinho levá-lo
novamente àquele bar. Ao chegar, retirou a caixa de fósforo do bolso e batucou
para a seleta plateia em que estavam novamente Vinicius e Chico o samba que havia composto naquela semana. Era “Minha Inspiração”, que fecha este disco em um canto a capella de Argemiro:
“Eu direi vocês estão enganados
Não faço sambas fabricados
Compreendendo vão me dar me razão
Somente escrevo que sinto
Falo a verdade não minto
Culpada é a minha inspiração
Já procurei escrever de outro jeito
Nada saía perfeito, porque não estava em mim
Não adianta eu forçar a minha natureza
Se o melhor do samba é a sua pureza
E eu forçando seria meu fim”.
Chico, impressionado, o olhou e disse. “Precisava isso tudo?”
Se liga rapaziada de Liverpool que o tio Wayne tá chegando
A gente que gosta de falar sobre grandes discos, volta e meia quando descobre alguma coisa, reouve ou reavalia algum disco esquecido, pensa "Eu tenho que escrever sobre esse disco!". Mas aí, muitas vezes, a gente pondera, "Poxa, mas vai ser mais um álbum do Fulano nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS... Já tem tantos". É que tem uns que é inevitável que tenham mais de um. Dois, três..., um monte. Beatles, por exemplo, muitos defenderiam que toda a discografia estivesse destacada entre os melhores discos de todos os tempos (e não seria nenhum absurdo). Caetano Veloso, Stevie Wonder, Miles Davis, é impossível que em obras tão relevantes que influenciaram gerações, nos impressionemos e nos limitemos a destacar apenas um grande trabalho de cada um deles. Depois de alguns anos fazendo a seção de grandes álbuns, acumuladas grandes obras de diversos nomes desse porte, a gente fica sempre com a curiosidade: quantos discos daquele cara, daquela banda tem nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS?
Então surgem outras curiosidades: a gente vê vários de Rolling Stones, Elton John, Smiths, e se pergunta "Quantos ingleses tem na lista?", aí vê Ramones, Madonna, Herbie Hancock, Aretha Franklin, e compara, "Será que tem mais americanos ou ingleses?", "e os brasileiros, como estão nessa parada?", e vão surgindo categorias e mais categorias. Qual ano tem mais grandes discos lembrados? Qual década se destaca?... E assim criamos o Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, um levantamento que fazemos a cada ano, contabilizando os discos incluídos na última temporada na nossa seção, apresentando então quem está na frente em cada um dos critérios.
No último ano, entre os artistas internacionais, os Beatles continuam firmes na ponta como aqueles com mais discos citados, mas começam a sentir a proximidade do gênio do jazz Wayne Shorter que vem chegando como quem não quer nada. No âmbito nacional, se Caetano Veloso se manteve à frente por conta de um disco em parceira com Chico Buarque, o mesmo álbum fez com que o próprio Chico se aproximasse e alcançasse a segunda posição. Entre os países, o Brasil, com 8 dos 21 discos destacados no ano, deu um salto na tabela ampliando ainda mais a vantagem em relação aos ingleses, mas ainda longe dos norte-americanos que lideram com folga. Já nas épocas, a década de 70 continua sendo a que tem mais grandes álbuns mencionados, embora o ano que tenha mais obras seja da década de 80, o ano de 1986. No entanto, no ano passado, por trazer alguns discos que recentemente completavam 50 anos, o de 1974 foi o que apareceu mais na nossa galeria.
Ainda no que diz respeito aos anos, vamos dar uma 'trapaceada' desta vez: como o disco "Me & My Crazy Self", do bluesman Lonnie Johnson contém gravações de 1947 a 1953, vamos incluí-lo nos anos 40 só porque, até hoje, era a única década que não tinha nenhum disco indicado. Pode ser? (Segredo nosso. Fica entre a gente. Shhhh!!!)
Como destaques tivemos as estreias da talentosíssima musa francesa Françoise Hardy e do subestimado Ivan Lins no nosso seleto grupo de elite; o disco ao vivo de Gilberto Gil, no Tuca, um dos álbuns cinquentões do ano passado; mais um da rainha Madonna para marcar sua grandiosa vinda ao Brasil; e, em ano de Olimpíadas, um disco de atleta, o excelente "Rust in Peace", do faixa preta em taekwondo Dave Mustaine do Megadeth.
Bom, chega de papo-furado: vamos às listas, às colocações, aos números que é o que interessa aqui. Com vocês o Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS 2024.
Dá uma olhada aí:
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PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)
The Beatles: 7 álbuns
Kraftwerk e Wayne Shorter***: 6 álbuns
David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, John Coltrane e John Cale* **: 5 álbuns cada
Talking Heads, The Who, Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"
**contando com o álbum Lou Reed e John Cale, "Songs for Drella"
*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.
PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)
Caetano Veloso: 8 álbuns*#
Gilberto Gil * ** e Chico Buarque ++ #: 7 álbuns
Jorge Ben ** e João Gilberto* ****: 5 álbuns
Tim Maia, Rita Lee, Legião Urbana, , e Milton Nascimento***** º: 4 álbuns
Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, Engenheiros do Hawaii e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
João Bosco, Lobão, João Donato, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola, Baden Powell*** e Criolo º : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil
**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"
*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"
**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"
***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"
+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"
++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"
# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo"
º contando com o álbum Milton Nascimento e Criolo "Existe Amor"
PLACAR POR DÉCADA
anos 20: 2
anos 30: 3
anos 40: 1
anos 50: 121
anos 60: 101
anos 70: 166
anos 80: 142
anos 90: 108
anos 2000: 20
anos 2010: 18
anos 2020: 3
*séc. XIX: 2 *séc. XVIII: 1 PLACAR POR ANO
1986: 24 álbuns
1977 e 1972: 21 álbuns
1969: 20 álbuns
1976: 19 álbuns
1970, 1971, 1985 e 1992: 18 álbuns
1968, 1973 e 1979 17 álbuns
1967, 1975 e 1980: 16 álbuns cada
1983 e 1991: 15 álbuns cada
1965, 1988, 1989 e 1994: 14 álbuns
1987 e 1990: 13 álbuns
1990: 12 álbuns
1964, 1966, 1978: 11 álbuns cada
PLACAR POR NACIONALIDADE*
Estados Unidos: 218 obras de artistas*
Brasil: 167 obras
Inglaterra: 130 obras
Alemanha: 11 obras
Irlanda: 8 obras
Canadá: 5 obras
Escócia: 4 obras
Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
Austrália, França e Japão: 2 cada
Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina e São Cristóvão e Névis: 1 cada
*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)