Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Peter Gabriel. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Peter Gabriel. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento - "Native Dancer" (1975)

 

“Wayne Shorter foi – e sempre será – mais do que um parceiro musical. Desde que nos conhecemos, nunca nos separamos. Em 1975, ele me convidou para gravar o ‘Native Dancer’, e mudou a minha vida e carreira pra sempre”.
Milton Nascimento

“Graças a um gênio chamado Wayne Shorter, eu conheci o grande Milton Nascimento em 1975, pelo álbum 'Native Dancer'. Não sabíamos tanto sobre Milton como, talvez, devêssemos saber, mas amávamos Shorter, então, o que ele fizesse, nós escutaríamos." 
Steve Jordan

Humildade é uma qualidade dos grandes músicos. Mesmo sabendo de seus próprios tamanhos e importância, artistas da música dotados dessa integridade entendem que nunca é tarde para aprender e celebrar seus pares. Por exemplo, o Earth, Wind & Fire já era um grupo de sucesso em meados dos anos 70 e que vendia, há pelo menos três álbuns, mais de 1 milhão de cópias. Nem por isso Maurice White, principal líder da banda, deixou de manifestar sua admiração pelo brasileiro Milton Nascimento quando o encontrou por acaso num hotel em Los Angeles. Além da reverência, White admitia que a EW&F, já conhecida por seus arranjos vocais sofisticados, havia aprendido, por causa de um disco lançado por Milton em 1975, a usar os falsetes tal como o mestre de Três Pontas, o que deixou ele – que também admirava os colegas norte-americanos – bastante envaidecido e feliz.

O trabalho responsável por essa ponte de inspiração e gratidão, que completa 50 anos de lançamento, é fruto, aliás, do mesmo sentimento de admiração recíproca. A amizade de Milton com o saxofonista e compositor norte-americano Wayne Shorter, um dos deuses do jazz, já vinha de alguns anos, quando este, em passagem pelo Brasil com sua banda Weather Report, assistiu a um show do disco “Clube da Esquina”, de Milton e Lô Borges, no Rio de Janeiro. Shorter ficou fascinado por Milton e quis conhecê-lo. Dali, surgiu mais do que um encontro de almas e, sim, um convite: o de gravarem um disco juntos. Nascia o influente álbum “Native Dancer”.

Com a participação de músicos brasileiros, como os percussionistas Airto Moreira e Robertinho Silva e o pianista e maestro Wagner Tiso, e de norte-americanos, como o icônico pianista Herbie Hancock e os guitarristas Dave Amaro e Jay Graydon, “Native...” é um disco memorável em vários sentidos. Primeiro, por inserir de vez a latinidade no jazz fusion que Shorter já vinha desempenhando em carreira solo e com a Weather Report. Segundo, por abrir as portas daquilo que, tempo depois, passaria a se chamar de world music, quebrando as barreiras (e os preconceitos) de gêneros musicais. “O Wayne acertou na mosca”, disse Milton em entrevista ao Jornal do Brasil em 2008. “Naquela época, o pessoal de rock não gostava do pessoal de pop que não gostava de jazz, não gostava disso, não gostava daquilo... Ele acabou com isso”, salienta. Por fim, "Native..." é um marco pelo feito de reunir duas forças da natureza: Shorter e Milton, por si só um momento grandioso.

Equilibrado, “Native...”, mesmo sendo um disco de Shorter com Milton como convidado, intercala os protagonismos entre os dois, numa clara reverência do primeiro para com o amigo. Das nove faixas, mais da metade são de Bituca. O começo, inclusive, é dado a ele – que arrasa. “Ponta de Areia”, até então gravada apenas por Elis Regina e Marlene, ganha pela primeira vez a interpretação pela voz penetrante e divinal do seu autor. Milton viria a regravar a canção outras duas vezes ainda naquele ano: uma em duo com Nana Caymmi (num arranjo de ninguém menos que Tom Jobim) e outra no seu disco “Minas”. Nada, no entanto, se compara a essa versão: o impressionante falsete de Milton, que canta num tom acima da sua própria gravação, e o sax soprano de Shorter se entrelaçam e se congraçam. Pode-se dizer, tranquilamente, que essa música é o momento mais intenso da obra de Shorter em toda a década de 70. Algo divino.

A ritmada instrumental “Beauty and the Beast”, de Shorter, na sequência, mostra o quanto ele estava empenhado em saudar a música brasileira. Já a tristonha “Tarde”, depois, traz Milton de volta, agora com o elegante piano acústico de Hancock em pleno casamento com o piano elétrico de Tiso. Não fosse o solo de sax de Shorter, na segunda parte, poderia se dizer tranquilamente que a música foi gravada pela turma do Clube da Esquina em terras tupiniquins, tamanha o respeito que o norte-americano teve em manter à sonoridade dos mineiros.

É Milton quem dá as cartas novamente, agora para uma espetacular “Miracle of the Fishes”, cujo título em inglês não desbanca a letra em português original, a qual dá título ao célebre disco dele de 1973, “Milagre dos Peixes”. Que show de vocais, da bateria de Robertinho, do piano elétrico de Tiso, do violão indígena e ibérico de Bituca! Mas o mais espetacular mesmo é o duo voz/sax que os cabeças entregam da segunda metade em diante. Milton criando harmonias vocais impensáveis, improvisando vocalises, cantando versos; Shorter, com a sensibilidade de tocar no mesmo registro da voz e solando com a habilidade de um verdadeiro Jazz Massanger ou de um integrante do Second Great Quintet de Miles Davis. Uma sintonia excelsa entre os dois.

Os amigos Shorter e Milton, nos anos 2000, relembrando
os tempos de "Native Dancer"

Em “Diana” é a vez de aparecer a sintonia com Hancock, amigo comum de ambos. Hancock havia tocado com Milton em seu “Courage”, de 1968, na primeira incursão internacional do músico brasileiro, e seguiria colaborando com ele em muitos outros trabalhos a partir de então. Com Shorter, entretanto, a troca vinha de ainda antes, fosse nos revolucionários discos da Blue Note do início dos anos 60, fosse na formação da famosa banda de Miles. Toda essa intimidade lhe dá condições de criar a atmosfera perfeita para o sax tenor desfilar nesta balada jazz, especialidade de Shorter e dele. 

Não menos incrível é “From the Lonely Afternoons”, cujos vocalises de Milton iriam influenciar, assim como Maurice White, outro grande jazzista como Shorter e Hancock: Pat Metheny. Basta ver temas como “Estupenda Graça” (de “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, 1981) ou “(It's Just) Talk” (“Still Life (Talking)”, 1987). Samba-jazz instrumental - assim como “Me Deixa em Paz” e “Cais”, do repertório de “Clube da Esquina”, de 1972, que tanto impressionou Shorter - é “Ana Maria”, dedicada à então esposa de Shorter, a portuguesa Ana Maria Patrício. O sax desenha a melodia em tom alto, de difícil registro. Detalhe importante: a autoria desta bossa-nova, que bem podia ser de Milton ou de algum compositor da MPB, é do próprio Shorter.

Continuando a sessão de dedicatórias iniciada na faixa anterior, é a vez de Milton reverenciar a mãe “Lilia” noutro instrumental cheio de musicalidade e sofisticação. Originalmente gravada no famigerado álbum “Clube da Esquina”, agora a música recebe uma nova carga expressiva adicionada pelo sex soprano de Shorter, que extravasa e eleva a música ao ápice emocional do disco. Milton, obviamente, não fica para trás, usando seu canto carregado de beleza e mistério a serviço desta emotividade.

Outro número dedicado é “Joanna's Theme”, que encerra “Native...”. Autoria de Hancock, foi composta um ano antes para a trilha sonora do filme “Desejo de Matar” como tema de uma das personagens. A percussão atmosférica de Airto ajuda a dar clima para esse jazz sombrio em que, novamente, a parceria Hancock/Shorter funciona, literalmente, como música.

Como o próprio Milton evidencia, “Native...” foi um divisor-de-águas na sua carreira, tornando-o um artista global a partir de então. O posterior contato com os mais diversos músicos do planeta como Paul Simon, James Taylor, Quincy Jones, Sarah Vaughan, Jon Anderson e Annie Lennox só se deu em razão deste encontro de almas com Shorter. Os dois, aliás, se encontrariam diversas outras vezes ao longo das carreiras, como em “Milton/Raça”, de 1977, “A Barca dos Amantes”, de 1986, “Yauaretê”, de 1987, e “Angelus”, de 1993, todos discos de Milton. Shorter, por sua vez, nunca deixou de reverenciar o amigo, tocando com ele em apresentações, incluindo músicas suas no repertório próprio ou, simplesmente, apontando-o como um dos maiores gênios da música mundial. Para ele, assim como só existe um Miles Davis, também só existe um Milton.

Maurice White estava certo: deve-se eternamente agradecer e reverenciar Milton Nascimento. Metheny, Criolo, Esperanza Spalding, Steve Jordan, Peter Gabriel e Björk, outros renomados influenciados por Bituca, engrossam esse coro. Ainda mais Wayne Shorter, que, com a generosidade e a humildade dos grandes, abriu espaço para que Milton pudesse levar ao mundo sua musicalidade única em perfeita harmonia com a sua musicalidade. Simbiose que vai além de uma simples compreensão, pois resultante de uma conexão que se dá noutro plano, no astral. A “voz de Deus” e o “sopro divino”, juntos, só podia dar nessa comunhão, que dialoga através de música. Milton diz que ele e Shorter sempre se entendiam sem precisar dizer nada um para o outro, pois, segundo ele, já estava tudo "lá em cima”, onde somente os Deuses acessam.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

FAIXAS:
1. “Ponta De Areia” (Milton Nascimento/Fernando Brant) - 5:17
2. “Beauty And The Beast” (Wayne Shorter) - 5:07
3. “Tarde” (Nascimento) - 5:51
4. “Miracle of the Fishes” (Nascimento/ Brant) - 4:46
5. “Diana” (Shorter) - 2:59
6. “From The Lonely Afternoons” (Nascimento/ Brant) - 3:13
7. “Ana Maria” (Shorter) - 5:10
8. “Lilia” (Nascimento) - 7:01
9. “Joanna's Theme” (Herbie Hancock) - 4:19


OUÇA:

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Tracy Chapman - "New Beggining" (1995)



"Eu nunca presto muita atenção ao gênero, pessoalmente. Não acho relevante ou interessante."

"Há uma parte de mim que está em tudo que escrevo."
Tracy Chapman

Tracy Chapman já provou que não precisa provar mais nada para ninguém. Uma das maiores vendedoras de discos do folk-rock norte-americano das últimas décadas, autora original, cantora de personalidade, ativista, dona de si. Seu primeiro e celebrado disco, de 1988, venceu de 3 Grammy Awards e discos de Ouro e Platina. Com 8 álbuns gravados, Tracy entrou mais de uma vez na Billboard e ganhou BRIT Awards, American Music Awards e mais prêmios Grammy. Cantou ao lado de Peter Gabriel, Youssou N'Dour, Eric Clapton, Luciano Pavarotti, Carlos Santana, Ziggy Marley, Bonnie Raitt. Atuou em prol da Anistia Internacional, do Farm Aid, do We the Planet, da libertação de Nelson Mandela, da memória de Matin Luther King. E mesmo assim a crítica a subestima.

Além de ser perseguida pelo julgamento reducionista (inclusive, musicalmente falando) de que se trate apenas de uma “emuladora” de Joan Armatrading – musicista são-cristovense-britânica de uma geração anterior a de Tracy e a quem guarda algumas semelhanças, mas, principalmente, diferenças – recai sobre ela uma exigência para que sua obra seja mais densa do que já é, o que resulta numa demonstração bastante machista e racista. A argumentação “especializada” é de que, por exemplo, letras de canções como “Talkin’ 'bout Revolution” (escrita aos 16 anos e que se tornou um de seus maiores clássicos), que fala sobre a necessidade de levantar-se contra as injustiças sociais, seja mais profunda em dizer COMO fazer essa revolução a qual prega. Ora: está se avaliando uma música pop de pouco mais de 4 min, e não uma tese de pós-doutorado em Sociologia Política!

Para piorar, houve, principalmente nos primeiros anos de carreira musical de Tracy, logo que esta surgiu ainda jovem, aos 23 anos, uma cruel expectativa em relação aos trabalhos seguintes ao seu disco de estreia – o sucessor “Crossroads”, de 1989, e o terceiro, Matters of the Heart, de 1992. Era uma exigência velada para que ela assumisse uma imagem de singer-songwriter “de protesto”, rotulando-a num nicho pré-determinado pela própria indústria. Descarada demagogia. Nunca se viu tal expectativa para pertencer a um estilo ou outro para com James Taylor ou Paul Simon, por exemplo, dois homens brancos judeus intocáveis e da mesma linha de musicalidade de Tracy, que circula entre o folk e o soft rock. Numa indústria que reflete a sociedade norte-americana, tais cobranças haveriam de caber, sim, a uma mulher jovem, preta e LGBT fora dos parâmetros de beleza da mídia. 

Acontece que Tracy, cuja discrição da vida pessoal sugere sua esperteza, entende muito bem as intenções maliciosas para consigo. Ela sabe que cada passo seu é vigiado e que ela vale muito mais do que a caixinha dentro da qual a queiram colocar. Por isso, “New Beggining”, seu quarto disco e que completa 30 anos de lançamento, traz esse título aparentemente sem um motivo maior, mas carregado de respostas não só aos pretensos manipuladores como, ainda mais, a si mesma. Para alguém como ela, independentemente do sucesso já alcançado, é sempre um “novo começo”. Maduro e cheio de personalidade, “New Beginning”, produto de uma Tracy agora com 31 anos, é o resultante do trabalho de três anos de composição e de mergulho interior da artista, levantando questões sobre sofrimento, racismo, causas sociais e ambientais. Crítica e público reconheceram: levou disco multi-platina e teve mais de 3 milhões de cópias vendidas. 4ª posição na Billboard 200, passou 95 semanas na parada, tendo ainda o single "Give Me One Reason" por cinco semanas em 3ª no Hot 100 da Billboard.

Quebrando a repetição da foto da própria artista na capa como nos três trabalhos anteriores (mais uma mostra da maturidade alcançada), o disco é excelente em tudo: arranjos, execução, produção, narrativa e, claro e principalmente, aquilo que Tracy faz com exímia habilidade, que são as composições. Ela abre o álbum mostrando os porquês. "Heaven's Here on Earth", uma balada melancólica e de profunda beleza, traz uma letra de alta carga poética e reflexiva. “Você pode olhar para as estrelas em busca de respostas/ Procurar por Deus e por vida em planetas distantes/ Ter sua fé na eternidade/ Enquanto cada um de nós tem em si o mapa do labirinto/ E o céu é aqui na terra/ Nós somos o espírito da consciência coletiva/ Nós criamos a dor e o sofrimento e a beleza no mundo”. Arranjo perfeito e ela cantando belamente. 

A faixa-título, igualmente, exala personalidade. De ritmo embalada em tempo 2x2, provocaria qualquer músico a transformá-la num reggae. Tracy, no entanto, não cede à tentação mais óbvia e concebe uma balada folk como é mestra em compor a exemplo de “Across the Lines”, “Freedom Now” e “Open Arms”, todas dos trabalhos anteriores. 

O misto de r&b e spiritual com folk e pop do estilo musical de Tracy não é simplesmente uma receita de bolo: trata-se de um processo internalizado e inato da artista. Tracy veio de uma família pobre da negra Cleveland, em Ohio, onde vivia com a mãe e a irmã. Passou necessidade e sofreu racismo, como todo preto norte-americano de classe baixa. Na adolescência, nos anos 70, com as políticas afirmativas advindas dos Movimentos pelos Direitos Civis, pode fazer faculdade de Antropologia. Vivia entre os livros da biblioteca pública e o rádio, que ouvia incessantemente e  única fonte de informação musical que tinha na infância e adolescência,. “Eu cresci em uma família da classe trabalhadora e estava muito ciente das lutas que minha mãe enfrentou enquanto criava a mim e minha irmã. Havia outras pessoas na minha família que trabalhavam em empregos braçais enquanto a economia industrial estava começando a fracassar e desaparecer. Quando criança, acho que não tinha noção da política disso, mas por osmose você está captando o estresse ou as preocupações que os adultos ao seu redor têm”, disse em recente (e rara) entrevista ao The New York Times.

Toda essa experiência de vida deu a Tracy um jeito muito próprio tanto de compor quanto de cantar - até por isso é tão rasteiro imputá-la como uma cópia malfeita de Joan Armatrading, que tem outra bagagem. E o modo de cantar transmite isso. É quase mais sentido do que escutado. Mal comparando, assim como Bob Dylan – um de seus ídolos – cuja maneira de cantar expressa todas as angústias da geração beat, a de Tracy é carregada de ancestralidade e vivência do negro nos Estados Unidos. “Cold Feet”, com ares de canção de trabalho de escravizados das plantações de algodão do Sul norte-americano, é exemplar nisso. Um cantar triste mas lúcido, consciente de seu valor e de sua dor. O mesmo em "Smoke and Ashes", com seus coros de worksongs, e a balada ”At This Point in My Life”, que muito bem retrata a vida de um irmão de cor vivido, mas com esperança na vida: “A essa altura da minha vida/ gostaria de viver como se só o amor importasse/ como se redenção viesse em um suspiro/ como se procurar viver fosse realmente tudo o que se precisa/ não importa quem o consiga”.

Igualmente balada, porém romântica, “The Promisse” é forjada num lindo dedilhado do violão de Tracy com leves acompanhamentos do baixo e do violino. Sem percussão alguma, pura leveza. E quantas lindas melodias! Todas, sem exceção. Como Tracy sabe engendrar letra é música e ainda fazer refrões tão marcantes e gostosos de se ouvir, a exemplo daquele que é um de seus grandes sucessos do início da carreira, “Baby Can’t I Hold”. A se ver por "Tell It Like It Is", cheia de groove e das melhores do repertório, e a já referida “Give me...”, hit do álbum e que a deu um terceiro Grammy. Um blues doce e irresistível com ares de B.B. King e Memphis Minnie.

Clipe de "Give Me One Reason", que tocou bastante na MTV à época do lançamento

Tracy empresta seu vocal intenso e sofrido para falar também sobre um tema hoje na crista da onda: as mudanças climáticas. A introspectiva canção "The Rape of the World" diz: “Mãe de todos nós/ Lugar do nosso nascimento/ Como podemos ficar à distância/ E assistir a violação do mundo/ Isso é o começo do final/ Esse é o mais chocante dos crimes/ O mais letal dos pecados/ A maior violação de todos os tempos”. À época, 3 anos depois da Eco92, não era todo artista que levantava a voz para tratar sobre a natureza.

Já “Remember the Tinman” volta àquela atmosfera da contadora de histórias de “Fast Car”, sucesso do seu primeiro e aclamado disco. Tudo para encerrar com outra das melhores: “I’m Ready”, um tocante r&b com toques gospel. Sim, Tracy Chapman diz que, em seu novo nascimento, estava pronta para o que desse e viesse. “Eu estarei pronta para deixar os rios me lavarem/ Se as águas puderem me arrastar/ Eu estou pronta”. Eles pensavam que ela sucumbiria ao sistema, né? Até tentaram, mas Tracy tem consigo séculos de conhecimento ancestral, de tradição oral, de musicalidade inerente, de dor de escravidão, de exclusão social, de genocídio preto.

Nossa, acabou... Ou melhor: ainda não acabou! De pouco menos de 2 min, a hidden track "Save a Place for Me” ainda vem para dar um recado cheio de generosidade para com os que a amam como também para quem quer que seja: “Salve um lugar para mim/ Salve um espaço para mim/ Em seu coração/ Se você esperar, eu virei para você”. Com uma fraca média de um disco a cada 5 anos, pode-se perceber que o negócio com Tracy é realmente esperar, que um dia ela reaparece para conquistar mesmo aqueles que não eram seus fãs e passam a reconhecer suas qualidades inequívocas e intransferíveis. Porém, quando ela vem, como “New Beggining” é uma prova, pode-se ter certeza de que é para ficar.
 
 **************
FAIXAS:
1. "Heaven's Here on Earth" – 5:23
2. "New Beginning" – 5:33
3. "Smoke and Ashes" – 6:39
4. "Cold Feet" – 5:40
5. "At This Point in My Life" – 5:09
6. "The Promise" – 5:28
7. "The Rape of the World" – 7:07
8. "Tell It Like It Is" – 6:08
9. "Give Me One Reason" – 4:31
10. "Remember the Tinman" – 5:45
11. "I'm Ready" – 4:56
12. "Save a Place for Me" (hidden track) – 1:50
Todas as faixas de autoria de Tracy Chapman

**************
OUÇA O DISCO:
 


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

30 grandes músicas dos anos 80 (não necessariamente as melhores)

Os irlandeses da U2, no topo da lista, em foto de
Anton Corbjin da época de "Bad"
Sabe aquela música de um artista pop que você escuta e se assombra? E o assombro ainda só aumenta a cada nova audição? “Caramba, que som é esse?!”, você se diz. Pois bem: todas as décadas do rock – principalmente a partir dos anos 60, quando as variações melódico-harmônicas se multiplicaram na reelaboração do rock seminal de Chuck Berry, Little Richard e contemporâneos – são repletas de músicas assim: clássicos imediatos. Mas por uma questão de autorreconhecimento, aquelas produzidas nos anos 80 me chamam bastante a atenção. É desta década que mais facilmente consigo enumerar obras desta característica, as que deixam o ouvinte boquiaberto ou, se não tanto, admirado.

Conseguiu entender de que tipo de música estou falando? Creio que talvez precise de maior elucidação. Bem, vamos pela didática das duas maiores bandas rock de todos os tempos: sabe “You Can´t Always Get What You Want”, dos Rolling Stones, ou “A Day in the Life”, dos Beatles? É esta espécie a que me refiro: podem não ser necessariamente as músicas mais consagradas de seus artistas, nem grandes hits, mas são, inegavelmente, temas grandiosos, emocionantes, que elevam. Você pode dizer: “mas têm outras músicas de Stones ou Beatles que também emocionam, também são grandes, também provocam elevação”. Sim, concordo. Porém, estas, além de terem essa característica, parecem conter em sua gênese a ideia de uma “grande obra”. Dá pra imaginar Jagger e Richards ou Lennon e McCartney – pra ficar no exemplo da tabelinha Beatles/Stones – dizendo-se um para o outro quando compunham igual Aldo, O Apache em "Bastardos Inglórios": “Olha, acho que fizemos nossa obra-prima!”

Quer mais exemplos? “Lola”, da The Kinks; “Heroin”, da Velvet Underground; “Marquee Moon”, da Television; "We Are Not Helpless", do Stephen Stills; "Kashmir", da Led Zeppelin. Sacou? Todas elas têm uma integridade especial, uma alma mágica, algo de circunspectas, quase que um selo de "clássica". 

Pois bem: para ficar claro de vez, selecionamos, mais ou menos em ordem de preferência/relevância, as 30 músicas do pop-rock internacional dos anos 80 as quais reconhecemos esse caráter. Para modo de poder abarcar o maior número de artistas, achamos por bem não os repeti, contemplando uma música de cada - embora alguns, evidentemente, merecessem mais do que apenas uma única indicada, como The Cure, U2 e The Smiths. Haverá as que são mais conhecidas ou mais obscuras; as que, justamente por conterem certo tom épico, se estendem mais que o normal e fogem do padrão de tempo de uma "música de trabalho"; artistas de maior sucesso e outros de menor alcance popular; músicas que inspiraram outros artistas e outras que, simplesmente, são belas. 

E desculpe aos fãs, mas, claro, muita gente ficou de fora, inclusive figurões que emplacaram superbem nos anos 80, como Michael Jackson, Elton John, Bruce Springsteen e Queen. Até coisas que adoraria incluir não couberam, como “Hollow Hills”, da Bauhaus, “Hymn (for America)”, da The Mission, "51st State", da New Model Army, "Time Ater Time", da Cyndi Lauper, "Byko", do Peter Gabriel, "Up the Beach", da Jane's Addiction, "Pandora", da Cocteau Twins, "I Wanna Be Adored", da Stone Roses... Mas não se ofendam: tendo em vista a despretensão dessa listagem, a ideia é mais propositiva do que definidora. Mas uma coisa une todos eles: criaram ao menos uma música diferenciada, daquelas que, quando se ouve, são admiradas de pronto. Aquelas músicas que se diz: “cara, que musicão! Respeitei”. 


1 – “Bad” - U2 ("The Unforgatable Fire", 1984) OUÇA
2 – “Alive and Kicking” - Simple Minds (Single "Alive and Kickin'", 1985) OUÇA
3 –
Capa do compacto de
"How...", dos Smiths
“How Soon is Now?”
- The Smiths 
("Hatful of Hollow", 1984) OUÇA








4 – “Nocturnal Me” - Echo & The Bunnymen ("Ocean Rain", 1984) OUÇA
5 – “A Forest” - The Cure ("Seventeen Seconds", 1980) OUÇA
6 – “World Leader Pretend” - R.E.M. ("Green", 1988) OUÇA
7 – “Ashes to Ashes” - David Bowie ("Scary Monsters (and Super Creeps)", 1980) OUÇA
8 – “Vienna” - Ultravox ("Vienna", 1980)

Videoclipe de "Vienna", da Ultarvox, tão 
clássico quanto a música


9 – “Road to Nowhere” - Talking Heads ("Little Creatures", 1985) OUÇA
10 – “All Day Long” - New Order ("Brotherhood", 1986) OUÇA
11  “Armageddon Days Are Here (Again)” - The The ("Mind Bomb", 1989) OUÇA
12 – “The Cross” - Prince ("Sign' O' the Times", 1986) OUÇA
13 – “Live to Tell” - Madonna ("True Blue", 1986) OUÇA

Madonna estilo diva, no clipe de "Live..."

14 – “Hunting High and Low” - A-Ha ("Hunting High and Low", 1985) OUÇA
15 – “Save a Prayer” - Duran Duran ("Rio", 1982) OUÇA
16 – “Hey!” - Pixies ("Doolitle", 1989) OUÇA
17 – “Libertango (I've Seen That Face Before) - Grace Jones ("Nightclubbing", 1981) OUÇA
18 – “Black Angel” - The Cult ("Love", 1985) OUÇA
19 – “Children of Revolution” - Violent Fammes ("The Blind Leading the Naked", 1986) OUÇA
Os pouco afamados
Alternative Radio
emplacam a fantástica
"Valley..."
20 – “Valley of Evergreen” - Alternative Radio 
("First Night", 1984) OUÇA









21  “USA” - The Pogues ("Peace and Love'", 1989) OUÇA
22  “Decades” - Joy Division ("Closer", 1980) OUÇA
23 – “Easy” - Public Image Ltd. ("Album", 1986) OUÇA
24  “Teen Age Riot” - Sonic Youth ("Daydream Nation", 1988) OUÇA
25 – “One” - Metallica ("...And Justice for All", 1988) OUÇA
26 – “Little 15” - Depeche Mode ("Music for the Masses", 1987) OUÇA
27 – "Never Tear Us Apart" - INXS ("Kick", 1987)

Hits também têm seu lugar: 
"Never Tear Us Apart", da INXS


28 – “Lands End” - Siouxsie & The Banshees ("Tinderbox", 1986) OUÇA
29 – “US 80's–90's” - The Fall ("Bend Sinister", 1986) OUÇA
30 – “Brothers in Arms” Dire Straits ("Brothers in Arms", 1985) OUÇA


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Fela Kuti & The Africa '70 with Ginger Baker – “Why Black Man Dey Suffer” (1971)

 

“Havia alto-falantes nas ruas de Lagos tocando várias músicas, mas uma se destacava. Eu perguntei: ‘Que música é esta?’. E me disseram: ‘É o Fela’. Eu nunca tinha ouvido uma música tão linda”. 
Carlos Moore, jornalista, amigo e biógrafo de Fela Kuti

“O afrobeat de Fela não era apenas música, era um manifesto político-cultural”. 
Ray Lema, Músico e amigo de Fela Kuti

“Minha música não é de entretenimento, é de revolução. Quero ser um grande homem, e não farei concessões”. 
Fela Kuti

Na arte, um choque de realidade social, quando não inibe e amedronta, é capaz de provocar transformações revolucionárias. Há artistas que, saídos espontânea ou forçadamente e de seu habitat natural, depararam-se em determinado momento com uma situação-limite a qual entenderam estar ali o seu ponto de virada. A partir de então, nunca mais foram os mesmos. Heitor Villa-Lobos não se contentou com a música aprendida nos conservatórios cariocas nos anos 10 e embrenhou-se no Brasil profundo para, enfim, engendrar sua obra fundadora da música brasileira moderna. O compositor francês Oliver Messiaen, feito prisioneiro pelos nazistas na II Guerra, compôs em pleno campo de concentração aquela que é considerada sua obra-prima, "Quarteto pelo fim dos tempos", para os únicos quatro instrumentos disponíveis naquela condição: piano, violino, violoncelo e clarinete, a qual estreou na própria prisão para um público de guardas alemães e outros prisioneiros como ele.

Pode-se dizer que com Fela Kuti aconteceu o mesmo choque transformador. Nascido na cidade de Abeokuta, no estado de Ogum, na Nigéria, em uma família de classe média alta, o músico, performer, agitador cultural e ativista Fela Anikulapo Ransome-Kuti tinha exemplos dentro de casa para autovalorizar-se. A mãe, Funmilayo Ransome-Kuti, foi a primeira mulher ativista dos direitos em seu país, e seu pai, Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, um pastor protestante e diretor de escola. É em Londres, onde foi estudar Medicina nos anos 50, que migra definitivamente para e faculdade de Música, retornando a Lagos posteriormente para formar a banda Nigeria ‘70. Porém, só em 1969, quando, em meio da Guerra Civil da Nigéria, vai para os Estados Unidos e se depara com efervescência do movimento Black Power, que Fela encontra-se consigo mesmo. Relaciona-se com a ativista Sandra Smith, membra dos Panteras Negras, que o influencia fortemente em sua música e visões políticas. Fela despe sua música de qualquer resquício colonizador e mergulha nas raízes de seu povo, de sua gente. É ali que, então, retorna novamente à capital nigeriana Lagos recarregado para assumir o posto ao qual agora entendera estar destinado: tornar-se um símbolo de resistência política. 

O referencial Fela: revolução
que perdura
Fela compreenderia melhor a luta de sua mãe pelos direitos dos africanos que estavam sob o regime colonial, assim como o apoio que ela dava à doutrina do Pan-Africanismo exposta por Kwame Nkrumah. Mas a tomada de consciência refletiu-se não só em seu pensamento e postura quanto, principalmente, em seu trabalho. Essas ideias também o inspiraram a criar seu próprio estilo musical, que ficaria conhecido como afrobeat, uma mistura do jazz americano com o rock e o highlife da África Ocidental. Símbolo desta explosão criativa, o grito militante “Why Black Man Dey Suffer”, que completou 50 anos de lançamento em 2021, é o primeiro e talvez mais emblemático de sua profícua e polêmica carreira. Sintetizador de suas ideias musicais, visuais, políticas e filosóficas, o álbum traz sua competente banda, renomeada Africa ‘70, com Tony Allen na percussão, Igo Chico, no sax, e Tonny Njoku, ao trompete, além da participação de uma lenda do rock psicodélico: o baterista britânico ex-Cream Ginger Baker, cujas batidas potentes e jazzísticas promovem um reencontro mágico com o som originalmente africano. 

Composto por apenas duas longas sessões, uma de cada lado do vinil (expediente que usaria várias outras vezes em sua vasta discografia), “Why Black...” explora a musicalidade do multi-instrumentista Fela e de seus parceiros em temas que se desenvolvem de forma crescente e aglutinante. Cantos tradicionais africanos, percussão marcada num compasso ritualístico e vocais e estrutura musical que passam pelo jazz e linhas de metais funk. O endless groove também é usado, com um ritmo básico com baterias, muted guitar e baixo, que são repetidos durante o andamento, algo que influenciaria sobremaneira o funk e o hip-hop. Além disso, Fela fazia questão de cantar em um Pidgin baseado no inglês, de forma que sua música pudesse ser apreciada por indivíduos de toda a África, onde as línguas faladas locais são diversas e numerosas. 

Ambas as músicas carregam um discurso fortemente desafiador e engajado, como jamais havia se ouvido antes na oprimida África. Sua República Kalakuta, que reunia uma comuna, um estúdio de gravação e uma casa, além do Afrika Shrine, boate onde apresentava regularmente suas performances, era declaradamente independente da Nigéria. Ou seja: uma pedra no sapato para a ditadura nigeriana. A letra da faixa-título, questiona: “Por que os negros sofrem hoje”? “Por que homem negro não ganha dinheiro hoje?”. Sob um ritmo “chamado Kanginni Koko, usado em algum tipo particular de santuários na minha cidade natal, Abeokuta City”, explica Fela na letra, a música não deixa dúvida do quanto era perigosa a sua mensagem para o governo militar:

“Nossas riquezas foram levadas para suas terras
Em troca, eles nos deram sua colônia
Eles tiram nossa cultura de nós
Eles nos deram uma cultura que não entendemos
Negros, não nos conhecemos
Não conhecemos nossa herança ancestral
Nós brigamos todos os dias
Nunca estamos juntos, nunca estamos juntos
É por isso que os negros sofrem hoje”.

Já a outra faixa do disco, valendo-se bastantemente dos dialetos, “Ikoyi Mentality Versus Mushin Mentality”, escancara as diferenças de “mentalidade” dos bairros rico (Ikoyi) e pobre (Mushin) de Lagos, exigindo que todos sejam respeitados como seres humanos. Enquanto o Ikoyi representa o “homem de fora” que viajou o mundo todo e levou para a Nigéria uma “civilização que não entendemos”, o “Homem Mushin”, nativo, mesmo nunca tendo se deslocado fisicamente para lugar nenhum devido a suas condições, é capaz de entender “a linguagem das pessoas”, de falar a “língua da África”.

A própria arte da capa, de autoria de Lemi Ghariokwu, artista visual e designer autor das principais capas de discos de Fela Kuti, trazia essa força de ativismo. Em traços muito característicos, Lemi monta uma espécie de hieróglifos pictográfico iorubá, representando questões sociais, religiosas e existenciais.

As tensões foram se avolumando em relação a Fela ao longo dos anos, o qual se tornou uma espécie de inimigo nº 1 do ditador Olusegun Obasanjo. Tanto foi que, em 1977, mil soldados atacaram a comuna. Fela foi severamente espancado e sua mãe, já idosa, arremessada de uma janela, provocando-lhe a morte. A República Kalakuta foi incendiada e o estúdio e a boate destruídos. O que não foi motivo para o combativo Fela baixar a guarda. Aliás, não faltaram episódios polêmicos ou controversos na vida de Fela: além de outros discos e shows, perseguição por parte do governo, prisões forjadas, candidaturas à presidência da Nigéria, poligamia e a conversão a uma corrente mística bastante duvidosa. A resistência genuína acabaria em 2 de agosto de 1997 quando, atingido pelo então irremediável vírus HIV, Fela Kuti, enfim, rendia as armas.

Não apenas a sonoridade, com suas texturas e polirritmia, quanto a concepção da arquitetura melódica, seriam largamente inspiradoras daquilo que alguns anos depois passaria a se chamar world music. David Byrne, Brian Eno, Stevie Wonder, Peter Gabriel, Malcolm McLaren e Beyoncé foram alguns dos ocidentais que beberam em sua fonte baseada nas difíceis harmonias pentatônicas. Gilberto Gil, igualmente, foi outro que chegou a visitar Shrine na metade dos anos 70, retornando para o Brasil com uma nova concepção de negritude a qual desaguou no disco “Refavela”. Como Gil, outros brasileiros tal Criolo, BaianaSystem, Metá Metá e Rincon Sapiência também prestam tributo à música de Fela. Está no novo afropop, no left-field rap, no alternative R&B, no jazz contemporâneo. O afrobeat representa, de fato, uma revolução travada a partir da luta de alguém que entendeu o tamanho da sua responsabilidade e cujos ecos seguem sendo ouvidos até hoje. Uma luta que lhe valeu a vida, mas que, no entanto, fez-lhe cumprir com seu objetivo revolucionário: tornar-se um grande homem.

*********
FAIXAS:
1. "Why Black Man Dey Suffer" - 15:09
2. "Ikoyi Mentality Versus Mushin Mentality" - 13:01
Todas as composições e autoria de Fela Anikulapo Ransome-Kuti

*********
OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Música da Cabeça - Programa #212

 

Se até o Oscar foi mais simplinho, por que a gente também não pode? O MDC hoje vem assim: na simplicidade. Simples não são, no entanto, nossas atrações: Pixies, Peter Gabriel, Jorge Ben, Kraftwerk e H.E.R. por exemplo. Também tem um balanço do Oscar 2021 no Música de Fato e um Cabeça dos Outros com Anderson .Paack. Sem glamour, mas na maior das elegâncias, o programa hoje vai ao ar às 21h, na nada simplória Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues. Simplesmente.


Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

domingo, 4 de abril de 2021

Claquete Especial de Páscoa - 7 filmes sobre a Paixão de Cristo (ou quase isso)




Pode parecer piegas, mas gosto de assistir filmes sobre a Paixão de Cristo na época da Páscoa. Confesso que sou daqueles espectadores que as emissoras, sem constrangimento de serem repetitivas e óbvias, conseguem atingir. Em país católico como o Brasil, no que entra a Semana Santa, começam a pipocar produções de diferentes épocas sobre a Via-Crucis. 

Por mais óbvio que seja, contudo, muitos desses filmes são bastante interessantes, visto que motivam os realizadores, essencialmente cristãos em sua maioria, a produzirem algo que lhes faz muito sentido, que lhes é caro em termos de crença e visão de mundo. Por isso, invariavelmente saem realizações caprichadas, maiúsculas, quando não, superproduções que se destacam, inclusive, na filmografia de alguns grandes cineastas. Casos de John Huston, David Lean e Franco Zefirelli, para ficar em três. 

Então, sem medo de soar enfadonho, vão aqui sete títulos sobre a saga bíblica que, mesmo não sendo-se católico, é, sem dúvida, uma grande história. Digna de filme (s). 


“Paixão de Cristo”
, de Mel Gibson (EUA, 2004)

Mesmo com pé atrás com relação a Mel Gibson em produções nas quais atua, tenho que admitir que os filmes dirigidos pelo ator australiano merecem respeito. Este, em especial, além de trazer uma abordagem realística das últimas horas de Cristo, com cenas de alta violência e crueldade – o que deve ter sido bem verdade – tem o rigor de ser inteiramente falado em aramaico e latim, línguas usadas na época de Jesus Cristo. Sem “estrelas”, é uma realização, por mais criticada que tenha sido à época de seu lançamento, bastante sóbria e circunspecta. 

Ultraviolência na Via-Crucis: controverso filme de Gobson


“A Última Tentação de Cristo”
, de Martin Scorsese (EUA/Canadá, 1988)

O filme que provocou o "cancelamento" de Scorsese, por parte do Vaticano, que fez uma séria marcação ao cineasta após realizar esta ousada adaptação da obra de Níkos Kazantzákis. Blasfema, diria a Igreja. Mas o filme é uma preciosidade. Além da história, que traz uma visão alternativa do que poderia ter sido a vida – e a morte – de Cristo, tem no papel do Messias o ótimo Willem Dafoe, mais Harvey Keitel, Harry Dean Stanton e David Bowie. A trilha, vencedora do Grammy de Melhor Álbum New Age e uma das mais emblemáticas do cinema, é de Peter Gabriel. Polêmico, este as TVs não passam muito, não...






cena de Cristo sendo tentado por Satã em “A Última Tentação de Cristo”



“A Idade da Terra”
, de Glauber Rocha (Brasil, 1980)

Outro título não muito lembrado para a Páscoa, até por conta de sua visão extremamente pessoal, alegórica e crítica da vida de Jesus, da Igreja e das estruturas de poder. Aliás, não uma vida, mas quatro! Geraldo Del Rey, Tarcísio Meira, Jece Valadão e Antônio Pitanga vivem, cada um, a personificação de um Cristo em diferentes realidades sociais: um negro, um militar, um índio e um guerrilheiro. No Brasil, Cristo não precisa de Via-Crucís: ele é crucificado simbolicamente um pouco todo dia. Último filme do gênio do Cinema Novo, que, assim como quase ocorreu com Scorsese, foi seu calvário. Desiludido com a péssima recepção da obra, o cineasta morreria meses depois de seu lançamento.

As quatro personificações de Cristo na visão de Glauber



“A Maior História de Todos os Tempos”
, de George Stevens, 
David Lean e Jean Negulesco (EUA, 1965)

O cara jogou xadrez com o Diabo e encarnou Jesus. Só mesmo um grande ator como Max Von Sydow para se prestar a esses dois extremos com tamanha entrega e competência. Traz ainda no elenco o “épico” Charlton Heston, além de Martin Landau e Telly Savalas. Épico com letra maiúscula codirigido por três feras da Hollywood clássica, George Stevens, David Lean e Jean Negulesco. Bem tradicional em abordagem, o que contrabalanceia as nossas sugestões anteriores. 

Von Sydow: haja versatilidade para quem já deu um "plá" com o Tinhoso...



“A Vida de Brian”
, de Terry Jones (Inglaterra, 1979)

Se é pra blasfemar, então vamos com tudo: “A Vida de Brian”, o hilariante longa da turma da Monthy Pyton, que desfaz a sempre penosa e triste história da Via Sacra de Jesus. Aliás, o filme não é exatamente sobre a vida do filho de Deus, e sim de um pobre coitado, sonso e azarado que é confundido com o Messias. O azar é tanto que o cara, mesmo tentando escapar de todas as maneiras, acaba por ser crucificado junto com o Salvador, numa das cenas mais “épicas” do cinema de comédia, quando cantam “Olhe Sempre o Lado Bom da Vida” ao final. Dando aqui uma letra, a cena, com sua ironia, traz uma mensagem positiva que muito falta ao catolicismo quando se refere ao tema.






a hilária cena da crucificação de "A Vida de Brian"



“O Evangelho Segundo São Mateus”
, de Pier Paolo Pasolini (Itália, 1964)

Quando fizemos um adendo na abertura em que dissemos que nem todos os realizadores eram necessariamente católicos, a referência era tanto a Glauber Rocha quanto, especialmente, a Pasolini. Anarquista e gay, o genial diretor italiano realizou por vontade própria a vida do Salvador através do poético texto eclesial. Talvez, o distanciamento crítico de seu posicionamento político e a sua sensibilidade de poeta – e, claro, seu talento único como cineasta – tenham lhe habilitado a realizar aquele que é o mais fiel filme sobre Jesus e seus ensinamentos – indicado, inclusive, pela Biblioteca do Vaticano, que teve que se render à obra de um filho não-abençoado.






filme completo "O Evangelho Segundo São Mateus”



“Rei dos Reis”
, de Nicholas Ray (EUA, 1961)

Quem não se lembra de filmes como este ou “A Bíblia” na Sessão da Tarde da Sexta-Feira Santa? Mais um típico épico bíblico norte-americano dos anos 60, assim como "A Maior História..." a superprodução de Nicholas Ray tem narração de Orson Welles e trilha de Miklós Rózsa e roteiro de Ray Bradbury. Remake do filme mudo de Cecil B. de Mille, de 1927, em suas mais de três horas de duração, traça a vida de Jesus Cristo, do nascimento até a ressurreição, baseando-se nos quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), além dos escritos do historiador romano Tácito.

Sermão da Montanha encenado grandiosamente por Ray



Daniel Rodrigues