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segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Michael", de Antoine Fuqua (2026)


É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.

Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.

No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.

Domingo na pele do perverso Joe Jackson:
digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.

Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.

E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.

Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem. 

O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.

A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse


De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.

Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes. 

Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.

*************

Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua


👑👑👑👑👑👑👑👑👑

"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
Duração: 127 min
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Onde assistir: Nos cinemas

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Música da Cabeça - Programa #440

 

Não tem quem não esteja assim nesse fim de ano. Mas aguenta firme mais um pouquinho antes de tombar de vez pra escutar o MDC desta semana. Temos certeza que não vai se arrepender com a edição especial de nº 440. Afinal, uma combinação de Tina Turner, Cátia de França, Neil Young, Titãs e Adélia Prado põe qualquer um de pé de novo. Ainda mais com a homenagem que a gente vai fazer a Tony Williams, grande baterista que completaria 80 anos se vivo. Com as últimas forças de 2025, o programa vai ao ar às 21h na brava Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem esmorecer: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

quinta-feira, 21 de abril de 2022

60 Anos de 007: Os melhores na escolha dos bondfãs

 

Seja nas salas de cinema, pela Sessão da Tarde ou Corujão da Globo, pelos VHS ou DVDs alugados, pela TV fechada ou streaming. Filmes mais antigos ou mais novos. Com este ou aquele ator de protagonista. Independentemente destas variáveis – todas cabíveis neste caso – os filmes da série 007 encantam fãs de diversas gerações. Desde os que pegaram o nascer de James Bond, há 60 anos quando do lançamento de “007 Contra o Satânico dr. No”, primeiro da celebrada franquia inspirada no romance de Ian Fleming, até as superproduções recentes, o famoso agente da MI-6, invariavelmente a serviço secreto da Coroa britânica, tornou-se um dos mais queridos – e longevos – personagens da história do cinema. Um ícone que excede os limites da tela.

Assim como super-heróis dos quadrinhos, figuras fictícias, mas de tamanha realidade em sua existência que se tornam mais críveis que muita gente de carne e osso, JB vive graças ao imaginário do público. Tal Batman, Super-Homem ou Homem-Aranha, cujas características físicas, psicológicas e visuais vão sendo manipuladas ao longo do tempo pelas mãos de diversos autores tendo como base um conceito, este fenômeno acontece com 007 tendo ainda como atenuante um fator: o de ele não ser um desenho, mas uma pessoa “de verdade”. Quem ousa dizer que Pierce Brosnan ou Daniel Craig são menos James Bond do que Sean Connery ou Roger Moore?

Connery, Lazemby, Moore, Dalton, Brosnan e Craig:
qual o melhor James Bond?

Mas a idolatria a Bond e à série não se resume somente ao ator que o interpreta - embora este fator seja de suma importância. A produção caprichada e milionária, os efeitos especiais, a construção narrativa, os lançamentos de moda e design, a trama aventuresca: tudo foi ganhando, à medida que a série ia tendo continuidade, um alto poder midiático. As produções de 007 passaram a ser uma vitrine que dita moda, tendências, comportamentos e parâmetros, inclusive na indústria do cinema, uma vez que os filmes de espionagem nunca mais foram os mesmos depois que este personagem foi parar nas telas. De certa forma, 007 acompanhou e desenvolveu muitas das invenções que o cinema de ação presenciou ao longo deste tempo, funcionando como criador e criatura. Isso tudo sem falar nos detalhes fundamentais: o charme canastrão de Bond, os vilões maníacos, a beleza das bond girls, o tema original e as trilhas sonoras, as invenções estapafúrdias de Q, as paisagens incríveis pelas quais se passeia (não raro, a quilômetros por hora)...

Quem tem autoridade para dizer se tudo isso confere ou não são, claro, os fãs. Por isso, convidamos 8 desses aficionados por James Bond para nos dizerem três coisas: qual o seu ator preferido entre os que encarnaram o espião ao longo destas seis décadas, qual a sua melhor trilha e, principalmente, quais os seus 5 títulos preferidos da franquia. Todos eles conhecem muito bem as artimanhas, os clichês, os truques, as piadinhas, as gags e as viradas narrativas a ponto de antecipá-las mentalmente enquanto assistem algum filme da série. Há longas melhores que outros? Qual o James Bond preferido da galera? E das músicas-tema, muitas vezes oscarizadas, qual a mais “mais”? Para isso, esse time de bondfãs foi chamado. Numa coisa, contudo, todos concordam: é sempre uma emoção ver aquelas aberturas com efeitos especiais conceituais, prólogo e, principalmente, aquela figura elegante surgindo de dentro do círculo branco para virar-se na direção do espectador e atirar enquanto a toca a trilha clássica de Monty Norman e John Barry. É a certeza de que, a partir dali, vem mais uma grande aventura de Bond, James Bond.


 

*********

Rodrigo Dutra

formado em Letras e editor do Rodriflix
(Porto Alegre/RS)
"Contra o Foguete da Morte":
"
Tá, filme ruim, mas o

 cara tá no bondinho do
Pão de Açúcar...
já vale
🤣🤣🤣"


Melhor James Bond:
Roger Moore

Filmes preferidos:
1. "007: O Espião que me Amava" (Lewis Gilbert, 1977)
2. "007 Contra Goldfinger" (Guy Hamilton, 1965)
3. "007 Contra o Satânico Dr. No" (Terence Young, 1962)
4. "007 Contra GoldenEye" (Martin Campbell, 1995)
5. "007 Contra o Foguete da Morte" (Lewis Gilbert, 1979)

Trilha preferida:
"Live and Let Die", Paul McCartney (filme: "Com 007 Viva e Deixe Morrer")

Christian Ordoque

historiador
(Porto Alegre/RS)


Melhor James Bond:
Connery como JB mais velho jogando 
charme para Kim Basinger
em "Nunca Mais..."
Roger Moore

Filmes preferidos:
1. "007 Contra Goldfinger"
2. "007 Contra o Foguete da Morte"
3. "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade" (Peter R. Hunt, 1970)
4. "007: Nunca Mais Outra Vez" (Irvin Kershner, 1983)
5. "007 Contra Spectre" (Sam Mendes, 2015)

Trilhas preferidas:
"All the Time in the World" - Louis Armstrong (filme ""007: A Serviço Secreto de Sua Majestade")
"You Only Live Twice" - Nancy Sinatra (filme "Com 007 Só Se Vive Duas Vezes")
"Goldfinger" - Shirley Bassey (filme "007 Contra Goldfinger")


Luna Gentile Rodrigues

estudante
(Rio de Janeiro/RJ)

As várias versões do poster de
"Sem Tempo...", último filme da série,
um dos escolhidos de Luna

Melhor James Bond:
Roger Moore

Filmes preferidos:
1. "Com 007 Viva e Deixe Morrer" (Hamilton, 1973)
2. "007 Na Mira dos Assassinos" (John Glen, 1985)
3. "007: O Mundo Não é o Bastante" (Michael Apted, 1999)
4. "007: Operação Skyfall" (Mendes, 2012)
5. "007: Sem Tempo Para Morrer" (Cary Fukunaga, 2021)

Trilhas preferidas:
"Skyfall" - Adelle (filme "007: Operação Skyfall")
"Goldfinger" - Shirley Bassey 
"GoldenEye" -Tina Turner (filme "007 Contra GoldenEye")
"Diamond Are Forever" - Shirley Bassey (filme "007: Os Diamantes São Eternos", 1971)
"On her Majesty's Secret Service" - John Barry (filme "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade")


Vagner Rt

professor e blogueiro
(Porto Alegre/RS)


Melhor James Bond:
1. Daniel Craig - "Ele bate sem cerimonia, foge do que esperamos do 007, por isso adoro ele."
2. Sean Connery - "Clássico e único, até hoje." 
3. Pierce Brosnan - "Meu 007 da infância, de jogar do Nintendo 64." 

Filmes preferidos:
1. "007: Quantum of Solace" (Marc Forster, 2008)
2. "007 Contra GoldenEye"
3. "007: Operação Skyfall"
4. "007: O Amanhã Nunca Morre" (Roger Spottiswoode, 1998)
5. "007 Contar Goldfinger" "simplesmente clássico"

"007: O Amanhã Nunca Morre":
"Minha mãe era fã desses filmes então eles tem espaço no meu 
coração, sem falar que foi o 007 da minha época"



Trilhas preferidas:
"Writing's On The Wall" - Sam Smith (filme "007 Contra Spectre")
"Skyfall" - Adelle
"Goldfinger" - Shirley Bassey 


Leocádia Costa

publicitária e produtora cultural
(Porto Alegre/RS)


Craig: melhor JB na
opinião de Leocádia
Melhor James Bond:
Daniel Craig
Sean Connery

Filmes preferidos:
1. "007 Contra Spectre" 
2. "007 Contra GoldenEye"
3. "007: Um Novo Dia para Morrer" (Lee Tamahori, 2002)
4. "Moscou Contra 007" (Young, 1964)
5. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"

Trilhas preferidas:
"James Bond Theme" - John Barry (filme ""007 Contra o Satânico dr. No")
"Goldfinger" - Shirley Bassey
"GoldenEye" -Tina Turner 
"Die Another Day" - Madonna (filme "007: Um Novo Dia para Morrer")




Clayton Reis

arquiteto, cartunista e blogueiro
(Rio de Janeiro/RJ)

Melhor James Bond:
Roger Moore

Filmes preferidos:
1. "007: O Amanhã Nunca Morre"
2. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
3. "007: Operação Skyfall"
4. "007: O Espião que me Amava"
5. "007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro" (Hamilton, 1974)

Trilhas preferidas:
"Diamonds are Forever" - Shirley Bassey 
"Tomorrow Never Knows" - Sheryll Crow (filme: "007: O Amanhã Nunca Morre")
"GoldenEye" - Tina Turner
"The World is so Enough" - Garbage (filme: "007: O Mundo Não É o Bastante")
"Live and Let Die" - Paul McCartney

A Garbage está entre as trilhas preferidas



Paulo Altmann

publicitário e blogueiro
(Campinas/SP)

"Goldfinger", listado pela maioria
e preferido de Altmann

Melhor James Bond:
Sean Connery

Filmes preferidos:
1. "007 Contra Goldfinger"
2. "007 Contra a Chantagem Atômica" (Terence Young, 1966)
3. "007 Contra o Satânico Dr. No"
4. "007: Operação Skyfall"
5. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"

Trilhas preferidas:
"You Only Live Twice" - Nancy Sinatra



Daniel Rodrigues

jornalista, escritor e blogueiro
(Porto Alegre/RS)

Moore: 0 James Bond mais querido pelos bondfãs

Melhor James Bond:
Roger Moore

Filmes preferidos:
1. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
2. "007: O Espião que me Amava"
3. "007 Contra Goldfinger" 
3. "007: O Amanhã Nunca Morrer"
4. "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade" 
5. "007: Operação Skyfall"

Trilhas preferidas:
"Live and Let Die" - Paul McCartney
"GoldenEye" - Tina Turner


*********

Resultado final:
Melhor James Bond:
Roger Moore - 5 votos
Sean Connery - 2 votos
Pierce Brosnan e Daniel Craing - 1 voto
George Lazemby e Timothy Dalton - o votos

Filmes preferidos:
6 votos
"007 Contra Goldfinger"

5 votos
"007: Operação Skyfall" e "Com 007 Viva e Deixe Morrer"


3 votos
"007: O Espião que me Amava", "007 Contra GoldenEye" e "007: O Amanhã Nunca Morre" 

2 votos
"007 Contra o Satânico Dr. No", "007 Contra GoldenEye", "007 Contra Spectre", "007 Contra o Foguete da Morte" e "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade"

1 voto
"007 Contra a Chantagem Atômica", "007: Cassino Royale", "007 Contra o Foguete da Morte""007 Na Mira dos Assassinos", "007: O Mundo Não é o Bastante", "007: Sem Tempo Para Morrer", "007: Quantum of Solace", "007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro" , "007: Nunca Mais Outra Vez", "007: Um Novo Dia para Morrer" e "Moscou Contra 007"

Trilhas preferidas:
4
"GoldenEye" - Tina Turner
"Goldfinger" - Shirley Bassey 

3 votos
"Live and Let Die" - Paul McCartney

2 votos
"Diamonds are Forever" - Shirley Bassey 
"Skyfall" - Adelle
"You Only Live Twice" - Nancy Sinatra

1 voto
"On her Majesty's Secret Service" - John Barry
"James Bond Theme" - John Barry
"Writing's On The Wall" - Sam Smith
"Tomorrow Never Knows" - Sheryll Crow
"The World is so Enough" - Garbage
"All the Time in the World" - Louis Armstrong 
"Die Another Day" - Madonna


Daniel Rodrigues

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

“Summer Of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, de Ahmir "Questlove" Thompson (2021)

 

Não parece aceitável que seja apenas o aperfeiçoamento dos recursos técnicos, capazes de recuperar com tecnologia digital filmes antigos, o motivo que explique porque estejam vindo somente agora a público certos registros do passado cujos espinhosos temas são necessários e urgentes para se entender a sociedade do hoje. O racismo, seja estrutural, velado ou institucionalizado, de alguma forma colabora para essa justificativa. Por que, então, não fosse por isso, somente após 60 anos de carreira, Tina Turner sentira-se à vontade para divulgar questões até então sujeitas à crítica de sua vida pessoal no documentário “Tina”? Igualmente, por que apenas dos últimos anos para cá tenham fervilhado docs  abordando abertamente este tema como "Os Panteras Negras: Vanguardas da Revolução" (2015), "What Happened, Miss Simone?" (2015), "Eu Não Sou Seu Negro" (2016), "A 13ª Emenda" (2016) e "Libertem Angela Davis" (2012)?

Esse esquecimento perverso quase fez o mundo perder de conhecer uma história praticamente apagada das mentes, mas que, salva pelas mãos do cineasta Ahmir "Questlove" Thompson, foi resgatada para a eternidade. “Summer Of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, o magnífico e arrebatador documentário que concorre, com todo merecimento, ao Oscar nesta categoria, explora o Harlem Cultural Festival de 1969, evento que reuniu multidões de pessoas negras pela primeira vez em um acontecimento público e ao ar livre nos Estados Unidos e grandes nomes da música negra para celebrar a cultura afro-americana. Apesar da magnitude do festival, as imagens recuperadas pelo filme ficaram guardadas por décadas – acredite-se – numa cave. A referência no título à música de Gil Scott-Heron, escrita originalmente naquele mesmo explosivo ano de 1969, deixa claro o tom de denúncia que choca e encanta ao mesmo tempo. Como essa história tão rica nunca havia sido contada?

Wonder dando adeus ao sufixo "Little"
e ganhando maturidade
no Harlem Cultural Festival


Montado com sensibilidade e perspicácia, “Summer...” une em sua narrativa didática jornalística com arqueologia urbana. Focado nos vários números musicais que se apresentaram no palco montado em pleno Mount Morris Park, as apresentações são entrecortadas por breves mas extremamente precisas informações documentais sobre aspectos sociais, políticos e biográficos que sustentam o objeto do filme, fazendo com que não seja apenas um amontoado de músicas seguidas umas das outras (o que, neste caso, já seria interessante). Minitelejornais sobre determinado artista, imagens de fatos sociais recentes como manifestações contra o racismo, ou contextualizações históricas necessárias, como a coincidência do festival com o dia da chegada do homem à Lua, 20 de julho, dão ainda mais peso àquelas performances que se veem no palco, agigantando-as de significado e importância.

Afora isso, a variedade de estilos (R&B, funk, gospel, blues, jazz) e o nível de qualidade do cast é de encantar qualquer admirador da música feita nos últimos 60 anos. B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Stevie Wonder, Sly & Family Stone, Gladys Knight & the Pips, The 5th Dimension, Max Roach e outros desfilam à frente dos olhos dos espectadores, dando a impressão de quase não se acreditar que aquilo um dia aconteceu. Mas está ali, vivo novamente. Afortunados que estavam na plateia e alguns daqueles artistas, como Marilyn McCoo e Ronald Townson, da The 5th Dimension, juntam-se aos espectadores comuns nesse assombro. Noutro grande mérito do filme de Thompson, pessoas que presenciaram o festival, seja assistindo ou se apresentando, são convidadas a reverem as imagens até então perdidas. Profundamente tocados, pois a revivência lhes retraz alegrias e dores, é impressionante perceber o quanto todos demonstram surpresa com o que veem, não só por somente agora terem a oportunidade disso, mas porque, não fosse a força intrínseca da imagem, do mistério divino que o cinema guarda, as memórias tendem a irem se apagando até, um dia, desaparecerem por completo. É o cinema documental exercendo suas duas primordiais funções: revelar e eternizar.

trailer de "Summer of Soul"

Além de um retrato do momento sociocultural de final dos conturbados anos 60, o filme serve também para se entender o próprio estágio em que se encontravam àquela época os artistas participantes, visto que, para alguns, o festival foi crucial para a carreira. Wonder, então com 19 anos, por exemplo, sobe ao palco do Harlem Cultural Festival exatamente no ínterim entre sua tutela artística pela Motown, iniciada quando ainda era uma criança, e o começo da maturidade criativa, que o levaria a se tornar um dos mais consagrados artistas de todos os tempos a partir de então. A Sly & Family Stone, igualmente. É impressionante perceber que “Stand!”, revolucionário disco de estreia da banda que mesclava o funk negro ao psicodelismo do rock com o grito contra as desigualdades, havia sido lançado apenas um mês antes da realização do festival e, mesmo assim, já era uma febre junto ao público. E o que dizer da apresentação explosiva de Nina?! Ou da homenagem a Martin Luther King, protagonizada por Mavis Staples e Mahalia!? De arrepiar. Se o assassinato do pastor e líder político ainda hoje não é totalmente assimilado pela comunidade negra, imagine-se à época, pouco mais de um ano anos após o trágico ocorrido e em que as feridas estavam abertas.

Mavis e Mahalia protagonizando
um dos momentos mais
emocionantes do filme
O paralelismo com fatos históricos daquele efervescente período está presente a cada minuto do longa, como a onipresença dos Black Panthers (responsáveis pela segurança do evento), a presença de figuras emblemáticas para a causa negra como o ativista Jesse Jackson e o protagonismo de Tony Lawrence, agitador cultural e organizador do festival. Somente assistindo-se o filme se entende com mais clareza, por exemplo, o porquê das críticas que sempre pairaram em relação à política de financiamento da corrida especial, intensificada pelos Estudos Unidos naquela década de 60 de Guerra Fria e disputa de poder com a União Soviética. Num dos momentos do filme, mostram-se reportagens da época com pessoas sendo entrevistadas durante o festival dizendo ser um absurdo o governo gastar bilhões de dólares para ir à Lua enquanto a população, ali, pobre e em sua maioria negra, passa por tanta dificuldade. Noutro ponto, mais um aspecto elucidativo de “Summer...”: o festival foi realizado, curiosamente, durante o mesmo verão que outro megaevento, o de Woodstock, o qual levantava não a perigosa bandeira da luta contra o racismo e dos direitos civis, mas a utópica máxima hippie de “paz e amor”. Não é difícil de saber qual festival entrou para a história e qual foi esquecido num porão...

“Summer...” não é só provavelmente o melhor documentário deste ano e forte candidato à estatueta da Academia, como um dos mais brilhantes sobre música da história do cinema, tranquilamente equiparável a clássicos do gênero como “O Último Concerto de Rock”, “Gimme Shelter” e “Amazing Grace”. Sua narrativa, que casa metalinguística e documentação histórica, é tão eficiente que lhe potencializa o caráter de espetáculo e de denúncia social num só tempo. A realização milagrosa de “Summer...” é, por si, reveladora, visto que funciona como uma metáfora da vida da América escravagista: preso num calabouço, o negro, até então fadado ao apagamento social, sai da condição subumana para forjar, com talento ímpar e força interior ainda mais admirável, toda a arte musical moderna como se conhece hoje.


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Protagonistas coadjuvantes

Michael dando um confere bem de perto no que seu
mestre Stevie Wonder faz em estúdio, nos anos 70
Não é incomum artistas da música que, mesmo sendo astros, têm por hábito participarem de projetos de outros, seja tocando em gravações, shows ou como convidados. George Harrison, por exemplo, muito tocou sua slide guitar em discos dos amigos John Lennon e Ringo Starr. Eric Clapton, igualmente, além da carreira solo e de bandas próprias como Cream e Yardbirds, também emprestou sua guitarra para Beatles, Yoko Ono, Tina Turner, Phil Collins e vários outros. Como eles, diversos: Brian Eno, Robert Wyatt, Flea, Eddie Van Halen ou brasileiros como Herbert Vianna, Gilberto Gil, Frejat e João Donato. Todos comumente contribuem com seus instrumentos e/ou voz na música que não somente a deles próprios.

Há também aqueles que dificilmente se supõe que fariam algo fora de seus trabalhos pelos quais são mais conhecidos. Mas vasculhando com atenção as fichas técnicas dos discos, acha-se. Vez ou outra se encontra um artista que geralmente é visto apenas como protagonista atuando, deliberadamente, como um coadjuvante. E não estamos nos referindo àqueles principiantes que, posteriormente, tornar-se-iam ilustres, caso de Buddy Guy em “Folk Singer”, de Muddy Waters, de 1959, na primeira gravação do jovem Guy, então com 18 anos, com o veterano bluesman, ou Jimi Hendrix nas gravações de 1964 com a Isley Brothers anos antes de transformar-se num ícone do rock.

Aqui, referimo-nos àqueles que, já consagrados, abriram mão de seu status em nome de algo que acreditavam seja para um disco, um projeto, uma música ou um show. São momentos em que se vê verdadeiros mitos descerem de seus altares para, humildemente, colaborarem com a música alheia, seja por admiração, amizade, sentimento de dívida ou o que quer que explique. O fato é que esses “protagonistas coadjuvantes”, mesmo que estejam escondidos ou somente encontráveis nas miúdas letras da ficha técnica, abrilhantam com seus talentos peculiares a obra de outros.


Robert Smith para Siouxsie & The Banshees

Os anos 80 foram de inquietude para Robert Smith, líder da The Cure. Sua banda já era uma das mais celebradas do pós-punk britânico em 1983 quando ele, que havia lançado um ano anos o disco único “Blue Sunshine”, da The Glove, projeto em parceria com Steven Severin, decide dar um tempo com o grupo. Mas para quem estava a pleno naquela época, Bob “descansou carregando pedra”, como diz o ditado. Ele decide fazer parte da Siouxsie & The Banshees, banda coirmã da The Cure, mas estritamente como integrante. Com os vocais e o palco já devidamente preenchidos por Siouxsie, Robert assume as guitarras e une-se a Severin (baixo) e Budgie (bateria) para compor a melhor formação que a Siouxsie & The Banshees já teve. Não deu outra: dois discos, duas pérolas, para muitos os melhores da banda: “Hyenna” e o ao vivo “Nocturne”




Miles Davis
para Cannonball Adderley
Mais do que na música pop, é comum no jazz grandes astros e band leaders tocarem na banda de colegas. Isso não funciona, entretanto, para Miles Davis. O talvez mais exclusivo músico do jazz havia tocado no início da carreira para Sarah Vaughan, mas depois jamais fez nada que não fosse tão-somente seu. Até que, com jeitinho, em 1958, o amigo Cannonball Adderley convida-o para participar das gravações de um disco que ele estava por lançar e no qual teria ainda Art Blakey, na bateria, Hank Jones, no piano, e Sam Jones, no baixo. Uma sessão de gravação apenas, só cinco números, algumas horinhas de estúdio com Rudy Van Gelder na mesa, engenheiro com quem Miles tanto estava acostumado a trabalhar. "Não vai custar nada. Diz, que sim, diz que sim!" Tanto foi, que Miles topou, e saiu "Somethin' Else", aquele que é o disco que antecipa a obra-prima “Kind of Blue”, em que, reassumido o posto de front man, aí é Miles que conta com o parceiro saxofonista na banda. Tudo de volta ao normal.


Paul McCartney para Foo Fighters
É conhecida a versatilidade de Paul McCartney. Multi-instrumentista, ele é capaz de tocar, em apenas um show, vários instrumentos ou gravar um disco inteirinho sozinho sem precisar de mais ninguém no estúdio. Quem também fez isso foi Dave Grohl, líder da Foo Fighters, que, no álbum de estreia da banda, em 1995, toca não apenas a bateria, que era seu instrumento na Nirvana, como todos os outros. A amizade e talvez essa semelhança tenham feito com que chamasse o eterno beatle para uma empreitada 12 anos depois. Fã de Macca, ele convidou o veterano músico para gravar para ele não a guitarra, o piano ou a voz. Isso, muita gente já havia feito. Ele pediu para Paul tocar justamente bateria. A “brincadeira” deu super certo, como se vê na canção "Sunday Rain" presente no disco "Concrete And Gold".


Michael Jackson para Stevie Wonder
É uma música apenas, mas considerando o tamanho deste “coadjuvante”, vale por um disco inteiro. A linda e melodiosa “All I Do”, que Stevie Wonder gravaria em seu “Hotter than July”, de 1980, conta com ninguém menos que Michael Jackson nos vocais. E não se trata da voz principal, e sim do backing vocals! Surpreende ainda mais que o Rei do Pop já havia lançado à época o megassucesso “Off the Wall”, de um ano antes, com o qual revolucionaria a música pop e que quebrara os paradigmas de vendas da música negra no mundo. Mas a devoção de Michael para com Stevie era tamanha, que ele nem se importou em fazer um papel secundário. Para quem era conhecido pela habilidade de canto e arranjos de voz, no entanto, o que seria uma mera participação contribui sobremaneira para a beleza melódica da canção.



David Bowie
 para Iggy Pop
Em meados dos anos 70, Iggy Pop e David Bowie estavam bastante próximos. Bowie havia chamado o amigo para uma temporada em Berlim, na Alemanha, onde desfrutariam do moderno estúdio Hansa para erigir alguns projetos, dentre estes, “The Idiot”, no qual dividem todas as autorias e gravações. O período foi tão fértil, que rendeu também uma turnê, registrada no álbum ao vivo “TV Eye Live 1977". Acontece que, no palco, não dá para apenas os dois se resolverem com os instrumentos. Foi então que chamaram os Sales Brothers para o baixo e bateria, Ricky Gardiner, para a guitarra, e... quem assumiria os teclados? Ah, chama aquele cara ali que tá de bobeira. O próprio David Bowie. Quando se escuta as versões ao vivo de “Lust for Life”, “I Wanna Be Your Dog” e “Funtime”, acreditem: os teclados que se ouvem são do Camaleão do Rock. 



Phlip Glass
 para Polyrock
O cara já tinha composto de um tudo: ópera, concerto, sinfonia, madrigal, trilha sonora, sonata, estudos. Faltava uma coisa: música pop. Próximo do músico e produtor Kurt Monkacsi, o gênio da vanguarda californiana Philip Glass “apadrinhou” junto com este a new wave art rock Polyrock. Dizem nos bastidores, que o cérebro da banda é Glass e não só os irmãos Billy e Tommy Robertson tamanha é a identificação com a música minimalista do autor de "Einsten on the Beach". Seja por grandeza, timidez ou algum problema legal, o fato é que isso não consta nos créditos. O que consta, sim, é a participação do maestro tocando piano e teclados nos dois discos do grupo, “Polyrock”, de 1980, e “Changing Hearts”, de um ano depois, no qual, inclusive, assina oficialmente o arranjo de cordas da faixa-título. Daqueles raros momentos em que a música de vanguarda se encontra com o rock.





João Gilberto para Rita Lee
Se hoje a participação de João Gilberto tocando violão para Elizeth Cardoso em duas faixas de “Canção do Amor Demais”, de 1958, é considerado o pontapé inicial para o movimento da bossa nova, àquela época o gênio baiano era apenas um músico iniciante ao qual não se havia ouvido ainda toda sua arquitetura sonora de instrumento, voz e harmonia. 24 anos depois, já um mito, João dificilmente repetia uma ação como aquela do passado. Quisessem tocar com ele, ele que convidava. Exceção feita nos anos 80 para sua então esposa, Miúcha (e somente o violão), mas especialmente para Rita Lee. Admirador confesso da Rainha do Rock Brasileiro, João topou o convite de gravar ele, seu violão e sua atmosfera única a faixa “Brasil com S”, do disco “Rita Lee & Roberto de Carvalho”, autoria dos dois. Pode-se dizer que, como todo o cancioneiro de João, é mais uma obra-prima, porém a única em que põe sua voz à serviço de um outro artista fora da sua discografia. Privilégio.


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ry Cooder - “Bop Till You Drop” (1979)




"Eu tinha tudo pronto, quando um desses incompetentes gerentes de gravadora ouviu a demo e decidiu que era uma merda de cachorro e que não valia a pena gravar, de modo que não me deixaria fazer isso. Aí então que eu a gravei [“The Very Thing That Makes You Rich (Makes Me Poor)”] em “Bop...” e, de repente, eles queriam saber quem era esse autor Sidney Bailey. Ridículo. Agora, até mesmo a gravadora não pode localizá-lo para lhe pagar os seus royalties. De repente, ele poderia estar sentado neste momento numa prisão e esse dinheiro poderia tirá-lo de lá. Ou talvez ele esteja doente e precise de uma operação...” 
Ry Cooder, em 1981




Fui apresentado ao Ry Cooder pelo meu amigo, colega de Famecos e atualmente professor de Filosofia da PUC, Cláudio Almeida. Ele foi aos Estados Unidos num período no final dos anos 70 e trouxe na bagagem uma fita cassete de um disco chamado “Bop Till You Drop”. Virou hit lá em casa e nas casas de amigos, especialmente na de Mauro Magalhães. A partir deste disco, começamos uma busca incessante pelos outros trabalhos do cara, um guitarrista de mão cheia e uma espécie de arquivo vivo da música americana do Século XX. É dele aquele solo lancinante de “Sister Morphine” dos Rolling Stones.

Como um profundo conhecedor da “americana”, Cooder resolveu revisitar o rhythm and blues neste disco. E se deu muito bem. O trabalho é um triunfo estilístico bem ao estilo do guitarrista. Como se não bastasse, Cooder ainda tem o que se convencionou chamar de uma voz “blue-eyed soul”, ou seja, um branco que canta como um negro.

“Bop Till You Drop” começa com uma versão de “Little Sister”, canção de Doc Pomus & Mort Schuman que foi gravada por ninguém menos do que Elvis Presley. Como eu não gosto do “rei do rock”, prefiro o clima R&B que Cooder e seus comparsas (David Lindley na guitarra e no slide guitar; Tim Drummond no baixo; Jim Keltner na bateria; Milt Holland na percussão mais os maravilhosos vocais de Bobby King, Herman Johnson e Cliff Givens) colocam no caldeirão.
“Go Home Girl” é um bolero muito engraçado, quase um reggae. Toda em cima da percussão de Holland, do órgão de Barron e das guitarras e violões de Cooder e Lindley, a canção relata as desventuras de um cara que se mete num triângulo amoroso com a namorada de seu melhor amigo. “Go on go home girl / You better go on home / You better move on” ("Vá para casa, menina/ É melhor você ir para casa / É melhor você seguir em frente"), diz ele, mandando a garota embora, apesar de amá-la muito. Segundo ele, o “amor de uma mulher e o amor de um amigo são duas coisas que não podem ser comparadas”. Num determinado momento, Frank empresta o carro para seu amigo e fica esperando, em casa. Mal sabe ele que seu amigo está dispensando SUA namorada neste exato momento. Pra fechar, Bobby King dá a primeira de muitas estrebuchadas vocais que fazem deste disco uma delícia de ouvir.

The Very Thing That Makes You Rich (Makes Me Poor)” tem uma história interessante. Composta pelo taxista Sidney Bailey, a música foi dada a Cooder num cassete pelo próprio autor, quando o guitarrista entrou em seu carro. Até aí, nada demais. O que Cooder não sabia é que já havia gravado outras duas composições de Bailey em seu disco “Paradise and Lunch”: “Fool for a Cigarrette / Feelin' Good”, que havia encontrado numa editora. Brilham mais uma vez as guitarras de Cooder e Lindley. Keltner faz misérias na bateria. E os vocais parecem saídos direto de uma missa de domingo numa igreja batista. E a letra é divertidíssima, pois é misógina de uma maneira jocosa: “Meu pai me disse em seu leito de morte / Rapaz, a mulher vai conseguir o que quiser, não se engane / Porque ela tem uma coisa que faz / o homem deixar o dinheiro bem na mão dela / e a exata coisa que faz ela rica / te faz pobre”. Sensacional filosofia popular. Mais adiante, o pai continua a aconselhar seu filho: “Nunca, de maneira alguma, cometa este erro / Prefiro subir numa cama com uma cascavel / do que trabalhar duro todos os dias pra dar meu dinheiro pra ela”. À medida que a canção avança, os vocais vão entrando naquele clima de pergunta e resposta bem ao estilo soul music. Uma das grandes surpresas do disco vem a seguir; “I Think It's Going to Work Out Fine”, música que foi gravada por Ike & Tina Turner. Aqui, numa versão instrumental, onde Ry Cooder e David Lindley carregam a melodia nas guitarras elétricas, enquanto o mandolin faz a base.

A única composição original do disco, “Down in Hollywood” é de autoria de Cooder e do baixista Drummond e traz a primeira participação da cantora funky Chaka Khan. No refrão, eles avisam os incautos que vão passear de carro em Los Angeles: “Passeando em Hollywood / é melhor que você não fique sem gasolina / Ele vai te tirar do seu carro e chutar seu traseiro / Eles estão parados numa esquina esperando um trouxa como você / Se você quer permanecer saudável, é melhor seguir em frente”. E aí começam a aparecer todas as figuras que habitam as noites de Hollywood: os gays, os cafetões, as prostitutas, os policiais. Tudo embalado por um clima soul-funk. De certa maneira, Cooder previa os temas dos rappers de hoje, em especial a violência urbana.

“Look at a Granny Run Run” foi grande sucesso na voz de Howard Tate, um cantor de soul music da segunda metade da década de 60. A recriação de Cooder mantém o sabor original da primeira versão, mas acrescenta um astral de blues, com o mandolin e seu violão de aço fazendo a introdução. O vovô fica correndo atrás da vovó, vocês imaginam com que intenção, né? Lá pelas tantas, o vovô deixa tudo explícito: “Olhe aqui, mamãezinha, pare de correr/ tudo o que eu quero é fazer um amorzinho antes que chegue a minha hora/ Não tem nada errado com isso”.

“Trouble, You Can't Foll Me” mantém a levada R&B com ênfase no blues, especialmente nas guitarras e violões que fazem uma teia de sons, segurando a onda de Cooder e seus backing vocals. As mulheres continuam a ser um problema, mas elas não podem enganá-lo. “Estou te vendo atrás daquela árvore”.

A faixa seguinte, “Don't Mess Up a Good Thing”, foi sucesso com a cantora Fontella Bass, mas aqui vira um funky superdançante com a bateria de Keltner fazendo aquela batida soul, mantendo o clima dado pelas guitarras e pelo órgão, enquanto Cooder e Chaka Khan conversam. A mulher pede que ele “não estrague uma coisa boa” e o homem diz que “mesmo que tenha pulado a cerca de vez em quando, o cheque do pagamento vai pra ela”. É interessante que Cooder revisite o R&B dos anos 50 e 60, quando as mulheres ainda não tinham voz ativa na sociedade e eram figuras decorativas que só pensavam em gastar o dinheiro de seus maridos. O revisionismo de Ry Cooder chega a este ponto, quase que um tema só no disco inteiro, apesar das composições serem todas diferentes.

Pra fechar este maravilhoso disco, “I Can't Win”, uma balada soul entoada pelo incrível Bobby King. Cooder se dá ao luxo de fazer backing vocal pro seu backing! E se você não se dobrou totalmente por este disco e esperou até o último momento, chegou a sua hora de ajoelhar e rezar na igreja de São Ry! Esta não é uma canção. É uma prece! “Tenho tentado muito encontrar um caminho pro seu coração/ mas não consigo ganhar/ seu amor”. É uma canção de coração partido, triste como ela só. Mas com este astral gospel americano de verdade e não esta chinelagem travestida e “universalizada” (se é que vocês me entendem) que a gente ouve por aí. Se não tivesse acompanhamento musical, esta ainda seria a melhor canção do disco inteiro. É de arrepiar os cabelos. Vozes de verdade, sentimentos de verdade. Há quanto tempo, você não ouvia falar nisso, hein? Bobby King ganhou este presente de Ry Cooder, que repassou para nós, ouvintes.
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FAIXAS:
1. "Little Sister" (Doc Pomus, Mort Shuman) – 3:49
2. "Go Home, Girl" (Arthur Alexander) – 5:10
3. "The Very Thing That Makes You Rich (Makes Me Poor)" (Sidney Bailey) – 5:32
4. "I Think It's Going to Work Out Fine" (Rose Marie McCoy, Sylvia McKinney) – 4:43
5. "Down in Hollywood" (Cooder, Tim Drummond) – 4:14
6. "Look at Granny Run Run" (Jerry Ragovoy, Mort Shuman) – 3:09
7. "Trouble, You Can't Fool Me" (Frederick Knight, Aaron Varnell) – 4:55
8. "Don't Mess Up a Good Thing" (Oliver Sain) – 4:08
9. "I Can't Win" (Lester Johnson, Clifton Knight, Dave Richardson) – 4:16

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OUÇA O DISCO: