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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Erasmo Carlos - “Banda dos Contentes” (1976)


"'Banda dos Contentes' não é redondo, fechado, nem sufocante. É um trabalho livre, aberto, de um rock muito simples, girando em torno de um mundo real." 
Eliane Martins, em matéria da revista Pop, na época do lançamento de "Banda dos Contentes"

"Mudei. Mudei para melhor. Agora não sou mais galã de Jovem Guarda. Não me preocupo mais com a imagem. Eu estava sufocado, agora estou mais livre." 
Erasmo Carlos, em 1976

Roberto Carlos já havia deitado no divã da psicanálise 4 anos antes. Erasmo Carlos, coautor da canção gravada pelo “irmão camarada” em 1972, sentia que precisava de algo parecido. O Erasmo agora pai, casado, com carreira profissional consolidada e livre de vez da imagem do rapaz suburbano alçado ao estrelato da Jovem Guarda sabia que devia também se entender melhor. Mas se para alguns o processo terapêutico embaralha as emoções, para ele o aprofundamento em si mesmo foi revolucionário – e se deu através da própria música. “Banda dos Contentes”, álbum de 1976 que completa 50 anos de lançamento, é a prova disso, pois capta um homem honesto consigo e que, diante das mudanças do mundo daquela época, buscava se encontrar de coração e asas abertas.

Musicalmente, Erasmo já vinha exercitado seu lado tropicalista e independente da figura neo-romântica de Roberto desde “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970, passando pelo celebrado “Carlos, Erasmo”, de 1971, e pelo não menos “memorável” “Sonhos e Memória (1941-1972)”, de 1972. Em “Banda...”, o antigo garotão de “Gatinha Manhosa” e “Fama de Mau” chega maduro como músico e como pessoa. Isso se refletia na banda que escolhera trazer para perto de si: a fidelidade do “mutante” Liminha no baixo, a bateria esperta de Elber Bedaque, a guitarra roqueira de Rick Ferreira e a sofisticação jazz-samba do piano de Antônio Adolfo, além das participações de grandes músicos como Perna Fróes, Ruy Maurity, Rubão Sabino e do grupo Karma nos backings.

A diversidade sonora e a caprichada produção, a cargo de Guti e do próprio Erasmo, dão conta de um repertório que mantém o alto nível do início ao fim, com uma construção narrativa típica de quem sabe o que está fazendo. E mais legal é que, contrariamente a uma possível densidade em razão da influência psicanalítica, o disco une saudavelmente reflexões existenciais e filosóficas com sua caracteristicamente saborosa melodia. Até a arte visual é contaminada por esse olhar. No encarte do LP, Benício desenha vários homens se digladiando violentamente. Todos têm o rosto de Erasmo...

A faixa-título, com letra que parece ter saído fresquinha de uma sessão de terapia, é ao mesmo tempo fatídica e engraçada. ‘Às vezes olho no espelho/ Não vejo minha cara/ E com que cara que eu vou me mostrar/ Dentro de mim/ Com o meu saco cheio/ Porque a vida me fez/ Somente do meu tamanho”, dizem os versos. Mas o olhar freudiano contamina, de uma forma ou de outra, praticamente todo o repertório escolhido. O hit “Filho Único”, que inicia o disco e que foi tema de abertura da novela da Rede Globo Locomotivas, é uma das músicas mais sensíveis de toda aquela geração. Com uma letra que fala da busca de autonomia e independência de um filho sem irmãos para com sua genitora, traz alguns dos versos mais duros que a música brasileira já escreveu, justamente por contar uma verdade pouco admitida na sociedade daqueles idos: a de que os filhos são do mundo, não dos pais. O mundo agora é seu dono, “e nos seus planos não estão você”. Ele e Roberto, autores, abrem dizendo: “Ei mãe, não sou mais menino/ Não é justo que também queira parir meu destino”. Quer sentença mais psicanalítica que essa? Uma das joias do pop rock brasileiro de todos os tempos.

Arte de Benício no encarte do LP: vários Erasmos
contra eles mesmos
Sem deixar cair a peteca, Erasmo traz um então pouco conhecido compositor cearense chamado Belchior, que Elis Regina e Vanusa já haviam gravado mas que ainda nem havia lançado seu primeiro álbum, o hoje histórico “Alucinação”, daquele ano. A faixa é a clássica “Paralelas”, com sua letra forte e poética (“E no escritório em que eu trabalho e fico rico/ Quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”) e melodia/arranjo tanto quanto.

E se é para manter o nível lá em cima, nada melhor do que uma inédita como “Queremos Saber” na sequência. Assim como Caetano Veloso havia dado a Erasmo “De Noite na Cama” anos antes, agora era o outro tropicalista-mor, Gilberto Gil, que lhe presenteava com uma canção. E que canção! Indagadora, esta delicada balada caía como luva para a voz doce de Erasmo. Quem não há de ficar impactado (ou, pelo menos, reflexivo) com esses versos?: “Queremos notícia mais séria/ Sobre a descoberta da antimatéria E suas implicações/ Na emancipação do homem/ Das grandes populações/ Homens pobres das cidades/ Das estepes, dos sertões”. Cássia Eller regravaria “Queremos...” 25 anos depois e as interrogações continuariam as mesmas...

Em época de autoanálise, por que também não promover a investigação do que se põe como externo? É o que Erasmo e Roberto, em mais uma da dupla no disco, fazem, literalmente, com muita “descontração”. Monstro do Lago Ness, Carnaval, 10 Mandamentos, homem na Lua, guerras: está tudo em “Análise Descontraída”. Erasmo mostra-se indignado e incrédulo com o que vê à sua volta. “Eta mundo velho/ Você me parece ainda um ovo/ Ou então precisa urgentemente se acabar pra nascer de novo”. Morte, nascimento, valores ultrapassados, violência, modernidade confusa... Mais uma vez, a bendita terapia pegando.

Uma epifania em um cenário turbulento, “Dia de Paz”, de Jorge Mautner e Adolfo, evoca o Erasmo hippie de “Gente Aberta” e “Por Cima dos Aviões”. Outra que parece se deslocar no tempo e espaço para fugir um pouco da realidade é “Continente Perdido (Terra de Montezuma)”, uma fenomenal composição de Maurity e José Jorge, que conta com flautas e arranjos de Perna e uma sonoridade toda latina de raiz. Ousadias que Erasmão se permitia. Assim como a deliciosa “Baby”, mais uma de autoria com Roberto, um funk matador aos moldes de “Mundo Deserto” em que volta a usar sua verve contestadora para criticar... os homens como ele! Em sua descida às próprias profundezas, Erasmo, diante de uma feminista empoderada, vê-se inerte. “Deixe os seus protestos e os manifestos/ Pra outra periferia/ Não fui eu quem fez as leis/ Que não lhe dão maior autonomia/ Mas, se não dá/ Vamos fazer o nosso amor num outro dia”. Genial! Com uma linha de sopros de primeira, o baixo pulsante de Rubão, a bateria suingada de Pascoal Meirelles e as guitarras de Perna e Gabriel O’Meára, tem ainda o bass vocal de Erasmo marcando o ritmo.

Igualmente a “Dia de Paz”, “Fatos e Fotos”, de Luiz Mendes Jr. e Renato Terra, integrantes da Karma, baixa de novo a rotação numa canção romântica como as que Erasmo era craque em interpretar desde a Jovem Guarda. Isso porque, para encerrar, ele manda ver num country-rock ao mesmo tempo empolgante, lúdico e audacioso: “Billy Dinamite”, dele e de Rick. Audacioso, primeiramente, na concepção, haja vista que é a primeira música, após quase 20 anos de carreira artística, escrita com outro parceiro que não Roberto. Depois dele, viriam muitos outros, de Marisa Monte a Nelson Motta, de Samuel Rosa a Emicida. Narrando uma história típica de um livrinho barato do Tex, em que um mocinho se apaixona pela filha do cacique da tribo inimiga e, sabendo que sentenciara a própria morte por causa do amor, “fez a cama na montanha para ficar mais perto do céu”.

O anterior “Carlos, Erasmo”, seu mais cultuado álbum, bem como os posteriores “Erasmo Carlos Convida” (1980), “Mulher” (1981) e, já da última fase, “Rock‘n’Roll” (2009), são considerados marcos na discografia do Tremendão. Porém, nenhum outro é tão autoral e fala tanto sobre o próprio artista como “Banda...”, um divisor-de-águas em sua carreira. Com sua "cuca legal"“descontente” com o que devia ser, Erasmo antecipava, por exemplo, a crítica à masculinidade tão em voga hoje, expondo angústias, dúvidas, insatisfações e, principalmente, fragilidades do homem moderno. No brutalizado Brasil dos anos 70, de ditadura militar e supremacia da machosfera, Erasmo era um homem que chorava e se permitia emocionar. “Banda...” reflete, assim, mais do que qualquer outro trabalho seu aquilo que sempre lhe atribuíram: o de ser um verdadeiro Gigante Gentil em um mundo de cada vez menos gentilezas. 

videoclipe do Fantástico de "Billy Dinamite"

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. "Filho Único" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:40
2. "Paralelas" (Belchior) - 2:55
3. "Queremos Saber" (Gilberto Gil) - 3:54
4. "Análise Descontraída" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:30
5. "Dia de Paz" (Jorge Mautner/ Antonio Adolfo) - 3:30
6. "A Banda Dos Contentes" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:10
7. "Continente Perdido (Terra de Montezuma)" (José Jorge/ Ruy Maurity) - 5:05
8. "Baby" (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos) - 3:25
9. "Fatos e Fotos" (Luiz Mendes Jr./ Renato Terra) - 3:01
10. "Billy Dinamite" (Erasmo Carlos/ Rick Ferreira) - 4:18

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Erasmo Carlos - "Carlos, Erasmo..." (1971)

"A música impediu que eu fosse para o crime"
Erasmo Carlos



Depois de protagonizar junto com Roberto Carlos o estouro da Jovem Guarda, tornando-se um dos artistas de maior popularidade do Brasil, Erasmo, no final dos anos 60, viu-se numa encruzilhada. Roberto, ídolo de multidões, guinara sua carreira para um exitoso e popular estilo misto de bolero, balada e MPB, mais “adulto” que o iê-iê-iê e adequado a uma classe média de um economicamente milagroso país ditatorial. Erasmo, obviamente, não podia ocupar o mesmo lugar que o parceiro. O negócio seria seguir outro caminho. Então, fez uma escolha: dar vazão à sua mente criativa e “alternativa”. O marco inicial e auge desta fase é o brilhante disco “Carlos, Erasmo...” , de 1971. Em clima de reunião musical com os amigos, ele se liberta da pecha de coadjuvante e realiza um álbum “cariocamente” descolado e, ao mesmo tempo, psicodélico, onde se vale do samba, rock, música cubana, soul e baião – não necessariamente nesta ordem.
A começar pelo título, ratificando de qual dos “Carlos” se está falando, o disco é a afirmação da indenidade de Erasmo como artista. E isso se percebe como conceito em todas as faixas, deixando a sua marca em todas elas. Tal como no seu trabalho anterior (“Erasmo Carlos & os Tremendões, 1970), Erasmo gravara uma música de Caetano Veloso; mas desta vez, ao invés de somente interpretar, como bem fizera com a bossa nova “Saudosismo”, Erasmo reinventa a canção do baiano. Encomendada por ele a Caetano, à época ainda no exílio em Londres, “De Noite na Cama” é uma verdadeira ode a esta nova fase do Tremendão: como numa festa com muitas vozes ao fundo e com participação de toda a galera da banda no coro (entre eles os ex-Mutantes Dinho Leme e Liminha), a faixa que abre o disco traz um maravilhoso berimbau acompanhando o baixo (engenhosa ideia que o RPM repetiria 17 anos depois em “A Estratégia do Caos”, do álbum “Os 4 Coiotes”), uma guitarra afiada na base e uma cuíca chorando por toda a melodia. Um show! Misturando samba, soul, rock e baião, Erasmo celebra o Tropicalismo de Caetano e Gil e demarca sua entrada no segundo momento deste movimento, influência que confirmaria nos seus álbuns seguintes daquela década.
O disco traz lindas parcerias com Roberto: a swingada “É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo”, a “viajante” “Sodoma e Gomorra” e a rumba “chapada” “Maria Juana” – na qual a dupla, muito antes do Planet Hemp popularizar a verdinha, capciosamente proclamava: “Eu quero Maria Joana”. Outra incrível dos dois é “Mundo Deserto”, um funk no melhor estilo Motown e de ótima letra em que Erasmo solta o gogó, mostrando toda sua influência da black music americana.
O disco traz ainda outras duas pérolas. Uma delas é outra versão de muita criatividade, desta vez prestando vivas a outro amigo tropicalista, Jorge Ben, na genial “Agora Ninguém Chora Mais”. Nesta, Erasmo convoca os parceiros Golden Boys, Fevers, MPB4 e a banda de apoio para cantarem junto com ele, formando uma capa sonora densa e de rara beleza. Com arranjo do maestro-maluco Rogério Duprat, a música de Ben vira um funk sincopado com efeitos psicodélicos, como ruídos “espaciais” e um impressionante solo de sino (!). A guitarra pesada, lembrando Funkadelic, sai dos dedos de outro artista referência do Tropicalismo, o “inglês brasileiro” Lenny Gordin. O resultado é uma obra-prima, que consegue ser melhor que a original. E, como se não bastasse, uma jogadinha genial: o coro, após cantar toda a primeira parte, se duplica na segunda, só que invertendo as estrofes, fazendo com que dois coros se sobreponham, reencontrando-se no final no verso: “Chora maaaaaais...”, o que provoca um efeito impressionante. Simples, mas de pura criatividade. Com poucos recursos (a hoje precária mesa de 16 canais dos estúdios da Phillips), Erasmo alcança nesta música um resultado tão moderno que é de fazer um Beck corar de vergonha.
Quase tão legal quanto, “Dois Animais na Selva Suja da Rua”, de Taiguara, além da letra reflexiva e poética (“Por isso somos iguais/ Nós somos dois animais que se animam/ que se amigam...”), tem a base marcada por notas fortes de piano e um instrumental intenso, chegando ao ápice no refrão, quando todos os elementos se adensam, inclusive a linda orquestração de cordas do maestro Chiquinho de Moraes.
Cult, “Carlos, Erasmo...”, 31º entre os 100 melhores discos da MPB pela Rolling Stone, é seguramente mais vanguardista e contemporâneo do que muita coisa que se faz hoje dentro e fora do Brasil. Ao se comemorar os 50 anos de carreira de Erasmo Carlos, uma justa homenagem a um dos grandes artistas brasileiros vivos.
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FAIXAS:

  1. "De noite na cama"
  2. "Masculino, feminino"
  3. "É preciso dar um jeito, meu amigo"
  4. "Dois animais na selva suja da rua"
  5. "Agora ninguém chora mais"
  6. "Sodoma e Gomorra"
  7. "Mundo deserto"
  8. "Não te quero santa"
  9. "Ciça, Cecília"
  10. "Em busca das canções perdidas nº 2"
  11. "26 anos de vida normal"
  12. "Maria Joana"

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Ouça:
Erasmo Carlos - Carlos, Erasmo...
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Altamente recomendáveis também os discos “Sonhos e Memórias: 1941-1972” (1972), que traz clássicos como “Mané João” e “Mundo Cão” (da trilha do filme “Os Machões”, pelo qual Erasmo foi premiado como Melhor Ator no Festival de Cinema de Brasília), e o excelente “Banda dos Contentes” (1976), disco que marcou época pelo enorme sucesso da faixa de abertura, "Filho Único", da trilha de uma novela da Globo, e que conta também com uma das melhores canções de Gilberto Gil, feita especialmente para Erasmo: “Queremos Saber” (regravada por Cássia Eller no seu Acústico MTV).

Ouça também:
Sonhos e Memórias
Banda dos Contentes

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Roberto Carlos - "Roberto Carlos" (1975)


“Seu carisma e sua bondade levam muitas pessoas a mitificá-lo num patamar de uma entidade como um anjo ou coisa assim. Embora o chamem normalmente de ‘Rei’, já ouvi alguns o chamarem de ‘santo’ e até de ‘Deus’. Para mim, é o Amigo, com maiúscula.” 
Erasmo Carlos 

Não são infundadas várias das acusações que recaem sobre Roberto Carlos. Que ele é pouco generoso com outros artistas. Que deliberadamente “puxou o tapete” de novas estrelas que podiam ameaçar seu trono. Que deixou de usar o seu poder midiático para enfrentar a Ditadura Militar enquanto colegas eram perseguidos, presos ou mortos. Que passou a agir de forma cada vez mais excêntrica e maniática. Que tornou paulatinamente sua música cafona, principalmente, pela intensificação da imagem católica. Que faz décadas que não produz nada que o valha. Mas uma coisa é impossível contestar: Roberto é o Rei. Dizer que ele nunca compôs uma das centenas de músicas que gravou ou dedicou a outros músicos, como alguns ilógicos sustentam, é tão loucura quanto acreditar que o homem não foi à Lua ou que Elvis Presley não morreu. Amor e ódio são dois lados da mesma moeda deste personagem único no Brasil, o qual completa 80 anos de vida hoje.

É inquestionável que o Roberto Carlos Braga, nascido neste mesmo dia 19 de abril na sua natal Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, no longínquo ano de 1941, seja altamente carismático e dono de uma das obras mais gigantescas da música brasileira, talvez a única em toda a América Latina da segunda metade do século XX a unir com tamanho êxito arte autoral e apelo popular. Da fase inicial, no final dos anos 50, em que passou dos boleros ingênuos para a quase tão ingênua Jovem Guarda, revolucionando a música e a indústria fonográfica brasileiras, à segunda e mais duradora, em que se torna o maior cantor do Brasil, há um longo caminho repleto de discos quase que invariavelmente autointitulados e regulares. Sem variação, no entanto, são seus resultados. Estima-se que, nos 62 anos de carreira, tenha vendido, até hoje, cerca de 140 milhões de discos.

A maioridade de RC, que havia se solidificado na virada dos anos 60 para os 70, não foi assim, tão linear quanto possa parecer. Amadurecido artística e pessoalmente, ele, maior nome do staff de sua gravadora, a CBS, sabia e tinha carta branca para criar obras que juntassem o frescor da fase anterior às novas perspectivas do mercado que se abriam à sua frente com o envelhecimento natural de seu público. Atinado, ele engendra isso com sabedoria e coesão. Caso deste disco de 1975, seu 15º no mercado brasileiro, em que traz, além de clássicos imortais do cancioneiro nacional, versões de outros autores, como sempre fez muito bem, e temas escancaradamente românticos, aqueles que punham as mulheres da incipiente classe média brasileira a suspirar. Mesmo essas últimas, mais bregas, como “Elas por Elas” e “Desenhos na Parece”, são tão bem apresentadas em arranjos das mãos Horace Hott e Lee Holdridge, que agradam ouvidos dos seletivos aos mais ousados.

Naquela metade dos anos 70, Roberto tinha o mundo em suas mãos. E sabia disso. Para tanto, contava com a parceria iluminada do “irmão camarada” Erasmo Carlos, com quem dividiu centenas de autorias ao longo de mais de três décadas – na grande maioria, as melhores de seu cancioneiro. “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, hit do álbum, é exemplar neste sentido. O arranjo para a música de 1965, originalmente do álbum "Jovem Guarda", é um misto de soul e rock e mostra um compositor maduro, mas ligado a suas origens dos tempos do Clube do Rock e da adolescência no bairro carioca da Tijuca. Fã de Elvis, Little Richard e James Brown, mostrava estar viva essa ligação com a alma contestadora do rock, inclusive ainda permitindo-se dizer com naturalidade e poesia palavras "negativas" como “inferno”, coisa que a tacanhice cristã ridiculamente o impede hoje.

A dupla Roberto e Erasmo: alta produção nos anos 70
Outras três da dupla Roberto/Erasmo, todas clássicas: a balada country-humanista “O Quintal do Vizinho”, a romântica “Olha” – sucesso na voz de Maria Bethânia, em 1993, e que ganharia, 32 anos de sua estreia, uma bela versão bossa nova do coautor Erasmo com a participação de Chico Buarque – e o memorável samba-rock “Além do Horizonte” – também regravada por Erasmo, em 1980, mas aí contando com o vozeirão do tijuacano como eles: Tim Maia. Nesta, RC se vale de sua habilidade inigualável de interpretação aliada ao arranjo do maestro norte-americano Jimmy Wisner, que faz as cordas dialogarem com seu vocal.

Outra vertente que o disco solidifica é a apropriação do cancioneiro em espanhol, nova porta internacional que começava a se mostrar promissora para o artista já consagrado na Itália ao conquistar, em 1968, o Festival de San Remo com “Canzone per Te”. Ele já havia feito um disco inteiro assim em 1965, mas desde que a fase romântica deslanchara, passou a apostar mais fortemente nos países latinos. Agora era a vez de emplacar duas em pronúncia castelhana: “Inovildable”, de Julio Gutierrez, e a andina “El Humahuaqueño”, de Edmundo Zaldivar, na qual é acompanhado do grupo Los Chaskis. Ambas as faixas são usadas no repertório de "Tu Cuerpo", disco de um ano depois, o qual continha exatamente as mesmas músicas, porém todas cantadas no idioma de Cervantes.

Mais uma com o Tremendão é a balada (ainda em português) “Seu Corpo” ("No seu corpo é que eu me encontro/ Depois do amor o descanso/ E essa paz infinita/ No seu corpo minhas mãos/ Se deslizam e se firmam/ Numa curva mais bonita"), com primoroso arranjo de Chiquinho de Moraes. Importante na carreira de RC, a faixa consolida o estilo de canções com temática heteroeróticas iniciado em “Amada Amante” (1971) e “Proposta” (1973) e que resultaria em sucessos absolutos desse filão trazido por ele do brega e aperfeiçoado em hits posteriores como “Os Seus Botões” e “Cavalgada”. Muito bem intercaladas entre as composições próprias, contudo, estão as de músicos como Benito Di Paula (“Amanheceu”), Maurício Duboc (“Existe Algo Errado”) e de uma dupla de jovens nordestinos que recém começavam a carreira: Fagner e Belchior, de quem grava “Macuripe”, escolhida para fechar o álbum.

Ao completar oito décadas de vida, Roberto Carlos merece ter sua obra revisitada e reavaliada – o que resultará, certamente, numa maior apreciação de seus trabalhos dos anos 60, 70 e 80, os mais produtivos. Mas jamais menosprezada. Polêmico, o autor de "Detalhes" pode não agradar a todos, mas nunca ser chamado de artista medíocre como defendem os detratores. Afora o plausível, é fato que ele sofre, na mesma medida e como se isso fosse justificativa, com o peso dos que fazem fama no Brasil: são a representação do povo, mas também não são aceitos como alguém que ascendeu. Tornado divindade, é exatamente por isso condenado por não ser humilde pela ótica cristã e mal resolvida da sociedade. 

Deve-se saber separar o joio do trigo, no entanto. Roberto Carlos se tornou um velho chato, mas alguém dono de uma história que não se apaga. Há cantores melhores do que ele? Erasmo é melhor compositor que o parceiro? Há veracidade naquilo que o acusam? Tudo pode ser verdade, mas o fato é que sua obra guarda uma qualidade e uma importância incomensuráveis. Admitir que RC é um dos mais bem sucedidos artistas do século é talvez demais para quem ainda crê na sandice de que Erasmo é seu ghostwriter. Mas basta uma audição de discos como este de 75 para perceber que, definitivamente, não é qualquer coisa que se diga sobre ele que o faça perder a majestade.

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Roberto Carlos - "Quero que Vá Tudo pro Inferno" 
(Roberto Carlos Especial 1975)


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FAIXAS:
1. "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" - 3:37
2. "O Quintal do Vizinho" - 2:51
3. "Inolvidable" (Julio Gutierrez) - 3:15
4. "Amanheceu" (Benito di Paula) - 4:19
5. "Existe Algo Errado" (Maurício Duboc-Carlos Colla) - 3:38
6. "Olha" - 4:02
7. "Além do Horizonte" - 4:20
8. "Elas Por Elas" (Isolda-Milton Carlos) - 3:13
9. "Desenhos na Parede" (Beto Ruschel-Cezar de Mercês) - 3:20
10. "Seu Corpo" - 3:19
11. "El Humahuaqueño" (Edmundo Zaldivar) - 3:28
12. "Mucuripe" (Fagner-Belchior) - 4:43
Todas as composições de autoria de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, exceto indicadas


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OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Erasmo Carlos - Aniversário de 258 anos Bairro Tijuca - Praça Saens Peña - Rio de Janeiro / RJ


Nenhum outro nome teria sido mais apropriado para comemorar o aniversário de 258 anos do bairro da Tijuca, aqui no Rio de Janeiro, do que o tijucano Erasmo Carlos por seu amor declarado e frequentes menções ao local ao longo de sua obra. O Tremendão justificou plenamente a escolha de seu nome para abrilhantar a noite do último domingo, homenageando e sendo homenageado pela comunidade local. Visivelmente emocionado, o Gigante Gentil abriu o show com a música que lhe confere este apelido, com a pegada rock'n roll que lhe é característica sustentada por uma banda vibrante e competente. Num desfile de grandes sucessos o cantor trouxe ainda "Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo", "Mulher (Sexo Frágil)", "Mesmo Que Seja Eu", "Filho Único", "Dois Animais na Selva Suja da Rua", "Sou Criança, Não Entendo Nada", refrescando a memória do público que sentia-se grato por aquele maravilhoso revival. Se a voz não é mais a mesma, a disposição, sua presença de palco e o repertório compensaram qualquer pequena falha.
Erasmo comoveu a audiência com o clássico "É Preciso Saber Viver", puxou um bloquinho só de, como ele mesmo classificou, "músicas de motel", com um medley de suas melhores parcerias de românticas com Roberto Carlos; saudou o bairro com "Turma da Tijuca" e fechou a noite com uma sequência rock'n roll que literalmente pôs a galera pra dançar com hits como "Que Tudo Vá Pro Inferno", "Negro Gato", "Fama de Mau", "É Proibido Fumar" e "Festa de Arromba" que, esta sim, transformou a praça definitivamente num grande salão de festas. 
Festa muito bonita para o bairro onde moro e que aprendi a gostar. Viva a Tijuca e seus 258 anos, viva o rock'n roll e viva o Tremendão, Erasmo Carlos.

O velho Tremendão dono do palco

Erasmo com sua ótima banda no palco

Festa de arromba para a Tijuca

Trecho de "Fama de Mau"



Cly Reis

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

"Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo César Araújo - ed. Planeta (2006)

 

por Márcio Pinheiro


"Eu tive duas motivações. Uma foi a afetiva: ele foi meu primeiro ídolo de infância. A outra, inte­lectual. Quando cheguei à faculdade e me interes­sei pelo estudo da música brasileira, constatei que não tinha nenhum livro que explicasse o fenóme­no Roberto Carlos."
Paulo César Araújo, sobre o que o motivou a escrever a obra


Se você pretende saber quem ele é, eu posso lhe dizer: está tudo em "Roberto Carlos em Detalhes", livro de Paulo César Araújo lançado pela Editora Planeta em 2006, logo depois retirado de circulação e até hoje o mais completo perfil biográfico feito sobre um artista tão gigantesco quanto misterioso. Na internet, o livro pode ser encontrado pelo preço médio de 400 reais.

Resultado de 16 anos de pesquisas e entrevistas, "Roberto Carlos em Detalhes" começou a ser desenvolvido em 1990, quando Araújo - autor de "Eu Não Sou Cachorro, Não" - começou a coletar dados para um trabalho específico sobre a Jovem Guarda. Entre as quase duas centenas de entrevistas - incluindo aí nomes como Tom Jobim, Chico Buarque e João Gilberto - percebeu que um nome se destacava.

Assim, o bem detalhado "Detalhes" acompanha a trajetória do cantor desde a infância, do nascimento em Cachoeiro do Itapemirim, em abril de 1941, filho caçula do relojoeiro Robertino e da costureira Laura, e revela aspectos pouco conhecidos e/ou comentados, como quando Roberto Carlos, aos seis anos, foi atropelado por uma locomotiva e sua perna direita teve de ser amputada até pouco abaixo do joelho.

O autor também acompanha a chegada de Roberto Carlos ao Rio, em 1956, relatando o encontro do jovem com Wilson Simonal, Tim Maia, Erasmo Carlos e, principalmente, com o produtor musical Carlos Imperial, a quem Roberto chamava de "papai" e que foi responsável pela gravação de seu primeiro disco. Antes disso, Roberto Carlos, suburbano com influências roqueiras, tentou se inspirar em João Gilberto, mas nunca foi bem aceito pela turma da Zona Sul. Resolveu abandonar o ídolo e criar um caminho à parte. "Ele foi rechaçado pela classe média. Era chamado de 'João Gilberto dos pobres'", lembra Araújo.

Das diversas fases do cantos - da Jovem Guarda ao romantismo dos motéis, dos rocks iniciais ao misticismo - tudo está contemplado. Araújo conta histórias sem descambar para a mera fofoca e esmiúça todos os fatos que já foram contados superficialmente em um ou outro lugar.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Toni Tornado - "Toni Tornado" (1971) *




"É o hino. 
É um marco. 
É a estrada da vida. 
A gente corre e a gente morre na BR-3"
Tony Tornado
 sobre a canção "BR-3"


Por incrível que possa parecer, não é todo mundo que sabe que Tony Tornado foi cantor e, por sinal, não um cantorzinho qualquer, mas um baita cantor. Quem só o conhece dos papéis na TV, em séries, novelas e filmes, não faz ideia de que logo no início de sua carreira, em 1970, aquele negro imponente, com seu vozeirão trovejante ganhava o concorridíssimo Festival Internacional da Canção, à época, o grande evento musical do país, com a soul tristonha "BR-3", derrubando adversários como Gonzaguinha, Ivan Lins, Martinho da Vila, Wanderléa, entre outros.

A vencedora "BR-3", de interpretação precisa e marcante de Tony, acompanhado do Trio Ternura, que alternava um tom melancólico com ênfases explosivas veio a integrar seu primeiro álbum de 1971, que levava simplesmente seu nome, com "i", na época, "Toni Tornado". O disco, altamente influenciado pela música negra norte-americana traz baladas amorosas, como a composição de Roberto e Erasmo, "Não Lhe Quero Mais", peças ao estilo gospel americano, bem caracterizadas por "Juízo Final" e "Eu Disse Amém", uma mistura das duas coisas, o romantismo e a religiosidade, na balada 'Uma Canção para Arla", ritmos bem embalados como em "Um Vida" e "Breve Loteria", e funkões poderosos ao melhor estilo James Brown, como é o caso de "Dei a Partida" e "O Jornaleiro".

Tony só viria a lançar mais um álbum, um ano depois, e depois dedicar-se-ia à exitosa, embora pouco protagonista, carreira de ator. Foram apenas dois discos mas ambos de alta qualidade sendo responsáveis, bem como os trabalhos de Tim Maia, por grande parte da assimilação dos ritmos negros americanos dentro da música brasileira.

Você que só conhecia o Tony Tornado do "Roque Santeiro", do "Agosto" ou da "Malhação", agora já sabe: Tony Tornado foi, sim, um cantor. E, por sinal, não um cantorzinho qualquer.

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FAIXAS:

1. Juízo final (Renato Corrêa/ Pedrinho)
2. Não lhe quero mais (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos)
3. Dei a partida (Getúlio Côrtes)
4. Uma canção para Arla (Major/ Tony Tornado)
5. Breve loteria (Fafi)
6. Eu disse amém (Getúlio Côrtes)
7. BR-3 (Tibério Gaspar/ Antônio Adolfo)
8. Uma vida (Arnoldo Medeiros/ Dom Salvador)
9. Papai, não foi esse o mundo que você falou (Erasmo Carlos/ Roberto Carlos)
10. Me libertei (Tony/ Frankye)
11. O repórter informou (Hyldon)
12. O jornaleiro (Major/ Tony Tornado)


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Ouça:
Toni Tornado - Toni Tornado (1971)

* Posteriormente, já como ator, o artista mudou a grafia do seu nome artístico para Tony, com a letra "y" no final.


 


por Cly Reis



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

cotidianas #417 - Cachaça Mecânica




Vendeu seu terno
Seu relógio e sua alma
E até o santo
Ele vendeu com muita fé
Comprou fiado
Prá fazer sua mortalha
Tomou um gole de cachaça
E deu no pé...

Mariazinha
Ainda viu João no mato
Matando um gato
Prá vestir seu tamborim
E aquela tarde
Já bem tarde, comentava
Lá vai um homem
Se acabar até o fim...

João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...

Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...

Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

Vendeu seu terno
E até o santo
Comprou fiado
Tomou um gole
João no mato
Matando um gato
Naquela tarde
Lá vai o homem...

João bebeu
Toda cachaça da cidade
Bateu com força
Em todo bumbo que ele via
Gastou seu bolso
Mas sambou desesperado
Comeu confete
Serpentina
E a fantasia...

Levou um tombo
Bem no meio da avenida
Desconfiado
Que outro gole não bebia
Dormiu no tombo
E foi pisado pela escola
Morreu de samba
De cachaça e de folia...

Tanto ele investiu
Na brincadeira
Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

Prá tudo, tudo
Se acabar na terça-feira...

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”Cachaça Mecânica”
Roberto Carlos/Erasmo Carlos


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Gal Costa - "Legal" (1970)

 

“Entramos em campo com o que tínhamos na mão. Gal já era a maior cantora do Brasil naquele momento e esse trabalho foi muito especial, pois nós juntamos os melhores músicos da época, como Chiquinho de Moraes e Lanny Gordin. A gente procurou pensar que tínhamos que fazer o melhor naquele clima de ditadura militar: Caetano e Gil exilados, a Copa do Mundo em cima, uma confusão danada. E fizemos o nosso trabalho".  
Jards Macalé

“Genial, contemporâneo e perturbador”. 
Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, sobre “Legal”

Ao mesmo tempo em que começa a se tornar cada vez mais comum ver os ídolos brasileiros da geração dos anos 50/60 se irem, caso de João Gilberto, Sérgio Ricardo, Moraes MoreiraLuiz Melodia e, mais recentemente, Gerson King Combo, em contrapartida, é uma enorme satisfação presenciar estas mesmas figuras referenciais chegarem à idade avançada. É mais do que só um motivo de comemoração, e sim de emoção. Caso da "água viva" da MPB: Gal Costa, que, mais do que viva, está operante e produzindo muito bem, obrigado. Gal chega aos 75 anos de idade e 55 de carreira celebrada como uma das maiores vozes do Brasil, posto que ocupa desde os anos 60 quando, junto com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Mutantes e toda a turma da Tropicália, revolucionou a musica brasileira para sempre. Parte dessa revolução, contudo, está de aniversario junto com ela: o genial disco da artista “Legal”, de 1970, que completa 50 anos de lançamento.

O contexto no qual o lançamento de “Legal” ocorreu, no entanto, não foi nada festivo. O que faz aumentar ainda mais seus méritos. AI5 em vigor há pouco mais de um ano; Caê e Gil exilados em Londres; Allende eleito no Chile; Seleção de Pelé e Jairzinho fazendo a alegria do povo; Estados Unidos bombardeando o Vietnã; Roberto Carlos tornando-se um rei “adulto”. Tudo isso sob a capa negra da “linha dura” da Ditadura Militar, que reprimia, perseguia, sequestrava, torturava e matava. Afora esta pior parte das violações à liberdade imposta pela ditadura, a repressão recaía, em maior ou menor grau, sobre qualquer um que se opusesse ao Estado. Para isso, os militares contavam, inclusive, com o policiamento da própria sociedade civil. Gal, que permaneceu no Brasil com a missão de manter tesa a sina do tropicalismo, não o fez sem vigília ou pressões. Ela conta que chegou, àquela época, a ser quase linchada em praça pública por "cidadãos do bem", que a viam como uma hippie subversiva e comunista. Afinal, pensar definitivamente não é um atributo de quem domina pela força.

Gal em 1970: cabelos repartidos
ao meio em novo visual, que
inspirou Oiticica
Toda essa brutal condição de medo e tensão – mas também de orgulhos e belezas inexoráveis – era despejada imediatamente na musica de Gal, e “Legal” é o seu álbum que melhor sintetiza esse momento. Amplificando a psicodelia e a postura rebelde dos seus trabalhos imediatamente anteriores, de 1968 e 1969, Gal vinha para não fazer concessões. Agora, ela explodia. A doce cantora que começara a carreira seguindo o estilo cool da bossa nova de João Gilberto agora soltava a voz da maneira mais aguerrida como jamais havia feito até então. Estridente, raivosa, intensa, provocadora - mas também doce quando quer. Com o auxílio nos arranjos e na banda dos igualmente arrojados Lanny Gordin – o histórico guitarrista inglês da Tropicália responsável aqui também pelas ensandecidas guitarras do disco – e do "maldito" Jards Macalé – antecipando o que este faria dois anos depois noutro LP clássico da música brasileira, “Transa”, de Caetano –, a “divina maravilhosa” baiana torna-se, agora, “terrível”. É com o então recente sucesso de Roberto que ela, num arranjo monstruoso, inicia o disco. Se “Eu Sou Terrível” soava como um ato de rebeldia na voz do seu careta autor, na de Gal, transformava-se num manifesto anti-ditadura. Na boca dela, versos como: "Estou com a razão no que digo" ou "Não tenho medo nem do perigo" significavam muito mais do que a mera e ingênua afirmação sexista da original. Ressignificadas, as palavras querem dizer, sem hesitação: "Não adianta me perseguir, que sou mais forte que vocês" e "vocês é que devem ter medo de mim".

E Gal tinha urgência. O rock com influências soul dessa indignada Etta James dos trópicos tem nos sopros arranjados por Chiquinho de Moraes e na guitarra rascante de Lanny a velocidade certa para acompanhar a cantora. Ou seja: com muita rapidez! Os garotos que andavam ao seu lado tinham certeza que ela andava mesmo apressada. Em resposta, a banda pratica o que em teoria musical se chama de “antecipação”, quando se encurta o tempo entre os acordes e joga-se uma nota estranha à harmonia, a qual, se verá logo em seguida que pertence ao acorde seguinte. Se Gal havia permanecido no Brasil, sua terra, ouvi-la dizer “Eu corro mesmo aqui no chão” fazia realmente muito sentido.

Se “Legal” começa assim, mostrando que não veio para brincadeira, o negócio era prender o fôlego e acostumar-se, pois seria assim até a última rotação da agulha no sulco. Em novo recado pros militares, Gal manda na sequência “Língua do Pe”, do exilado Gil. Já que o parceiro não podia como ela estar no seu próprio país, Gal dava um jeito de materializá-lo. Um novo rock se anuncia... só que não! Subvertendo a si mesma, de repente, a música torna-se um xaxado “pé de serra” animado no melhor estilo Luiz Gonzaga: zabumba, triângulo e sanfona. A letra, cifrada, tirava um sarro dos milicos: “Garanto que você/ Nãpão vapai não vai/ Compomprepeenpendeper/ Bulhufas”. Não compreenderam bulhufas, mesmo.

Não precisa mais do que duas faixas pra se notar que “Legal”, contrariamente ao vocábulo, não se presta a ser nada amigável com os hipócritas devotos da moral e dos bons costumes. De pura ironia e musicalidade, “Love, Try And Die”, este Broadway jazz chistoso tem a luxuosa participação de dois mitos da música pop brasileira: o jovem Tim Maia, que recém havia lançado seu exitoso disco de estreia, e de Erasmo Carlos, que, na direção oposta do pop romântico de Roberto no pós-Jovem Guarda, corajosamente alinhava-se aos tropicalistas. Autoria de Gal com seus fiéis escudeiros Macalé e Lanny, lembra a invencionice transgressora de "Cinderella Rockfella", de Rogério Duprat com os Mutantes, de 1968, e a galhofa que os próprios Roberto e Erasmo criariam em 1971 com a canção "I Love You", o solfejo tropicalista de RC.

Novos petardos: uma versão futurista de “Acauã”, de Zé Dantas, reafirmando a cultura do Nordeste como desde o início propôs o tropicalismo. A pegada regionalista, contudo, vem empunhando uma peixeira como Lampião. Inversamente a “Língua do Pe”, que inicia rocker e depois alivia, aqui é o folk regional que prevalece até boa parte da faixa, mas que ganha uma reviravolta para um baião-heavy de dar inveja a qualquer guitar band enfezada. Bem que dava para desconfiar quando Gal, no começo da música, calmamente entoa os versos: “Teu canto é penoso e faz medo/ Te cala, acauã/ Que é pra chuva voltar cedo”.

Mais uma inédita de Gil: a psycho-bossa “Mini-Mistério”. Uma só dele seria pouco pra confrontar os militares. E se “Língua do Pe” soa quase anedótica, o recado desta é bem mais direto: "Compre, olhe/ Vire e mexa/ Não custa nada/ Só lhe custa a vida". Ou que tal isso aqui?: “Procure conhecer melhor/ O cemitério do Caju/ Procure conhecer melhor/ Sobre a Santíssima Trindade/ Procure conhecer melhor/ Becos da tristíssima cidade/ Procure compreender melhor/ Filmes de suspense e de terror”. E Gal, que não tinha medo nem de filmes de suspense e de terror, repete ostensivamente a última palavra: “Terror, terror, terror, terror”. Afinal, este era o melhor termo para definir o sentimento que tomava conta daquele Brasil de terríveis minimistérios: delações, perseguições, olhos vigiando por todos os cantos, amigos presos, “amigos sumindo, assim, pra nunca mais”. Sob um suingue jazzístico acachapante, Gal ainda aconselha: “Ande muito/ Veja tudo/ Não diga nada/ Além de dois minutos”.

Gal e Macalé: alta qualidade musical contra a repressão

Jards, totalmente presente na concepção do disco, vem com outras duas suas. Primeiro, a emblemática e não menos provocativa “Hotel das Estrelas” (“No fundo do peito esse fruto/ Apodrecendo a cada dentada/ Mas isso faz muito tempo...”), que o próprio gravaria apenas dois anos depois em seu primeiro álbum solo. Interpretação tristonha e sensual de Gal na primeira parte, quando um blues jazzístico. Mas o andamento é bem mais variante que isso, e a banda acelera o ritmo para entrar numa soul quase gospel e, daí, voltar novamente à melancolia. Um arraso! De Jards e de Duda Mendonça também é o falso jazz “The Archaic Lonely Star Blues”. Falso até no idioma, pois, iniciando com versos em inglês, envereda, em seguida, para um samba-canção em que Gal deita e rola na interpretação sob o arranjo de cordas primoroso de Chiquinho de Moraes.

Transgressão pouca era bobagem para a combativa Gal. Ela guardava ainda mais munição em sua metralhadora sonora e poética. E, como as canções de Gil, vinham encomendadas também da Inglaterra as do mano Caetano. Primeiro, a carnavalesca “Deixa Sangrar”, cujo duplo sentido do título, obviamente, não é mera coincidência: “Deixa o coração bater, se despedaçar/ Chora depois, mas agora deixa sangrar/ Deixa o carnaval passar”. Alguma semelhança com a situação política de então? Neste aspecto, “Legal” ainda se beneficia pelo fato de ter sido lançado logo após o endurecimento da ditadura, ainda muito mais preocupada em reprimir a luta armada do que necessariamente censurar músicas – isso, até perceberam em seguida que o “perigo” era justamente a junção dos dois. Talvez por isso (e pela letra em inglês, esta na totalidade) tenha-se liberado “London London”, o tristonho canto de exílio de Caetano que atravessou o Atlântico trazendo ao Brasil os gélidos ventos do Velho Mundo poucos meses depois do próprio autor tê-la gravado no seu álbum londrino. Nesta rumba desenhada pela guitarra de Lanny e uma gaita de boca bem rithum n’ blues, toda a estridência que domina boa parte do disco dá lugar de vez à cantora melodiosa e de profundo apuro técnico. 

Igual à matadora versão de “Falsa Baiana”, reduzindo de vez o compasso em alta voltagem que havia iniciado o disco lá em “Eu Sou Terrível”. Bossa nova pura. Leve e melodiosa. Um contraste tremendo com o fervente início do disco. Os distraídos podem até achar que se trata de uma contradição por não perceberam mais uma ironia. “Falsa baiana” não é necessariamente aquela que "requebra direitinho", mas a que, contrariando a pecha de um povo "preguiçoso" e "acomodado", se levanta contra a atrocidade humana. Fora isso, Gal, saudavelmente apressada de novo, antecipa justamente seu mestre João Gilberto, que gravaria este samba de Geraldo Pereira somente três anos depois em semelhantes moldes.

Arte de Oiticica completa, com as
duas faces: capa e contracapa
A capa, autoria do célebre artista visual Helio Oiticica – pivô acidental no episódio da boate Sucata motivador da expulsão de Caetano e Gil do Brasil meses antes – emula o policulturalismo da capa clássica de "Sgt. Peppers", dos Beatles, ao reproduzir diversas fotos de referências constituidoras daquela proposta de obra. No entanto, além das diferentes figuras – por exemplo, Elis Regina, James Dean e a Marcha dos 100 Mil no lugar de Bob Dylan, Marylin Monroe e Karl Marx –, a arte de Oiticica direciona incisivamente esta intenção ao impregnar essas imagens fragmentadas nos cabelos de Gal (visual trazido de Londres, de onde ela recentemente viera de uma viagem) e cuja metade do rosto se agiganta em relação a todo o resto. O mundo pertence a ela, esta Medusa empoderada e resistente. Metáfora cortante de um álbum que cumpre a corajosa missão de falar por todos os exilados, os de fora e os de dentro do país. Se as vozes restavam sufocadas pelo poder das armas, havia a de Gal para representar-lhes. E acelerada, atenta e forte, sem tempo de temer a morte. Em “Legal”, como nunca ela foi porta-voz de toda uma geração. E quanta voz tem essa (verdadeira) baiana para portar!


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Gal Costa cantando "Acauã", programa Ensaio (1970)


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FAIXAS:
1. “Eu Sou Terrível” (Erasmo Carlos, Roberto Carlos) - 2:30
2. “Lingua Do P” (Gilberto Gil) - 3:40
3. “Love, Try And Die” (Gal Costa, Jards Macalé, Lanny Gordin) - 2:23 – partic.: Tim Maia e Erasmo Carlos
4. “Mini-Mistério” (Gil) - 4:16
5. “Acauã” (Zé Dantas) - 2:49
6. “Hotel Das Estrelas” (Duda Machado, Jards Macalé) - 4:22
7. “Deixa Sangrar” (Caetano Veloso) - 2:53
8. “The Archaic Lonely Star Blues” (Duda, Macalé) - 3:03
9. “London, London” (Caetano) - 4:00
10. “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira) - 2:11


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OUÇA O DISCO:

Daniel Rodrigues

terça-feira, 26 de abril de 2011

Memória curta, mas uma diva eterna

"Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Zis" - Neyde Zis

Quando se fala que o brasileiro tem memória curta, essa é uma grande verdade. Principalmente, quando se refere aos importantes artistas da música. Talentos da black music como Cassiano, Noriel Vilela, entre outros, caíram numa espécie de amnésia. Infelizmente (e surpreendentemente) também é o caso de Neyde Zis - uma das maiores cantoras do País do gênero, considerada por alguns especialistas a melhor.

Conhecida como “A Musa”, “Diva da Black”, “A menina mulher”, Neyde era sinônimo de sucesso no final dos anos 1960. Não é a toa que tinha como parceiros Tim Maia e Jorge Ben (que depois colocou o "Jor"). Lamentavelmente, após uma meteórica e estrondosa carreira, caiu no ostracismo musical e no desconhecimento popular.

No entanto, canções de qualidade são eternizadas e basta uma audição para relembrar (para alguns) ou descobrir (para outros), o quão é incrível a sonoridade e a inconfundível voz de Neyde Zis. O disco “Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Zis” mostra essa riqueza de sons.

Neste registro, a cantora encerra sua "trilogia" musical. Tentou retomar a carreira nos anos 1980, com um disco honômino, mas não teve a mesma criatividade e sucesso de anos anteriores. Em “Dó, Ré, Mi”, que pode ser percebido pela capa, mostra o quanto de experimentalismo e de psicodelia (típicos da época) estão contidos no disco.

A obra - que tem Neyde nos vocais, no violão e nas composições - conta com grandes participações, como dos seus velhos e eternos parceiros: Tim Maia, Tony Tornado e Jorge Ben. Além das contribuições de Erasmo Carlos, Arnaldo Baptista (dos Mutantes) e do Trio Mocotó.


Neyde Zis no programa
do apresentador
Sílvio Santos em 1968
Na faixa "Machado de Assis era negão, sim", a letra é uma crítica ácida que, por ironia do destino, aborda a falta da memória do povo brasileiro. Além disso, valoriza tanto a literatura como da negritude no País. O Trio Mocotó contribui nesta música com um excepcional ritmo, incorporando muito swing do samba rock. Já em “Mãe preta”, Neyde mais uma vez faz um show à parte. Além da voz principal, gravou os três backing vocals, mostrando a sua facilidade de alcançar notas agudas até as mais graves.

Em “Meu nego” (tendo relatos que essa música foi dedicada ao Jorge Ben), tem o mesmo nos vocais e no violão. Já em “The black is on the table” é a vez de Tim Maia aparecer em cena, com seu inglês e voz impecáveis. Tim toca bateria nesta canção, um dos raros registros da carreira do “Sindico” neste instrumento. Aliás, esta música também faz uma crítica social, expondo-a literalmente na “mesa” para todos ouvirem.

Na “Barato total”, Arnaldo Baptista empresta suas “veias psicodélicas” no piano. Também foi responsável por samplers, com ruídos difíceis de detectar do que se tratam.

A “Ogulabuiê” é uma espécie de “revival” de Neyde no período em que cantava junto com Tony Tornado na BR3. A “Diva da black” fez questão que esta música soasse como nos tempos que participava do grupo, quando era uma mera coadjuvante. Nesta, ela divide os vocais com o próprio Tony. Na “Uh, Uh” tem Erasmo Carlos tocando guitarra. O Tremendão colaborou para que esta faixa fosse a mais rock de todas.

A “Ezistência/rezistência” é a canção que abre o disco, com início melancólico e finaliza com um samba de raiz tradicional do Rio de Janeiro. Já a “Zumbi” fecha esta preciosidade brasileira. Curiosamente, na letra, Neyde parece ter tido um pressentimento do seu declínio, cantando: “minha liberdade já se foi, sou uma escrava da dor. Meu quilombo parece longe, seja lá meu destino para aonde for”.

O esquecimento pode perdurar anos, mas não é eterno. O que é permanente é o talento de Neyde Zis, a grande musa da black music do Brasil. Recordar é viver, principalmente para apreciar a boa música.