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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Drops Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Não é toda hora que se vê de perto um guitar hero. E para um fã de rock, isso é um acontecimento especial. Posso dizer que já vi The Edge, no show da U2, em 1997, em São Paulo, Will Sargent, na histórica primeira apresentação da Echo & The Bunnymen em Porto Alegre, em 1999, e... só! Quando Keith Richards, Slash, David Gilmour e Eric Clapton vieram à minha cidade, não os pude assistir. Muito por conta disso, quando soube que a Living Colour, liderada pelo herói da guitarra Vernon Reid, voltaria a Porto Alegre depois de mais de 10 anos, não pestanejei.

Celebrando os 40 anos de carreira, o supergrupo (afinal, como se não bastasse, não é apenas Vernon o craque da banda formada por Corey Glover, nos vocais, Muzz Skillings, no baixo, e Will Calhoun, bateria, todos igualmente exímios) se apresentará no próximo dia 26 no Bar Opinião, casa símbolo de rock na capital gaúcha.

A expectativa é grande para vê-los tocar as clássicas “Type”, “Love Rears It’s Ugly Head”, “Pride”, "Open Letter (To a Landlord)" e “Cult of Personality”, essas duas últimas do disco “Vivid”, que já tive a felicidade de resenhar nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do Clyblog destacando sua importância para o rock feito por negros na história do gênero. Enfim, a melhor banda de rock preta com um guitar hero em plena atividade. Será um privilégio, com certeza, que voltarei aqui para contar depois como foi.


Daniel Rodrigues

sábado, 20 de setembro de 2025

Dia do Baterista: os melhores na opinião dos bateristas (e não-bateristas também)

Tem uma história envolvendo bateristas, que traduz a magia desse instrumento. Antes do histórico show da Rolling Stones em Porto Alegre, em 2016, os integrantes da banda Cachorro Grande, minutos antes de terem a honra de abrir a apresentação para os ídolos, interagiam no camarim com Mick Jaeger, Keith Richards, Ron Wood, banda e, claro, também com o saudoso baterista Charlie Watts. 

Conversa vem, conversa vai, até que Charlie é apresentado a Gabriel Azambuja, baterista da Cachorro Grande. Imediatamente identificado com o colega brasileiro, o lendário baterista disse-lhe de forma deferente e do alto de sua experiência com seu elegante inglês: "Nunca se esqueça que você é o coração da banda".

É esse coração sonoro que se celebra hoje, dia 20 de setembro. O Dia do Baterista, data escolhida para homenagear os donos das baquetas, seja no rock, no jazz, no blues ou na música brasileira. Porque, sim, junto a grandes mestres do instrumento, temos também brasileiros, reconhecidos internacionalmente desde os anos 60. E tem elas também, as bateristas, menos lembradas, mas igualmente importantes, como Viola Smith, a mais rápida do mundo, Moe Tucker, a mais moderna, Cindy Santana, virtuosa e versátil, ou Karen Carpenter, fera também com as baquetas. 

Como sabiamente sugeriu Charlie Watts, bateria não é apenas uma mera “cozinha” ou acompanhamento da guitarra. Nossos convidados – alguns bateristas, outros não, mas todos apreciadores da boa música e da contribuição dos donos do ritmo – foram convocados para listarem seus bateristas preferidos. Mas numa coisa todos são unânimes: eles sabem que bateria é mais do que bumbo, caixa, surdo, tom-tom e pratos. 

Alguns nomes escolhidos são diretamente ligados a bandas/artistas, como Stewart Copeland e Jorginho Gomes; outros, ícones ou “free lancers”, o nome fala por si, como Steve Gadd e Max Roach. Mas todos craques na sua arte. E é por eles que a música pulsa.

Os editores

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

Cláudio Mércio
Jornalista e baterista

Glenn Kotche (Wilco) 
Ian Paice (Deep Purple) 
Ginger Baker (Cream) 
Stewart Copeland (The Police) 
Budgie (Siouxsie & the Banshees)




Márcio Pinheiro
Jornalista e escritor

Max Roach
Roy Haynes
Elvin Jones
Dannie Richmond
Steve Gadd





Carlos Gerbase
Jornalista, cineasta e baterista

Clem Burke (Blondie)
Charlie Watts (Rolling Stones)
Biba Meira (Defalla)
Hugo Burnham (Gang of Four)
Cleber Andrade (Os Replicantes)




Rodrigo Coiro
Publicitário e baterista

Neil Smith (Alice Cooper Group)
Robert Erikson (The Hellacopters)
Buddy Rich 
Dennis Thompson (MC5)
Marky Ramone (Ramones)





Eduardo Wolff
Jornalista e baterista

Ringo Starr (The Beatles)
Keith Moon (The Who)
Don Brewer (Grand Funk Railroad)
Jo Jones
Ginger Baker




César Castro
Baterista

John Morello
John Bonhan
Billy Cobham
Airto Moreira
Jorginho Gomes (Novos Baianos)





André Abujamra
Músico multi-instrumentista

Kuki Stolerski
Carneiro Sandalo
James Muller
Claudio Tchernev
Jonh Bohan





Daniel Rodrigues
Jornalista, escritor, radialista e blogueiro

John Bonham
Tony Williams
Budgie
Elvin Jones
Martin Atkins (P.I.L.)
(extra: Jaki Liebezeit - Can)




Cly Reis
Arquiteto, cartunista, artista visual e blogueiro

John Bonham
Keith Moon
Stewart Copeland
Ginger Baker
Budgie
(extra: Martin Atkins)




Paulo Moreira
Jornalista e radialista (in memoriam)

Steve Gadd
Art Blakey
Edison Machado
Tony Williams
Elvin Jones





quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Música da Cabeça - Programa #425

Eu se fosse você ia na pilha do SIG, viu? Afinal, o MDC desta semana está adoravelmente neurótico. Vai ter de Public Enemy a Clementina de Jesus, de Pequeno Cidadão a Curtis Mayfield, de Keith Richards a Maria Bethânia. E tem também Cabeça dos Outros, igual o SIGmund Freud, que cuidava exatamente disso. Saudando e com saudades de Jaguar, o programa vai ao ar às 21h na satírica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e mais uma dose pra salvar Jaguar: Daniel Rodrigues.

www.radioeletrica.com


segunda-feira, 3 de abril de 2023

Ryuichi Sakamoto - "Beauty" (1989)

 

"O mundo dá adeus comovido a um dos seus maiores músicos."
Caetano Veloso

“O que eu quero fazer agora é música livre das restrições do tempo.”
Ryuichi Sakamoto

Como pode a gente se apegar a alguém que nunca se viu pessoalmente – nem sequer através da distância plateia/palco como se dá a artistas a que se assiste – e que está a quilômetros de ti, noutro país? Neste caso, não somente noutro país, mas ainda mais longe, noutro continente, no outro lado do mundo. No Japão. Ryuichi Sakamoto era, é, como um parente sanguíneo na minha casa. Ele é seguidamente convidado a entrar, sentar-se ao sofá, estender-se na cama, a cozinhar ouvindo música. Sempre aceitou os convites com a gratidão e a sapiência calma dos orientais. Embora toda esta intimidade, obviamente, o parentesco não existe. Nem sequer, como abri dizendo, conheci-o pessoalmente quando em vida - quanto menos conhecemo-nos, de ele e eu reconhecerem-se mutuamente como fazem os próximos. Eu, brasileiro fruto da África e da Europa. Ele, japonês, filho de dinastias orientais longevas.

Então, como se explica tamanha familiaridade, tamanha cumplicidade? Bastam poucas audições de sua grandiosa e universal música para se entender. Afora a proximidade dele com a música daqui do Brasil, a qual não apenas admirava como atuava a se ver pelas parcerias com Caetano Veloso, Arto Lindsay, Marisa Monte, Jacques Morelembaum e outros, a obra de Sakamoto, mesmo as mais identificavelmente orientais, pertencem ao Planeta. Até mesmo quando diversas vezes usou os elementos folclóricos típicos do Japão em sua música, Sakamoto o fez à sua maneira: abarcante, cosmopolita, conectada, democrática, inclusiva. Soava japonês, mas africano, americano, indígena, nórdico. Soava a todos os povos. 

Sakamoto, de fato, são muitos. O Sakamoto do final dos anos 70, que ajudou a cunhar o synth pop e a new wave com a precursora Yellow Magic Orchestra e que tanto inspirou grupos do Ocidente como Cabaret Voltaire, Human Leaugue, New Order, Depeche Mode. O Sakamoto maestro, que regeu a Filarmônica de Tóquio. O Sakamoto dono de uma das discografias mais ecléticas e diversas da música pop, com trabalhos que vão desde o experimental à bossa nova, passando pela eletrônica, o erudito e a trilhas sonoras. O Sakamoto instrumentista, colaborador de obras marcantes do pop-rock, como da Public Image Ltd., David Sylvian, Thomas Dolby e Towa Tei. O Sakamoto que engendrava trabalhos multiplataformas, que cruzavam música, artes visuais e performance. 

"Beauty", seu oitavo disco solo, de 1989, é, afora a própria nomenclatura, um resumo de uma concepção de mundo múltipla, pois humanista e libertária. Gente de todas as nacionalidades tocam em suas 11 faixas. Suíça, Senegal, Brasil, Inglaterra, Japão, Espanha, Jamaica, Índia, Estados Unidos, Burkina Faso, Canadá, Coréia... Sakamoto realizou, com a naturalidade de um mestre sensei, a conjunção difícil da world music, aventada por alguns, mas nem sempre acessível e palatável. "Beauty" aprofunda a experiência lançada em “Neo Geo”, seu álbum anterior, convidando para este passeio sonoro músicos da mais alta qualidade e diferentes vertentes, como o icônico beach boy Brian Wilson, o veterano “The Band” Robbie Robbertson, a poesia ancestral de Youssou N'Dour, os percussionistas africanos Paco Yé, Seidou "Baba" Outtara e Sibiri Outtara, os jazzistas Mark Johnson e Eddie Martinez e mais uma turba de conterrâneos arraigados na música tradicional oriental. 

Do Brasil, especialmente, Arto toca guitarra, canta e coassina com ele cinco faixas, entre elas as tocantes “A Pile Of Time”, com o som característico do gayageum coreano; “Rose”, com percussões de ninguém menos que Naná Vasconcelos, e a linda “Amore”, que além da sonoridade arábica do shekere e da batida especial do talking drum, tem contracantos de N'Dour sobre os simples versos cantados pelo próprio Sakamoto: “Good morning/ Good evening/ Where are you?” De arrepiar.

Os encantos não param por aí. O craque Robert Wyatt empresta sua dolorida voz para Sakamoto versar Rolling Stones em "We Love You", que tem ainda as contribuições do congolês Dally Kimoko na guitarra, do britânico Pino Palladino no baixo, do porto-riquenho Milton Cardona no shekere e de coro multiétnico encabeçado por Wilson, Kazumi Tamaki, Misako Koja, Yoriko Ganeko e o próprio Sakamoto. Tem ainda “Calling From Tokyo”, a faixa de abertura, um art-pop com a bateria jamaicana de Sly Dunbas e a tabla indiana de Pandit Dinesh; a espetacular “Diabaram”, com a voz penetrante de N'Dour, que faz remeter a uma humanidade pacífica da Ática-Mãe quiçá perdida; a contemplativa “Chinsagu No Hana”, adaptação de canção tradicional do folclore de Okinawa, assim como “Chin Nuku Juushii”, de “Neo Geo”; “Asadoya Yunta”, cujo inconfundível som do samisém tocado pela japonesa Yoriko Ganeko lhe confere séculos de conhecimento, e “Romance”, totalmente oriental, mas totalmente planetária.

Por essa riqueza toda que a obra de Sakamoto carrega que fico chateado (mas não surpreso) com as manchetes de anúncio de sua morte, ocorrida no último dia 28, aos 71 anos. As notícias de veículos referenciais da imprensa dão conta, em sua maioria, de que: "Morre Ryuichi Sakamoto, célebre compositor que levou o Oscar por 'O Último Imperador'". Ora, Oscar é importante, sim, mas ESSE é o destaque para se falar em Sakamoto?! Pegando-se apenas o cinema, não precisa ser um fã ou profundo conhecedor de Sakamoto para apenas atentar-se a outras trilhas sonoras assinadas por ele e perceber o quanto sua obra se entrelaça com as nossas vidas há décadas, a exemplo de “De Salto Alto”, "Femme Fatale", "O Regresso" e "Black Mirror".

Sakamoto, como Akira Kurosawa, me mostrou há muitos anos que essa dicotomia Orient-Occident, tal o yin-yang taoísta, serve para a geografia ou a estadistas divisionistas. Se Kurosawa quebrou as barreiras ao levar para o cinema do Oriente Shakespeare, Dostoiévski e Gorki, intercambiando, igualmente, a cultura japonesa com o Ocidente, Sakamoto fez, a seu curso, semelhante trajeto. Ao atravessar o Greenwich com sua música, provou que não existem divisões na humanidade. Difícil ensinamento para um mundo tão desigual e superficial... E mais: mostrou que lhe existe, sim, o belo. Sakamoto, esse meu ente que se foi. Mas só de corpo físico. As outras matérias ele generosamente deixou para nós mundanos através dos sons. Por isso, estará sempre presente aqui em casa, pois sabe que a porta está permanentemente aberta para ele entrar com sua beleza e ficar quanto tempo quiser. 


RYUICHI SAKAMOTO 
(1952-2023)



***************
FAIXAS:
1. "Calling from Tokyo" (Arto Lindsay, Roger Trilling, Ryuichi Sakamoto) - 4:26
2. "Rose" (Lindsay, Sakamoto) - 5:12
3. "Asadoya Yunta" (Katsu Hoshi, Choho Miyara) - 4:35
4. "Futique" (Lindsay, Sakamoto) - 4:09
5. "Amore" (Lindsay, Sakamoto) - 4:55
6. "We Love You" (Mick Jagger, Keith Richards) - 5:16
7. "Diabaram” (Sakamoto, Youssou N'Dour) - 4:13
8. "A Pile of Time" (Lindsay, Sakamoto) - 5:34
9. "Romance" (Kazumi Tamaki, Misako Koja, Yoriko Ganeko, Stephen Foster) - 5:29
10. " Chinsagu no Hana" (Folclore japonês) - 7:26
Faixa Extra da versão CD americana*
11. "Adagio" (Samuel Barber) - 7:47 


***************
OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Não existirá banda para Charlie Watts no céu

por Cláudio Mércio

Observações que eu fazia do mundo mostravam a imortalidade como algo possível. Minha tese baseava-se na presença eterna de algumas pessoas. Seres que estavam presentes antes da minha vida e certamente continuariam presentes depois dela. Vi que minha tese não tinha sustentação quando um dos imortais deixou a vida ir embora. Lembro que quando Frank Sinatra morreu em 1998 eu pensei algo tipo “mas esse cara não era imortal?”. 

Hoje, pouco depois do meio-dia, chegou a notícia da morte de Charlie Watts, o baterista dos Rolling Stones. Vinte e quatro de agosto foi sempre o dia em que Getúlio Vargas deu um tiro no coração. Não terei como esquecer a data da morte de Watts. Morte de Getúlio, morte de Charlie. Os Stones, como Sinatra, estão na categoria dos que eu considerei imortais. Talvez Keith Richards venha a confirmar a minha tese, mas hoje ela está derrubada. Como assim Charlie Watts morreu?!? Este senhor nasceu em dois de junho de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Na sua profissão, nunca foi considerado o melhor. Usou heroína. Usou álcool. Teve um câncer na garganta. Deu um soco na cara de Mick Jagger com quem trabalhou desde 1963. Com este histórico, não tinha como morrer. Mas o 24 de agosto de 2021 chegou.

E acho que as coisas vão ser difíceis para Watts. Não vai ser fácil encontrar no céu uma banda para um cara que sempre tocou para a guitarra de Richards. Quando as cordas de Keith inspiram, as baquetas de Watts expiram. Sempre foi assim. E no céu está cheio de bateristas muito bons. Não sei se vai ter espaço para um senhor discreto e de terno bem cortado. De qualquer forma, por favor, enterrem Charlie Watts com tambores e pratos.

CHARLES ROBERT WATTS
(1941-2021)




Cláudio Mércio é professor de Jornalismo na PUCRS. 
Doutor em Comunicação. 
Apreciador de pistache. 
Um cara que considera possível escrever pequenos textos sobre grandes coisas.


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Nei Lisboa - Show "Duplo H" - Teatro Renascença - Porto Alegre/RS (12/06/2018)




Sou daqueles diletantes que comemoram datas de aniversários dos discos que gosto. Tenho feito isso direito no Clyblog por meio, principalmente, de resenhas da seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, que me dão oportunidade de falar a respeito de obras que admiro e ainda homenageá-las por estarem completando alguma idade fechada. Agora, nas comemorações de 10 anos do blog, tivemos o prazer de ter um desses discos aniversariantes resenhado pelo músico, escritor e jornalista Arthur de Faria: o “Hein?!”, do Nei Lisboa, que completa 30 anos de lançamento em 2018. Pois que, justo no Dia dos Namorados, tive – junto com Leocádia Costa, obviamente –, a felicidade de conferir pela primeira vez um show desse talentoso artista gaúcho especial não somente às três décadas do referido “Hein?!” como, igualmente, aos 20 de outro ótimo trabalho de sua discografia: o ao vivo “Hi-Fi”.

O show, muito bem intitulado “Duplo H”, referência às letras iniciais em comum do título de cada disco, fez lotar o Teatro Renascença em duas sessões naquele dia, sendo a anterior a que assistimos extra, devido à grande procura. Tocando os dois discos inteiros e na sequência, um simpático e sempre sagaz Nei Lisboa hipnotizou o público com o repertório ao mesmo conhecido, mas capaz de emocionar ao ser reouvido – ainda mais considerando a egrégora particular da ocasião.

Com Nei e Paulinho Supekóvia no violão/guitarra e Luis Mauro Filho ao piano/teclados, a apresentação deu a largada, conscientemente, pelas 14 faixas de “Hi-Fi”, cujo formato acústico original mostrou-se ideal para “começar os trabalhos” e por caber mais a este tipo de formação do conjunto. Os standarts, hits e AOR da música pop internacional, muito bem pescados por Nei para o set-list de “Hi-Fi”, são imbatíveis, visto que muito afins com o estilo e gosto pessoal dele. Tocando e, principalmente, cantando muito bem, Nei e a banda executaram as versões já tão queridas quanto suas originais, oscilando entre o folk, o blues, o country rock e as baladas no estilo da “Mellow Mafia” dos californianos anos 60/70. Casos de “Everbody's Talking”, do norte-americano Fred Neil; a linda “Summer Breeze”, da dupla setentista Seals & Croft; a beatle “Norwegian Wood”; “Fifity Ways to Leave you Lover”, do craque Paul Simon; e a sensibilíssima releitura de “Still... You Turn Me On”, da Emerson, Lake & Palmer.

Nei, ao centro, com sua enxuta e competente banda
Isso sem falar na emocionante “Cool Water”, de Bob Nolan e imortalizada na voz de Joni Mitchell, no reggae estilizado para “I Shot the Sherif”, de Bob Marley, no bluesão “Walking Away Blues”, de Ry Cooder, e em “Ruby Tuesday”, dos Rolling Stones, que, segundo Nei, embora não tenha entrado no show acústico em 1998, foi gravada em estúdio obedecendo a mesma ideia de arranjo, pois, “se tinha Beatles, não poderia faltar uma dos Stones”.

Completado “Hi-Fi”, agora era partir para as desafiadoras 11 faixas de “Hein?!”. Desafio duplo: primeiro, porque a formação do grupo não contava com bateria, fator essencial para a sonoridade do disco de 1988. “Como Nei vai resolver o arranjo?”, perguntava-me enquanto curtia o primeiro “H” da noite. O segundo desafio era mais íntimo ao próprio autor, uma vez que o disco foi composto sob a aura de uma tragédia na vida de Nei: a perda da então namorada, Leila Espellet, com quem se acidentou de carro na estrada, matando-a. “Como está o coração dele hoje, passadas três décadas, depois daquele acontecimento fatal? O que guarda no peito ainda: culpa, remorso, saudade, serenidade?”, passava-me à mente.

Parte da resposta veio na conversa com a plateia antes de começarem os números. De forma muito aberta e bonita, Nei pediu uma salva de palmas à memória da ex-companheira e executou na íntegra aquela que é apenas uma vinheta de abertura no álbum, “Zen”, escrita para o filho de Leila, à época com apenas 6 anos de vida. A música, a qual não conhecia por completo, apenas os poucos versos que foram parar na edição final de “Hein?!”, são um tocante recado de conforto de um padrasto talvez tão perdido e triste quanto àquele então pequeno órfão. “A vó da gente é mãe/ Da mãe da filha/ A filha da tia/ O pai do filho/ O espírito são/ Gente do bem, do mal/ Gente gorda, gente fina/ Quando vai pro céu/ O céu se ilumina”, diz a letra. Noutra parte (que também não consta no disco), Nei mostra o quanto aquelas palavras são tanto para ele quanto para o garoto: “Não tem desculpa, não tem culpa/ A culpa é sempre minha/ A culpa é da vizinha/ É uma chatice infernal.”

Um show carregado de canções fortes e emocionais já começou assim! O coração seguiu batendo forte com “No Fundo” e a brilhante faixa-título, uma das melhores do cancioneiro do gaúcho de Caxias do Sul. Nela foi possível conferir o acerto na escolha do arranjo, visto que se trata de uma música-chave do disco e que, se não funcionasse sem a bateria (possante nas baquetas de Renato Mujeiko no disco de 1988), correria sério risco de perder intensidade e, por consequência, identidade. Não foi o que aconteceu. Harmonizando com o arranjo dado à primeira parte do show, o formato violão/guitarra/teclado se encaixou muito bem também na segunda metade da apresentação. A mesma sensação ficou em outras duas igualmente adoradas por mim e pela plateia: a sentida “Nem Por Força” (“Nem por força do diabo/ Eu volto a vegetar/ Nessas malditas esquinas/ Na pressa de te encontrar”) e “A Fábula (Dos 3 Poréns”), debochada mas igualmente ferida pela perda que a motivou ser escrita: “Quebrei uns vinte, trinta espelhos/ De perguntar/ Se tinha alguém mais bela que ela/ Noutro lugar/ Comi todas maçãs da feira/ Pra adormecer/ E em vez do príncipe encantado/ Veio um baixinho assim”.

“Faxineira”, um blues elétrico, ganhou uma sonoridade de piano-bar muito adequada, além de uma leve modernização na letra que, segundo Nei, são para a “faxineira empoderada” dos tempos atuais. Outras que sofreram adaptação para o arranjo foram a country-rock “Fim do Dia”, menos acelerada, e o sucesso “Telhados de Paris”, que, embora parecesse a mais fácil de se adaptar – haja vista que é originalmente só no violão e voz –, ganhou o acertado acompanhamento do piano de Mauro Filho e teve a linha vocal levemente modificada. Nada que comprometesse um dos hinos da Porto Alegre moderna.

Mas os questionamentos que levantei intimamente no início do show sobre o envolvimento emocional de Nei Lisboa com o marcante motivo de “Hein?!”, mesmo que não tenham sido respondidos totalmente, deram-me a entender que permanecem de alguma maneira ainda latente nele, homem amadurecido e vivido em relação àquela época da composição do disco, anos 80. O que talvez tenha me passado a impressão de que as baladas não eram de uma época, assim, tão remota foi a supressão dos últimos versos de uma das preferidas da galera: “Baladas”. Emotiva, a canção fala sobre a referida perda de Leila e a briga interna para manter-se íntegro e desvencilhado do passado. Porém, os versos de “Baladas” escritos depois do acidente, como relatou Arthur de Faria, desta vez não foram cantados: "Só, muito além do jardim/ Viajo atrás de sombras/ Não sei a quem chamar/ Mas sei que ela diria ao acordar/ ‘Tudo bem/ Você me arrasou, meu bem/ E qualquer dia desses eu como as tuas bolas/ Mas agora esqueça o drama na sacola/ Não puxe o cobertor/ Não tape o sol que resta nessa dor’/ Foi bom: não durou”.

Se Nei optou por não cantá-los por não enxergar-lhes mais sentido ou por qualquer outro motivo, os da talvez ainda mais carregada “Teletransporte nº 4” foram ditos na íntegra. Faixa que finaliza o disco num clima de balada triste, foi tocada exatamente como é originalmente: violão, guitarra, piano e muita dor. E que versos fortes! “Porém o céu parece estúdio/ Nem o silêncio não diz nada/ Mesmo essas frases vão pro lixo/ São como lenços de papel/ Ainda por cima aquelas pernas/ Algumas coisas serão eternas/ Que bela ideia acreditar/ Que o mundo te aprendeu.” Para arrebatar os corações apaixonados em pleno 12 de junho.

Depois de 25 sessões em que a carga emocional só foi aumentando, partindo das músicas de “Hi-Fi” para as de “Hein?!”, Nei Lisboa encerra com uma que não entrou no repertório do primeiro por acaso: “Live and Let Die”, de Paul McCartney, numa competentíssima versão que dispensou até a orquestra que embala as aventuras de James Bond. Show perfeito do início ao fim deste que é um dos ícones da cultura de Porto Alegre. Se já tinha assistido ao vivo Tangos & Tragédias, Replicantes, De Falla, Renato Borghetti e Orquestra da Ospa na Praça da Matriz, faltava-me um show de Nei Lisboa para completar a lista dos patrimônios culturais da minha cidade. Uma estreia de luxo.

SET-LIST:

"Hi-Fi":
1 Everbody's talking   
(Fred Neil)
2 Bennie & The Jets  
(Bernie Taupin, Elton John)
3 Summer breeze  
(Dash Crofts, Jim Seals)
4 Norwegian wood  
(John Lennon, Paul McCartney)
5 Sometimes it snows in April  
(Lisa Coleman, Rogers Nelson, Prince, Wendy Melvoin)
6 Fifty ways to leave your lover   
(Paul Simon)
7 I'm having a gay time  
(Alberta Hunter)
8 That's why God made the movies  
(Paul Simon)
9 Walking away blues  
(Ry Cooder, Sonny Terry)
10 Still... you turn me on  
(Lake)
11 Cool water  
(Nolan)
12 Ventura highway  
(Deney Bunnel)
13 I shot the sheriff   
(Bob Marley)
14 Ruby Tuesday  
(Mick Jagger, Keith Richards)


"Hein?!"
15 Zen [Vinheta] 
16 No fundo 
17 Hein!? 
18 Nem por força 
(Ricardo Cordeiro, Nei Lisboa)
19 A fábula [Dos três poréns] 
20 Faxineira 
21 Baladas 
22 Rima rica / Frase feita 
23 Fim do dia 
24 Telhados de Paris 
25 Teletransporte n 4 
(Glauco Sagebin, Nei Lisboa)
Todas composições de Nei Lisboa, exceto indicadas

Bis:
26. Live and Let Die
(Paul McCartney) 



texto: Daniel Rodrigues
fotos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

sexta-feira, 11 de março de 2016

Coluna dEle #40



Salve, salve!
Tamo chegando.
E aí como é que tão as coisa? Tudo tranquilo e favorável?
Então tá bom.
De Minha parte, Eu tô nas nuvens.

***

Mas a propósito de tranquilo, favorável, desse MC aí, daquela outra lá da metralhadora, Eu coloco aí Tom Jobim, Pixinguinha, Villa-Lobos, tem vivos Gil, Caetano, Chico, Jorge Ben e vocês ficam ouvindo essas porcarias?
Eu dou biscoito pra quem não tem dente, mesmo.
Depois Eu é que não vou salvar ninguém do Inferno, hein.

***

Eu sei, Eu sei, dou muitos caras foda aí pra vocês mas tiro também. Eu sei. Mas é da vida, uma hora eles vão ter que vir. Naná, por exemplo, que acabou de subir: se é pra vocês ficaram ouvindo Bin Laden e tratratrá, é sinal que não tá fazendo falta nenhuma aí embaixo. 
Aqui, assim que chegou, já saiu batucando nas Tábuas Sagradas, batendo os sinos celestiais e usando as auréolas dos anjinhos como se fossem triângulos.
Gênio!

***

Mal chegou e já foi relembrando as parcerias
Por falar em gênio, outro que Eu chamei pro andar de cima  que sei que vocês não engoliram bem até agora foi o Bowie.
Sei que não tem NINGUÉM aí embaixo pra fazer o que ele fazia, sei que essa posição fica vaga mas, pensa bem, o cara já fez tudo que era possível pra um mortal fazer em matéria de arte, já deixou o bastante pra vocês, não? Queriam mais? 
Deixem o cara sair de cena. Além do mais aqui ele fica mais perto das estrelas que ele gosta tanto e com as quais é tão acostumado.
Foi outro que mal chegou e já foi fazendo um som. Encontrou o Freddie e já puxaram um "Under Pressure" e com o John saiu cantando "Fame". Pelo jeito até já encaminhou outras parcerias interessantes por aqui. O vi combinando alguma coisa com o Ian Curtis, com a Amy, com o Jimi, com o Kurt, com o Lou com quem ele já tinha feito uns lances, e até com o Lemmy que também chegou há pouco.
Mas talvez as parcerias aqui de cima não se confirmem. A gente tá revendo a estratégia de marketing e não é de se descartar que ele volte. Como um Lázaro.

***

Ainda falando em deuses, e os show dos Stones por aí , hein?
Que que foi aquilo, véi???
Os velhinhos sabem das coisas, não?
Tenho que admitir que já chamei o Keith umas trocentas vezes pra vir pra cá pra cima mas que ele ainda tá mandando ver, tá! Até vou dar mais uns anos pra ele depois dessa turnê. 
Podia ter visto de graça aqui de cima mas a visão era muito longe do palco, aí tive que morrer numa nota preta mas vi de pertinho, ali do gargarejo. Teve uma hora que um cara até falou "Deus está entre nós", Eu pensei que ele tinha Me reconhecido mas ele tava se referindo ao Richards. Ufa!
O show todo foi afudê mas Eu fiquei arrepiado mesmo foi com "Sympathy for the Devil". "Pleased to meet you/ hope you gessed my name".

***

Mas ainda sobre o mundo do entretenimento, nunca recebi tanta oração pra alguém ganhar um prêmio quanto pra esse tal de DiCaprio. Não vejo porque tanta ansiedade pra isso. Tanta gente tão boa ou melhor no cinema passou a vida inteira fazendo coisas incríveis e só foi "ganhar" a sua estatuazinha dourada depois que já tinha vindo pra cá. Mas se era importante pra ele... pras fãs... Taí. Faça bom proveito.

***

Sobre o filme, esse que ele participa e que ganhou prêmio de direção também, o que tenho dizer é que... Não vi. Não posso opinar.

***

Tive que dar explicações sobre o meu patrimônio
ter aumentado em apenas sete dias
Mas agora, mudando de saco pra mala, a situação política aí no Nosso... digo, no país de vocês, de tranquila e favorável não tem nada, hein. E o pior é que é o sujo falando do mal lavado. Não tem um que se escape. Eu não queria estar na pele de vocês quando tiver eleições. 
A propósito, Eu nunca tinha visto uma cassação prévia como estão tentando fazer por aí.

***

E não me venha com essa de que Ele é de direita, Ele é de esquerda. Eu não sou de lado nenhum. eu sou de cima.

***

Uma vez Me vieram uns agentes da Polícia Celestial aqui em casa querendo Me levar para dar explicações de como é que que tinha construído todo Meu patrimônio em sete dias. Me vieram com um papo de condução, como é que é, coercitiva, eu acho. Eu disse que não ia, que tinha meus direitos, que aquilo era uma violência contra o cidadão, que não iam encontrar ninguém mais honesto do que Eu, que aquilo ia contra o Decálogo,  e se eles sabiam com QUEM tavam falando. O cara da Celestial só Me disse, "Mesmo que tu fosse Deus. Se até o Lula foi, tu vai também". E tive que ir.

***

Fui lá dei Meu depoimento, blablablá, biriri e bororó  e Me liberaram. Eles perceberam, na verdade, que não tinha jeito porque se Me prendessem, Eu virava herói, se Me matassem, como Nietzsche tentou, Eu virava mártir, e se Me deixassem, solto Eu seria um Deus.

***

Tenho que ir, Minhas crias.
Vocês não fazem ideia do quanto cuidar de vocês Me dá trabalho.

Qualquer coisa, orações pra astros de cinema, pra queda de presidente, pra queda de presidente da câmara, pra queda de candidato à presidência, pra eliminação de participante do BBB, pra eliminação do programa BBB, pra baixar o dólar, contra a dengue, o chycungunya, a zica, a urucubaca ou qualquer outro assunto,
enviar para o e-mail:
god@voxdei.gov


Fiquem Comigo e que Eu os abençoe.

Ralei peito, meti o pé, deitei o cabelo, fui!


por Ele

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eu Fui!



The Rolling Stones - Olé Tour 2016
Maracanã - Rio de Janeiro (20/02/2016)
por Cly Reis



Mick Jagger, Richards e Watts, no palco.
Provavelmente não voltaremos a ver esse time junto novamente.
foto: Jacson Vogel
Meus caros, eu fiquei emocionado.
Fiquei com os olhos marejados por praticamente todo o show e em alguns momentos, devo admitir, não pude conter as lágrimas. Como se não bastasse estar ali diante da, possivelmente, maior banda de rock do planeta, uma lenda viva da humanidade, o que já seria suficiente para que uma pessoa como eu tão envolvida emocionalmente com a música, se entregar à emoção, os caras, senhores de idade, setentões, vovozinhos, fizeram um show absolutamente incrível, competente, profissional, vivaz e emocionante. Senhores, um dos melhores shows que vi em minha vida.
A emoção já começou com "Start Me Up", que como já falei aqui no blog, é a música da minha filha, o que a torna absolutamente especial para mim. Mas independente disso, pelo musicaço que é, pela energia que passa, é uma escolha sempre acertada da banda que a utiliza com frequência nas aberturas de show. E não foi diferente, "Start Me Up", literalmente ligou, acendeu o público, e dali pra frente eles incendiaram o Maracanã.
Num repertório praticamente só de grandes hits, com exceção, talvez, para "Doom and Gloom", o êxtase foi garantido do início ao fim. A energia ficou nas alturas praticamente o tempo todo, com um breve momento para respirar com a balada "Angie", mas que já seria sucedida pela devastadora "Paint It, Black" com a batida elegante mas potente de Charlie Watts e com Ron Wood tocando cítara como na original. No trecho "acústico" do show provavelmente para que o elétrico Mick Jagger pudesse ir fazer uma nebulização, se o ritmo também diminuiu, com a balada "You Got The Silver", a energia não, com uma emocionante, demorada e merecida ovação para o gênio da guitarra Keith Richards que depois ainda emendou nos vocais "Before They Make Me Run", do "Some Girls".
Escolhida pelo público em votação, "Like a Rolling Stone", de Bob Dylan, foi para mim uma agradabilíssima surpresa uma vez que não a tinha visto nas listas dos outros shows pela América Latina; a quilométrica "Midnight Rambler" foi absolutamente fantástica cheia de improvisos dos guitarristas que mostraram mais uma vez porque são dois dos monstros do instrumento; "Miss You", não menos incrível, com seu embalo convidativo foi um show à parte do baixista Darryl Jones que mandou ver, inclusive quando solicitado em solo; e a contagiante "Brown Sugar" teve seu tradicional coro regido pelo maestro Mick Jagger, provavelmente o melhor frontman que já pisou num placo.
"Gimme Shelter", irradiando aquela sua estranha aura pelo estádio inteiro, no seu misto de beleza, fascinação e terror, me levou definitivamente às lágrimas. Sua execução, as performances individuais e o efeito que causou no público justificam sua grandeza e mais confirmam que considero a maior dos Stones e uma das maiores da História.
De energia não menos estranha e mais sinistra ainda, "Sympathy For The Devil" começava como um verdadeiro inferno com o palco todo iluminado em vermelho, pentagramas no telão e o líder da seita vestido com sua tradicional capa de pele perguntando a todos ali conheciam seu nome. E não?
E a primeira parte fechava com a favorita da minha esposa que estava lá comigo, "Jumping Jack Flash", outro dos grandes clássicos da história do rock, cheia de energia e com seu o velho Richards executando seu inspirado e inconfundível riff. Espetacular!
E então, depois de uma breve pausa, da escuridão do palco, um suave côro gospel de voz femininas anunciava a música escolhida para abrir o bis: era a monumental "You Can't Always Get What You Want", um épico do rock, uma pequena grande obra prima que se estendeu, ganhou um ritmo acelerado no final e preparou terreno para um final ainda mais apoteótico. Pois quando o riff destruidor de "(I Can't Get No) Satisfaction" irrompeu rascante  e corrosiva nas caixas de som dos estádio a celebração então estava completa. O estádio foi abaixo! Aliás, tenho que dar uma passada por lá daqui a pouco pra ver se ainda restou alguma coisa dele porque "Satisfaction" foi simplesmente destruidora! Êxtase, êxtase! Um final mais que apropriado para um show como aquele. Um show à altura da maior banda de rock em atividade. Os caras justificaram plenamente porque é que são essa lenda. Porque são os ROLLING STONES!
E eu vi!
Eu estava lá.
E, não querendo secar, mas, tirando as brincadeiras que se faz com a longevidade dos 'rapazes', especialmente do "fenômeno" Keith Richards, provavelmente foi a última vez que tivemos a oportunidade de ver essa turma toda junto por essas bandas. Ou seja, quem viu, viu, quem não viu, acho que não verá mais.
Eu vi.


"Start Me Up" filmada do meu celular. O som, é claro, não está dos melhores, mas vale para sentir a vibração do lugar.



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SETLIST
Start Me Up
It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
Tumbling Dice
Out of Control
Like a Rolling Stone
Doom and Gloom
Angie
Paint It Black
Honky Tonk Women
You Got the Silver (vocal: Keith Richards)
Before They Make Me Run (vocal: Keith Richardss)
Midnight Rambler
Miss You
Gimme Shelter
Brown Sugar
Sympathy for the Devil
Jumpin’ Jack Flash


Bis:
You Can’t Always Get What You Want
(I Can’t Get No) Satisfaction

Galeria de fotos

Galera chegando e o céu se preparando para um temporal.

Na rampa.
It's Only Rock'n Roll But I Like It

Com minha esposa no banner do show

Pré-show. Pessoal ainda chegando.

Este bloguiero e, ao fundo, o palco.

A multidão no ritmo dos Stones

Grande noite de rock'n roll!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Otis Redding - "Live in Europe" (1967)


"Ele parecia um cavalo de raça
esperando pelo sinal para correr (...)
Quando o show anterior acabou,
Otis entrou por trás do palco,
agarrou o microfone e começou a andar
de uma ponta a outra do palco.
Eu não acreditei no que estava acontecendo:
uma energia que eu nuca tinha visto antes."
Al Bell,
produtor musical
e executivo da Stax



Um dos ao vivo mais eletrizantes que eu já ouvi na minha vida. Energia pura. A gente sente, ouvindo, que uma espécie de êxtase delírio, catarse paira no ar nas apresentações de Otis Redding que fazem parte do disco "Live in Europe" (1967) que apanha fragmentos preciosos dos shows realizados em Paris, na turnê coletiva de artistas da gravadora Stax pela Europa.
Com apresentações curtas por causa do número de artistas que a gravadora levara para as apresentações no Velho Mundo, Otis Redding já tinha que chegar com o pé na porta mostrando que não vinha para brincadeira e por isso mesmo o soulman já saía largando a esfuziante "Respect", cuja interpretação mais marcante, provavelmente, seja a de Aretha Franklin, mas a dele, o autor, não menos clássica, mostra-se, espacialmente ao vivo, tão grandiosa quanto. O povo já ia ao delírio logo de cara.
Sem deixar cair a bola, o disco traz na sequência a vibrante "I Can't Turn You Loose", baixando a rotação logo em seguida com "My Girl", clássico dos Temptations carregada nas doses certas de romantismo, doçura, sensualidade e pungência; e com a dolorida balada "I've Loving You too Long" conquistando ainda mais o público francês.
"Shake", de Sam Cooke, ganhava uma versão de andamento acelerada e muita intensa em que o cantor chegava a rasgar o vocal em alguns momentos, mandando ver e quebrando tudo, acompanhado de sua competentíssima e não menos endiabrada banda.
O clássico riff rasgado de guitarra de Keith Richards, de "(I Can't Get No) Satisfaction" dos Rolling Stones, dava lugar a uma introdução vibrante de baixo, que sucedida por um naipe de metais empolgante, culminaria numa interpretação surpreendente e memorável de Redding, numa daquelas covers que a gente chega a pensar se não chega a ser melhor que a original.
"Fa-Fa-Fa-Fa-Fa" , um soul típico bem característico, tem a participação bacana do público no refrão e "These Arms of Mine" outra balada chorosa, esta com toques gospel, encaminha os momentos finis do álbum.
Assim como fizera com os Stones, Otis dava então a um clássico dos Beatles uma releitura interessantíssima. "Day Tripper" nas mãos do soulman e sua banda ganhava um andamento mais acelerado, um vocal mais ensandecido e uma metaleira marcante.
Final tradicional em todos os shows da turnê europeia, "Try A Little Tenderness", envenenada, frenética, alucinada, em uma interpretação pulsante e atuação de palco memorável enlouquecia definitivamente o Olympia de Paris. Em uma performance histérica na qual a banda terminava a música várias vezes para que o cantor a trouxesse de volta retomando-a ainda mais insanamente, não era difícil perceber ao fundo o público vindo abaixo. Êxtase, num final de espetáculo de deixar qualquer um paralisado, catatônico, incrédulo!
Otis Redding apresentaria-se ainda em  junho daquele mesmo 1967 no festival de Monterey onde teria sua consagração definitiva, infelizmente, por pouco tempo, uma vez que sua carreira e sua vida seriam tragicamente interrompidas por um desastre aéreo ainda no final daquele mesmo ano. Até por isso, "Live in Europe" ganha um papel mais importante dentro da discografia do artista, a de mostrar a qualidade, a performance, o brilhantismo, o carisma e a intensidade de Otis Redding em cima do palco, neste que foi o único registro ao vivo em álbum de sua carreira.
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FAIXAS:
1. Respect 3:43
2. Can't Turn You Loose 3:29
3. I've Been Loving You Too Long (To Stop Now) 4:08
4. My Girl 2:43
5. Shake 2:56
6. (I Can't Get No) Satisfaction 3:01
7. Fa-Fa-Fa-Fa-Fa (Sad Song) 4:04
8. These Arms Of Mine 3:47
9. Day Tripper 3:06
10. Try A Little Tenderness 5:07

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Ouça:
Otis Redding Live in Paris Full Concert

Cly Reis