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domingo, 25 de janeiro de 2026

Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS 2025

 


Gil comemorando
a liderança nacional nos AF
A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.

Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:

*************


PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)

  • The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
  • Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
  • David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale*  **: 5 álbuns cada
  • The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
  • Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
  • Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns

*contando com o álbum  Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"

**contando com o álbum Lou Reed e John Cale,  "Songs for Drella"

*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.



PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)

  • Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
  • Chico Buarque ++ #:  7 álbuns
  • Jorge Ben ** João Gilberto*  **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
  • Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
  • Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º  e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
  • João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns 


*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil

**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"

*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"

**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"

***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"

+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"

++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"

# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo" 

º contando com o álbum Milton Nascimento e  Criolo "Existe Amor"

>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter


PLACAR POR DÉCADA

  • anos 20: 2
  • anos 30: 3
  • anos 40: 1
  • anos 50: 121
  • anos 60: 103
  • anos 70: 171
  • anos 80: 146
  • anos 90: 111
  • anos 2000: 22
  • anos 2010: 19
  • anos 2020: 3


*séc. XIX: 2
*séc. XVIII: 1


PLACAR POR ANO

  • 1986: 24 álbuns
  • 1977: 22 álbuns
  • 1972: 21 álbuns
  • 1969 e 1985: 20 álbuns
  • 1976: 19 álbuns
  • 1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
  • 1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
  • 1967 e 1980: 16 álbuns cada
  • 1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
  • 1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
  • 1987: 13 álbuns



PLACAR POR NACIONALIDADE*

  • Estados Unidos: 224 obras de artistas*
  • Brasil: 174 obras
  • Inglaterra: 131 obras
  • Alemanha: 12 obras
  • Irlanda: 8 obras
  • Canadá: 5 obras
  • Escócia: 4 obras
  • Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
  • Austrália, França e Japão: 2 cada
  • Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada

*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)


domingo, 12 de outubro de 2025

Chick Corea - "Children's Songs" (1984)


"Adoro estar perto de crianças, porque elas são livres e brilhantes e te fazem acordar. Então, pensar sobre esse conceito do brilho das crianças foi o que serviu de modelo para eu escrever essas canções infantis".
Chick Corea

É interessante perceber como músicos acostumados a se experimentarem uma hora chegam à música infantil. Foi assim com Woody Guthrie, Carole King e Esquivel, assim como com os brasileiros Chico Buarque, Adriana Calcanhoto (sob o pseudônimo Partimpim), Paulo Leminski e Vinicius de Moraes. Até mesmo na música clássica, a se ver por Prokofiev, Debussy e Mozart. Há exemplos no jazz também, de Sammy Davis Jr., com seu “Sings the Complete ‘Dr. Dolittle’”, a Vince Guaraldi, que um dia foi escalado para compor as trilhas da série infantil televisiva Peanuts e ficou mundialmente conhecido justamente por esse trabalho.

Não é uma regra, mas quando esses músicos se tornam mães ou pais, há um motivo a mais para dedicarem canções aos pequenos. Chick Corea é um desses casos. No início dos anos 70, já uma lenda do jazz mundial, ele estava recém divorciado da mãe de seus filhos, Thaddeus e Liana, e casava-se pela segunda vez, agora com a também pianista Gayle Moran, esposa que o acompanhou até o final da vida, em 2021. Porém, os filhos ainda eram pequenos àquela altura. Como, então, afagá-los neste novo momento de suas vidas pessoais? Como mantê-los próximos a si? Não há confirmação sobre esta motivação, mas a resposta parece ter vindo, nada estranhamente, em formato de música. A coincidência dos períodos entre a nova configuração familiar, as primeiras composições com a temática da criança e o começo das improvisações solo ao piano dão a “Children’s Songs”, de 1984, este caráter.

Virtuose do piano, mas também um visionário da música contemporânea, Corea ajudou a moldar o curso do jazz moderno, influenciando gerações de músicos com sua habilidade técnica, ousadia harmônica e busca incessante pela inovação. Sua obra passa pelo hard bop, jazz fusion, latin jazz, eletrônico, vanguarda e música clássica. Escritas entre 1971 e 1983, as “Children’s Songs” captam, num grande poder de síntese e sensibilidade, vários aspectos de toda essa musicalidade em 20 peças e mais um “adendo” final.

A onipresença dos filhos na vida de Corea fez com que ele, inspirado na série “Mikrokosmos”, de 1940, do compositor húngaro Béla Bartók (uma de suas grandes influências), passasse a escrever, dentre outros diversos formatos, breves miniaturas de música infantil. Ele cria suas versões em composições ao mesmo tempo líricas e ricas em estrutura melódica e harmônica, que passeiam pelo romântico, pelo jazz, pelo folk e pelo pop. Na simplicidade lúdica das “Children’s Songs” há um trabalho complexo. Há paralelos estilísticos e estruturais com o ciclo de Bartók, como o uso das escalas pentatônicas, o emprego de compassos e de ritmos cruzados incomuns, a variedade de atmosferas sonoras em um tempo relativamente curto de cada peça e o aumento gradativo de dificuldade e complexidade ao longo da sequência.

A lúdica capa com os Smurfs de
"Friends", de 1978, onde já tinham
duas das "Children's Songs"
Traços desse repertório aparecem, a partir de então, em vários momentos de sua vasta produção musical, seja em carreira solo, em bandas ou parcerias. Uma versão mais lenta de "Nº 1" aparece pela primeira vez no álbum “Crystal Silence”, duo com Gary Burton, de 1972, e um ano depois junto da Return to Forever em “Light as a Feather”. A célebre banda de jazz fusion de Corea, entretanto, já havia prenunciado as “canções infantis” dentro da faixa "Space Circus Part I", constante no primeiro disco deles, “Hymn of the Seventh Galaxy”. Já os temas "Nº 5" e "Nº 15" surgem em “Friends”, de 1978, quando acompanhado dos músicos Steve Gadd, Eddie Gomez e Joe Farrell.

A ebulição elétrica da Return to Forever foi usada mais uma vez por Corea para trazer esses conceitos musicais dentro da extensa "Songs of the Pharoah Kings", que encerra epicamente o álbum “Where Have I Known You Before”, de 1974, a qual escondia, na verdade, a fuga “Nº 6”. Até mesmo o travesso tema "Nº 9" fez sua primeira aparição no álbum solo “The Leprechaun”, de 1976, como "Pixieland Rag".

Somente nos anos 80, agora desnudadas de qualquer arranjo ou grandes instrumentalizações, as “Children’s Songs” são reunidas e gravadas ao piano solo em julho de 1983, no Tonstudio Bauer, em Ludwigsburg, Alemanha, pelo selo ECM. A exceção é a última faixa, em que o Corea forma um trio de câmara com Ida Kavafian, ao violino, e Fred Sherry, no violoncelo. O alegremente elegante "Addendum", que fecha “Children's Songss”, demonstra a excelência contrapontística do pianista e a capacidade de compor para cordas, uma habilidade que surgiu em “The Leprechaun” e foi aprimorada ainda mais por ele no clássico “Mad Hatter”, de 1978.

Corea, que pretendia "transmitir simplicidade como beleza, representada no espírito de uma criança", como escreveu no encarte original do disco, não apenas conseguiu seu objetivo como entendeu ser importante não se eximir (e nem isentar a criança) de experimentar densidades musicais não tão comuns de serem dirigidas a esse público. Lances lúdicos, coloridos e graciosos se juntam à dramaticidade, melancolia e introspecção. E não necessariamente nessa ordem, como na impermanência da vida, algo essencial que um ser humano aprenda desde pequeno. E o objetivo principal foi atingido: os filhos Thaddeus e Liana sentiram-se devidamente afagados. E os fãs também.

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Chick Corea apresentando ao vivo na 
Alemanha as "Children's Songs", em 1982


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FAIXAS:
1. “Nº 1” - 1:47
2. “Nº 2” - 0:53
3. “Nº 3” - 1:23
4. “Nº 4” - 2:14
5. “Nº 5” - 1:07
6. “Nº 6” - 2:38
7. “Nº 7” - 1:38
8. “Nº 8” - 1:39
9. “Nº 9” - 1:11
10. “Nº 10” - 1:29
11. “Nº 11” - 0:38
12. “Nº 12” - 2:33
13. “Nº 13” - 1:21
14. “Nº 14” - 1:58
15. “Nº 15” - 1:08
16. “Nº 16” & Nº 17” - 1:55
17. “Nº 18” - 1:47
18. “Nº 19” - 2:26
19. “Nº 20” - 1:20
20. “Addendum” - 5:10
Todas as composições de autoria de Chick Corea

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OUÇA O DISCO:
Chick Corea - "Children's Songs" 

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Hermeto hermenêutico

"O músico mais importante do planeta." 
Miles Davis, sobre Hermeto Pascoal

Hermeto se foi. Mas fica. Eternamente. Presentemente. Magicamente, como que entranhado nos entremeios da vida. Acreditem: no dia em que ele partiu, dia 13, eu, pela manhã, na feira, vi dois violinistas tocarem uma série de músicas brasileiras, até que uma me chamou atenção: "Bebê", clássica composição de Hermeto gravada por ele diversas vezes e por inúmeros outros músicos outras diversas. Mas por músicos MÚSICOS! Aqueles que admiram o som brasileiro em tom maior.

Mas a simbiose com Hermeto continuou. À noite, assistindo pela quarta vez o balé "Parabelo", do Grupo Corpo, evoquei Hermeto novamente ao ouvir num dos números o toque áspero e gutural da flauta nordestina, flauta de quem tem fome. Fome de arte. Tal qual mestre Hermeto tantas vezes tocou. E quem há de discordar dessa onipresença? Elis? Miles? Airto? Corea? Flora? Tom? Hancock? Edu? Vandré? Sivuca? Eu, não.

Hermeto estava ali, sim, presente. Dia e noite. Como sempre está. Física e espiritualmente. Simbólica e materialmente. Conceitual e praticamente.

Imagina eu querer desconfiar de um mago, desses que nos ajudam, hermeneuticamente, a interpretar o sagrado. Anos atrás, num dia que seria só um dia qualquer do ano de 2010, dei-me com Hermeto em plena área de embarque do Aeroporto de Porto Alegre. Pedi-lhe, como poucas vezes faço, um autógrafo. Saquei o primeiro papel que vi na frente: meu livro “Kind of Blue: A História da Obra-prima de Miles Davis”, que há época eu lia. Ele prontamente atendeu. Sabendo do que se tratava a obra, Hermeto, então, com toda a simplicidade (e autoridade) que tinha, falou que não só conhecera Miles como que havia tocado com ele num disco "que não lembrava o nome".

O disco era "Live Evil", de 1970. Ganhei o autógrafo - com direito a desenho de Hermeto - e a certeza de que ele estava, sim, em todos os lugares e em todos os tempos. 

Nada estranho pra quem legou ao mundo da música a ideia de que ela, a música, estava em todo lugar. Nada estranho pra alguém que se vestiu de música, se fez música, existiu-se música. Que compreendeu que música está nos átomos, na atmosfera, nos corpos. Se música é Hermeto, há de se entender porque Hermeto está em todos os lugares. Seja na praça, seja no happening, seja na zona de embarque. De dia e de noite.

Hermeto se foi ficando. Eterno, enorme, universal, intergaláctico, quântico, hermenêutico. Explicação da vida.

Morre vivendo. Nasce morrendo. Nada estranho para um Bruxo.


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HERMETO PASCOAL
(1936-2025)




Daniel Rodrigues

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Aum - "Belorizonte" (1983)

 

"Dedicado a Belo Horizonte"
Dedicatória da contracapa do disco

Rio de Janeiro e Salvador, por motivos históricos e culturais tão distintos quanto semelhantes, são conhecidas como as capitais brasileiras que guardam maiores mistérios. Mas quando o assunto é música, nada bate Belo Horizonte. A musicalidade sobrenatural de Milton Nascimento, o fenômeno Clube da Esquina, o carioquismo mineiro de João Bosco, a sonoridade crua e universal da Uakti, o som inimaginável da Som Imaginário. Afora isso, a profusão há tantos anos de talentos do mais alto nível técnico e criativo a se ver (além de Milton, carioca, mas mineiro de formação e coração) por Wagner Tiso, irmãos Borges, Cacaso, Beto Guedes, Marco Antônio Guimarães, Fernando Brant, Toninho Horta, Samuel Rosa, Flávio Venturini, Tavinho Moura...

Mas quer maior mistério mineiro do que a banda Aum? Além do próprio nome, termo de origem hindu que lhes representa o som sagrado do Universo, pouco se sabe sobre eles há 40 anos. O que se sabe, sim, é que o grupo formado em Beagá por Zé Paulo, no baixo; Leo, bateria; Guati, saxofone; Marcio e Taquinho, guitarras; e Betinho, teclados, embora a diminuta nomenclatura, é dono de uma sonoridade enorme, visto que complexa, densa e sintética, que se tornou um mito na cena instrumental brasileira. Mais enigmático ainda: toda esta qualidade foi registrada em apenas um único disco. E se o nome da banda traz uma ideia mística, o título do álbum é uma referência direta àquilo que melhor lhes pertence: "Belorizonte". E escrito assim, no dialeto "mineirês", tal como os nativos falam coloquialmente ao suprimir letras e/ou juntar palavras.

A coerência com o "jeitin" da cidade não está somente impressa na capa. Vai além e mais profundamente neste conceito. O som da Aum é, como se disse, complexo, denso e sintético, pois faz um híbrido impressionante (e misterioso) de rock progressivo, jazz moderno e a herança da "escola" Clube da Esquina. "Belorizonte" destila elegância e beleza em suas seis requintadas faixas, remetendo a MPB, à música clássica e a cena de Canterbury, mas imprimindo uma marca única, uma assinatura. De forma independente, a Aum gravou “Belorizonte” no renomado estúdio Bemol, por onde passaram grandes mineiros como Milton, Toninho, Nivaldo Ornellas, Tavinho e Uakti e um dos primeiros estúdios na América Latina a possuir um aparato de áudio profissional para gravações em alto nível.  

Esta confluência de elementos é como um retrato sonoro de onde pertencem: da topografia dos campos e serras, da vegetação do Cerrado, da coloração avermelhada da terra, da energia emanante dos minérios. Das feições mamelucas dos nativos, da influência ibérica e indígena, da religiosidade católica e africana. Aum é a cara de Belo Horizonte. Por isso mesmo, chamar o disco de outra coisa que não o nome da própria cidade seria impensável.

Suaves acordes de guitarra abrem "Tema pra Malu", o número inicial. Jazz fusion melódico e inspirado, embora não seja a faixa-título, não é errado dizer que se trata da mais emblemática do álbum. Variações de ritmo entre um compasso cadenciado e um samba marcado são coloridos pelo lindo sax de Guati, que pinta um solo elegante. A guitarra solo, igualmente, com leve distorção, não deixa por menos, dando um ar rock como o do Clube da Esquina. Aliás, percebe-se a própria introspecção de canções de Milton, como “Nada Será como Antes” e “Cadê”. 

Já "Serra do Curral", um dos maiores e belos símbolos da capital mineira, é narrada com muita delicadeza em uma fusão de jazz moderno, folk e MPB. Sem percussão, é levada apenas nos criativos acordes de guitarra, linhas de baixo em alto nível e um solo de violão clássico de muito bom gosto. Impossível não remeter a Pat Metheny e Jaco Pastorius, jazzistas bastante afeitos com os sons da latinoamerica. Novamente, ecos do Milton e do Clube da Esquina, como as latinas “Paixão e Fé”, de “Clube da Esquina 2” (1978), e “Menino”, de “Geraes” (1975).

Numa pegada mais progressiva, a própria “Belorizonte”, a mais longa de todo o disco, com quase 10 min, traz um ritmo mais acelerado puxado pelas guitarras de Frango e Taquinho, seja no riff quanto no improviso. Betinho também dá as suas investidas nos teclados, mas quem tem vez consistentemente são Zé Paulo, no baixo, e Leo, na bateria. Ambos executam solos como em nenhum outro momento do álbum – e, consequentemente, da carreira. Ouve-se, tranquilamente, “Maria Maria”, de Milton, “Feira Moderna”, de Guedes, e “Canção Postal”, de Lô Borges.  Outro rock pulsante, “Nas Nuvens”, chega a lembrar "Belo Horror", de "Beto Guedes/Danilo Caymmi/Novelli/Toninho Horta", e principalmente “Trem de Doido”, do repertório de “Clube da Esquina”, principalmente pela guitarra solo de Guedes com efeito. Destaque também para os teclados de Betinho, traz uma banda em tons alegres e em perfeita sintonia, algo dos lances mais instrumentais d’A Cor do Som, espécie de Aum carioca e de sucesso.

O chorus de "4:15", conduzido pelo sax, pode-se dizer das coisas mais airosas da música brasileira dos anos 80. Bossa nova eletrificada e com influência do jazz de Chick Corea, Herbie Hancock e Weather Report, funciona como uma fotografia poética da Belo Horizonte urbana às 16 horas 15 minutos da tarde com seu trânsito, suas vias e suas gentes emoldurados pela arquitetura, pela luz e pela paisagem da cidade. “Tice” encerra com um ar de blues psicodélico. Primeiro, ouve-se algo inédito até então: uma voz humana. Chamada especialmente para este desfecho, a cantora Roberta Navarro emite melismas melancólicos. Em seguida, a sonoridade de piano protagoniza um toque onírico para, por fim, a guitarra de Taquinho emitir seu grito-choro de despedida.

“Belorizonte” se tornou um dos discos nacionais mais procurados entre os colecionadores, visto que restam algumas raras cópias do vinil original, disponíveis em sebos a altos preços. Sua aura de ineditismo e de assombro paira até os dias de hoje. Brasileiros e estrangeiros ainda descobrem a Aum e, além de se encantarem, perguntam-se: “por que apenas este registro?”. Afora raros reencontros para shows especiais, permanece inexplicável que nunca tenha voltado à ativa – até porque todos os integrantes ainda estão vivos. Seja por milagre ou não, ou mais importante é que, mesmo que não se explique, o som da Aum, único e irrepetível, independe de qualquer enigma ou lógica. Basta por para se escutar, que o sobrevoo sobre os campos e cerrados de BH está garantido.

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FAIXAS:
01. "Tema pra Malu" (Taquinho) - 5:12
02. "Serra do Curral" Marcio) - 2:55
03. "Belo Horizonte" (Aum) - 9:36
04. "Nas Nuvens" (Betinho) - 3:58
05. "4:15" (Marcio) - 4:15
06. "Tice" (Betinho) - 7:20

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

The Blue Mitchell Quintet - “Down With It!” (1965)

 


"Hoje quero dizer à cidade de Selma, hoje quero dizer ao estado do Alabama, hoje quero dizer ao povo da América e às nações do mundo, que não estamos prestes a dar a volta por cima. Já estamos em movimento. A verdade Dele está a marchar."
Martin Luther King, no discurso de 25 de junho de 1965 ao final da Marcha de Selma a Montgomery

Alguns seres humanos pisam sobre a Terra de tempos em tempos para que o mundo, em permanente crise, cure-se ao menos um pouco de suas chagas. Jesus, Da Vinci, São Francisco, Buda, Madre Teresa e Gandhi são desses iluminados que parecem descer de outro plano para virem fazer a diferença em meio aos mortais. Porque, claro, eles não morrem nunca. É o caso de Martin Luther King Jr., o pastor batista e ativista político norte-americano que viveu menos de 40 anos para deixar não só o justo legado de reivindicação pelos Direitos Civis de seu país, pelo qual se tornou um ícone, como, mais do que isso, um exemplo de resistência negra e de igualdade para todo o mundo, o qual nunca mais foi igual depois de sua passagem pelas bandas terrenas. De 1955 a 1968, quando foi covardemente assassinado, Dr. King transformou todos os lugares no qual pisou através da palavra e do exemplo.

O jovem Blue Mitchell viveu isso. Como milhares de norte-americanos negros, o trompetista e compositor de jazz e R&B nascido em Miami via na figura de Luther King um sopro de esperança e mudança social tão necessária a um país marcadamente desumano e desigual para com pessoas como ele. Mitchell, no entanto, ao contrário de muitos de seus pares soterrados pelo preconceito, tinha um canal para exprimir seu assombro e admiração: a música. Em “Down With It!”, de 1965, seu 11º da carreira e segundo pela Blue Note, pela a qual havia trocado sua então gravadora Riverside recentemente, não apenas avisa já no significativo título (algo como "abaixo tudo isso!", referindo-se ao racismo, à violência, à segregação) como tematiza um dos mais célebres momentos da trajetória de Luther King: a marcha sobre a cidade de Selma até Montgomery, no abertamente segregador estado do Alabama, pelo direito dos negros norte-americanos ao voto. 

O disco, lançado em julho daquele ano, é claramente tocado por este acontecimento, ocorrido menos de três meses antes e que significou, depois do revoltante Domingo Sangrento, no dia 7, a primeira grande vitória pelos direitos civis da população negra nos EUA duas semanas depois da repressão policial que comoveu o país e o mundo. Tamanho é o impacto positivo sobre Mitchell do feito de Luther King e suas centenas de corajosos correligionários, que o fato lhe inspira um blues alegre, composto em notas altas na escala. Nada estranho a quem traz o estilo musical de raiz no nome. “March on Selma” não só contraria a compreensível seriedade geralmente dada a um tema tão pesado e triste como este como, principalmente, demostra como pessoas como Mitchell se sentiram diante daquele momento histórico e tão simbólico para suas vidas. Era uma conquista pela cidadania, pelo direito de ser quem se é. Por isso, merecia mesmo que se comemorasse – até porque, talvez pressentindo que naquele mesmo ano o presidente Johnson acataria a reivindicação, mas também que, três anos dali, a celebração poderia acabar a qualquer instante com um tiro.

Bastaria, mas “Down...” não se resume somente a “March...”. Há ainda outras maravilhas do quinteto de Mitchell. "Hi-Heel Sneakers" abre o álbum num jazz-funk inspiradíssimo. Todos se esmeram e mostram de pronto a que vieram: Gene Taylor, ao baixo; Aloysius Foster, na bateria; Junior Cook, no sax tenor; e um talentoso jovem pianista que se tornaria um dos maiores nomes do jazz contemporâneo de todos os tempos: Chick Corea, com apenas 24 anos à época. Na linha do Lee Morgan e Herbie Hancock vinham realizando naquele meado de anos 60 ao introjetarem o groove pop de James Brown às linhas melódicas do hard bop, Mitchell ousa em “Hi-Heel...” para, também desta forma, valorizar as raízes negras da música.

Dr. King liderando a famosa Marcha sobre Selma, que tocou profundamente Mitchell

Já “Perception” muda todo o clima, tornado a ambiência mais contemplativa e lírica. O dedilhado do piano, claramente inspirados na bossa nova, denota um Corea já totalmente familiarizado com as harmonias jobinianas as quais aprofundaria como band leader junto a sua mezzo brazuca banda Return to Forever alguns anos depois. A bateria de Foster, cujo ritmo puxado na borda da caixa é igualmente brasileiríssimo, faz uma tabelinha afinada com o gingado do piano e do baixo de Taylor. Os sopros não ficam para trás, contudo. Perfeitos na fluidez do chorus e na elegância dos solos, primeiro Mitchell e depois Cook.

Não podia faltar ao menos uma balada no repertório, especialidade dos be-bopers da linhagem de Cannonball Adderley, Earl Bostic e Horace Silver e como foi Mitchell. "Alone, Alone, and Alone", com seus solfejos lânguidos e suplicante de trompete, faz-se a melhor e única companhia para quem quer ficar na sua sofrendo por um amor. “One Shirt”, por sua vez, exercita com maestria a linguagem do hard bop sobre um antigo tema do ragtime. Já em “Samba de Stacy” Corea e Foster retomam a química para um tema ainda mais gingado e tipicamente brasileiro. De sonoridade mais aberta e vibrante que “Perception”, no entanto, a música encerra o disco no clima de positividade que Mitchell fez questão de imprimir desde a capa de Reid Miles, a qual traz uma foto em p&b estourada de uma mulher de feições afro-americanas sorrindo. Dr. King havia triunfado.

Na semana em que os Estados Unidos celebram o Dia de Martin Luther King, um dos poucos feriados nacionais do país, este dia 17, “Down...” é mais do que um dos melhores discos de Blue Mitchell e uma trilha sonora de uma época áurea do gênero musical mais norte-americano de todos, mas também um registro socioantropológico de quem vivenciou e elaborou um acontecimento social transformador. Os feitos e a existência de figuras como Luther King são tão intensas que perduram eternamente, e a música certamente um dos mais poderosos veículos para esta perpetuação. O mundo nunca esquecerá de Martin Luther King Jr., e Blue Mitchell, testemunha ocular da história, colabora lindamente com este legado universal.

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FAIXAS:
1. "Hi-Heel Sneakers" (Robert Higginbotham) – 8:23
2. "Perception" (Chick Corea, Blue Mitchell) – 5:41
3. "Alone, Alone, and Alone" (Terumasa Hino) – 7:45
4. "March on Selma" (Mitchell) – 6:16
5. "One Shirt" (William Boone) – 7:30
6. "Samba de Stacy" (Boone) – 5:59

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Miles Davis - "Bags Groove" (1957)

 

"Em fevereiro de 1954, pela primeira vez em um tempo, eu me sentia bem de verdade. Minha embocadura estava firme porque eu vinha tocando todas as noites e tinha finalmente me livrado da heroína. Eu me sentia forte, física e musicalmente. Me sentia pronto para tudo."
Miles Davis

Era incrível a capacidade de Miles Davis para compor grandes bandas. O músico, que completaria 95 anos no último mês de maio e cuja prematura morte completará três décadas em setembro, desde que se tornara um jovem band leader, aos 22, no final dos anos 40, estabelecera tal protagonismo. Após alguns anos de “escola” aprendendo teoria musical na Julliard School mas, principalmente, tocando na banda de Charlie Parker, o grande revolucionário do jazz, o homem que pôs o gênero de ponta-cabeça diversas vezes ao longo de meio século, em menos de 10 anos de carreira solo e menos de 30 de idade já era considerado uma lenda no meio jazz nova-iorquino. Além de lançar discos referenciais, como “Birth of the Cool” (1949/50), cujo nome fala por si, e a trilogia hard-bopCookin’/ Relaxin’/ Steamin’” (1956), o trompetista tinha um tino especial também para agregar a si outros talentos, formando grupos às vezes tão inesquecíveis quanto seus álbuns. Tanto veteranos, como Charles Mingus, Art Blakey e Max Roach quanto então novatos, como Gerry Mulligan, John Coltrane, Herbie Hancock e Tony Williams, eram recrutados por Miles, um líder natural.

Era tanto prestígio de Miles já à época, que ele mantinha contrato com duas gravadoras, Blue Note e Prestige, e estava em vias de assinar com outra: a Columbia. Toda essa autoridade permitiu que, em “Bags Groove”, de 1957, ele pudesse contar não com uma, mas duas bandas. E, diga-se: bandas de dar inveja a qualquer front man. O disco reúne duas sessões de gravação ocorridas em 1954 no famoso estúdio Van Gelder, em Nova York: a 29 de junho e a 24 de dezembro. Para cada uma, Miles teve escalações estelares. Acompanhando-o na segunda delas estão, além dos velhos parceiros Percy Heath, ao baixo, e Kenny Clarke, na bateria, ninguém menos que Milt 'Bags' Jackson, nos vibrafones, membro da inesquecível Modern Jazz Quartet e a maior referência deste instrumento na história do jazz, e Thelonious Monk ao piano, considerado um dos maiores gênios da música do século XX. Duas referências do jazz bebop e ambos tocando pela primeira vez com o trompetista. 

O disco começa com outra característica de Miles fazendo-se presente, que é a de não apenas estar ao lado de músicos de primeira linha como, principalmente, saber tirar o melhor proveito disso. As duas versões da faixa-título, de autoria do próprio Milt, são tão solares que fazem esquentar o frio nova-iorquino daquela véspera de Natal. O estilo solístico de Miles e sua liderança no comando da banda, atributos totalmente recuperados por ele naquele 1954 depois de um longo e tortuoso período de vício em heroína, ficam evidentes em seus improvisos inteligentes, econômicos e altamente expressivos. 

Mas não é apenas Miles que brilha, visto que tudo na música “Bags...” abre espaço para diálogos. A elegância característica do estilo de Miles se reflete no soar classudo do vibrafone de Milt. Poder-se-ia dizer tranquilamente que a faixa, por motivos óbvios, além da autoria e da autorreferência, é dele, não fosse estar dividindo os estúdios com Miles e Monk. Este último, por sua vez, conversa tanto com a elegância peculiar dos dois colegas quanto, principalmente, no uso inteligente e econômico das frases sonoras. No caso do pianista, mais que isso: precisão – e uma precisão singular, pois capaz de expressar sentimento.

Capa do disco com Rollins,
que corresponde ao
lado B de "Bags Groove"
O repertório do álbum se completaria com outra gravação ocorrida meses antes, só que num clima totalmente contrário: em pleno calor do verão junino da Big Apple, Miles entra em estúdio amparado por Clarke novamente, mas agora tendo ao piano outro craque das teclas, Horace Silver. Mas ao invés do vibrafone percussivo de Milt, agora a sonoridade complementar muda para outro sopro: o vigoroso saxofone tenor de Sonny Rollins. Substituições feitas, qualidade mantida. Como um time que não se afeta com a intempéries e sabe mudar as peças mantendo o mesmo esquema vitorioso, 

Os quatro números restantes são fruto da sessão feita para “Miles Davis With Sonny Rollins”, de 1954 (este, lançado naquele ano mesmo), quando Miles, que já havia trabalhado rapidamente com o saxofonista três anos antes, apresentava-o, então com 24 anos, como jovem promessa do jazz. E se o lado A de “Bags...” tinha como autor não Miles, mas seu parceiro Milt, a segunda parte também era praticamente toda assinada por Rollins. “Airegin”, um bop clássico, é o resultado do entrosamento dos dois. Miles gostou tanto do tema, que o regravaria no já referido “Cookin’” com Coltrane, no sax, Red Garland, ao piano, Paul Chambers, baixo, e Philly Joe Jones, na bateria. O mesmo acontece com “Oleo”, um gostoso jazz bluesy, que Miles aproveitaria no repertório de outro disco memorável daquela época, “Relaxin’”, e com o qual contou com a mesma “cozinha” de “Cookin’”.

“Bags...” tem ainda outra de Rollins, a inspiradíssima “Doxy” e sua levada balançante, que não muito tempo dali se tornaria um clássico do cancioneiro jazz, interpretada por monstros como Coltrane, Dexter Gordon e Herb Ellis. Completam o repertório dois takes do standart “But Not For Me”, de Gershwin. Classe pouca é bobagem. 

Isso tudo, acredite-se, antes de Miles ter lançado aquele que é considerado sua obra-prima, “Kind of Blue”, de 1959, a criação do jazz modal e com o qual contou com Coltrane, Bill Evans, Cannoball Adderley, Jimmy Cobb e Wynton Kelly. Antes de ter tocado com o infalível quarteto Williams, Hancock, Wayne Shorter e Ron Carter, noutro passo fundamental para o jazz. Muito antes de ter feito “In a Silent Way” e “Bitches Brew”, as revoluções do jazz fusion em que teve, além de Hancock, Shorter e Williams, outros coadjuvantes ilustres como Chick Corea, Joe Zawinul e John McLauglin. Como talvez nenhum outro músico do jazz, Miles tinha a capacidade de reunir os diferentes e saber extrair disso o melhor. De unir verão e inverno e torná-los a mesma estação. “Bags...” é uma pontinha de tudo isso que Miles fez e representou para o jazz e a música moderna. E haja bagagem para conter tanta história e tantos talentos orbitando ao redor do planeta Miles Davis!

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FAIXAS:
1. "Bags' Groove" (Take 1) (Milt Jackson) - 11:16
2. "Bags' Groove" (Take 2) - 9:24
3. "Airegin" (Sonny Rollins) - 5:01
4. "Oleo" (Rollins) - 5:14
5. "But Not for Me" (Take 2) (George Gershwin/ Ira Gershwin) - 4:36
6. "Doxy" (Rollins) - 4:55
7. "But Not for Me" (Take 1) - 5:45


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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Música da Cabeça - Programa #202

 

Convenhamos: é infalível montar uma arte com as poesias do mestre Augusto de Campos, né? Celebrando os 90 anos do grande poeta concretista, mas também lamentando a partida da lenda Chick Corea, o MDC de hoje vem sem ziriguidum, mas com muita coisa boa. Luiz Melodia, Sex Pistols, Ely, Caetano Veloso e Cibo Matto estão entre elas. Ainda, os quadros e muito mais. Se o teu Carnaval não teve batucada, vem escutar o programa hoje, às 21h, na Rádio Elétrica, que vai dar samba. Produção, apresentação e tamborim guardado: Daniel Rodrigues.




segunda-feira, 9 de março de 2020

A eternidade lhe pertence


"Junto com Bill Evans, Tyner foi o pianista mais influente do jazz nos últimos 50 anos, com suas voicings de acordes sendo adotadas e utilizadas por praticamente todos os pianistas mais jovens."
Scott Yanow, crítico e historiador de jazz norte-americano

Certa vez, Leocádia Costa e eu, conversando com um amante de música como nós na saudosa livraria Arlequim, no Centro do Rio, falei de minha preferência por McCoy Tyner entre os pianistas do jazz. Idolatro Hancock e Corea. Louvo Thelonious, Donato, Red, Bruback, Silver, Evans, Hermeto. Admiro Toshiko, Jarrett, Tristano, Sonny. São muitos os mestres do instrumento, mas Tyner, morto no último dia 6 de março, me é tudo. Todos eles. Coração e técnica, simplicidade e complexidade, intensidade e leveza.

Afora isso, tem o fator subjetivo. Gosto de seu toque, de suas ambiências, de seus improvisos com mais passionalidade do que os de outros. Simplesmente. As quartas justas ou aumentadas na mão esquerda, as quintas, o cromatismo, os voicings, o pentatonismo. É como se seus dedos se comunicassem diretamente com meus ouvidos. E assim é.

E ainda, como se não bastasse, ele é o piano de, entre inúmeras gravações e discos históricos do jazz moderno, do quarteto mágico de John Coltrane ao lado de Elvin e Garrison/Davis. Até este último dia 6 de março, o único sobrevivente daquele time eternizado. Agora, a eternidade é que lhes pertence.

Talvez devesse ser regra, assim como em alguns esportes, quando um grande ídolo morre e se aposenta a sua camiseta. Para um pianista que se vai deveriam, em sua homenagem, arrancar uma tecla do piano que o represente e nunca mais usá-la. A tecla de Tyner podia ser um Fá ou um Dó como os que ele usava quando tocava intervalos de quinta na mão esquerda, uma de suas assinaturas. Ficaria decretado, por consentimento e aclamação: ninguém mais estaria autorizado a tocá-la, a tecla eternizada por e para McCoy Tyner.

MCCOY TYNER
(1938-2020)



Daniel Rodrigues

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

4ª Feira de Vinil Gira Música - Casa da Polônia - Rio de Janeiro/RJ (1º/09/2019)



O dias em que passamos Leocádia e eu no Rio de Janeiro foram invariavelmente lotados. Só coisa boa, mas lotados. Mas sempre se tem espaço para encaixar mais uma programação, ainda mais quando esta trata de música. Ou melhor: quando esta trata de música E discos, o que para um colecionador é um prato cheio. Minha mãe, sabendo de nosso gosto, havia avisado dias antes que ocorreria, no domingo, a Feira de Vinil Gira Música, na Casa da Polônia, no próprio bairro e avenida onde estávamos instalados, Laranjeiras. Pois que, voltando de um passeio no bairro Jardim Botânico neste dia, eis que cruzamos em frente à feira. Obviamente que descemos e fomos dar uma conferida, o que não só valeu a pena a título de passeio como, claro, de compras.

A feira trazia food trucks, bancas com artesanato e bijuterias e uma exposição sobre o célebre músico, arranjador e produtor Lincoln Olivetti, morto há  4 anos, infelizmente muito primária e amadora e que não dimensionava nem de perto a relevância do homenageado. Mas isso não era o mais importante e, sim, aquilo que nos levou até lá: os discos. Com expositores cariocas mas também vindos de Minas Gerais e São Paulo, a feira estava muito boa em termos de quantidade e variedade. Todos os gêneros musicais contemplados, mas principalmente rock, MPB e jazz. O nível dos expositores chamou atenção, uma vez que todos sabem muito bem o acervo que oferecem. Ou seja: os discos raros tinham preços que justificavam suas particularidades. Títulos como "A Bad Donato", de João Donato, "Stand", da Sly & Family Stone, o primeiro disco de Arthur Verocai, "Spirit of the Times", de Dom Um Romão, "Blue Train", de John Coltrane, ou o disco do próprio Lincoln em parceria com Robson Jorge, clássico da AOR brasileira, não saíam por menos que 500, 400, 350, 200, 180 Reais ou valores parecidos.

Galera percorrendo as prateleiras em busca "daquele" vinil
Clima descontraído e musical da Feira de Vinil na Laranjeiras
Não só vinil tinha na feira
Eu vasculhando as preciosidades da banda do Sonzera, um dos expositores
Pedaço da miniexposição sobre Lincoln Olivetti: deixou a desejar

Em compensação, vários balaios. E bons! Com muita variedade e, às vezes, até discos raros, era possível encontrar unidades a 10, 20 ou 30 Reais. E foi aí que me esbaldei, passando algumas horas na feira percorrendo as caixas com promoções enquanto Leocádia aproveitava outras atividades ou simplesmente me aguardava. Uma das atrações da feira seria a presença do cantor e compositor Hyldon, lenda da soul brasileira, que estaria à tarde autografando seu disco relançado, mas não ficamos para isso. Afinal, já estávamos muito bem alimentados com o que encontramos de variedade e qualidade de bolachões, inclusive esses, os que levamos para casa:



“Limite das Águas” – Edu Lobo (1976)
Edu tem vários discos solo cultuados, como “Missa Breve”, “Camaleão” e “Jogos de Dança”, mas não raro este aparece como o preferido do autor de “Ponteio”. Afinal, não tem como não adorar as parcerias como Capinan, Cacaso e Guarnieri, além do primor dos arranjos do próprio Edu e as participações de músicos do calibre de Oberdan Magalhães, Cristóvão Bastos, Joyce, Toninho Horta, Danilo Caymmi e o grupo vocal Os 3 Morais. Coisa fina da MPB.


“Libertango” – Astor Piazzola (1974)
Um dos gênios da música do século XX em seu disco mais icônico. Gravado em Milão, é a representação máxima do tango argentino moderno, tanto que as próprias faixas, assim como a que o intitula, trazem o termo “tango” no nome: Meditango, Violentango, Undertango, entre outras. De ouvir ajoelhado - ou tangueando.



“Brazilian Romance – Sarah Vaughn with Milton Nascimento” ou “Love and Passion”  Sarah Vaughn (1987)
A grande cantora norte-americana Sarah Vaughn, amante da MPB, recorrentemente voltava ao gênero. Depois de gravar discos como “Exclusivamente Brasil” e “O Som Brasileiro de Sarah Vaughn”, nos ano 70, em 1987 ela torna à sonoridade do Brasil por meio de um de seus mais admirados compositores: Milton Nascimento. E o faz isso com alto grau de requinte, haja vista a produção de Sérgio Mendes, os arranjos de Dori Caymmi e participações de gente como George Duke e Hubert Laws. Ela quase levou um Grammy de melhor performance feminina por este álbum.

“Merry Christmas, Mr. Lawrence (Music From The Original Motion Picture Soundtrack)”  Ryuichi Sakamoto (1983)
Tenho adoração por este filme intitulado no Brasil como “Furyo - em Nome da Honra”, e tanto quanto pela trilha sonora, escrita pelo genial Ryuichi Sakamoto. Que, aliás, atua neste filme de Segunda Guerra do mestre Nagisa Oshima, o qual conta no elenco (e só no elenco, o que acho legal também em nível de desprendimento) e como ator principal David Bowie em espetacular atuação. A faixa-título é não só linda como um marco das trilhas sonoras feitas para cinema.


“Stories to Tell” – Flora Purim (1974)
Terceiro disco solo de Flora e segundo dela em terras norte-americanas. Ou seja, vindo um ano após o seu debut “Butterfly Dreams”, no mesmo ano de“Hot Sand”, do então marido Airto Moreira, e dois da estreia com Chick Corea na Return to Forever, “Stories...” a consolida como a musa do jazz brasileiro. Ainda por cima tem Carlos Santana, George Duke, Ron Carter e o próprio Airto compondo a “bandinha”. E que voz é essa a dela?! 




“Amor de Índio” – Beto Guedes (1978)
Dos discos mais célebres da chamada “segunda fase” do Clube da Esquina. A galera tá toda lá: Milton, Brant, Toninho, Tiso, Venturini, Tavinho, Caetano e, claro, Ronaldo Bastos, produtor, compositor com Beto da faixa-título e autor da icônica foto dele enrolado no cobertor usada por Cafi na arte da capa.



texto: Daniel Rodrigues
fotos: Leocádia Costa e fanpage Gira Brazil - Gira Música