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terça-feira, 31 de maio de 2016

A Cor do Som – Teatro Bourbon Country – Porto Alegre/RS (29/05/2016)




A grande A Cor do Som em plena atividade.
Foi um acontecimento encantado que Porto Alegre presenciou na úmida noite de domingo. Afinal, a lendária banda A Cor do Som, com a formação original, resolveu reunir-se 32 anos depois da última vez e escolheu a capital gaúcha para estrear. A opção, aliás, se justificou plenamente. Num Bourbon Country lotado de fãs empolgados e emocionados, o grupo reviveu clássicos e sucessos, preenchendo uma ausência de quase todo esse tempo, haja vista que a última vez que pisaram num palco da cidade foi em 1981, no antigo Teatro Leopoldina. Aos que estavam lá àquela época, valeu a pena esperar, assim como para fãs como eu, que os somente bem depois os conheceu e passou a apreciar seu trabalho sui generis.

 O que se viu foi um verdadeiro espetáculo de musicalidade, virtuosismo e empatia de todos os integrantes com o público, o qual cantou todas as letras e soltou-se como poucas vezes vi nessas geladas terras gaúchas. Afinal, além de terem escrito a trilha sonora da adolescência de muitos dos presentes, os cinco músicos são capazes de conquistar públicos de todas as gerações. Intercalando suítes instrumentais com hits cantados, Armandinho (guitarra baiana e bandolim), Dadi (baixo), Mu Carvalho (teclados), Gustavo Schroeter (bateria) e Ary Dias (percussão),  trouxeram um repertório literalmente colorido, daqueles que se sai preenchido de alegria ao final. A mistura híbrida de funk, samba, pop, baião, reggae, choro, hard-rock, frevo, progressivo, maracatu, disco (e o que mais o ouvido conseguir detectar) faz com que criem um inclassificável tipo de jazz que somente uma banda desses trópicos como A Cor do Som – formada, entre outros, por remanescentes dos Novos Baianos e Banda do Zé Pretinho, Dadi e Mu, e descendentes diretos dos trios elétricos baianos, caso de Armandinho e Ary – pode conseguir.

E eles já saíram pondo tudo abaixo com “Saudação a Paz”, faixa que abre seu terceiro disco, de 1981. Em seguida, cantada com a voz suave do “leãozinho” Dadi, um dos grandes sucessos: “Abrir a Porta”, daquele que é talvez sua obra-prima, “Frutificar”, de 1979. Deste mesmo trabalho, mais uma maravilha instrumental na sequência: “Pororocas”, jazz-baião em que todos se esmeram, principalmente o virtuose Armandinho no bandolim, do qual ele extrai timbres de guitarra elétrica. Das cantadas, que contagiaram a plateia, ainda veio o lindo xote “Semente do Amor”, na voz de Mu (“Sim, é como a flor/ De água e ar luz e calor/ O amor precisa para viver/ De emoção, e de alegria/ E tem que regar todo dia...”), e “Beleza Pura”, do baiano e padrinho Caetano Veloso (autor do nome da banda e que lhes presenteou a música, um sucesso em 1979), que o conterrâneo Armandinho entoou.

De fato, a proximidade e o carinho que a música d’A Cor do Som tem para como os gaúchos é muito grande. Outra do mano Caetano encomendada a eles é uma que tem a cara de Porto Alegre. Aliás: é inspirada num dos bairros mais queridos da cidade, “Menino Deus”. A letra, de uma beleza incrível, claro, emocionou os que lá estavam a ouvindo na voz de Dadi: “Menino Deus, um corpo azul-dourado/ Um porto alegre é bem mais que um seguro/ Na rota das nossas viagens no escuro/ Menino Deus, quando tua luz se acenda/ A minha voz comporá tua lenda.”

Armandinho é ovacionado enquanto
sola no meio da plateia.
Vinham também sempre as instrumentais, que deixavam a plateia mais contemplativa e menos dançante, pois boquiaberta com tamanha destreza dos músicos e beleza musical. Caso de “Ticaricuriquetô”, de Armandinho, um misto de heavy-metal, frevo e rock progressivo em que o guitarrista arrasa com a pequena guitarra baiana. Dadi, Mu, Ary e Gustavo não ficam para trás nos solos, tanto quanto nas difíceis bases que as melodias exigem, remetendo muitas vezes à complexidade harmônica do jazz fusion de uma Weather Report ou Pat Matheny Group. Nessa linha, a talvez mais impressionante de toda a apresentação foi a clássica “Frutificar”, faixa-título do álbum de 1979 e de autoria de Mu. É ele quem a inicia com uma abertura quase erudita de alguns minutos conjugando piano e teclado elétrico. O baixo e a bateria entram de leve. É quando Ary, mais atrás no palco, ao lado da bateria, posiciona os bongôs à frente, pareando com o teclado e com Armandinho, que está ao centro. Ao comando do teclado, que intensifica o compasso, o percussionista deslancha uma intensa percussão típica africana, e aí quem entra é Armandinho. Cruzes! Num clima de trilha sonora de thriller de ação dos anos 70, os cinco se esbaldam nos improvisos e o tema vai num crescendo de emotividade até ganhar formas épicas. Um tema gigante.

Seguiram-se outras das melodiosas e cantaroláveis, como o reggae “Zero” e mais um hit: “Zanzibar”, em que Armandinho puxou a galera pra cantar e dançar. Houve o momento em que, durante o solo, o guitarrista, lá pelo meio do número, desce do palco e percorre os corredores da plateia. Solando! E solando MUITO bem! Fazia com a maior naturalidade o que muito guitarrista, mesmo totalmente parado e concentrado, não teria a mínima capacidade. Um monstro do instrumento. Para fechar, “Swingue Menina” pós todo o teatro pra se embalar ao som do reggae. O bis teve mais uma peça de pura habilidade e a gostosa “Dentro de Minha Cabeça”, em que Ary largou a percussão para assumir o microfone e cantar: “Dentro da minha cabeça/ Tenho um pensamento só/ Sei que não tenho juízo/ Dentro da minha cabeça/ Eu só quero amor/ Amor, amor...”. Detalhe: Ary dedicou-a a uma “amiga” das antigas que estava na plateia, a qual congelou tamanha a surpresa.

Juntamente com a saudosa Black Rio, A Cor do Som é certamente a grande banda de jazz brasileiro moderna. Porém, diferente dos autores de “Maria Fumaça”, cujas atividades se encerraram após perderem seu cabeça, Obderdan, já falecido, todos os seus integrantes estão ativos e em plena forma. Então, por que não aproveitar isso em vida, né? Foi essa celebração à vida, à música, às cores dos sons, que A Cor do Som compartilhou com todos nós esta noite. Lá fora podia já estar escuro e chuvoso, mas lá dentro estava colorido e iluminado.






quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Kraftwerk – “Tour de France Soundtracks” (2003)





Ouvindo o álbum,
 você quase pode ouvir o som do vento
batendo no seu rosto”.
Jim DeRogatis,
crítico musical

“O Tour (de France) é como a vida:
uma forma de transe.
E o transe está baseado na repetição.
As máquinas são perfeitas para criar isso”
Ralf Hütter



Uma das definições do dicionário para "tecnologia" é: "Ciência cujo objeto é a aplicação do conhecimento técnico e científico para fins práticos". Porém, há também o entendimento de que tecnologia também é "o conjunto dos termos técnicos de uma arte ou de uma ciência". Juntando as duas subentende-se: é possível o ser humano criar arte a partir da tecnologia e vice-versa. Os papéis se confundem nessa hora.

Neste sentido, é interessante notar que todos os principais marcos da tecnologia dos últimos 200 anos criadas pela humanidade tenham se tornado música nas mãos do Kraftwerk. O trem do medley "Trans-Europe Express"/"Metal on Metal"; o rádio em suas mais diversas funcionalidades do disco "Radio-Activity"; o automóvel em “Autobahn”; o telefone em “Telephone Call”. Até a amplificação do som de um átomo eles forjaram (“Atom”, de “Kraftwerk 2”). Mas mesmo tendo sido responsáveis por legar à civilização moderna o imaginário dos sons de bits e bites dos computadores (em "Computer World", de 1981), a tecnologia que realmente encanta a dupla Ralf Hütter e Florian Schneider, as cabeças geniais do mítico grupo alemão, é a talvez mais lúdica e esportiva delas: a bicicleta. “Tour de France Soundtracks”, de 2003, último trabalho da econômica banda não apenas trabalha este tema como o explora de forma brilhante.

O passeio sobre duas rodas do Kraftwerk, contudo, começou em 1983, quando lançaram o single “Tour de France” em homenagem à tradicional competição ciclística. Uma ode à beleza do ato de pedalar e à interação do homem com a tecnologia, que traz uma base criada sobre a respiração uma humana, um ritmo funkeado envolvente e um magistral riff de teclado em tom alto, colorido. Traços mais do que sonoros e, sim, sensoriais, que põem o ouvinte a também percorrer as ensolaradas estradas francesas sobre o selim. De relativo sucesso à época, a faixa deveria fazer parte de um novo disco, projeto que foi substituído três anos depois por “Electric Café”. “Substituído” é o termo certo, pois não “descartado”. Duas décadas depois (o que, para os parâmetros krafterkianos não é um absurdo, haja vista que lançaram nesse ínterim apenas dois discos, sendo apenas um de inéditas), quando dos 100 anos da Tour de France, Ralf e Florian desengavetam um projeto comporem uma trilha sonora para um filme explorando todas as etapas da corrida, desde a preparação do atleta até o ápice.

O filme não saiu, mas nem precisava. As músicas substituem qualquer imagem. Ou melhor: as supõem, as suscitam. A narrativa é tão cinematográfica quanto – sendo sinfônica ao mesmo tempo. Ao estilo dos temas longos de abertura de álbuns, uma de suas especialidades (a exemplo de “Boing Boon Tschak”/”Tecno Pop”/”Music Non-Stop” de “Electric Café”, ou a faixa-título de “Autobahn”), inicia com um prólogo, que anuncia em notas espaciais, mas não dispersas, frases que dotarão toda a trilha. Em ritmo de house music e trazendo uma variação do riff original, a primeira etapa do tema central entra com a tradicional voz robótica do VoiceModeler operado por Florian. Isso tudo num charmoso francês, idioma usado em todas as letras e sentenças faladas. “Étape 2” e “3”, seguem na mesma batida, agora explorando as variações de textura do trance, mas tendo como base a mesma ideia sonora: os frisos do pneu da bicicleta girando e promovendo som, num transe. “Chrono”, última desta primeira parte, intercala momentos instrumentais com os elementos-chave da temática-base, terminando com o “robô” anunciando que foi dada a largada: “Les coureurs/ Chronométrés/ Pour l'épreuve/ De vérité/ Radio Tour information/ Transmission/ Télévision/ Tour de France…”.

Primeiro ato concluído, pista preparada para o Kraftwerk passear com sua arte. Desacelerando um pouco a intensidade da pedalada e introduzindo uma percussão metálica variante e multiforme, “Vitamin” é a primeira dos preparativos para a corrida – afinal, todo corredor que se preze tem de atentar ao que manterá a sua máquina em condições de prova. Ralf lê uma sequência de ingredientes de suplementos (“Adrenalin endorphin/ Elektrolyt co-enzym/ Carbo-hydrat protein/ A-b-c-d vitamin”), enquanto teclados cumprem percussão e o grave, pondo acima as texturas e o riff, que também não passa longe do de “Tour de France”.

Das melhores do disco, “"Aéro Dynamik" retomando a batida da parte introdutória, é a própria tradução do conceito homem-máquina representado pelo Kraftwerk desde que surgiram, no final dos anos 60, na industrial Düsseldorf: o corpo sonoro projetado no espaço como metáfora do movimento humano vencendo os átomos no ar. “Percussivo e dinâmico”, como define o próprio Ralf. A letra diz em francês o que é de fácil entendimento a qualquer língua, pois universal: “Perfection Mekanik/ Materiel et Technik/ Condition et Physik/ Position et Taktik/ Aero Dinamik”.  "Titanium", misto de trance e ambient, acrescenta-lhe uma leve variação rítmica e harmônica, enfatizando agora o metal extraforte utilizado para a fabricação das “magrelas”. A percussão torna-se ainda mais metálica, por óbvio, do que em “Vitamin”.

Das melhores do álbum e da carreira da banda, "Elektro Kardiogramm", começa dizendo a que veio. Batidas de coração são ouvidas em um ritmo interessante, rítmico. O ritmo do próprio corpo. E isso não é licença poética, pois são gravadas dos batimentos cardíacos do próprio Ralf Hütter enquanto pedalava! E a genialidade não para por aí: este som, orgânico e científico ao mesmo tempo, é sinterizado eletronicamente ao de uma respiração, também embalada pelo ciclo da pedalada. O riff, igualmente na mesma escala que circunscreve o de todas as faixas, é em tempo 3x4. Tudo isso encapsulado por uma batida que acompanha o fluxo sanguíneo, mas o embala ritmicamente. É de "Elektro Kardiogramm" que saem os versos “Minimum Maximum”, que dariam nome à turnê e ao disco ao vivo de 2005. Afinal, a verdadeira interação entre homem, natureza e tecnologia. Como diz o biógrafo da banda, David Buckley, que considera a faixa um dos pontos altos do disco, é “uma exploração sonora da unidade formada por ciclista e bicicleta, homem e máquina”.

"La Forme", mais introspectiva, impressiona pelo ar quase oriental de seu riff de teclados deslizante. A percussão, só no “chipô” e “bumbo”, igualmente econômica e nipônica, dão ainda mais classe a esta faixa, a qual remete a obras do passado da banda, como “Neon Lights” e “Computer Love”. Depois de preparar a forma, vem a recuperação do corpo. Esta engata com "Régéneration", vinheta preparatória que faz a ponte entre a última meditação antes de lançar-se na prova de fato. É chegada a hora da magnífica "Tour de France", tal qual fora composta em 1983, porém repaginada pela limpeza da sonoridade digital ainda não alcançada àquela época. Das maiores peças pop de todos os tempos, é o símbolo e o ápice da ideia de interação homem e tecnologia. Respirações ofegantes de ciclistas são intensificadas no electrobeat – que retraz a batida pontilhada de “Numbers” –, enquanto o som de um baixo com slaps é recriado eletronicamente e os teclados passeiam pela paisagem, transmitindo cor e liberdade. “Dá quase para sentir o ácido lático se acumulando nas pernas enquanto a música se desenvolve”, brinca Buckley numa passagem do livro “Kraftwerk Publikation: a biografia”.

Suave e deslizante, “Tour de France Soundtracks” resgata em parte a bagagem do grupo criador da eletro music: a sonoridade elegante e limpa, a valorização do ritmo, a perfeição dos detalhes, a exploração das texturas sonoras e o conceito globalizado e integral que pontua toda a obra de menos de 10 álbuns mas de vasta influência na música moderna. Há quem torça o nariz para este disco, alegando que deixa a desejar em relação aos trabalhos antológicos do Kraftwerk como “The Man-Machine” e “Trans-Europe Express”. Talvez um pouco de preconceito pela ausência de Karl Bartos e Wolfgang Flur, “percussionistas” da formação clássica – substituídos aqui pelos engenheiros de som (mas que se mostram músicos altamente competentes) Fritz Hilpert e Henning Schmitz. Quiçá também a vulgarização natural ocorrida pelo avanço da computação no século XXI (o que, em música, o Kraftwerk é corresponsável nos últimos 50 anos, diga-se) tenha deixado a impressão de que a banda ficara ultrapassada. Pensamentos compreensíveis, pois deles sempre se espera o mais do que de qualquer outro. Soma-se a isso ainda o fato de raramente lançarem alguma coisa, o que aumenta ainda mais sua mítica e, automaticamente, a cobrança.

Porém, como disse o jornalista inglês Chris Jones, “se você (assim como eu) ainda encara o Kraftwerk como uma divindade que deu ao mundo algumas das mais encantadoras e influentes músicas eletrônicas de todos os tempos, então vai amar este disco”. Afinal de contas, conclui sabiamente o designer e fã ardoroso dos alemães Peter Saville: “mesmo um álbum medíocre do Kraftwerk é um trabalho de uma genialidade sublime”. Caso de Tour de France Soundtracks”, onde a capacidade humana opera com a tecnologia a serviço da mais bela arte, seja ela vinda de seres vivos ou artificiais.
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FAIXAS:
1. "Prologue" (Ralf Hütter/Florian Schneider/Fritz Hilpert) - 0:31
2. "Tour de France Étape 1" (Hütter/Schneider/HilpertMaxime Schmitt) - 4:27
3. "Tour de France Étape 2" (Hütter/Schneider/Hilpert/Schmitt) - 6:41
4. "Tour de France Étape 3" (Hütter/Schneider/Hilpert/Schmitt) - 3:56
5. "Chrono" (Hütter/Schneider/Hilpert/Schmitt) - 3:19
6. "Vitamin" (Hütter/Schneider/Hilpert) - 8:09
7. "Aéro Dynamik" (Hütter/Hilpert/Schmitt) - 5:04
8. "Titanium" (Hütter/Hilpert/Schmitt) - 3:21
9. "Elektro Kardiogramm" (Hütter/Hilpert) - 5:16
10. "La Forme" (Hütter/Hilpert) - 8:41
11. "Régéneration" (Hütter/Hilpert) - 1:16
12. "Tour de France" (Hütter/Schneider/Schmitt/Karl Bartos) - 5:12

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OUÇA O DISCO:






sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Aum - "Belorizonte" (1983)

 

"Dedicado a Belo Horizonte"
Dedicatória da contracapa do disco

Rio de Janeiro e Salvador, por motivos históricos e culturais tão distintos quanto semelhantes, são conhecidas como as capitais brasileiras que guardam maiores mistérios. Mas quando o assunto é música, nada bate Belo Horizonte. A musicalidade sobrenatural de Milton Nascimento, o fenômeno Clube da Esquina, o carioquismo mineiro de João Bosco, a sonoridade crua e universal da Uakti, o som inimaginável da Som Imaginário. Afora isso, a profusão há tantos anos de talentos do mais alto nível técnico e criativo a se ver (além de Milton, carioca, mas mineiro de formação e coração) por Wagner Tiso, irmãos Borges, Cacaso, Beto Guedes, Marco Antônio Guimarães, Fernando Brant, Toninho Horta, Samuel Rosa, Flávio Venturini, Tavinho Moura...

Mas quer maior mistério mineiro do que a banda Aum? Além do próprio nome, termo de origem hindu que lhes representa o som sagrado do Universo, pouco se sabe sobre eles há 40 anos. O que se sabe, sim, é que o grupo formado em Beagá por Zé Paulo, no baixo; Leo, bateria; Guati, saxofone; Marcio e Taquinho, guitarras; e Betinho, teclados, embora a diminuta nomenclatura, é dono de uma sonoridade enorme, visto que complexa, densa e sintética, que se tornou um mito na cena instrumental brasileira. Mais enigmático ainda: toda esta qualidade foi registrada em apenas um único disco. E se o nome da banda traz uma ideia mística, o título do álbum é uma referência direta àquilo que melhor lhes pertence: "Belorizonte". E escrito assim, no dialeto "mineirês", tal como os nativos falam coloquialmente ao suprimir letras e/ou juntar palavras.

A coerência com o "jeitin" da cidade não está somente impressa na capa. Vai além e mais profundamente neste conceito. O som da Aum é, como se disse, complexo, denso e sintético, pois faz um híbrido impressionante (e misterioso) de rock progressivo, jazz moderno e a herança da "escola" Clube da Esquina. "Belorizonte" destila elegância e beleza em suas seis requintadas faixas, remetendo a MPB, à música clássica e a cena de Canterbury, mas imprimindo uma marca única, uma assinatura. De forma independente, a Aum gravou “Belorizonte” no renomado estúdio Bemol, por onde passaram grandes mineiros como Milton, Toninho, Nivaldo Ornellas, Tavinho e Uakti e um dos primeiros estúdios na América Latina a possuir um aparato de áudio profissional para gravações em alto nível.  

Esta confluência de elementos é como um retrato sonoro de onde pertencem: da topografia dos campos e serras, da vegetação do Cerrado, da coloração avermelhada da terra, da energia emanante dos minérios. Das feições mamelucas dos nativos, da influência ibérica e indígena, da religiosidade católica e africana. Aum é a cara de Belo Horizonte. Por isso mesmo, chamar o disco de outra coisa que não o nome da própria cidade seria impensável.

Suaves acordes de guitarra abrem "Tema pra Malu", o número inicial. Jazz fusion melódico e inspirado, embora não seja a faixa-título, não é errado dizer que se trata da mais emblemática do álbum. Variações de ritmo entre um compasso cadenciado e um samba marcado são coloridos pelo lindo sax de Guati, que pinta um solo elegante. A guitarra solo, igualmente, com leve distorção, não deixa por menos, dando um ar rock como o do Clube da Esquina. Aliás, percebe-se a própria introspecção de canções de Milton, como “Nada Será como Antes” e “Cadê”. 

Já "Serra do Curral", um dos maiores e belos símbolos da capital mineira, é narrada com muita delicadeza em uma fusão de jazz moderno, folk e MPB. Sem percussão, é levada apenas nos criativos acordes de guitarra, linhas de baixo em alto nível e um solo de violão clássico de muito bom gosto. Impossível não remeter a Pat Metheny e Jaco Pastorius, jazzistas bastante afeitos com os sons da latinoamerica. Novamente, ecos do Milton e do Clube da Esquina, como as latinas “Paixão e Fé”, de “Clube da Esquina 2” (1978), e “Menino”, de “Geraes” (1975).

Numa pegada mais progressiva, a própria “Belorizonte”, a mais longa de todo o disco, com quase 10 min, traz um ritmo mais acelerado puxado pelas guitarras de Frango e Taquinho, seja no riff quanto no improviso. Betinho também dá as suas investidas nos teclados, mas quem tem vez consistentemente são Zé Paulo, no baixo, e Leo, na bateria. Ambos executam solos como em nenhum outro momento do álbum – e, consequentemente, da carreira. Ouve-se, tranquilamente, “Maria Maria”, de Milton, “Feira Moderna”, de Guedes, e “Canção Postal”, de Lô Borges.  Outro rock pulsante, “Nas Nuvens”, chega a lembrar "Belo Horror", de "Beto Guedes/Danilo Caymmi/Novelli/Toninho Horta", e principalmente “Trem de Doido”, do repertório de “Clube da Esquina”, principalmente pela guitarra solo de Guedes com efeito. Destaque também para os teclados de Betinho, traz uma banda em tons alegres e em perfeita sintonia, algo dos lances mais instrumentais d’A Cor do Som, espécie de Aum carioca e de sucesso.

O chorus de "4:15", conduzido pelo sax, pode-se dizer das coisas mais airosas da música brasileira dos anos 80. Bossa nova eletrificada e com influência do jazz de Chick Corea, Herbie Hancock e Weather Report, funciona como uma fotografia poética da Belo Horizonte urbana às 16 horas 15 minutos da tarde com seu trânsito, suas vias e suas gentes emoldurados pela arquitetura, pela luz e pela paisagem da cidade. “Tice” encerra com um ar de blues psicodélico. Primeiro, ouve-se algo inédito até então: uma voz humana. Chamada especialmente para este desfecho, a cantora Roberta Navarro emite melismas melancólicos. Em seguida, a sonoridade de piano protagoniza um toque onírico para, por fim, a guitarra de Taquinho emitir seu grito-choro de despedida.

“Belorizonte” se tornou um dos discos nacionais mais procurados entre os colecionadores, visto que restam algumas raras cópias do vinil original, disponíveis em sebos a altos preços. Sua aura de ineditismo e de assombro paira até os dias de hoje. Brasileiros e estrangeiros ainda descobrem a Aum e, além de se encantarem, perguntam-se: “por que apenas este registro?”. Afora raros reencontros para shows especiais, permanece inexplicável que nunca tenha voltado à ativa – até porque todos os integrantes ainda estão vivos. Seja por milagre ou não, ou mais importante é que, mesmo que não se explique, o som da Aum, único e irrepetível, independe de qualquer enigma ou lógica. Basta por para se escutar, que o sobrevoo sobre os campos e cerrados de BH está garantido.

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FAIXAS:
01. "Tema pra Malu" (Taquinho) - 5:12
02. "Serra do Curral" Marcio) - 2:55
03. "Belo Horizonte" (Aum) - 9:36
04. "Nas Nuvens" (Betinho) - 3:58
05. "4:15" (Marcio) - 4:15
06. "Tice" (Betinho) - 7:20

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

cotidianas #256 - Uma Floresta



Quem é amante de música como eu vai entender essa história, mas quem é fã da banda inglesa The Cure vai, mais do que isso, se identificar. Embora tenha ocorrido há uns bons anos, a sensação daquele acontecimento ainda me é bastante presente. Os “bons anos” a que me refiro significam 23 deles atrás, em 1990. O local: a emblemática loja Mesbla da Voluntários da Pátria, Centro de Porto Alegre.

Era um início de noite de um dia útil qualquer, terça, quarta, qualquer coisa assim. Hora do pico: pessoas pegando condução, umas correndo para os compromissos noturnos, outras voltando para casa, comércio fechando, meretrício abrindo, ambulantes aproveitando o movimento para vender, frotas de coletivos lotando as ruas, muito zunzunzum. Minha mãe, que trabalhava na Senhor dos Passos, combinou comigo de nos encontrarmos ao final de seu expediente, por umas 18h30. Ela precisava comprar algo ou simplesmente pesquisar preços, não lembro ao certo. Lembro, sim, de pegá-la em seu trabalho e rumarmos em direção da Mesbla, por ficar ali perto e por ser um dos poucos estabelecimentos que se mantinham abertos até mais tarde do que o horário normal do comércio.

A Mesbla, para os que não conhecem, era uma loja de departamentos (tal qual uma Magazine Luiza ou Colombo da vida) de origem francesa cuja falência, decretada em 1999, diz-se, se deu por má administração. Porém, naquela época, princípio dos anos 90, a Mesbla ainda reinava, embora, por debaixo dos panos, já se prenunciava a derrocada, o que só veio a público anos depois, quando tentaram em vão salvar o negócio e as lojas foram fechando aos poucos até definhar. Havia outra loja Mesbla na esquina da Otávio Rocha com Dr. Flores (onde funciona hoje uma Manlec). No entanto, a da Voluntários era “A” Mesbla. Majestosa. Moderna. Convidativa. Numa época em que outras boas lojas de departamento já guerreavam entre si com ofertas e preços, as também extintas Grazziotin, Hipo-Incosul, JH Santos e Arapuã (que se situavam se não na mesma rua, no entorno), nenhuma batia a Mesbla. Lá era o shopping de uma Porto Alegre que, naquele então, tinha apenas o Iguatemi como grande centro comercial.

Parte desta importância se devia, certamente, à arquitetura do Edifício Mesbla. Projetado pelo arquiteto Arnaldo Gladosch, em 1944, o prédio, marco da arquitetura comercial da cidade, se já era vistoso por fora, com sua fachada acompanhando a curvatura da rua e cuja superfície explorava a textura dos tijolos em tom terroso-escuro, por dentro, então!... No seu interior, os três primeiros pisos eram integrados através de mezaninos em forma de anéis, enquanto os demais, destinados a escritórios, desenvolviam-se perifericamente, liberando uma área central que possibilitava uma iluminação vinda do cume em todos os pisos de loja. Isso sem falar na visibilidade do seu todo, apreciável de qualquer ponto em que se estivesse.

Depois que aquela Mesbla fechou as portas, antes mesmo de a empresa anunciar a falência, duas situações vividas por mim envolvendo o prédio – hoje pertencente ao Centro Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia e onde se pretende, em breve, instalar a nova sede do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – me geraram sentimentos opostos. Uma delas, em 1997, de puro deleite, quando pude visitar a 1ª Bienal do Mercosul, evento o qual, inteligentemente, se valeu da beleza e da disposição espacial do prédio para integrar lindamente o desenho de sua arquitetura a quadros, esculturas e instalações da nata da arte moderna brasileira. A outra circunstância, no entanto, nada tem de encantadora, pois foi quando, a trabalho, em 2009, fui à TV Ulbra à época em que as emissoras da universidade, então dona do imóvel, se transferiram da cidade de Canoas para lá. Encontrei tudo “remendado”: divisórias, paredes móveis e estúdios montados no hall que, numa lógica funcional e burra, descaracterizaram totalmente o local, dando-me, logo ao entrar, a nítida sensação de que não estava no mesmo lugar. Nada daquele visual clean e do espaço amplo, que fazia destacar com clareza os produtos e as pessoas que circulavam. Não localizei nem a grande escada em alas simétricas ao fundo da área central, nos moldes dos primeiros magazines de departamentos do século XIX, que facilitavam a progressão vertical do público no interior da loja.

Naquele início de noite com minha mãe, no entanto, não subi as escadas da Mesbla. Enquanto ela comprava-pesquisava suas bugigangas noutros andares, eu permaneci no térreo, pois ali ficava o que me interessava: os discos. O setor de Música e Vídeo era ao fundo e à esquerda do salão principal, com seus módulos para LP’s separados por categorias (Cantor Nacional, Banda Nacional, Gauchesco, por exemplo) mais os mostruários de fitas K7 e as de VHS, que não recordo como ficavam expostas. Ao chegar, o vendedor do departamento, um rapaz de uns 30 anos de quem não lembro o nome (perdoem-me, mas quem me conhece sabe que tenho dificuldade de gravar nomes, ainda mais quando de um acontecimento de tanto tempo atrás), cumprimentou-me como pede a conduta de um bom atendimento varejista. Porém, percebi que ele ficou observando (com motivo de sobra) aquele pré-adolescente de 12 anos vestido de blusa preta, calças jeans rasgadas num dos joelhos, tênis tipo basquete sujos, cabelo pixaim com corte quase moicano, óculos de grau com armação redonda e de cor azul fluorescente e, para arrematar, pendurado no pescoço por uma corrente metálica, um crucifixo de ferro fundido de uns 14 cm de altura, que tomava a extensão do tórax, comprado não numa loja de artigos de rock, mas num antiquário da rua Fernando Machado. Sim: eu me vestia desse jeito, algo entre o punk, o dark e eu mesmo. E pior: minha mãe, mais por coragem do que por amor, mesmo que fizesse algum comentário a respeito de um exagero ou outro, andava com seu filho numa boa pelo Centro ou onde fosse. Inclusive em lojas de departamentos.

Como não tinha por hábito comprar filmes para assistir no videocassete, pois me eram caros (alugava-os como solução), meu interesse ali era voltado especialmente para os discos de vinil. Diletante já naquela época, colecionava junto com meu irmão o que me era possível com a mesada, mas a maioria dos discos, inevitavelmente, eram apenas objetos de desejo que eu não cansava de admirar nas prateleiras das lojas. Repetia este ritual de contemplação mais uma vez ali na Mesbla, dedilhando volume após volume para, ávido por conhecer mais, descobrir novos títulos, ver os já conhecidos e aqueles que almejava ter ou rever os que já figuravam na discoteca de casa. Passando pela letra C da fileira de Bandas Internacionais, deparei-me com os LP’s de um dos meus grupos preferidos desde aqueles idos: o The Cure. Tinham posto para venda os mais populares em vendagem e conhecimento do cliente mediano, afinal, tratava-se de uma loja de departamentos que, vendedora de produtos muito mais caros e rendosos, não se preocupava em ser especialista justamente em discos. Disco era coisa para aficionados como eu. E o vendedor.

Havia ali dois ou três do Cure, provavelmente “The Head on the Door”, álbum de carreira repleto de hits da banda, de 1985, e “Standing on a Beach”, de um ano depois, a coletânea com os maiores sucessos de Robert Smith e Cia. até então, um campeão de vendagens. O terceiro, no entanto, não podia ser classificado exatamente um estrondo de vendas. Não era o exótico “The Top” nem o deprê “Pornography”, mas, sim, o único LP oficial ao vivo da banda até aquele momento, de 1984: o “Concert”. Embora fosse dos que já tivesse em casa, puxei-o da pilha com surpresa e emoção e fiquei a admirar a capa. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim perguntar-me com empolgação:

- Tu gosta de The Cure?!

Virei-me e constatei que quem me perguntava era o vendedor da loja. Respondi que sim com um sorriso tanto de surpresa quanto de identificação. Comentei que meus preferidos (na época era) do Cure eram o “Pornography” e o “Faith”, os bem gothic-punk, mas que gostava muito, no “Concert”, entre outras coisas, da sonoridade da bateria do Andy Anderson, um negrão que assumira as baquetas do grupo naquela época e que tocava forte como um bate-estacas. Foi visível que o tal moço da loja também se identificou comigo, tendo ficando, inclusive, positivamente espantado por aquele pirralho conhecer e gostar do mesmo que ele, de uma geração mais velha – situação que vira e mexe me ocorria quando era mais guri. Ele ainda disse:

- Eu fui no show deles no Gigantinho. Foi demais. – contou-me com emoção. – Cara, me dá esse disco aqui que eu vou colocar pra rodar.

Sim: ele interrompeu uma Paula Abdul ou George Michael qualquer que tocava sonolentamente na vitrola e substituiu por The Cure. Pelo “Concert”. O som dos alto-falantes, espalhados por toda a loja, saía, tirando as interrupções para os anúncios em voz dos vendedores ao microfone, somente dali. Ou seja: toda a Mesbla estava prestes a escutar The Cure. Ele pôs na primeira faixa. Chiados da agulha no sulco e entra um sobe-som da plateia ovacionando a banda que, percebe-se, entrava no palco naquele instante para abrir o “concerto”. Robert Smith dá boa noite e anuncia a canção de abertura. Andy Anderson faz um longo rolo na bateria conjugando tom-tom e surdo, abrindo caminho para que toda a banda entrasse explodindo naquele clima soturno e denso, de guitarras distorcidas, teclados espaciais e bateria possante. Era “Shake Dog Shake", para delírio do público, meu e do vendedor.

Escutamos a música inteira entre uma conversa e outra sobre partes da mesma que achávamos legal e sobre nossa paixão pelo Cure. Tudo num volume ambiente, afinal, o som ia para toda a loja. Não que Cure não pudesse tocar na Mesbla, mas o “Concert”, cheio de músicas da fase dark da banda, carregado em sonoridades ruidosas e perturbadoras, além do fato de ser ao vivo, o que adensa as vibrações irregulares por causa do rumor da plateia, não era exatamente o mais aconselhável para uma situação como aquela. Por isso, respeitávamos os ouvidos das senhoras que, como minha mãe, estavam lá para comprar uma colcha, roupa de banho, artigos para casa, etc. Mas nossa vontade era de arrebentar as caixas de som! Durante a conversa, concordamos que a melhor performance da bateria era a de “A Forest”. Sem dúvida. Afinal, aquela marcação de ritmo da música original pedia mesmo uma batida forte. Empolgado, ele virou o lado e foi direto nesta faixa. Largou a agulha ainda no fervor da multidão, que vibrava com o final de “A Hundred Years”, a anterior. Foi a partir dali que a luminosa e moderna loja Mesbla se transformou...

A clássica abertura de teclados, num tom grave e ritualístico, mórbido como que vindo de dentro de uma caverna, e as espaçadas frases da guitarra prenunciando o riff, levam a galera ao êxtase. E nós também. Começava um dos épicos do Cure. Já alheio a qualquer outra coisa que estivesse por perto, inclusive o seu gerente ou outros clientes, o vendedor aumentou o volume. Naquele mesmo momento, a sensação foi de que anoitecera dentro da Mesbla e de que entrávamos definitivamente para dentro de uma selva fechada e escura. Parecia que ninguém mais existia em nossa volta. Só nós, a música e uma floresta.

A introdução de “A Forest”, de pouco mais de 1 minuto, parece ter durado uma hora. Nós, diante daquele som, não falávamos, talvez com receio de alertar os bichos à espreita. Até que, finda a abertura, entra, enfim, a tal batida, marcada em dois tempos, pesada, esmurrando as caixas da bateria e até mais acelerada que na versão original. Arrasador! Meu companheiro silvícola não se conteve e aumentou ainda mais o volume. Para o máximo! Os acordes de “A Forest” retumbavam pelos corredores, fazendo vibrar as mesas, os eletrodomésticos, as vidraças e as louças do setor de Bazar.

Robert Smith dizia: “The sound is deep/ In the dark/ I hear her voice/ And start to run/ Into the trees/ Into the trees...” (“O som é profundo/ Na escuridão/ Eu ouço a voz dela/ E começo a correr/ Para dentro das árvores/ Para dentro das árvores...”). E corríamos, ali, parados. Sentíamos o som reverberar por todo o espaço, tomando totalmente os 15 metros de altura que iam do chão ao teto (ou seria a copa?).

Absorvidos por aquela atmosfera selvagem, os versos: “Again and again and again...” nos fazia investir mais ainda mata adentro. E de novo, e de novo, e de novo. Será que saberíamos voltar agora? “I’m lost in a Forest”? We lost in a Forest? O maravilhoso solo de guitarra, cheio de efeito de pedal, já avançava e levava a canção para o final, em que os instrumentos pouco a pouco vão morrendo, perdendo-se no escuro da noite silvestre. Anderson dá o último soco da bateria; ficam apenas as guitarras e os teclados, que logo se retira, para, por fim, manterem-se as cordas, que saem de cena uma a uma. Cessam as guitarras e fica apenas o baixo, que suspira espaçadamente os últimos pares de acordes: “tan dan - tan dan - tan dan...”, até sua propagação esvaecer de vez no espaço.

Bastou a música terminar para tudo voltar a ser como era antes. Claridade, senhoras comprando ou pesquisando preços, crianças correndo e berrando, vendedores vendendo. Uma loja de departamentos. Entretanto, entreolhamo-nos com a sensação de que algo diferente ainda pairava no ar, mas que não tínhamos mais como saber ao certo o que era. Retomados, trocamos ainda algumas animadas palavras de “cureanos” até que minha mãe retornou para irmos embora. Despedi-me do parceiro de viagem calorosamente, afinal, só nós sabíamos a experiência que tínhamos vivido naqueles 6 minutos e 46 segundos minutos entre o primeiro e o último acorde de “A Forest” que pareceram durar uma madrugada inteira.

Indo em direção à porta de saída, minha mãe ainda observou impressionada:

- Tu faz amizade rápido, hein, Dã?!

- ... É-é... – respondi meio bobo, ainda sem muita noção do que se sucedera ali naquele magazine entre tantos objetos supérfluos e desnecessários, entre tantas pessoas que eu não conhecia e jamais conhecerei.


O segurança abriu-nos a porta da entrada e, ao sairmos para a rua, educadamente deu-nos “boa noite” antes de fechá-la novamente como quem passa o cadeado numa jaula. Antes de a passagem ser totalmente fechada, porém, juro ter escutado, vindo lá de dentro da loja, o uivo de um lobo, o que, lamentavelmente, logo se perdeu no ruído metálico da frenagem desvairada dos ônibus que cumpriam, com suas toneladas de realidade, a correria irracional da vida, deixando-me com a dúvida, até hoje, se realmente escutei aquilo.



domingo, 17 de abril de 2022

"Os Dez Mandamentos", de Cecil B. DeMille (1923) vs. "Os Dez Mandamentos", de Cecil B. DeMille (1956)




É o caso daquele técnico que tem moral no clube, já montou bons times e, anos depois, tendo vindo de bons trabalhos por aí, ganha uma infraestrutura ainda melhor do que já tinha e ainda mais investimento. Cecil B. DeMille havia feito para a Paramount, em 1923, uma adaptação da história bíblica de Moisés, projeto audacioso para a época pela grandiosidade e pelas inovações, mas naquele momento, ainda sem som e sem cor, recursos técnicos então indisponíveis. O resultado até foi bom, bastante elogiado e manteve a reputação de DeMille de ser um excelente adaptador cinematográfico para temas bíblicos. Mas aí, anos depois, com o colorido e o som à sua disposição, no cinema, o cineasta resolveu aperfeiçoar o projeto da maneira como realmente gostaria de fazer. 

E fez toda a diferença!!! As cores e o som são dois pontos de enorme acréscimo ao anterior! A cor porque, uma vez tendo a seu dispor o recurso, DeMille as explorou de maneira muito competente, com paletas vívidas, vibrantes, que impressionam o espectador e salientam as características dos ambientes, intensificando, por exemplo, a sensação de riqueza do palácio do faraó com suas roupas e adereços extravagantes, ou ressaltam a aridez do deserto, no amarelado angustiante da areia. Do som ele fez um trunfo, uma vez que seus personagens FALAM e por sinal, falam muito bem. Os diálogos são muito bons, bem elaborados, são oportunos, têm força, têm impacto e, mesmo as falas discursivas de Moisés ou a própria voz de Deus, por mais exageradas e pomposas que possam parecer, são intensas e importantes dentro do contexto do filme e de sua época. O texto ganha muito, também, por ser interpretado por um time de primeira. O diretor ganhava para essa sua segunda versão uma elenco estelar com nomes como Yul Brynner, Anne Bexter, Vincent Price e, principalmente, Charlton Heston, como Moisés, ator talhado para esse tipo de papel, já tendo aparecido com características semelhantes em filmes como "Ben-Hur", "El Cid" e "Agonia e Êxtase". Não que o antigo não tivesse grandes estrelas, Theodore Roberts, o primeiro Moisés, Julie Faye, Rod La Roque gozavam de renome e prestígio na época do cinema mudo, e Richard Dix, inclusive, seguiu com sucesso já nos filmes sonoros. Mas não tem comparação! Até porque os astros da segunda versão marcam exatamente um era de adoração e mitologia das grandes estrelas de cinema, além de entregarem atuações à altura de seus nomes.

O primeiro filme é bem mais curto em relação a seu sucessor, uma vez que, limita suas ações ao desafio de Moisés ao faraó Ramsés II para que liberasse o povo escravizado, à partida dos hebreus para o deserto perseguidos pelos soldados egípcios e, por fim, à revelação das tábuas das leis. Já o remake parte desde o resgate do bebê Moisés, numa cesta, no Rio Nilo, sua ascensão a príncipe do Egito e sua posterior renúncia à realeza ao descobrir suas origens hebraicas, sua condenação a vagar pelo deserto até a morte, a incumbência dada a ele por Deus e, aí sim, encontrando o início do primeiro filme, quando retorna ao Cairo e exige de Ramsés a libertação de seu povo sob pena de, não o atendendo, liberar terríveis pragas sobre os egípcios. 

No entanto, a primeira versão poderia ter abrangido uma parte maior da história, não fosse o fato de, na sua segunda parte, mudar bruscamente o rumo do filme. Logo após a revelação das Leis Sagradas a Moisés e seu anúncio para o povo, descobrimos que tudo aquilo que se passara, até então, no filme, fora narrado por uma mãe para seus dois filhos, nos tempos atuais (de 1923) lendo a Bíblia. Então começa outra história na segunda metade do filme: uma novelinha dramática cheia de ensinamentos morais baseados diretamente pelos Mandamentos. Legalzinho, bem feito, boa direção, a parte do desabamento da igreja, em especial, é bem impressionante, mas... o filme perde muito. 

"Os Dez Mandamentos", de 1923, até é um bom filme. Competente no que se propõe, o que não era uma tarefa fácil. Tem bons cenários, bons figurinos, um bom trabalho de câmera de DeMille e efeitos visuais muito engenhosos dadas as condições técnicas da época, mas essa mudança a partir da metade compromete bastante do produto final. É uma quebra de expectativa que frustra um pouco o espectador que fica esperando por um novo encaixe na trama bíblica, o que não acontece. Sem falar que, no geral, fica parecendo uma tentativa de reproduzir um "Intolerância" (D.W. Griffith - 1916), sem a mesma genialidade, grandiosidade de cenários e qualidade de roteiro.

Mas DeMille parece ter aprendido a lição e, se o antigão se perde na segunda parte, sua nova versão vem com o que tem de melhor depois do intervalo. Tem ciúme, vingança, intriga, tragédia, perseguição, orgia, tem cajado virando cobra, tem chuva virando fogo, água virando sangue e, é claro, tem a clássica cena de Moisés abrindo o Mar Vermelho. Um segundo-tempo de luxo do time de Charlton Heston!


"Os Dez Mandamentos" (1923) -
abertura do Mar Vermelho

"Os Dez Mandamentos" (1956) -
abertura do Mar Vermelho



Enfim, no mano a mano, o time de 1956 ganha sem maior dificuldade. 

A direção do primeiro é muito boa para sua época, mas o próprio DeMille se supera na refilmagem; a cenografia do original é excelente, mas a refeita é deslumbrante; o elenco original tinha alguns bambambans da era do cinema mudo, mas o timaço do remake é covardia; os efeitos especiais do primeiro eram impressionantes para o início do século passado, mas os do filme de 1956 levaram um Oscar. O que dizer?

A fotografia e a opção por uma paleta vibrante são um gol para o mais novo; o ganho sonoro e a composição dos diálogos valem outro; os cenários suntuosos e roupas luxuosas garantem mais um. O ataque desequilibra com a dupla de ataque Brynner e Heston. O craque dos filmes épicos passa pela defesa egípcia como se atravessasse o Mar Vermelho e faz um golaço; e, a propósito, a cena em questão, da abertura do mar, uma das mais clássicas da história do cinema, joga um banho de água fria e afunda o time de 1923. Como se não bastasse, nos acréscimos, as inscrições de Deus nas Tábuas Sagradas, apesar do foguinho meio tosco até para a época, é um verdadeiro gol de placa. 

Ao time de 1923, fica o gol de honra pela ousadia, boa intenção, competente direção, cenas difíceis bem executadas e efeitos, até, bem complexos, quando sequer eles eram bem desenvolvidos. A opção pela mudança de esquema, no segundo-tempo, no entanto, colocou qualquer pretensão do original, por água abaixo.

Moisés dá o sangue em campo, faz chover, une o grupo e garante o título de Libertadores da Judeia.

Aqui alguns pontos de comparação visual:
(à esquerda, sempre, o original)
Os cenários, já suntuosos no primeiro e ainda mais impressionantes, no segundo;
Moisés liberando as pragas diante de Ramsés II, no palácio;
a rebeldia do povo e a adoração ao bezerro de ouro;
e, por fim, Moisés, com as Leis Sagradas, nas duas versões.


O time de 1956 segue à risca os mandamentos do técnico DeMille,
que reviu seus conceitos, mudou o esquema e levou seu time à Terra Prometida.
Não levou o Mundial, que seria o Oscar de melhor filme, 
mas, como a Seleção Brasileira de 1982,
ficou eternizado pelo seu jogo bonito.




por Cly Reis

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Novos Baianos - "Novos Baianos F.C." (1973)





“Eles se achavam na época
melhores jogadores de futebol
do que músicos.” 
Solano Ribeiro



Quem me conhece sabe que a minha banda brasileira favorita veio da Bahia não é o Camisa de Vênus. Claro que são os Novos Baianos. E toda vez que alguém fala neles, pensa direto em "Acabou Chorare", um verdadeiro... clássico da MPB de todos os tempos. Adoro este disco. Mas o meu favorito deles é outro: “Novos Baianos F.C.”, terceiro disco da trupe, lançado um ano depois do “Acabou...”. Pensem bem: depois de fazer um disco como aquele, como seguir em frente? Pois Pepeu, Baby, Paulinho e Moraes e sua gangue resolveram fazer um LP falando das coisas que faziam parte da sua vida cotidiana naquele sítio em Jacarepaguá onde viviam em total harmonia (mais ou menos, né? como ficou claro no filme "Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas).

A brincadeira começa com “Sorrir e Cantar Como Bahia”, música de Luiz Galvão e Moraes Moreira que faz um jogo de palavras com a gravidez de Baby Consuelo e a maternidade do planeta: “Mãe pode ser e ter bebê/ E até pode ser Baby também”. Ela estava permanentemente grávida de Riroca, Zabelê e Nana Shara, suas três meninas que se tornariam o trio SNZ. O futebol do título está presente em “Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora”. Como cronista do cotidiano, Galvão consegue mostrar exatamente o que acontecia nas ruas do Brasil, até bem pouco tempo, o joguinho de bola na calçada: “Que a vida que há do menino atrás da bola/ para carro, para tudo/ quando já não há tempo/ para apito, para grito/ E o menino deixa a vida pela bola/ Só se não for brasileiro nessa hora”. O lado nonsense de Galvão, o letrista da banda, aparece em “Cosmos e Damião”, uma verdadeira viagem onomatopaica na voz de Paulinho Boca de Cantor. Olhem que maluquice: “Qui qui qui qui qui não é qui qui qui/ Que bom é bom demais pra ser aqui/ Onde um faz hum e outro hum hum/ Mas que bom, todos hum!/ Como um dia, não ria ?/ Sorria como nós...um dia como esse de Cosmos e Damião/ você pode até dançar com Damião/ Mas quem contrariar a lei do Cosmos/ não vai pagar/ já paga ao contrariar”. Doideira total emoldurada pelas guitarras, bandolins e violões de Pepeu e Moraes, o baixo de Dadi, Jorginho Gomes na bateria mais Paulinho, Baby, Baixinho e Bola nas percussões. Eles fazem a gente cantar estes versos enlouquecidos.

Uma das influências mais marcantes do grupo,  Dorival Caymmi, é reinterpretado e rearranjado em “O Samba da Minha Terra”. Uma mistura de MPB com Jimmi Hendrix, a versão deles valoriza o verso: “Quem não gosta de samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente do pé”. Esse sim é o verdadeiro roque brasileiro, onde as guitarras convivem harmonicamente com a percussão e não copiam ninguém. Ao ouvir os discos dos Novos Baianos – e esse, em particular –, fico imaginando porque grande parte da gurizada se deixa seduzir pelo “rock brasileiro” dos anos 80. Todas as bandas daquela fase são inspiradas em algum grupo inglês do período. Poderia também dizer copiadas. Enquanto isso, os NB usaram a incrível e inesgotável matriz de ritmos nativos para fazer uma música criativa e inteligente. “Vagabundo não é Fácil” é outro exemplo das letras maluquetes de Galvão numa cama de samba com um surdo bem marcado: “Se eu não tivesse com afta/ até faria uma serenata pra ela/ Que veio cair de morar/ Em cima de minha janela”. Lá pelas tantas, rola uma rima de “Bicarbonato de sódi”o com “pessoas sem ódio”. Hilário! E no final, mais um jogo de palavras: “Ao menos leve uma certeza/ Você me deixa doído/ Mas só não me deixará doido/ Porque isso sou/ Isso eu já sou”. Na sequência, outro sambão daqueles de sair cantando pela rua: “Com Qualquer Dois Mil Réis”. Na voz de Paulinho Boca de Cantor, a música brinca com a figura do malandro carioca: ”E o malandro aqui/ Com Qualquer Dois Mil Réis/ Põe em cima uma sandália de responsa e essa camisa/ de malandro brasileiro/ que me quebra o maior galho”. E o refrão é chicletaço musical: “E esse ano não vai ser/ Igual aquele que passou/ oh oh oh oh oh que passou”.

Depois deste samba balançado, vem a faixa mais “roquenrou” de todo o disco, “Os Pingo da Chuva”, que Baby Consuelo se encarrega de dar aquele molho. Preste a atenção nos comentários da guitarra de Pepeu durante toda a canção, enquanto Baby canta este história pro seu namorado – não por acaso, ele, Pepeu, na época –, dizendo que ele não deve se preocupar com o céu que está “preto e as nuvens que até as sombras assombram”. Ela sabe que “Você tem seus argumentos de querer/ o sol pra bater sua bola/ E a lua pra ver sua mina/ ou só pra ir ali na esquina...Faça como eu que vou como estou/ porque só o que pode acontecer/ É os pingo da chuva me molhar”. E esse rock vira um baião elétrico no final. É aí que eu me refiro. Com tantas possibilidades rítmicas e melódicas, os roqueiros dos anos 80 se contentavam em copiar The SmithsThe Cure, The Police, entre outros. Que desperdício! “Quando Você Chegar” é uma bossa a lá João Gilberto onde Moraes fala de um filho que está chegando e que, aparentemente, iria chamar de Pedro. Os planos devem ter mudado, pois este filho é o guitarrista Davi Moraes, que veio a Porto Alegre em 2013 com ele para um show em homenagem aos 40 anos de “Acabou...”. Lá pelas tantas, esta bossa vira um samba. E a letra é tão boa que vai inteira: “Quando você chegar/ é mesmo que eu estar vendo você/ Sempre brincando de velho/ me chamando de Pedro/ me querendo menino que viu de relance/ Talvez um sorriso em homenagem à Pedro/ Pedro do mundo dum bom dum bom dum bom.../ Fique quieto que tudo sana/ Que a língua portuguesa, a língua da luz/ A lusitana fez de você o primeiro guri/ Meu guri, meu gurizinho/ Água mole em pedra dura, pedra pedra até que Pedro”.

Pra encerrar “Novos Baianos F.C”, duas faixas sem letra. Desde "Acabou Chorare" existia, dentro dos Novos Baianos, o grupo instrumental A Cor do Som, formado por Pepeu, Dadi, Jorginho e os percussionistas. As duas últimas músicas são dedicadas a este embrião de trabalho que iria desembocar no grupo de mesmo nome que gravaria seu primeiro disco em 1977. Na formação de estreia, só Dadi permaneceria, tendo ao seu lado o irmão Mu mais Armandinho e Gustavo. “Alimente” e “Dagmar” são dois exemplos do que seria desenvolvido pela Cor e por Pepeu em seu primeiro trabalho solo, “Geração de Som”, em 1978. Choro, samba, rock, tudo misturado e embalado pra presente. Uma delícia de disco que muita gente não conhece. Em 1978, os Novos Baianos gravam seu último disco, “Farol da Barra”, outro trabalho incrível. E decolam as carreiras solo de Pepeu, Baby, Dadi na Cor do Som. Mas isso, como sempre, é outra história.


vídeo de "Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora" - Novos Baianos


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FAIXAS:
1. "Sorrir e cantar como Bahia" (Luiz Galvão/Moraes Moreira) – 3:37
2. "Só se não for Brasileiro Nessa Hora" (Galvão/Moraes) – 3:28
3. "Cosmos e Damião" (Galvão/Moraes) – 4:07
4. "O Samba da minha Terra" (Dorival Caymmi) – 3:29
5. "Vagabundo não é Fácil" (Galvão/Moraes) – 5:06
6. "Com qualquer Dois Mil Réis" (Galvão/Moraes/Pepeu Gomes) – 3:26
7. "Os Pingo da Chuva" (Galvão/Moraes/Pepeu) – 4:10
8. "Quando você Chegar" (Galvão/Moraes) – 3:19
9. "Alimente" (Jorginho Gomes/ Paulinho Gomes) – 4:44
10. "Dagmar" (Moraes) – 2:31

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OUÇA:



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

The Beach Boys - "Pet Sounds" (1966)

Os Sons de Estimação

 “ 'God Only Knows' é a música
que eu queria ter escrito.”
líder dos Beatles


A psichodelic era dos anos 60, sensacionalmente rica, produziu alguns dos maiores talentos da música mundial. John LennonPaul McCartneyJimmi HendrixSid BarretRay DaviesBrian JonesArthur LeeArnaldo BaptistaLou ReedRocky EriksonFrank Zappa e mais uma dezena de cabeças geniais. Todos produziram, quando não vários, pelo menos um trabalho fundamental para a história da música pop. Porém, um destes expoentes, também surgido à época, criou algo sem precedente dentro da discografia do rock. Ele é Brian Wilson, líder e principal compositor do The Beach Boys. A obra: “Pet Sounds”, de 1966, uma joia rara da música do século XX, comparável aos mitológicos "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" ou "The Dark Side of the Moon". Requintado e perfeito do início ao fim, é repleto de detalhismos que somente a mente obsessiva de Brian Wilson poderia conceber, o que, somado a seu empenho, conhecimento técnico e alta sensibilidade, resultou num disco inovador em técnicas de gravação, conceito temático, estrutura composicional, instrumentalização, arranjos, entre outros aspectos.

“Pet Sounds”, diz a lenda, surgiu de um sentimento de competitividade alimentado por Brian, um perturbado jovem com então 24 anos cujo quadro esquizofrênico era danosamente potencializado pelo vício em LSD. Para piorar: a relação com o pai era péssima, a ponto de, numa ocasião de briga entre os dois, levar uma pancada tão forte que o deixou surdo de um dos ouvidos – motivo pelo qual, reza outra lenda, teria concebido e gravado “Pet Sounds” em mono, uma vez que não conseguia perceber fisicamente os sons em estéreo. Todo este quadro e o temperamento vulcânico fizeram com que Brian, maravilhado mas enciumado com o resultado que os Beatles haviam atingido com seu “Rubber Soul”, lançado cinco meses antes, se pusesse na missão de superar a obra dos rapazes de Liverpool.

E conseguiu.

“Pet Sounds” é uma pequena sinfonia barroco-pop jamais superada, nem pelo próprio Beach Boys. Brian deixa para trás a pecha de mera banda de surf music creditada a eles (o que já se vinha notando desde “The Beach Boys' Christmas Album”, trabalho anterior da banda) e se lança na composição, produção, arranjo e condução de todo o trabalho, resultado de longas e exaustivas pesquisas à teoria musical e às musicas erudita, folclórica, jazz e pop. O desbunde já começa na faixa de abertura, a clássica “Wouldn't It Be Nice”. O som fino e lúdico do harpschord executa uma ciranda, que faz a abertura de “Pet...” lembrar a de outro LP histórico da época, "The Velvet Underground and Nico", de um ano depois, cujo sonzinho inicial vem de outras cordas, as de uma delicada caixinha de música. Mas a semelhança para por aí, pois, se “Sunday Morning” do Velvet varia para um sereno pop-jazz francês, a dos Beach Boys ganha amplitude e cor. O som do cravo repete o tempo três vezes até que é interrompido bruscamente por um forte estrondo seco em staccato da percussão. Aquele contraste entre o agudo cristalino das cordas e o timbre grave da batida faz da abertura do disco uma das mais belas, conceituais e inteligentes da discografia rock. Além disso, a música que se desenvolve a partir dali é absolutamente linda. Elevando o tom, joga o ouvinte num jardim da infância de sons vibrantes e coloridos num ritmo de banda marcial, onde já se nota que Brian vinha com tudo em seu desafio pessoal: som cheio, polifonia, coros em contracanto, abundância de instrumentos e ornados, consonância e equilíbrio total entre graves e agudos.

Um dos principais recursos utilizados por Brian no disco para obter esse resultado é a concepção múltipla da obra como um todo, seja na unidade entre as faixas, na harmonia ou no arranjo das peças. Bem ao estilo da música barroca dos séculos XVII e XVIII, ele vale-se da variedade instrumental e, numa decorrência mais impressionista, de timbres, uma vez que extrai sonoridades de toda a escala diatônica através de cordas, sopros, percussão, vozes, teclados e até eletrônicos. Há vários instrumentos exóticos, como mandolin, harpa francesa, ukulele, english corn, banjo, tack piano e temple block. A obsessão de Brian de superar o Fab Four, sabendo da prática dos "rivais" de valerem-se de variados instrumentos em estúdio, pode ser constatada, inclusive, na quantidade de instrumentos usados em todo o disco: cerca de 40, tocados por quase 70 músicos diferentes, incluindo a banda em si: os irmãos Carl (vocais, guitarra) e Dennis Wilson (vocais, bateria) mais Al Jardine (vocais, tamborim), Bruce Johnston e Mike Love (ambos, vocais), além do próprio Brian (vocais, órgão, piano). A belíssima balada “You Still Believe in Me”, das minhas preferidas, vale-se deste conceito polifônico. Além de baixar o tom da faixa inicial, explora mais ainda a riqueza dos ornamentos barrocos, como na complexidade melódica dos corais, que funcionam como um instrumento de teclado que acompanha o toque do cravo. A percussão, detalhada, vai do sutil som de sininho a tambores de orquestra, os quais dão um final épico à faixa em curtos rufares.

Outro trunfo do disco, na tentativa de Brian de superar até a produção de George Martin para com os Beatles, é a adoção do modelo de gravação multitrack. Usando vários takes de vozes e instrumentos tocando ao mesmo tempo e uns sobre os outros, consegue atingir, assim, timbres únicos. Isso foi possível pelo ouvido apurado de Brian que, grande fã do produtor Phil Spector, “inventor” das teenage symphonies nos anos 50, chupou-lhe a ideia do “wall of sound”, refinando-a. A “muralha de som” de Spector aproveitava o estúdio como instrumento, explorando novas combinações de sons que surgem a partir do uso de diversos instrumentos elétricos e vozes em conjunto, combinando-os com ecos e reverberações. Isso se nota em todo o disco, como em “That’s Not Me”, outra espetacular. Lindíssima a voz de Love, que, limpa e sem overdub, desenha toda a canção, enquanto a base se sustenta num órgão, nos acordes de ukulele (guitarrinha havaiana) e na combinação grave/agudo da percussão, em que o tambor e o chocalho ditam o ritmo. “Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder)” é outra balada que faz, novamente, cair o andamento para um ar melancólico. Mas que balada! Tristonha, romântica e, como num ornamento rococó, toda cheia de enlevos. Nesta, Brian capricha na orquestração.

Por falar em orquestração, duas merecem destaque neste aspecto. A primeira, a não menos lírica “I’m Waiting for the Day”, que oscila entre um ritmo de balada, levada por um suave órgão, e momentos de empolgação, quando, lindamente, vozes em contracanto se juntam a flautas e uma percussão densa em que o tímpano se destaca na marcação. A orquestra, no entanto, entra por apenas rápidos segundos, suficientes para pintar a música com alguns traços, quando, lá para o fim da faixa, logo após Brian cantar com doçura os versos: I’m waiting for the day when you can love again”, violinos e cellos, sem dar pausa entre o fim da vibração da voz e o ataque de suas cordas, aparecem juntos em um fraseado lírico como uma suave nuvem sonora, integrando voz e instrumentos. Depois desse breve sonho, estes e todos os outros instrumentos voltam para encerrar a canção em tom maior, com a voz solo cantando: “You didn't think that/ I could sit around and let him work...”, enquanto um dos coros faz: “Ah aaah ah/ ah, aaah, ah...”, em três tempos, e o outro vocalisa: “doo- doo/ doo-roo/ doo- doo/ doo-roo...”, em dois. Estupendo.

A segunda especial em termos de arregimentação é "Let's Go Away for Awhile”. Como a faixa-título – uma rumba estilizada em que o compositor se vale da diversidade de instrumentos que vão desde sopros, como sax alto e trombone, e percussão, reco-reco e (pasmem!) latas de Coca-Cola, até um método de filtragem de entrada de som do alto-falante, que dá uma sonoridade específica à guitarra –, é instrumental, prestando mais um tributo à tradição medieval, uma vez que o conceito de dissociar música da dança ou do teatro iniciou-se, justamente, com mestres como Scarlatti e Vivaldi nesta época. Perfeita em harmonia, é quase um pequeno concerto para vibrafone, que conta também com um breve solo de bloco de madeira, finalizando com um arrepiante diálogo entre bateria e tímpano de orquestra, sustentados por um arranjo de cordas de caráter grandioso.

Depois do tom médio de “Let’s...”, o ânimo volta às alturas com a graciosa “Sloop John B”. Na introdução, outra clássica no disco, um toque de sininho e uma nota de flauta que se estende, ambos marcados pelo tic-tac de um metrônomo, dando início à alegre canção, com Brian, Love e Carl alternando a voz solo e na qual não falta beleza no arranjo das vozes em contraponto. Brian consegue dar colorações lúdicas a uma canção folclórica tradicional do Caribe, criando uma música em que dá a impressão de que toda a caixa de brinquedos ganhou vida e saiu a tocar pelo chão do quarto, cada um com um instrumento: o soldadinho do Forte Apache com a tuba, o marinheiro com o tamborim, o indiozinho Pele-Vermelha com os sinos, o playmobil com o clarinete e assim por diante.

Para os apaixonados por “Pet Sounds” como eu, que o conhecem de trás pra diante, o final da extrovertida “Sloop...” traz uma emoção especial, pois é sinal de que vem, na sequência, “God Only Knows”. Magistral, numa palavra. A música que fez o gênio Paul McCartney sentir inveja alinha-se em magnitude a ícones da música moderna como "Like a Rolling Stone""Bolero""A Day in the Life""Águas de Março" ou "Summertime". Com uma aura ao mesmo tempo celestial, emocionada e suplicante, “God...” não poupa o coração dos diletantes, pois o órgão e o toque do oboé já largam entoando em alto e bom som. Na suave percussão, chocalhos e temple block. As cordas e sopros, igualmente perfeitos. A voz de Carl transmite uma emoção intensa e não menos lírica. Após uma segunda parte em que sobe uma gradação, adensando a emotividade, a faixa se encerra sob belíssimas frases dos sopros e uma orquestração a rigor, quando as vozes de Carl, Brian e Johnston se misturam, criando um efeito onírico tal como um Cantus Firmus, tipo de melodia extraída dos cantochões polifônicos medievos em louvor ao Senhor. Impossível não lembrar, ouvindo-a, da famosa sequência do filme "Boogie Nights" em que a câmera sobrevoa os cenários mostrando os rumos tomados na vida de cada personagem, como se Deus estivesse vendo o destino de todos e dissesse: “só Eu sei”.

“I Know There's an Answer” (que, nas extras, vem na versão “Hang on to Your Ego“, com mesma melodia e letra diferente) mantém a beleza polifônica e reforça uma outra base conceitual do disco: a “teoria dos afetos”. Princípio básico da música barroca, estabelece correspondência entre os sentimentos e os estados de espírito humanos. A alegria, consonante, por exemplo, é expressa através dos tons maiores, acontecendo o inverso para o sentimento de tristeza, em matizes menores e dissonantes em forma. Por isso, as idas e vindas durante todo o disco de temas calmos e/ou românticos alternados com outros alegres e mais pulsantes. Isso que acontece novamente com a “agitada” “Here Today”, que antecede outra obra-prima de Brian e Cia.: o baladão “I Just Wasn't Made for These Times”. Com base de cravo, num clima dos oratórios de Bach e Häendel, percussão que equilibra temple blocks, bateria e tímpanos, além de impressionantes contracantos, traz ainda uma inovação em termos de música pop: o electro-theremin, sintetizador muito usado pela vanguarda erudita da eletroacústica que pouco (ou nunca) havia sido usado em rock até então. E Brian não só usa como, inteligentemente, aplica-o de uma forma genial, pois, integrando uma ferramenta sonora moderna a outras marcantes da Idade Média (como o cravo e o tímpano), a faz homogeneizar-se ao coro, como se instrumento e voz, natureza e espírito, Deus e homem fossem a mesma matéria.

Se os Beatles de “Rubber...” louvavam o amor à sua Michelle, Brian, em mais uma estocada, vinha com a lenta e definitiva “Caroline No” com suas combinações de bongô/chocalho e hammond mantendo a base, além do engenhoso solo de cello com trombone, desfechando vitoriosamente o LP original.

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Se parasse por aí, já estava de bom tamanho, mas até os extras são dignos de nota. Haja visto a curta e brilhante “Unreleased Backgrounds”, toda a capella e na qual Brian evoca os mais ricos motetos barrocos – claro, numa roupagem pop e com a cara dele. Afinadíssimo, ele puxa um “lá”, prolongando seu corpo e baixando gradualmente a escala por cerca de 15 segundos até cair totalmente. O “good Idea”, ouvido ao fundo dito por algum dos integrantes da banda no estúdio mostra que a coisa agradou, motivando todos a se juntarem num coro. Eles exercitam melismas com acidentes, formando um verdadeiro canto gregoriano moderno. Lindíssimo. Depois disso, ainda há a ótima instrumental “Trombone Dixie”, em que, de uma feita, homenageiam o célebre bluesman Willie Dixie e evidenciam a sutil fronteira entre o folk e o erudito.

Brian Wilson vencera o desafio a que ele mesmo se propôs: apenas cinco meses depois, os Beach Boys superavam com “Pet Sounds” os Beatles de “Rubber Soul”. A história da música pop nunca mais seria a mesma, tendo em vista a alta influência deste trabalho para uma infinidade de outros artistas, que vão desde ZombiesPink Floyd e R.E.M., passando por Van Morisson, Genesis, Blur e, claro, os próprios Beatles. Mas a instabilidade emocional e o vício em drogas de Brian não o deixariam prosseguir combatendo no front da música pop – pelo menos, não à altura de Lennon, McCartney, Harrison e Ringo. Três meses adiante, o Quarteto de Liverpool se reinventa novamente e lança o espetacular “Revolver”; no ano seguinte, o histórico “Sgt. Peppers...”; logo em seguida, emendam o fecundo “Álbum Branco”. Brian perde o passo e não consegue mais conceber uma obra com início, meio e fim, quanto menos uma grandiosa como a que criou. Mas, para sorte da humanidade, havia dado tempo do mundo conhecer “Pet Sounds”, o álbum que é mais do que um “disco de cabeceira”, mas os verdadeiros “sons de estimação”.



por Daniel Rodrigues
(Consultas técnicas e agradecimentos: Maria Beatriz Noll e Leocádia Costa)

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FAIXAS:
1. Wouldn't It Be Nice - 2:26 (Wilson, Asher, Mike Love)
2. You Still Believe in Me - 2:31
3. That’s Not Me - 2:30
4. Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder) - 2:53
5. I’m Waiting for the Day – 3:06
6. Let's Go Away for a While - 2:21
7. Sloop John B - 2:54
8. God Only Knows - 2:46
9. I Know There's an Answer - 3:10 (Wilson, Terry Sachen, Love)
10.  Here Today - 2:55
11. I Just Wasn't Made for These Times - 3:10
12. Pet Sounds - 2:23
13. Caroline, No - 2:54
14. Unreleased Backgrounds - :50
15. Hang on to Your Ego – 3:17
16. Trombone Dixie – 2:53

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