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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

João Bosco - Turnê "João Bosco 80 Anos" - Teatro Bourbon Country - Porto Alegre/RS (15/10/2026)



Obrigado, João!

Não me recordo com precisão que show foi, mas lembro que o clima era parecido em 2022, vésperas das eleições para Presidente. À época, Lula disputava contra Jair Bolsonaro o segundo turno e, embora confiantes, estávamos apreensivos, pois no primeiro turno a votação havia sido apertada. Eis, então, que a história nos põe numa situação ainda mais difícil no segundo turno das atuais eleições, em que o mesmo Lula enfrenta agora o filho de Jair, Flávio Bolsonaro, e o placar está ainda mais justo. Nessa atmosfera foi que assistimos Leocádia e eu ao show de João Bosco. E não poderia haver show mais apropriado. Passando por diversos trabalhos ao longo de sua carreira e com um repertório que conta com diversos hinos à liberdade do povo brasileiro nos últimos 50 anos, o espetáculo, além de brilhante, caiu como uma luva em épocas de tensão e necessidade de esperança.

Celebrando seus 80 anos, completos em julho, Bosco - com voz perfeita e violão cada vez mais afiado - faz um apanhado muito bem recortado de sua longa carreira, iniciada no final dos anos 60, em plena Ditadura Militar, e construída com muita integridade. Seja nas célebres parcerias com Aldir Blanc, seja com outros parceiros ou nas composições solo (haja vista que é um grande compositor, mas também ótimo letrista), o cancioneiro de Bosco é talvez o mais incisivo em termos de posicionamento político e ativismo da música brasileira. E foi em boa parte isso que assistimos no Teatro Bourbon Country praticamente lotado: a resistência da MPB.

O recado é dado de início: Bosco e sua excelente banda (Ricardo Silveira, guitarra; Guto Wirtti, baixo; Kiko Freitas, bateria; e Armando Marçal, percussão) abrem com o samba-enredo “Plataforma”, que ele e Aldir compuseram em 1977 para a voz de ninguém menos que Elis Regina. Ele lembra que, à época, cantou-a com Elis nos eventos em prol das greves do ABC lideradas por um líder sindical chamado Luiz Inácio da Silva. Não precisa dizer mais nada. Na sequência, outro samba-enredo e outra mensagem de resistência (inclusive novamente à Ditadura Militar, que proibiu a música à época de seu lançamento): “O Mestre-Sala dos Mares”, que fez Bosco referir-se a “outro gaúcho” assim como Elis: João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, o homem que liderou a Revolta da Chibata em 1910.

Cantando "O Mestre-Sala dos Mares" com a imagem
guerreira de São Miguel Arcanjo ao fundo

E se seguiram somente joias da música brasileira as quais Bosco é protagonista. Seguiram-se, igualmente, as homenagens a pessoas importantes nessa trajetória do cantor e compositor mineiro, como Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Nara Leão. Uma das principais, claro, foi a Aldir, com quem Bosco compôs a maioria das canções tocadas no show. São deles dois, aliás, as que vêm na sequência: “De Frente Pro Crime” (“Tá lá um corpo estendido no chão...”) e “Nação” (“Dorival Caymmi falou pra Oxum...”). No fundo, projeções de vídeos, artes, fotos animadas e bastidores de estúdio. A arte que acompanha a majestosa “Tiro De Misericórdia”, um HQ sobre a cinematográfica história do “reizinho nagô” do morro protegido pelos orixás abatido numa emboscada, enriquece ainda mais essa, que é uma das mais tocantes músicas de Bosco/Aldir. O arranjo jazzístico vai além da versão original e até da feita por Chico Batera, em seu disco “Ritmo”, de 1980.

De tonalidades jazz também foi “Escadarias da Penha” e a bela balada “Quando o Amor Acontece”. Teve, igualmente, os deliciosos partidos-altos “Incompatibilidade de Gênios” (“Doutor, jogava o Flamengo, eu queria escutar/ Chegou, mudou de estação, começou a cantar”), do não menos notável disco “Galos de Briga”, de 1976, e “Boca de Sapo” (“Costurou/ Na boca do sapo e resto do angu/ A sobra do prato que o pato deixou”), do álbum “Linha de Passe”, de 1979, e escrita originalmente para a interpretação de outra referência de Bosco e homenageada do show: Clementina de Jesus.

Mais sambas espetaculares do cancioneiro bosqueano: o hilário “Siri Recheado e o Cacete”, do álbum “Bandalhismo” (1980), e o combativo “Casa de Marimbondo”, em que Bosco relembra a participação do amigo César Camargo Mariano no disco “Caça à Raposa”, nos idos de 1975. Lindas também as interpretações da sensual “Jade” e da tocante “Amigos Novos e Antigos”, outra dele e de Aldir e que dá título ao novo disco de Bosco, o qual revisita sua obra em diálogo com grandes nomes da música brasileira.

Mas tiraram mesmo do chão a plateia a sequência “Odilê Odilá”, dele e de Martinho da Vila, um soul-jazz de primeira qualidade, e “O Ronco da Cuíca”, esta, emendada à anterior, mas que fez a atmosfera se elevar num samba intenso, ágil e de letra denunciativa: “Roncou, roncou/ Roncou de raiva a cuíca, roncou de fome/ Alguém mandou/ Mandou parar a cuíca/ É coisa dos hôme”. Bosco no violão e seus músicos botaram abaixo o teatro. A emoção foi às alturas também com um clássico imediato da MPB: "Sinhá", dele e de Chico. Escolhida como a melhor música brasileira de 2011, quando foi lançada no disco de Chico, "Sinhá" é tão densa e emocional, que merecia uma tese, tamanha a capacidade de encerrar História com Sociologia e arte. E tudo num lamento triste, tristíssimo, cujo refrão não precisa nem de letra para descrever a dor a e crueldade do sinhozinho com o velho escravo de quem tinha ciúme e ódio. Apenas: "Eie ê/ Eie ê/ Eie ê/ Eie êê", que fala mais do que qualquer palavra. Obra-prima.

trecho de "Sinhá", a obra-prima de Bosco e Chico

Já encerrando, claro, mais clássicos. Uma emocionante “Corsário”, a qual abre com o poema do poeta russo Maiakovski e que, por isso, contou com uma linda arte inspirada no estilo construtivista soviético na projeção do palco. Depois, “Papel Machê” (“Cores do mar/ Festa do sol/ Vida é fazer todo sonho brilhar”), que foi da trilha sonora da novela da Globo nos anos 80 (quando as novelas ditavam as músicas que fariam sucesso nas rádios) e que o público cantou mais do que o próprio Bosco, que deixou para a plateia essa parte. Para arrematar, Boscão recorre, claro, novamente a Elis e Aldir com o hino da resistência à Ditadura “O Bêbado e a Equilibrista”. Não precisa dizer que foi uma emoção só, ainda mais no atual cenário político em que, novamente, como naquela época em que a música foi composta, a liberdade do povo e a democracia estão em risco.

O bis, ali mesmo no palco, sem o ritual de sair do palco e voltar segundos depois, foi com outro clássico: o irreverente samba “Kid Cavaquinho”. Outra que o público cantou em uníssono: “Ói que foi só pegar no cavaquinho/ Pra nego bater/ Mas se eu contar o que é que pode um cavaquinho/ Os hôme' não vai crer”. 

Olha: às vezes é mesmo difícil de crer o tamanho dos talentos que se têm na música brasileira e o quanto eles são essenciais na nossa formação como pessoas, como cidadãos. João Bosco é um desses monumentos da MPB e que está em perfeita forma chagado a oito décadas de vida. Encerrado o show, uma moça, com uma camisa com a estrela do PT a quem vimos na entrada, nos encontrou de novo na saída e, feliz, mostrou-nos sua peça autografada por Bosco. Esse gesto dela, que para alguns pode parecer trivial, deu-nos um sopro de esperança, principalmente depois de um show em que se exaltou Lula e em que o repertório passa por marcos da resistência do lado certo do Brasil contra a ameaça do autoritarismo. Se vamos “virar”, só dia 25 para saber. Mas que João Bosco nos ensina a ter esperança, isso é inegável. Por isso, parafraseando ele mesmo, dizemos: "Obrigado, João!"

Confira como foi em algumas fotos e vídeos:

🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


O mestre canta "Nação"


Este feliz espectador esbaldando-se com o show



Bosco e Aldir: dupla sempre presente


Boscão e seu violão cada dia mais afiado


De tirar o fôlego, "Tiro de Misericórdia"


trecho da cinematográfica "Tiro de Misericórdia"



A parceria Bosco & Aldir exaltada nos 80 anos


O palco se transforma para a clássica "Corsário"


o hino "O Bêbado e o Equilibrista" 
entoado no Bourbon Country


Esses dois admiradores agradecidos pela
obra e existência de João Bosco


🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵🎵


domingo, 19 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - GRANDE FINAL

 




DISORDER VS TRANSMISSION


Disorder e Transmission, as duas grandes finalistas da Copa do Mundo Joy Division, entram no gramado.

Perfilam-se ao redor do grande círculo de acordo com o novo cerimonial da FIFA e ouvem a execução de "Atmosphere", que foi eliminada mas continua sendo o hino da banda. Escolhem os lados, a saída de bola, prestam um minuto de silêncio a Ian Curtis que teria completado 70 anos nesta última quarta-feira, e estão prontas pro jogo.

Contagem regressiva: 3,5, 0, 1, 2, 5..... Go!!!

E começa o jogo!

Agora é com nossos especialistas. Como será que cada um dos nossos mestres joydivisianos irá definir a parada?

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


CLY REIS:

Dois times com estilos parecidos, jogo acelerado, velocidade, duas baterias brilhantes, linhas de baixo marcantes e interpretações inspiradas. Jogo lá e cá, trocação pura.

Transmission é um clássico, tem um dos refrões mais conhecidos do grupo, mas poucos álbuns na história tem uma abertura como Disorder. O que se sente ao começar um disco ouvindo aquela introdução pela primeira vez é algo único.

Disorder pode ter perdido o sentimento mas tem o espírito, e na base da garra se impõe e vence o jogo.

DISORDER 1 X TRANSMISSION 0

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LUNA GENTILE:

O clássico começou eletrizante: Disorder abriu o placar com sua urgência característica, impulsionada pelo baixo pulsante de Peter Hook e pela bateria impecável de Stephen Morris. Mas Transmission respondeu rapidamente, encaixando uma jogada coletiva construída por sua batida hipnótica e pelo refrão explosivo, empatando a partida antes do intervalo.

No segundo tempo, o jogo ficou aberto. Disorder voltou a pressionar com guitarras afiadas, mudanças de ritmo e a interpretação intensa de Ian, recuperando a vantagem fazendo 2x1. Porém, Transmission mostrou mais eficiência: controlou a posse, acelerou as transições e aproveitou duas falhas da defesa para marcar os gols da virada. A torcida entrou no clima e o estádio inteiro parecia obedecer ao comando de "dance to the radio".

Nos minutos finais, Disorder lançou o time todo ao ataque, acertou uma bola na trave e obrigou o goleiro a fazer uma grande defesa, mas o placar permaneceu em 3 x 2. E Transmission é a grande campeã, uma das faixas mais fluentes na história do pós-punk.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 3

***********

ROBERTO SULZBACH:

De um lado, Transmission, que carrega em si tudo que a banda tinha de mais visceral e urgente. Do outro, Disorder, o portal para a realidade manchesteriana de Joy Division e para a mente do genial Ian Curtis.

Os dois times jogam de maneira intensa, entrosada. Transmission vai para cima de cara, ao ritmo dançante de sua batida. Disorder inicia mais retraída, cansada dos últimos grandes confrontos que encarou. Sendo assim, Transmission abre o placar: 1 a 0, querendo ainda mais.

Mas futebol é detalhe: uma jogada construída na base da insistência, erro da defesa, e a bola entra. Foi para 1 a 1, à base da raça de Disorder, com o estádio inteiro percebendo que a decisão vai ser no detalhe.

Perto dos minutos finais, Disorder encontra a fresta que precisava. Foi o lance de quem quer mais. A bola sobra na entrada da área depois de uma bola dividida, e o time que abriu o portal, que deu o pontapé inicial nessa história, marca o gol que sonhava desde o início.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 1

*********

DANIEL RODRIGUES:

Pode-se dizer uma final surpreendente, de dois times não necessariamente favoritos, mas que fizeram por onde para chegar onde chegaram. Direta ou indiretamente, Disorder e Transmission derrubaram clássicos consagrados, como Decades, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart e Atmosphere. Ou seja: estão longe de serem azarões. Uma, Com essa confiança toda, eles entram em campo para a grande final. Como todo jogo importante, muito estudo de cada lado. Jogo bom, mas estratégico, sem dar margem para erro. Disorder, mais atrevida e ligeira (afinal, é talvez a única da Joy composta em nota Sol, o que a torna a mais "alegre" da banda), assusta, mas desperdiça as oportunidades que cria. E diante de um forte adversário, não dá pra ratear.

Até que, na construção, no volume, na categoria, Transmission - que também sabe ser agressiva - aproveita a momentânea "desordem" da defesa adversária e faz o seu. É o gol da vitória. É o gol do título! E que privilégio: não precisa nem adotar música de outra banda pra cantar com a galera. Vai de Transmission mesmo!

DISORDER 0 X TRANSMISSION 1


************

PLACARES SOMADOS

DISORDER 5 X TRANSMISSION 5


* O regulamento da International Blog, em seu artigo 3,5,0,1,2, 5, Go!, Exercise One, estabelece que em caso de empate entre os votantes, o resultado será decidido no saldo de gols. Persistindo o empate, o resultado final será decidido por um convidado, também especialista na obra da banda.


PRORROGAÇÃO


*convidado desempate

CHRISTIAN ORDOQUE:

Caraio!!!

Transmission! 

DISORDER 5 X TRANSMISSION 6



Pode comemorar!
Com dancinha, com dancinha...

🎵🎶🎵Dance, dance, dance, dance to the radio!🎵🎶🎵


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - quartas-de-finais - CLASSIFICADOS

Dois clássicos regionais, um clássico entre dois ícones da banda, um confronto de gigantes!

O que foram essas quartas-de-finais, meu amigo!!!

Nossos árbitros-especialistas tiveram muito mais dificuldade em definir os vencedores nessa fase. Mas é inevitável. Afunilou de vez e agora só tem camisa pesada.

Vamos ver então como foram as definições das quartas e os quatro classificados para as semifinais, segundo os critérios do nosso time de analistas:


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


LUNA GENTILE

A Means to an End 1 x Decades 2 - Nesse clássico do Closer A Means to an End começou em alta, com seu baixo pulsante, bateria precisa e um ritmo pós-punk envolvente que dominou a posse de bola.
Mas Decades cresceu no segundo tempo: os sintetizadores atmosféricos, o andamento mais lento e a interpretação encantadora de Curtis deram outro peso ao jogo, controlando o ritmo até a virada.


ROBERTO SULZBACH

Disorder 4 x Candidate 2 - Disorder é frenética e organizada. A linha de baixo carrega a canção como um “8” talentoso. Seu riff icônico icônico tem a ousadia digna de Garrincha. Disciplina, ritmo e inventividade, todos em um só time. Candidate, segue com a marcação na sua metade do campo, esperando pela bola do jogo. A diferença é que em um jogo de dois timaços, não vem apenas uma bola do jogo. Então, Candidate tentou aproveitar ao máximo as chances que teve.
Teve "Trocação" franca, mas Disorder conseguiu se sobressair no ataque e na importância no catálogo do grupo. Apesar de suas valências, Candidate não foi capaz de superar a favorita.
4 x 2 Disorder.

DANIEL RODRIGUES

Transmission 3 x Love Will Tear Us Apart 2 - Outra baita jogo. Clássico joydivisiano! As duas entram em campo com esquema tático parecido, a se ver pelo mesmo conceito de abertura, que vem num crescendo, e marcam um gol cedo cada uma, um após o outro. 1 x 1. Love, mais atrevida, amplia logo depois. Mas Transmission é cascuda, com jogo bem armado, que não se apavora com qualquer adversário mesmo com bom futebol. E empata. 2 x 2. No intervalo para hidratação, porém, o técnico “transmite” aos jogadores as palavras certas e acerta a estratégia. Resultado: Transmission marca mais um e segura o placar até o final mesmo com o abafa do adversário. Final: Transmission 3 x Love Will Tear Us Apart 2. E teve novamente dancinha ao som do rádio.


CLY REIS

Atmosphere 0 x New Dawn Fades 1 - Sabe quando os times se perfilam antes do jogo para a execução dos hinos? Aqui New Dawn Fades se alinha e tem que cantar nada menos que seu próprio adversário.
Atmosphere é um hino do joy division!
E como se faz para superar um símbolo tão forte, tão marcante?
Ah, tem que fazer o jogo perfeito, e ninguém melhor que New Dawn Fades para executar essa tarefa. Talvez a música mais completa do Joy division.
Um esquema de jogo bem traçado, a estratégia bem desenvolvida e todos os setores funcionando perfeitamente. 
ali, ali, no detalhe, New Dawn Fades supera o hino e o transforma em réquiem (que de certa forma, sempre foi)
adeus, Atmosphere!

 


quinta-feira, 18 de junho de 2026

COTIDIANAS #898 - Especial Maria Bethânia 80 Anos - "Pássaro Proibido"



Solto está o pássaro proibido

Perigo, cuidado, sinal nas ruas

Plumagem clara e brilhante

Ao sol e a lua transparente

Ao corisco e a maré

Ao corisco e a maré

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Pássaro proibido de sonhar

O canto macio, olhos molhados

Sem medo do erro maldito

De ser um pássaro proibido

Mas com o poder de voar

Mas com o poder de voar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Voar até a mais alta árvore

Sem medo, tranquilo, iluminado

Cantando o que quer dizer

Perguntando o que quer dizer

Que quer dizer meu cantar

Que quer dizer meu cantar

Eu canto o sonho na cama

Do jeito doce e moreno

Eu canto


Eu canto


🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦🐦



letra de "Pássaro Proibido"
autoria: Maria Bethânia e Caetano Veloso



Maria Bethânia - "Pássaro Proibido"
Voz: Caetano Veloso 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

T.N.T. - Show "T.N.T. I - Ponto Zero" - Auditório Araújo Vianna - Porto Alegre (24/04/2026)


A T.N.T. pode não ser necessariamente a melhor banda gaúcha de todos os tempos, haja vista que tem Os Replicantes, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Liverpool, Cascavelletes, Saracura... Mas uma coisa não se tem dúvida: eles são a banda mais icônica do rock ‘n’ roll no Rio Grande do Sul. Criado há 40 anos, esse histórico grupo tanto para o rock da terra da bombacha quanto para o Brasil celebrou as quatro décadas de lançamento do seu memorável primeiro e homônimo disco num disputado show no Auditório Araújo Vianna, que lotou de fãs para ouvi-los e cantar seus clássicos.

Por falar em clássico, foi assim que iniciaram a apresentação: emendando nada menos que três de seus maiores sucessos: “Entra Nessa”, “Ana Banana” e “Identidade Zero”. Ufa! Um começo arrasador.. Porém, de certa forma parece que Charles Master, Márcio Petracco, Tchê Gomes, João Maldonado, Fábio Ly, Paulo Arcari e Felipe Jotz gastaram metade da pólvora antes do primeiro quarto de batalha. Não que depois tenha necessariamente decaído ao tocaram músicas menos conhecidas ou tão aclamadas, mas o som mal equalizado (que embolava os sons e dificultava que se entendesse aquilo que já não se sabe de cor), somado à longa duração do show inteiro, deu um certo cansaço.

Mas tudo bem, afinal, show de rock de verdade passa por cima de som ruim ou algum equívoco de repertório, e o  público compareceu mesmo para vê-los tocar as músicas que uma geração inteira de gaúchos cresceu ouvindo nas rádios. Caso de “Irmã do Dr. Robert” e “Oh Deby”, esta última, assim como as três citadas do começo do show, composições de autoria de Flávio Basso (ou Júpiter Maçã ou Jupiter Apple). Aliás, ou eu não entendi pelo som embolado das falas entre as músicas ou ninguém mencionou Flávio, que, convenhamos, é o arquiteto da T.N.T., a cabeça mais criativa não só da banda, mas de todo o rock gaúcho em todos os tempos. Estranho...

Além do disco de estreia, teve também coisas das outras fases, como os hits “Não Sei” (“Não sei se eu tô certo ou se eu tô errado/ Mas faço tudo o que eu digo e digo tudo que eu faço”), “Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)” (ambas de “TNT nº 2”, de 1988 e já sem Flávio na formação), “Noite Vem, Noite Vai” e “Quem Procura Acha”, duas do terceiro álbum de estúdio da T.N.T., de 1991. O público gostou.

O hit "Não Sei" com sua melodia a la "Sweet Jane"


Rolou ainda uma participação da Orquestra Rosariense, que não acrescentou muito, na verdade. Tanto que a banda tocou, no bis, exatamente as músicas que haviam rearranjado para as cordas, “Muito Cuidado” e “Nunca Mais Voltar”. Mais para o final, teve outra consagrada, “Cachorro Louco”, desses rocks imbatíveis, dos melhores do BRock anos 80. Para encerrar, “O Mundo É Maior Que o Teu Quarto”, da Cowboys Espirituais, uma das corruptelas da T.N.T. assim como a Tenente Cascavel e a Cascavelletes. Baita música, regravada por gente como Barão Vermelho, mas que, por não terem dosado melhor a narrativa do show e gastado as melhores lá no início, talvez não fosse a mais indicada para encerrar.

Mas, de novo, tudo bem! A noite foi para celebrar o bom e velho rock ‘h’ roll, o que a T.N.T. representa no mais alto grau. Deixa pra lá a acústica ruim, o andamento do repertório. O negócio foi “entrar nessa” e “dançar um rock ‘n’ roll”. Foi o que fizemos - e foi legal.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Começa o show da lendária T.N.T.


Acompanhando a letra no telão de "Entra Nessa",clássico do rock gaúcho


Entrando nessa com "Entra Nessa"

"Ana Banana" no começo do show pondo 
todo mundo pra cantar


Repertório do primeiro e dos outros discos da
banda compuseram o show

A T..N.T. canta outra clássica: 
"A Irmã do dr. Robert"


Mais clássicos


Tocando "Nunca Mais Voltar", das preferidas da galera


Estes dois roqueiros felizes por ver a T.N.T.
celebrando os 40 anos de sua estreia


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Duas (ou mais) músicas em uma

Sabe aquela música você está lá ouvindo-a numa boa, até que, de repente, tudo muda? O que era um rock agitado vira uma balada romântica. O que começa como um folk-rock se transforma num break dançante. O que parecia ser só uma melodia inocente passa, de uma hora para outra, a ser uma canção folclórica latina.

É meio raro de acontecer e não é fácil de dar certo, mas todos esses exemplos realmente existem. Algumas joias tanto da discografia rock quanto da MPB, principalmente, seguem essa métrica diferente. Diria até surpreendente de incorporar duas músicas em uma.

E não estamos falando aqui daquelas que só têm um finalzinho diferente, criativo. Isso é bem mais comum e não nos vem ao caso agora. Poderíamos talvez até falar de “Cry Baby Cry”, dos Beatles, que, após uma balada romântica de Lennon, tem McCartney encerrando-a cantando lindamente outra melodia, a de "Can You Take Me Back". Mas é tão curtinha! Apenas 28 seg, o que não dá para chamar de “virada”. Outra que até poderia é “Mask”, da Bauhaus, que se estabelece como uma marcha soturna quando, encaminhando-se para o fim, entra um solo de violão que altera totalmente a atmosfera, tornando-a algo ritualística. A base, contudo, mantém-se, então, também não conta. Muito menos aquelas que vão se transformando em si próprias, minissinfonias, tal "Menina Goiaba" (Gilberto Gil), "Happiness Is a Warm Gun", (Beatles) ou várias coisas dos progressivos.

Falamos aqui, sim, de belas músicas que já eram boas de um jeito, mas que, repentina e deliberadamente, viram outra coisa. E tão legal quanto, como se fossem duas obras em uma só.

Como toda lista, obviamente, a intenção não é dar conta de todos os casos com esse perfil. Longe disso. Como estes, certamente existe uma infinidade de registros, que não lembramos ou, muito mais numerosas, que nem conhecemos.


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


“Feedback Song for a Dying Friend” – Legião Urbana (1989)


A Legião Urbana era dotada de muita inventividade. Se faltava apuro técnico aos seus integrantes como instrumentistas após a saída do excelente baixista Renato Rocha, sobrava criatividade e referências culturais inteligentes a Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e 
Renato Russo, principalmente. Nessa linha, "Feedback...", do disco “As Quatro Estações”, de 1989 (o primeiro do grupo como trio), é exemplar. Um hard rock cantado em inglês, no melhor estilo Led Zeppelin, que, lá pelo seu final, a aproximadamente 3 min20’ e depois de uma parada dramática, a música se transforma numa deslumbrante dança da Grécia Antiga. E mais legal: a letra segue, com Renato cantando ainda mais lindos versos até finalizá-la epicamente.

OUÇA


“Layla” – Derek & The Dominos (1970)

Quem gosta de cinema e de rock jamais conseguirá dissociar esse clássico do rock do filme “Os Bons Companheiros”. A sequência com a câmera em travelling encontrando os corpos de assassinados congelados dentro do caminhão refrigerado é, além de uma das mais memoráveis da filmografia de Martin Scorsese, aquela que tem a canção da Derek and the Dominos (leia-se Eric Clapton). Mas Scorsese, grande amante de rock e de música, soube exatamente que trecho de “Layla” extrair para montar a sua cena: a segunda parte desse blues eletrificado, justo quando o piano de Jim Gordon (não à toa, coautor da música) é quem dá as cartas com uma balada lírica. 

OUÇA


“Televison Man” – Talking Heads (1985)

David Byrne e sua trupe sempre foram muito criativos e já haviam ensaiado viradas que surpreendem em outras músicas. Porém, nada como esse pop rock empolgante que é “Television Man”. Penúltima faixa de um disco tão pop quanto perfeito da Talking Heads, o "Little Creatures", “Television...” se desenvolve melodicamente de forma muito agradável e contagiante, até, por volta de 2min30' (ou seja, menos da metade da duração dela, de 6min10'), toma um rumo que a potencializa. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Steve Scales, Byrne puxa um coro feminino para repetir com ele: “Na-na-na-na-na-na”, além de metais, linha de teclados que se cruzam e guitarras percussivas. Um êxtase.

OUÇA


“Novacane” – Beck (1996)

Beck estava afiadíssimo quando lançou seu terceiro álbum, o clássico “Odelay”. Com o apoio luxuoso dos Dust Brothers (John King e Mike Simpson), que cuidavam de cada detalhe do arranjo e da produção, o músico norte-americano teve campo livro para compor certamente a sua melhor obra, cheia de músicas com reviravoltas, mudanças e variações das mais diversas. A que mais surpreende neste sentido, contudo, é “Novacane”. O que começa e se desenrola como um hard-funk, por volta 3 min 20', vai para outra direção completamente diferente em ritmo e textura, quando uma espécie de break eletro-retro toma conta até encerrar a faixa. Essas coisas inclassificáveis, que só Beck & Dust Bros. produziram e viraram de ponta-cabeça o rock alternativo dos anos 90.

OUÇA


“Pablo” – Milton Nascimento (1973)

Com a ditadura a mil pelo Brasil no início dos anos 70, sobrou também para Milton Nascimento. Seu disco “Milagre dos Peixes” foi sumariamente picotado pela censura, que proibiu quase todas as letras. Solução? Fazer um disco caprichado no instrumental, arranjos e composições, que resultou num dos melhores da carreira do gênio de Três Pontas. “Pablo”, faixa que encerra o álbum, uma aparentemente inocente canção infanto-juvenil, saiu ilesa, e deu a oportunidade ao jovem Nico Borges, irmão caçula dos Borges então com 12 anos, cantar os belos versos escritos por Ronaldo Bastos. Porém, no minuto final, o instrumental de “Cadê”, uma das prejudicadas pela censura, surge em fade-in para encerrar esta obra-prima em ritmo andino. Milton marcando posição e fazendo milagre.

OUÇA


“Variações sobre um Mesmo Tema” – Engenheiros do Hawaii (1988) 

O que esperar de uma música cujo título é “Variações sobre um Mesmo Tema”? Numa fase encantada, a Engenheiros do Hawaii de Humberto Gassinger, Augusto Licks e Carlos Maltz entrega mais do que uma letra justificadora, e, sim, uma música que aplica essa variação também na melodia. E promovem não apenas uma variação, mas duas! Os versos invariavelmente brilhantes de Gassinger à época compõem o que eles classificam de Parte 1, que se desenrola sobre um ritmo marcado em três tempos. Depois, uma queda brusca para uma atmosfera etérea, quando a voz de Licks praticamente declama alguns dos mais belos versos do cancioneiro da banda. Então, para fechar mesmo (e encerrar o disco “Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”), um hard rock instrumental possante, algo fusion e progressivo. 

OUÇA


“Miserable Lie” – The Smiths (1984) 

The Smiths é aquilo, né: o mais alto grau de criatividade de toda a geração do britpop anos 80. “Misarable Lie” é uma das provas de que eles não deixariam de apresentar essa métrica diferentona de música "2 em 1". Johnny Marr e sua guitarra genial exercita um rock cadenciado na primeira e um punk rock na segunda. Tudo isso, sem precisar usar pedal de distorção! É guitarra purinha! A bateria de Mike Joyce – como em “London”, outra punk da banda – engendra uma cadência sincopada. Andy Rourke, baita baixista, segura todas na “cozinha”. E Morrissey... Ah! Moz destrói tudo na primeira e na segunda seção! A última, aliás, em que ele faz os seus peculiares “falsetes sopranos”.

OUÇA


“I’m the Ressurrection” – The Stone Roses (1989)

Outra dessas melodias de moldagem plástica e que servem para encerrar um álbum, assim como “Variações sobre um Mesmo Tema”, da Engenheiros, e “Pablo”, de Milton. Ou seja: tem um papel fundamental dentro da narrativa da obra que integra. No caso, o histórico debut da The Stone Roses. E para uma música chamada “Eu Sou a Ressurreição”, haja reviravoltas! Em seus pouco mais de 8min, faz jus ao título: é uma coisa até 3 min40’, uma segunda até uns 6min20’ e ainda um terceiro formato para encerrar. Muitos reencarnes.

OUÇA


“The Murder Mystery” – The Velvet Underground (1969)

O disco homônimo da Velvet Underground de 1969 já não contava mais com John Cale na formação, dando, assim, total liberdade à mente criativa de Lou Reed. “The Murder...” é quase um parque de diversões compositivo: conjuga duas melodias intercaladas, uma espécie de habanera e um rock intenso e de estrutura circular, tudo com variados vocais: os de Doug Yule, Sterling Morrison, Maureen Tucker e os dele mesmo, Lou. Só que, a aproximadamente 6 min 30', como se não bastasse, vai surgindo ainda uma outra música, totalmente díspar da(s) anterior(es): uma quase "bagatelle” com base de piano e uma letra quase falada por este criador de obras-primas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”... e “The Murder Mystery”.

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“Eve White/Eve Black” – Siouxsie & The Banshees (1980)

Outra banda altamente criativa, a Siouxsie & The Banshees é também capaz de imaginar melodias tão elásticas formalmente. “The Rapture”, que dá nome ao disco deles de 1992, é uma minissinfonia pós-punk, que se bifurca para três lados. Mas eles já haviam se aventurado por esses limites melódicos no início dos anos 80, mais precisamente no compacto de “Christine”, com “Eve White/Eve Black”. De novo, uma dentro da outra: começando só com uma base de guitarra e voz e terminando transtornada. No caso, as faces “branca” e “negra” da mesma Eve. E se a gravação original já passa bem o espírito dual, a versão ao vivo do clássico álbum “Nocturne”, de 1983, é de arrepiar, principalmente no instante da mudança de uma parte para outra, quando Siouxsie solta um dos gritos mais assustadores da história do rock. Garanto que ate Ozzy Osbourne ficou com medo.

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Daniel Rodrigues
com colaboração de Cly Reis

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Elvis Presley - "Elvis Presley" ou "Rock 'N' Roll" (1956)



“As pessoas de cor vêm cantando e tocando desse jeito por tanto tempo que nem mesmo sei. Eles tocam assim nos cortiços e ouvem essa música na jukebox. Ninguém deu a mínima até que comecei a cantar esse estilo. 
Aprendi com eles”.
Elvis Presley

"Houve muitos caras durões. Já houve impostores. E houve concorrentes. Mas só há um Rei". 
Bruce Springsteen

Foi em 26 de março de 1956. Esta é a data simbólica do nascimento de algo que revolucionaria a sociedade da idade contemporânea: o surgimento do rock 'n roll. Neste dia, após três anos de carreia musical, Elvis Aaron Presley, então com apenas 21 anos, lançava seu clássico e homônimo primeiro disco, não à toa também intitulado com aquilo que ousa inventar: “Rock ‘N’ Roll”. Muito já se falou sobre este álbum, e muito teria ainda a se falar hoje, 70 anos após sua chegada às lojas, aos ouvidos e aos corações de gerações de fãs. Mas como pede a cartilha de um bom rock, o legal mesmo é falar pouco e curtir, mas curtir muito!

Do primeiro crepitar da agulha no vinil ao último, são só músicas icônicas da cultura mundial, como poucos produtos culturais conseguem oferecer. É impaciente até hoje, e seguirá sendo, aquele início com "Blues Suede Shoes": "Well, it's one for the money" (dois acordes do violão e da bateria), "Two for the show" (mais dois acordes), "Three to get ready”, (bateria antecipando) “Now go, cat, go/ But don't you step on my blue suede shoes”. A partir daí, é a cargo de Elvis ao violão e do incendiário trio: Scotty Moore, guitarra; Bill Black, baixo; e D.J. Fontana, bateria; além de Gordon Stoke, ao piano; e os The Jordanaires, nos vocais de apoio. São os primeiros acordes do começo de um novo mundo. É a liberdade soando pelos ouvidos! 

A atitude, a assimetria, a rebeldia, a imperfeição, a perfeição, a luxúria, a carne, a carne. A música nunca mais foi a mesma depois daqueles 2 minutos chegarem ao fim. Os jornais da época chamariam de “primitivo”, “delinquente”, “vulgar”, “animalesco”, e “que suas performances deveriam ser restritas ao cais do porto e a bordéis, não à televisão nacional”. É tudo isso, sim, meus senhores. Era algo realmente delinquente, primitivo, assustador. E irrefreável. E divino.

Num disco cuja primeira faixa simboliza uma das maiores transformações comportamentais, mercadológicas e artísticas do século 20, ainda havia mais. Já existia "Hound Dog", single daquele mesmo ano com que Elvis pusera o mundo de cabeça para baixo. Bruce Springsteen, fã ardoroso do King, disse por toda uma geração do impacto que a icônica faixa teve para ele na primeira vez que a ouviu: "Ela simplesmente atravessou meu cérebro". Mas o álbum ia além disso, pois materializava em uma obra completa essa revolução. Elvis canta a “Tutti-Frutti” do negro gay e desafiador Little Richards empostando a voz blueser e dando uma outra roupagem a esse marco do rock. Afinal, Elvis mostrava, ainda muito embrionariamente, que rock, esse insubordinado filho direto do blues, se desmembraria em centenas e centenas de outros subgêneros. “Rock and roll can never die”, diria Neil Young em sua canção.

E tem também o country rock "Just Because", uma versão folk para o Standart “Blue Moon” e as baladas indefectíveis "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" e "I Love You Because", gravações que Elvis registrara em seu período de Sun Records, entre 1953 e 1954, e cujos takes tornaram-se lendários como precursores do rock. E Elvis também canta o gênio Ray Charles ("I Got A Woman"), dos primeiros a fazer generosa ponte entre a música do Oeste com o R&B do Sul; "One-Sided Love Affair", que contém todos os predicados de um rock embalado; e "Trying to Get to You", exemplar country rock, com um show de vocal de Elvis.

E o que dizer de “Money Honey”, outro ícone da cultura contemporânea, muito bem escolhida pelo produtor da RCA, Steve Sholes, para encerrar o disco? Estão ali os maneirismos, a potência vocal, a reverência à tão massacrada cultura afro-americana daquela época. Elvis, alheio a qualquer preconceito de raça, disse: “Lá em Tupelo, Mississippi, eu ouvia o velho Arthur Crudup mandando bala e pensei que se eu conseguisse passar esse mesmo sentimento, minha música não teria igual”. No alvo, mr. Presley. 

A própria capa, centenas de vezes imitada e referenciada com suas letras em rosa na vertical no canto à esquerda e em verde na horizontal, abaixo, é pura ousadia: visceral, potente e até erótica para a época. Mesmo sem ser enquadrada, é possível enxergar, só de ver a expressão de seu rosto, os quadris e as pernas remexendo freneticamente e enlouquecendo de tesão a plateia, tal como a febre Elvis provocaria por anos.

O jovem caipira do Mississipi, nascido numa sociedade racista e colonialista, conviveu e absorveu do povo negro as suas principais referências. Soube ele misturar a enraizada cultura folk, a sonoridade melancólica do country e a visceralidade da tradição negra - o blues, o gospel, o R&B e, claro, o nascente rock ‘n’ roll, que já havia sido criado por mãos negras de Sister Rosetta Tharpe. Elvis juntou os branquelos feiosos Carl Perkins, Bill Halley e Jerry Lee Lewis aos roqueiros negros Little Richards, Chuck Berry e Bo Diddle, mais uma pitada do modern country de Ramblin' Jack Elliott e Woody Guthrie à sua imagem jovial e estonteante e seu carisma e, pronto: estava feita a química para o maior ícone pop de todos os tempos.

Nunca mais se repetirá essa combinação.

Mick Jagger, John Lennon, Madonna, Lou Reed, Elton John, Springsteen, Renato Russo, Lana Del Rey, Paul McCartney, Freddie Mercury, Eddie Vedder, Joan Jett, Bob Dylan, todos, sem exceção, devem ao Rei do Rock.

Elvis Presley, o disco, é muito mais do que um disco. É o raiar de uma era. É a criação da cultura pop. É a invenção de uma nova linguagem. É o florescer de uma revolução comportamental. É o nascer para valer da indústria fonográfica. É a entrada da juventude no mercado consumidor. É a instituição da cultura jovem. É a concretização do fenômeno de massas. É a simbolização da "vitória" dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mesmo com a polarização da Guerra Fria (afinal, do outro lado da Cortina de Ferro não havia nada parecido com ele). Elvis, o disco, que alça o artista ao estrelato, é o primeiro efeito multimídia, que vazaria para o cinema, a TV e milhares de produtos do “Américan way of life”. Primeiro disco de rock ‘n’ roll a liderar as paradas, primeiro a passar dez semanas no topo da Billboard Top Pop Albuns. O primeiro do gênero a vender mais de um milhão de cópias. 

Há quem acredite que Elvis, Rei do Rock, foi a encarnação de Jesus Cristo, Rei dos Reis. Embora sua também breve existência, assim como a do filho de Deus, e o forte impacto de sua passagem entre os mortais, mobilizando multidões por onde passsava, não há como comparar. Cheio de defeitos, Elvis foi se mostrando cada vez mais machista, mesquinho e mimado, Elvis foi a representação perfeita não da Redenção, mas, sim, do messiânico rock ‘n’ roll, aquela música que veio à Terra, há exatos 70 anos, para salvar a humanidade. Da caretice do mundo.

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FAIXAS:
1. “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins) - 1:58
2. “I'm Counting On You” (Don Robertson) - 2:21
3. “I Got A Woman (Ray Charles) - 2:22
4. “One-Sided Love Affair” (Bill Campbell) - 2:10
5. “I Love You Because” (Leon Payne) - 2:39
6. “Just Because” (Bob Shelton, Joe Shelton, Sid Robin) - 2:32
7. “Tutti Frutti” (Dorothy La Bostrie, Richard Penniman) - 1:57
8. “Tryin' To Get To You” (Singleton, McCoy) - 2:31
9. ”I'm Gonna Sit Right Down And Cry (Over You)” (Biggs, Thomas) - 2:01
10. “I'll Never Let You Go” (Jimmy Wakely) - 2:21
11. “Blue Moon” (Rodgers & Hart) - 2:39
12. “Money Honey” (Jesse Stone) – 2:33

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OUÇA:

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Daniel Rodrigues