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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Karlheinz Stockhausen - “Gesang der Jünglinge” (1956)


Capa das edições de 1957 e
1962, respectivamente, da
Deutsche Gramophon

“'Gesang der Jünglinge' é a mais original criação eletrônica de Stockhausen e talvez a peça eletrônica mais influente já composta."
Alex Ross
jornalista, escritor e crítico musical

"'Novo' significa mudar o método; novos métodos mudam a experiência, e novas experiências mudam o homem. Sempre que ouvimos sons, somos mudados: não somos mais os mesmos depois de ouvir certos sons, e isso é ainda mais verdadeiro quando ouvimos sons organizados, sons organizados por outro ser humano: música".
Karlheinz Stockhausen

O trauma da Segunda Guerra Mundial foi decisivo para toda uma geração de artistas da segunda metade do século 20 na Europa. Ainda mais na Alemanha pós-nazismo. Misturavam-se, principalmente do lado ocidental do Muro, sentimentos de culpa e de constrangimento, que tomava o coração dos artistas das mais diversas áreas, do cinema à literatura, das artes visuais à música. Tanto que o reerguimento da Alemanha destruída física e moralmente veio com altos investimentos de tecnologia, mas também com uma vontade irrefreável de produzir arte para espantar os demônios. Dessa complicada equação, que une dor e profundo catolicismo com inovação científica e pulsões existenciais, algumas figuras foram chave para trazer ao mundo obras que revolucionariam a arte contemporânea. Na música do país germânico, Karlheinz Stockhausen é o principal deles.

Nascido em Mödrath, em 1928, Stockhausen foi afetado diretamente por todos esses fenômenos. Durante a Guerra, perdeu os pais, fato que seria, ao mesmo tempo, traumatizante e mobilizador de suas ações. Órfão, aos 22 anos se mudou para Colônia, onde trabalhou como pianista e estudou música na universidade local, frequentando logo em seguida cursos de serialismo musical em Darmstadt com o mestre francês Olivier Messiaen. Com uma mente acima da média do resto dos seus colegas, em 1952, foi selecionado para o Conservatório Nacional de Música de Paris e estudou com outra referência da música de vanguarda, o também francês Pierre Boulez. Circundavam lhe ideias da música serialista, concreta, atonal, futurista, dodecafônica, mas nada fazia total sentido a Stockhausen, que ansiava por algo realmente inovador, mais profundo e que lhe respondesse àquele vácuo existencial. Precisava elevar um novo Deus, mas um Deus de ossos de metal, feito de transistores e estanho, já que aquele da igreja havia ido embora. O laboratório era a nova igreja.

Foi aí que veio, a partir da observação não dos instrumentos, mas do funcionamento da frequência dos osciladores de rádio, a ideia para a música eletrônica, a qual, há 70 anos, Stockhausen ajudou a fundar. É bem verdade que o francês Pierre Schaefer já havia lançado, em 1948, as bases de uma música que não seguia nenhum padrão tonal ao criar o gênero acusmático, no qual a música pré-gravada é difundida sem a presença de músicos ou cantores em tempo real graças às tecnologias de captação, manipulação e reprodução eletroeletrônicas. Mas o obstinado Stockhausen vai além e monta suas primeiras peças com fitas magnéticas para, sim, serem apresentadas ao vivo, o que realiza com “Gesang der Jünglinge”, peça que completa sete décadas de sua estreia, numa estranhíssima avant-premiére em Colônia, em 30 de maio de 1956. Quem assistiu aquela "performance", saiu ou chocado ou sem entender.

Foto da estreia de "Gesang...", em Colônia.
Estranhamento da plateia
Criada durante dois anos, “Gesang....” - que quer dizer “Canção dos Jovens”, na tradução para o português - é obscura e diferente de qualquer coisa que se tinha notícia até então, antecipando-se à reorganização tonal de Steve Reich e às saborosas esquisitices da turma da Fluxo. Composta para fita magnética e cinco autofalantes, esta obra religiosa não-litúrgica é pioneira em alguns sentidos. Em primeiro lugar, pela própria ideia de fundir e combinar o som da voz humana com sons gerados eletronicamente, lançando mão da tecnologia e das técnicas então disponíveis. A composição é basicamente constituída pela alteração da voz de um menino sintetizada. Alterando o espectro de ondas senoidais, Stockhausen conseguiu criar uma linha contínua que permitia a manipulação de todas as articulações pronunciadas. Uma vez criada a linha contínua, o compositor extraiu os elementos básicos e os grupos de elementos da composição. 

O “serialismo total” desenvolvido por Stockhausen resolve uma série de questões técnicas altamente intrincadas para resultar em uma obra de pouco mais de 13 minutos capaz de, mesmo sem conhecimento profundo de música do ouvinte, impactá-lo. Selvagem e estranhamente “científica”, detalhada e artesanal, “Gesang…”, quando composta, levava horas de trabalho para que fosse criado um segundo de música, apenas dosando, expandindo, reduzindo, sintetizando sons.

Entre silêncios, estranhas emulações de instrumentos “reais”, guizos, farfalhares e ruídos em geral, o que resulta é uma obra sombria, que traduz aquela nova liturgia fundada por Stockhausen. A memória dos pais, o trauma da Guerra, a religiosidade cristã da infância e a febre moral de seu país transformam-se em uma música que, propositalmente, soa sem sentido ou, se não tanto, sem exigir-se racional ou pertencente a uma tradição. O próprio canto do jovem soprano Josef Protschka, de 12 anos à época, período em que a voz dos meninos oscila entre o grave e o agudo, exprime esse incômodo. Nada é verdade. Assim, o texto bíblico Do Forno Ardente, do livro de Daniel, é meramente um instrumento filosófico para o compositor expurgar seus males trazendo à tona outro, que passaria a ser muito conhecido da sociedade: o mal-estar do Século 20.

De Miles Davis a Beatles, passando por David Bowie, Kraftwerk, Philip Glass, Radiohead, Chemical Brothers e Björk, o pensamento de Stockhausen estimulou a que se buscasse desbravar outras possibilidades de composição, apropriação e organização do som, além de alçar o problema da escuta da música a uma outra dimensão. Junto com Boulez e John Cage, Stockhausen reescreveu a música moderna, “matando” o tonalismo e abrindo um novo paradigma. Cabe aos que vieram depois desbravá-lo e decifrá-lo.

Um repórter que presenciara a famigerada estreia de “Gesang…”, ao entrevistar seu compositor logo após, confessou-lhe que achava não ter entendido a obra, mas que ficara extrema e positivamente transtornado com o que ouvira. Stockhausen lhe respondeu que, justamente por essa reação, ele havia, sim, entendido a proposta.

📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼

FAIXAS:
Versão 1957:
1. "Studie I" - 9:42*
2. "Studie II" - 3:20*
3. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
* Peças de música eletrônica geradas a partir de tons senoidais manipulados de 1953 e 1954, respectivamente 

Versão 1962:
1. "Gesang Der Jünglinge" - 13:00
2. "Kontakte" - 35:30**
** Peça para fita de 4 canais escrita entre 1958 e 1960

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Daniel Rodrigues

segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Michael", de Antoine Fuqua (2026)


É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.

Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.

No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.

Domingo na pele do perverso Joe Jackson:
digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.

Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.

E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.

Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem. 

O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.

A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse


De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.

Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes. 

Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.

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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua


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"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
Duração: 127 min
Ano: 2026
País: Estados Unidos
Onde assistir: Nos cinemas

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Daniel Rodrigues

quinta-feira, 12 de março de 2026

Clyblood #8 - "Pecadores", de Ryan Coogler (2025)


INDICADO A:
MELHOR FILME
DIREÇÃO
ATOR
ATRIZ COADJUVANTE
ATOR COADJUVANTE
ROTEIRO ORIGINAL
SELEÇÃO DE ELENCO
DIREÇÃO DE ARTE
FOTOGRAFIA
FIGURINO
MONTAGEM
MAQUIAGEM E CABELO
SOM
EFEITOS VISUAIS
TRILHA SONORA ORIGINAL
CANÇÃO ORIGINAL


O blues é a música do Diabo
por Cly Reis

As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.

"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.

No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.

Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".

Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema.
A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!

Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.

"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!

O blues invocando espíritos do passado e do futuro.




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Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues


Ryan Coogler
, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueenJordan PeeleKasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo  "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.

Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.

Celebrado por gente como Spike LeeChristopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.

O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.

Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.

Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir

As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.

Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.

trailer de "Pecadores"





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"Pecadores" 
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
gênero: terror, ação, musical
duração: 138 min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max e Prime Video (pago)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS 2025

 


Gil comemorando
a liderança nacional nos AF
A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.

Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:

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PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)

  • The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
  • Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
  • David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale*  **: 5 álbuns cada
  • The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
  • Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
  • Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns

*contando com o álbum  Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"

**contando com o álbum Lou Reed e John Cale,  "Songs for Drella"

*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.



PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)

  • Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
  • Chico Buarque ++ #:  7 álbuns
  • Jorge Ben ** João Gilberto*  **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
  • Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
  • Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º  e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
  • João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns 


*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil

**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"

*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"

**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"

***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"

+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"

++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"

# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo" 

º contando com o álbum Milton Nascimento e  Criolo "Existe Amor"

>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter


PLACAR POR DÉCADA

  • anos 20: 2
  • anos 30: 3
  • anos 40: 1
  • anos 50: 121
  • anos 60: 103
  • anos 70: 171
  • anos 80: 146
  • anos 90: 111
  • anos 2000: 22
  • anos 2010: 19
  • anos 2020: 3


*séc. XIX: 2
*séc. XVIII: 1


PLACAR POR ANO

  • 1986: 24 álbuns
  • 1977: 22 álbuns
  • 1972: 21 álbuns
  • 1969 e 1985: 20 álbuns
  • 1976: 19 álbuns
  • 1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
  • 1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
  • 1967 e 1980: 16 álbuns cada
  • 1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
  • 1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
  • 1987: 13 álbuns



PLACAR POR NACIONALIDADE*

  • Estados Unidos: 224 obras de artistas*
  • Brasil: 174 obras
  • Inglaterra: 131 obras
  • Alemanha: 12 obras
  • Irlanda: 8 obras
  • Canadá: 5 obras
  • Escócia: 4 obras
  • Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
  • Austrália, França e Japão: 2 cada
  • Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada

*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento - "Native Dancer" (1975)

 

“Wayne Shorter foi – e sempre será – mais do que um parceiro musical. Desde que nos conhecemos, nunca nos separamos. Em 1975, ele me convidou para gravar o ‘Native Dancer’, e mudou a minha vida e carreira pra sempre”.
Milton Nascimento

“Graças a um gênio chamado Wayne Shorter, eu conheci o grande Milton Nascimento em 1975, pelo álbum 'Native Dancer'. Não sabíamos tanto sobre Milton como, talvez, devêssemos saber, mas amávamos Shorter, então, o que ele fizesse, nós escutaríamos." 
Steve Jordan

Humildade é uma qualidade dos grandes músicos. Mesmo sabendo de seus próprios tamanhos e importância, artistas da música dotados dessa integridade entendem que nunca é tarde para aprender e celebrar seus pares. Por exemplo, o Earth, Wind & Fire já era um grupo de sucesso em meados dos anos 70 e que vendia, há pelo menos três álbuns, mais de 1 milhão de cópias. Nem por isso Maurice White, principal líder da banda, deixou de manifestar sua admiração pelo brasileiro Milton Nascimento quando o encontrou por acaso num hotel em Los Angeles. Além da reverência, White admitia que a EW&F, já conhecida por seus arranjos vocais sofisticados, havia aprendido, por causa de um disco lançado por Milton em 1975, a usar os falsetes tal como o mestre de Três Pontas, o que deixou ele – que também admirava os colegas norte-americanos – bastante envaidecido e feliz.

O trabalho responsável por essa ponte de inspiração e gratidão, que completa 50 anos de lançamento, é fruto, aliás, do mesmo sentimento de admiração recíproca. A amizade de Milton com o saxofonista e compositor norte-americano Wayne Shorter, um dos deuses do jazz, já vinha de alguns anos, quando este, em passagem pelo Brasil com sua banda Weather Report, assistiu a um show do disco “Clube da Esquina”, de Milton e Lô Borges, no Rio de Janeiro. Shorter ficou fascinado por Milton e quis conhecê-lo. Dali, surgiu mais do que um encontro de almas e, sim, um convite: o de gravarem um disco juntos. Nascia o influente álbum “Native Dancer”.

Com a participação de músicos brasileiros, como os percussionistas Airto Moreira e Robertinho Silva e o pianista e maestro Wagner Tiso, e de norte-americanos, como o icônico pianista Herbie Hancock e os guitarristas Dave Amaro e Jay Graydon, “Native...” é um disco memorável em vários sentidos. Primeiro, por inserir de vez a latinidade no jazz fusion que Shorter já vinha desempenhando em carreira solo e com a Weather Report. Segundo, por abrir as portas daquilo que, tempo depois, passaria a se chamar de world music, quebrando as barreiras (e os preconceitos) de gêneros musicais. “O Wayne acertou na mosca”, disse Milton em entrevista ao Jornal do Brasil em 2008. “Naquela época, o pessoal de rock não gostava do pessoal de pop que não gostava de jazz, não gostava disso, não gostava daquilo... Ele acabou com isso”, salienta. Por fim, "Native..." é um marco pelo feito de reunir duas forças da natureza: Shorter e Milton, por si só um momento grandioso.

Equilibrado, “Native...”, mesmo sendo um disco de Shorter com Milton como convidado, intercala os protagonismos entre os dois, numa clara reverência do primeiro para com o amigo. Das nove faixas, mais da metade são de Bituca. O começo, inclusive, é dado a ele – que arrasa. “Ponta de Areia”, até então gravada apenas por Elis Regina e Marlene, ganha pela primeira vez a interpretação pela voz penetrante e divinal do seu autor. Milton viria a regravar a canção outras duas vezes ainda naquele ano: uma em duo com Nana Caymmi (num arranjo de ninguém menos que Tom Jobim) e outra no seu disco “Minas”. Nada, no entanto, se compara a essa versão: o impressionante falsete de Milton, que canta num tom acima da sua própria gravação, e o sax soprano de Shorter se entrelaçam e se congraçam. Pode-se dizer, tranquilamente, que essa música é o momento mais intenso da obra de Shorter em toda a década de 70. Algo divino.

A ritmada instrumental “Beauty and the Beast”, de Shorter, na sequência, mostra o quanto ele estava empenhado em saudar a música brasileira. Já a tristonha “Tarde”, depois, traz Milton de volta, agora com o elegante piano acústico de Hancock em pleno casamento com o piano elétrico de Tiso. Não fosse o solo de sax de Shorter, na segunda parte, poderia se dizer tranquilamente que a música foi gravada pela turma do Clube da Esquina em terras tupiniquins, tamanha o respeito que o norte-americano teve em manter à sonoridade dos mineiros.

É Milton quem dá as cartas novamente, agora para uma espetacular “Miracle of the Fishes”, cujo título em inglês não desbanca a letra em português original, a qual dá título ao célebre disco dele de 1973, “Milagre dos Peixes”. Que show de vocais, da bateria de Robertinho, do piano elétrico de Tiso, do violão indígena e ibérico de Bituca! Mas o mais espetacular mesmo é o duo voz/sax que os cabeças entregam da segunda metade em diante. Milton criando harmonias vocais impensáveis, improvisando vocalises, cantando versos; Shorter, com a sensibilidade de tocar no mesmo registro da voz e solando com a habilidade de um verdadeiro Jazz Massanger ou de um integrante do Second Great Quintet de Miles Davis. Uma sintonia excelsa entre os dois.

Os amigos Shorter e Milton, nos anos 2000, relembrando
os tempos de "Native Dancer"

Em “Diana” é a vez de aparecer a sintonia com Hancock, amigo comum de ambos. Hancock havia tocado com Milton em seu “Courage”, de 1968, na primeira incursão internacional do músico brasileiro, e seguiria colaborando com ele em muitos outros trabalhos a partir de então. Com Shorter, entretanto, a troca vinha de ainda antes, fosse nos revolucionários discos da Blue Note do início dos anos 60, fosse na formação da famosa banda de Miles. Toda essa intimidade lhe dá condições de criar a atmosfera perfeita para o sax tenor desfilar nesta balada jazz, especialidade de Shorter e dele. 

Não menos incrível é “From the Lonely Afternoons”, cujos vocalises de Milton iriam influenciar, assim como Maurice White, outro grande jazzista como Shorter e Hancock: Pat Metheny. Basta ver temas como “Estupenda Graça” (de “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, 1981) ou “(It's Just) Talk” (“Still Life (Talking)”, 1987). Samba-jazz instrumental - assim como “Me Deixa em Paz” e “Cais”, do repertório de “Clube da Esquina”, de 1972, que tanto impressionou Shorter - é “Ana Maria”, dedicada à então esposa de Shorter, a portuguesa Ana Maria Patrício. O sax desenha a melodia em tom alto, de difícil registro. Detalhe importante: a autoria desta bossa-nova, que bem podia ser de Milton ou de algum compositor da MPB, é do próprio Shorter.

Continuando a sessão de dedicatórias iniciada na faixa anterior, é a vez de Milton reverenciar a mãe “Lilia” noutro instrumental cheio de musicalidade e sofisticação. Originalmente gravada no famigerado álbum “Clube da Esquina”, agora a música recebe uma nova carga expressiva adicionada pelo sex soprano de Shorter, que extravasa e eleva a música ao ápice emocional do disco. Milton, obviamente, não fica para trás, usando seu canto carregado de beleza e mistério a serviço desta emotividade.

Outro número dedicado é “Joanna's Theme”, que encerra “Native...”. Autoria de Hancock, foi composta um ano antes para a trilha sonora do filme “Desejo de Matar” como tema de uma das personagens. A percussão atmosférica de Airto ajuda a dar clima para esse jazz sombrio em que, novamente, a parceria Hancock/Shorter funciona, literalmente, como música.

Como o próprio Milton evidencia, “Native...” foi um divisor-de-águas na sua carreira, tornando-o um artista global a partir de então. O posterior contato com os mais diversos músicos do planeta como Paul Simon, James Taylor, Quincy Jones, Sarah Vaughan, Jon Anderson e Annie Lennox só se deu em razão deste encontro de almas com Shorter. Os dois, aliás, se encontrariam diversas outras vezes ao longo das carreiras, como em “Milton/Raça”, de 1977, “A Barca dos Amantes”, de 1986, “Yauaretê”, de 1987, e “Angelus”, de 1993, todos discos de Milton. Shorter, por sua vez, nunca deixou de reverenciar o amigo, tocando com ele em apresentações, incluindo músicas suas no repertório próprio ou, simplesmente, apontando-o como um dos maiores gênios da música mundial. Para ele, assim como só existe um Miles Davis, também só existe um Milton.

Maurice White estava certo: deve-se eternamente agradecer e reverenciar Milton Nascimento. Metheny, Criolo, Esperanza Spalding, Steve Jordan, Peter Gabriel e Björk, outros renomados influenciados por Bituca, engrossam esse coro. Ainda mais Wayne Shorter, que, com a generosidade e a humildade dos grandes, abriu espaço para que Milton pudesse levar ao mundo sua musicalidade única em perfeita harmonia com a sua musicalidade. Simbiose que vai além de uma simples compreensão, pois resultante de uma conexão que se dá noutro plano, no astral. A “voz de Deus” e o “sopro divino”, juntos, só podia dar nessa comunhão, que dialoga através de música. Milton diz que ele e Shorter sempre se entendiam sem precisar dizer nada um para o outro, pois, segundo ele, já estava tudo "lá em cima”, onde somente os Deuses acessam.

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FAIXAS:
1. “Ponta De Areia” (Milton Nascimento/Fernando Brant) - 5:17
2. “Beauty And The Beast” (Wayne Shorter) - 5:07
3. “Tarde” (Nascimento) - 5:51
4. “Miracle of the Fishes” (Nascimento/ Brant) - 4:46
5. “Diana” (Shorter) - 2:59
6. “From The Lonely Afternoons” (Nascimento/ Brant) - 3:13
7. “Ana Maria” (Shorter) - 5:10
8. “Lilia” (Nascimento) - 7:01
9. “Joanna's Theme” (Herbie Hancock) - 4:19


OUÇA:

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Daniel Rodrigues

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Música da Cabeça - Programa #434

 

Deixemos um pouco de lado os homens sórdidos e os ratos mortos na praça. Nesta semana em que a nuvem cigana levou Lô Borges, o MDC celebra ele e também dá lugar a Miles Davis, Ivan Lins, Camisa de Vênus, Body Count, Radiohead e muito mais. No Cabeça dos Outros, o Sol também bate, pois lembramos novamente . Da janela lateral dará para ouvir o programa de hoje às 21h no trem azul da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e sonhos que não envelhecem: Daniel Rodrigues.


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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Hermeto hermenêutico

"O músico mais importante do planeta." 
Miles Davis, sobre Hermeto Pascoal

Hermeto se foi. Mas fica. Eternamente. Presentemente. Magicamente, como que entranhado nos entremeios da vida. Acreditem: no dia em que ele partiu, dia 13, eu, pela manhã, na feira, vi dois violinistas tocarem uma série de músicas brasileiras, até que uma me chamou atenção: "Bebê", clássica composição de Hermeto gravada por ele diversas vezes e por inúmeros outros músicos outras diversas. Mas por músicos MÚSICOS! Aqueles que admiram o som brasileiro em tom maior.

Mas a simbiose com Hermeto continuou. À noite, assistindo pela quarta vez o balé "Parabelo", do Grupo Corpo, evoquei Hermeto novamente ao ouvir num dos números o toque áspero e gutural da flauta nordestina, flauta de quem tem fome. Fome de arte. Tal qual mestre Hermeto tantas vezes tocou. E quem há de discordar dessa onipresença? Elis? Miles? Airto? Corea? Flora? Tom? Hancock? Edu? Vandré? Sivuca? Eu, não.

Hermeto estava ali, sim, presente. Dia e noite. Como sempre está. Física e espiritualmente. Simbólica e materialmente. Conceitual e praticamente.

Imagina eu querer desconfiar de um mago, desses que nos ajudam, hermeneuticamente, a interpretar o sagrado. Anos atrás, num dia que seria só um dia qualquer do ano de 2010, dei-me com Hermeto em plena área de embarque do Aeroporto de Porto Alegre. Pedi-lhe, como poucas vezes faço, um autógrafo. Saquei o primeiro papel que vi na frente: meu livro “Kind of Blue: A História da Obra-prima de Miles Davis”, que há época eu lia. Ele prontamente atendeu. Sabendo do que se tratava a obra, Hermeto, então, com toda a simplicidade (e autoridade) que tinha, falou que não só conhecera Miles como que havia tocado com ele num disco "que não lembrava o nome".

O disco era "Live Evil", de 1970. Ganhei o autógrafo - com direito a desenho de Hermeto - e a certeza de que ele estava, sim, em todos os lugares e em todos os tempos. 

Nada estranho pra quem legou ao mundo da música a ideia de que ela, a música, estava em todo lugar. Nada estranho pra alguém que se vestiu de música, se fez música, existiu-se música. Que compreendeu que música está nos átomos, na atmosfera, nos corpos. Se música é Hermeto, há de se entender porque Hermeto está em todos os lugares. Seja na praça, seja no happening, seja na zona de embarque. De dia e de noite.

Hermeto se foi ficando. Eterno, enorme, universal, intergaláctico, quântico, hermenêutico. Explicação da vida.

Morre vivendo. Nasce morrendo. Nada estranho para um Bruxo.


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HERMETO PASCOAL
(1936-2025)




Daniel Rodrigues

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Capas de K7 VI - "Tutu"

 






RODRIGUES, Daniel
"Tutu"
Arte para fita cassete doméstica sobre o disco de Miles Davis, de 1986, pela gravadora Warner Music
Recorte, impressão e colagem sobre papel sulfite
9,5 x 10,3 cm
s/d

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Música da Cabeça - Programa #422

Hoje o Plantão é pra dizer que o MDC tá se divertindo com essa prisão a conta-gotas. E já que agora a ordem é ficar em casa, que tal, então, curtir A EDIÇÃO desta quarta sentado no sofá da sala? Pros que estão em domiciliar ou não, o programa de hoje vai te prender (no bom sentido) com a música de Marisa Monte, Bauhaus, Paulo Sérgio Valle, Miles Davis, Captain Beefheart e mais. Também, rola solto um Cabeça dos Outros bem latino. Sem medidas cautelares, às 21h estaremos livres em sua casa através da preventiva Rádio Elétrica. Produção e apresentação sem medo de retaliação: Daniel Rodrigues - e agora só falta a Papuda.


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