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quinta-feira, 19 de março de 2026

Living Colour - Best of 40 Years Tour - Bar Opinião - Porto Alegre/RS (26/02/2026)


Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.

Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.

A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.

Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou

"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.

A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist

Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazz spiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.

Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!

Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC

O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.

Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar. 

Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.

Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Quarteto norte-americano no palco do Opinião


Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo 


A clássica "Pride" pra exaltar a galera


O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head", 
que pôs o Opinião para suingar


Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica


Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter
(to a Landlord)". Louvação e protesto


Quase terminando o show, "Cult of Personality", 
um dos maiores riffs já escritos


Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima


Cover de The Clash para encerrar 
o show com punk rock



🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸
texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Leocádia Costa e Daniel Rodrigues


domingo, 13 de julho de 2025

COTIDIANAS nº 869 ESPECIAL DIA DO ROCK - Trilhas de Fita: Minha jornada até Ozzy e o Black Sabbath


por Tiago Ritter

Era início dos anos 90. Tinha o hábito de visitar meu amigo de infância, Sandro, aos finais de semana. Certa feita, ele passou a me mostrar alguns vídeos de bandas, colocava diferentes CDs para tocar. Era um som mais pesado para quem estava entrando na adolescência e não tinha nenhuma referência do universo rock. Lembro de escutar pela primeira vez Offspring, Soundgarden, Pearl Jam, L7, Nirvana, Rush, Metallica, Ramones... Uma miscelânia!

Atento ao meu interesse com o passar do tempo, Sandro passou a me presentear com coletâneas gravadas em fitas cassete. Um gesto especial que marcou minha vida, pois abria-se ali um mundo cultural a este que nem imaginava ser jornalista no futuro. E aquele mundo começava a tocar ao play do toca-fitas Toshiba lá de casa. Escutava, escutava, escutava... até que uma faixa passou a me chamar atenção. Encontrei entre as legendas da fita escritas à mão pelo meu amigo: "Perry Mason", de Ozzy Osbourne.

“Sandro, gostei mais do som deste cara. Quem é ele?”, perguntava no auge da minha curiosidade. Dias depois, eu ganharia uma nova fita para “estudar”. Além de músicas da carreira solo do tal roqueiro, havia faixas com uma plástica mais antiga, como gravadas de um disco vinil. A voz era praticamente a mesma, mas os riffs de guitarra surgiam num tom de afinação pesado e sombrio, assim como aquele baixo denso e a batera super precisa. No conjunto da obra, um baita som que arrepiava de dar medo, impossível parar de escutar diante tamanho entusiasmo. Em especial, se anunciava com toques de sinos e barulho de chuva uma faixa homônima à banda e ao álbum. Sim, era Black Sabbath

Virei fã da banda quase que de imediato, assim como do próprio Ozzy. A vida passava a ganhar trilha sonora a partir de agora. O berro do “Madman” chamando a todos para embarcar num "Crazy Train" respondia a efervescência daquele guri que iniciara o 2° grau na Escola São João Batista, em Montenegro. Encontrava nos colegas a fonte para trocar informações e mais fitas gravadas. A grana era curta e os CDs não eram baratos. E no primeiro que compro, faço uma burrada: peguei o "Cross Purposes", com o Tony Martin no vocal do BS!!! Que ódio!!! Enfim... não escutei o suficiente as dicas dos amigos...

Mais amadurecido como jovem fã e controlando a empolgação, veio a coletânea "The Ozzman Cometh", um mix de músicas solo do Ozzy e do quarteto inglês de Birmingham. Tempinho depois, veio o "Never Say Die!", este comprado no dia em que eu completava meus 16 anos. Lembro de alguns amigos criticarem pra caramba, mas acho esse álbum “ducarai” com sua mistura de hard rock, blues e jazz, principalmente a última faixa cantada pelo baterista Bill Ward, "Swinging The Chain" - só ouçam, por favor! O disco ajuda muito a sair dos clichês e entender a capacidade criativa do Black Sabbath. 

Com o passar do tempo, vieram "Technical Ecstasy", "Sabotage", "Sabbath Bloody Sabbath", "Volume 4", "Master of Realty", "Paranoid" e o álbum de estreia Black Sabbath. Sim, montei de trás para frente a coleção das oito capas que compõem a primeira fase de Ozzy na banda, lançadas entre 1970 e 1978. A cronologia pouco importa, uma vez que nessa cruzada chegaram álbuns da fase solo, além de outros artistas que me ajudaram a ampliar o conhecimento musical. Ao longo destes últimos 20 anos, outra miscelânea se formou, com coisas ainda muito mais distintas do que apenas rock, grunge e punk. Do samba de raiz à moda de viola caipira, tem espaço para tudo, graças à minha passagem pelo rádio como profissional da comunicação.

Em 2013, tive a sorte de ver aqui em Porto Alegre o show do Black Sabbath quase que na formação original, faltando apenas o Bill. Foi incrível ouvir de perto aqueles caras – quase faltou voz para acompanhar, ainda mais que na minha companhia estava o mesmo amigo que me presenteou com as tais fitas cassete. Fiz questão de conseguir um ingresso para ele em retribuição ao que fizera por mim. Parecia o jogo da vida a chegar na última casa!

Não sou daqueles fãs que sabem e colecionam tudo dos artistas. Não vi o Ozzy em 2011 no Gigantinho, nem o outro show do Black Sabbath, de 2016, em POA. Mas eu sei o tamanho da admiração que tenho por estes caras. No último dia 5 de julho, a banda realizou a sua última apresentação com toda pompa merecida num megafestival em sua terra de origem – "Back to the Beginning"! Assisti online Bill Ward, Tony Iommi, Geezer Butler e Ozzy dando adeus aos palcos, na altura dos quase 80 anos, arrebentando dentro do que podiam fazer no palco. Queria tanto abraçar cada um deles em agradecimento, não só pelo que fizeram ao cenário musical, mas pelo tanto de grandes histórias e boas amizades que me renderam ao longo da vida. Eles foram demais!

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸 



Tiago Ritter é jornalista, bacharel em comunicação social e pós-graduado em planejamento em comunicação e gestão de crise de imagem. Foi repórter de jornal impresso e passou por diversas funções em emissoras de rádio no interior do RS, desde produção, reportagem e apresentação até coordenação de jornalismo. Tem na música sua grande parceira de vida. Bebe das mais diversas fontes, mas é nas inúmeras vertentes do rock onde mata sua sede para tocar sua atual rotina de trabalho na comunicação corporativa.



quarta-feira, 25 de maio de 2022

Música da Cabeça - Programa #268

 

Caiu mais um presidente da Petrobrás? Aqui no MDC tá tudo no mesmo lugar. Em alto e bom som, teremos hoje muitas e variadas coisas, de Stevie Wonder a De Falla, de Paul McCartney a The Fall, de Black Sabbath a Legião Urbana. Tem os quadros móveis e Cabeça dos Outros muito rock'n'roll. Sem mudanças, o programa vai ao ar às 21h, na estável Rádio Elétrica. Produção e apresentação, o Daniel Rodrigues  de sempre.

Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Living Colour - "Vivid" (1988)

 

"'Dougie, eu gostei dessa banda. O que você acha que devo fazer?' Eu disse a ele: 'Você é Mick Jagger, cara! Leve-os ao estúdio e faça algo com eles.'"
Doug Wimbish, atual baixista da Living Colour

Chuck Berry e Little Richards nunca esconderam a frustração de, mesmo sendo músicos negros como eles os inventores do rock ‘n’ roll, os louros tenham ido para artistas brancos. Não que Elvis Presley, Jerry Lee Lewis ou Bill Halley não tenham grande valor, mas é fato que a indústria fez abafar por uma imposição mercadológica racista a importância de autores negros como eles ou os irmãos Fats Domino, Bo Diddley e Sister Rosetta Tharpe. Com o passar dos anos, o estilo se desenvolveu e vieram os Beatles, os Rolling Stones, a Pink Floyd, a Led Zeppelin, a Black Sabbath... todos majoritariamente brancos. A Love, rara banda de rock composta somente por membros negros, era uma exceção onde deveria ser regra. Jimi Hendrix, como Pelé, virou um mito sem cor. Os punks Bad Brains e Death nunca tiveram a mesma vitrine que Ramones ou Sex Pistols. A "solução" da indústria? O mesmo mercado que desapropriou a criação do rock dos negros lhes deu o “direito” de serem pais de ritmos inquestionavelmente pretos, como a soul music e o jazz. Ou seja: sistematizou o apartheid musical. 

Claro que Berry e Richards garantiram, por aclamação, seu lugar no panteão da música universal. Porém, por muito tempo pairou aquela sensação de que os negros, os verdadeiros inventores do gênero mais popular do século XX, tinham uma dívida a cobrar. As décadas se passaram desde que o rock veio ao mundo cultural, e a indignação só fazia aumentar. Foi quando uma turma resolveu cobrar com juros e correção monetária esse débito e reclamar para si a verdadeira gênese do rock ‘n’ roll. “É pra gente mostrar que negro faz rock melhor que qualquer um? Então, aqui está!” Com esta vividez corajosa e empoderada surgiu a Living Colour, formada somente por músicos de fina estampa: o vocalista Corey Glover, o baixista Muzz Skillings, o baterista William Calhoun e o guitar hero Vernon Reid, principal compositor do grupo. Negros.

Produzidos pelo tarimbado Ed Stasium e por ninguém menos que Mick Jagger, que apadrinhou a banda após descobri-los tocando no underground de Nova York, “Vivid” é a extensão da própria ideia de uma banda cujo nome ressalta a vivacidade da cor da pele preta. Afinal, como disse o poeta: "Negro é a soma de todas as cores." Nas suas linhas melódicas, na sua potência, na sua sonoridade, nas letras de crítica social, no seu visual, o primeiro disco da banda resgata todos os tons da tradição do rock em um dos mais bem elaborados sons produzidos na música pop em todas as épocas. O rock pesado da Living Colour soa como se fosse inevitável valer-se dos altos decibéis para manifestar com autenticidade tudo aquilo que esteve guardado anos e anos. Tem hard rock, heavy metal e punk pincelados de funk, blues e jazz, aquilo que os negros fazem como ninguém. Ou seja: a Living Colour, com o perdão da redundância, dá cores muito próprias à sua música. O hit "Cult of Personality", faixa de abertura, é como um traço original num quadro que condensa todas essas tintas. Riff arrebatador, daqueles de dar inveja a Metallica e Anthrax. E a letra, na voz potente e afinadíssima de Glover, referencia Malcom X e critica a superficialidade da sociedade: “Olhe nos meus olhos/ O que você vê/ O culto da personalidade/ Eu conheço sua raiva, conheço seus sonhos/ Eu tenho sido tudo o que você quer ser”.

Hard rock de primeira, "I Want to Know" antecipa "Middle Man", outra de sucesso do álbum que também ganhou videoclipe na época de ouro da MTV. Reid, excepcional tanto na criação do riff quanto na condução da melodia e no solo, mostra porque é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, capaz de variar de um suingue a la Jimmy Nolen ou fazer a guitarra urrar como uma das big four do trash metal. Já a pesada "Desperate People" destaca o talento de Calhoun nas baquetas, seja no ritmo, que vai do funk ao hardcore, quanto na habilidade e potência, ainda mais quando martela os dois bumbos. Mais um sucesso, e das melhores do repertório da banda, visto que uma tradução do seu estilo: "Open Letter (To a Landlord)". A letra fala da realidade da periferia (“Essa é minha vizinhança/ Aqui é de onde vim/ Eu chamo este lugar de meu lar/ Você chama este lugar de favela/ Você quer expulsar todas essas pessoas/ É assim que você é/ Trata pessoas pobres como lixo/ Vira as costas e ganha dinheiro sujo”) e traz um dos refrãos mais emblemáticos e tristes daquele final de anos 80, o qual, inteligentemente, repete os primeiros versos da letra, só que cantados agora numa melodia vocal especial: “Now you can tear a building down/ But you can't erase a memory/ These houses may look all run down/ But they have a value you can't see” (“Agora você pode derrubar um prédio/ Mas você não pode apagar uma lembrança/ Essas casas podem parecer estar em mau estado/ Mas elas tem um valor que você não pode ver.”).

O punk rock vem com a alta habilidade de músicos de ouvidos acostumados com o jazz fusion em “Funny Vibe”. Isso, no começo, porque depois a música vira um funk ao estilo James Brown com pegadas de rap, principalmente no jeito de cantar em coro – lembrando o hip-hop raiz de Run DMC e Afrika Bambaata – e na participação de Chuck D e Flavor Flav, MC’s da Public Enemy, a banda de rap mais politizada de todos os tempos. Aí, vem outra das grandes da banda: sua versão para a escondida proto-metal “Memories Can’t Wait”, da Talking Heads. Pode ser que, para uma banda estreante como a Living Colour, tenha pesado a indicação de Stasium, que havia trabalhado com o grupo de David Byrne nos anos 70. Porém, a influência do produtor vai até este ponto, visto que a leitura da música é totalmente mérito de Reid e de seus companheiros. O arranjo é perfeito: intensifica os aspectos certos da harmonia, faz emergir o peso subentendido da original e aplica-lhe pequenas diferenças, como leves mudanças na melodia de voz, que personalizam esta que é, certamente, uma das melhores versões feitas no rock dos anos 80.

Já na melodiosa "Broken Hearts", Reid exercita sua técnica deixando de lado o pedal de distorção para usar um efeito slide bastante elegante, assim como o vozeirão aveludado de Glover. Nesta, Jagger solta sua gaita de boca abrilhantando a faixa. Numa linha também menos hard e ainda mais suingada, “Glamour Boys”, que também tocou bastante à época e que tem participação de Jagger aos vocais, precede outra de vital importância para o discurso de reivindicação levantado pela banda: “What's Your Favorite Color?”. Seus versos dizem: "Qual é a sua cor favorita, baby?/ É branco?/ Fora de moda". 

E quando se pensa que se ouvirá mais um heavy metal furioso, com a mesma naturalidade eles enveredam para um funk psicodélico de fazer orgulhar-se dr. P-Funk George Clinton pelos filhos musicais que criou. Noutro hard rock pintado de groove, "Which Way to America?", com destaque para o baixo em slap de Skillings, solta o verbo contra a sociedade de consumo e a ideologia racista da televisão, veículo concentrador das amálgamas no mundo pré-internet, alinhando-se novamente ao discurso dos parceiros Public Enemy, ferozes denunciadores do branconcentrismo da mídia norte-americana.

Com outros bons discos posteriores, como “Times Up”, de 1990, o qual traz o maior hit da banda, “Love Rears It's Ugly Head”, a Living Colour abriu em turnê para os Rolling Stones e foi atração de festivais como Hollywood Rock de 1992, tornando-se, por incrível que pareça, o primeiro grande grupo do rock integralmente formado por negros, mais de 40 anos depois dos precursores mostrarem o caminho para as pedras rolarem. Além disso, mais do que seus contemporâneos Faith no More, eles expandiram as falsas fronteiras do rock pesado, injetando-lhe uma propriedade que somente os “de cor” poderiam realizar. Depois deles vieram a Infectious Grooves, a Body Count, a Fishbone, todos com bastante influência daquilo que ouviram em “Vivid”. Todos que não deixaram esquecer jamais que o rock é, sim, essencialmente preto. E vamos parar com essa palhaçada! As memórias de Berry e Richards agradecem.

**********
FAIXAS:
1. "Cult of Personality" - 4:54 (Glover/ Skillings/ Reid/ Calhoun)
2. "I Want to Know" - 4:24
3. "Middle Man" - 3:47 (Reid/ Glover)
4. "Desperate People" - 5:36 (Glover/ Skilling/ Reid/ Calhoun)
5. "Open Letter (To a Landlord)" - 5:32 (Tracie Morris/ Reid)
6. "Funny Vibe" - 4:20
7. "Memories Can't Wait" - 4:30 (David Byrne/ Jerry Harrison)
8. "Broken Hearts" - 4:50 
9. "Glamour Boys" - 3:39
10. "What's Your Favorite Color? (Theme Song)" - 3:56 (Reid/ Glover)
11. "Which Way to America?" - 3:41
Todas as composições de autoria de Vernon Reid, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

domingo, 6 de março de 2022

Deep Purple - Riocentro - Rio de Janeiro / RJ (01/12/2006)




O Deep Purple, na turnê brasileira de 2006
Certa vez, conversando com uma ex-colega de trabalho sobre música,  sobre rock, ela me contava que o filho, uma grata raridade entre o bando de desculturalizados musicais de sua geração, dentro do possível, não perdia a oportunidade de ver ao vivo grandes nomes do rock, quando estes vinham ao Brasil, pois, já tendo essa galera das antigas uma idade avançada, somada a todos os excessos que cometeram em seus tempos áureos, possivelmente seria a última oportunidade de ver aquela determinada lenda, ali, na sua frente.

Embora não tenha colocado como meta pessoal, pelo fato desses nomes terem contribuído substancialmente para minha formação musical, dos tantos shows que fui, acabei já tendo presenciado a apresentações de alguns desses artistas fundamentais para a história do rock. Já vi ao vivo Rolling Stones, Black Sabbath, vi Pink Floyd, ou pelo menos parte dele, no show de Roger Waters, e, num negocinho de ocasião, vi o Deep Purple. Quando foi anunciado, no finalzinho de 2006, meu primeiro ano morando no Rio de Janeiro, que eles viriam e tocariam na cidade, inicialmente, os ingressos foram informados em valores um tanto salgados. No entanto, logo em seguida, talvez percebendo a baixa procura, numa promoção do extinto Jornal do Brasil, com um cupom e, se não me engano, um alimento não perecível, o preço ficava extremamente em conta.
Aí não teve dúvidas: pronunciei a minha entrada e me garanti pro show de uma das maiores lendas do rock de todos os tempos. O problema é que a parada ia rolar lá no Riocentro e, pra quem não é  do Rio e não tem muita noção, o tal do lugar é longe pra caramba. Pra piorar, o Riocentro é um conjunto de pavilhões para eventos em geral, feiras, simpósios, etc., e a estrutura física dos prédios não é nada adequada para shows de rock. Muito concreto, vigas metálicas, telhas de zinco, pilares distribuídos ao longo do espaço... Resultado: acústica  ruim, reverberação, pontos cegos, visibilidade prejudicada pelos pilares... enfim: uma bela bosta!
Mas não tem sabotagem infra-estrutural que derrube um show do Deep Purple. Boa parte da banda original no palco, incluído o frontman Ian Gillan, um repertório clássico w de respeito, energia total e uma galera de fãs empolgada por estar vendo à sua frente aqueles monstros do rock.
Sinceramente não lembro com detalhes do show em si, de cada momento, do set-list e tal. Minha recordação é  mais como um todo e essa memória é feliz e muito positiva. É claro que teve, "Black Night", "Space Truckin'", "Highway Star", e "Smoke on the Water" que, essa sim lembro, foi uníssonamente acompanhada em coro pela galera.
Já vi Black Sabbath, já vi Deep Purple...  faltou o Led Zeppelin pra completar a tríade dos criadores do metal. Mas vai que Plant, Page e Jones resolvam se juntar pra uma última turnê... Essa seria uma daquelas pra não perder de jeito nenhum. Daquelas oportunidades únicas. A do Deep Purple foi uma dessas. Ainda bem que não  perdi.

Confira abaixo alguns momentos do show do Rio, em 2006, obtidos no canal do fã
Leandro Macedo, no Youtube:

Solo de Steve Morse


"Black Night"


"Perfect Strangers"




Cly Reis 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Faith No More - Live at Brixton Academy (1990)

 



"What is it? 
What is it? 
WHAT THE FUCK IS IT???"
introdução, no show, 
 ao refrão de "Epic"




Tem gente que prefere discos ao vivo aos originais de estúdio, por conta da energia, da naturalidade, da espontaneidade ou da execução . Particularmente, prefiro as gravações de estúdio nas quais um álbum é pensado e elaborado como uma obra de arte, do início ao fim. Mas há exceções e, em alguns casos, o registro ao vivo acaba agregando elementos tão significativos ao que foi inicialmente proposto em estúdio, que se impõe, de modo a ser até mais marcante que a gravação que deu origem ao repertório executado no show. É o caso, para mim, do álbum "Live at Brixton Academy", do Faith No More, de 1990. Reproduzindo grande parte do conteúdo do disco "The Real Thing", trabalho responsável pelo estouro de popularidade e vendas da banda, a performance gravada ao vivo em Londres, originalmente para vídeo, potencializa ainda mais as virtudes já apresentadas no ótimo disco de estúdio. O ambiente do palco, a acústica de um espaço amplo com público, a espontaneidade da banda os favoreceram em tudo e seu som e "Live at Braxton Academy" acaba entregando mais do que já se tinha recebido em "The Real Thing". As virtudes dos instrumentistas e a qualidade compositiva acabam ficando mais evidenciadas sem a mixagem excessivamente limpa e cuidadosa de estúdio que, naquele momento visava atingir e conquistar um público que começava a se interessar pela mistura de peso com embalo que o Faith No More e algumas outras bandas começavam a explorar. Ali, mais cru, mais raiz, a percepção da fundição não somente do metal com o funk, mas das linhas de metal melódico, das influências de música clássica, do pop oitentista, ganhava em leitura mais clara, além, é claro, da qualidade e versatilidade vocal de Mike Patton, que, totalmente à vontade no palco, dominando o território e com um musicalidade absurda, proporcionava inúmeras possibilidades e variantes ao show. A pouco conhecida "Zombie Eaters", uma pequena sinfonia metal com ricas variações rítmicas e de intensidade, talvez seja o melhor exemplo desse ganho ao vivo. Sua composição primorosa, que consegue ir de uma linha melódica quase bachiana, às caracteristicas guitarras galopantes do metal, fica ainda mais poderosa e impressionante nessa situação. E Patton, afinadíssimo, vai do requinte à fúria, com incrível naturalidade. Aliás, o vocalista é um show à parte. Em "Edge of The world", por exemplo, ele comanda a balada, uma espécie de jazz de cabaré, com uma condução leve e descontraída que confere todo um ar bem-humorado ao número; e na badalada "Epic", Patton, depois de praticamente recriar partes do vocal da música, fazer sustenidos, baixos e chegar quase a um soprano, de quebra, no final, ainda emenda com uma improvável inserção do hit dance "Pump up the jam", do Technotronic, dando a ela toda uma leitura melancólica, no epílogo de piano.
Patton, ainda, toma conta de "We Care a Lot", faixa superdiversificada, com baixo funkeado, levada rap, transição metal e refrão pop, que já era do repertório da banda antes de seu ingresso; e, com uma performance enlouquecida, só joga mais gasolina em cima da já incendiária "From Out of Nowhere", uma espécie de synth-punk alucinante, que dá vontade de sair pulando cada vez que eu ouço.
"Falling to Pieces" é intensa e contagiante, "The Real Thing" lembra muito Black Sabbath e, propósito, a cover de "War Pigs", muito competente (mas talvez um pouco descontraída demais) confirma inspirações e referências. As duas faixas "extra" por assim dizer, uma vez que não apareciam no material original do vídeo, "The Grade", um country acelerado instrumental, e a nada mais que interessante "The Cowboy Song", são meio que dispensáveis, se bem que, sem elas a duração já curta do álbum ficaria ainda mais prejudicada.
De certa forma, dá pra dizer que essa questão, a da duração, seja, possivelmente, o único grande defeito do álbum, muito curto para um registro ao vivo. Mas, por outro lado, também dá pra dizer que o tempo utilizado é muito bem aproveitado e que, de minha parte, o tempo pelo qual se estende é curtido com entusiasmo do início ao fim, neste que é um dos meus discos ao vivo preferidos.
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FAIXAS:
  1. "Falling to Pieces" – 4:47
  2. "The Real Thing" – 7:53
  3. "Epic" – 4:55
  4. "War Pigs" – 6:58
  5. "From out of Nowhere" – 3:24
  6. "We Care a Lot" – 3:50
  7. "Zombie Eaters" – 6:05
  8. "Edge of the World" – 5:50
  9. "The Grade" (Instrumental) – 2:05
  10. "The Cowboy Song" – 5:12

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Ouça:
Faith No More - Live at Brixton Acdemy - Londres (1990)




Cly Reis

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Música da Cabeça - Programa #228

 

A gente não é talibã invadindo o Afeganistão, mas também promovemos nossa invasão. Mas de música boa, claro. No MDC de hoje, Black Sabbath, Ryuichi Sakamoto, João Donato, Sérgio Ricardo, Michael Jackson e outros estão nessa com a gente. Também tem nossos quadros fixos e um "Cabeça dos Outros" rolando Nei Lisboa. O programa toma conta do campinho da Rádio Elétrica às 21h com produção e apresentação (e pé na porta) de Daniel Rodrigues.

Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Banda Black Dog - Calabouço Bar - Rio de Janeiro (18/01/2019)




Já havia visto a banda Black Dog, cover do Led Zeppelin, se apresentar no antigo Rio Rock & Blues Club, hoje Rock Experience, tocando, com extrema competência o álbum conhecido como "Led Zeppelin IV" na íntegra, e, neste último sábado, quando eu e meus amigos Giuliano Comerlato e Lucio Lorandi, que depois de algumas rodadas de cerveja artesanal procurávamos exatamente por algum programa musical para fechar a noite, soubemos que eles estariam no Calabouço Bar, corremos para lá, uma vez que estávamos mesmo ali pertinho. E a Black Dog não decepcionou! Correspondendo a toda a propaganda que fiz deles a meus amigos, mandou uma pedrada atrás da outra com uma qualidade incrível. Pôs fogo em tudo com a destruidora “Communication Breakdown”; executou com brilhantismo “Baby, I'm Gonna Leave You” com todas suas variações; "Kashmir" mesmo com toda sua exigência técnica; embalou a galera com o reggae contagiante “D’yer Mak’er”; e pôs o lugar abaixo com “Black Dog”, “Rock’n Roll” e especialmente com “Immigrant Song”, mais do que nunca popularizada depois de fazer parte da trilha sonora do filme da Marvel. Depois de uma parada pra tomar um ar e uma aguinha, ainda voltaram para um bis recheado de Deep Purple e Black Sabbath que agradou igualmente ao público do Calabouço.
Grande noite com os amigos, regada a cerveja e muito rock’n roll, na qual a Black Dog teve grande contribuição no segundo tocante à segunda parte nos fazendo voltar para casa com a alma cheia.


Black Dog - trecho de "Immigrant Song"



Cly Reis

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"Escola de Rock", de Richard Linklater (2003)





"Deus do Rock,
obrigado por esta oportunidade de arrebentar.
Nós somos vossos servos humildes.
Por favor, nos dê o poder de explodir a mente das pessoas
com o nosso rock de alta tensão.
Em seu nome oramos, Amém."
Dewey Finn (Jack Black)






E pensar que eu hesitei tanto em assistir a esse filme!
Completamente desinformado e imaginando que pudesse apresentar uma visão caricatural ou excessivamente estereotipada de roqueiros, que tivesse um monte de rockzinhos juvenis irritantes e que fosse uma típica comédia teen repleta de baboseiras, namoricos e valentões de escola, além de algumas restrições que tenho ao ator Jack Black, um tanto expressivamente exagerado em muitos momentos, sempre adiei a possibilidade de sentar pra ver "Escola de Rock". Mas como minha filha de seis anos começa a se interessar por rock e, na pior das hipóteses, mesmo que o filme fosse uma completa porcaria, pelo menos teria algum estreitamento de contato com o gênero por aquela coisa toda de guitarras, palco, postura, visual e tudo mais, achei que valia a pena dar uma olhada com ela. E não é que o filme é um grande barato? É um filme de roqueiros! Um filme de paixão pelo rock. De respeito por ele e por tudo  que representa.
Jack Black que, se em outros papéis é exagerado, caricato, neste é perfeito, caindo como uma luva na pele do músico fracassado e desempregado Dewey Finn que dispensado por sua própria banda e pressionado pelo casal com quem divide o apartamento a pagar sua parte nas despesas, vê numa vaga que seria para o amigo Ned Shneebly de professor-substituto numa escola de ensino fundamental, a chance de, se fazendo passar pelo colega, faturar uma grana e pagar as despesas que estão sendo cobradas. O caso é que chegando lá, depois de deixar claro para a turminha que assumira que não queria nada com nada, ele descobre que a galerinha tem aula de música e que as crianças são bastante talentosas. Dewey, enxerga então ali a possibilidade de usar aquele talento a seu favor convencendo, sob falsos pretextos, a garotada a entrar num concurso de bandas de olho no polpudo prêmio que lhe garantiria o fim dos pesadelos financeiros. Só que os alunos têm aula de música clássica e o desafio de Finn passa a ser o de colocar o rock no sangue, na cabeça e na atitude daquela crianças e aí é que o filme fica um barato. A seleção da banda, as noções sobre rock'n roll, a apresentação dos ídolos marcam um momento muito legal no filme. A cena em que o falso professor escolhe os mais aptos para cada instrumento e improvisa um "Smoke On The Water" com eles é bárbara; o passar dos dias com o  desenvolvimento das atividades de sua equipe mirim e das aulas de rock ao som de "My Brain is Hanging Upside Down" dos Ramones chega a ser emocionante para fãs do bom e velho rock'n roll; e a do retorno para a escola, na van, depois da inscrição na Batalha das Bandas ao som de "Immigrant Song" do Led é empolgante.
O "professor" Finn dando uma aula de rock.
O roteiro é aquele bem padrãozinho americano, nada demais: apresentação da situação-problema-solução aparente-nova complicação da situação-ato heroico-encaminhamento do grande momento-apoteose (com ou sem final feliz). Seu grande mérito, no entanto, está na escolha do tema e a forma de sua apresentação, na qual o protagonista tem a oportunidade de expôr para os alunos, e por extensão, é claro, a nós espectadores, tudo o que o rock representa, e como quem não quer nada, entre uma aulinha e outra, um diálogo aqui outro ali, coloca alguns pontos interessantíssimos que estão no sangue do rock como a vocação provocadora e desafiadora, o veículo para manifestar suas insatisfações e indignações e o tesão de tocar pelo prazer, pra fazer algo legal ou simplesmente pela possibilidade de deixar as pessoas malucas. 
Dirigido pelo bom Richard Linklater de "Boyhood" e da trilogia romântica "Antes do Amanhecer", "Antes do Pôr-do-Sol" e "Depois da Meia-Noite" com Julie Delpy e Ethan Hawke, "Escola de Rock" tem do roteiro assinado por Mike White (que interpreta o verdadeiro Ned Shneebly no filme) mas deve muito ao próprio ator principal, Jack Black, fanático por rock, na época vizinho de White e que segundo o roteirista vivia tocando em volume altíssimo e cantando pelado pela casa afora muitas das músicas que fazem parte da trilha do filme, o que o inspirou a escrever a história da forma como o fez. Aliás, a trilha sonora é, sem dúvida, um dos pontos altos do filme com sonzeiras de AC/DC, Black Sabbath, The Doors, Cream, Metallica e mais um montão de clássicos muito bem colocados  dentro do filme.
Enfim, um ótimo filme para que se apresente o rock'n roll aos filhos e entretenimento garantido aos papais e mamães roqueiros. Para a minha filhe que já estava interessada, já curtindo alguma coisa, já identificando alguns nomes e riffs, talvez tenha sido o empurrão definitivo. Pra ter uma ideia do quanto a aula foi válida, a minha pequeninha já tá até pedindo, "Põe "Iron Man". Valeu, né? Nota dez pra ela. Com louvores.


Cly Reis

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Pink Floyd – “The Piper at the Gates of Down” (1967)


“’Sim’, disse o Rato gravemente. ‘Ele está desaparecido há alguns dias, e as lontras caçaram em todos os lugares, de alto a baixo, sem encontrar o menor vestígio, e também perguntaram a todos os animais por milhas ao redor, e ninguém sabe nada sobre ele.’”
trecho do conto infantil “O Vento nos Salgueiros”,
de Kenneth Grahame, de onde Syd Barrett tirou a frase
“The Piper at the Gates of Down” (“O Flautista nas Portas do Alvorecer”)


A explosão de talentos ocorrida no rock dos anos 60 ainda é inigualável em comparação a qualquer outra época da história do gênero mais popular e subversivo da música moderna. Além de hábeis compositores, eram verdadeiros mestres na reelaboração dos elementos do blues e não raro sob a lisérgica roupagem psicodélica. Jimi Hendrix, John Lennon, Eric Clapton e Van Morrison são exemplos incontestes. Em alguns casos, entretanto, a psicodelia era tanta que a sonoridade pendia para a vanguarda experimental, caso dos igualmente brilhantes Frank Zappa, Don Van Vliet, Mayo Thompson e Roky Erikson. De fato, nem todo mundo conseguia soar pop e equilibrar uma escrita musical própria com a tendência psicodélica, a qual, por si, apontava para infinitos caminhos. Quem melhor chegou a esta química – que continha em sua composição muita droga psicotrópica, em especial LSD – foi o gênio louco Syd Barrett, cabeça e fundador do Pink Floyd.

“Diamante Desvairado”, como os companheiros de banda o apelidaram, é a melhor classificação que podia ser dada a Syd Barrett. A perturbação mental e emocional sempre lhe foram uma faca de dois gumes. Suspeita-se que sofria de Síndrome de Asperger, condição neurológica do espectro autista caracterizada por dificuldades na interação social e comunicação não-verbal, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. Em contrapartida, tal condição lhe evidenciava uma criatividade acima da média – ou, quem sabe, não era suficiente para suplantar-lhe o ato de criar. “Não acho que seja fácil falar de mim, tenho uma mente muito irregular”, dizia, referindo-se a si próprio. De fato, como os misteriosos caminhos percorridos pela lontra Portly ao perder-se na floresta em “O Vento nos Salgueiros”, não é simples entender por quais meandros psiconeurológicos percorriam a mente de Barrett, artista capaz de conciliar rock com música barroca, conto de fadas, expressionismo abstrato, duendes, jazz avant-garde, teosofia e B movie numa única sinapse cerebral. Naturalmente uma mente de vanguarda. “The Piper at the Gates of Down”, um dos ícones do rock psicodélico, é a melhor representação dessa equação ímpar engendrada por Barrett. Junto com “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, o primeiro do The Doors, “Velvet Underground & Nico” e alguns outros clássicos do rock que completam 50 anos em 2017, a estreia do Pink Floyd continua inovadora a cada audição, inundando de referências gerações e gerações.

“The Piper...” é surpreendente do início ao fim. A começar pela capa, que não poderia ser mais tradutora da psicodelia da época, em que os integrantes do grupo se misturam como num caleidoscópio lisérgico. A produção de Norman Smith se vale do luxuoso aparato técnico do estúdio Abbey Road, em Londres, para criar a devida atmosfera espacial e jogar luz sobre todos os detalhes (não raro exóticos) ressaltados por Barrett e a jovem banda, que trazia Roger Waters, baixo e voz; Richard Wright, teclados, sintetizador; e Nick Mason, bateria e percussão – ou seja, os integrantes clássicos do Pink Floyd somados a David Gilmour, substituto de Barrett a partir de 1968. Comandando a guitarra e os vocais, Barrett dá o direcionamento conceitual do álbum, que começa com a tensa "Astronomy Dominé". Sinais intermitentes de um contador Geiger iniciam a música prenunciando a instabilidade do tema. Em uníssono, o vocal canta sobre um compasso monofônico: “Verde-limão límpido, uma segunda cena/ Uma luta entre o azul que você uma vez conheceu/ Flutuando para baixo o som ressoa/ Pelas águas geladas e subterrâneas/ Júpiter e Saturno, Oberon, Miranda e Titânia/ Netuno, Titã, estrelas podem assustar”. Uma espécie de refrão sem letra se dá numa frase de guitarra e um vocalize que, unidos, assemelham-se a um uivo selvagem. Isso até chegar a 1 min 35 da faixa, ponto onde ela muda totalmente. Parece que a canção irá se manter nesse rumo sob sons de órgão, efeitos, interferências de rádio e improvisações. Entretanto, a melodia de repente volta ao tema inicial e o término é igualmente intenso, quase catártico. Isso tudo é o disco recém começando...

A magnífica “Lucifer Sam” – cuja produção e a engenharia de som de Peter Bown são irretocáveis – é, basicamente, um blues ritmado com certa pegada surf music. Não fosse sua atmosfera sombria e mística (“Lucifer Sam, um gato siamês/ Sempre sentado ao seu lado/ Sempre ao seu lado/ Esse gato tem algo que não posso explicar/ Jennifer Gentle você é uma bruxa/ Você está do lado esquerdo/ Ele está do lado direito/ Esse gato tem algo que não posso explicar...”), que a leva mais para uma obscura trilha de série de TV. Efeitos como chocalhos, o órgão de Wright, a guitarra-base, o baixo de Waters e a bateria de Mason são perfeitamente ouvidos, mas o que se destaca mesmo é a segunda guitarra de Barrett, que executa um riff em tom grave, a qual contém uma das características compositivas dele: os leves atrasos nos tempos. Como se sempre algo estivesse fora do presente, pondo-se entre a realidade e o sonho. E se o virtuosismo não é a característica de Barrett – como será a de Gilmour, que assumirá as guitarras logo em seguida na banda –, o solo da faixa (toque percutido, exploração dos efeitos de pedal, variação de escala) é de pura criatividade.

Novamente revelador, o disco traz a estranha mas brilhante “Matilda Mother”, que muda totalmente pelo menos umas três vezes em pouco mais de 3 minutos de canção. O arranjo vocal, incrivelmente variante, é um primor, lembrando bastante no refrão o estilo que o Pink Floyd adotaria muitas vezes a partir de então, como em “Breath” (1973) e “The Thin Ice” (1979). O teclado e o baixo pronunciam o acorde inicial, pausado e contemplativo. O universo lúdico da infância, ao mesmo tempo fantástico e tempestuoso, é expresso na letra, em que Barrett clama pela mãe e pela criança que não mais é: “Havia um rei que governou a terra/ Sua Majestade estava no comando/ Com olhos prateados a águia escarlate/ Banhou de prata as pessoas/ Oh, Mãe, me conte mais”. Depois de algumas sinuosidades melódicas, lá por 1 min 25 entra um solo de órgão de ares barrocos. Porém, o que mais se destaca é a psicodélica percussão gutural de Barrett. De repente, as vozes se intensificam, a guitarra dita o riff e... volta tudo à melodia inicial, num proposital corte abrupto – como uma contação de estória sendo interrompida, ou melhor, deslocando-se no tempo psicológico em que o autor se dá conta de que a infância se foi. Em 2 min 25, um novo fim falso, que leva a música até o desfecho num clima ainda mais onírico.

“Flaming” não só se mantém no universo anedótico como o expande, levando o ouvinte a um céu estrelado e azul com unicórnios e animais da floresta de toda ordem. A melodia é ondulante, obscura, exótica. Não é para menos, pois se trata de um dos mais fiéis relatos de uma viagem lisérgica de LSD: “Observando botões-de-ouro moldarem a luz/ Dormindo em um dente-de-leão/ É demais, eu não vou te tocar/ Mas até poderia”. Exemplo de melodia composta no violão e devidamente arranjada pela banda em que todos se destacam, principalmente Barrett ao violão e Wright, que segura o clima no órgão e no solo de cravo ao final.

Nova surpresa, nova montanha-russa, nova obra-prima. Os sons articulados na goela e na faringe não apenas reaparecem como sustentam a abertura da sui generis “Pow R. Toc. H.”. O que se ouve são cacos vocais e sons quase demenciados sobre curtos e esquisitos rufares percussivos igualmente gerados por aparelho vocal humano. Essa configuração estranha se transforma em seguida num som de culto indígena, haja vista os gritos tribais e o ritmo ritualístico ditado pelo tambor – agora da própria bateria. Essa nova formatação sonora, entretanto, se altera rapidamente de novo numa perfeita transição executada na mesa de estúdio, fazendo a melodia se transformar agora num... elegante jazz! É Wright quem brilha nessa parte, solando no piano por quase 1 minuto sobre a ainda tribal percussão. Isso é interrompido mais uma vez, claro. Sons de órgão e de guitarra improvisam e se entrelaçam por quase 2 min, direcionando o tom jazzístico para uma polifonia. Tudo isso, para retomar a linha melódica inicial, agora com a guitarra, os efeitos de mesa e de pedal e os ensandecidos alaridos finalizando o número. Junto com “Peaches en Regalia”, de Zappa, é um dos temas instrumentais mais criativos do rock anos 60. Além disso, é, ao lado de “Interstellar Overdrive”, a única composição coletiva do disco, que já denota claramente que o Pink Floyd não era (e não seria, fatalmente) apenas Syd Barrett.

Composição de Waters, “Take Up Thy Stethoscope And Walk” é mais um belo exemplar do rock psicodélico que 1967 emoldurava. Isso se deve em parte, principalmente na primeira parte – ou melhor, até onde vai a seção cantada, a pouco mais dos 30 segundos iniciais, tendo em vista que o restante, exceto o rápido desfecho, é tomado de delírios instrumentais da banda inteira – a Barrett, que se vale, novamente dos cacos e sons guturais em conjunção com os efeitos e as texturas sonoras para compor o arranjo.

Centro do disco, a já mencionada “Interstellar Overdrive” é um hino lisérgico, que se assemelha em formato e proposta a outro clássico do rock composto naquele mesmo ano: “Heroin”, do Velvet Underground. Quase uma pequena sinfonia, começa como um hard rock cuja semelhança à sonoridade de Black Sabbath e Led Zeppelin não é mera coincidência. A 2 min e 20, a guitarra parece trancar como se tivesse arranhado o sulco naquele ponto (novamente, sente-se o estranhamento com o tempo). Essa ideia – lapidada pela maestrina do pós-jazz Carla Bley em “Musique Mecanique III”, de 1979 – reproduz no instrumento outra das peculiaridades da música de Barrett: os fonemas cacofônicos, ditos com certo engasgo. É como se fosse o sintoma da formação de uma linguagem atípica e excêntrica do Asperger, aliado ao dos padrões repetidos da doença, traduzido para música, para arte.

Seguem-se cerca de 7 minutos de improviso de toda a banda, que forma uma sonoridade espacial, quando não de uma viagem alucinógena ou uma trilha de filme de ficção científica. Até que, quase no fim do tema, um ruidoso e longo rolo de Mason traz de volta o riff inicial. Mas... algo estranho está embaralhando os ouvidos e os sentidos... É Norman Smith mais uma vez valendo-se do aparato do Abbey Road e de sua técnica como produtor operando uma radical alteração do balance, o qual joga rapidamente todo o som de um lado para o outro nas caixas de som: enquanto uma fica em silêncio, a outra recebe toda a massa sonora. Isso gera um efeito de desequilíbrio, espiral, revolto, que age diretamente sobre os sentidos humanos. Parece que se está escutando a arte da capa do disco. Impossível ficar impassível, pois o efeito atingido aqui pelo Pink Floyd chega a ser físico. Por todas essas particularidades, “Interstellar...” pode-se dizer a precursora do rock progressivo, que faria tantas bandas surgirem ou aderirem (como o próprio Pink Floyd em certa medida) nos anos 70.

Aí, como se nada tivesse acontecido, colada à intensa “Interstellar...”, entra a faixa seguinte, “The Gnome”: uma singela ciranda infantil sobre seres elementais. Só que não! Igualmente brilhante e consideravelmente sinistra, “The Gnome” (“Quero te contar uma história/ Sobre um homenzinho/ Se eu puder/ Um gnomo chamado Grimble Crumble/ E pequenos gnomos que ficam em suas casas/ Comendo, dormindo, bebendo vinho...”) realça o belo timbre de voz de Barrett e sua pronúncia elegante – o que confere ainda mais obscuridade ao tema. Os cacos fonéticos e a preferência por vocábulos “engasgados” (“GRimble”, “CRumble”, “tunIC”, “ADventure”) aparecem em abundância, intensificados pela dicção do cantor.

Rivalizando com outras duas canções daquele ano, “Within You Without You”, dos Beatles, e “The End”, dos Doors, “Chapter 24” ergue uma mística capela sonora. Wright é exímio ao imitar nos teclados o som de um fole nórdico. A percussão, inteligente, é apenas nos pratos e sinos, emprestando muita naturalidade. Apenas o baixo é mais “moderno” na sonoridade de “Chpater 24”, haja vista que o canto de Barrett soa quase litúrgico. Talvez a mais linear faixa do disco – se é que dá pra classificar qualquer uma das peças assim, tão simploriamente –, abre caminho para a totalmente medieval “Scarecrow” com suas flautas celtas e percussão barroca. Genialmente, Barrett dissolve qualquer noção de tempo – o mesmo “tempo” que ele, mentalmente perturbado, não consegue apreender. A bela letra é talvez a mais autobiográfica e – haja vista a metáfora essencial, a comparação de si com um “espantalho” – tristemente reveladora. Merece ser reproduzida por completo:

“O espantalho preto e verde
Como todo mundo sabe
Ficava com um pássaro no seu chapéu
E palha por todo lado
Ele não se importava
Ele ficava num campo onde o milho cresce
Sua cabeça não pensava, seus braços não se moviam
Exceto quando o vento soprava
E ratos corriam pelo chão
Ele ficava num campo onde o milho cresce
O espantalho preto e verde é mais triste do que eu
Mas agora ele está resignado com seu destino
Pois a vida não é má
Ele não se importa
Ele fica num campo onde o milho cresce.”

O que resta a um disco impecável como este? “Scarecrow”, por seu final quase épico, dá indícios de fim. Mas clássico que é clássico tem mais uma joia reservada. É o caso da originalíssima e sarcasticamente circense “Bike”, forjada sobre um único compasso. A voz de Barrett, tão cristalina quanto alucinada, joga versos em demasia sobre os intervalos – mas eles fazem caber no tempo musical, hábeis em harmonia como são. A festa no picadeiro lúgubre parece terminar a 1 min 45', mas sons de bugigangas (entre estas, relógios, como os que aparecerão 6 anos mais tarde em “Time”, do “The Dark Side of the Moon”), comandados pelos teclados fasmáticos de Wright, entram para preencher o restante da faixa a la John Cage. Esta, no entanto, termina da talvez mais apavorante forma que qualquer disco da música pop – e olha que bate muita dark music. O volume vai baixando aos poucos, anunciando o final, quando surge um som que parece ser de uma boneca enguiçada. Misto de gargalhada macabra com urro de dor e de prazer carnal, vai subindo até um clímax, que chega a chocar os ouvidos. Porém, logo em seguida, vai caindo até terminar o disco finalmente. Dá para imaginar uma cena de filme de terror em que o palhaço assassino aproxima-se, chegando a centímetros do escondido e amedrontado perseguido, mas que, não o encontrando, afasta-se e vai embora. No quarto de brinquedos, quebrados e tristes, está terminada a obra sinistra de Barrett e Cia.

A aparente infinita inventividade de Barrett, por infelicidade, teve sim um fim. Acometido pela deterioração mental, agravada pelo exagerado uso de drogas, Barrett afastou-se da banda antes de lançar um segundo trabalho com eles, restando apenas mais uma (e igualmente brilhante) composição sua em “A Saucerful of Secrets”, de 1968: “Corporal Clegg”. Vieram ainda duas obras-primas solo em 1970: “The Madcap Laughts” e “Barrett”, nos quais já se nota o progressivo agravamento do quadro físico e psíquico. Logo em seguida, entra numa reclusão autoimposta de 30 anos até a morte, em 2006. Porém, os parcos 6 anos em que produziu seguem influenciando profundamente a cultura pop meio século depois de seu surgimento em “The Piper...”. Para o próprio Pink Floyd foi assim: com talento, souberam apreender e reelaborar o legado de seu ex-líder, avançando em suas ideias mas mantendo-lhe uma ligação permanente. Mesmo com as capacidades criativas de e liderança tanto de Waters quanto de Gilmour, o Pink Floyd foi e sempre será como um tal personagem de conto de fadas chamado Syd Barrett.

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“The Piper…” teve, em 1967, uma edição norte-americana que, além de alterar a ordem das faixas e suprimir duas delas (“Bike” e “Astronomy Dominé”), conta com uma nova, “See Emily Play”.  Em 1974, os dois primeiros álbuns do Pink Floyd são reunidos num único volume, “A Nice Pair”. Ainda, “The Piper...” consta na íntegra com outros discos nas caixas “First XI” (1979), “Shine On” (1992), “1997 Vinyl Collection” e “Oh By the Way” (2010).

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FAIXAS:
1- "Astronomy Domine" – 4:12
2 - "Lucifer Sam" – 3:07
3 - "Matilda Mother" – 3:03
4 - "Flaming" – 2:46
5 - "Pow R. Toc H." (Nick Mason, Richard Wright, Roger Waters, Syd Barrett) – 4:26
6 - "Take Up Thy Stethoscope and Walk" (Waters) – 3:05
7 - "Interstellar Overdrive" (Barrett, Mason, Waters, Wright) – 9:41
8 - "The Gnome" – 2:13
9 - "Chapter 24" – 3:42
10 - "The Scarecrow" – 2:11
11 - "Bike" – 3:21
todas as composições de autoria de Syd Barrett, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:


por Daniel Rodrigues