O Pentágono divulgou foto desse OVNI's em formato esférico sobrevoando os céus, mas lamento frustrá-los. Com nossa super lente de aumento conseguimos ver que não se trata de um corpo extraterreno, mas somente o nosso MDC dando voando alto. Fruto do planeta Terra, o programa desta semana revela sonoridades improváveis, como as de Gilberto Gil, Enya, The Beatles, Talking Heads e Public Enemy. "De outro mundo" também é a música do pai dos sintetizadores, o norte-americano Milton Babbitt, que estará no Cabeção. Sem documentos secretos, o programa está liberado para todos às 21h na terráquia Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (MDC, phone, home!)
Sabe aquela música você está lá ouvindo-a numa boa, até que, de repente, tudo muda? O que era um rock agitado vira uma balada romântica. O que começa como um folk-rock se transforma num break dançante. O que parecia ser só uma melodia inocente passa, de uma hora para outra, a ser uma canção folclórica latina.
É meio raro de acontecer e não é fácil de dar certo, mas todos esses exemplos realmente existem. Algumas joias tanto da discografia rock quanto da MPB, principalmente, seguem essa métrica diferente. Diria até surpreendente de incorporar duas músicas em uma.
E não estamos falando aqui daquelas que só têm um finalzinho diferente, criativo. Isso é bem mais comum e não nos vem ao caso agora. Poderíamos talvez até falar de “Cry Baby Cry”, dos Beatles, que, após uma balada romântica de Lennon, tem McCartney encerrando-a cantando lindamente outra melodia, a de "Can You Take Me Back". Mas é tão curtinha! Apenas 28 seg, o que não dá para chamar de “virada”. Outra que até poderia é “Mask”, da Bauhaus, que se estabelece como uma marcha soturna quando, encaminhando-se para o fim, entra um solo de violão que altera totalmente a atmosfera, tornando-a algo ritualística. A base, contudo, mantém-se, então, também não conta. Muito menos aquelas que vão se transformando em si próprias, minissinfonias, tal "Menina Goiaba" (Gilberto Gil), "Happiness Is a Warm Gun", (Beatles) ou várias coisas dos progressivos.
Falamos aqui, sim, de belas músicas que já eram boas de um jeito, mas que, repentina e deliberadamente, viram outra coisa. E tão legal quanto, como se fossem duas obras em uma só.
Como toda lista, obviamente, a intenção não é dar conta de todos os casos com esse perfil. Longe disso. Como estes, certamente existe uma infinidade de registros, que não lembramos ou, muito mais numerosas, que nem conhecemos.
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“Feedback Song for a Dying Friend”– Legião Urbana (1989)
A Legião Urbana era dotada de muita inventividade. Se faltava apuro técnico aos seus integrantes como instrumentistas após a saída do excelente baixista Renato Rocha, sobrava criatividade e referências culturais inteligentes a Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo, principalmente. Nessa linha, "Feedback...", do disco “As Quatro Estações”, de 1989 (o primeiro do grupo como trio), é exemplar. Um hard rock cantado em inglês, no melhor estilo Led Zeppelin, que, lá pelo seu final, a aproximadamente 3 min20’ e depois de uma parada dramática, a música se transforma numa deslumbrante dança da Grécia Antiga. E mais legal: a letra segue, com Renato cantando ainda mais lindos versos até finalizá-la epicamente.
Quem gosta de cinema e de rock jamais conseguirá dissociar esse clássico do rock do filme “Os Bons Companheiros”. A sequência com a câmera em travelling encontrando os corpos de assassinados congelados dentro do caminhão refrigerado é, além de uma das mais memoráveis da filmografia de Martin Scorsese, aquela que tem a canção da Derek and the Dominos (leia-se Eric Clapton). Mas Scorsese, grande amante de rock e de música, soube exatamente que trecho de “Layla” extrair para montar a sua cena: a segunda parte desse blues eletrificado, justo quando o piano de Jim Gordon (não à toa, coautor da música) é quem dá as cartas com uma balada lírica.
David Byrne e sua trupe sempre foram muito criativos e já haviam ensaiado viradas que surpreendem em outras músicas. Porém, nada como esse pop rock empolgante que é “Television Man”. Penúltima faixa de um disco tão pop quanto perfeito da Talking Heads, o "Little Creatures", “Television...” se desenvolve melodicamente de forma muito agradável e contagiante, até, por volta de 2min30' (ou seja, menos da metade da duração dela, de 6min10'), toma um rumo que a potencializa. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Steve Scales, Byrne puxa um coro feminino para repetir com ele: “Na-na-na-na-na-na”, além de metais, linha de teclados que se cruzam e guitarras percussivas. Um êxtase.
Beck estava afiadíssimo quando lançou seu terceiro álbum, o clássico “Odelay”. Com o apoio luxuoso dos Dust Brothers (John King e Mike Simpson), que cuidavam de cada detalhe do arranjo e da produção, o músico norte-americano teve campo livro para compor certamente a sua melhor obra, cheia de músicas com reviravoltas, mudanças e variações das mais diversas. A que mais surpreende neste sentido, contudo, é “Novacane”. O que começa e se desenrola como um hard-funk, por volta 3 min 20', vai para outra direção completamente diferente em ritmo e textura, quando uma espécie de break eletro-retro toma conta até encerrar a faixa. Essas coisas inclassificáveis, que só Beck & Dust Bros. produziram e viraram de ponta-cabeça o rock alternativo dos anos 90.
Com a ditadura a mil pelo Brasil no início dos anos 70, sobrou também para Milton Nascimento. Seu disco “Milagre dos Peixes” foi sumariamente picotado pela censura, que proibiu quase todas as letras. Solução? Fazer um disco caprichado no instrumental, arranjos e composições, que resultou num dos melhores da carreira do gênio de Três Pontas. “Pablo”, faixa que encerra o álbum, uma aparentemente inocente canção infanto-juvenil, saiu ilesa, e deu a oportunidade ao jovem Nico Borges, irmão caçula dos Borges então com 12 anos, cantar os belos versos escritos por Ronaldo Bastos. Porém, no minuto final, o instrumental de “Cadê”, uma das prejudicadas pela censura, surge em fade-in para encerrar esta obra-prima em ritmo andino. Milton marcando posição e fazendo milagre.
“Variações sobre um Mesmo Tema”– Engenheiros do Hawaii (1988)
O que esperar de uma música cujo título é “Variações sobre um Mesmo Tema”? Numa fase encantada, a Engenheiros do Hawaii de Humberto Gassinger, Augusto Licks e Carlos Maltz entrega mais do que uma letra justificadora, e, sim, uma música que aplica essa variação também na melodia. E promovem não apenas uma variação, mas duas! Os versos invariavelmente brilhantes de Gassinger à época compõem o que eles classificam de Parte 1, que se desenrola sobre um ritmo marcado em três tempos. Depois, uma queda brusca para uma atmosfera etérea, quando a voz de Licks praticamente declama alguns dos mais belos versos do cancioneiro da banda. Então, para fechar mesmo (e encerrar o disco “Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”), um hard rock instrumental possante, algo fusion e progressivo.
The Smiths é aquilo, né: o mais alto grau de criatividade de toda a geração do britpop anos 80. “Misarable Lie” é uma das provas de que eles não deixariam de apresentar essa métrica diferentona de música "2 em 1". Johnny Marr e sua guitarra genial exercita um rock cadenciado na primeira e um punk rock na segunda. Tudo isso, sem precisar usar pedal de distorção! É guitarra purinha! A bateria de Mike Joyce – como em “London”, outra punk da banda – engendra uma cadência sincopada. Andy Rourke, baita baixista, segura todas na “cozinha”. E Morrissey... Ah! Moz destrói tudo na primeira e na segunda seção! A última, aliás, em que ele faz os seus peculiares “falsetes sopranos”.
Outra dessas melodias de moldagem plástica e que servem para encerrar um álbum, assim como “Variações sobre um Mesmo Tema”, da Engenheiros, e “Pablo”, de Milton. Ou seja: tem um papel fundamental dentro da narrativa da obra que integra. No caso, o histórico debut da The Stone Roses. E para uma música chamada “Eu Sou a Ressurreição”, haja reviravoltas! Em seus pouco mais de 8min, faz jus ao título: é uma coisa até 3 min40’, uma segunda até uns 6min20’ e ainda um terceiro formato para encerrar. Muitos reencarnes.
“The Murder Mystery”– The Velvet Underground (1969)
O disco homônimo da Velvet Underground de 1969 já não contava mais com John Cale na formação, dando, assim, total liberdade à mente criativa de Lou Reed. “The Murder...” é quase um parque de diversões compositivo: conjuga duas melodias intercaladas, uma espécie de habanera e um rock intenso e de estrutura circular, tudo com variados vocais: os de Doug Yule, Sterling Morrison, Maureen Tucker e os dele mesmo, Lou. Só que, a aproximadamente 6 min 30', como se não bastasse, vai surgindo ainda uma outra música, totalmente díspar da(s) anterior(es): uma quase "bagatelle” com base de piano e uma letra quase falada por este criador de obras-primas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”... e “The Murder Mystery”.
“Eve White/Eve Black”– Siouxsie & The Banshees (1980)
Outra banda altamente criativa, a Siouxsie & The Banshees é também capaz de imaginar melodias tão elásticas formalmente. “The Rapture”, que dá nome ao disco deles de 1992, é uma minissinfonia pós-punk, que se bifurca para três lados. Mas eles já haviam se aventurado por esses limites melódicos no início dos anos 80, mais precisamente no compacto de “Christine”, com “Eve White/Eve Black”. De novo, uma dentro da outra: começando só com uma base de guitarra e voz e terminando transtornada. No caso, as faces “branca” e “negra” da mesma Eve. E se a gravação original já passa bem o espírito dual, a versão ao vivo do clássico álbum “Nocturne”, de 1983, é de arrepiar, principalmente no instante da mudança de uma parte para outra, quando Siouxsie solta um dos gritos mais assustadores da história do rock. Garanto que ate Ozzy Osbourne ficou com medo.
Lobão é um chato de galocha, que fala muita bobagem boca afora, mas que, convenhamos, às vezes tem bons lampejos. Em uma entrevista recente dele na qual falava sobre heavy metal, justificando porque não gosta de Iron Maiden, o velho roqueiro brasileiro argumentou que bandas como esta e várias outras nessa linha perderam, da metade dos anos 70 em diante, a veia negra do rock, presente em Deep Purple, Black Sabbath e Led Zeppelin, e passaram a investir numa injustificável (e branca) atmosfera nórdica. No alvo, sr. Lobão. Assistindo a Living Colour, a banda norte-americana formada integralmente por músicos negros há 40 anos, fica fácil entender onde o rock pesado desviou a rota. Verdadeiros herdeiros de Little Richard, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, mas também de James Brown, Sly Stone, Aretha Franklin, George Clinton, Chaka Khan, Death, Prince e Bad Brains, a LC, que fez um show arrasador em Porto Alegre na turnê que comemora suas quatro décadas, foi quem, no final dos anos 80, reivindicou a autoria negra e resgatou a verdadeira semente do rock das guitarras distorcidas.
Com um repertório muito bem montado, que inicia com sucessos, passa por momentos de surpresas, homenagens, sessões livres e termina com as "mais mais" e direito a bis, Corey Glover (vocais, e que vocais!), Vernon Reid (guitarra, gênio!), Doug Wimbish (tocando baixo como se não estivesse fazendo nada difícil) e Will Calhoun (bateria, certamente dos melhores do instrumento) não apenas executam os números: eles brincam de tocar. A construção harmônica e o arranjo das competições favorece a que eles, exímios instrumentistas, improvisem o tempo todo, transformando também as músicas constantemente.
A entrada dos quatro no palco foi triunfal ao som do tema do filme "O Império Contra-ataca", de John Williams, uma sacada bastante sarcástica vindo de um grupo que "contra-atacou" o "império" branco da indústria pop. A abertura, então, foi com "Leave it Alone", do disco “Stain”, de 1993. Prejudicados nos primeiros números em razão da qualidade do som, quando mal se ouvia a voz potente de Glover e a guitarra de Reid era um zunido só, eles fizeram na sequência "Middle Man" e uma magnífica versão, mesmo mal equalizada, de "Memories Can't Wait", da Talking Heads, gravada por eles, assim como a anterior, em "Vivid", de 1988. Até em reggae eles transformaram a música num trecho! Mas o que manda mesmo é a guitarra intensa e melodiosa de Reid, assim como ele faria em muitas outras a seguir.
Living Colour tocando Talking Heads:
nem o som ruim atrapalhou
"Ignorant is Bliss", em que parece que Mr. Dinamite sujou de guitarras pesadas seu groove, e o heavy-metal possante de "Go Away" vieram antes da ótima "Bi", suingada e com toda aquela atmosfera jazzística em cima de um rock vibrante. A altamente variante "Funny Vibe", cuja bateria de Calhoun é que dita o ritmo, indo do hardcore ao funk e ao jazz em poucos compassos, ainda é incrementada com "Fight The Power", dos seus ídolos Public Enemy.
A essas alturas, já com o som ajeitado na mesa de áudio, um dos momentos especiais do show: quando tocam "Hallelujah", de John Cale, só no vocal de Glover e a guitarra de Reid, fazendo suscitar os cânticos de louvor da tradição gospel que está na veia dos rapazes da LC. Lembrei muito de Mahalia Jackson emocionando a multidão quando cantava “Precious Lord, Take My Hand”, para se ter ideia da potência do que seu viu/ouviu no Opinião. Depois, colada, a clássica "Open Letter (to a Landlord)", ao mesmo tempo uma música de protesto e denúncia do racismo e uma oração. A cara da banda. Olha: isso é que é saber compor um setlist!
Mas tinha mais! A pedrada "Pride", um de seus maiores sucessos, levantou ainda mais a galera, composta basicamente de fãs da banda e do Metal. E as improvisações, mesmo em músicas consagradas, impressionantemente nunca param de acontecer. Está no jeito de eles tocarem, de sentirem a própria música. Mas essa liberdade de inventar na hora não quer dizer faça com que o quarteto se perca ou que desvirtuem os próprios temas. Experientes, sabem quando "criar" mais e quando dar apenas "cores livres". Afinal, estamos falando de música preta, de descendentes do improviso do jazz e do blues. Dava para ouvir, em certos momentos, a influência direta do free jazzspiritual de John Coltrane, principalmente em se tratado de Reid. Verdade é que a LC é talvez a única power band em atividade, aquela classificação de grupo em que todos, sem exceção, são grandes músicos.
Pois até a "cozinha" brilhou. Calhoun fez todos ficarem embasbacados com seu solo de bateria e na conjugação com a música “Baianá”, do conjunto brasileiro Barbatuques. Empunhando aquelas baquetas junto com Calhoun, estavam, certamente, Elvin Jones com sua africanidade, John Bonham com sua intensidade, Steve Gadd com sua habilidade, Art Blakey com sua capacidade de criar ritmo. Pouco depois, foi a vez de Wimbish, chamando o público pra cantar e dançar, comandar o palco cantando um medley de três clássicos do hip-hop da Grandmaster Flash & The Furious Five, "White Lines", "Apache" e um dos maiores hits da era break, "The Massage". Demais!
Trecho de "Bi", um dos sucessos da LC
O final do show foi uma sequência de tirar o fôlego, começando com "Glamour Boys", cuja guitarra suingada do riff explode em distorção no refrão cantado pela plateia toda ("I ain't no glamour boy (I'm fierce!)/ I ain't no glamour boy (wow!)"); o blues matador "Love Rears It's Ugly Head", o maior sucesso da LC e cujo clipe gastou de tanto rodar na MTV no início dos anos 90; e a paulada "Type", outro clássico absoluto deles e do rock pesado de todos os tempos. Refrãozasso: "We are the children of concrete and steel/ This is the place where the truth is concealed/ This is the time when the lie is revealed/ Everything is possible, but nothing is real". E Reid, hein?! O que é Vernon Reid tocando?! Ele é por si um show. Definitivamente um dos deuses da guitarra. Contemporâneo de Steve Vai e Joe Satriani, de quem guarda semelhanças no jeito de tocar, Reid é um guitar hero em atividade e que exercita seu estilo não só em solos inventivos (e que não são cansativamente extensos como fazem a maioria dos virtuoses), mas também na maneira de compor. Tanto quanto seus companheiros, vê-lo ao vivo no palco é algo realmente memorável.
Mas, gente: ainda tinha mais, acreditem. O hardcore "Time's Up", que dá nome ao celebrado segundo disco da LC, de 1990, emendou-se com outra de "Vivid", "What's Your Favorite Color?". E, para "encerrar", nada mais nada menos que "Cult of Personality", seguramente um dos 10 maiores riffs do rock dos últimos 40 anos, que foi entoada por todo o pessoal em êxtase que lotava o Opinião. É muito heavy, mas também é muito jazz, principalmente por suas quebras de ritmo, variações de escala e andamento e, claro, a habilidade dos rapazes de improvisar.
Digo "encerrar" assim, entre aspas, porque ainda rolou, como disse no início, bis. E foi primeiro com a calmaria da gostosa "Solace of You" - que em muito lembra a mistura de reggae e ritmos do Caribe de "Alagados", da Paralamas do Sucesso, de alguns anos antes - para, enfim, terminarem com outra de suas covers emblemáticas: a punk "Should I Stay or Should I Go", da The Clash.
Foram só pedradas, só clássicos, que fez lembrar a primeira apresentação da banda no Brasil, no Hollywood Rock de 1992, quando ainda muito jovens, e que não só assisti ao vivo pela TV na época como gravei em K7 e por anos meu irmão e eu escutamos aquele memorável show. Agora, mais maduros, Glover, Reid, Wimbish e Calhoun continuam a tocar o que talvez à época nem tenha me dado conta com tamanha clareza: a de que se trata do mais alto nível de rock que se possa imaginar. O rock melodioso, tocado com alma e, por que não, também barulhento. Um rock negro, tal qual foi criado, há quase 80 anos. Como diz aquela canção, "Lobão tem razão". Às vezes, tem.
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Quarteto norte-americano no palco do Opinião
Reid, Glover com seus deads e Wimbish com Calhoun ao fundo
A clássica "Pride" pra exaltar a galera
O grande sucesso "Love Rears it's Ugly Head",
que pôs o Opinião para suingar
Músicos da mais alta qualidade em uma apresentação histórica
Momento emocionante - e pulsante - com "Open Letter (to a Landlord)". Louvação e protesto
Quase terminando o show, "Cult of Personality",
um dos maiores riffs já escritos
Clima de festa dos "metaleiros" com as mãos chifradas pra cima
A gente avisou que o véio tava chegando... Deixou chegar agora já era! Wayne Shorter põe mais um disco entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS em 2025 e agora divide a liderança com os Rapazes de Liverpool com mais obras destacadas na nossa seção entre os artistas internacionais. Já entre os brasileiros, com a inclusão de "Dia Dorim, Noite Neon", entre os nossos Fundamentais, Gilberto Gil empata com o mano Caetano e os baianos agora dividem a liderança nacional. Mas é bom ficarem espertos porque, comendo pelas beiradas como um bom mineiro, Milton Nascimento aproveita a parceria com o agora líder Shorter e se aproxima da ponta também.
Entre os anos que mais entregaram grandes álbuns, não tivemos mudanças no ano que passou e, ainda que a década de 70 tenha mais representantes, o ano de 1986 segue na frente.
2025 nos trouxe alguns estreantes na nossa seção de grandes discos, como os alemães do Trio, os ingleses do Sleaford Mods, o prodígio Father John Misty, o sambista Argemiro Patrocínio e regionalismo do Quinteto Armorial, mas marcou também os 80 anos do grande Ivan Lins e a entrada da Estônia na galeria de países integrantes da nossa lista, com o genial "Tabula Rasa", de Arvo Pärt.
Confere aí, então, como ficaram as posições nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS:
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PLACAR POR ARTISTA (INTERNACIONAL)
The Beatles e Wayne Shorter***: 7 álbuns
Kraftwerk e John Coltrane: 6 álbuns
David Bowie, Rolling Sones, Pink Floyd, Miles Davis, Talking Heads e John Cale* **: 5 álbuns cada
The Who, The Smiths, Led Zeppelin, Bob Dylan, Philip Glass e Lee Morgan: 4 álbuns cada
Stevie Wonder, Cure, Van Morrison, R.E.M., Sonic Youth, Kinks, Madonna, Iron Maiden , U2, Lou Reed**, e Herbie Hancock***: 3 álbuns cada
Björk, Beach Boys, Cocteau Twins, Cream, Chemical Brothers, Sean Lennon, Deep Purple, The Doors, Echo and The Bunnymen, Elvis Presley, Elton John, Queen, Creedence Clarwater Revival, Janis Joplin, Johnny Cash, Joy Division, Massive Attack, Morrissey, Muddy Waters, Neil Young and The Crazy Horse, New Order, Nivana, Nine Inch Nails, PIL, Prince, Prodigy, Public Enemy, Ramones, Siouxsie and The Banshees, The Stooges, Pixies, Dead Kennedy's, Velvet Underground, Metallica, Dexter Gordon, PJ Harvey, Rage Against Machine, Body Count, Suzanne Vega, Beastie Boys, Ride, Faith No More, McCoy Tyner, Vince Guaraldi, Grant Green, Santana, Ryuichi Sakamoto, Chick Corea, Sinéad O'Connor, Marvin Gaye e Brian Eno* : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum Brian Eno e John Cale , ¨Wrong Way Out"
**contando com o álbum Lou Reed e John Cale, "Songs for Drella"
*** contando o álbum "Five Star', do V.S.O.P.
PLACAR POR ARTISTA (NACIONAL)
Caetano Veloso e Gilberto Gil* **: 8 álbuns*#
Chico Buarque ++ #: 7 álbuns
Jorge Ben ** e João Gilberto* **** e Milton Nascimento ***** º >: 5 álbuns
Tim Maia, Rita Lee e Legião Urbana: 4 álbuns
Gal Costa, Titãs, Paulinho da Viola, João Donato, Engenheiros do Hawaii, Criolo º e Tom Jobim +: 3 álbuns cada
João Bosco, Lobão, Emílio Santiago, Jards Macalé, Elis Regina, Edu Lobo+, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, Roberto Carlos, Sepultura, Cartola e Baden Powell*** : todos com 2 álbuns
*contando com o álbum "Brasil", com João Gilberto, Maria Bethânia e Gilberto Gil
**contando o álbum Gilberto Gil e Jorge Ben, "Gil e Jorge"
*** contando o álbum Baden Powell e Vinícius de Moraes, "Afro-sambas"
**** contando o álbum Stan Getz e João Gilberto, "Getz/Gilberto"
***** contando com o álbum Milton Nascimento e Lô Borges, "Clube da Esquina"
+ contando com o álbum "Edu & Tom/ Tom & Edu"
++ contando com o álbum "O Grande Circo Místico"
# contando com o álbum "Caetano & Chico Juntos e Ao Vivo"
º contando com o álbum Milton Nascimento e Criolo "Existe Amor"
>contando com o álbuns "Native Dancer", com Wayne Shorter
PLACAR POR DÉCADA
anos 20: 2
anos 30: 3
anos 40: 1
anos 50: 121
anos 60: 103
anos 70: 171
anos 80: 146
anos 90: 111
anos 2000: 22
anos 2010: 19
anos 2020: 3
*séc. XIX: 2 *séc. XVIII: 1 PLACAR POR ANO
1986: 24 álbuns
1977: 22 álbuns
1972: 21 álbuns
1969 e 1985: 20 álbuns
1976: 19 álbuns
1970, 1971 e 1992: 18 álbuns
1968, 1973, 1975 e 1979 17 álbuns
1967 e 1980: 16 álbuns cada
1983, 1965 e 1991: 15 álbuns cada
1988, 1989, 1990 e 1994: 14 álbuns
1987: 13 álbuns
PLACAR POR NACIONALIDADE*
Estados Unidos: 224 obras de artistas*
Brasil: 174 obras
Inglaterra: 131 obras
Alemanha: 12 obras
Irlanda: 8 obras
Canadá: 5 obras
Escócia: 4 obras
Islândia, País de Gales, Jamaica, México: 3 obras
Austrália, França e Japão: 2 cada
Itália, Hungria, Suíça, Bélgica, Rússia, Angola, Nigéria, Argentina, Estônia e São Cristóvão e Névis: 1 cada
*artista oriundo daquele país
(em caso de parcerias de artistas de países diferentes, conta um para cada)
Será mesmo que a polícia francesa não se deu conta de que o roubo das joias do Louvre é coisa do Arsène Lupin? Intrépido e certeiro assim como o personagem de Leblanc é o MDC, que terá somente joias preciosas na edição de hoje. The Beatles, Cypress Hill, Vitor Ramil, Talking Heads e Miúcha são alguns dos que vão brilhar. Reluzindo igualmente, o ouro negro Grande Otelo, que completa 110 anos de seu nascimento. Roubando a atenção de muita gente, o programa vai entrar pelas janelas às 21h na sorrateira Rádio Elétrica. Produção, apresentação e joias bem escondidas: Daniel Rodrigues
O que se faz quando
um príncipe das trevas vai embora? A gente evoca. É isso que terá no MDC desta
semana, que reverencia a obra e o legado de Ozzy Osbourne. Além dele terão
também Jorge Benjor, Siouxsie & The Banshees, Cláudya, Talking Heads, Tom Zé
e mais. Também, Sete-List, Palavra Le, Música de Fato... Éh, madman, voceêvai
fazer falta neste mundo careta. por isso, faremos um culto macabro em sua homenagem quando derem as 21 badaladas na ritualística Rádio Elétrica. Producao e apresentacao: Daniel Rodrigues.
(Vai um pedacinho de morcego aí?)
"Com o resto do mundo pop ainda se recuperando do brilhante 'Remain in Light', o que poderia ser mais subversivo do que um disco limpo e feliz?"
Rob Tannenbaum, para a revista Rolling Stone, em 1985
"É muito divertido poder relaxar e tocar sem sentir que você tem que ser vanguardista o tempo todo".
Tina Weymouth
Pode-se contar nos dedos o número de bandas ou artistas que chegaram ao seu sexto disco de forma irrepreensível. Afinal, isso subentende já se ter começado acertando. Nem os Beatles, oscilantes no início da discografia, ou a Kraftwerk, que levou quatro trabalhos para encontrar sua verdadeira sonoridade, ou mesmo Bob Dylan, cuja musicalidade e visceralidade poética começaram a valer de fato a partir de seu segundo, o clássico “The Freewheelin’ Bob Dylan”. Não é fácil entender a si próprio já no início da carreira a ponto de “estar pronto” no primeiro disco, bem como manter a qualidade nos trabalhos subsequentes e, mais ainda, evoluir.
A Talking Heads pode orgulhar-se de ser esse exemplo de banda. O que David Byrne, Tina Weimouth, Cris Frantz e Jerry Harrison construíram em termos de discografia perfaz esse caminho: um disco de estreia, “77” (1977), já dotado dos principais elementos da sua sonoridade, algo entre o punk nova-iorquino e a new wave; um segundo álbum de consolidação da mesma ideia e encontro com o produtor Brian Eno, “More Songs About Buildings and Food” (1978); um terceiro que avança sobre si mesmos e põe o pé na vanguarda, “Fear of Music” (1979); um quarto de recriação de identidade, “Remain in Light” (1980), pisando fortemente no terreno da world music; e, no quinto, a emancipação do grupo e o encontro com o pop de “Speaking in Tongues” (1983).
Todo esse percurso irretocável de Byrne e cia. faz com que eles cheguem a “Little Creatures”, de 1985, maduros, experientes e integralmente autorais. O resultado é, se não é o melhor disco da música pop dos anos 80, o crème de la crème da própria banda, que soube evoluir e se aperfeiçoar. Totalmente produzido pelos próprios integrantes, "Little..." é a cristalização de todas as experiências sonoras, estéticas e conceituais que souberam, como músicos inteligentes e antenados, recolher desde que formaram o grupo. Assim, o disco soa ao mesmo tempo pop, rock, world music, experimental e vanguarda, tudo de maneira muito fluida e amalgamada, numa sequência de faixas daquilo que se pode chamar de “perfect pop” do início ao fim do álbum.
A clássica “And She Was”, dos melhores hits da banda e também das melhores aberturas de disco deles (e da discografia oitentista), dá os ares num pop-rock alegre, melódico, saboroso. O marcante refrão (“The world was moving and she was right there with it (and she was)/ The world was moving she was floating above it (and she was) and she was”), cantado em coro, é evidente legado de Eno para a banda. O britânico, que produziu a trilogia “More Songs....”/“Fear...”/“Remain...”, trazia na bagagem a influência dos cantos africanos e arábicos, o que foi parar na sonoridade de músicas da Talking Heads, como já se via em “Born Under Punches” (“Remain...”) a “I Get Wild / Wild Gravity” (“Speaking...”).
Por sua vez, Byrne, um dos mais inventivos e carismáticos artistas da sua geração, está excepcional nos vocais e como front man, assim como toda a banda, que atinge em “Little...” um nível técnico de excelência. Não é mais somente Tina a grande instrumentista do grupo: todos, com o auxílio da ótima produção musical, estão perfeitos. Tudo soa no lugar certo, na altura certa, na medida certa. As guitarras, outrora experimentais (“Fear...”, “More Songs...”) ou vanguardistas (“Remain...”), não se eximem desses exemplos e os adicionam ao contexto. O mesmo com a bateria. Se em “Speaking...” ela perde potência e no álbum subsequente se potencializa, em “Little...” está no meio termo, com o peso certo.
Esse equilíbrio, realizado sem perder identidade, é o que se vê em "Give Me Back My Name", que num primeiro momento lembra a atmosfera art rock de “Remain...” (“Houses In Motion”) e a densidade séria e introspectiva de "Warning Sing" ("More Songs...") ou "No Compassion" ("77"). No entanto, ela resulta num refrão novamente cantarolável e agradável, assim como “And...”. Tina, por sua vez, não deixa por menos e mostra porque o baixo da Talking Heads é um diferencial estético da banda.
Byrne, que avançaria em sua penetração no universo folk norte-americano no disco seguinte da Talking Heads, “True Stories”, de 1986, já trazia essa ideia em "Creatures of Love", das mais bonitas do repertório. Romântico e cotidiano, esse country típico, com violão de cordas de aço, guitarra com pedal steel e levada simples, diz: “Uma mulher fez um homem/ Um homem fez uma casa/ E quando eles deitaram juntos/ Todos saem pequenas criaturas”. Além de uma bela e tocante canção, é a que traz o título do álbum em sua letra. Semelhanças com “People Like Us”, que Byrne comporia para “True...”, não são coincidência.
Maior sucesso do álbum, "The Lady Don't Mind" é, mais do que isso, um dos grandes hits de toda a música pop dos anos 80. Quem não cantarolou e se divertiu com os vocais de Byrne cantando: “Pee-pee-pee-pee/ Pee-pee-pee-pee/ Peeree-pee-pee-pee”? Mas, claro, “The Lady...” não é feita apenas melismas esquisitos: é um legítimo pop perfeito (mas com cara de Talking Heads). O riff, feito de dois acordes dissonantes de guitarra com tremolo, que se contrapõem por outros dois em notas da mesma escala, só que invertidas, é emblemático. A percussão latina de Steve Scales é outra marca da música, grande responsável pelas ótimas vendagens do disco. O excelente viodeoclipe dirigido pelo cineasta Jim Jarmusch, com cenas de Nova York em P&B e cromatismos e que rodava direto na MTV à época, é também impossível de se esquecer.
O clipe de "The Lady Don't Mind",
do cineasta Jim Jarmusch
O primeiro lado do vinil se encerra com outra linda e, com o perdão da redundância, perfeita: "Perfect World". Aliás, quiçá dotada do mais bonito refrão de todo o disco. Igualmente cantada em coro, diz os versos: “This is a perfect world/ I'm riding on an incline/ I'm staring in your face/ You'll photograph mine” (“Este é um mundo perfeito/ Estou subindo uma ladeira/ Estou olhando na sua face/ Você vai fotografar a minha”). A melodia é tão bonita (principalmente, no refrão), que chega a emocionar. E ainda conta com as percussões mágicas de Naná Vasconcellos, que abrilhanta a música.
Animada, "Stay Up Late", assim como “And...”, abre um dos lados do LP em alto-astral. Pode-se dizer que é um aperfeiçoamento, em termos melódicos e de produção, do que haviam feito em “Speaking...”, que se ressente do peso que “Stay...” tem, principalmente na bateria de Frantz, aqui bem funkeada. Mas não só: as guitarras ao estilo “percussivo” de Adrian Belew de “Remain...” estão também presentes, mas integradas e menos “étnicas”. Uma suavização, que dá ganho à faixa no contexto em que está inserida.
Já "Walk It Down", outra maravilha, traz a típica melodia estranha de uma banda que não se exime de ser assim. Nunca se eximiu, aliás, pois sempre foi o diferencial deles diante da secura da cena punk nova-iorquina da qual eles emergiram. Os teclados de Harrison são fundamentais na textura dada a essa faixa, que traz elementos do conceito de produção aprendidos com craques com quem trabalharam, como Eno e Toni Visconti. E assim como “Give...”, segunda do lado A, “Walk...” repete a fórmula: melodia mais densa, mas um refrão que dá vontade de entrar de backing vocal com eles batendo palmas em ritmo: “Walk it down/ Talk it down/ (oh, oh, oh) Sympathy. Luxury/ Somebody will take you there”.
Como toda grande banda, a Talking Heads sabe muito bem montar repertórios – a se ver, por exemplo, o excelente setlist do disco ao vivo “Stop Making Sense”, de um ano antes. Então, eles deixam para o final a parte que impacta no encerramento de uma obra. Nisso, "Television Man", não à toa a faixa mais longa do álbum, vem cumprir esse papel de (quase) fechar o trabalho com uma melodia preciosa, marcada pela bateria potente de Frantz e um riff bem sacado, cheio de inteligência musical.
Os minutos a mais de “Television...” em relação aos outros números se justificam. Ah, e como se justificam! Pela metade da faixa, uma virada inesperada acontece. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Scales e a canção se transforma. Byrne, como bem sabe fazer, eleva os ânimos e energiza o clima, puxando um coro feminino para repetir com ele um simples: “Na-na-na-na-na-na”. Metais, linha de teclados que se cruzam, guitarras percussivas, solo de guitarra: tudo que há em temas como “Crosseid and Painless” ou “The Great Curve”, de “Remain...”, mas agora reelaborados, mais pop. O que começa mais contido se encerra em ebulição. Se Byrne já ensaiava proximidade com a música brasileira, a qual ele consolidaria anos depois no encontro com Tom Zé, Caetano Veloso e com a música nordestina, essa semente está em “Television...”. Além disso, a música, com sua visão sobre a TV e a sociedade de consumo, também serviria de fonte para “True...”, projeto multimídia de Byrne que envolvia música, cinema e livro e de semelhante sucesso de crítica e público.
A divertida contracapa do disco, com a banda em trajes espalhafatosos
Faltava, no entanto, o desfecho. Bem que o disco poderia acabar com “Television...”, que não haveria perda alguma. Mas, como dito, eles entendem de narrativa musical. Para quem já finalizou discos anteriores de forma brilhante, como “Drugs” em “Fear...” ou “This Must Be The Place” em “Speaking...”, não haveriam de deixar por menos. Tanto que guardam para o final aquela que, possivelmente, seja a melhor música do vasto e assertivo cancioneiro da Talking Heads: "Road to Nowhere".
Semelhante ao ritmo marchado de músicas mais antigas da banda, “Thank You For Sending Me An Angel”, de “More Songs...”, e “I Zimbra”, de “Fear...”, “Road...” adiciona algo que estas duas não tinham, que é um universo onírico e poético, como poucas vezes visto na música pop mundial. O começo é de estremecer quando as vozes em estilo gospel entram em uníssono e sem instrumentos, dizendo: “Bom, sabemos pra onde estamos indo/ Mas não sabemos onde estivemos/ E sabemos o que sabemos/ Mas não podemos dizer o que vimos/ E não somos criancinhas/ E sabemos o que queremos/ E o futuro é certo/ Nos dê tempo para entender”. É o prenúncio de uma impactante canção.
Aparece, então, a banda, como numa torrente sonora. Em um crescendo, a música fala sobre a humanidade, a qual “caminha a lugar nenhum” em busca... de amor. O clipe, dirigido pelo próprio Byrne em parceria com Stephen R. Johnson, transmite esse olhar humanista, que dominaria a temática de “True...” logo adiante. E isso sem deixar também de ser engraçado e performático, como nas cenas em que os membros da banda atuam ou na constante corrida sem sair do lugar de Byrne no canto inferior da tela. Profundamente inspirada, “Road...” traz essa mensagem otimista do mundo, intensificada pela instrumentalização, que vai se intensificando, inclusive pela adição do acordeom de Jimmy Macdonell e o washboard de Andrew "El Pantalones" Cader, literalmente uma tábua-de-lavar cujo uso musical é herdado da tradição folk norte-americana. Em êxtase, com um Byrne empolgado, coro intenso e banda contagiada, o último recado é dado, novamente somente com as vozes: “We're on a road to nowhere”. Linda, tocante, universal.
Completando 40 anos de seu lançamento, “Little...” é certamente o disco mais pop da Talking Heads. Pode não o preferido de todos os fãs, que invariavelmente mencionam outros como “True...”, “Remain...” e “Fear...”. Porém, é inegável que este trabalho sinteriza e reúne tudo que a banda fez e faria a partir de então. Além da capa brilhante, do artista outsider Howard Finster (melhor do ano pela Rolling Stone), “Little...” também foi eleito o álbum do ano pela Village Voice, semanário cultural alternativo mais tradicional de Nova York. Mais do que isso: é o disco de estúdio mais vendido da banda, com mais de dois milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos. Ao lado de outros discos memoráveis de 1985, “The Head on the Door”, da The Cure, e “Brothers in Arms”, da Dire Straits, “Little...” é o movimento de uma banda de origem rock, que adere ao pop sem danos à sua própria história. Poucos foram, entretanto, tão felizes como a Talking Heads nesse processo.
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FAIXAS:
1. "And She Was" – 3:36
2. "Give Me Back My Name" – 3:20
3. "Creatures of Love" – 4:12
4. "The Lady Don't Mind" (David Byrne/Chris Franz/Jerry Harrison/Tina Weymouth) – 4:03