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sábado, 18 de abril de 2026

Hallo Spaceboy

 






"Hallo Spaceboy" - REIS, Cly
arte difgital inspirada na canção "Hallo Spaceboy" de David Bowie
(GIMP)



"Hallo Spaceboy"
Cly Reis

segunda-feira, 6 de abril de 2026

cotidianas #892 - LMNT 4VR

 



Fotos com a galera na praia, fotos com as meninas na festa da Gabi, foto com as miga no Pop Festival... A Lari devia estar quase chegando pra irem juntas pra festa na casa do Edu. Enquanto isso, aproveitava pra baixar as fotos pro computador e selecionar as melhores.

Ai, essa não com a chata da Aline! Deletar! Own..., a Juli é um amor! Adoro essa foto junto com ela. Haha, o cachorro da Gabi. Essa eu tenho que guardar. Ah, não! O Marcelo... Pior que essa foto tá ótima. O que estraga é ele.

Havia terminado com o Marcelo havia poucas semanas e, naquele momento, a imagem dele era algo pouco agradável, era alguém que preferia não ver. E pensar que teria que encontrá-lo na festa...  Mas não tinha jeito: ele também era amigo do Edu e estaria lá de qualquer forma. Preferia não deletar uma foto tão legal, no sítio do pai da Lara, com as meninas, com o Jefinho que é um cara massa, com o Rafa que é gatinho... Bem que podia eliminar só o Celo!

Procurou no Google algum aplicativo que removesse imagens indesejáveis. Remove-It, Photo X-clude, Edit 4U... 'LMNT 4VR, elimine para sempre aquela figura indesejável'. Nunca tinha visto esse, nunca tinha ouvido falar. Adorou a chamada! Era exatamente isso que queria: remover o Marcelo para sempre de qualquer lembrança.

Entrou. Arraste sua foto para cá. Colocou lá a fotinho. Use o pincel para apagar. Passou o cursor em forma de número 4 apenas sobre a imagem do ex. Você realmente deseja eliminar este elemento? Pensou um pouco... Confirmou. SIM.

Nesse momento a mãe entrou no quarto e avisou que a Lari estava lá  embaixo e que era para ela descer. Baixou a tampa do laptop, apagou a luz do quarto e saiu para a festa. 

Selfies, poses, drinks, baseados, paqueras! A galera tava toda lá. Quer dizer, todo mundo menos o Marcelo. Estranho! O Gui veio com a piadinha, "Tem alguém que não apareceu por aqui hoje... Será que é dor de corno?". Não enche, Gui! A Gabi encostou nela e, de forma bem mais conveniente questionou: "Sabe do Celo?". Não sei e não quero saber, respondeu. De fato não queria saber, mas que era estranho não ter ido à festa, era. Além de não costumar se abalar com qualquer rompimento, finais de namoro, era amigo de infância do Edu e além disso todos os rapazes, os amigos estavam lá, o pessoal do time, do clube, do inglês...

Marcelo não apareceu aquela noite e não apareceu mais.

Não fora mais visto.

Polícia, noticiários, família desesperada... Como se tivesse evaporado.

Nada a ver, mas começou a pensar naquele aplicativo... Desde a noite em que resolveu apagar o Marcelo, ele não apareceu mais. E era um app estranho pra falar a verdade. Nunca tinha visto nem ouvido falar daquela coisa. 

Será???

E se testasse? Pra conferir se era isso mesmo. Se o tal aplicativo teria alguma coisa a ver...

lmnt4vr.com

Entrou.

(Com quem faria o teste?)

A Aline era uma chata, mesmo...

Arraste sua foto para cá. Colocou lá a foto. A Aline toda sorridente no churrasco na piscina.

Use o pincel para apagar.

Passou o cursor apenas sobre a imagem do desafeto.

Você realmente deseja eliminar este elemento?



Cly Reis


sexta-feira, 27 de março de 2026

"Cassino Royale", de John Huston, Ken Hughes, Val Guest, Robert Parrish e Joseph McGrath (1967) vs. "Cassino Royale", de Martin Campbell (2006)

 



Num ano em que O Agente Secreto brasileiro tem brilhado mundo afora, tendo estado pertinho de ganhar um Oscar, nosso Clássico é Clássico (e vice-versa) abre o ano cinefutebolístico com um confronto que traz ninguém menos que o maior agente secreto do cinema. Sim, senhoras e senhores, Bond, James Bond, o 007, em duas versões que usarão de todas as suas armas e recursos para derrotar o oponente e mostrar quem é o verdadeiro clássico do cinema.

Pouca gente sabe mas, antes de ser o ponto de retomada da franquia 007, apresentado Daniel Craig, "Cassino Royale" já tivera uma versão ousada e estrelada nos anos '60. Esse original, embora já contemporâneo da conhecida franquia de ação e aventura com os galãs invencíveis e sedutores vividos por Sean Connery e Roger Moore, entre outros, não fazia parte oficialmente daquela série e, por sua vez, ao mesmo tempo que prestava uma homenagem ao personagem, também o satirizava. O conhecido poder de sedução e a fraqueza por mulheres do agente britânico são elementos importantes na confusa e estapafúrdia trama da primeira versão que é composta por cinco segmentos amarrados entre si pela eliminação de outros agentes zero-zero por uma organização chamada SMERSH. James Bond, então, aposentado, é convencido a voltar à ativa para investigar e deter o grupo criminoso que usa exatamente de armas de sedução para sequestrar os agentes e pensa em atingir o mulherengo Bond desta mesma forma. Mas a coisa fica completamente sem pé nem cabeça! Bond tem a ideia de infiltrar falsos 007 entre suspeitos da tal organização. O mais relevante na trama e o melhor deles é Peter Sellers que, especialista em cartas, no jogo de bacará, que virá a enfrentar o especialista em baralho, Le Chiffre, desesperado para recuperar suas finanças num jogo decisivo para sanar suas dívidas e salvar a própria vida de seus credores.

"Cassino Royale" (1967) - trailer


"Cassino Royale" (2006) - trailer


Nesse ponto as histórias se cruzam, no novo "Cassino Royale", a MI6 tem a informação que um financiador terrorista, Le Chiffre, endividado por um negócio frustrado pretende recuperar seus fundos numa mesa de jogo num torneio particular em Montenegro num local chamado Cassino Royale.

Bond então se prontifica a ser incluído na mesa, como um milionário apostador qualquer, a fim de evitar que Le Chiffre vença e levante o dinheiro. Aí entra outro ponto de convergência entre as duas versões: Vesper Lind. Na última versão ela é a representante do Tesouro Nacional que vai financiar, sob risco, a aposta de Bond na mesa de pôquer, já na primeira, é uma milionária que conduz o falso Bond, Evelyn Tremble ao cassino para enfrentar Le Chiffre.

Os dois Bond vencem os Le Chiffre de cada uma das histórias, ambos são torturados, cada uma à sua maneira, para entregar o dinheiro ao vilão, e em ambas as situações Le Chiffre é morto por seus credores. Enquanto o antigo conduz tudo isso com um humor estranho e psicodélico, o novo o faz com dramaticidade e uma intensidade até então poucas vezes vistas num filme da franquia. A tortura do então estreante Daniel Craig no papel de 007 é das mais brutais e dolorosas que se possa imaginar para um homem, mas que, curiosamente, tem lá também, em meio à dor, seu toque de humor.

Enquanto a refilmagem segue a trilha dos financiadores terroristas, do  dinheiro perdido na primeira operação frustrada, perseguido por Le Chiffre, barrado por Bond, perdido por ele mesmo depois, até que vá atrás de quem o traiu e permitiu que fosse parar nas mãos dos bandidos, o original é uma salada de situações cuja conexão entre si é tão frágil que chega a ser quase inexistente. Tem a filha de Bond com a espiã Mata Hari, Mata Bond, que é sequestrada por um disco voador gigante, tem o sobrinho Jimmy Bond (Woody Allen) que se revela o grande vilão por trás de toda a trama, o Dr. Noah, cujo grande objetivo é tornar-se alto e mais atraente para as mulheres, tem uma grotesca invasão de soldados, coubóis e índios ao cassino para enfrentar os criminosos, tem uma explosão atômica de soluços, enfim... uma miscelânea caótica!

O filme de 1967 tinha um timaço! Além de um dos episódios ter sido dirigido e estrelado por John Huston, a seleção contava ainda com David Nível, Deborah KerrPeter SellersWoody AllenOrson Welles, Ursula Andress e Jean-Paul Belmondo. Infelizmente, de um modo geral, muito mal aproveitados num filme sem pé nem cabeça. Peter Sellers, como Tremble, Ursula Andress, como Vesper, e Welles, como Le Chiffre, ainda conseguem se salvar, mas de resto, é só talento e qualidade desperdiçados. Parece aquele time cheio de craques mas com jogadores escalados fora de posição ou em funções que não rendem o seu melhor.

Já o time de 2006 é aquele elenco equilibrado com os jogadores no lugar certo. Tem a craque Judy Dench, no papel da chefona M, o ótimo jogador Mads Michelsen fazendo um bom Le Chiffre, a competente Eva Green como Vesper Lind, e o limitado Daniel Craig no papel principal dando conta do que é esperado dele. É tipo aquele centroavante que até é ruim tecnicamente, mas que, se cair na frente dele, ele mata. É artilheiro!

"Cassino Royale" (1967) - créditos de abertura



"Cassino Royale" (2006) -
Sequência da perseguição em Veneza

Cassino Royale '67 leva poucas vantagens. A abertura com uma animação colorida e psicodélica é mais interessante que aquela tradicional de silhuetas e balas voando em câmera lenta da franquia oficial. O original faz 1x0 no início pela abertura, mas não sustenta. O jogo de Cassino Royale '06 é bem melhor e mais desenvolvido. Não é nada brilhante, nada espetacular, mas tem andamento, tem sua lógica, tem coerência, e por isso não demora a empatar: 1x1

Embora interpretado por grandes nomes do cinema na primeira versão, como David Niven e Peter Sellers, o estreante Daniel Craig é melhor na função do que os craques do outro time e vira o jogo para o remake. 1x2.

A propósito, Orson Welles é um gênio do cinema, uma dos maiores de todos os tempos, não faz mal o que o ténico lhe pede, mas o Le Chiffre de Mads Michelsen é muito melhor. Aquela cara cínica, aquela expressão implacável e o interessante detalhe do olho lacrimando sangue conferem a ele um lugar únioco e de destaque entre os vilões de James Bond. 1x3 para CR'06

Agora unido os dois, o jogo de cartas no cassino, bacará na primeira versão e pôquer na segunda, além do fato de ser ridículo e risível no confronto entre Peter Sellers e Orson Welles, é muito mais tenso e relevante no confronto de Craig com Mads Michelsen, com direito a reviravolta, envenenamento e ressurreição. 1x4. Já virou goleada!

O time de '67 esboça uma reação com a interessante sequência da missão de Mata Bond, a filha de James Bond, em Berlim, num episódio que, apesar dos absurdos como a viagem de táxi de Londres até a capital alemã, contém mais ação, mais espionagem e uma estética muito legal que mistura psicodelia com expressionismo alemão, com cenários coloridos, geométricos e distorcidos. 2x4. Gol de Mata Bond.

Mas se vamos falar de sequências, a cena em Veneza põe por água abaixo qualquer ambição do filme antigo. A descoberta de Bond, a perseguição, os incríveis desmoronamentos da cidade, o final dramático com a amada Vesper Lind, tudo, toda a jogada, todo o envolvimento garante mais um gol para Casino 2006. 2x5.

Cassino '67, repleto de craques, até faz mais um na tabelinha de Burt Bacharach com Dusty Springfield. O maestro cria toda a jogada para a loura, com sua belíssima voz, completar com classe para o fundo das redes com "The Look of Love", canção indicada na época ao Oscar que não faz feio diante de nenhuma outra da franquia consagrada. Mas não é o suficiente para mudar a história do jogo. 3x5 e até que saiu barato.

Cassino Royale de 1967 apostou todas suas fichas num elenco estelar mas não contava com um jogo mais equilibrado do adversário que soube distribuir bem suas apostas entre a trama, a ação, o suspense e a dramaticidade. Cassino Royale 2006 limpou a mesa!

O jogo entre James Bond e Le Chiffre nas duas versões.
À esquerda, Peter Sellers contra Orson Welles;
à direita, Daniel Craig contra Mads Michelsen.




Gooooool do CR'06?
Sabe de quem?
Você sabe o nome dele!
Bond, James Bond. É dele a camisa 007.


Cly Reis

terça-feira, 17 de março de 2026

quinta-feira, 12 de março de 2026

Clyblood #8 - "Pecadores", de Ryan Coogler (2025)


INDICADO A:
MELHOR FILME
DIREÇÃO
ATOR
ATRIZ COADJUVANTE
ATOR COADJUVANTE
ROTEIRO ORIGINAL
SELEÇÃO DE ELENCO
DIREÇÃO DE ARTE
FOTOGRAFIA
FIGURINO
MONTAGEM
MAQUIAGEM E CABELO
SOM
EFEITOS VISUAIS
TRILHA SONORA ORIGINAL
CANÇÃO ORIGINAL


O blues é a música do Diabo
por Cly Reis

As impressões que me passavam a respeito de "Pecadores" na época do lançamento eram simplistas, genéricas e um tanto depreciativas. Havia uma opinião corrente que se tratava de nada mais que um novo "Um Drink no Inferno" em outro contexto. Aí que fui para ele com a expectativa de assistir a mais um filme de vampiros qualquer sem maiores qualidades. Foi até bom esperá-lo desta maneira pois aos poucos foi, cada vez mais, revelando valor, qualidades, mostrando que, absolutamente, não se resumia a uma aventura banal, um terror barato com tema batido, uma imitação oportunista.

"Pecadores" é um filme sobre a identidade do negro, a alma do negro e a tentativa de intimidar suas manifestações e, não sendo possível isso, roubá-la.

No longa, dois gêmeos retornam à sua cidade depois de muito tempo, com a intenção de abrir uma casa de blues só para negros. Na noite de abertura, um pequeno grupo de brancos aparece no local e insistem em serem convidados a entrar na festa. Os três misteriosos brancos virão a se revelar, na verdade, vampiros que, não conseguindo entrar, tentam então contaminar outros negros de modo a atingir os demais lá dentro.

Uma metáfora sobre a apropriação da cultura negra, da interferência, da vigilância sobre os hábitos e tradições dos afrodescendentes na América. Algo como, "Se não pudermos fazer parte, tomamos para nós e ainda destruímos a imagem de vocês".

Muito mais do que apenas um filme de vampiro, muito mais do que meramente um filme sobre blues, "Pecadores" se utiliza da linguagem do horror para expor o verdadeiro terror de uma realidade de perseguições, violência, covardia e humilhação, mas muito hábil funde essa treva, esse mal, à beleza do blues, à riqueza da cultura negra criando uma obra única na filmografia recente do cinema.
A cena da festa, em que o jovem bluesman toca e evoca toda a cultura negra, ancestral e futura, para o salão é algo mágico e absolutamente emocionante. De arrepiar!!!

Grandes atuações, especialmente de Michael B. Jordan (que eu nem gosto muito) fazendo os gêmeos protagonistas, grande trilha sonora, ótima maquiagem, direção competentíssima! "Pecadores" justifica seu grande número de indicações ao Oscar pelo grande número de virtudes que tem em diversos âmbitos. Se vai ganhar em muitas é outra história, mas as nomeações por si só valorizam suas qualidades.

"Pecadores" é terror, é musica, é drama. É sangue, é pele, é ritmo. É vermelho, é negro, é blue! E se o blues é a música do diabo, como muitas lendas falam a respeito de pactos, maldições, almas perdidas, nada mais apropriado que essa tenha sido o tema dessa obra que já nasce como um novo clássico do terror, do cinema de vampiros e do cinema negro. Deixem tocar o blues!

O blues invocando espíritos do passado e do futuro.




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Sangue sem pecado
por Daniel Rodrigues


Ryan Coogler
, assim como outros cineastas negros norte-americanos da nova geração, como Steve McQueenJordan PeeleKasi Lemmons e Anthony Fuqua, são comprometidos com a causa negra. Todos sabem que, diante do nível que alcançaram dentro na indústria cinematográfica depois de décadas de apagamento da voz negra, não podem perder oportunidades de dizerem aquilo que ficou por tanto tempo silenciado. Em “Pecadores”, filme premiado de Coogler recordista em indicações ao Oscar na história, com 16 - batendo  "A Malvada" (1950), "Titanic' (1997) e "La La Land" (2016), todos com 14 -, essa máxima prevalece. E de uma forma bem original.

Com figurinos, atuações, direção de arte e, principalmente, uma trilha sonora acachapante, “Pecadores” traz a história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que voltam à sua cidade natal com o objetivo de reconstruir a vida e apagar um passado conturbado. Endinheirados, eles querem montar um juke joint, casa noturna com música ao vivo para a comunidade negra. Porém, uma força maligna passa a persegui-los e busca tomar conta da cidade e de todos os cidadãos, obrigando-os a lutar para sobreviver e a lidar com lendas e mitos ameaçadores à suas existências. É a luta dos vampiros brancos contra os mocinhos pretos.

Celebrado por gente como Spike LeeChristopher Nolan e Tom Cruise, Coogler não só realiza um filme diferenciado como exercita sua já provada versatilidade, uma vez que é diretor de dois blockbusters dos tempos atuais, o revolucionário MCU “Pantera Negra” e a exitosa franquia “Creed”, spin-off de “Rocky”, dois projetos totalmente distintos, mas ambos construídos com muita habilidade por ele. Ao colocar a questão do preconceito racial no cerne de um thriller de terror, o cineasta reafirma o inteligente caminho aberto por Peele em “Corra!” e “Nós”, marcos do que se pode chamar de neo black horror, porém adicionando uma problemática há muito aventada, mas pouco discutida: a apropriação cultural.

O caminho é o que se conhece: a sociedade brancocêntrica primeiro nega a existência do negro, relegando-o ao “não-ser”, apaga sua história, descredibiliza sua produção intelectual e o oprime moral, material e fisicamente para, feito isso, roubar-lhe suas riquezas. Uma delas, e talvez a de maior evidência nesse histórico roubo simbólico, é a música. Em “Pecadores”, essa questão é o centro da disputa: por inveja dos caipiras brancos dessa cultura preta verdadeira e elevada, eles tornam-se vampiros. De sangue, literalmente, o mesmo que mentem ser desprovido de nobreza, mas que tanto se mordem (opa, no pescoço?!) por não tê-los correndo em suas veias.

Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.

Antológica cena de "Pecadores" em que a magia da música negra faz o tempo se diluir

As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.

Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.

trailer de "Pecadores"





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"Pecadores" 
título original: "Sinners"
direção: Ryan Coogler
elenco: Michael B. Jordan, Delroy Lindo, Hailee Steinfeld
gênero: terror, ação, musical
duração: 138 min.
país: Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: HBO Max e Prime Video (pago)

quarta-feira, 4 de março de 2026

Plabe Rude 4.5 & 40 anos de "O Concreto Já Rachou" com abertura de Fausto Fawcett - Circo Voador - Rio de Janeiro/ RJ (27/02/2026)




Uma celebração do rock, do rock nacional, dos anos 80, de algumas lendas vivas da nossa música!
Assim foi o show da Plebe Rude em comemoração pelos 40 anos do clássico álbum "O Concreto Já Rachou".
A abertura com o cultuado Fausto Fawcett já deu o tom da noite de nostalgia. Com suas personagens pitorescas, histórias mirabolantes envolvendo mídia, violência e sensualidade e situações que só uma mente singular e criativa como a dele poderia conceber, Fausto, com uma dupla de músicos versáteis e bases pré-gravadas levantou a bola com qualidade para a atração principal da noite, a Plebe Rude.
Patinho feio de Brasília, banda menos badalada da cena brasiliense dos anos 80 se comparada às superstars Lagião Urbana e Capital Inicial, a Plebe sempre teve seu público e tem suas armas com um repertório mais agressivo, mais direto e contundente que a maioria da geração BR80. E, amigo, é só pedrada! Contestação, protesto, desafio ao poder, "Sua História", "Censura", "Códigos", "Descobrimento da América". A primeira parte do show foi marcada por um passeio pela trajetória da banda, tocando músicas de vários álbuns e momentos distintos da carreira, além de homenagens a ídolos e referências como Clash e Ramones, brincadeiras como a mistura de RPM com Midnight Oil, inserções de e covers como a bombástica "Hollidays In Cambodja", dos Dead Kennedy's que foi a grande responsável por quebrar a timidez do público e abria roda punk. O segmento, final, aí sim, trouxe a atração esperada por todos, a execução das faixas do grande clássico da banda, "O Concreto Já Rachou". O epílogo foi emocionante em vários momentos, a começar pela surpresa da presença de Jander Bilaphra, vocalista original e um dos fundadores da banda que eu, erroneamente, tinha notícia que teria falecido. Felizmente se tratava de mais um boato de internet e o cara estava lá, visivelmente emocionado, para interpretar a fodástica "Johnny (vai à guerra outra vez) para delírio dos plebeus ali presentes. 

"Johnny (vai à guerra outra vez" - 
Plebe Rude com participação de Jander Bilaphra

Clemente Nascimento, lenda do rock nacional, substituto de Jander desde sua saída e recém recuperado de um sério problema cardíaco que quase tirou sua vida, também comovido, fez uma breve cover solo de "Sujeito de Sorte" de Belchior que manifesta exatamente essa glória de estar vivo depois de uma situação tão séria e estar pronto pra outra, "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro". O próprio Clemente comandou "Pátria Amada" de sua banda de origem "Os Inocentes, enquanto Phillipe Seabra, o vocalista e líder da banda, se deslocava para o meio da pista para comandar do meio da galera uma insana e furiosa roda punk ao seu redor. Espetacular! Dali, do meio da roda, praticamente nos braços do público, comandou o clássico "Proteção", com uma inserção de "Selvagem" dos Paralamas e "Pânico em SP" dOs Inocentes, versão um pouco longa demais, é verdade, mas nada que comprometesse o grande acontecimento que estava se dando ali. De volta ao palco ainda teve a destruidora "Brasília", rachando o concreto dos Arcos da Lapa e, por fim, a tão esperada "Até Quando Esperar", com introdução de "Blitzkreig Bop" dos Ramones,  para levar aqueles devotos à catarse, ao êxtase derradeiro.
Uma noite histórica! Uma noite de celebração total! Celebração do punk, uma celebração pela presença do eterno plebeu Jander Bilaphra, pela volta praticamente do mundo dos mortos de Clemente, pelos 45 anos da Plebe Rude, pelos 40 anos d"O Concreto Já Rachou"! Uma celebração à vida!
Viva quem nunca morreu, viva quem nasceu de novo, viva quem é imortal, viva a plebe!


🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

Fiquem com algumas imagens da noite histórica no Circo Voador:

O grande Fausto Fawcett abriu os trabalhos da noite

Fawcett cantado seu Rio belo e selvagem em "Rio 40 Graus"

Este seu blogueiro com o Fauno de Copacabana,
Fausto Fawcett

Fausto interpretando seu maior hit que não poderia faltar, 
"Kátia Flávia"


A Plebe em ação no palco do Circo


Muito vigorosa e vibrante a Plebe continua contundente e relevante


O líder Phillipe Seabra,
energia, carisma e simpatia



Clemente foi tão celebrado quanto a banda
por sua representatividade no universo punk
e por sua recuperação depois de seu problema de saúde


O fundador André X com o substituto de luxo Clemente


Phillipe Seabra e Clemente Nascimento

Momento histórico! A roda punk em volta de Phillipe
durante "Proteção"

O clássico "Até Quando Esperar" com introdução de Ramones




Cly Reis

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Leadbelly - "Easy Rider" (2018) - gravações entre 1939 e 1947

 



"Essa música foi escrita
 pelo meu artista favorito."
Kurt Cobain antes de cantar
"Where Did You Sleep Last Night?", 
no MTV Unplugged in New York



Conheci Leadbelly no Acústico do Nirvana. Lembro que meu irmão Daniel, o parceiro deste blog, que ouvira antes, me antecipou, "tu vai adorar a última música". A última, o encerramento daquele célebre especial da MTV, era nada menos que "Where Did You Sleep Last Night?", uma canção dolorida de amor e de ciúme, que depois vim a saber que era de um bluezeiro das antigas que eu até então, nunca tinha ouvido falar.
Hoje em dia sou fã de blues, colecionador, mas mesmo assim demorei pra ter algo do cantor. Depois de conseguir, muito barato, numa feira de praça, um exemplar da coleção Mestres do Blues, que me deu a iniciação à obra do bluesman, em busca de uma que tivesse o clássico imortalizado na voz sofrida de Kurt Cobain, adquiri também a excelente compilação "Easy Rider".
Existem muitas coletâneas de Leadbelly mas essa tem algo de especial: tem, possivelmente, as três melhores canções desse excepcional artista, combinação que curiosamente, não é muito comum nas edições que reúnem seus grandes trabalhos. A tradicional "Midnight Special" interpretada por inúmeros outros artistas do blues mas que na voz de Leadbelly ganha uma aura quase canônica, uma atmosfera de oração; a eletrizante "The Gallis Pole", e, é claro, "Where Did You Sleep Last Night?".
É claro que a qualidade e os destaques da obra de Leadbelly não se resumem a essa trinca. "Roberta", de interpretação inimitável; o clássico também já ouvido em diversas vozes "Rock Island Line"; a genial "Black Betty" marcada na palma da mão; a ótima "John Hardy" intensa e elétrica, e "Easy Rider" que dá nome à coletânea, são algumas das outras que merecem especial menção.
Ouvindo bem Leadbelly a gente percebe que não à toa Kurt Cobin gostava tanto do cantor e fez de uma música dele seu último canto. Leadbelly é muito rock'n roll e hoje eu vejo que, de um modo geral, não só pelo réquiem televisionado pela MTV, o Nirvana tinha muito de Leadbelly, Difícil é decidir qual a melhor versão de "Where Did You Sleep Last Night?".

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FAIXAS:
1. Easy Rider
2. Midnight Special
3. John Hardy
4. Pretty Flowers In My Back Yard
5. The Gallis Pole
6. The Boll Weevil
7. Leaving Blues
8. Where Did You Sleep Last Night?
9. Black Betty
10. C.C. Rider
11. In New Orleans (House Of The Rising Sun)
12. Fannin Street
13. Roberta
14. Whoa Back, Buk
15. Rock Island Line
16. Goodnight Irene

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Ouça Leadbelly:
Lead Belly - The Authorized Leadbelly Collection



Cly Reis

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Corpo Encantado das Ruas", de Luiz Antonio Simas" - ed. Civilização Brasileira (2020)




"Nos últimos anos comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo. O primeiro é o de que os temas que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo das sapiências das ruas: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros, pequenos comércios, quermesses de igrejas, saberes da trívia e os modos de criação da vida de crianças, mulheres e homens comuns: aquilo que podemos definir como cultura."

"Temos cada vez mais necessidade de ousar olhares originais contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo."
trechos do livro "O Corpo Encantado das Ruas"



"O Corpo Encantado das Ruas" é a exaltação daqueles hábitos urbanos que foram escasseando, sumindo, sendo aos poucos extintas, por conta das modernizações, da tecnologia, das pressões socais, do politicamente correto que sufocam a cidade e seus cidadãos roubando, a cada dia, um pouco do prazer de viver nas coisas simples.

Práticas, pessoas, lugares, comidas, são lembradas pelo sempre aprazível Luiz Antonio Simas, professor e historiador, mestre em história social, botafoguense apaixonado e especialista em carnaval, com a nostalgia de quem viveu coisas tão gostosas, puras, curiosas, ímpares do cotidiano carioca, mas que agora lamenta o impositivo sepultamento desses costumes que nos faziam um pouco mais humanos. 

Simas nos apresenta personagens lendários das ruas do Rio, recupera os antigos blocos de bairro, festejos, fala com saudade das brincadeiras de rua como pipas e carrinhos de lomba, reverencia acepipes clássicos de boteco, cita remédios naturais da sabedoria do povo, lamenta a arenização do futebol e a elitização da torcida, e sobretudo exalta a cultura negra dentro do contexto da identidade do Rio de Janeiro, seja nos terreiros de umbanda, nas esquinas, nas comidas, na sabedoria popular ou no carnaval.

Livro gostoso em cada capítulo, cujos episódios e passagens são expostos de forma, às vezes, melancólica, é verdade, mas não por isso menos suave e, não raro, divertida e engraçada. Faz a gente ficar com uma certa saudade do tempo em que as coisas eram mais simples.



Cly Reis


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

cotidianas #886 - Sexta-Feira 13 de Carnaval: Sangue, suor e folia

 



Varre, varre, varre. É lantejoula, é  plástico, é papel, é pano. Aquele barracão fica um lixo só quando todo mundo sai. Ficam só uns pra dar os últimos acabamentos, deixar tudo prontinho. Pra não atrapalhar os últimos que ficaram pra dar  aqueles retoques finais e aquelas frescuras, vou pra parte onde as coisas já estão prontas. Colares, chapéus, máscaras, penduricalhos... só varrer com cuidado sem derrubar nada.

Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só  papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano  não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock,  hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?

Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?

Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.

Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.

Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.

Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.

Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.

Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.


Cly Reis 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Criatura Subaquática

 






Criatura Subáquatica
foto com manipulação digital: Cly Reis




'Criatura Subaquática'
Cly Reis

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Arte do ClyBlog em 2025

 





Antes tarde do que nunca!

A nossa retrospectiva da produção visual do ClyBlog acabou atrasando por diversos fatores, mas em tempo, destacamos aqui alguns dos trabalhos digitais, manuais, de vídeo da seção ClyArt, anúncios e chamadas em redes sociais, variações dos logos do blog e das nossas seções. Um pouco da criatividade visual que expressamos no ClyBlog ao longo do ano passado.


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O logo, como sempre ganhando variações de luzes, cores e texturas

Os logos das seções também ganham variações em ocasiões especiais,
mas se tem um que sempre muda conforme o tema da postagem é o ClyArt 

A seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, por exemplo, é uma que também celebra
datas e acontecimentos importantes. E homenageia aqueles que nos proporcionam grandes discos.
Esse ano, um dos lembrados, foi o novo oitentão, Ivan Lins

E teve estreia de seção nova no blog.
A Clyblood, parte da Claquete dedicada aos filmes de horror,
cjhega derramando sangue no visual do ClyBlog



As artes digitais que transformam MPB em HQ's ou em filmes apareceram de novo no ClyArt.
Destaque aqui para Maria Bethânia comandando os raios e para os heróis (ou anti-heróis) brasileiros do Sepultura

Recuperamos as antigas capas de fita K7 feitas artesanalmente, recorte, colagem e muita criatividade.
Aqui a capa de Gil & Jorge, feita por Daniel Rodrigues


Imagens sempre ilustram os contos, crônicas e poemas da seção Cotidianas.
Aqui, arte de Cly Reis, 'Eu Sou a Ressurreição'.

A inteligência artificial também foi usada para ajudar na arte 
do conto "Meu Pobre English"

A gente divulga o ClyBlog nas redes sociais e esta foi
uma das artes que produzimos e espalhamos por aí no ano que passou

A vídeoarte também foi destaque no ClyBlog e Daniel Rodrigues 
produziu a instigante e enigmática 'Waterfire"


 


CR e DR




quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

ClyBlood#6 - Especial de Natal - "A Invasora", de Alexandre Bustillo e Julien Maury (2007)



Noite de Natal. Há quem prefira a confraternização com parentes e amigos na comemoração do nascimento de Cristo, e os que preferem fugir de toda a agitação , uma espécie de isolamento introspectivo. Sarah até tinha o que comemorar, o filho que estava prestes a chegar, mas por outro lado também tinha motivos para lamentar e refletir. Um acidente de carro levara seu marido mas poupara a ela e ao bebê que levava no ventre. Agora, meses depois, na véspera de Natal, sua opção foi pedir a casa de um amigo, se afastar do resto do mundo, se isolar de tudo, refletir, lamentar uma vida que se fora e esperar pela nova vida que virá. No entanto, uma indesejada visitante viria a lhe perturbar a paz. Uma misteriosa mulher insiste em entrar na casa e, depois de ardilosamente conseguir, faz do retiro natalino de luto de Sarah, uma verdadeira noite infeliz. A todo custo, sem limites, sem piedade, a invasora tenta, com todos os recursos possíveis, matar aquela mulher grávida. O resultado dessa caçada dentro de uma casa suburbana francesa é um banho de sangue e brutalidade num nível quase insuportável.

Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.

O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.

Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo. 

Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida
que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal.


Cly Reis

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"A Invasora"
título original: "À l'intérieur"
direção: Alexandre Bustillo e Julien Maury
elenco: Alysson Paradis, Béatrice Dalle
gênero: horror, terror psicológico, gore
duração: 78min.
país: França
ano: 2007
onde assistir: MUBI, TV Macabra e YouTube