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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Duas (ou mais) músicas em uma

Sabe aquela música você está lá ouvindo-a numa boa, até que, de repente, tudo muda? O que era um rock agitado vira uma balada romântica. O que começa como um folk-rock se transforma num break dançante. O que parecia ser só uma melodia inocente passa, de uma hora para outra, a ser uma canção folclórica latina.

É meio raro de acontecer e não é fácil de dar certo, mas todos esses exemplos realmente existem. Algumas joias tanto da discografia rock quanto da MPB, principalmente, seguem essa métrica diferente. Diria até surpreendente de incorporar duas músicas em uma.

E não estamos falando aqui daquelas que só têm um finalzinho diferente, criativo. Isso é bem mais comum e não nos vem ao caso agora. Poderíamos talvez até falar de “Cry Baby Cry”, dos Beatles, que, após uma balada romântica de Lennon, tem McCartney encerrando-a cantando lindamente outra melodia, a de "Can You Take Me Back". Mas é tão curtinha! Apenas 28 seg, o que não dá para chamar de “virada”. Outra que até poderia é “Mask”, da Bauhaus, que se estabelece como uma marcha soturna quando, encaminhando-se para o fim, entra um solo de violão que altera totalmente a atmosfera, tornando-a algo ritualística. A base, contudo, mantém-se, então, também não conta. Muito menos aquelas que vão se transformando em si próprias, minissinfonias, tal "Menina Goiaba" (Gilberto Gil), "Happiness Is a Warm Gun", (Beatles) ou várias coisas dos progressivos.

Falamos aqui, sim, de belas músicas que já eram boas de um jeito, mas que, repentina e deliberadamente, viram outra coisa. E tão legal quanto, como se fossem duas obras em uma só.

Como toda lista, obviamente, a intenção não é dar conta de todos os casos com esse perfil. Longe disso. Como estes, certamente existe uma infinidade de registros, que não lembramos ou, muito mais numerosas, que nem conhecemos.


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Feedback Song for a Dying Friend – Legião Urbana (1989)


A Legião Urbana era dotada de muita inventividade. Se faltava apuro técnico aos seus integrantes como instrumentistas após a saída do excelente baixista Renato Rocha, sobrava criatividade e referências culturais inteligentes a Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e 
Renato Russo, principalmente. Nessa linha, "Feedback...", do disco “As Quatro Estações”, de 1989 (o primeiro do grupo como trio), é exemplar. Um hard rock cantado em inglês, no melhor estilo Led Zeppelin, que, lá pelo seu final, a aproximadamente 3 min20’ e depois de uma parada dramática, a música se transforma numa deslumbrante dança da Grécia Antiga. E mais legal: a letra segue, com Renato cantando ainda mais lindos versos até finalizá-la epicamente.

OUÇA


Layla – Derek & The Dominos (1970)

Quem gosta de cinema e de rock jamais conseguirá dissociar esse clássico do rock do filme “Os Bons Companheiros”. A sequência com a câmera em travelling encontrando os corpos de assassinados congelados dentro do caminhão refrigerado é, além de uma das mais memoráveis da filmografia de Martin Scorsese, aquela que tem a canção da Derek and the Dominos (leia-se Eric Clapton). Mas Scorsese, grande amante de rock e de música, soube exatamente que trecho de “Layla” extrair para montar a sua cena: a segunda parte desse blues eletrificado, justo quando o piano de Jim Gordon (não à toa, coautor da música) é quem dá as cartas com uma balada lírica. 

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Televison Man – Talking Heads (1985)

David Byrne e sua trupe sempre foram muito criativos e já haviam ensaiado viradas que surpreendem em outras músicas. Porém, nada como esse pop rock empolgante que é “Television Man”. Penúltima faixa de um disco tão pop quanto perfeito da Talking Heads, o "Little Creatures", “Television...” se desenvolve melodicamente de forma muito agradável e contagiante, até, por volta de 2min30' (ou seja, menos da metade da duração dela, de 6min10'), toma um rumo que a potencializa. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Steve Scales, Byrne puxa um coro feminino para repetir com ele: “Na-na-na-na-na-na”, além de metais, linha de teclados que se cruzam e guitarras percussivas. Um êxtase.

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Novacane – Beck (1996)

Beck estava afiadíssimo quando lançou seu terceiro álbum, o clássico “Odelay”. Com o apoio luxuoso dos Dust Brothers (John King e Mike Simpson), que cuidavam de cada detalhe do arranjo e da produção, o músico norte-americano teve campo livro para compor certamente a sua melhor obra, cheia de músicas com reviravoltas, mudanças e variações das mais diversas. A que mais surpreende neste sentido, contudo, é “Novacane”. O que começa e se desenrola como um hard-funk, por volta 3 min 20', vai para outra direção completamente diferente em ritmo e textura, quando uma espécie de break eletro-retro toma conta até encerrar a faixa. Essas coisas inclassificáveis, que só Beck & Dust Bros. produziram e viraram de ponta-cabeça o rock alternativo dos anos 90.

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Pablo – Milton Nascimento (1973)

Com a ditadura a mil pelo Brasil no início dos anos 70, sobrou também para Milton Nascimento. Seu disco “Milagre dos Peixes” foi sumariamente picotado pela censura, que proibiu quase todas as letras. Solução? Fazer um disco caprichado no instrumental, arranjos e composições, que resultou num dos melhores da carreira do gênio de Três Pontas. “Pablo”, faixa que encerra o álbum, uma aparentemente inocente canção infanto-juvenil, saiu ilesa, e deu a oportunidade ao jovem Nico Borges, irmão caçula dos Borges então com 12 anos, cantar os belos versos escritos por Ronaldo Bastos. Porém, no minuto final, o instrumental de “Cadê”, uma das prejudicadas pela censura, surge em fade-in para encerrar esta obra-prima em ritmo andino. Milton marcando posição e fazendo milagre.

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Variações sobre um Mesmo Tema – Engenheiros do Hawaii (1988) 

O que esperar de uma música cujo título é “Variações sobre um Mesmo Tema”? Numa fase encantada, a Engenheiros do Hawaii de Humberto Gassinger, Augusto Licks e Carlos Maltz entrega mais do que uma letra justificadora, e, sim, uma música que aplica essa variação também na melodia. E promovem não apenas uma variação, mas duas! Os versos invariavelmente brilhantes de Gassinger à época compõem o que eles classificam de Parte 1, que se desenrola sobre um ritmo marcado em três tempos. Depois, uma queda brusca para uma atmosfera etérea, quando a voz de Licks praticamente declama alguns dos mais belos versos do cancioneiro da banda. Então, para fechar mesmo (e encerrar o disco “Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”), um hard rock instrumental possante, algo fusion e progressivo. 

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Miserable Lie – The Smiths (1984) 

The Smiths é aquilo, né: o mais alto grau de criatividade de toda a geração do britpop anos 80. “Misarable Lie” é uma das provas de que eles não deixariam de apresentar essa métrica diferentona de música "2 em 1". Johnny Marr e sua guitarra genial exercita um rock cadenciado na primeira e um punk rock na segunda. Tudo isso, sem precisar usar pedal de distorção! É guitarra purinha! A bateria de Mike Joyce – como em “London”, outra punk da banda – engendra uma cadência sincopada. Andy Rourke, baita baixista, segura todas na “cozinha”. E Morrissey... Ah! Moz destrói tudo na primeira e na segunda seção! A última, aliás, em que ele faz os seus peculiares “falsetes sopranos”.

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I’m the Ressurrection – The Stone Roses (1989)

Outra dessas melodias de moldagem plástica e que servem para encerrar um álbum, assim como “Variações sobre um Mesmo Tema”, da Engenheiros, e “Pablo”, de Milton. Ou seja: tem um papel fundamental dentro da narrativa da obra que integra. No caso, o histórico debut da The Stone Roses. E para uma música chamada “Eu Sou a Ressurreição”, haja reviravoltas! Em seus pouco mais de 8min, faz jus ao título: é uma coisa até 3 min40’, uma segunda até uns 6min20’ e ainda um terceiro formato para encerrar. Muitos reencarnes.

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The Murder Mystery – The Velvet Underground (1969)

O disco homônimo da Velvet Underground de 1969 já não contava mais com John Cale na formação, dando, assim, total liberdade à mente criativa de Lou Reed. “The Murder...” é quase um parque de diversões compositivo: conjuga duas melodias intercaladas, uma espécie de habanera e um rock intenso e de estrutura circular, tudo com variados vocais: os de Doug Yule, Sterling Morrison, Maureen Tucker e os dele mesmo, Lou. Só que, a aproximadamente 6 min 30', como se não bastasse, vai surgindo ainda uma outra música, totalmente díspar da(s) anterior(es): uma quase "bagatelle” com base de piano e uma letra quase falada por este criador de obras-primas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”... e “The Murder Mystery”.

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Eve White/Eve Black – Siouxsie & The Banshees (1980)

Outra banda altamente criativa, a Siouxsie & The Banshees é também capaz de imaginar melodias tão elásticas formalmente. “The Rapture”, que dá nome ao disco deles de 1992, é uma minissinfonia pós-punk, que se bifurca para três lados. Mas eles já haviam se aventurado por esses limites melódicos no início dos anos 80, mais precisamente no compacto de “Christine”, com “Eve White/Eve Black”. De novo, uma dentro da outra: começando só com uma base de guitarra e voz e terminando transtornada. No caso, as faces “branca” e “negra” da mesma Eve. E se a gravação original já passa bem o espírito dual, a versão ao vivo do clássico álbum “Nocturne”, de 1983, é de arrepiar, principalmente no instante da mudança de uma parte para outra, quando Siouxsie solta um dos gritos mais assustadores da história do rock. Garanto que ate Ozzy Osbourne ficou com medo.

OUÇA


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Daniel Rodrigues
com colaboração de Cly Reis

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ed Motta - “Aystelum” (2005)


"20 anos de 'Aystelum', um dos meus prediletos. Toques de free jazz com samba, Broadway, funk. Que sorte que pude gravar esse disco. 'Aystelum' tem a bênção de um santo protetor na minha vida".
Ed Motta

O cara se contradiz, é desrespeitoso, brigão e, por vezes, arrogante. Ao mesmo tempo, é sincero e fala verdades necessárias que poucos ousam dizer. Controverso, paga o preço por isso, sendo “cancelado” em vários meios. Mas uma coisa não se pode discordar: como o próprio se autodefine sem nenhum constrangimento pela soberba, ele é um dos “gênios da nossa latinoamerica”. Ed Motta, essa figura única, é, definitivamente, um dos músicos mais completos do mundo. Dono de um vocal cheio de técnica e timbre, este carioca nascido em família musical (sobrinho de Tim Maia, conviveu na infância com o tio e seus amigos Lincoln Olivetti, Cassiano, Hyldon entre outros, o suficiente para se encantar com o universo dos músicos) é capaz de, como nenhum outro cantor, compositor e instrumentista vivo, unir com tamanha densidade a soul, o jazz, o samba, o funk e os ritmos latinos. Nisso, há de se concordar com ele sem se contaminar pela insolência do próprio: Ed é o cara.

Prodígio, Ed teve carreira artística iniciada aos 16 anos já com os megassucessos “Manoel” e “Vamos Dançar”, da Ed Motta & Conexão Japeri, de 1988. Sua precocidade, aliada à personalidade contestadora e, por vezes difícil, no entanto, o prejudicaram ao longo dos anos no mainstream. Fez sucesso, rompeu com gravadoras, voltou atrás, fez mais sucesso, vendeu milhões e, a exemplo de seu tio, rompeu de novo com as gravadoras que faltavam até ficar escanteado. Disso tudo, a consequência: o trabalho realmente autoral de um artista que sempre buscou esse objetivo só pode ser realizado por ele mais de uma década depois de sua estreia: em “Aystelum”, de 2005, décimo álbum de Ed, que completa 20 anos de lançamento.

Fruto do encontro de Ed com o selo Trama, de João Marcelo Bôscoli, “Aystelum”, na esteira do excelente “Dwitza”, de três anos antes, e “Poptical”, o primeiro pela Trama, é o resultado da libertação criativa de um músico sem fronteiras de gêneros, estilos e temporalidade. É música pura – e no mais alto nível que o país de Moacir Santos, Tom Jobim, Tânia Maria, Filó Machado, Johnny Alf, Dom Salvador e tantos outros mestres de sua admiração pode produzir. Mas, claro, não somente estes professores musicais. Fã da música negra norte-americana desde criança, Ed usa e abusa nesse disco da sonoridade do afro jazz, do free jazz, do latin jazz e do spiritual jazz, sem deixar de referenciar suas bases da soul, Donny Hathaway, Donald Fagen, Gil Scott-Heron, Patrice Ruschen, entre outros. “Aystelum”, no entanto, ainda adiciona outra paixão de Ed: a música da Broadway de autores como Leonard Bernstein, George Gershwin, Stephen Sodenhein e Irvin Berlin.

Essa sonoridade livre está impressa na faixa de abertura, um afro jazz modal latino e spiritual em que brilham não somente o band leader, nos teclados, como toda a banda: o baixista Alberto Continentino; o baterista Renato Massa; o trompetista Jessé Sadoc Filho; o piano elétrico de Rafael Vernet; o guitarrista Paulinho Guitarra; o craque da percussão Armando Marçal; e o chileno Andrés Perez, “saxofonista tenor com a sonoridade do Coltrane, Joe Henderson, conhecimento alto das escalas e também de efeitos que o sax pode fazer, harmônicos, etc.”, como aponta Ed.

A então recente aproximação de Ed com a música brasileira – uma vez que, infantilmente, até pouco tempo antes a renegava em detrimento da norte-americana – fez com que ganhasse, aqui, dois presentes. Nei Lopes. compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas escreve-lhe as letras de “Pharmácias”, um samba-jazz influenciado pela música brasileira tradicional tocado só com instrumentos eletroacústicos, e a obra-prima “Samba Azul”. Nesta última, em especial, Ed encontra uma improvável intersecção entre samba-canção, blues, bossa-nova e bolero, tudo num arranjo primoroso do maestro Jota Moraes, parceiro de longa data. Mas não só isso: a música, além da magnífica letra de Lopes (“Tudo azul/ Beija-flor voa ao leu/ Sobre Vila Isabel/ Elegante/ Vai pousar distante/ Na Portela”), ainda tem um duo com Alcione, uma “força da natureza” cuja voz põe todo mundo no estúdio para “voar”, descreveu Ed.

A faixa-título, composta por uma palavra inventada por Ed sem nenhum sentido, apenas dotada de sonoridade, é outro jazz instrumental em que a turma arrebenta. O tema mais spiritual jazz de todos do repertório, lembrando bastante coisas de John Coltrane e Pharoah Sanders. Esse abstratismo é logo contraposto por “É Muita Gig Véi!!!”, que é puro ritmo. Baseada na ideia de improvisação, cada músico traz para dentro da jam suas experiências e bagagens. Samba e jazz em perfeita comunhão com direito a show de cuíca de Mestre Marçal. Outra espetacular nesta linha é “Partidid”, das melhores do disco, na qual fica evidente a reverência à sonoridade sofisticada e gingada de bandas como Azymuth e Black Rio.

Porém, sem se prender a nenhum formato, Ed traz para dentro desse caldeirão musical algo extremamente próprio e bonito, que é o musical norte-americano. Neste sentido, “Balendoah” é divisional. Mais uma dessas palavras tiradas da mente de Ed (que querem dizer, no fundo, apenas “muita musicalidade”), este número é fundamental para a narrativa do disco. Nele, Ed une os dois polos que o álbum propõe: o jazz de matriz africana e a música da Broadway. “Negros e judeus, o ápice da música que eu amo”, classificou ele próprio. Com a engenhosidade harmônica complexa extraída dos mestres Duke Ellington, Randy West, Moacir Santos e Charles Mingus, Ed amalgama uma melodia de voz que cria essa ponte com o teatro/cinema musical norte-americano. “Balendoah”, assim, além de uma música arrebatadora, abre caminho para a “segunda parte” do disco.

Tal virada em “Aystelum” surpreende, mas não destoa. O trecho de "7 - O Musical”, que Ed escreve para a peça musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, é um medley em que constam a graciosa “Abertura”, a atonal “Na Rua”, com vocal de timbres metálicos de Tetê Espíndola, e a bela “Canção Em Torno Dele”. Interessante notar o “libreto” em português e não em inglês, contrariando a própria lógica do tradicional musical, o que denota um Ed desprovido de afetação para com a língua inglesa, a qual teria maior naturalidade.

“A Charada”, parceria com Ronaldo Bastos, retoma a sonoridade soul num AOR romântico, que poderia tranquilamente ser uma música de trabalho não tivesse “Aystelum” feito tão pouco sucesso de público, que estranhou todo aquele experimentalismo. “Guezagui”, então, um funk tomado de groove e musicalidade, fecha a conta deste histórico e sui generis disco da discografia brasileira.

Ed já havia dado seu grito de independência com “Entre e Ouça”, de 1992, então apenas seu terceiro trabalho. Além de ainda muito jovem (só tinha 21 anos), naquela época não tinha a credibilidade e nem a experiência de um trintão amadurecido musicalmente como em “Aystelum”. Foram necessários que os anos lhe dessem tempo para agregar as diversas sonoridades entre as milhares que rondam sua cabeça, as quais absorve e traduz com espantoso poder de síntese e originalidade. Depois de tantos acertos e topadas, paixões e desavenças, fama e infortúnio, de tanto céu e inferno, Ed chegava, enfim, na paz da sua própria obra. Como quem toma a bênção de um santo protetor e pronuncia, em louvor, uma palavra que somente os deuses da música compreendem: “Aystelum”.

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FAIXAS:
1. "Awunism" - 5:37
2. "Pharmácias" (Nei Lopes/ Ed Motta) - 3:17
3. "Aystelum" - 6:48
4. "É Muita Gig Véi!!!" - 3:53
5. "Samba Azul" (Lopes/ Motta) - 4:49
6. "Balendoah" - 4:19
"7 - O Musical (Medley)" (Claudio Botelho/ Motta)
7. "Abertura" - 1:33
8. "Na Rua" - 2:06
9. "Canção Em Torno Dele" - 1:54
10. "A Charada" (Ronaldo Bastos/ Motta) - 4:00
11. "Patidid" - 2:26
12. "Guezagui" - 3:50
Todas as composições de autoria de Ed Motta, exceto indicadas

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OUÇA O DISCO:
Ed Motta - "Aystelum"



Daniel Rodrigues

terça-feira, 2 de julho de 2024

“Nada Será Como Antes - A Música do Clube da Esquina”, de Ana Rieper (2024)

 

Nada (ou muito pouco) é como antes

O cinema brasileiro se solidificou como um grande produtor de documentários desde a retomada, no início dos anos 2000. Embora já tivesse uma considerável tradição documentarista, desde o Ciclo de Cataguases aos cinemanovistas, foi principalmente a partir da década de 2010 que explodiram produções documentais em diversos formatos e temas, sendo um deles o da história cultural do País. O aperfeiçoamento das formas de pesquisa e dos recursos de tecnologia juntam-se ao interesse dos novos realizadores em contar essa riqueza histórica, que oferece um panorama amplo de entendimentos políticos, comportamentais e sociais do Brasil. Artistas, autores, personalidades, movimentos, escolas e projetos passaram a se tornar objeto de análise fílmica, rendendo muitos filmes de excelência, mas outros nem tanto. 

É o caso do recente “Nada Será Como Antes - A Música do Clube da Esquina”, que se debruça sobre o movimento musical mineiro cujo principal álbum é considerado um dos maiores de todos os tempos no Brasil. Há pouco, a revista norte-americana Post Magazine, igualmente, colocou-o entre os 10 melhores entre os 300 mais emblemáticos da música pop, algo semelhante ao que fez o livro "1001 Discos para se Ouvir Antes de Morrer" ao incluí-lo na listagem juntamente com outros 15 brasileiros. Mas, infelizmente, o documentário de Ana Rieper perde a chance de explorar toda a riqueza que o tema oferece. Na esteira do festejado mas pouco envolvente “Elis & Tom - Só Tinha de Ser Com Você” (Roberto de Oliveira e Jom Tob Azulay, 2023), “Nada Será...” busca resgatar, a partir da visão de seus principais atores, a alma deste outro disco clássico: "Clube da Esquina", de 1972. Faz isso resgatando a formação do famoso Clube, apelido da turma de músicos mineiros liderados por Milton Nascimento que faz referência a uma esquina de Belo Horizonte, entre as ruas Paraisópolis e a Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, onde moravam, nos anos 60, os igualmente protagonistas irmãos Borges (Márcio, , Telo e Marílton). Uma cena artística absolutamente original e de uma qualidade incomparável ainda hoje, que reunia talentos e todas as forças da música brasileira àquela época: a tradição do samba, as influências do rock e do jazz, os ritmos do Nordeste e do sertão, o classicismo, a herança religiosa, a tradição ibérica e a veia sul-americana. Tudo muito bem conjugado, sintetizado, orquestrado. 

Porém, os problemas do filme começam, de certa forma, na maneira de contar essa trajetória. Intercalando depoimentos recentes dos Borges (principalmente, Márcio e Lô, este último, o coautor do celebrado disco com Milton), Beto Guedes, Novelli, Wagner Tiso, Toninho Horta, Flávio Venturini e outros, quando se trata de Milton, os registros de entrevistas são “velhos”. Não que não o valham. Pelo contrário, só enriquecem. Porém, Milton, diferentemente de outro importante personagem como Fernando Brant, ainda está vivo, e seria fundamental, mesmo que prejudicado pelo atual estado de saúde que atrapalha sua fala, contar com depoimentos atuais de Bituca, indiscutivelmente o centro de todo aquele movimento.

Milton em entrevistas de anos atrás: blindagem da
família ou desleixo da produção?  
Pode-se sondar que Milton tenha sido blindado pela superprotetora família (para não dizer "arredia"), cuidadosa em expô-lo desta forma – o que é bem possível que Ana tenha esbarrado. Mas não soa como uma explicação totalmente plausível, visto que o documentário parece, justamente, ressentir-se de documentos. Há menos vídeos e fotos de shows ou de apresentações do que se espera. Existem, sim, como as imagens do “Show do Paraíso”, o Woodstock mineiro realizado em uma fazenda nas proximidades da cidade de Três Pontas, que reuniu grandes nomes da música brasileira, como Tiso, Beto Guedes, Lô, Nelson Ângelo, Gonzaguinha, Fafá de Belém, Francis Hime, Chico Buarque, Clementina de Jesus, entre outros. Mas não passa muito disso, o que faz com que se fique com a sensação de que pouco se embrenhou nos arquivos. Do próprio Brant, falecido em 2015, há, grosso modo, uma sequência apenas de uma conversa numa mesa de bar em que se celebra o grande poeta do Clube da Esquina. E só. Sem registros de entrevistas em vídeo ou áudio do autor que colocou em palavras alguns daqueles clássicos, como “Para Lennon e McCartney”, “Travessia” e a própria música que dá título ao filme. Seria isso em razão de uma (estranha) decisão pelo fato de Brant não estar mais vivo? Não, pois o outro grande letrista da turma, Ronaldo Bastos, mesmo ainda vivo, depõe em uma única e solitária vez.

Talvez por certa tentativa de dar um ar de “mineirice” à narrativa, num tom de “dedo de prosa” e puxando para Márcio e Lô o papel de condutores, o filme tenha recaído numa certa superficialidade diante do dimensão do tema central. Além da pequena participação de Ronaldo e da inexplicável redução da figura de Brant, outros personagens coadjuvantes - mas de participação efetiva para a composição do disco - nem citados são. Casos de Alaíde Costa, a voz principal da espetacular faixa “"Me Deixa em Paz", ou o fotógrafo e designer Cafi, autor da famosa foto dos meninos da capa que tão bem simboliza o álbum. É preciso assistir ao filme "Salve o Prazer!" (Lírio Ferreira e Natara Ney, 2020) para que, ali, Cafi conte, enfim, a história da fotografia e como ela se tornou, por decisão de Milton, a capa do disco.

A opção narrativa de Ana também incorre em um outro aspecto, que é a definição daquilo que, de fato, está se falando: o Clube da Esquina como grupo, como cena artística ou como disco? Não que não se fale e não se pudesse falar dos três concomitantemente. Aliás, é o ideal, visto que seria muito estranho tratar de um como se o outro não existisse ou que não sejam diretamente correlacionados. Contudo, fica a dúvida de que olhar a diretora e roteirista quis dar. Ora se detalha elementos técnicos como o solo de Toninho Horta em “Trem Azul”, ora se abstém de abordar faixas memoráveis do mesmo repertório, como “Cais” e "Me Deixa em Paz". Então, conclui-se que não é só sobre o disco. Em contrapartida, também não é somente sobre o grupo/cena. Não se fala, por exemplo, do legado do Clube da Esquina, como sua influência para a world music quando Wayne Shorter (outro esquecido no filme) leva o amigo Milton para os Estados Unidos para gravarem “Native Dancer”, em 1975. Nem muito menos o “Clube da Esquina 2”, de 1978, que, mais do que uma continuidade, agregou àquele grupo nomes como Chico, Elis Regina, Azymuth, Joyce e Danilo Caymmi, expandindo os ecos originais. 

Em suma, ao não aprofundar estes três pilares (ou não se optar por algum para, aí sim, dissecá-lo), tudo fica um tanto incompleto. Afinal, o Clube da Esquina merece muito mais aprofundamento, pelo que é e pelo o que representa. Mesmo que sua centelha tenha sido aquela naturalidade quase inocente que Lô bem descreve, o Clube da Esquina virou muito mais do que isso. Assim, o final poético dado pela cineasta, por mais bonito que seja, sofre certo esvaziamento. Para arrematar, a música que roda nos créditos é a própria “Nada Será Como Antes”. Até aí, tudo bem. Porém, é exatamente a mesma versão do início do filme. Mais uma elemento desabonador em um filme que parece ter economizado em pesquisa e atenção ao objeto pesquisado. Uma pena, tendo em vista que se perde uma boa oportunidade de trazer à luz algo, como dito no início, importante para a reconstrução histórico-cultural do Brasil moderno. Ainda bem que, diferentemente do passado menos denso em documentários no cinema brasileiro, hoje pode-se, tranquilamente retornar ao mesmo assunto, agregando mais visões ao mesmo tema. E quem sabe, retratando o Clube da Esquina com maior fidelidade e trazendo, enfim, muito mais do que foi como antes. Amanhã.

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trailer de “Nada Será Como Antes - A Música Do Clube Da Esquina”, de Ana Rieper



Daniel Rodrigues


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Danilo Caymmi - "Cheiro Verde" (1977)

 

“Você gravava, vendia, corria atrás, ia pra rua. Fizemos três mil cópias e conseguimos vender todas. Mas agora, nesta era digital, esse disco ficou parado. Ele foi se valorizando com o tempo, o que é muito gratificante”. 
Danilo Caymmi

Danilo é o menos badalado entre os Caymmi. No que diz respeito a seu pai, Dorival, poucos se equiparam ao gênio deste Buda Nagô, um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos. Seu irmão mais velho, Dori, gabaritado maestro de reconhecimento internacional, trabalhou com alguns dos mais prestigiados músicos do seu tempo, como os conterrâneos Tom Jobim, João Gilberto e Elis Regina e os estrangeiros Dionne Warwick, Quincy Jones e Toots Thielemans. Nana, a irmã, é nome inconteste entre as maiores vozes da MPB. Até mesmo a filha Alice, cultuada pelo público mais jovem, ganha mais holofotes do que ele. A figura modesta talvez explique. A mãe Stella Maris, mineira, sentenciou certa vez que, entre os filhos, Nana cantava, Dori arranjava e Danilo tocava flauta. Porém, Danilo é, certamente, muito mais do que uma retaguarda, visto que é o mais catalisador da família em termos musicais. Caçula, talvez justamente por ter vindo por último ele consiga recolher características de cada um: de Dorival, traz nas veias a sofisticação das canções praieiras; do irmão mais velho, a versatilidade e a musicalidade profunda; de Nana, o timbre inconfundível dos Caymmi e o apuro vocal; da filha, a modernidade musical intercambiada desde que ela estava no berço.

“Cheiro Verde”, seu álbum de estreia, de 1977, é um exemplo claro desta multiplicidade simbiótica de Danilo. Cantor, flautista, compositor e violonista, traz em sua música uma impressionante diversidade de estilos, que vão da bossa nova ao baião, passando pelo samba jazz e a soul. Com um time de grandes músicos, tal Cristóvão Bastos, Maurício Maestro e Fernando Laporace, o disco traz a mais alta qualidade melodia e harmonia quanto letrística e instrumental, ao nível do "alto escalão" da MPB, como Tom, Arthur Verocai, Ivan Lins, Waltel Branco, Antonio Adolfo, Tânia Maria, Edu Lobo. Ao nível dos Caymmi.

Afinal, Danilo, mesmo debutando como artista solo, não era nenhum novato. Flautista profissional desde os 16, o futuro arquiteto que abandonou a faculdade para seguir a vida musical já em 1968 participava do II Festival Internacional da Canção Popular. Levou o terceiro lugar com a clássica “Andança”, parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, defendida por Beth Carvalho. No ano seguinte, venceu o Festival de Juiz de Fora com a canção “Casaco Marrom”, parceria com Renato Corrêa e Gutemberg Guarabyra, interpretada por Evinha. Bastante próximo dos colegas mineiros, de quem tem forte influência musical, já havia integrado a banda de Tom, Joyce, Milton Nascimento, Som Imaginário, Martinho da Vila, Quarteto em Cy, entre outros, além de assinar, juntamente com Beto Guedes, Novelli e Toninho Horta, um dos melhores discos de toda a década de 70.

Em “Cheiro…”, portanto, Danilo chegava pronto como que perfumado para uma festa. A primeira nota do frasco, “Mineiro”, é exemplar nisso: bossa nova com dissonâncias e harmonia típicas dos autores de grande domínio composicional. A letra de Ronaldo Bastos é uma homenagem de dois cariocas aos amigos do Clube da Esquina: “Vou por aí levando um coração mineiro, pois é”. Ainda, as participações especiais de Airto Moreira na bateria, Helvius Vilela no piano e Gegê na percussão. Com Bastos, também assina “Codajás”, que Nana gravara um ano antes. De tom ao mesmo tempo blueseiro e sambístico, traz o belo canto de Danilo soltando agudos difíceis a qualquer cantor, ainda mais a alguém de uma família cujo timbre tende sempre ao barítono. Fora isso, Danilo a aperfeiçoa ainda mais com um jazzístico solo de flauta, que encerra o número.

Com a então esposa Ana Terra, excelente musicista carioca e responsável também pela produção, compõe maior parte do repertório, como o samba “Pé sem Cabeça”, típica música do período da ditadura no Brasil - gravada posteriormente, claro, pela combativa Elis. Com cara de tema romântico, na verdade, denuncia o regime e os horrores cometidos contra os opositores: “Você me fez sofrer/ Ninguém me faz sofrer assim/ O que era tanta beleza num pé sem cabeça você transformou”. É dos dois também a brejeira e lúdica “Juliana”, de acordes jobinianos, e a subsequente “Aperta Outro”, samba cheio de suingue com toque do trombone de Edson Maciel e o baixo do parceiro Novelli. 

Ainda mais gingada é “Racha Cartola”, ode à boemia mas, igualmente, à preocupação do boêmio quando volta para casa. “Como explicar?”, pergunta-se lembrando que terá de encarar a esposa esperando-o irritada. A sincopada “Botina”, dele e de outro mineiro, Nelson Ângelo, traz novamente a atmosfera de Minas (“Velha porteira, cidade interior/ Uma voz de lavanderia, um batuque e um sabor”), referenciando, mais uma vez - além do próprio coautor -, à turma liderada por Milton Nascimento. Aliás, o gênio de Três Pontas empresta sua voz inconfundível em “Lua Do Meio-Dia”, outra com Ana e das mais belas e engenhosas melodias do disco, com sua estrutura dissonante e complexas divisões.

Em época de Abertura Política, mas de manutenção da repressão, Danilo ousa e encaminha o final do álbum com mais um tema bastante provocativo: “Vivo ou Morto”. Dele e de João Carlos Pádua, não tem como não relacionar os versos deste baião tristonho às mortes de presos políticos promovidas nos Anos de Chumbo: “Debaixo das 9 pedras/ Ele vive muito bem/… Ele respira e fala pelas bocas do inferno/…Debaixo das 9 bocas/ Ele nem mesmo se cala/ Debaixo das 9 botas/ Ele dá voltas na sala”. Para encerrar mesmo, então, a sinestésica faixa-título, quinta dele com Ana entre as 10 faixas de todo o trabalho. E que bela canção! Com a atmosfera da música “ecológica” que Tom inauguraria no início dos anos 70, quando começou a se voltar às questões do Planeta, Danilo parecia antever sua entrada anos depois, em 1984, na Banda Nova, conjunto que passaria a acompanhar o Maestro Soberano até o final de sua vida.

Desde então, Danilo seguiria intercalando uma afirmada carreira solo com participações como instrumentista em trabalhos de outros, reuniões com a família no palco e gravações e shows na Banda Nova. Lançou 10 álbuns como front man, alcançando, em 1990, grande sucesso com “O Bem e o Mal”, tema da minissérie “Riacho Doce”, da Globo. No entanto, “Cheiro Verde” permanece um marco na sua obra não apenas por ser o primeiro ato de um músico que soube aproveitar seu gene privilegiado, mas pela qualidade indiscutível que guarda até hoje. Tanto é que, lançado independentemente em 1977, teve, em 2002, sua tiragem licenciada na Inglaterra, tornando-se cult entre os jovens na Europa. Somente no ano passado, teve relançamento no Brasil para a alegria dos fãs e apreciadores. Pelo visto, esse aroma inconfundível e encantador não se dissipou mesmo tantos anos depois.

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FAIXAS:
1. “Mineiro” (Danilo Caymmi/ Ronaldo Bastos) - 3:25
2. “Pé Sem Cabeça” (Caymmi/ Ana Terra) - 2:45
3. “Codajás” (Caymmi/ Bastos) - 3:05
4. “Juliana” (Caymmi/ Terra) - 2:44
5. “Aperta Outro” (Caymmi/ Terra) - 2:54
6. “Racha Cartola” (Caymmi/ João Carlos Pádua) - 2:55
7. “Botina” (Caymmi/ Nelson Angelo) - 2:37
8. “Lua Do Meio-Dia” (Caymmi/ Terra) - 2:16
9. “Vivo Ou Morto” (Caymmi/ Pádua) - 3:07
10. “Cheiro Verde” (Caymmi/ Terra) - 4:15

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OUÇA O DISCO:

Danilo Caymmi - "Cheiro Verde"


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 4 de maio de 2023

ÁLBUNS FUNDAMENTAIS Especial 15 anos do ClyBlog - Beto Guedes - "Amor de Índio" (1978)



“Homenageei o pai
 em vários discos
 que gravei 
nos anos 1970 e 1980”
Beto Guedes, 
que sempre deixava 
a última faixa do álbum 
para uma canção do pai,
Godofredo Guedes



A pedido do meu amigo Cly, administrador desse blog maravilhoso, que está completando 15 anos de existência, que me pediu para que escrevesse, brevemente, sobre um disco que eu achasse essencial, importante, do coração, clássico, ou algo do tipo, para colocar na seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS, de pronto aceitei... depois pensando, "puxa vida que tarefa difícil!"

Como sou da tribo rock, de cara lembrei da discografia dos The Beatles (dá pra escolher), Rolling Stones, Pink Floyd, David Bowie, Radiohead, Oasis, Pearl Jam, Alice in Chains e aí vai tantos outros, sem falar nos álbuns clássicos da terrinha.

Mas daí fiquei em uma análise sem fim... “essencial, importante, do coração, clássico, ou algo do tipo”. Então me veio a memória um álbum do coração: "Amor de Índio", de Beto Guedes, talvez o menos badalado do Clube da Esquina, por sua timidez (só uma opinião).
Esse álbum de 1978, já abre com uma canção clássica, do coração, do próprio Beto com parceria de Ronaldo Bastos – "Amor de Índio" (homônimo), gravada e regravada por muitos outros artistas, uma obra prima. Na sequência, "Novela", de Milton Nascimento e Márcio Borges, uma atmosfera forte e contundente; "Só Primavera", de Beto Guedes e Márcio Borges, lembrando muito o Clube da Esquina; "Findo do Amor", de Tavinho Moura e Murilo Antunes, uma letra forte e reflexiva; "Gabriel" do próprio Beto com Ronaldo Bastos, feita e dedicada ao seu filho Gabriel, canção de emocionar, principalmente quem é pai; "Feira Moderna", de Lô Borges, Beto Guedes, e Fernando Brant, alto-astral, demais, dá até pra dançar; "Luz e Mistério", parceria com Caetano Veloso, mais uma com letra profunda, como praticamente todas do álbum, sendo que há uma versão ao vivo com a participação do parceiro de composição Caetano, que empresta à versão sua voz “aveludada”.

"O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre", novamente com Fernando Brant, é uma canção que diz tudo desse álbum, também gravada por outros artistas, sendo muito marcante na voz de Elis Regina. "Era Menino" (Beto Guedes, Tavinho Moura e Murilo Antunes) é o típico som de Minas e, por fim, "Cantar", do pai Godofredo Guedes, a quem Beto costumava homenagear com frequência nos discos gravados nos anos '70 e '80, reservando sempre a última faixa do LP para a homenagem: "Belo Horizonte" de Godofredo, em "Página do Relâmpago Elétrico", de 1977; "Cantar", nesse álbum; "Casinha de Palha", em "Sol de Primavera" (1980); "Noite Sem Luar", em "Contos da Lua Vaga", de 1981; e "Um Sonho", também do pai, em "Viagem das Mãos" (1984).

Instrumentista, Godofredo tocava violão e clarinete e compôs mais de cem músicas.

Esse é meu álbum do coração, portanto fundamental na minha discografia e espero que tenha contribuído com o ClyBlog.




por  J U L I O   F A L E I R O


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FAIXAS:
  1. Amor de Índio
  2. Novena
  3. Só Primavera
  4. Findo Amor
  5. Gabriel
  6. Feira Moderna
  7. Luz e Mistério
  8. O Medo de Amar é O Medo de Ser Livre
  9. Era Menino
  10. Cantar
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Ouça:
Beto Guedes - "Amor de Índio"


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Julio Faleiro
 é de Viamão, cidade da região Metropolitana de Porto Alegre/RS. 
É professor, músico, agitador cultural e 
baterista da banda Cardinales de Indie Rock



quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Milton Nascimento - "Geraes" (1976)

 

"Esses gerais são sem tamanho."
Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas"

"Sou o mundo, sou Minas Gerais."
Da letra de "Para Lennon e McCartney", de Lô Borges, Marcio Borges e Fernando Brant


Tom Jobim e o desenho sinuoso e sensual da Rio de Janeiro. 

Dorival Caymmi e a Bahia dos pescadores e santos do candomblé. 

Moondog e as pradarias inóspitas do Wyoming. 

Robert Johnson e as infinitas plantações de algodão do Mississipi. 

Violeta Parra e a imensidão das cordilheiras andinas. 

É sublime quando um músico consegue atingir tamanha simbiose entre ele e seu espaço, a ponto de passar a representar, através de sua arte, uma paisagem física. É como se ele fosse, por intermédio dos sons, não originário deste lugar, mas, sim, o próprio lugar.

Milton Nascimento é um destes seres que, como o próprio nome indica, nasce e gera a própria terra, Minas Gerais. O homem que integra a seu próprio nome um estado inteiro, o seu mundo. E não digam que Mi(lton) Nas(cimento) é mera coincidência linguística! Mais correto é afirmar que os Deuses - os do candomblé, da Igreja, muçulmanos, indígenas, todos aqueles que perfazem a cultura mineira - assim quiseram a este carioca desgarrado abraçado como um filho pelos morros de cor ferrosa das Gerais, os quais, junto à lúdica maria fumaça, ele mesmo representa na icônica capa em desenho a próprio punho. Como um ser pertencente àquela terra a qual se homogeiniza. 

Em meados dos anos 70, Milton já havia percorrido muita estrada de terra na boleia de um caminhão. Na faixa dos 35 anos, pai, casado, consagrado no Brasil e no exterior, idolatrado e gravado por Elis Regina, mentor do movimento musical mais cult da modernidade brasileira, autor de algumas das obras mais icônicas do cancioneiro MPB. O reconhecido talento como compositor, cantor, arranjador e agente catalisador misturava-se, agora, com a sabedoria da maturidade - como se ainda coubesse mais sabedoria a este ser nascido gênio. Quase que naturalmente a quem já havia ganhado o centro do País e desbravado o principal mercado fonográfico do mundo, o norte-americano, Milton, então, volta-se à sua própria essência: a terra que lhe é e a qual pertence. 

Mas Milton, carinhosamente chamado de Bituca por quem o ama, não faz isso sozinho, visto que convoca seu talentoso Clube da Esquina, reforçando o time de amigos, inclusive. Se "Minas", a primeira parte deste duo de álbuns gêmeos, explora a grandiosidade das geraes Guimarães Rosa de Drummond, seja em sons e letras, "Geraes" solidifica essa ideia quase que como um milagre: um homem torna-se seu próprio som. Ou melhor: transforma-se em montanha para, do alto de topografia, emitir a sonoridade da natureza. Samba, rock, soul, folk, jazz, toada, sertanejo, candombe, trova, oratório... world music, não só por acepção, mas por intuição, é o termo mais adequado para classificar.

A ligação entre uma palavra e outra, entre um título e outro, entre um disco e outro, se dá pelo mesmo acorde que desfecha “Simples”, última faixa de "Minas", e abre, em ritmo de toada mineira, a linda "Fazenda" (“Água de beber/ Bica no quintal/ Sede de viver tudo/ E o esquecer/ Era tão normal que o tempo parava"). A religiosidade católica do povo, traço cabal da cultura mineira, transborda tanto em "Cálix Bento", com a marca do violão universal de Milton e o emocionante arranjo de Tavinho Moura sobre tema da Folia de Reis do norte de Minas, quanto em "Lua Girou", outro tema do folclore popular – este da região de Beira-Rio, na Bahia – vertida para o repertório pela habilidosa mão do próprio Bituca. 

O lado político, claro, está presente. Milton, consciente da situação do País e jamais acovardado, não havia esquecido das recentes retaliações da censura que quase prejudicaram seu "Milagre dos Peixes", de 3 anos antes, um verdadeiro milagre de ter sido gestado com tamanha qualidade. O parceiro e produtor Ronaldo Bastos, além da concepção da capa, é quem pega junto em "O Menino", escrita anos antes pelos dois em homenagem ao estudante Edson Luís, assassinado em 1968 em um confronto com a polícia no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, episódio que uniu a sociedade em protestos que culminaram com a famosa Passeata dos Cem Mil contra a Ditadura Militar. E que luxo a banda que o acompanha: João Donato (órgão), Nelson Angelo (guitarra), Toninho Horta (guitarra), Novelli (baixo), e Robertinho Silva (bateria). Com a mira militares a outros artistas naquele momento, como Chico Buarque, Milton pode, enfim, lançar a música e não se calar diante da barbárie. 

Quem também garante o grito de resistência é um recente e igualmente genial amigo, com quem tanto e tão bem Milton produziria a partir de então. Justamente o então visado Chico Buarque. É com ele que Milton canta a canção-tema do filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, um sucesso de bilheteria no Brasil à época, "O que Será (À Flor da Pele)". Fortemente política, a letra, cantada com melancolia e até tristeza, reflete os tempos de iniquidade humana: "O que será que será/ Que dá dentro da gente que não devia/ Que desacata a gente, que é revelia/ Que é feito uma aguardente que não sacia/ Que é feito estar doente duma folia/ Que nem dez mandamentos vão conciliar/ Nem todos os unguentos vão aliviar/ Nem todos os quebrantos, toda alquimia/ Que nem todos os santos, será que será...". Gêmea de "O que Será (À Flor da Terra)", Milton retribui o convite e divide com Chico os microfones desta última no álbum dele naquele mesmo ano, o não coincidentemente intitulado “Meus Caros Amigos”


Milton e Chico: encontro mágico promovido à época
de "Geraes" e que deu maravilha à música brasileira

A maturidade filosófico-artística de Milton era tão grande, que as dimensões do que é grande ou pequeno, do que é parte ou geral, se reconfiguram numa consciência elevada de humanidade. A ligação universal de Milton com sua terra passa a significar o ligar-se a América Latina. Afinal, sua Minas é, como toda a latinoamérica, dos povos originários. “San Vicente” e "Dos Cruces", de "Clube da Esquina”, já traziam essa semente que “Geraes”, mais do que “Minas”, solidificaria, que é essa visão ampla do território, dos povos. Primeiro, na realização do sonho de cantar Violeta Parra com Mercedes Sosa. Apresentada a Milton por Vinícius de Moraes, La Negra divide com Milton os microfones da clássica “Volver a los 17”. Igualmente, vê-se o encontro dos rios do Prata e São Francisco, que não poderiam deixar de fazer brotar aquilo que os perfaz e lhes dá sentido: água. É com o conjunto de jovens chilenos deste nome, amigos recém conhecidos, que Milton instaura de vez, na acachapante “Caldera”, a alma castelhana dos hermanos na música popular brasileira – convenhamos, muito mais do que os músicos da MPG, cuja proximidade regional do Rio Grande do Sul propiciaria tal fusão mais naturalmente. É o canto dos Andes – mas também de Minas – sem filtro. 

As amizades, aliás, estão presentes em todos os momentos, e o território de Milton é como uma grande aldeia onde ele, consciente de seu papel de pajé, mantém a egrégora sob a força do amor. Fernando Brant, parceiro desde os primeiros tempos, coassina aquela que talvez seja a música mais sintética de todo o disco: “Promessas De Sol”. A sonoridade latina das flautas andinas, a percussão marcada pelo tambor leguero, o violão sincrético de Milton e os coros constantes e tensos dão à canção a atmosfera perfeita para um os mais fortes discursos políticos que a Ditadura presenciou em música. “Você me quer belo/ E eu não sou belo mais/ Me levaram tudo que um homem precisa ter”. Épica, como uma ópera guarani, a melodia vai escalando de um tom baixo para, ao final, se encerrar com intensos vocais de Milton bradando, denunciativo: “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?” 

Parece que não cabe mais emoção num álbum como este. Mas cabe. A brejeira “Carro De Boi”, de Cacaso e Maurício Tapajós (“Que vontade eu tenho de sair/ Num carro de boi ir por aí/ Estrada de terra que/ Só me leva, só me leva/ Nunca mais me traz”) casa-se com a inicial “Fazenda” seja na ludicidade ou na sonoridade ao estilo de cantiga sertaneja. Mas tem também a jazzística e comovente “Viver de Amor”, em que novamente Ronaldo, desta vez em parceria com o excepcional Toninho Horta, compõem para a voz cristalina de Milton uma das canções românticas mais marcantes de toda a discografia brasileira. Ronaldo, múltiplo, também tira da cartola mais uma vez com Milton outra joia do disco, que é o samba-jongo “Circo Marimbondo”. Assim como Milton, de ouvido tão absoluto quanto sensível, fizera ao contar com a voz de Alaíde Costa para cantar com ele "Me Deixa em Paz" em “Clube da Esquina”, aqui ele vai na fonte mais inequívoca para este tipo de proposta musical que une África e Brasil: Clementina de Jesus. Na percussão, além de Robertinho no tamborim e surdo, também outros craques da “cozinha”: Chico Batera, no agogô; Mestre Marçal, cuíca; Elizeu e Lima, repique; e Georgiana de Moraes, afochê. E que delícia ouvir o canto anasalado e potente da deusa Quelé acompanhada pelo coro de Tavinho, Miúcha, Chico, Georgiana, Cafi, Fernando, Bebel, Ronaldo, Bituca, Vitória, Toninho e toda a patota! 

Para encerrar? A música que conjuga o primeiro e o segundo disco, o corpo e o espírito: “Minas Geraes”. O violão carregado de traços étnico-culturais de Milton, sua voz que escapa do peito emoldurando-se ao vento, a docilidade das madeiras, a singeleza do toque do bandolim. Clementina, em melismas, embeleza ainda mais a canção, lindamente orquestrada por Francis Hime – outro novo amigo cooptado por Milton da turma de Chico. Tudo converge para um final emocionante, que, como os próprios versos dizem, saem do “coração aberto em vento”: “Por toda a eternidade/ Com o coração doendo/ De tanta felicidade/ Todas as canções inutilmente/ Todas as canções eternamente/ Jogos de criar sorte e azar”. 

Ouvindo-se “Minas” e “Gerais”, duas obras não somente maduras como altamente densas, simbólicas e encarnadas, é impossível não ser fisgado pelo mistério da música de Milton Nascimento. Encantamento que remete ao mistério da criação, o mistério da vida. Wayne Shorter, parceiro de Milton e mutuamente admirador, quando perguntado sobre esta esfinge que é a obra do amigo, diz: “Bem, ouça você mesmo, pois não há palavras para descrever. Apenas sinta”. Milton, que completa 80 anos de vida sobre o mundo, o seu mundo, é tudo isso: uma força da natureza. Ele é mais do que música: é som em estado puro. É mais que tempo: é a harmonia do espaço. 

Milton é mais do que homem: é pedra. Eterna.

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É impressionante perceber hoje, em retrospectiva, que o encontro de dois gênios da música brasileira se deu exatamente na época deste trabalho. Depois de aberta a porteira da fazenda de Milton para Chico, só vieram coisas lindas. Além de parcerias nos anos subsequentes - inclusive no célebre "Clube da Esquina 2", de 1978 - naquele mesmo ano de 1976 os dois se reuniriam para gravar o compacto "Milton & Chico", lançado oficialmente um ano depois. Incluído em "Geraes" na versão para CD, esta gravação clássica dos dois traz duas faixas: a melancólica "Primeiro de Maio", que denuncia a vida oprimida do trabalhador brasileiro no feriado dedicado a ele, e "O Cio da Terra", também combativa e ligada ao trabalhador, mas do campo, que se tornaria uma das canções emblemáticas do repertório tanto de Chico quanto de Milton.

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FAIXAS:
1. "Fazenda" (Nelson Angelo) - 2:40
2. "Calix Bento"(Folclore popular - Adap.: Tavinho Moura) - 3:30
3. "Volver a los 17" - com Mercedes Sosa (Violeta Parra) - 5:10
4. "Menino" (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) - 2:47
5. "O Que Será (À Flor da Pele)" - com Chico Buarque (Chico Buarque) - 4:10
6. "Carro de Boi" (Maurício Tapajós/ Cacaso) - 3:40
7. "Caldera (instrumental)" - com Grupo Agua (Nelson Araya) - 4:25
8. "Promessas do Sol" - com Grupo Agua (Milton Nascimento/ Fernando Brant) - 5:00
9. "Viver de Amor" (Toninho Horta/ Ronaldo Bastos) - 2:34
10. "A Lua Girou" (Milton Nascimento) - 3:42
11. "Circo Marimbondo" - com Clementina de Jesus (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) - 2:55
12. "Minas Geraes" com Grupo Agua e Clementina de Jesus (Novelli/ Ronaldo Bastos) - 5:13

Faixas bônus da versão em CD:
13. "Primeiro De Maio" - com Chico Buarque (Milton Nascimento/ Chico Buarque) - 4:46
14. "O Cio Da Terra" - com Chico Buarque (Milton Nascimento/ Chico Buarque) - 3:48


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OUÇA O DISCO
Milton Nascimento - "Geraes" 


Daniel Rodrigues