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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ira! - "Vivendo e Não Aprendendo" (1986)


“O Edgard senta na mesa e diz assim: ‘Olha, não é nada disso, não tem nada dessa história de rebeldia juvenil. Realmente é um preconceito contra a invasão de nordestinos, era o que eu estava pensando na época e foi isso o que eu quis dizer mesmo, eu não agüentava essa coisa de música baiana, de Caetano, de Gil'. Na hora, esse foi mais um dos insights que eu tive. Puta que o pariu, defendi durante anos essa letra, carreguei essa cruz. Agora, naquele dia, eu saí de lá falando assim ‘eu nunca mais canto essa música.’ ”
Nasi, à Revista Trip em 2008
sobre a música “Pobre Paulista”


Um dos melhores discos do rock nacional.
Mais um daquela safra brilhante da metade da década de 80 que inclui o "Dois" do Legião, o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, o "Selvagem?" dos Paralamas, o Capital Inicial com seu disco de mesmo nome, entre outros bons que apareceram por ali.
“Vivendo e não Aprendendo” do Ira! era a afirmação de uma banda que havia aparecido bem no seu primeiro trabalho, “Mudança de Comportamento” de 1985, mas que então ganhava o respeito definitivo de público e crítica. Mais do que isso, era a afirmação Edgar Scandurra como o melhor guitarrista brasileiro dos últimos tempos e com certeza o melhor daquela geração. Músico capaz de riffs agressivos como o da espetacular “Dias de Luta”, melodias ternas como a da melancólica “Quinze Anos”, ou referenciais como em “Envelheço na Cidade”.
Nas composições de Scandurra pela voz de Marcos Valadão, conhecido como Nasi, o Ira! proporcionava com “Vivendo e não Aprendendo”, retratos urbanos recheados de imagens, sentimento coletivo e realidade cotidiana. A confusão da cidade, a violência, as multidões, as paixões e os desencontros na ótima "Vitrine Viva" com sua linha de baixo forte e matadora; a alienação, o dinheiro, a indignação na punkzinha “Nas Ruas”; o preconceito pueril de Edgar Scandurra em “Pobre Paulista (“não quero ver mais essa gente feia / não quero ver mais os ignorantes / só quero ver gente da minha terra / eu quero ver gente do meu sangue”); e o grito coletivo de desemprego, fome poluição de “Gritos na Multidão” são exemplos perfeitos desse desenho musical social proposto pelo Ira!.
No entanto, o grande sucesso do disco, muito devido ao fato de fazer parte da trilha de uma novela, foi “Flores em Você”, canção de letra curta, que nas mãos do produtor Liminha ganhou um belíssimo arranjo de cordas que lhe conferiram toda uma grandiosidade e graça.
O Ira! nunca mais conseguiu produzir um álbum como este. Fez uma coisa boa aqui, outra ali, os integrantes principais, Nasi e Edgar envolveram-se em projetos paralelos interessantes mas o grupo nunca mais foi o mesmo. A obra excessivamente diversificada, atirando em todas as direções, fez com que nunca tivessem conseguido manter uma unidade de estilo ou de intenção e não conquistassem um grande público de fãs como foram os casos de Legião, Titãs, Capital. Talvez se tivessem se fixado um pouco mais em determinada linha, ou principalmente, se tivessem feito coisas próximas a este “Vivendo e Não Aprendendo”, tivessem se consolidado posteriormente e tivessem mantido o interesse do público por seu trabalho. Mas isso não é tudo e o Ira!, por mais que tenha sumido da grande mídia, sempre teve seu público fiel. O que importa é que certamente tratou-se de uma das grandes bandas do cenário nacional e que foi fundamental no alavancamento do rock brasileiro naquela metade de anos 80. Se teve seus erros, teve, mas teve seus acertos também, e que foram muitos.
Enfim... a vida é assim, é vivendo e aprendendo.

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FAIXAS:

01.  Envelheço Na Cidade 3:17
02. Casa De Papel 3:36
03. Dias De Luta 4:26
04. Tanto Quanto Eu 2:50
05. Vitrine Viva 2:20
06. Flores Em Você 1:54
07. Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo) 2:40
08. Nas Ruas 4:17
09. Gritos Na Multidão 3:08
10. Pobre Paulista 4:57


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Ouça:

terça-feira, 22 de agosto de 2023

cotidianas #805 - "Quinze Anos"


arte integrante da capa do álbum
"Vivendo e Não Aprendendo"
do grupo Ira!, por Camila Trajber

Quando me sinto assim
Volto a ter quinze anos
Começando tudo de novo
Vou me apanhar sorrindo

Seu amor hoje
Me alimentará amanhã

Eis o homem
Que se apanha chorando

Vivendo e não aprendendo
Eis o homem, este sou eu
Que se diz seguro
Que se diz maduro

Seu amor hoje
Me alimentará amanhã

Eis o homem
Que se apanha chorando

Vivendo e não aprendendo
Eis homem, este sou eu
Que se diz seguro
Que se diz maduro

Seu amor hoje
Me alimentará amanhã

Eis o homem
Que se apanha chorando

★★★★★★★
"Quinze Anos"
canção da banda Ira!
(letra: Ricardo Gasparini e Edgar Scandurra)

★★★★★★★
Ouça:

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

cotidianas #409



ilustração: Cly Reis
Essa e a história de Sofia
Que dizia-se sofrida, e sofria
Por ser fria
Mas... Sofia... ser fria
Não a faz sofrer na vida
Pois sorria
Sua ira não combina
Sua ira não combina com as capas coloridas
Desenhadas nas revistas que registram
Suas idas ou suas vindas
Sofia... sofria
Por ser fria, mas não via
Não lia, não sentia, não sabia
Que o melhor da sua linda
Rabiscada
Dependia de mentiras inventadas por artista ilusionista
Que com pouco vem fazendo
Ter um pouco de sentido toda essa ironia
Quente ou fria
Saborosa ou insípida
Inodora ou cheirosa
Sua vida
Seja dona, ó, Sofia!
Sorria... sorria...



quinta-feira, 2 de maio de 2019

Dead Kennedy's - "Frankenchrist" (1985)





“No contexto do disco,
está bastante claro que o pôster 
não é só uma brincadeira idiota”
Jello Biafra



É complicado a gente apontar um álbum melhor do que o grande clássico de uma banda porque o disco legendário vai estar, sempre ali fazendo sombra, sussurrando "Eu sou o maior!" e, no fundo, lá  no fundo, não  há  muito como negar. Mas tem aqueles que, se não são tão emblemáticos, representam o sinal definitivo de crescimento e maturidade. É o caso de "Frankenchrist" (1985) em relação  a "Fresh Fruit for Rotting Vegetables" . O álbum de estreia  dos Dead Kennedy's, de 1980, é clássico inconteste, amado e idolatrado de uma ponta à outra do planeta, e não sem razão. É um trabalho visceral no qual a sonoridade reflete perfeitamente o que o grupo pretendia e conseguia transmitir naquele momento. Mas "Frankenchrist", de 1985, é muito melhor tecnicamente. As músicas tem mais estrutura, são mais elaboradas, deixam mais evidente a influência da surf-music californiana que muitas vezes ficava escondida sob a fúria e a velocidade que definiram as músicas dos Kennedy's por quase toda sua existência. Existência  que, aliás,  foi abreviada exatamente em "Frankenchrist" por uma razão, de certa forma, um tanto banal. O encarte do álbum, idealizado pelo artista suíço H.R. Giger, o criador do design do personagem Alien, foi considerado obsceno, a banda processada, e o grupo não abrindo mão da arte, entendendo que a mesma complementava o conjunto artístico proposto no álbum, teve seus discos recolhidos e impedidos de serem comercializados, gerando prejuízos, transtornos e, no fim das contas, um desgaste que custou a vida da banda, depois de uma enorme demora para a definição do processo. 
"Landscape  #XX", mais conhecida como Penis Landscape,
a arte da polêmica. 
"Soup is a good food", que abre o disco, construída sobre um riff ondulante e cheia de alternâncias entre os instrumentos; a também bem estruturada "A growing boys need his lunch", de refrão poderosos e marcante; "Chicken farm", com seu andamento cadenciado e vocal ecoante; e as fantásticas "Goons of Hazard" e "This could be anywhere" de interpretação intensa e dramática de Jello Biafra, só comprovam o crescimento musical da banda e o salto de qualidade naquele momento com composições mais longas, mais elaboradas e com qualidade de produção. Mas faixas como "Hellnation", "Jock-O-Rama" e "MTV Get out the air", apesar da introdução enganosa, garantem a tradicional sonoridade mais rápida e barulhenta e mostram que os Kennedy's podiam até ter agregado mais elementos mas não haviam esquecido do hardcore. Aproximando-se do fim do disco, esquisita e 'pesadona' "At my job" por sua vez, está mais para o dark do que para o punk, e para fechar, os DK acertam perfeitamente no equilíbrio entre o ímpeto punk e a evolução técnica com a boa "Stars and stripes of corruption".
Um disco do tempo em que os Dead Kennedy's encaravam o sistema e brigavam por uma arte mesmo que isso viesse a custar caro, ao contrário do que aconteceu recentemente na divulgação da turnê brasileira, quando remanescentes da banda que seguiram com o nome e lançaram outros trabalhos mesmo depois da saída do líder Jello Biafra, cederam a pressões e, como se não bastasse, num primeiro momento, terem renegado o genial poster idealizado por uma artista brasileiro que havia mobilizado ainda mais os fãs para o evento e causado a ira dos apoiadores do atual governo brasileiro, ainda cancelaram as apresentações em terras brasileiras. Se tem um disco que simboliza de forma bem ilustrativa o oposto do ocorrido neste imbróglio da frustrada turnê brasileira, que simboliza o que é ser verdadeiramente punk e não se dobrar ao sistema, brigar contra censura, sistema jurídico, pressões sociais, falsa moral, conservadorismo e hipocrisia, esse disco é "Frankenschrist". 

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FAIXAS:
  1. "Soup Is Good Food" – 4:18 (Jello Biafra)
  2. "Hellnation" – 2:22 (D.H. Peligro)
  3. "This Could Be Anywhere (This Could Be Everywhere)" – 5:24 (Jello Biafra)
  4. "A Growing Boy Needs His Lunch" – 5:50 (Jello Biafra)
  5. "Chicken Farm" – 5:06 (Jello Biafra)
  6. "Jock-O-Rama (Invasion of the Beef Patrol)" – 4:06 (Jello Biafra)
  7. "Goons of Hazzard" – 4:25 (East Bay Ray, Jello Biafra)
  8. "M.T.V. - Get off the Air" – 3:37 (Jello Biafra)
  9. "At My Job" – 3:41 (East Bay Ray)
  10. "Stars and Stripes of Corruption" – 6:23 (Jello Biafra)

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Ouça:
Dead Kennedy's - Frankenchrist


Cly Reis

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Body Count - "Body Count" (1992)


"A próxima canção é dedicada a alguns
amigos pessoais meus:
A L.A.P.D.
[Departamento de Polícia de Los Angeles]
A cada policial que já tenha tirado
vantagem de algum deles,
batido ou ferido
por terem cabelos compridos,
por ouvirem o tipo errado de música,
ou por terem a cor errada,
ainda que achassem que fosse motivo para fazê-lo,
Para cada um desses policiais de merda,
Eu gostaria de ter um destes porcos aqui neste estacionamento,
e dar um tiro na porra da cara dele."
"Out of Parking Lot",
introduçao de "Cop Killer"

Motivado em parte pelo incidente ocorrido com o taxista negro Rodney King*, espancado brutalmente por policiais em março de 1991, que acabaram originando os conflitos generalizados em Los Angeles em abril de '92 em virtude da absolvição dos envolvidos, o rapper Ice-T abandonava momentaneamente seu segmento habitual para se dedicar a um projeto musical envolvendo suas outras predileções como o metal, o punk-rock, o hardcore e outros gêneros mais viscerais. O resultado dessa aventura de um rapper/ator é um dos discos mais pesados, agressivos, violentos e destruidores que o rock já viu. Em "Body Count", disco de estreia que leva o mesmo nome de sua banda, Ice-T mira direto na discriminação racial, no abuso policial, nas drogas, na pobreza e sai varrendo tudo a tiros como se fosse uma poderosa metralhadora.
Ice-T é forte, é incisivo é agressivo a cada frase, a cada verso, e quando fala de preconceito racial, ao contrário de grupos como o Public Enemy que só olhava para a discriminação contra o negro, curiosamente trata de chamar a atenção para o racismo inverso também, como na sinistra "Momma's Gotta Die Tonight" na qual uma mãe se opõe a uma relação do filho negro com uma branca e tem um fim assustador.
Sinistra também é a sombria "Voodoo" sobre uma velha feiticeira de New Orleans; bem como a pervertida "Evil Dick" com sua letra sobre um 'pau demoníaco' que se apodera do seu dono, num metal cadenciado com um trecho mais rápido de bataria no qual Ice-T acompanha no vocal simulando uma trepada enlolouquecida. Já "The Winner Loses", a mais leve (sonoramente) do disco trata sobre a tristeza de jovens se perdendo nas drogas, num metal melódico muito bem construído e com uma performance show de bola do ótimo guitarrista de Ernie C.
Mas no geral, a pancadaria predomina e o tema do racismo quase sempre está presente: "KKK Bitch" por exemplo, como se não bastasse sua porradaria sonora que come solta, despertou a ira dos lares americanos, sobremaneira de brancos conservadores e direitistas enrustidos por sua letra extremamente agressiva, explícita e pesada ( "... conheci essa garota branca com um belo rabo, cabelo louro, olhos azuis, seios e coxas grandes (...) Ela fez selvagem comigo no banheiro nos camarins, chupou meu pau como a porra de um vácuo e disse: "Eu te amo, mas meu pai não curte, ele é um filha-da-puta de um graúdo da KKK"). "There Goes the Neighborhood" com seu riff poderoso é outra que aborda o tema de diferenças raciais questionando o por quê de um negro não poder ter uma banda de rock, numa esposta irônica às críticas ao fato dele, Ice-T, oriundo do rap, estar atacando em outro segmento; a aceleradíssima a violenta "Bowels of the Devil" não trata diretamente sobre o assunto mas relata a vida de um negro na penitenciária; e "Body Count Anthem", esta por sua vez quase sem letra (só repete as palavras Body Count e as iniciais BC), é outra pedrada sonora com as guitarras altas e estridentes soando como se fossem um alarme.
Praticamente todas as faixas são entremeadas por pequenas vinhetas que assim como as músicas, igualmente não poupam nada nem ninguém de agressividade e contundência. Numa destas pequenas faixas Ice-T dá estatísticas da comparação do número de negros na prisão com os que estão na faculdade; noutra delas ridiculariza a apresentadora de TV Oprah Winfrey; noutra coloca que o verdadeiro problema das letras de música pop, segundo ele, seria o medo de que as garotas brancas se apaixonem por rapazes negros; ou ainda como na faixa de abertura simula um diálogo entre um homem que pede ajuda a um policial e acaba levando chumbo, introduzindo então para a excelente e pesadíssima "Body Count's in the House" com seus ruídos de sirenes, tiros e perseguições de automóveis.
Mas o ápice do ódio anti-policial de Ice-T aparece mesmo em "Cop Killer", um petardo matador no qual o artista encarna na letra um matador justiceiro especialista em aniquilar homens da lei. A canção é um hardcore rápido com vocal furioso e rajadas de metralhadora substituindo os rolos de bateria a cada entrada do impiedoso refrão, "Cop killer, better you than me /Cop killer, fuck police brutality! /Cop killer, I know your family's grievin' ... fuck 'em! /Cop killer, but tonight we get even" ("Matador de tiras, antes você que eu/ Matador de tiras, foda-se a brutalidade policial! /Matador de tiras, eu sei que do luto da tua família... foda-se eles! /Matador de tiras, esta noite vamos acertar as contas").
A canção caiu como uma bomba nos Estados Unidos e provocou gritaria de todo lado. A polêmica foi tanta que a música que fazia parte da primeira versão do disco, acabou sendo retirada das prensagens posteriores do álbum por opção do próprio  Ice-T mesmo apoiado pela gravadora  para mantê-la se assim quisesse. O resultado de tanta celeuma foi que a música abou virando uma espécie de canção cult que todo mundo conhece, poucos tem em versão original e muitos procuram baixar para de alguma forma ter o tal objeto de tamanha ira na sociedade americana.
Nas edições seguintes do álbum, inclusive na brasileira, que já veio sem "Cop Killer", a banda substituiu a faixa proibida por outra também bem interessante chamada "Freedom of Speech" um rap com sampler de "Foxy Lady" de Jimmi Hendrix e participação especialíssima de Jello Biafra dos Dead Kennedy's.
"Body Count" é um dos discos mais porrada que eu conheço. Uma bomab da primeira à última. disco de tirar o fôlego. É porrada em sonoridade, porrada em letra, porrada em atitude, em contundência, em objetivo e em resultado. Um verdadeiro soco no estômago da família americana, um chute no saco dos racistas, um cuspe no meio da cara das autoridades e uma poderosa e barulhenta saraivada de balas na polícia de Los Angeles. Um os grandes discos dos anos 90 e por certo, pelo 'estrago' que fez, pela barulheira que causou, e mesmo pelas próprias qualidades musicais principalmente, um daqueles álbuns que podem ser considerados fundamentais na história do rock.

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Confrontos de Los Angeles em maio de 1992


FAIXAS:
  1. "Smoked Pork" — 0:46 (Ice-T)
  2. "Body Count's in the House" — 3:24 (Ice-T/Ernie C)
  3. "Now Sports" — 0:04 (Ice-T)
  4. "Body Count" — 5:17 (Ice-T/Ernie C)
  5. "A Statistic" — 0:06 (Ice-T)
  6. "Bowels of the Devil" — 3:43 (Ice-T/Ernie C)
  7. "The Real Problem" — 0:11 (Ice-T)
  8. "KKK Bitch" — 2:52 (Ice-T/Ernie C)
  9. "C Note" — 1:35 (Ernie C)
  10. "Voodoo" — 5:00 (Ice-T/Ernie C)
  11. "The Winner Loses" — 6:32 (Ernie C)
  12. "There Goes the Neighborhood" — 5:50 (Ice-T/Ernie C)
  13. "Oprah" — 0:06 (Ice-T)
  14. "Evil Dick" — 3:58 (Ice-T/Ernie C)
  15. "Body Count Anthem" — 2:46 (Ice-T/Ernie C)
  16. "Momma's Gotta Die Tonight" — 6:10 (Ice-T/Ernie C)
  17. "Out in the Parking Lot" — 0:30 (Ice-T)
  18. "Cop Killer" - 4:09 (Ice-T, Ernie C)
* "Freedom of  Speech" - 4:41 (Ice-T , Biafra, Hendrix)  - faixa que susbstituiu "Cop Killler" a partir da segunda tiragem


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Ouça:
Body Count Body Count (1992)





*Rodney King é um taxista negro que foi violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o havia detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade na noite de 3 de março de 1991. O julgamento e absolvição dos agentes policiais envolvidos provocou os violentos tumultos de Los Angeles de 1992. A cena do espancamento, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo e causou indignação geral. A absolvição dos policiais, em 29 de abril de 1992, por um juri formado por dez brancos, um negro e um asiático, provocou uma das maiores ondas de violência da história da Califórnia. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares. Mais tarde, após os distúrbios, em 17 de abril de 1993 por volta das 7 horas da manhã, num novo julgamento, foi tomada a decisão de condenação de dois agentes dos distúrbios de Los Angeles, e a absolvição de outros dois.
fonte: Wikipedia

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Coluna dEle #55




Olá, seus filha da..., quero dizer seus filho de Mim mesmo!
Olha só, gente, quero dar uma real pra vocês: larguei vocês de mão!
Já perdi a paciência algumas vezes durante a história desse planeta, já andei tomando umas atitudes meio radicais, tipo peste negra, dilúvio, etc., mas dessa vez, Eu tenho que admitir que vocês 'tão se superando e Eu, ó, não tenho mais idade pra aguentar certas coisas.

Mandei esse vírus aí sabendo que haveria baixas, é verdade - mas sempre teve ao longo dos séculos, não é mesmo? - Ao mesmo tempo que já era, tipo, um puxão de orelhas, era uma oportunidade pra vocês me mostrarem que Eu tava errado. "Não, eles não são tão maus assim". Que nada! São piores!


Dei aquala chancezinha boa pra vocês serem menos egoístas, mais solidários, exercitarem a empatia, pra aprenderem o valor do outro, pra passar mais tempo com a família, dar valor às pequenas coisas, se cuidarem, pra sujarem menos a casa que Eu dei pra vocês... E o que vocês  fazem??? Tudo ao contrário! Tem neguinho chegando aqui aos borbotões, véi! Eu mal tenho lugar pra enfiar tanta gente e vocês  continuam indo pra shopping, balada, futebol e o caraiaquatro!

Quer saber? Querem se matar se matem. De Minha parte, vou colaborar com isso. Tô liberando todos os meus recursos aqui. Coisas que eu não usava fazia um tempão, tipo nuvem de gafanhoto que tava guardado aqui numa caixae Eu não usava desde as pragas do Egito. Agora segura a ira, merrrmão! Não sabe brincar, num desce pro play! Cansei de ser bonzinho. Tô quase cancelando vocês. Já acionei tempestade de areia, ciclone, tornado, furacão, barata gigante e tô pensando seriamente em usar um desses meteoros e cometas que tão rondando por aí em volta do planeta de vocês, e fazer algum deles mudar levemente a rota...
Ainda em análise.


Vamos ver como é que vai estar o Meu humor nos próximos dias.

Por hoje, era isso!
Juízo, hein!
É o juízo de vocês ou Juízo Final.


god@voxdei.gov tá momentaneamente bloqueado pra vocês. Não tô mais recebendo orações, nem pedidos, nem súplicas porque vocês só rezam, Me louvam, Me fazem mil juras de amor e bibibibobobó mas saem sem máscara na rua, ajoelham no pescoço do amiguinho, guardam material explosivo sem cuidado e etcétera, etcétera....

Quando Eu perceber que a atitude de vocês melhorou, Eu libero de novo o SAC (Serviço de Atendimento do Criador).
Enquanto isso, vão pro cantinho e pensem sobre o que andam fazendo.



Por enquanto, fiquem Comigo e que Eu os abençoe.




Ele

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Miles Davis - "Bags Groove" (1957)

 

"Em fevereiro de 1954, pela primeira vez em um tempo, eu me sentia bem de verdade. Minha embocadura estava firme porque eu vinha tocando todas as noites e tinha finalmente me livrado da heroína. Eu me sentia forte, física e musicalmente. Me sentia pronto para tudo."
Miles Davis

Era incrível a capacidade de Miles Davis para compor grandes bandas. O músico, que completaria 95 anos no último mês de maio e cuja prematura morte completará três décadas em setembro, desde que se tornara um jovem band leader, aos 22, no final dos anos 40, estabelecera tal protagonismo. Após alguns anos de “escola” aprendendo teoria musical na Julliard School mas, principalmente, tocando na banda de Charlie Parker, o grande revolucionário do jazz, o homem que pôs o gênero de ponta-cabeça diversas vezes ao longo de meio século, em menos de 10 anos de carreira solo e menos de 30 de idade já era considerado uma lenda no meio jazz nova-iorquino. Além de lançar discos referenciais, como “Birth of the Cool” (1949/50), cujo nome fala por si, e a trilogia hard-bopCookin’/ Relaxin’/ Steamin’” (1956), o trompetista tinha um tino especial também para agregar a si outros talentos, formando grupos às vezes tão inesquecíveis quanto seus álbuns. Tanto veteranos, como Charles Mingus, Art Blakey e Max Roach quanto então novatos, como Gerry Mulligan, John Coltrane, Herbie Hancock e Tony Williams, eram recrutados por Miles, um líder natural.

Era tanto prestígio de Miles já à época, que ele mantinha contrato com duas gravadoras, Blue Note e Prestige, e estava em vias de assinar com outra: a Columbia. Toda essa autoridade permitiu que, em “Bags Groove”, de 1957, ele pudesse contar não com uma, mas duas bandas. E, diga-se: bandas de dar inveja a qualquer front man. O disco reúne duas sessões de gravação ocorridas em 1954 no famoso estúdio Van Gelder, em Nova York: a 29 de junho e a 24 de dezembro. Para cada uma, Miles teve escalações estelares. Acompanhando-o na segunda delas estão, além dos velhos parceiros Percy Heath, ao baixo, e Kenny Clarke, na bateria, ninguém menos que Milt 'Bags' Jackson, nos vibrafones, membro da inesquecível Modern Jazz Quartet e a maior referência deste instrumento na história do jazz, e Thelonious Monk ao piano, considerado um dos maiores gênios da música do século XX. Duas referências do jazz bebop e ambos tocando pela primeira vez com o trompetista. 

O disco começa com outra característica de Miles fazendo-se presente, que é a de não apenas estar ao lado de músicos de primeira linha como, principalmente, saber tirar o melhor proveito disso. As duas versões da faixa-título, de autoria do próprio Milt, são tão solares que fazem esquentar o frio nova-iorquino daquela véspera de Natal. O estilo solístico de Miles e sua liderança no comando da banda, atributos totalmente recuperados por ele naquele 1954 depois de um longo e tortuoso período de vício em heroína, ficam evidentes em seus improvisos inteligentes, econômicos e altamente expressivos. 

Mas não é apenas Miles que brilha, visto que tudo na música “Bags...” abre espaço para diálogos. A elegância característica do estilo de Miles se reflete no soar classudo do vibrafone de Milt. Poder-se-ia dizer tranquilamente que a faixa, por motivos óbvios, além da autoria e da autorreferência, é dele, não fosse estar dividindo os estúdios com Miles e Monk. Este último, por sua vez, conversa tanto com a elegância peculiar dos dois colegas quanto, principalmente, no uso inteligente e econômico das frases sonoras. No caso do pianista, mais que isso: precisão – e uma precisão singular, pois capaz de expressar sentimento.

Capa do disco com Rollins,
que corresponde ao
lado B de "Bags Groove"
O repertório do álbum se completaria com outra gravação ocorrida meses antes, só que num clima totalmente contrário: em pleno calor do verão junino da Big Apple, Miles entra em estúdio amparado por Clarke novamente, mas agora tendo ao piano outro craque das teclas, Horace Silver. Mas ao invés do vibrafone percussivo de Milt, agora a sonoridade complementar muda para outro sopro: o vigoroso saxofone tenor de Sonny Rollins. Substituições feitas, qualidade mantida. Como um time que não se afeta com a intempéries e sabe mudar as peças mantendo o mesmo esquema vitorioso, 

Os quatro números restantes são fruto da sessão feita para “Miles Davis With Sonny Rollins”, de 1954 (este, lançado naquele ano mesmo), quando Miles, que já havia trabalhado rapidamente com o saxofonista três anos antes, apresentava-o, então com 24 anos, como jovem promessa do jazz. E se o lado A de “Bags...” tinha como autor não Miles, mas seu parceiro Milt, a segunda parte também era praticamente toda assinada por Rollins. “Airegin”, um bop clássico, é o resultado do entrosamento dos dois. Miles gostou tanto do tema, que o regravaria no já referido “Cookin’” com Coltrane, no sax, Red Garland, ao piano, Paul Chambers, baixo, e Philly Joe Jones, na bateria. O mesmo acontece com “Oleo”, um gostoso jazz bluesy, que Miles aproveitaria no repertório de outro disco memorável daquela época, “Relaxin’”, e com o qual contou com a mesma “cozinha” de “Cookin’”.

“Bags...” tem ainda outra de Rollins, a inspiradíssima “Doxy” e sua levada balançante, que não muito tempo dali se tornaria um clássico do cancioneiro jazz, interpretada por monstros como Coltrane, Dexter Gordon e Herb Ellis. Completam o repertório dois takes do standart “But Not For Me”, de Gershwin. Classe pouca é bobagem. 

Isso tudo, acredite-se, antes de Miles ter lançado aquele que é considerado sua obra-prima, “Kind of Blue”, de 1959, a criação do jazz modal e com o qual contou com Coltrane, Bill Evans, Cannoball Adderley, Jimmy Cobb e Wynton Kelly. Antes de ter tocado com o infalível quarteto Williams, Hancock, Wayne Shorter e Ron Carter, noutro passo fundamental para o jazz. Muito antes de ter feito “In a Silent Way” e “Bitches Brew”, as revoluções do jazz fusion em que teve, além de Hancock, Shorter e Williams, outros coadjuvantes ilustres como Chick Corea, Joe Zawinul e John McLauglin. Como talvez nenhum outro músico do jazz, Miles tinha a capacidade de reunir os diferentes e saber extrair disso o melhor. De unir verão e inverno e torná-los a mesma estação. “Bags...” é uma pontinha de tudo isso que Miles fez e representou para o jazz e a música moderna. E haja bagagem para conter tanta história e tantos talentos orbitando ao redor do planeta Miles Davis!

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FAIXAS:
1. "Bags' Groove" (Take 1) (Milt Jackson) - 11:16
2. "Bags' Groove" (Take 2) - 9:24
3. "Airegin" (Sonny Rollins) - 5:01
4. "Oleo" (Rollins) - 5:14
5. "But Not for Me" (Take 2) (George Gershwin/ Ira Gershwin) - 4:36
6. "Doxy" (Rollins) - 4:55
7. "But Not for Me" (Take 1) - 5:45


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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

cotidianas #123 - Milagre



Embora acredite em Deus, não sei até que ponto aceite a possibilidade de intervenções divinas diretas sobre os assuntos terrenos. A coisa toda de Jesus transformar água em vinho, de Moisés abrir o mar, de Nossa Senhora parecer para a fulana, então... não me passa mesmo. Mas talvez acredite que em alguns momentos Deus olhe para baixo (isso partindo do preceito vigente de que Ele esteja em algum lugar lá em cima) e resolva, "Eu não poso deixar isso assim", e daí são aqueles momentos em que uma criança é retirada de escombros depois  de 5 dias soterrada, que um paciente dado como morto volta à vida, etc.  E existem outros fatos cotidianos, menores num contexto global que a gente na maior parte das nem toma conhecimento mas que são de alguma forma tão significativas e especiais para quem viveu que poder-se-ia chamar até de pequenos milagres.
Tomo como exemplo um caso que minha mãe conta, da época de sua infância na qual sua família enfrentava grandes privações exatamente na época de Festas de Fim-de-Ano. Meu avô, que não conheci, estava desempregado, passava por sérias dificuldades financeiras e minha avó, dona de casa, se equilibrava como podia para administrar toda uma penca de filhos. Mas naquele Natal a coisa estava pior. Não apareceu dinheiro de lugar algum, as coisas tinham acabado em casa, já não tinham crédito nem cara-de-pau para pedir fiado no comércio vizinho, viam as outras famílias organizando ceias, comprando coisas saborosas e lá, para eles, a perspectiva era que não houvesse nada para aquela noite. Não que o fato de comer alguma coisa na noite de Natal compensasse o fato de possivelmente não ter nada no dia seguinte ou no outro e no outro... mas sempre há uma aura toda especial sobre esta data, uma ideia de confraternização, de reunião de família à mesa só que naquelas circunstâncias não teriam porquê se reunir à mesa.
A escassez gerava perguntas dos filhos menores. Não tinham nada a dizer a não ser que... não tinha comida. A fome começava a chegar e o nervosismo começava a tomar conta do ambiente. Ao pai, sem explicações possíveis naquele momento, restava a irritação, a ira, a cólera. Talvez consigo, com a situação, com o desemprego, com a miséria. Perdia a paciência, se irritava com as perguntas, ralhava com as crianças, gritava com a esposa... Não! Aquilo não era uma noite de Natal. Não, não era. Não uma noite como podia-se desejar: com família reunida, em paz, feliz. àquelas alturas minha mãe, a filha mais velha e mais consciente do que estava acontecendo, se retirou silenciosamente do ambiente, se dirigiu a um canto qualquer e simplesmente rezou. Rezou. Não pediu exatamente por comida. Pediu a Deus apenas para que ficassem em paz, que cessasse aquela gritaria, que tivessem uma Noite de Natal decente. Só queria uma Noite de Natal em paz com a família.
Mal terminara sua secreta oração quando ouviu aquelas batidas na porta. Batidas urgentes pelo jeito. Apressadas. Faltava pouco para a meia-noite. Quem seria?
Eram o vizinho cuja  esposa tinha problemas mentais e que havia tido uma espécie surto. Tinham toda uma ceia preparada mas teriam que levá-la a um hospital imediatamente. Tinha ido ver se queriam ficar com toda a comida uma vez que não poderiam aproveitá-la. Deixaram a comida toda empacotada. Bastante comida. Milagre! Só podia ser!
Foi a dádiva! Não só tiveram uma ceia decente, uma noite de Natal, como a paz voltou a imperar na casa naquele momento. Tiveram um Natal como poucas vezes naquela época.
É lógico que as dificuldades não acabaram ali. Vieram outros dias difíceis. às vezes melhoravam, às vezes voltavam à mesma. Mas aquela noite, talvez atendendo um apelo daquela menininha que tudo o que queria era um pouco de harmonia dentro de casa, o Velho lá de cima deve ter resolvido dar um pouquinho mais que apenas paz. Talvez, um pequeno milagre, talvez...


por Cly Reis

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

"Kóblic", de Sebastián Borenztein (2016)




Enquanto alguns brasileiros saíram à rua este ano pedindo incrivelmente a volta da ditadura, os argentinos continuam lambendo as feridas que os anos de intervenção militar deixaram naquele país. Esta discussão está presente no cinema argentino que não foge da raia e vem com mais um grande exemplo de como o golpe militar interferiu na vida da população. “Kóblic” é o novo filme de Sebastián Borenztein (“Um Conto Chinês”).

Nele, o onipresente Ricardo Darín interpreta Tomás Kóblic, um capitão da marinha que se recusa a abrir as portas de um avião para que se pudessem jogar os opositores do regime no mar, prática que ficou conhecida durante a intervenção militar naquele país. Para evitar a perseguição de seus colegas de armada, Kóblic se esconde em um lugarejo do interior chamado Colonia Elena. Mal sabe ele que será alvo da ira de Velarde (Oscar Martinez), o delegado da cidade que tem íntimas ligações com o regime militar. Ao mesmo tempo, Kóblic se envolve com a mulher de um comerciante da cidade (Inma Cuesta), tornando sua permanência na cidade ainda mais perigosa.

Oscar Martínez é o delegado
com íntimas relações com o regime militar
O diretor Sebastián e seu co-roteirista Alejando Ocon mantém o clima de suspense durante todo o filme e ainda dão um pequeno toque de faroeste num duelo final entre os protagonistas. Algumas críticas dão conta de que “Kóblic” perde sua intenção no final, quando se transforma de um filme de denúncia política a um banho de sangue a la Sam Peckinpah. Na verdade, a violência da ditadura argentina esteve sempre pronta para explodir durante todo o filme.

O clímax é apenas consequência do que os personagens vivem na tela. Como sempre, Darín está excelente, sabendo dosar sua performance com as devidas emoções. Já Oscar Martinez consegue compor um vilão de polícia do interior, sempre perseguindo o forasteiro que veio trazer balbúrdia á sua pacata cidade, enquanto Inma Cuesta dá credibilidade à sua Nancy mas tem pouco a fazer durante o filme. Novamente, o cinema argentino dá mostras de seu vigor e de que não há tema tabu em suas telas.

trailer "Kóblic"




por Paulo Moreira


segunda-feira, 8 de março de 2021

cotidianas #709 - Exterminadora

 


A luz se acendeu. Carlos se deparou com um ambiente totalmente revestido de veludo vermelho, cheio de algemas, chicotes, correntes e outros equipamentos estranhos, e uma cadeira, misteriosamente posicionada no centro do quarto. O estranhamento inicial se transfigurou numa expressão de agradável surpresa em seu rosto.
- Gosta de brinquedinhos, né, safada? - falou. - Tu é dessas que gosta de uns tapas, umas parada meio sadomasô, hein!
Ela, ainda perto da porta, deixou escorregar, suavemente, o casaco de pele pelo corpo, deixando à mostra o sensual conjunto de espartilho preto.
Os olhos de Carlos brilharam. Pensou na sorte que teve em uma mulher como aquela ter lhe oferecido uma bebida naquele bar.
O barulho da tranca da porta o tirou de seus pensamentos. A mulher o olhava, agora, de um modo um tanto enigmático.
- Gosta de bater em mulher, não é?
A pergunta o surpreendeu.
- O que...?
- Gosta de bater em mulher, né, machão? - ela reforçou.
- Uns tapinhas, umas maldadezinhas... - respondeu tentando dar um tom descontraído à conversa, entendendo que assim estaria 'entrando no clima'.
- Nilze! - interrompeu ela.
- Ahn? Que?
- Nilze. Conhece esse nome? - questionou a mulher com veemência na voz.
- Não sei do que tu tá falando. - agora já sério e um pouco desconfortável com a situação - Deve estar havendo algum engano...
- Nilze não é o nome da rua esposa? Nilze! Não tem engano nenhum. Ela me contratou pra dar um jeito em um covardão que bate em mulher. É tu por acaso?
- Eu... eu...
- "Eu, eu..." - imitou ela de maneira ridícula e completou - É o que eu faço: quando o 180 não funciona, eu dou um jeito em macho prevalecido que não respeita mulher. Ela me prometeu me pagar uma boa grana pra cuidar de ti, mas depois que ela me contou o que tu faz com ela, me mostrou fotos de como tu deixou ela, eu resolvi fazer de graça. E, olha vou fazer com prazer. - disse essa última frase com um sorriso quase sádico no rosto.
- Sua puta desgraçada!
Num despertar de ira, abandonou definitivamente a postura defensiva e precipitou-se para cima da musa de lingerie à sua frente.
Ela, confiante, apenas deu um passo para trás. Ele, em meio à investida, cambaleou, levou a mão à cabeça, apertou os olhos...
- O que você fez comigo, sua vadia?
- Nunca te disseram pra não aceitar bebida de estranhos? Devia desconfiar de uma mulher bonita se interessar por um cara como tu.
- ... eudimato! - foi o que conseguiu pronunciar, com dificuldade, entre os dentes cerrados pelo maxilar semiparalisado.
- Mata nada! - rebateu ela, bem descontraída enquanto escolhia algum daqueles instrumentos na parede.
Do chão, olhando para ela com o canto dos olhos, sem conseguir mexer a cabeça, ele viu a justiceira se aproximando com um instrumento tão estranho que nem conseguia imaginar como aquilo era utilizado, muito menos o dano ou a dor que aquilo poderia causar, onde quer que fosse usado em seu corpo.
Calçando as luvas cirúrgicas, e com aquele sorriso lindo que o desarmara naquele bar, poucas horas antes, aquela torturadora sexy, de espartilho e cinta-liga, anunciou com indisfarçável e sincera satisfação:
- Bem, vamos começar a brincadeira...




Cly Reis

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ella Fitzgerald and Louis Armstrong - "Ella and Louis" (1956)



"Homem, mulher ou criança,
Ella [Fitzgerald] é maior que qualquer um."
Bing Crosby

"Se houve alguém que foi um mestre,
esse alguém foi Luis Armstrong."
Duke Ellington



Um encontro de titãs de dois dos maiores nomes da música. Ella Fitzgerald, diva do jazz, uma das maiores cantoras de todos os tempos e dona de interpretações inigualáveis juntava-se a Louis Armstrong, cantor de voz inconfundível, de recursos vocais interessantíssimos e trompetista de estilo moderno e ousado para sessões de gravação que originariam o extraordinário “Ella and Louis”.
Composto basicamente por canções românticas e baladas de compositores como Gershwin e Irving Berlin, “Ella and Louis” (1956) é puro deleite. As interpretações de ambos, sustentadas por nada menos que o Oscar Peterson Trio, carregam o talento pessoal de cada um somados às suas respectivas grandes capacidades de improvisação, demonstrando um impressionante entrosamento e uma gostosa descontração de estúdio.
A lindíssima “Can't We Be Friends?” tem interpretação destacada da diva; “Isn't This a Lovely Day?” tem um daqueles belos solos econômicos, básicos e precisos de Louis, seus improvisos vocais característicos e um dueto lá-e-cá adorável entre os dois cantores; e ainda a ótima “Tenderly” que com uma performance solo arrasadora do trompete de Armstrong abre e prepara terreno para que Ella deslize sua voz doce sobre a canção, e igualmente fecha com outra demonstração de talento e inspiração no instrumento de sopro. Na adorável “Cheek to Cheek”, uma das minhas favoritas do álbum, mesmo reconhecendo que no quesito cantar Ella é muito mais completa que o Louis, o destaque é para a atuação vocal dele. Muitíssimo bem “A Foggy Day” dos Gershwin não pode deixar de ser mencionada assim como a melancólica “April in Paris”, que numa interpretação cheia de sentimento de Ella Fitzgerald, com um solo choroso do trompete de Louis Armstrong e com uma performance magistral de Oscar Peterson ao piano, encerra a obra de forma perfeita.
“Ella and Louis” só não é um documento musical único porque, por conta do sucesso do lançamento, a gravadora encomendou um novo encontro da dupla para o álbum “Ella and Louis Again”, que é considerado por muitos até mesmo melhor que o original.
Talvez. Não sei. Gosto muito do outro também. Talvez seja assunto para outro A.F.. Mas por hora fiquemos com este registro mágico onde a graça da Primeira Dama e a originalidade do Satchmo garantem um dos momentos mais célebres que a música já viveu.
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FAIXAS:
01. Can't We Be Friends? (Paul James, Kay Swift) – 3:45
02. Isn't This a Lovely Day? (Irving Berlin) – 6:14
03. Moonlight in Vermont (John Blackburn, Karl Suessdorf) – 3:40
04. They Can't Take That Away From Me (George Gershwin, Ira Gershwin) – 4:36
05. Under a Blanket of Blue (Jerry Livingston, Al J. Neiburg, Marty Symes) – 4:16
06. Tenderly (Walter Gross, Jack Lawrence) – 5:05
07. A Foggy Day (G. Gershwin, I. Gershwin) – 4:31
08. Stars Fell on Alabama (Mitchell Parish, Frank Perkins) – 3:32
09. Cheek to Cheek (Berlin) – 5:52
10. The Nearness of You (Hoagy Carmichael, Ned Washington) – 5:40
11. April in Paris (Vernon Duke, Yip Harburg) – 6:33


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Ouça:

Cly Reis

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Música da Cabeça - Programa #344

 

Que calor é esse, mermão?! Deve ser o MDC se aproximando com o que há de mais quente em matéria de música. Esquentando as pick-ups, Wayne Shorter, Adriana Partimpim, Ira!, The Beatles e Tim Maia. Sem deixar cair a temperatura, tem ainda os Beatles voltando a hot parade 40 anos depois e Hubert Laws com sua flauta incandescente fazendo aniversário. Se hidrata bem, que não vamos dar refresco no programa de hoje, às 21h, na acalorada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e maçarico: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Titãs - "Cabeça Dinossauro" (1986)

O MELHOR DISCO NACIONAL DE TODOS OS TEMPOS
"Oncinha pintada,
zebrinha listrada,
coelhinho peludo,
Vão se foder!"
letra de "Bichos Escrotos"


"Cabeça Dinossauro". Assim mesmo, sem a preposição. O nome já dava mostra do que estava contido ali dentro daquela capa genial e incomum que ao mesmo que impactava pelo grotesco, completava o conceito geral da obra: a cabeça dinossauro era uma transfiguração, uma metamorfose em monstro, um retorno ao primitivo, era uma digressão à língua, um não aos padrões. A própria canção homônima que abria o disco com sua batida tribal e letra 'primitiva' era retrato fiel e confirmação da proposta.
Letras simples, versos curtos, mínimos e minimalistas, aliterações, repetições e discursos diretos. Assim os Titãs deram uma reviravolta na própria carreira, até então sem uma personalidade musical definida, e construíram um dos discos mais notáveis e criativos do rock nacional. Aquilo era butal, era violento na essência, era agressivo como nunca a música popular ousara ser a tal ponto, disparando contra religião, autoridades, estado, família e capitalismo com doses variadas de desprezo, ira e ironia. Quer mais que afirmar que não gostavam de Cristo; mandar dar porrada em quem não desse nenhuma contribuição ao mundo; ou mandar os bichinhos fofinhos se foderem? Aliás, "Bichos Escrotos", que trazia este xingamento, ainda que não fosse a mais brilhante do disco, não pode deixar de ser mencionada sobremaneira por uma quebra definitiva de paradigmas na mídia por conta do "FODER" de sua letra que era cantado incessantemente pela garotada, independente da proibição de execução pública expressa na contracapa. Num país com a democracia recém instaurada e uma liberdade de expressão ainda combalida, o resultado foi que sua popularidade foi tanta, a música era tão conhecida e entoada por todos que mesmo sem ser revogada, sua proibição caiu por terra naturalmente e a faixa passou a tocar sem corte em muitos segmentos dos meios de comunicação. E, ao contrário do que soava aos pais e moralistas de plantão naquele momento, "Bichos Escrotos" não se limitava a um palavrão gratuito: aquele grito era um não à beleza artificial, ao padrão estético, uma convocação à atitude, sendo um dos mais significativos símbolos da virada que os Titãs davaam com aquela obra.
Outro momento marcante da obra é a descontrolada "A Face do Destruidor", um hardcore extremamente agressivo e veloz na execução e na duração (apenas 34 segundos) que de certa forma justificava que nada se cria e tudo se transforma mas que às vezes é importante botar tudo abaixo para construir novamente. E era o que eles estavam fazendo.
"Cabeça..." ainda traz um dos maiores clássicos do rock brasileiro de todos os tempos que ganhou inúmeras regravações, homenagens, referências, performances de todo o tipo e qualidade de artistas, de Sepultura a Marisa Monte: "Polícia"; um punk rock implacável que incrivelmente venceu no mundo pop sem fazer concessões de letra nem estilo, gravando na memória do Brasil dos refrões mais conhecidos e populares da música nacional.
Fruto da multiplicidade de estilos de um time de oito cabeças com origens, inspirações e gostos musicais distintos e da mão certeira do produtor e parceiro Liminha, "Cabeça Dinossauro" era punk na maior parte das vezes mas era tão fora dos padrões que podia trazer um raggae como "Família", um ska como "Homem Primata" ou "O Quê?", um funk estraçalhador com uma linha de baixo toda quebrada, cheio de teclados e uma interessantíssima mescla de bateria acústica com eletrônica, delineando um inquietante jogo de palavras que não cansava de perguntar e ao mesmo tempo responder "o que é que não pode ser?". E o que é que não poderia ser depois daquilo? Podia-se tudo e aquela obra ajudava a afirmar isso.
Até mesmo como resultado de experiências como a de "O Quê?", os Titãs chegariam a resultados, talvez, melhores tecnicamente com seus dois álbuns de estúdio seguintes, "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguleas" e "Õ Blésq Blom", mas "Cabeça Dinossauro" já tinha metido o pé na porta e por este rompimento, por sua profusão de ideias e estilos, pela sua reconceituação num dos momentos mais importantes da retomada do rock brasileiro, seu impacto e reflexos, este é, minha opinião, simplesmente o maior disco do rock brasileiro de todosos tempos.

FAIXAS:
1. "Cabeça Dinossauro" (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos) – 2:20
2. "AA UU" (Marcelo Fromer, Sérgio Britto) – 3:01
3. "Igreja" (Nando Reis) – 2:48
4. "Polícia" (Tony Bellotto) – 2:06
5. "Estado Violência" (Charles Gavin) – 3:10
6. "A Face do Destruidor" (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos) – 0:34
7. "Porrada" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto) – 2:51
8. "Tô Cansado" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 2:18
9. "Bichos Escrotos" (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Nando Reis) – 3:13
10. "Família" (Arnaldo Antunes, Tony Bellotto) – 3:32
11. "Homem Primata" (Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto) – 3:27
12. "Dívidas" (Arnaldo Antunes, Branco Mello) – 3:08
13. "O Quê" (Arnaldo Antunes) – 5:40

FORMAÇÃO (em 1986)
Arnaldo Antunes: vocal
Branco Mello: vocal
Charles Gavin: bateria e percussão
Marcelo Fromer: guitarra
Nando Reis: baixo e vocal
Paulo Miklos: baixo (em "Igreja") e vocal
Sérgio Britto: teclado e vocal
Tony Bellotto: guitarra

PRODUZIDO POR LIMINHA

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