Espaço dedicado à música, cinema, artes, cultura pop e uma ampla variedade de conteúdos. Tudo o que é mais legal e interessante na internet está ao seu alcance no ClyBlog.
“Dr. Funkenstein estava muito à frente de seu tempo."
Bootsie Collins
"À imagem do escolhido: Dr. Funkenstein/
E o funk é sua própria recompensa/
Posso te assustar?"
Trecho do Prólogo de "The Clones of the Doctor Funkenstein"
De todos os artistas da black music dos anos 70 nos Estados Unidos – e olha que não são poucos – certamente George Clinton foi o mais radical e produtivo. Contudo, talvez não tão dimensionado como Marvin Gaye, Stevie Wonder ou Curtis Mayfield naquela época. Filho da Motown, para a qual trabalhou produzindo e compondo por vários anos nas décadas de 50 e 60, ele admirava o funk de James Brown, bem como era um conhecedor de tradição do R&B. Tão conhecedor que entendeu por si próprio que podia adicionar a esse cabedal sonoro da música negra a psicodelia sixtie e potencializá-la. Foi quando tudo se transformou.
Admirador de Sly Stone, Jimi Hendrix e Frank Zappa, Clinton tirou deles os principais elementos para formar seu combo psychofunk Parliament-Funkadelic, as duas bandas que comanda simultaneamente desde 1970. Seja como Parliament (via de regra, mais dançante e festiva) ou Funkadelic (mais psicodélica e pesada em geral), o que prevalece, independente do nome, é a alta criatividade (sorvida a base de muita maconha) e as preciosas e numerosas contribuições de músicos gabaritados – como Bootsie Collins, Bernie Worrell, Maceo Parker, Rick Gardner e os irmãos Brecker –, alguns dos mais de 50 que o ajudaram a criar uma linguagem musical e estética próprias. Uma verdadeira cultura lisérgica e freak, que se disseminou para além da música, virando HQ, desenho animado, filmes, brinquedo e toda uma gama de produtos excêntricos.
Em seu universo de extraterrestres, naves espaciais, seres mitológicos e criaturas monstruosas, “The Clones of The Doctor Funkenstein”, da Parliament, que completa 50 anos de lançamento, é um perfeito exemplar. O título, que inventa um Prometeu negro maligno e cheio de groove (assim como o próprio Clinton), já dá a noção dessa mistura catalisadora e liberta de preconcepções. E Clinton puxa um pouco de cada um daquelas suas principais referências. De Sly, a liberdade de adicionar a soul a psicodelia da contracultura, inclusive subvertendo o apartheid do meio musical de então ao convocar brancos para fazer música de preto. De Hendrix, por outro lado, além da lisergia e da extravagância, vinha a liberdade de reivindicar para si o peso das guitarras do rock – afinal, foram os pretos que o inventaram. De Zappa, por fim, a liberdade de misturar sem receio jazz, rock, soul e avant garde, bem como a proficuidade de se permitir produzir muito sem perder a qualidade. Para se ter ideia, além de “Clones...”, pela Funkadelic ele lançava naquele mesmo ano dois outros excelentes álbuns: “Hardcore Jollies” e “Tales of Kidd Funkadelic”. De 1970 até aquele ano, juntando as duas bandas, já se somavam 11 discos fora estes, uma média de mais de dois álbuns anualmente.
Boneco do Dr. Funkenstein
“Clones...”, quinto da discografia da Parliament, mostra um grupo perfeitamente afiado em conceito e sonoridade, além de trazer um verdadeiro alter-ego de Clinton na figura do temido Dr. Funkenstein. Tem funk melódico, dançante, romântico, chapado, Tem rock, jazz, R&B, soul. Coros, vocais solo. Arranjos de metais inspiradíssimos. De um tudo num dos álbuns mais diversificados de Clinton & Cia. O começo é com uma sinistra e ao mesmo tempo engraçada apresentação, com a fala de uma voz grave e demoníaca (“Era uma vez o Funk/ Nos dias dos Funkapus/ O conceito de Afronautas especialmente projetados/ Capazes de funkatizar galáxias”) tal a do ator William Marshall como o personagem do filme blackexplotation “Blacula”, e que também inspiraria a famosa voz de Vincent Price em “Thriller”, de Michael Jackson. Em seguida, entra "Gamin' On Ya", um exercício quase instrumental com seu riff de teclados oriental e um excelente arranjo de metais assinados por Worrell, tecladista, compositor e um dos grandes parceiros musicais de Clinton.
Segundo maior sucesso comercial da banda, a música “Dr. Funkenstein”, que chegou ao 43º lugar na parada pop Billboard, trava um diálogo entre criador e criatura quando Clinton conversa com a voz esganiçada do conclamado “Rei do Funk”. Destaca-se, já de cara, o som do baixo de Bootsie, célebre egresso da banda de James Brown e um dos mais ativos integrantes da Parliament-Funkadelic. Além disso, é impagável o coro cantando sob as risadas esquisitas de Funkenstein: “We love to funk you, Funkenstein/ Your funk is the best/ Take my body, give it the mind/ To funk with the rest”.
Assim como a anterior, "Children of Production", que segue no tema de Funkenstein, porém agora falando de seu diabólico filho, os exímios arranjos de metais são de autoria de outro ex-integrante do conjunto de James Brown: o trombonista e compositor Fred Wesley. Assim como o baterista Frankie Waddy – mais um ex-Mr. Dynamite –, Wesley, de formação jazzística, trazia para a Parliament a sonoridade raiz do R&B. “Getter to Know You” não deixa mentir, em que a linha de metais acompanha o belo vocal solo de Clinton.
Anúncio de TV marcando a volta do Dr. Funkenstein contra a "Síndrome do Placebo"
Se “Dr. Funkenstein” foi o segundo maior sucesso da Parliament, “Do the Stuff” foi o grande hit, alcançando o 23º posto das paradas. Funk gostoso, daqueles de sacolejar o esqueleto. Começa com um show de bateria de Waddy, mas logo todos se apresentam: Bootsie com seu baixo inconfundível (posteriormente conhecido em todo o mundo por "Groove Is in the Heart", da Deee-Lite), o coro P-Funk, os sopros em frases inspiradas, a guitarra rítmica com chuggings e os teclados cheios de groove.
Intercalando com Wesley, é Worrell quem assina os arranjos de metais das três últimas faixas. “Everything Is On The One” brinca melódica e metalinguisticamente com a repetição do verso “tudo está em um”. Nesta, a galera aproveita para soltar a voz em melismas e improvisos. Já a espetacular e sensual “I've Been Watching You (Move Your Sexy Body)” dá pinta de que vai encerrar o disco. Funk cadenciado e psicodélico, anda no ritmo de uma transa sob efeito de LSD e sem pressa para acabar aquele barato. Mas para quem achava que “Everything...” fecharia os trabalhos, ainda vem a embalada soul "Funkin' For Fun" só para dar mais cores a essa ópera-funk doidona e saborosa.
“Clones...” alcançou a posição #20 na parada pop da Billboard e se tornou o segundo álbum do Parliament a ser certificado Disco de Ouro. Assim como este, outros trabalhos do combo P-Funk também foram altamente influentes, como “Maggot Brain”, "Mothership Connection", “Uncle Jam Wants You”, “Funkentelechy vs. the Placebo Syndrome” e “One Nation Under a Groove”, bem como os discos de Bootsie, do spin-off Parlet e da apadrinhada Zapp, a quem 2Pac samplearia mais tarde. E não somente ele, mas toda a geração do rap, como Snoopy Dog, Dr. Dre, Public Enemy, De La Soul e LL Cool J. Mas não só: roqueiros como Red Hot Chilli Peppers e Living Colour, por exemplo, talvez nem existissem não fosse o pioneirismo de Clinton e sua turma.
O reconhecimento por tudo isso um dia deveria vir, se não Funkenstein jogaria uma praga. E veio. Em 2012, a Parliament-Funkadelic foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll. No mesmo ano, a Berklee College of Music concede a George Clinton o título de Doutor Honoris Causa em Música. Após mais de meio século de uma experiência radical na música negra norte-americana, o "cientista do funk" Dr. Funkenstein, finalmente, recebe seu merecido diploma.
🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱🕱
FAIXAS:
1. "Prelude" (Bernie Worrell, George Clinton) - 1:40
2. "Gamin' On Ya" (Worrell, Collins, Bootsie Clinton) - 3:02
"Afirmo que SEXO É SEXO e AMOR É AMOR. Quando combinados, eles funcionam bem juntos, se duas pessoas tiverem a mesma opinião".
Marvin Gaye, no texto da contracapa do disco
Com o início da década de 70, o Marvin Gaye romântico e alienado começa a entrar em conflito por ter atravessado os anos 60 sem uma participação política mais ativa. É aí que começa a se revelar o autêntico Marvin Gaye – intenso, inquieto, atormentado, introspectivo, radical –, analista e repórter de seu tempo. O manifesto em forma de disco era "What’s Going On", suíte dividida em nove partes em que Marvin discute a Guerra do Vietnã, os problemas ecológicos ("Mercy, Mercy Me" foi a primeira canção pop a tratar do tema) e o racismo. Para fazer "What’s Going On", Marvin brigou com Berry Gordy Jr., executivo de sua gravadora, a Motown, e chegou a ameaçar abandoná-la. Queria ter completa autonomia na produção, compor todas as canções e escolher os músicos. Gordy não queria mexer em time que estava ganhando e mudar o estilo da gravadora. Confirmando o que Marvin imaginava e contrariando as previsões de Gordy, "What’s Going On" foi sucesso de crítica e de vendagens.
O disco seguinte, "Let’s Get It On", era menos político, mas não perdia nada no aspecto revolucionário. Erótico e lascivo, "Let’s Get It On" atingia o baixo ventre e os quadris sem desprezar o coração e sem ofender o cérebro. Parecia ser o início de uma fase prolífica e criativa de Marvin, mas a vida voltou a entrar em parafuso. Separou-se de Anna e passou a viver com Janis – 17 anos mais nova e que o trocaria pouco tempo depois pelo cantor Teddy Pendergrass. Os divórcios foram problemáticos, somados à dívidas de milhões de dólares com o fisco, consumo exagerado de cocaína e escassos shows pelos Estados Unidos. Tentou mudar de vida morando um ano no Havaí, mas como a dor também inspira são dessa época os discos "Here My Dear" (sobre a separação com Janis) e "I Want You" (outro manifesto erótico-dançante). Do Havaí foi para Londres e de lá para um autoexílio de três anos em Ostend, cidade litorânea da Bélgica, onde alugou um apartamento com vista para o Mar do Norte.
Parecia mais tranquilo quando foi encontrado pelo produtor Larkin Arnold, da CBS, que o queria de volta aos estúdios. A gravadora comprou seu passe da Motown por US$ 2 milhões e os advogados se encarregaram de resolver os problemas legais que Marvin tinha com a justiça americana.
O recomeço seria uma retomada de "Let’s Get It On" com "Midnight Love" esbanjando libido e sensualidade. À fluidez do soul dos anos 60 se acrescenta os ritmos caribenhos e os experimentalismos digitais. "Sexual Healing", carro-chefe do disco, garante a Marvin a eleição pela Billboard de compacto de música negra do ano e o primeiro Grammy de sua carreira. Marvin Gaye mostrou-se profético (e herético) pela última vez ao encerrar o disco com a faixa "My Love Is Waiting", orando pela proteção divina enquanto pedia que a mulher amada não o abandonasse.
A alma, ainda mais dividida, continuava sagrada e profana.
vídeo de"Let's Get it On"ao vivo em Amsterdan, em 1976
Não parece aceitável que seja apenas o aperfeiçoamento dos recursos técnicos, capazes de recuperar com tecnologia digital filmes antigos, o motivo que explique porque estejam vindo somente agora a público certos registros do passado cujos espinhosos temas são necessários e urgentes para se entender a sociedade do hoje. O racismo, seja estrutural, velado ou institucionalizado, de alguma forma colabora para essa justificativa. Por que, então, não fosse por isso, somente após 60 anos de carreira, Tina Turner sentira-se à vontade para divulgar questões até então sujeitas à crítica de sua vida pessoal no documentário “Tina”? Igualmente, por que apenas dos últimos anos para cá tenham fervilhado docs abordando abertamente este tema como "Os Panteras Negras: Vanguardas da Revolução" (2015), "What Happened, Miss Simone?" (2015), "Eu Não Sou Seu Negro" (2016), "A 13ª Emenda" (2016) e "Libertem Angela Davis" (2012)?
Esse esquecimento perverso quase fez o mundo perder de conhecer uma história praticamente apagada das mentes, mas que, salva pelas mãos do cineasta Ahmir "Questlove" Thompson, foi resgatada para a eternidade. “Summer Of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, o magnífico e arrebatador documentário que concorre, com todo merecimento, ao Oscar nesta categoria, explora o Harlem Cultural Festival de 1969, evento que reuniu multidões de pessoas negras pela primeira vez em um acontecimento público e ao ar livre nos Estados Unidos e grandes nomes da música negra para celebrar a cultura afro-americana. Apesar da magnitude do festival, as imagens recuperadas pelo filme ficaram guardadas por décadas – acredite-se – numa cave. A referência no título à música de Gil Scott-Heron, escrita originalmente naquele mesmo explosivo ano de 1969, deixa claro o tom de denúncia que choca e encanta ao mesmo tempo. Como essa história tão rica nunca havia sido contada?
Wonder dando adeus ao sufixo "Little" e ganhando maturidade no Harlem Cultural Festival
Montado com sensibilidade e perspicácia, “Summer...” une em sua narrativa didática jornalística com arqueologia urbana. Focado nos vários números musicais que se apresentaram no palco montado em pleno Mount Morris Park, as apresentações são entrecortadas por breves mas extremamente precisas informações documentais sobre aspectos sociais, políticos e biográficos que sustentam o objeto do filme, fazendo com que não seja apenas um amontoado de músicas seguidas umas das outras (o que, neste caso, já seria interessante). Minitelejornais sobre determinado artista, imagens de fatos sociais recentes como manifestações contra o racismo, ou contextualizações históricas necessárias, como a coincidência do festival com o dia da chegada do homem à Lua, 20 de julho, dão ainda mais peso àquelas performances que se veem no palco, agigantando-as de significado e importância.
Afora isso, a variedade de estilos (R&B, funk, gospel, blues, jazz) e o nível de qualidade do cast é de encantar qualquer admirador da música feita nos últimos 60 anos. B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Stevie Wonder, Sly & Family Stone, Gladys Knight & the Pips, The 5th Dimension, Max Roach e outros desfilam à frente dos olhos dos espectadores, dando a impressão de quase não se acreditar que aquilo um dia aconteceu. Mas está ali, vivo novamente. Afortunados que estavam na plateia e alguns daqueles artistas, como Marilyn McCoo e Ronald Townson, da The 5th Dimension, juntam-se aos espectadores comuns nesse assombro. Noutro grande mérito do filme de Thompson, pessoas que presenciaram o festival, seja assistindo ou se apresentando, são convidadas a reverem as imagens até então perdidas. Profundamente tocados, pois a revivência lhes retraz alegrias e dores, é impressionante perceber o quanto todos demonstram surpresa com o que veem, não só por somente agora terem a oportunidade disso, mas porque, não fosse a força intrínseca da imagem, do mistério divino que o cinema guarda, as memórias tendem a irem se apagando até, um dia, desaparecerem por completo. É o cinema documental exercendo suas duas primordiais funções: revelar e eternizar.
trailer de"Summer of Soul"
Além de um retrato do momento sociocultural de final dos conturbados anos 60, o filme serve também para se entender o próprio estágio em que se encontravam àquela época os artistas participantes, visto que, para alguns, o festival foi crucial para a carreira. Wonder, então com 19 anos, por exemplo, sobe ao palco do Harlem Cultural Festival exatamente no ínterim entre sua tutela artística pela Motown, iniciada quando ainda era uma criança, e o começo da maturidade criativa, que o levaria a se tornar um dos mais consagrados artistas de todos os tempos a partir de então. A Sly & Family Stone, igualmente. É impressionante perceber que “Stand!”, revolucionário disco de estreia da banda que mesclava o funk negro ao psicodelismo do rock com o grito contra as desigualdades, havia sido lançado apenas um mês antes da realização do festival e, mesmo assim, já era uma febre junto ao público. E o que dizer da apresentação explosiva de Nina?! Ou da homenagem a Martin Luther King, protagonizada por Mavis Staples e Mahalia!? De arrepiar. Se o assassinato do pastor e líder político ainda hoje não é totalmente assimilado pela comunidade negra, imagine-se à época, pouco mais de um ano anos após o trágico ocorrido e em que as feridas estavam abertas.
Mavis e Mahalia protagonizando um dos momentos mais emocionantes do filme
O paralelismo com fatos históricos daquele efervescente período está presente a cada minuto do longa, como a onipresença dos Black Panthers (responsáveis pela segurança do evento), a presença de figuras emblemáticas para a causa negra como o ativista Jesse Jackson e o protagonismo de Tony Lawrence, agitador cultural e organizador do festival. Somente assistindo-se o filme se entende com mais clareza, por exemplo, o porquê das críticas que sempre pairaram em relação à política de financiamento da corrida especial, intensificada pelos Estudos Unidos naquela década de 60 de Guerra Fria e disputa de poder com a União Soviética. Num dos momentos do filme, mostram-se reportagens da época com pessoas sendo entrevistadas durante o festival dizendo ser um absurdo o governo gastar bilhões de dólares para ir à Lua enquanto a população, ali, pobre e em sua maioria negra, passa por tanta dificuldade. Noutro ponto, mais um aspecto elucidativo de “Summer...”: o festival foi realizado, curiosamente, durante o mesmo verão que outro megaevento, o de Woodstock, o qual levantava não a perigosa bandeira da luta contra o racismo e dos direitos civis, mas a utópica máxima hippie de “paz e amor”. Não é difícil de saber qual festival entrou para a história e qual foi esquecido num porão...
“Summer...” não é só provavelmente o melhor documentário deste ano e forte candidato à estatueta da Academia, como um dos mais brilhantes sobre música da história do cinema, tranquilamente equiparável a clássicos do gênero como “O Último Concerto de Rock”, “Gimme Shelter” e “Amazing Grace”. Sua narrativa, que casa metalinguística e documentação histórica, é tão eficiente que lhe potencializa o caráter de espetáculo e de denúncia social num só tempo. A realização milagrosa de “Summer...” é, por si, reveladora, visto que funciona como uma metáfora da vida da América escravagista: preso num calabouço, o negro, até então fadado ao apagamento social, sai da condição subumana para forjar, com talento ímpar e força interior ainda mais admirável, toda a arte musical moderna como se conhece hoje.
Entre as gravadoras, o nome Blue Note é certamente
o mais mencionado entre todos aqui no blog quando falamos de música. Mais do que qualquer outro selo do
jazz, como Atlantic, Impulse!, Columbia ou ECM, ou mesmo da música pop, como Motown,
Chess, Factory e DefJam, a Blue Note Records já foi destacada em nossas postagens em pelo menos um cem número de vezes, aparecendo em diversos de nossos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS como informação essencial para, inclusive, a essencialidade das próprias obras. Não à toa. O selo nova-iorquino, que completou
83 anos de fundação esta semana, feito encabeçado pelos produtores musicais
Alfred Lion e Max Margulis nos idos de 1939, transformou-se, no transcorrer das
décadas, num sinônimo de jazz moderno de alta qualidade e bom gosto.
O conceito, aliás, já está impregnado nas caprichadas e conceituais artes dos
discos, como nas capas emblemáticas de Reid Miles, as fotos de Francis Wolff e,
por vezes, a participação de designers convidados, como Burt Goldblatt, Jerome Kuhl e, nos anos
50, um então jovem artista visual de Pittsburgh chamado Andy Wahrol. Tudo encapsulado
pela mais fina qualidade sonora e técnica, geralmente gerenciada pelas hábeis
mãos do engenheiro de som Rudy Van Gelder em seus mágicos estúdios Englewood
Cliffs, em New Jersey, outro emblema de qualidade associado à marca Blue Noite.
Mas, claro, o principal é a música em si. Musicalmente falando, a gravadora em diferentes épocas
reuniu em seu elenco nomes como Horace Silver, Herbie Nichols, Lou Donaldson,
Clifford Brown, Jimmy Smith, Kenny Burrell, Jackie McLean, Freddie Hubbard,
Donald Byrd, Wynton Marsalis, Andrew Hill, Eric Dolphy, Cecil Taylor, Hank Mobley, Lee Morgan,
Sonny Clark, Kenny Dorham, Sonny Rollins e tantos outros. Há, inclusive, os que lhe tiveram passagem rápida, mas que, mesmo assim, não passaram despercebidos, como Miles Davis, nos primeiros anos de vida do selo, ou
Cannonball Adderley e John Coltrane, que em seus únicos exemplares Blue Note, no final dos anos 50, deixaram marcas indeléveis na história do jazz.
Pode-se dizer sem medo que pela Blue Note passaram bem dizer
todos os maiores músicos do jazz. Se escapou um que outro – Charles Mingus,
Chet Baker, Albert Ayler, Ahmad Jamal – é muito. Outros, mesmo que tenham andando
por outras editoras musicais, tiveram, inegavelmente, alguns de seus melhores
anos sob essa assinatura, tal Wayne Shorter, Dexter Gordon e McCoyTyner.
Tanta riqueza que a gente não poderia deixar passar a data
sem, ao menos, destacar alguma lista como gostamos de fazer aqui. Melhor, então: destacamos cinco delas! Para isso, chamamos nossos amigos jornalistas – e profundos conhecedores de jazz – Márcio Pinheiro e Paulo Moreira, contumazes colaboradores do blog, para darem, juntamente conosco, Cly e eu, suas listagens de 10 discos preferidos da Blue Note Records.
Ainda, para completar, puxamos uma seleção feita pelo site de música britânico JazzFuel,
em matéria escrita pelo jornalista especializado em jazz Charles Waring no ano passado. A recomendação, então, é a seguinte:
não compare uma lista com outra e, sim, aproveite para ouvir ou reouvir o máximo
possível de tudo que cada uma traz. Garantia de que as mais harmoniosas notas azuis
vão entrar em sua cabeça.
O black loucão George Clinton dando uma de Papai Noel
Se tem coisa que a gente gosta é pegar como gancho o Natal para fazer paralelos com temas como cinema, literatura e música. Aí quando se junta a isso uma outra paixão, que é fazer listas, então: é só servir a ceia! Nessa vibe natalina, pensamos em trazer aqui uma lista bem musical para esta época de Festas, mas com um, digamos, groove diferente. Sim: artistas da soul music que produziram obras com a temática natalina. E são vários! Comum no mercado fonográfico norte-americano desde os anos 50, tanto para músicos desta vertente quanto de outros gêneros, como a música popular, o country, o rock e até o jazz, claro que o clima festivo e de confraternização da data se encaixaria muito bem com os sons suingados e animados da música black. Não deu outra: a química perfeita.
E se os gringos foram os que lançaram a moda, aqui no Brasil o pessoal da soul não fica para trás, não! Tem brazucas de respeito nesta listagem também, todos hábeis em colocar Papai Noel pra remexer os quadris. Afinal, se é cabível a discussão de que Jesus Cristo era preto, porque não sondar que o Bom Velhinho também não possa ser “da cor”? Pelo menos na música, em vários momentos ele foi, e aqui vão alguns bons exemplos.
****************
The Supremes– “Merry Christmas” (1965)
Diana Ross e suas parceiras foram a tradução do melhor que a gravadora especializada em black music Motown podia ter. Supremas na interpretação, elas cabiam perfeitamente ao estilo de arranjo e produção musical do selo, bem como no esquema de marketing da indústria fonográfica da época, a qual tinham uma boa fatia de mercado. Claro que, com todos esses atributos, não demoraria para que gravassem o seu disco especial de Natal, o que ocorreu três anos depois da estreia do grupo vocal. Clássicos do cancioneiro natalino como “Silver Bells”, “Santa Claus is Coming To Town” e “My Favorite Things” são um arraso na voz delas. OUÇA AQUI
James Brown & The Flamous Flames – ”James Brown Sings Christmas” (1966)
Um velho barbudo e branco tentando bancar de rei só porque é Natal? Isso é inadmissível para quem é o Rei do Soul. James Brown não deixou por menos e gravou não um, mas três álbuns natalinos ao longo da carreira, os quais foram compilados em 2010. O melhor deles, no entanto, é o primeiro: ”James Brown Sings Christmas”, de 1966. Acompanhado da sua competente banda à época, a Flamous Flames, e com arranjos caprichados que bebem no gospel e no R&B, tem como grande detalhe ser um disco totalmente autoral, ou seja, dispensa as tradicionais regravações de standarts. É James Brown impondo a sua autoridade - Papai Noel que vá ciscar noutro lugar. OUÇA AQUI
The Jackson 5– “Christmas Album” (1970)
Curiosamente, foi uma família de Testemunhas de Jeová que gravou um dos melhores álbuns de Natal todos os tempos. Outros que, assim como as Supremes, traduziam muito bem o espírito e o estilo da Motown, os Jackson 5 também modernizaram os clássicos natalinos em versões recheadas de funk e groove. Michael Jackson, então com 12 anos, já dava sinais de que, de fato, era diferenciado, mas os irmãos não ficam mal na foto, não. Além disso, a produção de Hal Davis e, principalmente, os arranjos do craque Gene Page – autor da memorável trilha do filme blackexplotation “Blackula” –, abrilhantam ainda mais o trabalho. Foi o álbum de Natal mais vendido de 1970 a 1972, com mais de 3,5 milhões de cópias em todo o mundo. OUÇA AQUI
Cassiano– música“Hoje é Natal” de "Cuban Soul" (1976)
Quem acha que só gringo dos States manja de soul, está muito enganado. No Brasil, pelo menos um gênio do gênero existiu e se chamava Genival Cassiano. Em seu segundo disco solo, “Cuban Soul” ou “18 Kilates”, este paraibano brilha como uma verdadeira joia. Dono de um estilo de cantar e compor inigualáveis, Cassiano tem no disco a parceria de Paulo Zdanowski em todo o repertório (que traz maravilhas como “Coleção”, “Onda” e o hit “A Lua e Eu”). Mas especialmente a faixa de abertura traz o tema natalino, na tristonha “Hoje é Natal”. Com sua melodia cheia de nuances e encadeamentos que somente um músico de mão cheia e muito inspirado sabe fazer, a música é brilhante como o título do álbum sugere. OUÇA AQUI
Gerson King Combo– “Jingle Black" (1977)
Como um verdadeiro Black Moses, o cara tinha escrito a tábua da música soul brasileira em “Mandamentos Black” naquele mesmo ano. Ou seja: tava com toda a licença para tornar preto também o Papai Noel. É isso que Gerson King Combo faz com seu vozeirão e ritmo contagiante em “Jingle Black”, o sugestivo título do compacto lançado em 1977, em pleno auge de sua popularidade nos bailes funk da Zona Sul. Curiosamente, a música, escrita por ele com Pedrinho da Luz e Ronaldo Correa, traz no seu lado oposto a maravilhosa “Good Bye”, provavelmente a melhor canção do repertório do James Brown Brasileiro. No mercado negro, o raro minidisco com apenas duas faixas custa aproximadamente 200 Reais. E vale. OUÇA AQUI
Bootsy Collins– “Christmas Is 4 Ever“ (2006)
Numa lista de soul natalina em que há a sonoridade tradicional, passando pelo modelo Motown, pelo funk e pelas baladas, não podia faltar a turma P-Funk, que mais do que ninguém soube subverter ao máximo o gênero adicionando-lhe psicodelia, peso e muita irreverência. E Bootsy Collins foi quem puxou o trenó no disco “Christmas Is 4 Ever”, em que reúne uma galera como George Clinton, Bernie Worrell e Bobby Womack e os rappers MC Danny Ray, Snoop Dogg e DJizzle em leituras muito inspiradas de temas típicos, mas também outras originais. O resultado é um som moderno e contagiante, em que canções tradicionais como “Jingle Bells” viram “Jingle Belz”, “Winter Wonderland”, “WinterFunkyLand” e “This Christmas”, “Dis-Christmiss”. Bem a cara malucona de Bootzilla e seus amigos. OUÇA AQUI
Aretha Franklin– “This Christmas, Aretha” (2008)
A Rainha do Soul, diferentemente dos Jackson 5, foi bastante fiel às raízes protestantes de sua formação religiosa e filosófica a ponto de demorar décadas para gravar, de fato, um disco de Natal. Somente mais de meio século depois de estrear para a música que Aretha Franklin topou a empreitada no bonito “This Christmas, Aretha”. Tem standarts? Claro, mas também temas autorais como "'Twas the Night Before Christmas", dela e de Clement C. Moore, e um dueto com o filho e também cantor Edward Franklin na faixa-título. Valeu a pena a flexibilizada de Aretha: o disco alcançou a posição de nº 102 na parada de álbuns da Billboard. OUÇA AQUI
Ícone do gangsta rap, Snoop Dog ficou bem conhecido com canções natalinas ao emplacar, em 2014, o tema do filme “A Escolha Perfeita 2”, cantando em dueto com Anna Kendrick "Winter Wonderland/Here Comes Santa Claus”. Mas anos antes o próprio já havia compilado várias de suas gravações com esta temática em “Snoop Dogg Presents Christmas In Tha Dogg House”. No clima “preto ostentação”, o rapper tem a companhia de diversos artistas como Chris Starr, Lil Gee, Hustle Boyz, Uncle Chucc e Soopafly. Pioneiro, o álbum foi disponibilizado apenas em formato digital, isso antes do mercado de música ser dominado pelo streaming. Títulos característicos da linguagem do gueto: "My Little Mama Trippin on Xmas", "Christmas in the Hood”, "Xmas on Soul" e "Christmas Outro". OUÇA AQUI
“Curtis escreveu um material que se tornou o exemplo clássico de como um negro inteligente, preocupado com a situação das pessoas, pode estabelecer novos objetivos e injetar orgulho na música. O talento único de Curtis combina uma melodia cativante, instrumentação interessante e comentários expressos que o levaram a um grande respeito na comunidade negra.”
Richard Robinson, para a revista Billboard
“Vidas negras importam”.
Mensagem escrita em
cartazes nas ruas norte-americanas
durante as manifestações contra
a morte de George Floyd
A história da música soul nos Estados Unidos é marcada pela revelação de talentos tão intensos que acaba sendo impossível de serem represados. O baterista contratado pela Motown estritamente para acompanhar bandas como Martha and the Vandellas e The Marvelettes no final dos anos 50 era também um cantor e compositor tão completo, que não demorou para a gravadora perceber que ele fazia jus em assinar sozinho os próprios trabalhos com o seu nome artístico: Marvin Gaye. Outro, o pianista da banda de Otis Redding nos anos 60, ganhou o protagonismo merecido antes mesmo daquela década terminar, tornando-se o genial “Black Mose” autor de “Shaft” e outras obras essenciais à música soul. Era um rapaz corpulento e de voz grave chamado Isaac Hayes.
Com Curtis Mayfield aconteceu algo semelhante. Um dos integrantes do grupo vocal de rhythm and blues de Chicago The Impressions, ele rapidamente destacou-se sobre seus companheiros, igualmente bons cantores como ele, mas não apenas pela afinadíssima voz tenor e, sim, pela incrível capacidade compositiva e de liderança que o diferia dos demais. Quem escuta os discos da banda, a qual pertenceu de 1963 a 1969, percebe que, desde a composição do primeiro sucesso, a clássica "Gypsy Woman", até o último disco como integrante, “The Young Mods' Forgotten Story”, todo escrito por ele, Curtis se tornara maior do que a Impressions. Ele não cabia mais num trio: precisava ser uno. Precisava alçar o voo solo.
Baldwin e Angela: referências da luta racial nos anos 70
Vários fatores contribuíam para que a investida solitária de Curtis Mayfield fosse aguardada por público e crítica naquele início de anos 70. Aquele passo tinha tudo para representar uma guinada para alguém já experimentado como artista, pois acostumado com as paradas e com o showbizz, mas também de quem se esperava sintonia com o então efervescente momento de lutas raciais nos Estados Unidos. Fazia pouco que dr. King e Malcom X haviam sido assassinados, abrindo uma fenda emocional e de representatividade para a cultura negra. Em compensação, a ação dos Panteras Negras e o ativismo de figuras como Angela Davis e James Baldwin mantinham de pé as lutas pelos direitos civis. Mas dada a gravidade da situação, era preciso revoltar-se, e quanto mais (e qualificadas) vozes, melhor. A Sly & Family Stone já havia soltado o grito de resistência “Stand!”; Muhammed Ali defendia com punhos e verbos seu povo; James Brown versava as palavras do líder sul-africano Steve Biko: “Say it loud: I’m black and proud!” (“Diga alto: sou negro e orgulhoso!”); o movimento Black Power tomava as ruas exigindo “respect”. Porém, a comunidade negra precisava de mais, e Curtis, então com 28 anos, representava a ascensão e a afirmação de uma população segregada e violentada como cidadã. É nesse cenário que Curtis se lançava para um voo solo: carregando sobre suas asas a responsabilidade tanto artística quanto política da Black Music.
Ouvem-se, então, os primeiros acordes do disco: um som grave de baixo, que prenuncia um riff cheio de groove e inteligência musical. Talvez os “brothers and sisters” que a escutavam pela primeira vez naquele setembro de 1970 não percebessem que estavam diante de um dos mais célebres começos de disco de todos os tempos na música pop. Entram, na sequência, bongôs de matiz africano e vozes entrecruzadas levantando questões polêmicas, as quais são logo catalisadas pela do próprio Curtis, que anuncia com ecos retumbantes: “Não se preocupem: se houver um inferno abaixo de nós, para lá todos iremos!” É “(Don’t Worry”) If There's a Hell Below We're All Going to Go”, a arrebatadora faixa de abertura de um disco que não podia ter outro nome que não, simplesmente, “Curtis”. À exceção do tom pastel da capa, trata-se de um álbum negro em todas as dimensões possíveis: na sonoridade, no resgate da ancestralidade, na mensagem afirmativa e de denúncia e no comprometimento com o movimento negro.
Era a confirmação de que Curtis registrava sua emancipação como artista. A música conhecia pela primeira vez sua obra autoral, que abria com esse funk de reverências a James Brown e à africanidade. Curtis, consciente de seu papel, não fugia às discussões sérias, falando sobre preconceito, violência policial e repressão política: “Irmãs, irmãos e desfavorecidos/ negros e mulatos/ A polícia e os seus apoiadores/ Eles são todos os atores políticos”. “If There's...” antecipava outro trunfo da música soul daquele início de anos 70: a Blackexplotation. Quem escuta o primoroso arranjo de cordas, as percussões afro e o baixo marcado da faixa é impossível não associá-la às trilhas sonoras de filmes feitos com e para negros que “explodiriam” àquela época na indústria cinematográfica norte-americana – dentre as quais, a de “Superfly”, que Curtis assinaria poucos anos mais tarde.
Se o disco começa com algo que resume o estilo sofisticado de Curtis – as primorosas harmonias, os arranjos suntuosos, as cordas entusiasmadas, a levada groove da guitarra, o ritmo tão funky quanto fluido e, claro, o apurado falsete de sua voz –, agora ele, dono de seu rumo, queria mais. Queria tudo que lhe fosse de direito e de seus irmãos. “Other Side Of Town”, cuja abertura com harpas em cascata faz remeter à ideia de um sonho, é uma balada como as que se acostumara a escrever, mas com uma nova densidade tanto estilística quanto discursiva. O arranjo de metais dá-lhe um ar épico, como uma música triunfal da realeza africana, para, em contraste, fazer uma crítica ao apartheid a que os negros do gueto são submetidos socialmente. “Depressão faz parte da minha mente/ O sol nunca brilha/ Do outro lado da cidade/ A necessidade aqui é sempre de mais/ Não há nada de bom na loja/ Do outro lado da cidade/ (...) Minha irmãzinha, ela está com fome/ De um pão para comer/ O meu irmão me entrega sapatos/ Agora estão mostrando os pés”.
Curtis tocando ao vivo à época do disco:talento confirmado como artista solo
"The Makings of You", novamente com o som da harpa bem presente, lembra bastante temas como “Keep On Pushing” e “For Your Precious Love” da Impressions, e comprova a incrível afinação de Curtis, que performa com sensibilidade e técnica tons agudos para cantar esta linda canção, que novamente traz as questões sociais. Porém, desta vez, relatando uma tocante cena: a de um rapaz que distribui doces para as crianças e as alegra por alguns instantes capazes de fazer com que o autor enxergue esperança “no amor da humanidade”.
A harmonia entre os homens, entretanto, está longe de se concretizar, e Curtis tinha consciência disso. Não à toa, vem, na sequência, a reflexiva “We People Who Are Darker Than Blue” (“Nós, pessoas que somos mais escuras que o azul”). Não por acaso também se trata de um lamentoso blues, o qual seu lindo canto cadencia versos como: “Nós, pessoas que somos mais escuras do que o azul/ Não há tempo para segregar/ Eu estou falando sobre marrom e amarelo também/ Garota tão amarela que você não pode contar/ Eu sou apenas a superfície do nosso poço profundo e escuro/ Se a sua mente puder realmente ver/ Você veria que sua cor é igual à minha”.
Outra preciosidade de "Curtis" é "Move on Up", grande sucesso da carreira solo do artista que prova o quanto ainda sabia escrever hits (a versão reduzida dos mais de 8 min originais passou 10 semanas no top 50 da parada de singles do Reino Unido em 1971, chegando ao 12º lugar, e se tornou um clássico da música soul ao longo dos anos). Esta empolgante soul, com exuberantes arranjos de cordas e metais, traz mais uma vez a intensa percussão afro e uma performance impecável de Curtis, responsável não apenas pela guitarra, mas por vários outros instrumentos. Aqui nota-se um músico totalmente dono de sua obra: ao mesmo tempo em que se vale de sua música para a crítica, também domina a arte de criar canções para as massas. Para os que acham que seu auge é "Superfly", "Move..." prova que este momento já estava em “Curtis”.
Curtis com a filha ainda criança, nos anos 70
Na suingada e lúdica "Miss Black America", Curtis inicia dialogando com sua filha criança perguntando-lhe o que ela, em seus sonhos, se imagina quando crescer. A resposta induz a algo que, novamente, retraz as conquistas por direitos dos negros, uma vez que a recente vitória de uma mulher preta no concurso Miss Universo em 2019 (a sul-africana Zozibini Tunzi), ainda surpreende o mundo. "Wild and Free", com seus metais e cordas intensos, é mais um funk que reitera o discurso pelo respeito à causa racial e ao direito de ser "selvagem e livre". Agora, aliás, subindo o tom ao incrementar na letra a icônica mensagem anti-racismo "power to the people" ("Respeito por essas pessoas/ Poder para as pessoas/ Estabelecendo a velha geração/ Trazendo o novíssimo/ Selvagem e livre com a paz finalmente").
A suave "Give it Up" tem a primazia de fechar o brilhante debut de Curtis Mayfield, trabalho assustadoramente atual mesmo 50 anos após seu lançamento. A catarse mundial gerada pela revoltante morte do ex-segurança George Floyd, vitimado recentemente pela violência da polícia e da sociedade norte-americana, evidenciou o quanto as questões levantada neste disco, há cinco décadas, estão longe de serem resolvidas. Se o racismo ainda está aí, Curtis é morto desde 1999, quando, após complicações motivadas por um fatídico acidente que o deixara paraplégico, despedia-se prematuramente aos 57 anos. Só assim para frear o seu talento.
Embora não tenha feito o mesmo sucesso que seus contemporâneos de black music Marvin Gaye, Al Green, Stevie Wonder e Barry White, Curtis pode tranquilamente ser considerado integrante do.panteão dos grandes criadores da soul norte-americana. Ele é daqueles autores cuja obra demarca um “antes” e um “depois”, tanto pela beleza única de suas composições quanto pelo o que representou para o movimento negro e a luta pelos Direitos Civis norte-americanos naquele inicio de década de 70. O disco “Curtis” antecipa em um ano, inclusive, uma trinca de obras que se eternizaria, entre outras qualidades, justamente pelo teor de resistência: “What’s Going On”, de Gaye, “Pieces of a Man”, de Gil Scott-Heron, e “There’s a Riot Goin’ On”, da Sly. Curtis dizia que suas músicas sempre vieram de perguntas para as quais precisava de respostas. Vendo o quadro político-social de hoje ainda tão desigual, se estivesse vivo, 50 anos depois de ter levantado e respondido várias dessas questões, provavelmente voltaria numa delas e se indagaria: “o inferno, que eu pensava estar abaixo de nós, é aqui mesmo, então?” Curtis Mayfield -"Move on Up"
************
FAIXAS: 1. "(Don't Worry) If There's a Hell Below, We're All Going to Go" - 7:50 2. "The Other Side of Town" - 4:01 3. "The Makings of You" - 3:43 4. "We the People Who Are Darker Than Blue" - 6:05 5. "Move On Up" - 8:45 6. "Miss Black America" - 2:53 7. "Wild and Free" - 3:16 8. "Give It Up" - 3:49 Todas as composições de autoria de Curtis Mayfield
da letra de "Jhony", faixa de encerramento do disco
“Gênio Tim Maia! Tim, Tim Maia!”, anuncia Carlos Imperial no programa de auditório que comandava na TV Tupi em finais dos anos 70. As palavras elogiosas do antigo amigo e primeiro incentivador na carreira denotam a empolgação pela boa fase que vivia Tim Maia naqueles 1978. Nem sempre era assim, pois o mesmo talento que tinha para a arte tinha também para arrumar encrenca. Instável e suscetível aos exageros nas drogas, álcool e... comida, o autor de “Azul da Cor do Mar” e “Não Quero Dinheiro” vinha – afora os constantes perrengues com a polícia e os amores invariavelmente mal resolvidos – de recentes fracassos, como o “desencanto” da fase Racional e os desentendimentos com duas das principais gravadoras do país, PolyGram e Som Livre. Mas o que se via entrar no palco do programa de tevê era um Tim renovado, de semblante limpo, visual transado e consideravelmente mais magro para os padrões rechonchudos que tradicionalmente mantinha. O já consagrado maior símbolo da soul brasileira tinha assinado recentemente com outra grande da indústria fonográfica, a Warner, que apostara nele para o projeto “Tim Maia Disco Club”. Aposta certeira. O trabalho, que completa 40 anos em 2018, lhe rendeu uma das fases de maior sucesso na carreira, algo que sempre soube fazer apesar dos altos e baixos, mas talvez nunca com tamanho aparato técnico e comercial.
O álbum, repleto de hits, caiu nas graças do público. Entrando de cabeça na era da discoteque, febre em todo o mundo à época, “Tim Maia Disco Club” foi um passo consideravelmente fácil para um músico versátil como ele musicalmente falando. Assim como Stevie Wonder, Isaac Hayes e Barry White, Tim aderiu naturalmente àquele novo ritmo vindo das danceterias de pretos e gays nova-iorquinas e cujo estilo musical mesclava os sons latinos com a soul music norte-americana, coisa que Tim dominava com o pé nas costas. Que dificuldade teria de conciliar duas referências musicais tão afins alguém que mesclava naturalmente Luiz Gonzaga e samba de morro com James Brown desde os anos 60?
Para dar ainda mais impulso a essa boa onda, a Warner lhe pôs à disposição ninguém menos que Lincoln Olivetti, tarimbado arranjador capaz de fazer o som de qualquer taquara-rachada soar como o dos Jackson Five. Começava ali uma parceria que renderia frutos até o início dos anos 80. Somado a isso, ainda, as contribuições preciosas de Jamil Joanes, Hyldon, Paulo Braga, Robson Jorge, Pedro Aníbal, Gastão Lamounier e outros. Nunca Tim havia soado tão inteiro e com tamanha qualidade, nos padrões “gringos”.
“Disco Club” tem talvez a melhor quadra inicial de músicas da discografia nacional. Se não a melhor, com certeza a mais dançante. “A Fim de Voltar”, a primeira, dele e de Hyldon, é uma disco music padrão: ritmo embalado, banda afiada, naipe de metais, baixo marcado, coros femininos e masculinos entrecruzando a linha vocal principal e, claro, o vozeirão de Tim. Limpo, aveludado, possante. Além das cordas arregimentadas por Olivetti no tom alto peculiar do gênero, o conjunto de características faz da canção uma das mais bem produzidas e arranjadas da música pop brasileira de todos os tempos. Não à toa, festejada nas pistas de dança. Depois, sem deixar o embalo cair, outro sucesso: a suingada e melodiosa “Acenda o Farol”, o tema com que Tim aparece no programa de Carlos Imperial para promover o disco. Há a lenda de que a ideia da música veio após uma blitz em que músicos da banda de Tim foram abordados quando buscavam maconha para ele no seu Fusca velho, que estragou em plena via com a perigosa carga dentro.
Tim em 1978: semblante de uma boa fase
Aí então vem a verdadeira ogiva de “Disco Club”: o funk cheio de groove e malícia “Sossego”, hit capaz de mandar todo mundo para a pista assim que se ouvem seus primeiros acordes. Era essa explosão que acontecia nas discotecas do Brasil àquela época, quando Tim era o único artista brasileiro a rivalizar com os grandes da disco Earth Wind and Fire, Gloria Gaynor e Donna Summer. Um dos hinos do cancioneiro do “Síndico”, até hoje não há quem não conheça o seu riff puxado pelos metais. Ele já havia composto peças semelhantes, como “Idade”, de 1971, e “Feito para Dançar”, do ano anterior a “Disco Club”, mas nenhuma havia atingido a coesão exata entre ritmo, melodia e aquele “a mais” que fez “Sossego” se transformar num clássico imediatamente.
Mas o agito não termina aí! Sem o mesmo sucesso comercial, mas igualmente brilhante, “Vitória Régia Estou Contigo e não Abro” foi feita para a galera não arredar mesmo o pé da pista de dança. Tim manda ver num daqueles seus temas instrumentais, que geralmente incluía nos discos. Mas este aqui é um dos especiais. Contagiante, é outra disco fumegante dedicada à sua hoje famosa banda, a Vitória Régia, cuja formação Tim conseguira ao pescar os músicos que não debandaram após a viagem Racional. Ainda, conta com o luxuoso baixo de Joanes, a bateria ritmada de Paulo Braga e os metais comandados pelo maestro Miguel Cidrás.
Finalmente, tira-se o pé do acelerador para dar um descanso aos dançarinos. Porém, só para ir buscar uma água e sem deixar de chacoalhar o esqueleto. “All I Want”, dos temas com o inglês do Bronx que Tim aprendera lá mesmo, nos anos 60 – quando morou nos EUA até ser preso e deportado por latrocínio –, é um funk melodioso com muita influência de Isley Brothers e Four Tops.
O que corresponde ao lado B do vinil é meticulosamente planejado. Afinal, depois de tanto agito, era hora das lentas. Para isso, Tim recorre aos amigos: primeiro, Cassiano, com a romântica “Murmúrio”, com a característica melodia delicada do autor e a assinatura de Olivetti na sonoridade. Depois, Arnaud Rodrigues e Piau contribuem com a emocionante “Pais e Filhos”, uma declaração de amor de um pai sabedor de suas fraquezas, mas capaz de fazer o que for preciso pelo filho. Mesmo não sendo um tema romântico, dá tranquilamente para dançar agarradinho. O próprio Tim conclui a sequência com "Se me Lembro Faz Doer". Arranjo primoroso de Olivetti pra uma balada ao estilo Motown. O refrão é daqueles de cantar em coro: “Hoje resolvi mudar, vou deixar de lhe amar/ Hoje resolvi mudar, vou cantar/ Juro não ser mais um bobão/ Hoje resolvi mudar, vou cantar, vou cantar”.
A penúltima faixa não cumpre apenas a função de intermediação com o término da obra, pois é a gostosa “Juras”, soul suingada em que Tim engendra um duo com o coro feminino enquanto a orquestra de cordas desenha frases no clima dos mestres norte-americanos.
Para finalizar, então, Tim e Guti, os produtores, escolheram algo um pouco diferente, até surpreendente. Saindo da linha disco e funk de todo o álbum até então, retomam o samba-rock de canções como “Réu Confesso” e “Gostava Tanto de Você”, que tanto Tim consagrou e ajudou a criar. É “Jhony”, o último número em que, enfim, Tim traz o tema do futebol. E de maneira bastante original. Espécie de minibiografia de um garoto do subúrbio batalhador e muito talentoso com a bola nos pés, “Jhony” traz não apenas por isso, mas uma abordagem sintonizada com algo que começava a surgir naquele final de anos 70 no Brasil: a ascensão social das classes mais baixas. Um jovem como “Johny”, que “mete as ‘cabeça’ e passa à rente” no vestibular, estuda e vira doutor, começava a também a ter espaço no meio futebolístico profissional sem subvalorizar o esporte bretão como algo somente relegado aos trogloditas e sem estudo. Antecipa alguém como o “doutor” Sócrates, craque dos gramados na década seguinte à do disco, jogador que conciliou a paixão pela bola com os bancos da faculdade de Medicina.
O contrato com a Warner se manteve depois do estouro de “Tim Maia Disco Club”, certo? Em se tratando de Tim Maia, não. Os três discos seguintes serão todos por gravadoras diferentes até o artista voltar a gravar por seu próprio selo, o Seroma, o mesmo com que lançara independentemente os então famigerados (e, hoje, cultuados) volumes 1 e 2 do projeto Racional anos antes. Ao menos, o time de músicos e técnicos foi mantido por alguns anos ainda, o que garantiu o padrão de qualidade adotado em “Disco Club”, resultando em outros belos discos do folcloricamente inconstante e genial Tim Maia.
**************
FAIXAS:
1. "A Fim de Voltar" (Hyldon/Tim Maia) - 4:13
2. "Acenda o Farol" - 3:20
3. "Sossego" - 3:47
4. "Vitória Régia Estou Contigo e não Abro" - 2:20
5. "All I Want" - 3:28
6. "Murmúrio" (Cassiano) - 3:27
7. "Pais e Filhos" (Piau/Arnaud Rodrigues) - 3:52
8. "Se me Lembro Faz Doer" - 3:55
9. "Juras" - 3:18 10. "Jhonny" - 2:23
Todas as composições de autoria de Tim Maia, exceto indicadas