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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", de Chloé Zhao (2025)

INDICAÇÕES
MELHOR FILME
MELHOR DIREÇÃO
MELHOR ATRIZ 
MELHOR ATOR COADJUVANTE
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
MELHOR FIGURINO
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

É interessante perceber como o cinema, mesmo com seu alto grau de imaginação e artificialidade, consegue trazer para o mundo dos mortais aqueles que, no imaginário popular, são tidos como seres sobre-humanos, mitológica, perfeitos. Não raro, há, inclusive, um sentimento de decepção por parte do espectador quando cai uma máscara revestida de endeusamento. Os filmes já trouxeram à realidade terrena figuras públicas intocadas como Elvis Presley, Michelangelo, Steve Jobs e Nelson Mandela, para citar alguns, mostrando-os, quando transpostos para a tela de forma dramatizada, que eles, sim, são imperfeitos e sofrem tal qual todos os seres que pisam a Terra.

Em seu quarto longa-metragem, a talentosa cineasta chinesa Chloé Zhao atinge esse propósito, porém de uma maneira particular. Considerada uma das principais diretoras do cinema da atualidade, a vencedora do Oscar de Melhor Direção e Filme por "Nomadland", em 2021, em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" ela extrai da imagem mítica do dramaturgo inglês William Shakespeare esse grau de humanismo, só que a partir de um olhar diferenciado, que passa necessariamente pelo feminino.

A história se passa na Inglaterra rural do século 16, quando o então jovem professor de latim William (Paul Mescal) encontra aquela que se tornaria seu grande amor e mãe de seus filhos, a “feiticeira” (leia-se: feminina) Agnés, vivida por Jessie Buckley, grande candidata ao Oscar de Atriz. A partir da experiência do luto pela perda de um filho do casal, o filme explora a capacidade interior de superação e ressignificação individual, ao mesmo tempo em que revela o pano de fundo para a criação da tragédia “Hamlet”, a obra mais famosa do autor britânico.

O filme trata sobre questões humanas muito profundas e conflitantes, como as escolhas entre vida profissional e familiar e os sacrifícios necessários para que se chegue a algum propósito na vida. No caso, sacrifícios pautados principalmente pelos esforços que a mulher é obrigada a fazer em nome de uma causa maior. Não se exclui a manifesta dor do pai em relação à perda do filho quando ele, trabalhando longe do pequeno vilarejo de Stratford-upon-Avon, estava ausente. Tanto é que, numa forma de sublimar essa perda, genialmente ele transpõe essa dor para a peça, a qual se transformaria num epiteto da arte universal por tantos séculos.

Porém, a abordagem dada por Zhao e a roteirista Maggie O’Farrell – esta, autora do livro que dá origem ao enredo – pretende privilegiar o olhar feminino e seu poder de realização do mundo. É ela que gera, que pare e que sofre, in loco, com a morte. Por mais compartilhada que possa ser o sofrimento da perda (bem como os perrengues diários de uma vida provinciana, a qual ele havia praticamente deixado para trás para correr atrás do seu sonho no teatro), é Agnés, a figura da mulher, quem está de corpo presente. Tão essencial é seu papel para a história da família – e, por consequência, para a história inglesa e da arte ocidental – que, não fosse sua sensibilidade e senso de desapego, o marido padeceria com seu imenso talento em um pequeno povoado retrógrado e pobre.

Jessie Buckley como a forte e sofrida Agnés: possível candidata a Oscar

Há um aspecto de condução narrativa também a se observar. A diretora propositalmente desloca não somente o foco do protagonista, que não é o célebre escritor, mas, sim, sua esposa Agnés, bem como, epistemologicamente, o próprio título do filme, que funciona como uma licença poética. Hamnet, o filho do casal morto quando criança, tem participação pontual no decorrer da trama, porém suficiente para justificar o destaque a seu nome, mesmo que o título o falseie como principal.

Afora isso, o roteiro em forma de diálogos e texto é bem escrito, mas não surpreende. Além de algumas repetições um tanto desnecessárias, artifício para facilitar a apreensão por parte do espectador, a dualidade “morte versus existência”, centro tensor e filosófico de “Hamlet”, é trazida para dentro do filme até com certa banalidade. É como se a famosa peça se reduzisse à importante - mas batida – frase: “Ser ou não ser: eis a questão”, semelhante a resumir Nietsche somente ao pensamento “o que não me mata me fortalece” ou Descartes a “penso, logo, existo”. Até mesmo o Soneto 12 (muito mais criativamente utilizado por Jorge Furtado em “O Homem que Copiava”, de 2003), que igualmente trata da questão de morte (envelhecimento) e existência (continuidade da prole), é evocado. Nada muito rebuscado diante de uma obra rica e complexa como a de Shakespeare.

A bela fotografia (Łukasz Żal), a trilha (Max Richter) e a direção sensível da Zhao certamente credenciam “Hamnet” a concorrer ao Oscar pelo menos nestas duas categorias, afora as de Filme e Atriz, como já mencionado. Igualmente, está entre os principais indicadas ao Globo e Ouro e ao Critics Choice Awards, cujos premiados serão revelados em janeiro próximo. Entretanto, trata-se de apenas um bom filme, que está longe, aliás, do essencial e original "Nomadland". É salutar, contudo, o olhar feminino sobre questões até então vistas massivamente pelos olhos masculinos, brancocentrados e europeizados. Neste começo de segundo quarto do século 21, se é para se quebrar arquétipos de endeusamento, que seja, então, pela visão das mulheres.

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 trailer de "“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

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"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
direção: Chloé Zhao
título original: "Hamnet"
elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson
gênero: drama, biografia
duração: 2h05min.
país: Reino Unido, Estados Unidos
ano: 2025
onde assistir: Nos cinemas (a partir de 29 de janeiro de 2026)



Daniel Rodrigues

sábado, 16 de agosto de 2025

Metá Metá e Jards Macalé - Salão de Atos da Reitoria-UFRGS - Porto Alegre/RS (06/08/2025)

 

A Metá Metá é a melhor banda do Brasil pós-Chico Science & Nação Zumbi. Isso quer dizer muito, haja visto o terreno fértil para criatividade que a música brasileira pisa. Porém, nada bate o trio Kiko Dinucci (violão), Thiago França (sax e flauta) e Juçara Marçal (voz), que fez uma apresentação histórica num lotado Salão de Atos da Reitoria-UFRGS. O estilo do grupo, interseção entre música brasileira, africana, latina, free jazz, punk rock e avant-garde, desafia qualquer classificação. E se a Metá Metá é de fato a grande banda brasileira, imagina ela adicionada do talento inigualável de Jards Macalé? É para desafinar o coro dos contentes!

Com o trio começando no palco, eles mandaram algumas poucas músicas do repertório deles, porém muito bem selecionadas. Começando com a épica “Vale do Jucá”, canção que simplesmente inaugura o cancioneiro da banda no disco de estreia de 2010. Sobre negritude e força ancestral (“Uma palavra quase sem sentido/ Um tapa no pé do ouvido/ Todos escutaram/ Um grito mudo perguntando aonde/ Nossa lembrança se esconde/ Meus avós gritaram”). Que música! Na sequência, uma das melhores do repertório da Metá Metá: a possante “São Jorge”, que evocou o aguerrido Ogum para dentro do teatro na voz versátil e personalíssima de Juçara: “Guerreio é no lombo do meu cavalo”

Mais quatro do repertório antes de chamarem palco Jards: “Trovoa”, versão para a música do “Mulher Negra” Maurício Pereira, uma execução cheia de improvisos e de difícil canto, visto que de letra extensa e repleta de variações; o heavy-nagô “Atotô” (“Rolei na terra/ Abença, atotô/ Seu xarará/ A ferida secou/ A Flor do velho/ Ô me curou”), do EP de 2015; e “Cobra Rasteira”, outra das grandes da Metá Metá, esta do fantástico álbum “Metal Metal”, de 2013 (“Estrada, caminho torto/ Me perco pra encontrar/ Abrindo talho na vida/ Até que eu possa passar”, diz a letra).

Juçara Marçal e e Metá Metá cantam "Trovoa" 
no Salão de Atos da UFRGS

Antes ainda de Jards entrar, a Metá Metá anuncia-o tocando “Pano pra Manga”, esse samba do clássico “Let’s Play That”, de Jards, de 1983. E foi justamente esta outra clássica, parceria de Macao com Torquato Neto, lá de 1972, que os quatro se juntaram para explodir o teatro da UFRGS. Dois violões esmerilhando, Jards e Juçara atacando todas as notas aos vocais, o sax de França corroendo a atmosfera. Os deuses da atonalidade vibraram no Olimpo! Logo em seguida, outra conhecida do repertório do veterano músico: “Negra Melodia”, dele e de Wally Salomão, em mais um show de sintonia e musicalidade. Tanta química, que é de se pensar: quem sabe Jards não se torna um quarto Metá Metá ou estes formem a banda do primeiro em algum show ou projeto? 

Cabeça que fez a ligação entre Guerra-Peixe e João Gilberto a John Cage – com quem, aliás, jogou xadrez –, Jards é artífice de uma linguagem que, calcada em seu violão crispado, hibridiza lamento, rock, sussurro, guturalidade, blues e samba-canção. Sem acompanhamento, ele manda ver em duas: a linda e sentimental “Anjo Exterminado”, outra com Wally, e, para delírio do público gaúcho, a lupiciniana “Dona Divergência”, resgatada do seu disco “4 Batutas e um 1 Coringa”, de 1987, onde faz a ponte entre os sambistas clássicos e vanguarda – coisa que, aliás, somente uma mente como a dele para concatenar. Teve ainda, num dos grandes momentos do show, o duo com o sax de França para a icônica “Vapor Barato” (“Sim, eu estou tão cansado/ Mas não pra dizer/ Que eu não acredito mais em você”), música que atinge diversas camadas de significado, desde o anseio de liberdade na Ditadura Militar, quando na voz de Gal Costa, nos anos 70, a cinematográfica interpretação de Fernanda Torres no filme “Terra Estrangeira”, ao hit radiofônico d’O Rappa, nos anos 90. Com Jards, apoiado pela Metá Metá, sua própria obra ganha todo o tamanho que merece.

Das composições mais recentes, “Coração Bifurcado”, na voz e de autoria de Kiko e Jards e a qual dá nome ao disco deste segundo, de 2023, foi outra presença no setlist, assim como mais uma deles (esta, também com Thomas Harres), “Vampiro de Copacabana”, a majestosa homenagem a Torquato escrita pelos três em 2019, abertura do excelente álbum “Besta Fera”. Mas voltando ao passado de Jards, também teve o samba-canção “Boneca Semiótica” (de “Aprender a Nadar”, de 1974: “Você venceu com a lógica/ Digital e analógica/ Você não passa da programadora/ De repertório redundante da minha dor”), com mais uma brilhante execução do agora quarteto. Nesta linha, puxaram também “Farinha do Desprezo”, igualmente incríveis nos violões vanguardistas de Kiko e Jards, somados à arrojada interpretação dos vocais. 

Para finalizar, depois de todos estes vários momentos de êxtase, ainda teve uma incrível (mas incrível, mesmo!) “Soluços”, a pioneira gravação de Jards em seu compacto de 1970. Juçara, uma das intérpretes mais expressivas da cena musical brasileira contemporânea, traz no canto ancestralidade e vigor, não restringindo o canto à perfeição melódica ou ao rigor técnico. Ela apura “Soluços”, enquanto o violão afro-percussivo de Kiko e o abrasivo sax de França compõem, junto com Jards e seu violão ácido, um final épico para a apresentação. No bis, cantada por todos, retrazem o samba-dark de Nelson Cavaquinho “Juízo Final”. Sob gritos de “Sem Anistia!” na semana em que havia sido decretada a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, a o clássico samba caiu como uma luva com seus versos: “Do mal/ será queimada a semente/ O amor/ Será eterno novamente”. Sim: o amor, a depender de Macao e Metá Metá, será eterno novamente.


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O maravilhoso trio Metá Matá: a melhor banda do Brasil da atualidade

Jards sobe ao palco para formar o quarteto com a Metá Metá

Jards e Thiago França tocando "Vapor Barato": grande momento do show


"Soluços", clássica de Jards para encerrar o show apoteoticamente


Público que lotou o Salão de Atos aplaude de pé



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Youtube

terça-feira, 8 de julho de 2025

Claquete Especial Mês da Luta Antirracista - "A regra é o respeito"*

 

O competente e precursor De e seu Dogma Feijoada
Em 2000, o cineasta paulista Jeferson De, em colaboração com outros realizadores negros, lançava, durante o 11º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, o chamado Dogma Feijoada, marco daquilo que se pode chamar de cinema negro brasileiro moderno. Embora a prática do audiovisual entre realizadores negros no Brasil se dê de muito antes, o movimento em si ainda parece bastante válido 25 anos após seu lançamento. De – que posteriormente prosseguiria contribuindo com a própria ideia de um cinema feito por negros com filmes como “Bróder”, de 2011, e “Doutor Gama”, de 2021 – apresentava um programa composto, além de outras atividades, pelo manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro. Em referência ao Dogma 95, criado pelos cineastas europeus Thomas Vinterberg e Lars Von Trier cinco anos antes e que defendia a necessidade de produções mais realistas e menos comerciais, o Dogma Feijoada interrogava uma urgência histórica bem mais doméstica: “o que entendemos como cinema negro brasileiro?”

Dentre as diretrizes e exigências do manifesto, havia sete “regras” para a produção de um cinema negro: (1) o filme tem de ser dirigido por realizador negro brasileiro; (2) o protagonista deve ser negro; (3) a temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira; (4) o filme tem de ter um cronograma exequível. Filmes-urgentes; (5) personagens estereotipados negros (ou não) estão proibidos; (6) o roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro; e (7) super-heróis ou bandidos deverão ser evitados.

Tal como devem ser os manifestos políticos, o Dogma Feijoada trouxe o tema à tona de forma abertamente impositiva. Não haveria de ser de outro jeito. Afinal, estava-se, naquele momento, virada do século 20 para o 21, resgatando não apenas uma fatia econômico-produtiva dentro de uma indústria há muito existente no Brasil. Mas, sim, estava-se, ao menos no setor audiovisual, recuperando séculos de total desumanização de um povo pela prática da escravidão e outros quase 120 anos de sequestro intencional e deliberado da mão de obra negra após a Lei Áurea, de 1888, e o projeto estatal de embranquecimento e substituição dos “ex-escravos” por imigrantes europeus brancos.

"Kasa Branca!, dos exemplos da nova safra do
cinema preto brasileiro
Passadas mais de duas décadas desde a provocação de De e sua turma, a boa notícia é que, sim: avançou-se de lá para cá em termos de produção negra no cinema nacional. Senão em todos, pelo menos em vários dos requisitos elencados. Quando a Dogma Feijoada foi parar no estômago do cinema brasileiro, algumas ações na direção de uma maior equidade de oportunidades e compensação histórica estavam sendo preparadas. No Senado Federal, consolidava-se, também em 2000, o Comitê Permanente pela Promoção da Igualdade de Gênero e Raça. Naquele mesmo ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovava uma lei que reservava metade das vagas das universidades estaduais para estudantes de escolas públicas, semente do que resultaria na exitosa Lei de Cotas, conhecida também como Lei 12.711, aprovada em 2012. 

A realidade do audiovisual brasileiro mudou bastante, principalmente a partir de então. Mas é fato que ainda insuficiente para dar conta da demanda reprimida da comunidade negra. Em 2024, a Cinemateca Negra realizou um levantamento inédito, que mapeou 1.104 filmes dirigidos por pessoas negras no Brasil desde a década de 1940. O estudo revelou que 83% dessa produção surgiu, justamente, entre 2010 e 2020. Contudo, essa parcela representa somente 10% dos filmes brasileiros lançados no mesmo período.

Hoje é possível se verem filmes como “O Dia que te Conheci”, de 2024, dirigido pelo cineasta negro André Novais Oliveira e realizado pela produtora mineira Filmes de Plástico, que privilegia em suas produções personagens negros da vida real, ou seja, longe de se passarem por “super-heróis ou bandidos”. A “urgência” se evidencia ao abordar o tema da depressão e das pressões da vida social, enquanto o item da “cultura negra”, outra exigência posta em manifesto, está inserido de forma naturalizada em seus protagonistas, que tentam existir na cidade com suas ancestralidades e bagagens pessoais.

O tocante "O Dia que te Conheci": cinema negro 
em essência e na prática

Outro título emblemático para o novo cinema brasileiro é “Marte Um”, de 2022, também da Filmes de Plástico, este, dirigido pelo igualmente cineasta negro Gabriel Martins. Ao natural, também atende a todos os predicados ditados pelo Dogma Feijoada: protagonismo negro atrás e na frente da tela, representação da vida de pessoas comuns, questões sociais imperiosas, quebra dos modelos preconcebidos, projeto exequível. E o mais importante: ambos são histórias bem contadas, humanas, tocantes, que aproximam tanto o público negro da tela quanto demonstra a realizadores afrodescendentes que, sim, “nós podemos” realizar um cinema honesto e de qualidade sobre as nossas coisas.

Bulbul, figura essencial para o
cinema negro no Brasil
Se “O Dia que te Conheci”, “Marte Um” e outros filmes da atualidade (como “Kasa Branca”, “Mussum - O Films” e “Othelo, O Grande”) representam o objetivo traçado anos atrás, é evidente que, para se chegar a tal estágio, muito se precisou caminhar. Precursores do cinema negro brasileiro, como Cajado Filho e Haroldo Costa, tiveram em Zózimo Bulbul, Adélia Sampaio, Odilon Lopes e Joel Zito Araújo, principalmente, a consolidação de um cinema preto no Brasil. 

No entanto, o que pareceu escapar à ambição momentânea do grupo do Dogma Feijoada é um dos gargalos do cinema nacional atualmente: como distribuir e onde exibir tais produções? Como fazer esse cinema tão importante para a autoidentificação de um país chegar ao público de interesse? Numa busca na internet por alguns títulos nacionais que tratam das questões do negro, como “Todos Somos Irmãos” (1949) ou “Quilombo” (1984), é possível encontrá-los disponíveis no Youtube. Porém, vários outros, principalmente os mais recentes, somente nos streamings – e de forma paga. 

Com salas de cinema cada vez mais escassas, iniciativas como a 1ª Mostra de Cinema Negro na Escola, que ocorre até dia 11 na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, são louváveis. Com sessões gratuitas e uma seleção de filmes negros brasileiros, a iniciativa irá exibir filmes com temática afro-brasileira para estudantes e professores de 50 escolas estaduais e municipais da capital e da região metropolitana, atingindo cerca de cinco mil alunos e docentes.

Em um mês marcado por várias datas de combate ao racismo (Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, 3, Dia Internacional Nelson Mandela, 18, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, 25), é fundamental que iniciativas e programas públicos como este fomentem a exibição de produções pretas como forma de ampliar o acesso ao que realizadores negros têm a dizer e ao que os olhares (sejam pretos ou não) têm a enxergar. Aproximar o público daquilo que lhe interessa e pertence. A visibilidade das histórias e contribuições da comunidade negra deve proporcionar um espaço de reflexão e diálogo, tão fundamental a uma sociedade democrática que se pretende igualitária. E sem que se precise enumerar regras para isso, como a bem pouco tempo. Oxalá a única regra seja ditada por apenas uma sentença: respeito. 

*artigo originalmente publicado no Segundo Caderno do jornal Correio do Povo em 27 de junho de 2025


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Daniel Rodrigues


quinta-feira, 15 de maio de 2025

Argemiro Patrocínio - "Argemiro Patrocínio" (2002)

 

“Eu só faço samba sobre coisas que me inspiram.”
Argemiro Patrocínio

Existem talentos especiais que passam pela Terra quase despercebidos. Embora esse descuido possa ocorrer em qualquer canto do planeta, não é difícil de se supor que os vícios de alguns lugares favoreçam a que preciosidades sejam obscurecidas – às vezes, por uma vida inteira. O Brasil, país jovem e com sérias dificuldades históricas de autoidentificação, é prodígio quando o assunto é apagar seus próprios iluminados, quanto mais, os da cultura popular. Com o samba, que sofreu por décadas perseguição, proibição e preconceito, a demora no reconhecimento de atores fundamentais para a construção do gênero musical mais original e identitário brasileiro promoveu um atraso quase irrecuperável. Dona Yvone Lara, Adoniran Barbosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e Nelson Sargento, por exemplo, só lançaram seus discos de estreia na terceira idade. A vida humilde, a discriminação e a ralação do dia a dia sempre lhes foi uma realidade inescapável.

Se com esses grandes nomes quase não deu tempo de aproveitá-los, imagine-se com os sambistas de comunidade, menos midiáticos. É o caso de Argemiro Patrocínio, também conhecido por Argemiro do Pandeiro, Argemiro da Portela ou, simplesmente, Seu Argemiro, como era chamado em Madureira e Oswaldo Cruz, chão dos portelenses. De uma geração à frente de Monarco ou Candeia, dois referenciais bambas da Escola, Argemiro foi um compositor de mão cheia, mas que nunca teve espaço suficiente para desaguar suas autorias fora da quadra da escola. Os mais atentos podem lembrar dele na capa do disco de estreia de D. Yvone, “Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz”, de 1978, atrás dela, à direita e junto com outros companheiros de samba, em que aparece meio de soslaio quase escondido pelo inseparável chapéu. Ou na cena dos partideiros no pátio da casa de Candeia no filme “Partido Alto”, de Leon Hirszman, de 1982. Como se vê, aparições sempre secundárias: integrado ao grupo, mas dissolvido nele.

Argemiro, contudo, começou cedo sua relação com o samba. Foi levado, nos anos 50, pelos históricos Paulo da Portela (então diretor) e Betinho (diretor de bateria) para a Portela, passando a integrar a Ala dos Pandeiros. Pai do Mestre Sala Jerônimo (da Portela e Imperatriz Leopoldinense), mais tarde entrou na Ala dos Compositores e também na velha-guarda da Escola, a qual, apadrinhada por Paulinho da Viola, se tornou uma referência entre as velhas-guardas cariocas a partir dos anos 70.

Homem de pouco estudo, mas de enorme sabedoria e inteligência, Argemiro trabalhou duro como técnico em refrigeração, profissão pela qual se aposentou de forma humilde. Isso explica em parte porque só começou a compor aos 56 anos, no final dos anos 70. Não demorou para que suas músicas, as mais de 100 que anotava com esmero num caderno, fossem reconhecidas. Em 1980, a madrinha do samba Beth Carvalho gravou a primeira composição sua, “A Chuva Cai”, parceria com Casquinha. Entre discos da Velha Guarda da Portela, participações em trabalhos de Zeca Pagodinho, Teresa Cristina e Grupo Semente, ganhou reconhecimento como o autor original que é, principalmente, na virada para o século 21. Ou seja: já na velhice. Não somente ele, como também os companheiros de Velha Guarda Casquinha e Jair do Cavaquinho, que tiveram, após o lançamento do álbum “Tudo Azul”, da Velha Guarda, em 2000, seus também primeiros discos gravados todos pelo selo Phonomotor, de Marisa Monte, um em 2001 e outro em 2002. Argemiro, que esperara oito décadas para isso, foi o terceiro da fila e não desperdiçou a oportunidade de marcar de vez seu nome na história da discografia do samba.

Poeta romântico e melodista precioso, Argemiro abre o disco com um soar de cavaquinho e a voz às vezes sôfrega e sibilante, mas naturalmente elegante e carregada de experiência vocal (e de vida). Ele canta os poéticos versos, que impressionam pela concisão das poucas palavras: “Não sei/ Porque/ Tudo de mal/ Acontece comigo/ Tentei/ Mudar/ Em vão/ Mas não consigo”. E arremata: “Ninguém pode fugir do seu destino/ Esse meu sofrimento é desde os tempos de menino”. Argemiro dá o tom da sua poética, calcada na tradição do samba de terreiro: o amor não correspondido, o sofrimento do coração partido, a mulher que abandona. Emendada, “Tudo Mudou Tão de Repente", uma das parcerias com outro célebre portelense, Chico Santana, segue na mesma linha: “Eu não sei se é meu destino/ Desde os tempos de menino/ Vivo sofrendo assim”. A sina do sambista, este eterno sofredor.

O violão de Paulão 7 Cordas, o cavaquinho de Mauro Diniz (filho de Monarco) e a “cozinha” de Felipe D’Angola e Marcelo Moreira dão a Argemiro o espaço necessário para ele entrar com seu pandeiro e sua voz. A magnífica “Solidão”, de tão classuda, ganha o toque do violoncelo de Jacques Morelenbaum. E olha que poética! “Um fantasma que mata/ E que maltrata o coração/ É dor, angústia e sofrimento O tédio é um eterno tormento/ Assim é a solidão”. Sua clássica "A Chuva Cai”, já ouvida na voz de Beth Carvalho, Renata Arruda, Grupo Explosão do Samba, Régis Clemente e outros, tem agora, enfim, a do seu próprio autor. A história da música no Brasil devia isso ao samba.

Marisa Monte, produtora do disco, sabia dessa importância histórica e dá ao conteúdo musical e até antropológico o devido capricho. Marisa, por sinal, vinha de alguns anos encabeçando o projeto de valorização da Velha Guarda da Portela. Primeiro, com o disco “Tudo Azul”, também produzido por ela. Mais tarde, os de Casquinha, Jair do Cavaquinho e este, além do belo documentário “O Mistério do Samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, de 2008, que a tem como cicerone. É neste filme, aliás, que Argemiro ganha seu primeiro protagonismo em vida, tratado como um dos personagens centrais da Portela. Constantes no filme, "Deslize Da Vida" (“A vida/ Não é somente doçura/ Tem que haver amargura/ Para se dar o valor”) e a maravilhosa "A Saudade me Traz", com direito a "clipe", tem a ilustre participação de Zeca Pagodinho e das vozes femininas da Velha Guarda, as Pastoras – leia-se Tia Doca, Tia Eunice, Tia Surica e Áurea Maria. Uma das melodias mais bonitas da história do samba carioca e com uma letra, que é um show de domínio de prosódia e sintaxe: “A saudade me traz/ Quero rever alguém/ Que do meu coração não sai/ Eu vivo nessa agonia sem fim/ Eu canto, eu bebo para esquecer/ Mas nem assim”. Luxo só.

trecho do filme "O Mistério do Samba" com o "clipe" "A Saudade me Traz"

Capricho também se vê no arranjo especial dado a cada faixa. "Cadê Rosalina", um samba-de-roda com ares rurais, recebe, além das vozes tão afinadas quanto agudas das Pastoras, o acordeom de Waldonys. Trato semelhante em conceito tem “Vem Amor”, samba cadenciado em que o violino de Nicolas Krassik escreve frases líricas sobre a base de tamborim e o limpo cavaquinho de Mauro Diniz; bem como o samba romântico "Dizem Que o Amor", toda na voz delicada de Marisa e cujo arranjo valoriza as cordas do cavaquinho, do violão e do cello de Jacquinho. Por falar em voz feminina, é a da fã e parceira Teresa Cristina que aparece em “Amém” para dividir os microfones com o ídolo. Um samba recente, mas com cara de clássico das antigas.

Galanteador, malandro da velha estirpe e cheio de histórias, Argemiro transpõe para seus sambas embates amorosos como o de ‘Nuvem que Passou”. "Essa saiu de repente, inteira por causa de uma mulher que não deu certo. Nós nos encontramos, ela veio com saudade, mas eu não quis dar o braço a torcer", resume. Outra nesta linha é a divertida (mas não menos melodiosa) “Saia da Casa dos Outros”, na qual Argemiro lembra outra companheira que era frequentadora assídua da vizinha, em frente a uma vila em que ele morava em Oswaldo Cruz.

O próprio Argemiro comanda o pandeiro – e apenas mais o cavaquinho – em "Lamento de um Portelense", quase uma vinheta, que antecede outra das joias do álbum: "Em uma Noite de Verão". Samba-canção valseado, com harmonia complexa e engenhosa e de letra de alta expressividade e lirismo. “Até o brilho das estrelas/ Se fez presente aos olhos meus/ Como foi maravilhoso vê-las/ Que bom seria se não fosse o adeus”. É ou não é de dar inveja em muito compositor/letrista com bastantes mais condições na vida?

E o que dizer da maestria de "Vou-me Embora pra Bem Longe"? Esta é tão melodiosa e especial, que rendeu não uma faixa, mas duas no disco. A primeira, na voz de Moreno Veloso, com breve participação do seu autor. A segunda, num eletro-samba remixado por Marcelo D2 que, esta sim, traz o vocal inconfundível de Seu Argemiro. A letra? Essa maravilha aqui: “Vou embora para bem longe/ Não posso mais ficar/ Você não me corresponde/ E os meus anseios não podem esperar”. Note-se o domínio do fraseado e do bom uso dos recursos linguísticos (mesmo que isso se dê de forma totalmente inata): “Amar, como eu amei/ Até pensei que fosse minha um dia/ Cantar, também cantei/ Extravasei a minha alegria/ Mas tudo não passou de fantasia”. Uma estrutura literária própria dos grandes poetas.

A notoriedade que Argemiro recebeu, enfim, ainda em vida, infelizmente durou pouco. Em 2003, ao lado de Teresa Cristina, Jair do Cavaquinho e Grupo Semente, apresentou-se no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Pouco depois, vítima de uma parada cardíaca, viria a falecer, aos 81 anos, meses depois de lançar seu único disco solo. Quase não deu tempo de registrar essa preciosidade da música brasileira.

Ah, mas Seu Argemiro sempre tinha mais uma história! E esta aqui envolveu Vinícius de Moraes. Depois do sucesso de “A Chuva Cai”, Paulinho da Viola levou Argemiro num bar onde estavam Vinicius e Chico Buarque para apresentar-lhes o "novo compositor". Provocador, Vinícius, informado da capacidade de Argemiro fazer samba de partido-alto, aquele inventado na hora, olhou para ele e falou. “Faz música, mesmo? Então faz uma sobre essa garrafa aí na mesa”. Argemiro fechou o semblante e respondeu que não ia escrever sobre a garrafa, pois não estava sentido nada por ela. Ficou um climão, mas Argemiro foi para casa com aquilo na cabeça. Na semana seguinte, pediu para Paulinho levá-lo novamente àquele bar. Ao chegar, retirou a caixa de fósforo do bolso e batucou para a seleta plateia em que estavam novamente Vinicius e Chico o samba que havia composto naquela semana. Era “Minha Inspiração”, que fecha este disco em um canto a capella de Argemiro:

“Eu direi vocês estão enganados
Não faço sambas fabricados
Compreendendo vão me dar me razão
 
Somente escrevo que sinto
Falo a verdade não minto
Culpada é a minha inspiração
 
Já procurei escrever de outro jeito
Nada saía perfeito, porque não estava em mim
Não adianta eu forçar a minha natureza
Se o melhor do samba é a sua pureza
E eu forçando seria meu fim”.
 
Chico, impressionado, o olhou e disse. “Precisava isso tudo?”


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FAIXAS:
1. Pot-pourri: "Meu Sofrimento” (Argemiro Patrocínio) / “Tudo Mudou Tão de Repente" (Argemiro/Chico Santana) - 3:03
2. "Solidão" - Participação: Jaques Morelenbaum (Argemiro) - 3:26
3. "A Chuva Cai" (Argemiro, Casquinha) - 2:20
4. "Vem Amor" (Argemiro, Armando Santos) - 2:42
5. "Dizem Que o Amor" – Participação: Jaques Morelenbaum e Marisa Monte (Argemiro/Chico Santana) - 2:18
6. "Cadê Rosalina" - Participação: Pastoras da Velha Guarda da Portela e Waldonys (Argemiro, Paulo Vizinho) - 3:54
7. "Saia da Casa dos Outros" - Participação: Pastoras da Velha Guarda da Portela 
(Argemiro, Darcy Maravilha) - 3:01
8. "Deslize da Vida" (Argemiro/Chico Santana) - 3:17
9. "Lamento De um Portelense" (Argemiro/Chico Santana) - 0:55
10. "Em Uma Noite de Verão" (Argemiro) - 2:53
11. "Amém" - Participação: Teresa Cristina (Argemiro, Teresa Cristina) - 3:34
12. "Nuvem que Passou" (Argemiro) - 3:43
13. "Vou-me Embora pra Bem Longe" - Participação: Moreno Veloso e Rildo Hora (Argemiro, Guaracy, Renato Fialho) - 3:13
14. "A Saudade me Traz" - Participação: Pastoras Da Velha Guarda Da Portela e Zeca Pagodinho (Alberto Lonato, Argemiro) - 2:10
15. "Minha Inspiração" (Argemiro) - 0:22
16. "Vou-me Embora pra Bem Longe (remix)" - Participação: Cleber França e Marcelo D2 - 2:59


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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

terça-feira, 6 de maio de 2025

BPE + Cultura - Rua Riachuelo - Porto Alegre/RS (03/05/2025)

 

Que coisa louca essa vida: há exatamente um ano atrás, Porto Alegre, assim como maior parte do Rio Grande do Sul, estava debaixo de uma chuva torrencial, que não parava há dias. Vários bairros da capital, dentre eles, parte do Centro, inundados ou sem luz. Eis que, contrariando qualquer trauma, que nós gaúchos ainda estamos aprendendo a superar, o tempo se mostra há mais de uma semana ameno, ensolarado, solar, outonal, agradável. E melhor: sem um pingo d'água sequer.

Cenário perfeito para um evento de rua - algo inimaginável naquele começo de maio de 2024. Convidado como um dos autores do BPE + Cultura, promovido todo primeiro sábado do mês pela Biblioteca Pública do RS na própria Rua Riachuelo, em pleno Centro Histórico, tive o privilégio de autografar alguns dos meus livros “Chapa Quente”, “Anarquia na Passarela” e a antologia “Lar”, lá de 2014. Ainda, rever amigos e, claro, curtir o clima desse sábado iluminado de Porto Alegre.

Na companhia amorosamente inseparável de Leocádia e da simpatia canina de Bolota, foi possível aproveitar comes, cerveja artesanal, intervenções literárias, contação de histórias, oficinas e os shows, como o de samba do competente Quinteto Benguelê. Cheios de simpatia e com uma cantora carismática e talentosa, o grupo mandou ver em vários clássicos autores do samba, como Elis Regina/Baden Powell (“Vou Deitar E Rolar”), Cartola ("Tive Sim"), Dona Yvone Lara ("Sonho Meu") e Nelson Cavaquinho ("Palhaço"). Teve também uma emocionante apresentação do grupo teatral Dança do Leão e do Dragon, que trouxe a apresentação de dança O Despertar da Fortuna baseada nas tradições chinesas. O impactante vídeo da performance sinuosa e misteriosa do dragão ao som dos tambores típicos não deixa mentir.   


Enfim, um presente a nós e a todos os porto-alegrenses: a ocasião e a de poder aproveitá-la numa tarde de sol abençoada. Confiram um pouco de como foi:

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Dia perfeito para feira na rua


Uma visão geral do começo da tarde no evento promovido pela Biblioteca Pública do RS



Com os meus livros e com Bolota aguardando os autógrafos


Autografando um "Anarquia"


Batendo um papo com o amigo Otávio Silva, que foi me prestigiar


Com a escritora e parceira de autógrafos Maiza Lemos


Contação de histórias rolando com a criançada


Um trechinho do Quinteto Benguelê 
tocando Cartola


Com a diretora da BPE, Ana Maria de Souza, e Rafael Correia, curador do evento


Nossa parceira de feira


Nós três nesta tarde em que o sol sorriu pra Porto Alegre



texto: Daniel Rodrigues
fotos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Tracy Chapman - "New Beggining" (1995)



"Eu nunca presto muita atenção ao gênero, pessoalmente. Não acho relevante ou interessante."

"Há uma parte de mim que está em tudo que escrevo."
Tracy Chapman

Tracy Chapman já provou que não precisa provar mais nada para ninguém. Uma das maiores vendedoras de discos do folk-rock norte-americano das últimas décadas, autora original, cantora de personalidade, ativista, dona de si. Seu primeiro e celebrado disco, de 1988, venceu de 3 Grammy Awards e discos de Ouro e Platina. Com 8 álbuns gravados, Tracy entrou mais de uma vez na Billboard e ganhou BRIT Awards, American Music Awards e mais prêmios Grammy. Cantou ao lado de Peter Gabriel, Youssou N'Dour, Eric Clapton, Luciano Pavarotti, Carlos Santana, Ziggy Marley, Bonnie Raitt. Atuou em prol da Anistia Internacional, do Farm Aid, do We the Planet, da libertação de Nelson Mandela, da memória de Matin Luther King. E mesmo assim a crítica a subestima.

Além de ser perseguida pelo julgamento reducionista (inclusive, musicalmente falando) de que se trate apenas de uma “emuladora” de Joan Armatrading – musicista são-cristovense-britânica de uma geração anterior a de Tracy e a quem guarda algumas semelhanças, mas, principalmente, diferenças – recai sobre ela uma exigência para que sua obra seja mais densa do que já é, o que resulta numa demonstração bastante machista e racista. A argumentação “especializada” é de que, por exemplo, letras de canções como “Talkin’ 'bout Revolution” (escrita aos 16 anos e que se tornou um de seus maiores clássicos), que fala sobre a necessidade de levantar-se contra as injustiças sociais, seja mais profunda em dizer COMO fazer essa revolução a qual prega. Ora: está se avaliando uma música pop de pouco mais de 4 min, e não uma tese de pós-doutorado em Sociologia Política!

Para piorar, houve, principalmente nos primeiros anos de carreira musical de Tracy, logo que esta surgiu ainda jovem, aos 23 anos, uma cruel expectativa em relação aos trabalhos seguintes ao seu disco de estreia – o sucessor “Crossroads”, de 1989, e o terceiro, Matters of the Heart, de 1992. Era uma exigência velada para que ela assumisse uma imagem de singer-songwriter “de protesto”, rotulando-a num nicho pré-determinado pela própria indústria. Descarada demagogia. Nunca se viu tal expectativa para pertencer a um estilo ou outro para com James Taylor ou Paul Simon, por exemplo, dois homens brancos judeus intocáveis e da mesma linha de musicalidade de Tracy, que circula entre o folk e o soft rock. Numa indústria que reflete a sociedade norte-americana, tais cobranças haveriam de caber, sim, a uma mulher jovem, preta e LGBT fora dos parâmetros de beleza da mídia. 

Acontece que Tracy, cuja discrição da vida pessoal sugere sua esperteza, entende muito bem as intenções maliciosas para consigo. Ela sabe que cada passo seu é vigiado e que ela vale muito mais do que a caixinha dentro da qual a queiram colocar. Por isso, “New Beggining”, seu quarto disco e que completa 30 anos de lançamento, traz esse título aparentemente sem um motivo maior, mas carregado de respostas não só aos pretensos manipuladores como, ainda mais, a si mesma. Para alguém como ela, independentemente do sucesso já alcançado, é sempre um “novo começo”. Maduro e cheio de personalidade, “New Beginning”, produto de uma Tracy agora com 31 anos, é o resultante do trabalho de três anos de composição e de mergulho interior da artista, levantando questões sobre sofrimento, racismo, causas sociais e ambientais. Crítica e público reconheceram: levou disco multi-platina e teve mais de 3 milhões de cópias vendidas. 4ª posição na Billboard 200, passou 95 semanas na parada, tendo ainda o single "Give Me One Reason" por cinco semanas em 3ª no Hot 100 da Billboard.

Quebrando a repetição da foto da própria artista na capa como nos três trabalhos anteriores (mais uma mostra da maturidade alcançada), o disco é excelente em tudo: arranjos, execução, produção, narrativa e, claro e principalmente, aquilo que Tracy faz com exímia habilidade, que são as composições. Ela abre o álbum mostrando os porquês. "Heaven's Here on Earth", uma balada melancólica e de profunda beleza, traz uma letra de alta carga poética e reflexiva. “Você pode olhar para as estrelas em busca de respostas/ Procurar por Deus e por vida em planetas distantes/ Ter sua fé na eternidade/ Enquanto cada um de nós tem em si o mapa do labirinto/ E o céu é aqui na terra/ Nós somos o espírito da consciência coletiva/ Nós criamos a dor e o sofrimento e a beleza no mundo”. Arranjo perfeito e ela cantando belamente. 

A faixa-título, igualmente, exala personalidade. De ritmo embalada em tempo 2x2, provocaria qualquer músico a transformá-la num reggae. Tracy, no entanto, não cede à tentação mais óbvia e concebe uma balada folk como é mestra em compor a exemplo de “Across the Lines”, “Freedom Now” e “Open Arms”, todas dos trabalhos anteriores. 

O misto de r&b e spiritual com folk e pop do estilo musical de Tracy não é simplesmente uma receita de bolo: trata-se de um processo internalizado e inato da artista. Tracy veio de uma família pobre da negra Cleveland, em Ohio, onde vivia com a mãe e a irmã. Passou necessidade e sofreu racismo, como todo preto norte-americano de classe baixa. Na adolescência, nos anos 70, com as políticas afirmativas advindas dos Movimentos pelos Direitos Civis, pode fazer faculdade de Antropologia. Vivia entre os livros da biblioteca pública e o rádio, que ouvia incessantemente e  única fonte de informação musical que tinha na infância e adolescência,. “Eu cresci em uma família da classe trabalhadora e estava muito ciente das lutas que minha mãe enfrentou enquanto criava a mim e minha irmã. Havia outras pessoas na minha família que trabalhavam em empregos braçais enquanto a economia industrial estava começando a fracassar e desaparecer. Quando criança, acho que não tinha noção da política disso, mas por osmose você está captando o estresse ou as preocupações que os adultos ao seu redor têm”, disse em recente (e rara) entrevista ao The New York Times.

Toda essa experiência de vida deu a Tracy um jeito muito próprio tanto de compor quanto de cantar - até por isso é tão rasteiro imputá-la como uma cópia malfeita de Joan Armatrading, que tem outra bagagem. E o modo de cantar transmite isso. É quase mais sentido do que escutado. Mal comparando, assim como Bob Dylan – um de seus ídolos – cuja maneira de cantar expressa todas as angústias da geração beat, a de Tracy é carregada de ancestralidade e vivência do negro nos Estados Unidos. “Cold Feet”, com ares de canção de trabalho de escravizados das plantações de algodão do Sul norte-americano, é exemplar nisso. Um cantar triste mas lúcido, consciente de seu valor e de sua dor. O mesmo em "Smoke and Ashes", com seus coros de worksongs, e a balada ”At This Point in My Life”, que muito bem retrata a vida de um irmão de cor vivido, mas com esperança na vida: “A essa altura da minha vida/ gostaria de viver como se só o amor importasse/ como se redenção viesse em um suspiro/ como se procurar viver fosse realmente tudo o que se precisa/ não importa quem o consiga”.

Igualmente balada, porém romântica, “The Promisse” é forjada num lindo dedilhado do violão de Tracy com leves acompanhamentos do baixo e do violino. Sem percussão alguma, pura leveza. E quantas lindas melodias! Todas, sem exceção. Como Tracy sabe engendrar letra é música e ainda fazer refrões tão marcantes e gostosos de se ouvir, a exemplo daquele que é um de seus grandes sucessos do início da carreira, “Baby Can’t I Hold”. A se ver por "Tell It Like It Is", cheia de groove e das melhores do repertório, e a já referida “Give me...”, hit do álbum e que a deu um terceiro Grammy. Um blues doce e irresistível com ares de B.B. King e Memphis Minnie.

Clipe de "Give Me One Reason", que tocou bastante na MTV à época do lançamento

Tracy empresta seu vocal intenso e sofrido para falar também sobre um tema hoje na crista da onda: as mudanças climáticas. A introspectiva canção "The Rape of the World" diz: “Mãe de todos nós/ Lugar do nosso nascimento/ Como podemos ficar à distância/ E assistir a violação do mundo/ Isso é o começo do final/ Esse é o mais chocante dos crimes/ O mais letal dos pecados/ A maior violação de todos os tempos”. À época, 3 anos depois da Eco92, não era todo artista que levantava a voz para tratar sobre a natureza.

Já “Remember the Tinman” volta àquela atmosfera da contadora de histórias de “Fast Car”, sucesso do seu primeiro e aclamado disco. Tudo para encerrar com outra das melhores: “I’m Ready”, um tocante r&b com toques gospel. Sim, Tracy Chapman diz que, em seu novo nascimento, estava pronta para o que desse e viesse. “Eu estarei pronta para deixar os rios me lavarem/ Se as águas puderem me arrastar/ Eu estou pronta”. Eles pensavam que ela sucumbiria ao sistema, né? Até tentaram, mas Tracy tem consigo séculos de conhecimento ancestral, de tradição oral, de musicalidade inerente, de dor de escravidão, de exclusão social, de genocídio preto.

Nossa, acabou... Ou melhor: ainda não acabou! De pouco menos de 2 min, a hidden track "Save a Place for Me” ainda vem para dar um recado cheio de generosidade para com os que a amam como também para quem quer que seja: “Salve um lugar para mim/ Salve um espaço para mim/ Em seu coração/ Se você esperar, eu virei para você”. Com uma fraca média de um disco a cada 5 anos, pode-se perceber que o negócio com Tracy é realmente esperar, que um dia ela reaparece para conquistar mesmo aqueles que não eram seus fãs e passam a reconhecer suas qualidades inequívocas e intransferíveis. Porém, quando ela vem, como “New Beggining” é uma prova, pode-se ter certeza de que é para ficar.
 
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FAIXAS:
1. "Heaven's Here on Earth" – 5:23
2. "New Beginning" – 5:33
3. "Smoke and Ashes" – 6:39
4. "Cold Feet" – 5:40
5. "At This Point in My Life" – 5:09
6. "The Promise" – 5:28
7. "The Rape of the World" – 7:07
8. "Tell It Like It Is" – 6:08
9. "Give Me One Reason" – 4:31
10. "Remember the Tinman" – 5:45
11. "I'm Ready" – 4:56
12. "Save a Place for Me" (hidden track) – 1:50
Todas as faixas de autoria de Tracy Chapman

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OUÇA O DISCO:
 


Daniel Rodrigues