Curta no Facebook

terça-feira, 6 de outubro de 2026

"Até Logo, Biblioteca", de Rafael Bassi - Ed. Casa de Astérion (2025)


"...me dei liberdade de fazer buscas [na minha biblioteca] com os olhos, e, de maneira muito sentimental, eleger alguns e escrever algo sobre. Acho que esse pequeno exercício me fará bem. E se alguém quiser lê-lo, espero que fique bem também."
Rafael Bassi

É admirável quando um autor culto consegue se expressar sem se usar dessa cultura, digamos, verticalmente. Não raro, a alta carga de cultura se reverte, contraditoriamente, numa narrativa de baixa carga de admissibilidade ou de atratividade. Mesmo tratando de temas interessantes, abusa-se do empolamento e/ou de expressões e construções epistemológicas intrincadas, complexas. Chatas muitas vezes. Não é, por sorte, o que se pode dizer sobre Rafael Bassi, pelo menos em seu agradável livro de crônicas “Até Logo, Biblioteca”, no qual o professor, escritor e historiador (especialista em História, Letras e Filosofia, entre outras formações) traz textos sobre seus livros e a paixão pela literatura conjugando, constantemente, sua alta cultura com uma forma aprazível de escrever.

Essa escrita parte de um dilema vivido por Bassi: ao se preparar para uma temporada fora do país e ter que deixar em seu apartamento no Brasil sua biblioteca pessoal, composta por aproximadamente 8 mil volumes, o autor cria como estratégia falar sobre alguns deles. Se não todos, algo impossível, ao menos aqueles que ajudam a construir sua formação como pessoa e profissional. De sua admiração por Jorge Luis Borges, Erico Verissimo e Machado de Assis, passando pela fascinante história da Anna Comnena, bem como as suas junto a Mia Couto e Dalton Trevisan, são adoráveis sem, contudo, se restringirem somente a esses temas, visto que pontuam uma série de outras colocações pertinentes àquilo. 

A partir dessa premissa, o leitor é convidado a penetrar nas memórias, divagações, observações e pensamentos particulares de Bassi. O que poderia se tornar uma experiência enfadonha, é, pelo contrário, muito curiosa e deleitosa. No que se refere à linguagem, como mencionado no começo deste texto, igualmente uma boa surpresa. Bassi vale-se de seu cabedal de conhecimentos para construir uma narrativa fluida, que casa o tempo todo a fruição dada pelo autor com informações sobre literatura, história, filosofia, música, entre outros, sem se furtar de rebuscá-las, contudo. Porém, sempre entremeado por essa aproximação com quem lê.

Para um nativo e morador de Porto Alegre como eu, há ainda mais empatia. O texto de encerramento, “Entre uma Palavraria e Outra”, em que narra o último dia de funcionamento da livraria Palavraria, no bairro Bom Fim, fez-me remeter a boas lembranças – contrariamente ao sentimento expresso por ele naquele momento de perda –, pois foi ali que Leocádia e eu nos reencontramos, em janeiro de 2012, para nunca mais nos desligarmos. 

Mas não apenas essa geoafetividade nos aproxima, mas a descrição de deslocamentos e Curitiba, onde estive com Leocádia num final de semana de muitas andanças, mas até mesmo de Buenos Aires, a qual ainda não tivemos a oportunidade de pisar, mas que, contada da forma como está no livro, dá a sensação de que já estivemos lá, como um agradável déjà vu.


Daniel Rodrigues

domingo, 4 de outubro de 2026

cotidianas #909 - Dia da Eleição

 




Um visual meio selvagem para o dia
Olhos se abrindo disparam centelhas de neon
Ela zomba, ela rejeita
A cidade é sua escrava, ele está traindo sua amante
Ela é instável e obscura
Ela é má e ela é incansável
Tão incansável, incansável mesmo

Tudo sobre você, como dizem por aí
Boatos ou rivais gritam para a força de ataque
E aí caras, a propósito
Vocês estão cientes que estão sendo ilegais?
Isso faz com que o comportamento do seu salvador pareça maligno
Desculpe se não é o momento, mas me digam
Como vocês se encaixam nesta trapaça?

Máxima surpresa
Seu sorriso é algo novo
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer a onda de calor
Retire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Esticando meu amor pelo caminho
Ao seu convite, esticando meu corpo
Use sua jogada intuitiva
Porque talvez nós tenhamos mais tempo de jogo do que dinheiro

Surpresa máxima
Ela sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Estou me poupando para sofrer a onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição

Por estradas e vielas
A chance de um amante na direção do vento
Abafa murmúrios e sons
Que sejam calmas as mãos sobre a pele
Vá mais longe
Cordas entrelaçadas todas cantam
Ganhando algum tempo para escapar
Nós poderíamos dançar!

Não deveria estar perguntando
Louco e intrigante
Podia ser meu dia da eleição

Nem tente me induzir
Em toda a minha restrição não há hesitação
Todos os sinais estão à solta
Por que a sanidade é rara no fim deste dia difícil
Sombras estão rastejando para fora do metrô
Qualquer caminho que você escolhe
Em todas as direções apenas para me confundir

Surpresa máxima
Você sabe de alguma novidade
Eu tiro minha camisa e rezo
Nós estamos jurados e fadados a sofrer essa onda de calor
Tire minha camisa e reze
Estamos chegando no dia da reeleição
Dia da reeleição

*****************************
tradução da letra da música "Election Day"
da banda Arcadia

Ouça:

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Miles Davis - "Tutu" (1986)




"Em ‘Tutu’, cada faixa foi criada pensando na voz dele. Miles nunca era algo incidental na faixa, tentando encaixar o trompete. O som de Miles guiou tudo."
Marcus Miller

Tornar-se um artista icônico e produzir obras-primas tem seus preços. Um desses fardos é a auto-comparação, que pode levar, em alguns casos, a obscurecer outras obras não menos apreciáveis do mesmo artista. No cinema, um exemplo clássico é a trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Lado a lado com os dois primeiros da série, marcos da história do cinema, o terceiro filme, embora obviamente menor que seus antecessores, é excessivamente desqualificado pela crítica. Copolla até hoje paga por essa injustiça, pois “Chefão 3” é, se não tão revolucionário, bastante apreciável.

Na música, não são poucos os casos em que um artista paga pela própria qualidade. Miles Davis, gênio do jazz e da música mundial, que completa 100 anos de seu nascimento em 2026, sofreu com isso. Não é para menos. Em cerca de quatro décadas, ele foi protagonista de algumas das principais revoluções do jazz, do be-bop ao cool, do hard-bop ao modal, do fusion ao jazz-rock, do funk ao hip-hop. Talvez por isso, “Tutu”, álbum lançado por Miles em 1986, não seja listado junto de outros discos célebres do artista como “Kind of Blue”, “Birth of The Cool”, “In a Silent Way” e “Miles Ahead”. Porém, “Tutu” (que também está de aniversário, 40 anos) é, inegavelmente, um dos melhores trabalhos da longa discografia do mestre, com uma sonoridade que une, com a sofisticação que lhe era característica, o jazz-funk, o fusion e o electro-pop.

Uma das características mais apreciáveis em toda a carreira de Miles, além de sua inteligência, liderança e qualidade musical, era sua capacidade de se reinventar. Em “Tutu”, com a devida ajuda de Marcus Miller e outros músicos tarimbados – entre eles, o craque da soul-jazz George Duke –, ele age como um verdadeiro veterano sábio: deixa que os outros trabalhem pra ele e entra só na hora certa. Só quando é imprescindível: com o toque inconfundível e hipnotizante de seu trompete, a cereja do bolo. Totalmente instrumental e com praticamente todas as composições de autoria de Miller – que também toca baixo, arranja e produz o disco a quatro mãos com o experiente Tommy LiPuma –, “Tutu” traz a sonoridade pop ao jazz com uma qualidade ímpar. Algo que, aliás, nem o próprio Miller havia atingido, basta ouvir o seu álbum solo imediatamente anterior, de 1984, e perceber que a química com Miles foi, realmente, essencial para o resultado. A composição é dele, mas a alma é de Miles.

A faixa-título e de abertura entra mostrando os predicados desse projeto: ataques soltos de teclados, bateria eletrônica e as primeiras frases de trompete, dando ao ouvinte uma amostra das texturas e sonoridades que permearão o restante da audição. Até que os sons se organizam e se forma um funk cadenciado, sincopado, e um riff dissonante muito, mas muito charmoso. O baixo de Miller segura a linha melódica – aliás, como em todo o disco – e na “cozinha” está ninguém menos do que o grande percussionista brasileiro Paulinho da Costa. 

“Tomaas”, na sequência, única que Miles coassina a autoria, é outro funk sem pressa e não menos elegante. Não só pelo arranjo e pela sonoridade sensual mas, claro, principalmente, pelo sopro de Miles. O "refrão", jazz fusion, e que se repete de tempo em tempo, é de pura musicalidade. O tema ainda conta com as participações do percussionista norte-americano Omar Hakim e os sintetizadores do jamaicano Bernard Wright. Certamente, das melhores composições de Miles em toda a década de 80.

“Portia”, outra belíssima, é ainda mais melodiosa e sensual. O estilo sonoro do baixo e das programações rítmicas, que se tornaram modelo a produtores de toda a música mundial à época, estão aqui em perfeito exemplo. E o trompete de Miles arremata, soltando suas frases econômicas, que desenham a faixa de cabo a rabo. Quebrando essa introspecção, as animadas “Splash” e “Perfect Way” são duas em que o funk prevalece, mas nem por isso são menos melodiosas.

Entre estas duas está uma outra joia: “Backyard Ritual”, em que Duke, seu autor, é quem comanda. Fora o baixo, a cargo de Miller, e o trompete do artista principal, é ele quem toca todos os instrumentos, além de arranjar e produzir a faixa. O autor do hit AOR “Sweet Baby” e dono de uma invejável discografia em que passeia pelos mais variados ritmos da black music tem, aqui, o privilégio de contar com a lenda Miles a seu serviço. Para tanto, compõe para o ídolo um electro-funk de batida marcante, com seus teclados groove, os slaps do baixo de Miller e a magia dos solfejos de Miles. 

O ótimo reggae dub “Don't Lose Your Mind” e o funkão “Full Nelson”, homenagem ao líder sul-africano anti-apartheid Nelson Mandela, à época preso, encerram o disco cujo título também faz referência à vida sociopolítica daquele 1986: o arcebispo sul-africano Desmond Tutu. “Full Nelson”, aliás, cheia de suingue e sagacidade, daria inveja a Prince por não tê-la escrito não fosse ele o exímio compositor que era. 

Mesmo com o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz, em 1987, “Tutu” ainda é relegado pela crítica dentro da discografia de Miles Davis. Os fãs, no entanto, adoram. Tanto que se tornou sinônimo de jazz-pop dos anos 80, influenciando músicos como Prince, Madonna, Sade, Incognito, Everything But the Girl e toda a turma do smooth-jazz e do jazz-rap dos anos 90, como Guru, US3 e Easy Mo Bee – que faria o disco imediatamente póstumo de Miles, em 1992, “Doo-Bop”, fundindo jazz com hip-hop e pegando muitas referências de “Tutu”. Mais do que isso, este disco tirou Miles de certo ostracismo ao qual vivia desde meados dos anos 70, trazendo-o para os holofotes novamente e, principalmente, restituindo-lhe o protagonismo. Como em vários outros momentos na história do jazz, Miles demarcava um novo começo para o gênero. E ele sabia que devia esse ressurgimento a Miller, tanto que o velho músico não deixou de agradecer quando lhe disse certa vez: "Valeu, cara. Você me trouxe de volta." 

🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺

FAIXAS:
1. “Tutu” - 5:15
2. “Tomaas” – (Marcus Miller, Miles Davis) - 5:32
3. “Portia” - 6:18
4. “Splatch” - 4:45
5. “Backyard Ritual” (George Duke) - 4:49
6. “Perfect Way” (David Gamson, Green Gartside) - 4:32
7. “Don't Lose Your Mind” - 5:49
8. “Full Nelson” - 5:05
Todas as composições de autoria de Marcus Miller, exceto indicadas

*************
OUÇA:
Miles Davis - "Tutu" 

🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺🎺


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Música da Cabeça - Programa #479


Ô, santinha, bem que podia dar uma ajudinha e matar essa eleição no primeiro turno, né? A base de reza, o MDC desta semana também tem, claro, música. The Modern Lovers, Guinga, Parliament, Richard Strauss, Luis Fernando Verissimo e Madonna lançam seus cantos de fé. Botando fé na urna, o programa vai ao ar hoje, 21h, na consagrada Rádio Elétrica. Produção, apresentação e "faz o L": Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

A nuvem tímida







 

"A nuvem tímida"
Daniel Rodrigues
fotografia digital - set/2026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Clyblood #11- "A Médium", de Banjong Pisanthanakun (2022)

 


Tá, olha só..., não vou te enganar não: "A Médium" é um dos filmes mais aterrorizantes, assustadores, chocantes, sinistros, impressionantes que o cinema de horror já produziu nos últimos tempos. Tem possessão, bruxaria, exorcismo, maldição, gore, violência gráfica, sexo, crueldade com criança, com animal, e mais o que você quiser.
A produção tailandesa usa o formato do falso-documentário para mostrar uma equipe de filmagem que acompanha Nim, uma médium numa região rural da Tailândia, de modo a relatar suas vivências espirituais, suas rotinas, seus dons e responsabilidades religiosas diante de sua comunidade. Até aí tudo bem, beleza, o dia a dia, rezas, rituais, oferendas e tal. O que acontece é que o comportamento da sobrinha Mink começa a chamar mais atenção do que o da xamã da aldeia que era o assunto original do documentário. Nim, a tia, com sua experiência e conhecimento das coisas místicas, percebe que a sobrinha está sob ação de uma entidade. Em princípio faz os procedimentos padrão para expulsar o espírito, mas logo percebe que o que habita a garota é algo mais forte e poderoso do que imaginava. Buscando respostas, descobre que a possessão se dera pelo fato de que a irmã renegara sua herança espiritual e não assumira seu papel de xamã quando jovem, na época em que devia assumir sua atribuição. A entidade poderosa, então, se vingava agora tomando sua filha. E, cara, depois que a guria fica possuída... ela vira o catiço!
A equipe de documentário passa então a dedicar todas as atenções para ela, todos os rituais, procedimentos, tentativas, de tirar aquela coisa da adolescente. E nada!!! A coisa é muito forte e só piora.
A própria tia médium não dá conta. Chama outros médiuns, exorcistas e a garota continua fazendo barbaridades que incluem automutilação, canibalismo, depravações, perversidades com um bebê de colo e atrocidades com um pequeno cãozinho doméstico. Isso sem falar na sequência final, da tentativa de exorcismo que é simplesmente macabra, aterradora e apavorante.
Em meio a tantos found-footage e mockumantaries repetitivos, esse é original em sua proposta, com um roteiro bem montado e uma tensão crescente que deixa o espectador com as unhas cravadas na poltrona. Além de tratar de um tema interessante de religiosidade e herança espiritual em culturas com esse tipo de crença, nos apresenta uma outra perspectiva de exorcismo diversa da tradicional visão católica ocidental, já retratada em tantos filmes. Mas só reafirma que, no mundo do cinema, depois que o demônio entra, ah...  aí é difícil de expulsar o bicho. Seja aqui no ocidente ou na Tailândia.

A jovem Mink endemoniada.
E vai tentar tirar  a coisa-ruim dela, vai...

Cly Reis


💀💀💀💀💀💀💀💀💀💀💀💀💀

"A Médium"
título original: "The Medium"
direção: Banjong Pisanthanakun
elenco: Narilya Gulmongkolpech, Sawanee Utoomma, Sirani Yankittikan
gênero: horror, terror,  folk-horror, foud-footage, mockumentary, 
duração: 130min.
país: Tailândia
ano: 2022
onde assistir: Prime Vídeo



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Museu do Inter - Porto Alegre/RS (julho/2026)


Aquelas coisas que não se explicam: precisou que minha sobrinha Luna viesse a Porto Alegre para que eu pisasse, pela primeira vez, no Museu do Sport Club Internacional. Mesmo morando há anos perto da casa colorada, o Estádio Beira-Rio, nunca havia me programando para fazer essa visita ao memorial do meu time do coração. Aliás: NOSSO time de coração, visto que Luna, mesmo carioca da gema, é colorada convicta, muito mais que muito gaúcho. Aproveitando um dia ensolarado e agradável de uma semana de tempo instável, então, Luna e eu fomos ao Beira-Rio para fazermos a visita guiada ao estádio, a qual começa e termina no museu.

Parece não ter mudado muito daquilo que meu irmão registrou anos atrás quando fez também sua primeira visita, mas o museu é muito bem montado, com espaços de interatividade e integrando plataformas diferentes, como fotos, vídeos, estátuas, objetos e, claro, fardamentos e os diversos troféus conquistados pelo time ao longo dos anos. Não tinha como ser diferente, aliás, tendo em vista que a história gloriosa de quase 110 anos do Inter tem muito conteúdo para um espaço museológico como este. Poucos clubes no Brasil têm tantas glórias e momentos tão marcantes. Estão lá os registros da antiga Chácara e do Estádio dos Eucaliptos, primeira casa do Inter que viu, além dos nossos primeiros títulos citadinos e estaduais, jogos da Copa do Mundo de 1950.


Fotos da história gloriosa da fase dos Eucaliptos, nossa primeira casa

Por falar na primeira Copa sediada no Brasil, um personagem que estava na competição também faz parte importante da história do Inter: nosso tio-avô Adão, o Adãozinho. Craque do Rolo Compressor, time do Inter que conquistou os ainda inalcançáveis 8 títulos estaduais nos anos 40, Adãozinho foi dos primeiros atletas gaúchos a disputar uma Copa pela Seleção Brasileira. E ele está lá no museu no painel de fotos dos craques históricos do Inter ao lado de outras lendas como Falcão, D'Alessandro, Figueroa, Rafael Sóbis, Taffarel, Carlitos e Fernandão.

São muitas coisas bonitas de se ver no museu, e não só para colorados com nós, mas também para torcedores de outros clubes e de outros estados, haja visto que tinha gente de Minas Gerais, Paraná (e Rio, claro) entre os visitantes. Os troféus das Libertadores e do Mundial; as chuteiras usadas pelo saudoso Fernandão no histórico jogo contra o Barcelona em 2006; a história de comunhão da torcida para construir o Beira-Rio; a lembrança do Tri-Campeonato Brasileiro...

Estátua suspensa de Manga

Luna felizona posando com os troféus da Liberta e de outros
títulos internacionais do Inter

Uma felicidade imensa de ter visitado este espaço na companhia de Luna e um orgulho imenso do time de nosso coração. Pena ser justo numa temporada em que as coisas não vão nada bem pro Inter. Mas, como dizemos em nosso canto: "Inter, nada vai nos separar". Serás sempre motivo de festa em nossos corações.




Falando sobre o nosso templo, o Beira-Rio


Luna bem atenta à história do Inter


Fotos antigas dos primeiros tempos do clube


A vitrine dedicada ao Rolo Compressor


Figueroa e a sua cabeceada iluminada, que nos deu o primeiro Brasileiro, em 1975


Troféus internacionais, dentre eles, Joan Gamper, nosso ensaio de Mundial, em 1982
 

O título da Copa do Brasil de 92. Esse eu vi!


Várias flâmulas de times trocadas pelas do Inter de todo o mundo



A camisa 3 do ídolo Figueroa


Mais troféus


Por falar em troféus, Luna nessa vitrine de grandes conquistas


Esta dupla de colorados terminando a visita ao Beira-Rio




Daniel Rodrigues

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

John Coltrane - "Olé Coltrane" (1961)


"Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!"
Trecho do poema "Pranto por Ignacio Sánchez Mejías", do poeta espanhol Federico Garcia Lorca

Não há precisão nas datas, mas estima-se que o jazz tenha surgido em finais do século 19. Ou seja: trata-se de uma linguagem de pouco menos de um século em meio, ainda mais considerando que, comercialmente, estabeleceu-se na indústria fonográfica há menos que isso. O florescimento do jazz foi como a abertura de um portal de onde pode-se ver emergir alguns dos maiores gênios da música moderna reconhecidos por todo o mundo. Estes praticamente 100 anos do jazz coincidem com os exatos 100 de nascimento daquele que é, talvez, não apenas o maior talento da história do jazz, como um ser ainda mais prodigioso na história da música. Como Beethoven, Mozart, Bach, Debussy. Um gênio superior, movido por um amor supremo e que tocou, com seu sopro de saxofone, a mão de Deus: John Coltrane.

Em sua vasta obra, produzida em apenas 9 anos de carreira, entre diversos álbuns solo, parcerias ou participação em conjuntos, não são poucos os discos que se destacam, sendo comum se lembrar da fase com seu famoso quarteto do início dos anos 60, formado por Elvin Jones, na bateria, McCoy Tyner, piano, e Paul Chambers, baixo. Porém, em meio a tanta variedade e qualidade, um outro trabalho merece especial realce: “Olé Coltrane”, de 1961.

Além de integrar com muita propriedade e originalidade formas jazzísticas distintas, como o hard bop e o jazz modal ao pós-bop e o avant-garde, e diferentemente de outros trabalhos do próprio Coltrane da mesma época em que o hard-bop prevalecia (“Giant Steps”, “Lush Life”, “Bags & Trane”, “Coltrane Jazz”), “Olé” é exuberante também na formação do grupo que o acompanha. Mesmo com o sucesso de seu então recém formado quarteto mágico, Coltrane ousa experimentar uma banda maior e com outras sonoridades, texturas e estilos. Para executar os três números de “Olé”, chama para a gravação, ocorrida em maio daquele ano para a gravadora Atlantic, um time grande, que incluía, além do piano (Tyner), bateria (Jones) e baixo (Art Davis e Reggie Workman intercalando-se), flauta (Eric Dolphy), trompete (Freddie Hubbard) e um sax alto para conjugar com os seus tenor e soprano. 

Com esta conformação diferente e expandida em relação a uma banda mais enxuta, Coltrane cria uma atmosfera densa e onírica para traduzir a sua visão da cultura hispânica, algo muito em voga no jazz daquele início de anos 60. Na faixa-título, “Olé”, entretanto, Coltrane faz mais do que apenas dar sua versão, mas, sim, de moldar sua alma àquela sonoridade. Jazz modal de mais de 18 minutos (o que compreende todo o lado A do formato LP original), tem na influência espanhola um “leitmotiv”, que dá base para que ele e seus parceiros de estúdio desaguem suas melhores intenções e impressões. Dolphy, com uma flauta estonteante tal o capote vermelho do toureiro tremulando diante do touro; Hubbard, contagiado pela emoção da arena, mas sempre com um olhar no que virá adiante, no próximo passo do bailado mortal; Davis com um baixo ora trastejado, ora tangido, que remete às variações de posição entre o furioso animal e o destemido artista; Tyner com o piano garantidor do espectro modal em suas variações circulares, assim como o formato da arena da tourada; a bateria de Jones pulsando num compasso flamenco; e o sax soprano de Coltrane, claro, representando o toureiro: elegante, esguio, altivo, sensual. Mas, sobretudo, fatal, matador. 18 min de puro deleite.

Jazz bluesy, "Dahomey Dance" convida o ouvinte a outro tipo de dança, que não o bailado dramático da tourada imortalizado nos versos de Federico Garcia Lorca. Voltando-se à celebração da sua Mãe-África, Coltrane e banda transformam em sons toda a grandeza do icônico Reino de Daomé, na África Ocidental e onde hoje fica localizado o Benim, o qual prevaleceu por três séculos através de sua arte, comércio, exércitos e religiosidade. Fechando, “Aisha”, de autoria de Tyner, uma homenagem à sua então esposa e cujo nome, não coincidentemente, tem, como ela, origem árabe (Tyner foi um devoto da religião islâmica) e ainda por cima significa "aquela cheia de vida". Assim como ela, a música é, sim, tomada de vida e pelo calor da paixão. Para quem já era, àquela época, um dos mais exímios baladistas do jazz como Coltrane, essa composição do amigo dedicada à sua amada foi um presente. Quanta delicadeza, e não somente de front man, mas de Hubbard, Dolphy, Jones e Workman, de quem se escuta, ao fundo, o vibrar das cordas do contrabaixo. De Tyner, então, nem se fala.

Há 100 anos nascia John Coltrane. Há mais ou menos o mesmo tempo, o jazz se estabelecia como cultura. Hoje, é impossível conceber um sem o outro: Coltrane sem que o jazz tenha sido antes inventado e, tanto quando, o jazz sem o capítulo Coltrane em sua história. Um século de Coltrane é como celebrar um século de jazz. Ou vice-versa. Não importa de que lado ou de onde venham os aplausos para sua música universal. Pode ser de qualquer lugar do mundo. Italianos diriam "Bravo!", franceses diriam "Hourra!", latinos diriam "Viva!" e os espanhóis, sabiamente dramáticos, dizem: "Olé, Coltrane!".

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷

FAIXAS:
1. "Olé" (John Coltrane) - 18:05
2. "Dahomey Dance" (Coltrane) - 10:50
3. "Aisha" - (McCoy Tyner) - 7:32

Faixa bônus da edição em CD:
4. Original Untitled Ballad (To Her Ladyship) (Billy Frazier) - 9:00

*************
OUÇA:

🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷🎷


Daniel Rodrigues


Música da Cabeça - Programa #478

 

Vamos ser bem sinceros com vocês: no MDC de hoje não vai rolar John Coltrane. Mas nem precisa, pois já serve a homenagem que a gente faz pelos 100 anos de seu nascimento. E sob a sua egrégora, teremos, isso sim, Jackson do Pandeiro, Filó Machado, The Smashing Pumpkins, Secos & Molhados e George Benson. No Cabeção, Arrigo Barnabé. Emitindo os sons de Deus, o programa vai ao ar às 21h na jazzística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e um amor supremo: Daniel Rodrigues 


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Santiago, Itália", de Nanni Moretti (2019)


por Márcio Pinheiro

O ótimo documentário "Santiago, Itália" revela um aspecto pouco conhecido do já tão abordado golpe de 11 de Setembro no Chile. Nanni Moretti recupera uma história de solidariedade num painel, grosso modo, dividido em quatro partes: a euforia com a vitória de Allende, os difíceis anos e os boicotes durante este governo, a ação dos militares e as cruéis perseguições e, por fim, o olhar para trás sobre estes acontecimentos. Ninguém sai indiferente - aí incluídos os cineastas Patricio Guzmán, autor de "Nostalgia da Luz" e falecido no último dia 15 de setembro, e Miguel Littín ("Actas de Marusia"), cujas filmografias estão ligadas à história política do país e também personagens conhecidos e anônimos (diplomatas, jornalistas, empresários). Em comum, além dos horrores da ditadura, o acolhimento que receberam da Embaixada da Itália, que em determinado momento chegou a abrigar 250 pessoas nos quatro andares da mansão oficial, protegendo-os e, logo depois, enviando-os para Itália, onde muitos - por escolha própria - jamais retornariam.

Intercalando os depoimentos com imagens documentais, "Santiago, Itália" também dá voz aos vencedores de 1973 - ainda que estes não pareçam ter o que comemorar. O primeiro é um militar sóbrio, quase burocrático, que trata o golpe como uma simples intervenção - amparada na Constituição - e que teria a função de evitar o comunismo que se avizinhava. Outro,(embora não seja claramente identificado, fui pesquisar e descobri ter sido o segundo na hierarquia do Dina), é Iturriaga. Falante e agressivo, ele fez todo o percurso da barbárie: aluno da Escola das Américas, próximo a Pinochet, envolvido nos assassinatos de Carlos Prats e Orlando Lettelier e comandante das torturas em Villa Grimaldi. 

Desde 2007, Iturriaga cumpre pena em Punta Peuco. Na entrevista, nega ter sido sequestrador, torturador e assassino - acusações que pesam contra si - e se mostra revoltado com as perguntas feitas por Moretti. Exige que seja perdoado - afinal, ele já perdoou os que lhe acusaram - e se recusa a continuar falando, justificando ter sido convocado para uma entrevista imparcial. Ao que Moretti, na única vez em que aparece no filme, responde: "Eu não sou imparcial".

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

trailer de "Santiago, Itália"


sábado, 19 de setembro de 2026

cotidianas #908 - Ferir





"Wound", by Russel Mills
Hoje eu me feri
Para ver se eu ainda sinto
Eu foquei na dor
A única coisa que é real
A agulha faz um buraco
A velha e familiar picada
Tenta matar isto para longe
Mas eu me lembro de tudo

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

Eu uso essa coroa de espinhos
Sentado na minha cadeira de mentiroso
Cheio de pensamentos quebrados
Que eu não posso reparar
Debaixo das manchas do tempo
Os sentimentos desaparecem
Você é uma outra pessoa
E eu continuo exatamente aqui

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

E se eu pudesse começar de novo
Um milhão de milhas distante
Eu ainda seria eu mesmo
Eu acharia uma forma

****************************
tradução da letra da canção "Hurt"
de Trent Raznor, do Nine Inch Nails
reinterpretada por Johnny Cash

**************************
Ouça: