Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta The The. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta The The. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Música da Cabeça - Programa #463

Prontos para mais uma apresentação de craques? Então, preparem-se, pois é o MDC que põe seu time em campo! Um dia antes de começar a Copa do Mundo, o programa escala seu time com talentos dos mais variados países, como a França de Françoise Hardy, a Inglaterra da The Cure e da Lush, os Estados Unidos de Iggy Pop e, claro, os brasileiros pentacampeões Fernanda Abreu, Carlinhos Brown, Erasmo Carlos e mais. No quadro especial, Um Cabeça dos Outros. Com a equipe formada, o programa dá o pontapé inicial às 21h na futebolística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e golaços: Daniel Rodrigues


 www.radioeletrica.com

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Angine de Poitrine - Vol.1 (2024)

 



"O Angine de Poitrine viralizou em muito pouco tempo,
mas não porque é 'engraçado', porque é 'ridículo',
é porque é muito, muito, muito bom!
Eu tenho ouvido direto o LP deles, o 'Vol.1', direto.
Assim...direto, dezenas de vezes e
não canso de ouvir esse disco,
É um discaço!"
André Barcisnki,
jornalista, escritor e crítico musical


Desde que o universo do rock descobriu seu poder cênico de sugestão através da imagem, da figura, artistas do mundo da música criaram personagens, máscaras, indumentárias e incorporaram às suas performances, a  suas mensagens, a suas simbologias, criando identidades, associações semióticas e construindo comunidades em torno de determinado conjunto de elementos visuais, musicais e teatrais.

Particularmente, sempre fico com um pé atrás quando surge alguma banda toda paramentada. Mesmo que uma das minhas bandas preferidas, o The Cure, tenha fortalecido sua identidade através daquele visual preto e descabelado, os incríveis Secos e Molhados tenham se tornado notórios pelos rostos pintados e indumentárias extravagantes, os criativos Daft Punk ostentem aqueles capacetes misteriosos, e todos tenham me provado que eram muito mais do que apelo estético, normalmente, para mim, aquela alegoria toda parece uma intenção de impressionar mais pelo visual do que pela música.

Aí me aparece na Internet uns carinhas com umas máscaras bizarras enormes, um branco com bolinhas pretas e o outro preto com bolinhas brancas, seguidos de manchetes como "nova sensação ", "diferente de tudo que você já ouviu", "você precisa ouvir isso", eu desconfiado que sou desses caras vestidos de palhaço que aparecem de vez em quando, não  dou muita bola, não dou muito crédito. Mas ok, eu resisto, torço o nariz e lá pelas tantas resolvo ouvir. Vamos ver o que esses esquisitos tem pra me mostrar. E, cara..., e não é que é incrível!

Uma das poucas coisas nos últimos tempos que me deixou entusiasmado. Entusiasmado como há muito tempo eu não ficava. Com aquele sabor da descoberta de quando a gente começa a conhecer coisas boas, quando se ouve coisas que realmente causam alguma coisa na sua cabeça.

Angine de Poitrine é uma fusão inexplicável de art-rock, progressivo, punk, surf music, música microtonal, numa coisa que eles mesmo definem como "assimétrico e dissonante". Lembra a estética dos Talking Heads, os timbres e a técnica do Primus, a liberdade artística do Velvet Underground, o experimentalismo do Sonic Youth... enfim, inclassificável!

Praticamente todo instrumental, com pequenas incursões vocais sem letra, "Vol. 1", de 2024 é um disco que a gente escuta e quase não acredita no que acabou de ouvir e, apesar de não ser uma música fácil, tem vontade de botar pra rolar de novo e de novo e, sinceramente,  há tempos eu não  sentia essa sensação de acabar de ouvir um álbum e querer ouvi-lo de novo, imediatamente.

"Sherpa" abre o disco e a gente já fica mergulhado, hipnotizado naquela coisa imprevisível e sinuosa; "Tohogd", talvez seja a que soe mais convencional, mais linear e com menos variações; "Tambez" é muito Talking Heads em sua estrutura básica, mas seu desenvolvimento e suas guitarras exóticas a levam a rumos menos reconhecíveis; "Ababa Hotel" por sua vez é muito Primus com aquele baixo quebrado, entrecortado, mas com um andamento surpreendentemente jazzístico e a guitarra solando livremente sobre a estrutura; "Sahardnieh" tem uma atmosfera inquietante com sua repetição tensa;  e L'Aberek fecha o disco de forma fenomenal numa peça musical crescente e elegante, mas não menos intensa e vibrante.

Angine de Poitrine explode a sua mente!

Uma receita improvável de rock, jazz, erudito, com toques de música tradicional, pitadas de ritmos orientais,  doses brutais de ousadia e criatividade a gosto.

Eu que cada vez menos me impressiono com alguma coisa no mundo musical, não exijo que alguém faça algo NOVO, até porque, a essas alturas, com tantos conceitos já formados e fórmulas repetidas e recicladas, é praticamente impossível não remeter a algo já feito anteriormente. Costumo dizer que ninguém vai reinventar a roda. O que me parece é que essa dupla maluca canadense, não reinventou a roda, mas talvez a tenha deixado quadrada. O que já é muito interessante.

○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●

FAIXAS:

  • 1.Sherpa
  • 2.Tohogd
  • 3.Tamebsz
  • 4.Ababa Hotel
  • 5.Sahardnieh
  • 6.L'Aberek

○●○●○●○●○●○●○●○●○●○●

Ouça:
Angine de Poitrine - Vol.1


por Cly Reis 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

79º Festival de Cannes 2026 - Os Premiados



O diretor romeno Christian Mungiu
recebendo o prêmio principal do festival
Foram conhecidos no último sábado, 23/05, os vencedores da 79° edição do Festival de Cannes.
O prêmio principal, a cobiçada Palma de Ouro foi para a produção romena "Fjord", do diretor, Christian Mungiu, um drama moral sobre uma abalada relação entre duas famílias nos fiordes da Noruega. Já o Grande Prêmio foi para "Minoutaur", do russo Andrey Zvyagintsev, e o Prêmio do Júri para "The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach
A edição do festival foi marcada por uma série de empates, inclusive na categoria de melhor direção. Pawel Pawlikowski, por “A terra de meu pai”, e Javier Calvo e Javier Ambrosio, por “La bola negra”, dividiram este reconhecimento, e nas categorias de interpretação, tanto masculina quanto feminina, atores dos filmes "Coward" e "All os a Sweeden", também tiveram igualdade na avaliação do júri.


Confira abaixo, mais detalhadamente, todos os ganhadores:


🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬🎬

Palma de Ouro: “Fjord", de Cristian Mungiu (Romênia)

Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)

Prêmio do júri: "The Dreamed Adventure", de Valeska Grisebach (Alemanha)

Melhor direção: Javier Calvo e Javier Ambrossi, de “The Black Ball”  (Espanha); e Pawel Pawlikowski, de “A terra de meu pai" (Polônia)

Melhor ator: Valentin Campagne e o Emmanuel Macchia, de “Coward”

Melhor atriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, de “All of a Sudden”

Melhor roteiro: Emmanuel Marre, de "A Man of His Time"

Camera d’Or: "Benimana", de Marie-Clementine Dusabejambo (Ruanda)

Palma de Ouro de Curta-Metragem: “For the Opponents,” de Federico Luis (Argentina)




C.R.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Eurovision: quando a música se transforma em propaganda


Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel

por João Pedro Gomes Bernardes

Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.

🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤

O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar? 

O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin

Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.

 Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU

Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.


A participação de Israel ao longo dos anos

A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”. 

Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018. 

A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela 

primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.

Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU


Política no Eurovision: o negacionismo da EBU 

Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.

Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.

 Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.

O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma. 

Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.

Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.


A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado 

Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em vigor.

A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT, indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO. Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU. 

A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman: “a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade. O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.


O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio

O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas. 

O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de um povo e impor medidas para impedir nascimentos”. 

A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível votar até vinte vezes por meio de pagamento.

Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em “Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.

Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu, desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.

O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro, mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e, consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras, como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que demandava um apoio ao boicote.

Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político. Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.


Existe um futuro para o Eurovision?

O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival? Qual seria o impacto em termos de audiência?

Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.

Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os avanços tecnológicos”.

Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando, questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o mesmo?’”.

O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através da música.


🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤🎤

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Música da Cabeça - Programa #459

O Pentágono divulgou foto desse OVNI's em formato esférico sobrevoando os céus, mas lamento frustrá-los. Com nossa super lente de aumento conseguimos ver que não se trata de um corpo extraterreno, mas somente o nosso MDC dando voando alto. Fruto do planeta Terra, o programa desta semana revela sonoridades improváveis, como as de Gilberto Gil, Enya, The Beatles, Talking Heads e Public Enemy. "De outro mundo" também é a música do pai dos sintetizadores, o norte-americano Milton Babbitt, que estará no Cabeção. Sem documentos secretos, o programa está liberado para todos às 21h na terráquia Rádio Elétrica. Produção e apresentação: Daniel Rodrigues (MDC, phone, home!) 


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Duas (ou mais) músicas em uma

Sabe aquela música você está lá ouvindo-a numa boa, até que, de repente, tudo muda? O que era um rock agitado vira uma balada romântica. O que começa como um folk-rock se transforma num break dançante. O que parecia ser só uma melodia inocente passa, de uma hora para outra, a ser uma canção folclórica latina.

É meio raro de acontecer e não é fácil de dar certo, mas todos esses exemplos realmente existem. Algumas joias tanto da discografia rock quanto da MPB, principalmente, seguem essa métrica diferente. Diria até surpreendente de incorporar duas músicas em uma.

E não estamos falando aqui daquelas que só têm um finalzinho diferente, criativo. Isso é bem mais comum e não nos vem ao caso agora. Poderíamos talvez até falar de “Cry Baby Cry”, dos Beatles, que, após uma balada romântica de Lennon, tem McCartney encerrando-a cantando lindamente outra melodia, a de "Can You Take Me Back". Mas é tão curtinha! Apenas 28 seg, o que não dá para chamar de “virada”. Outra que até poderia é “Mask”, da Bauhaus, que se estabelece como uma marcha soturna quando, encaminhando-se para o fim, entra um solo de violão que altera totalmente a atmosfera, tornando-a algo ritualística. A base, contudo, mantém-se, então, também não conta. Muito menos aquelas que vão se transformando em si próprias, minissinfonias, tal "Menina Goiaba" (Gilberto Gil), "Happiness Is a Warm Gun", (Beatles) ou várias coisas dos progressivos.

Falamos aqui, sim, de belas músicas que já eram boas de um jeito, mas que, repentina e deliberadamente, viram outra coisa. E tão legal quanto, como se fossem duas obras em uma só.

Como toda lista, obviamente, a intenção não é dar conta de todos os casos com esse perfil. Longe disso. Como estes, certamente existe uma infinidade de registros, que não lembramos ou, muito mais numerosas, que nem conhecemos.


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


Feedback Song for a Dying Friend – Legião Urbana (1989)


A Legião Urbana era dotada de muita inventividade. Se faltava apuro técnico aos seus integrantes como instrumentistas após a saída do excelente baixista Renato Rocha, sobrava criatividade e referências culturais inteligentes a Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e 
Renato Russo, principalmente. Nessa linha, "Feedback...", do disco “As Quatro Estações”, de 1989 (o primeiro do grupo como trio), é exemplar. Um hard rock cantado em inglês, no melhor estilo Led Zeppelin, que, lá pelo seu final, a aproximadamente 3 min20’ e depois de uma parada dramática, a música se transforma numa deslumbrante dança da Grécia Antiga. E mais legal: a letra segue, com Renato cantando ainda mais lindos versos até finalizá-la epicamente.

OUÇA


Layla – Derek & The Dominos (1970)

Quem gosta de cinema e de rock jamais conseguirá dissociar esse clássico do rock do filme “Os Bons Companheiros”. A sequência com a câmera em travelling encontrando os corpos de assassinados congelados dentro do caminhão refrigerado é, além de uma das mais memoráveis da filmografia de Martin Scorsese, aquela que tem a canção da Derek and the Dominos (leia-se Eric Clapton). Mas Scorsese, grande amante de rock e de música, soube exatamente que trecho de “Layla” extrair para montar a sua cena: a segunda parte desse blues eletrificado, justo quando o piano de Jim Gordon (não à toa, coautor da música) é quem dá as cartas com uma balada lírica. 

OUÇA


Televison Man – Talking Heads (1985)

David Byrne e sua trupe sempre foram muito criativos e já haviam ensaiado viradas que surpreendem em outras músicas. Porém, nada como esse pop rock empolgante que é “Television Man”. Penúltima faixa de um disco tão pop quanto perfeito da Talking Heads, o "Little Creatures", “Television...” se desenvolve melodicamente de forma muito agradável e contagiante, até, por volta de 2min30' (ou seja, menos da metade da duração dela, de 6min10'), toma um rumo que a potencializa. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Steve Scales, Byrne puxa um coro feminino para repetir com ele: “Na-na-na-na-na-na”, além de metais, linha de teclados que se cruzam e guitarras percussivas. Um êxtase.

OUÇA


Novacane – Beck (1996)

Beck estava afiadíssimo quando lançou seu terceiro álbum, o clássico “Odelay”. Com o apoio luxuoso dos Dust Brothers (John King e Mike Simpson), que cuidavam de cada detalhe do arranjo e da produção, o músico norte-americano teve campo livro para compor certamente a sua melhor obra, cheia de músicas com reviravoltas, mudanças e variações das mais diversas. A que mais surpreende neste sentido, contudo, é “Novacane”. O que começa e se desenrola como um hard-funk, por volta 3 min 20', vai para outra direção completamente diferente em ritmo e textura, quando uma espécie de break eletro-retro toma conta até encerrar a faixa. Essas coisas inclassificáveis, que só Beck & Dust Bros. produziram e viraram de ponta-cabeça o rock alternativo dos anos 90.

OUÇA


Pablo – Milton Nascimento (1973)

Com a ditadura a mil pelo Brasil no início dos anos 70, sobrou também para Milton Nascimento. Seu disco “Milagre dos Peixes” foi sumariamente picotado pela censura, que proibiu quase todas as letras. Solução? Fazer um disco caprichado no instrumental, arranjos e composições, que resultou num dos melhores da carreira do gênio de Três Pontas. “Pablo”, faixa que encerra o álbum, uma aparentemente inocente canção infanto-juvenil, saiu ilesa, e deu a oportunidade ao jovem Nico Borges, irmão caçula dos Borges então com 12 anos, cantar os belos versos escritos por Ronaldo Bastos. Porém, no minuto final, o instrumental de “Cadê”, uma das prejudicadas pela censura, surge em fade-in para encerrar esta obra-prima em ritmo andino. Milton marcando posição e fazendo milagre.

OUÇA


Variações sobre um Mesmo Tema – Engenheiros do Hawaii (1988) 

O que esperar de uma música cujo título é “Variações sobre um Mesmo Tema”? Numa fase encantada, a Engenheiros do Hawaii de Humberto Gassinger, Augusto Licks e Carlos Maltz entrega mais do que uma letra justificadora, e, sim, uma música que aplica essa variação também na melodia. E promovem não apenas uma variação, mas duas! Os versos invariavelmente brilhantes de Gassinger à época compõem o que eles classificam de Parte 1, que se desenrola sobre um ritmo marcado em três tempos. Depois, uma queda brusca para uma atmosfera etérea, quando a voz de Licks praticamente declama alguns dos mais belos versos do cancioneiro da banda. Então, para fechar mesmo (e encerrar o disco “Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém”), um hard rock instrumental possante, algo fusion e progressivo. 

OUÇA


Miserable Lie – The Smiths (1984) 

The Smiths é aquilo, né: o mais alto grau de criatividade de toda a geração do britpop anos 80. “Misarable Lie” é uma das provas de que eles não deixariam de apresentar essa métrica diferentona de música "2 em 1". Johnny Marr e sua guitarra genial exercita um rock cadenciado na primeira e um punk rock na segunda. Tudo isso, sem precisar usar pedal de distorção! É guitarra purinha! A bateria de Mike Joyce – como em “London”, outra punk da banda – engendra uma cadência sincopada. Andy Rourke, baita baixista, segura todas na “cozinha”. E Morrissey... Ah! Moz destrói tudo na primeira e na segunda seção! A última, aliás, em que ele faz os seus peculiares “falsetes sopranos”.

OUÇA


I’m the Ressurrection – The Stone Roses (1989)

Outra dessas melodias de moldagem plástica e que servem para encerrar um álbum, assim como “Variações sobre um Mesmo Tema”, da Engenheiros, e “Pablo”, de Milton. Ou seja: tem um papel fundamental dentro da narrativa da obra que integra. No caso, o histórico debut da The Stone Roses. E para uma música chamada “Eu Sou a Ressurreição”, haja reviravoltas! Em seus pouco mais de 8min, faz jus ao título: é uma coisa até 3 min40’, uma segunda até uns 6min20’ e ainda um terceiro formato para encerrar. Muitos reencarnes.

OUÇA


The Murder Mystery – The Velvet Underground (1969)

O disco homônimo da Velvet Underground de 1969 já não contava mais com John Cale na formação, dando, assim, total liberdade à mente criativa de Lou Reed. “The Murder...” é quase um parque de diversões compositivo: conjuga duas melodias intercaladas, uma espécie de habanera e um rock intenso e de estrutura circular, tudo com variados vocais: os de Doug Yule, Sterling Morrison, Maureen Tucker e os dele mesmo, Lou. Só que, a aproximadamente 6 min 30', como se não bastasse, vai surgindo ainda uma outra música, totalmente díspar da(s) anterior(es): uma quase "bagatelle” com base de piano e uma letra quase falada por este criador de obras-primas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”... e “The Murder Mystery”.

OUÇA


Eve White/Eve Black – Siouxsie & The Banshees (1980)

Outra banda altamente criativa, a Siouxsie & The Banshees é também capaz de imaginar melodias tão elásticas formalmente. “The Rapture”, que dá nome ao disco deles de 1992, é uma minissinfonia pós-punk, que se bifurca para três lados. Mas eles já haviam se aventurado por esses limites melódicos no início dos anos 80, mais precisamente no compacto de “Christine”, com “Eve White/Eve Black”. De novo, uma dentro da outra: começando só com uma base de guitarra e voz e terminando transtornada. No caso, as faces “branca” e “negra” da mesma Eve. E se a gravação original já passa bem o espírito dual, a versão ao vivo do clássico álbum “Nocturne”, de 1983, é de arrepiar, principalmente no instante da mudança de uma parte para outra, quando Siouxsie solta um dos gritos mais assustadores da história do rock. Garanto que ate Ozzy Osbourne ficou com medo.

OUÇA


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


Daniel Rodrigues
com colaboração de Cly Reis

sexta-feira, 8 de maio de 2026

The Dave Brubeck Quartet - "Time Out" (1959)

 



"As músicas fugindo da
 métrica habitual me encantam.
Parece que a "perfeição" busca sempre
a imperfeição pra fazer mais sentido."
Alexandre Vianna,
skatista, artista visual, fotógrafo e ativista cultural, no livro "Discoteca Básica"


Não sou nenhum grande entendedor de música ainda que seja um entusiasta admirador. Embora conheça alguns conceitos básicos de tempo, tom, andamento, compasso, não me arrisco muito a fazer grandes explanações nesse sentido a respeito de músicas incríveis que conheço e que reconhecidamente têm méritos técnicos ou estruturais diferenciados. Me limito a senti-las e, quando tenho a necessidade de falar sobre elas com alguém de modo a ressaltar essas qualidades, exprimo da melhor forma possível dentro do que a mina limitação permite e onde aminha emoção consegue alcançar.

Não consigo explicar tecnicamente o que é o álbum "Time Out" do Quarteto de Dave Brubeck, mas aquilo é uma das coisas mais incríveis que já ouvi. 

Talvez o próprio nome da obra já seja suficientemente autoexplicativa, sei lá... Só sei que aquelas estruturas improváveis, incomuns, subvertem os tempos de uma forma tão desconcertante que dão um nó gostoso no cérebro. Tempos saem, voltam, passeiam pelo "normal" e tornam a nos surpreender de novo.

"Blue Rondo à La Turk" e "Take Five", é claro, são as mais notáveis com suas harmonias inquietas e inusitadas, mas mesmo as mais "comuns", como "Strange Meadows Lark" ou "Kathy's Waltz", além da beleza natural que já carregam consigo, tem suas pequenas sutilezas que as fazem tão especiais quanto as mais badaladas.

O que eles fizeram, como fizeram, um tom acima, um tempo abaixo... Não saberia dizer. E na verdade, nem sei se gostaria de saber. Prefiro apreciar. 

Ouça, ouça... 

*******************************

FAIXAS:

1. "Blue Rondo à la Turk" 6:44
2. "Strange Meadow Lark" 7:22
3. "Take Five" 5:24
4. "Three to Get Ready" 5:24
5. "Kathy's Waltz" 4:48
6. "Everybody's Jumpin'" 4:23
7. "Pick Up Sticks" 4:16


****************************
Ouça:
The Dave Brubeck Quartet - Time Out


Cly Reis

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Clyblood #9 - Horror & Luto em 10 filmes



por Cristian Verardi

A angústia do luto, a não aceitação de uma perda, sempre forneceram tramas intrigantes para o cinema, não sendo incomum histórias dolorosas de pesar andando de mãos dadas com o puro horror. David Cronenberg explorou o tema em seu recente "O Senhor da Morte" (The Shrouds) e "Faça Ela Voltar" (Bring Her Back), novo filme dos irmãos Phillipou, também se enquadra nesse perfil. Aqui, então, 10 exemplos de filmes que mesclam luto e horror.



1 - "Inverno de Sangue em Veneza", Nicolas Roeg (ING, 1973)


2 - "A Troca" ou "O Intermediário do Diabo", Peter Medak (CAN, 1980)

3 - "Dr. Morte" , Errol Morris (EUA, 1999)


4 - "Cemitério Maldito", Mary Lambert (EUA, 1989)

5 - "Os Outros"Alejandro Amenábar (EUA, 2001)


6 - "O Orfanato"Juan Antonio Bayona (ESP/MEX, 2001)

7 - "O Segredo do Lago Mungo", Joel Anderson (AUS, 2008)


8 - "A Casa Sombria"David Bruckner (EUA, 2020)

9 - "Hereditário", Ary Aster (EUA, 2018)










10 - "The Surrender", Julia Max (CAN, 2025)


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Música da Cabeça - Programa #456

 

Tá uma encheção de saco esse abre e fecha do Estreito de Ormuz, esse sobe e desce do preço do petróleo. O que permanece estável é o MDC, por onde, igual a toda semana, trafega o que há de melhor em música. The Smashing Pumpkins, Tom Jobim, The Sonics, Lupicínio Rodrigues e Roberto Carlos, por exemplo, têm acesso livre ao nosso canal. Igualmente, um Sete-List embarcado de muita História. Desbloqueado, o programa cruza pela marítima Rádio Elétrica exatamente às 21h. Produção, apresentação e fluxo normalizado: Daniel Rodrigues


www.radioeletrica.com

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Elvis Presley - "Elvis Presley" ou "Rock 'N' Roll" (1956)



“As pessoas de cor vêm cantando e tocando desse jeito por tanto tempo que nem mesmo sei. Eles tocam assim nos cortiços e ouvem essa música na jukebox. Ninguém deu a mínima até que comecei a cantar esse estilo. 
Aprendi com eles”.
Elvis Presley

"Houve muitos caras durões. Já houve impostores. E houve concorrentes. Mas só há um Rei". 
Bruce Springsteen

Foi em 26 de março de 1956. Esta é a data simbólica do nascimento de algo que revolucionaria a sociedade da idade contemporânea: o surgimento do rock 'n roll. Neste dia, após três anos de carreia musical, Elvis Aaron Presley, então com apenas 21 anos, lançava seu clássico e homônimo primeiro disco, não à toa também intitulado com aquilo que ousa inventar: “Rock ‘N’ Roll”. Muito já se falou sobre este álbum, e muito teria ainda a se falar hoje, 70 anos após sua chegada às lojas, aos ouvidos e aos corações de gerações de fãs. Mas como pede a cartilha de um bom rock, o legal mesmo é falar pouco e curtir, mas curtir muito!

Do primeiro crepitar da agulha no vinil ao último, são só músicas icônicas da cultura mundial, como poucos produtos culturais conseguem oferecer. É impaciente até hoje, e seguirá sendo, aquele início com "Blues Suede Shoes": "Well, it's one for the money" (dois acordes do violão e da bateria), "Two for the show" (mais dois acordes), "Three to get ready”, (bateria antecipando) “Now go, cat, go/ But don't you step on my blue suede shoes”. A partir daí, é a cargo de Elvis ao violão e do incendiário trio: Scotty Moore, guitarra; Bill Black, baixo; e D.J. Fontana, bateria; além de Gordon Stoke, ao piano; e os The Jordanaires, nos vocais de apoio. São os primeiros acordes do começo de um novo mundo. É a liberdade soando pelos ouvidos! 

A atitude, a assimetria, a rebeldia, a imperfeição, a perfeição, a luxúria, a carne, a carne. A música nunca mais foi a mesma depois daqueles 2 minutos chegarem ao fim. Os jornais da época chamariam de “primitivo”, “delinquente”, “vulgar”, “animalesco”, e “que suas performances deveriam ser restritas ao cais do porto e a bordéis, não à televisão nacional”. É tudo isso, sim, meus senhores. Era algo realmente delinquente, primitivo, assustador. E irrefreável. E divino.

Num disco cuja primeira faixa simboliza uma das maiores transformações comportamentais, mercadológicas e artísticas do século 20, ainda havia mais. Já existia "Hound Dog", single daquele mesmo ano com que Elvis pusera o mundo de cabeça para baixo. Bruce Springsteen, fã ardoroso do King, disse por toda uma geração do impacto que a icônica faixa teve para ele na primeira vez que a ouviu: "Ela simplesmente atravessou meu cérebro". Mas o álbum ia além disso, pois materializava em uma obra completa essa revolução. Elvis canta a “Tutti-Frutti” do negro gay e desafiador Little Richards empostando a voz blueser e dando uma outra roupagem a esse marco do rock. Afinal, Elvis mostrava, ainda muito embrionariamente, que rock, esse insubordinado filho direto do blues, se desmembraria em centenas e centenas de outros subgêneros. “Rock and roll can never die”, diria Neil Young em sua canção.

E tem também o country rock "Just Because", uma versão folk para o Standart “Blue Moon” e as baladas indefectíveis "I'll Never Let You Go (Lil' Darlin')" e "I Love You Because", gravações que Elvis registrara em seu período de Sun Records, entre 1953 e 1954, e cujos takes tornaram-se lendários como precursores do rock. E Elvis também canta o gênio Ray Charles ("I Got A Woman"), dos primeiros a fazer generosa ponte entre a música do Oeste com o R&B do Sul; "One-Sided Love Affair", que contém todos os predicados de um rock embalado; e "Trying to Get to You", exemplar country rock, com um show de vocal de Elvis.

E o que dizer de “Money Honey”, outro ícone da cultura contemporânea, muito bem escolhida pelo produtor da RCA, Steve Sholes, para encerrar o disco? Estão ali os maneirismos, a potência vocal, a reverência à tão massacrada cultura afro-americana daquela época. Elvis, alheio a qualquer preconceito de raça, disse: “Lá em Tupelo, Mississippi, eu ouvia o velho Arthur Crudup mandando bala e pensei que se eu conseguisse passar esse mesmo sentimento, minha música não teria igual”. No alvo, mr. Presley. 

A própria capa, centenas de vezes imitada e referenciada com suas letras em rosa na vertical no canto à esquerda e em verde na horizontal, abaixo, é pura ousadia: visceral, potente e até erótica para a época. Mesmo sem ser enquadrada, é possível enxergar, só de ver a expressão de seu rosto, os quadris e as pernas remexendo freneticamente e enlouquecendo de tesão a plateia, tal como a febre Elvis provocaria por anos.

O jovem caipira do Mississipi, nascido numa sociedade racista e colonialista, conviveu e absorveu do povo negro as suas principais referências. Soube ele misturar a enraizada cultura folk, a sonoridade melancólica do country e a visceralidade da tradição negra - o blues, o gospel, o R&B e, claro, o nascente rock ‘n’ roll, que já havia sido criado por mãos negras de Sister Rosetta Tharpe. Elvis juntou os branquelos feiosos Carl Perkins, Bill Halley e Jerry Lee Lewis aos roqueiros negros Little Richards, Chuck Berry e Bo Diddle, mais uma pitada do modern country de Ramblin' Jack Elliott e Woody Guthrie à sua imagem jovial e estonteante e seu carisma e, pronto: estava feita a química para o maior ícone pop de todos os tempos.

Nunca mais se repetirá essa combinação.

Mick Jagger, John Lennon, Madonna, Lou Reed, Elton John, Springsteen, Renato Russo, Lana Del Rey, Paul McCartney, Freddie Mercury, Eddie Vedder, Joan Jett, Bob Dylan, todos, sem exceção, devem ao Rei do Rock.

Elvis Presley, o disco, é muito mais do que um disco. É o raiar de uma era. É a criação da cultura pop. É a invenção de uma nova linguagem. É o florescer de uma revolução comportamental. É o nascer para valer da indústria fonográfica. É a entrada da juventude no mercado consumidor. É a instituição da cultura jovem. É a concretização do fenômeno de massas. É a simbolização da "vitória" dos Estados Unidos na Segunda Guerra, mesmo com a polarização da Guerra Fria (afinal, do outro lado da Cortina de Ferro não havia nada parecido com ele). Elvis, o disco, que alça o artista ao estrelato, é o primeiro efeito multimídia, que vazaria para o cinema, a TV e milhares de produtos do “Américan way of life”. Primeiro disco de rock ‘n’ roll a liderar as paradas, primeiro a passar dez semanas no topo da Billboard Top Pop Albuns. O primeiro do gênero a vender mais de um milhão de cópias. 

Há quem acredite que Elvis, Rei do Rock, foi a encarnação de Jesus Cristo, Rei dos Reis. Embora sua também breve existência, assim como a do filho de Deus, e o forte impacto de sua passagem entre os mortais, mobilizando multidões por onde passsava, não há como comparar. Cheio de defeitos, Elvis foi se mostrando cada vez mais machista, mesquinho e mimado, Elvis foi a representação perfeita não da Redenção, mas, sim, do messiânico rock ‘n’ roll, aquela música que veio à Terra, há exatos 70 anos, para salvar a humanidade. Da caretice do mundo.

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸

FAIXAS:
1. “Blue Suede Shoes” (Carl Perkins) - 1:58
2. “I'm Counting On You” (Don Robertson) - 2:21
3. “I Got A Woman (Ray Charles) - 2:22
4. “One-Sided Love Affair” (Bill Campbell) - 2:10
5. “I Love You Because” (Leon Payne) - 2:39
6. “Just Because” (Bob Shelton, Joe Shelton, Sid Robin) - 2:32
7. “Tutti Frutti” (Dorothy La Bostrie, Richard Penniman) - 1:57
8. “Tryin' To Get To You” (Singleton, McCoy) - 2:31
9. ”I'm Gonna Sit Right Down And Cry (Over You)” (Biggs, Thomas) - 2:01
10. “I'll Never Let You Go” (Jimmy Wakely) - 2:21
11. “Blue Moon” (Rodgers & Hart) - 2:39
12. “Money Honey” (Jesse Stone) – 2:33

**********
OUÇA:

🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸🎸


Daniel Rodrigues