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domingo, 26 de julho de 2026

Moacir Santos - "Ouro Negro" (2001)



"Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos." 
Nei Lopes, Cantor
compositor, poeta, escritor e pesquisador

"Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir." 
Ruy Castro
jornalista e escritor

É interessante pensar como alguns movimentos na história da música brasileira não são regulares, mas que o tempo os ajuda a se revelar. Já no final do século XVIII, os chamados “grupos de barbeiros”, formados basicamente por negros e mestiços, introduziram na música instrumental de então o que a musicóloga e folclorista Mariza Lira chamaria de ‘ritmo da senzala”, o qual ela explica ser fundamentado no ritmo “afro-negro”. Essa influência na música brasileira pode não ter prosseguido em linha reta, haja visto que tudo que proviera dos negros num país essencialmente escravista e a supervalorização da cultura estrangeira arraigada há muito tempo no Brasil atrapalharam este caminho. Porém, a música negra instrumental não apenas resistiu como, quase milagrosamente, tornara-se um dos maiores legados culturais brasileiros para a arte mundial. 

Neste processo descontínuo de revalorização, surge a figura de Moacir Santos, ele por si só um milagre brasileiro nascido há 100 anos. O pernambucano Moacir José dos Santos, nascido em Serra Talhada, capital do xaxado e terra natal de Lampião, ficou órfão ainda criança, fugiu de casa e peregrinou Nordeste adentro encantado com as orquestras de circo e as bandas militares. Entregue a uma família branca remediada, o jovem que se apaixonou pelo jazz já dominava vários instrumentos ainda adolescente - entre eles, o seu oficial, o saxofone. Já no Rio de Janeiro, após servir o Exército e substituir o famoso maestro Severino Araújo, em Pernambuco, passa a tocar saxofone e, em seguida, reger a orquestra da Rádio Nacional ao lado de colegas do calibre de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli (todos brancos). Dos estudos de música erudita e de vanguarda com professores como Ernest Krenek, Hans-Joachim Koellreuter, Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe, logo também passa a ensinar, formando nomes como Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A partir daí, vieram suas próprias "coisas".

Para uma justa e merecida celebração ao centenário de Moa, cabe falar daquele que talvez seja o disco síntese de uma discografia ao mesmo tempo suscinta (apenas 6 discos em mais de 40 anos), mas tomada de relevância, que é “Ouro Negro”. Espécie de songbook, dirigido por Zé Nogueira e Mario Adnet, o caprichado CD duplo com 28 faixas, que também rendera um DVD com entrevistas e apresentações ao vivo, faz um apanhado muito bem elaborado do “principal” do cancioneiro de Moacir. A homenagem, concebida com o mais alto grau de qualidade, com naipe de orquestra e arranjos e produção de primeira linha, cumpriu ainda um não menos importante papel: reverenciar o mestre em vida. Anos antes, Moacir sofrera um AVC, que o impossibilitara de tocar ou reger as próprias músicas. Porém, ele estava lá, assistindo a outros mestres – e discípulos – celebrarem-no, como Gilberto, Gil, João Bosco, Joyce, Armando Marçal, Djavan, Ed Motta, Cristóvão Bastos e outros.

Ano passado, quando dos 60 anos de “Coisas”, a obra-prima basal de Moacir lançada em 1965, já discorremos bastante sobre os aspectos tanto eruditos quanto populares da música do compositor, bem como, tanto quanto, deu-se especial atenção à sua valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais e na construção harmônica desses elementos, expressos em forma de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias. Em “Ouro...” apenas uma das 10 “coisas” não integram o repertório. Destaque para “Coisa nº 8” (Navegação)”, cantada pela voz magistral de Milton Nascimento, que ganhou letra em português pelas mãos de outro mestre importante para este projeto: Nei Lopes (“Milhões de milhas naveguei/ Nem sempre ventos a favor/ Mas afinal reencontrei/ O cais da paz interior”). Igual destaque para “Nanã”, que abre o disco, a coisa de nº 5, a qual Moacir registraria em outros três momentos.

De outros álbuns, o indicado ao Grammy “Maestro”, de 1970 – o primeiro gravado nos Estados Unidos, onde viveu até seu retorno ao Brasil, nos anos 2000 – ouvem-se cinco temas: a onírica e “Bluishmen”; o jazz maxixado “Mãe Iracema”, inspirada em José de Alencar; a clássica “Lamento Astral” (“Astral Whine”), cantarolada pelo próprio autor; e “April Child”, que ganhou não apenas título em português, “Maracatu, Nação do Amor”, como letra de Nei e vocal de ninguém menos que Gil. “Quem vem lá/ Surgindo lá de trás do mar/ Será Kalunga num vapor/ Trazendo de Luanda o amor?”, diz a letra. Outra desse mesmo álbum e que também reaparece letrada por Nei é “Luanne”, agora com título principal “Sou Eu” e cantada pelo timbre inconfundível de Djavan.

Avançando mais na obra de Moa, “Ouro...” tem também o latin-jazz “Suk Cha”, a charmosa rumba “Amphibious”, a balada afro “Katty” e um duo impagável de Joyce e João Donato para “Happy-Happy” (aqui reintitulada “De Repente, Estou Feliz”), todas de “Saudade”, de 1974. Igualmente deste trabalho é “What's My Name”, agora “Oduduá” e interpretada por outro filho musical: João Bosco.

Da mesma época e gravado pelo célebre selo Blue Note, assim como todos os discos norte-americanos do artista, “Carnival of the Spirits”, de 1975, rearranja outro clássico de sua autoria: “Quiet Carnival” (“Orfeu”). Ora samba-enredo, ora samba de gafieira, tem forte presença dos sopros e na qual Ed Motta assume os vocais, que cantam: “Brilho de purpurinas/ Bolas e serpentinas/ Som vibrando metais/ Luz, foliões, casais/ E eu sem ter você”.

Resgatadas também de “Carnival...” são “Jequié”, balada de uma delicadeza absolutamente tocante, a dissonante “Kamba”, cujo riff em tom grave do clarinete contrasta com a leveza do entorno, e “Anon”, tão africana quanto caribenha inspirada em uma marchinha de carnaval que Moacir ouvira quando criança, em Recife. "Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela, e a capoeira aparece no caminho", revelou à época da gravação. Há também “coisas” de “Opus 3 nº 1”, de 1979, em que a espetacular bossa-nova “Coisa nº 7”, uma "brincadeira pianística" das mais admiradas do cancioneiro de Moa pelos seus colegas, vira “Evocative” sob os melismas do próprio Moacir.

Como se já não bastassem as regravações, há ainda composições inéditas de Moacir. Uma delas é a rumbada “Quermesse”, criação antiga, da época da Rádio Nacional e escrita para trompa, aqui tocada pelo músico Philip Doyle. Também nova, “Maracatucute” impressiona pela atmosfera característica de Moacir: o arranjo sofisticado, a perfeição harmônica e o casamento da África com os ritmos latinos e americanos, seja o jazz, o samba ou o merengue. Zé Nogueira e Mario Adnet encerram esse gigantesco trabalho (em proporções e relevância) com mais uma inédita do homenageado: a pequena valsa “Bodas de Prata Dourada”, feira para Cleonice, esposa de uma vida, só ao piano e a voz de Moacir em conjunto com as de Muiza Adnet e Sheila Smith.

Hoje, quando o compositor, maestro, instrumentista e cantor pernambucano completaria 100 anos se vivo, é possível identificar o quanto, talvez juntamente apenas com Tom Jobim, sua obra configurara-se como uma das pedras fundamentais de toda a música popular brasileira moderna. Se menos evidenciado em termos de influência do que Tom, responsável pelo nascimento de toda uma geração de artistas populares que vão dos bossa-novistas aos pós-tropicalistas, a presença de Moa, no entanto, é largamente consensuada entre o meio dos músicos “de raiz”, aqueles que constroem as bases da MPB e, não raro, dão suporte técnico aos artistas mais pop. Não há quem no universo musical não reconheça a importância da obra de Moacir para a concepção daquilo que se entende como o mais alto nível do que a música brasileira já pode chegar. Moacir é a sublimação do que está na fronteira entre a música popular e a erudita. E mais: com a consciência manifesta do legado histórico-cultural “afro-negro”.

Como diz o poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis: "a África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, o lugar de onde venha e para onde vá". Desfile de sofisticação e esmero técnico, que faz jus à obra magistral de Moacir, "Ouro..." é o testamento dessa milagrosa transposição cultural e antropolófica pelas mãos de um autor que, como ninguém, soube resgatar a semente da verdadeira música instrumental brasileira, aquela que deu origem ao choro, às marchas, ao frevo, ao samba. A raiz africana. A mesma revalorização da história dos “barbeiros”, que ele trouxera em sua obra revolucionária para a música brasileira mais de 100 anos depois, nota-se, hoje, em seu próprio centenário, no reconhecimento ao que ele legara a MPB. Uma música genuinamente brasileira muito graças a ele, o "ouro negro do Brasil".

"Coisa nº 4", do DVD "Ouro Negro"

🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼

FAIXAS:
1. "Coisa N°5 (Nanã)" - 2:51
2. "Suk-cha" - 4:10
3. "Coisa N°6" - 4:02
4. "Coisa N°8 (Navegação)" - participação: Milton Nascimento - 4:11 (Moacir Santos/Nei Lopes/Regina Werneck)
5. "Amphibious" - 3:11
6. "Mãe Iracema" -  4:59
7. "Coisa N°1" - 3:50 
(Santos/Clóvis Mello)
8. "Sou Eu (Luanne)" - participação: Djavan - 2:59 (
Santos/Lopes)
9. "Bluishmen" - 4:19
10. "Kathy" - 3:31
11. "Kamba" - 4:57
12. "Coisa N°9" - 3:28 
(Santos/Werneck)
13. "Orfeu (Quiet Carnival)" - participação: Ed Motta - 5:49 
(Santos/Lopes)
14. "Amalgamation" - 6:23
15. "Coisa N°7" - 4:20 
(Santos/Mário Telles)
16. "Coisa N°2" - 5:13
17. "Lamento Astral (Astral Whine)" - 4:59
18. "Maracatu, Nação Do Amor (April Child)" - participação: Gilberto Gil - 4:05 
(Santos/Lopes)
19. "Coisa N°4" - 4:06
20. "Coisa N°10" - 3:02
21. "Jequié" - 3:17 
 (Santos/Aldir Blanc)
22. "Oduduá (What's My Name)" - participação: João Bosco - 3:11 
(Santos/Lopes)
23. "Coisa N°3" - 3:00
24. "Anon" - 3:59
25. "Quermesse" - 3:18
26. "De Repente, Estou Feliz (Haply Happy)" - participação: Joyce, João Donato - 3:04

27. "Maracatucute" - 6:14
28. "Bodas De Prata Dourada" - participação: Muiza Adnet, Sheila Smith - 4:54
Todas as composições de autoria de Moacir Santos, exceto indicadas

🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼🎼

OUÇA:


Daniel Rodrigues

domingo, 19 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - GRANDE FINAL

 




DISORDER VS TRANSMISSION


Disorder e Transmission, as duas grandes finalistas da Copa do Mundo Joy Division, entram no gramado.

Perfilam-se ao redor do grande círculo de acordo com o novo cerimonial da FIFA e ouvem a execução de "Atmosphere", que foi eliminada mas continua sendo o hino da banda. Escolhem os lados, a saída de bola, prestam um minuto de silêncio a Ian Curtis que teria completado 70 anos nesta última quarta-feira, e estão prontas pro jogo.

Contagem regressiva: 3,5, 0, 1, 2, 5..... Go!!!

E começa o jogo!

Agora é com nossos especialistas. Como será que cada um dos nossos mestres joydivisianos irá definir a parada?

⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


CLY REIS:

Dois times com estilos parecidos, jogo acelerado, velocidade, duas baterias brilhantes, linhas de baixo marcantes e interpretações inspiradas. Jogo lá e cá, trocação pura.

Transmission é um clássico, tem um dos refrões mais conhecidos do grupo, mas poucos álbuns na história tem uma abertura como Disorder. O que se sente ao começar um disco ouvindo aquela introdução pela primeira vez é algo único.

Disorder pode ter perdido o sentimento mas tem o espírito, e na base da garra se impõe e vence o jogo.

DISORDER 1 X TRANSMISSION 0

**********

LUNA GENTILE:

O clássico começou eletrizante: Disorder abriu o placar com sua urgência característica, impulsionada pelo baixo pulsante de Peter Hook e pela bateria impecável de Stephen Morris. Mas Transmission respondeu rapidamente, encaixando uma jogada coletiva construída por sua batida hipnótica e pelo refrão explosivo, empatando a partida antes do intervalo.

No segundo tempo, o jogo ficou aberto. Disorder voltou a pressionar com guitarras afiadas, mudanças de ritmo e a interpretação intensa de Ian, recuperando a vantagem fazendo 2x1. Porém, Transmission mostrou mais eficiência: controlou a posse, acelerou as transições e aproveitou duas falhas da defesa para marcar os gols da virada. A torcida entrou no clima e o estádio inteiro parecia obedecer ao comando de "dance to the radio".

Nos minutos finais, Disorder lançou o time todo ao ataque, acertou uma bola na trave e obrigou o goleiro a fazer uma grande defesa, mas o placar permaneceu em 3 x 2. E Transmission é a grande campeã, uma das faixas mais fluentes na história do pós-punk.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 3

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ROBERTO SULZBACH:

De um lado, Transmission, que carrega em si tudo que a banda tinha de mais visceral e urgente. Do outro, Disorder, o portal para a realidade manchesteriana de Joy Division e para a mente do genial Ian Curtis.

Os dois times jogam de maneira intensa, entrosada. Transmission vai para cima de cara, ao ritmo dançante de sua batida. Disorder inicia mais retraída, cansada dos últimos grandes confrontos que encarou. Sendo assim, Transmission abre o placar: 1 a 0, querendo ainda mais.

Mas futebol é detalhe: uma jogada construída na base da insistência, erro da defesa, e a bola entra. Foi para 1 a 1, à base da raça de Disorder, com o estádio inteiro percebendo que a decisão vai ser no detalhe.

Perto dos minutos finais, Disorder encontra a fresta que precisava. Foi o lance de quem quer mais. A bola sobra na entrada da área depois de uma bola dividida, e o time que abriu o portal, que deu o pontapé inicial nessa história, marca o gol que sonhava desde o início.

DISORDER 2 X TRANSMISSION 1

*********

DANIEL RODRIGUES:

Pode-se dizer uma final surpreendente, de dois times não necessariamente favoritos, mas que fizeram por onde para chegar onde chegaram. Direta ou indiretamente, Disorder e Transmission derrubaram clássicos consagrados, como Decades, She's Lost Control, Love Will Tear Us Apart e Atmosphere. Ou seja: estão longe de serem azarões. Uma, Com essa confiança toda, eles entram em campo para a grande final. Como todo jogo importante, muito estudo de cada lado. Jogo bom, mas estratégico, sem dar margem para erro. Disorder, mais atrevida e ligeira (afinal, é talvez a única da Joy composta em nota Sol, o que a torna a mais "alegre" da banda), assusta, mas desperdiça as oportunidades que cria. E diante de um forte adversário, não dá pra ratear.

Até que, na construção, no volume, na categoria, Transmission - que também sabe ser agressiva - aproveita a momentânea "desordem" da defesa adversária e faz o seu. É o gol da vitória. É o gol do título! E que privilégio: não precisa nem adotar música de outra banda pra cantar com a galera. Vai de Transmission mesmo!

DISORDER 0 X TRANSMISSION 1


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PLACARES SOMADOS

DISORDER 5 X TRANSMISSION 5


* O regulamento da International Blog, em seu artigo 3,5,0,1,2, 5, Go!, Exercise One, estabelece que em caso de empate entre os votantes, o resultado será decidido no saldo de gols. Persistindo o empate, o resultado final será decidido por um convidado, também especialista na obra da banda.


PRORROGAÇÃO


*convidado desempate

CHRISTIAN ORDOQUE:

Caraio!!!

Transmission! 

DISORDER 5 X TRANSMISSION 6



Pode comemorar!
Com dancinha, com dancinha...

🎵🎶🎵Dance, dance, dance, dance to the radio!🎵🎶🎵


segunda-feira, 13 de julho de 2026

COPA DO MUNDO JOY DIVISION - finalistas



Era emoção que vocês queriam? Então toma!

Não tinha como ser mais empolgante a decisão dos finalistas da Copa Joy Division! 

Olha foi tudo no detalhe...

Coube a cada dois árbitros-especialistas definir uma das semifinais e, é claro, deste modo o empate entre opiniões seria algo bem possível. 

Não quis avisar aos participantes mas, caso cada um optasse por uma vencedora, a decisão seria no saldo de gols. 

Ótimo! Isso resolveu em uma das semifinais. Sim, como eu disse, foi no detalhe.

Mas e na outra? 

Nem o saldo de gols resolveu tamanha a igualdade.

O que tivemos que fazer? Apelar para um outro especialista, de fora do nosso time de jurados para definir a parada.

Sim, amigos, nenhuma Copa do Mundo Rock do ClyBlog foi tão disputada assim!

E pensa que acabou? Que nada!

Ainda tem a final.

E quem vai para lá? Descubra agora com a definição no lance-a-lance dos nossos mestres joydivisianos:


⚽⚽⚽⚽⚽


TRANSMISSION x DECADES

  • Luna Gentile:

Transmission entrou com marcação alta desde o apito inicial. Com seu baixo pulsante sua a bateria precisa, a música transmite grandiosidade e abre espaços na defesa adversária para sair na frente no placar.

Decades respondeu com uma bela jogada coletiva trocando passes com seus sintetizadores envolventes diminuindo o placar. Considero uma das faixas mais sofisticadas de Closer que contêm uma atmosfera única, então garante mais um gol.

Mas a noite era de Transmission, um hino do pós-punk, com intensidade e um refrão que nunca perde a força. Transmission fecha conta em 4 a 2 fazendo um jogo perfeito.


  • Daniel Rodrigues:

O caminho de “Decades” nessa copa não tem sido nada fácil, hein? Na fase classificatória, fez valer sua estatura de faixa de encerramento de Closer sobre “Interzone”. Depois, despachou “I Remember Nothing” em vitória simples e, nas quartas, teve que se impor de novo para virar sobre “A Means to Na End”. E se pra “Decades” foi esse osso todo, imagina para “Transmission”?! Na preliminar, ok: não teve maiores problemas pra eliminar “No Love Lost” Mas, nas oitavas, de cara pegou “Shadowplay”, que ganhou numa vitória magra. Depois, pior: “Love Will Tear Us Apart”, mais pedreira ainda. Num jogo emocionante, com adversário saindo na frente e ampliando, “Transmission” teve que buscar o resultado. Ou seja: dois times que chegam desgastados e em pé de igualdade, seja em tamanho quanto em condições de jogo. Isso fez com que o 0 x 0 se estendesse por praticamente toda a partida, com os times se estudando e dando aquela estocada sempre que possível, mas calculada, pra não gerar contra-ataque. Pois foi justamente numa dessas investidas, depois de correr e marcar o jogo todo, que “Transmission” perdeu uma bola no meio de campo quando tentava armar uma jogada e viu o adversário tocar três vezes na bola e chegar na área, até ser duramente castigada. Bola na rede faltando apenas 3 minutos para o final, tempo que “Decades” segurou para garantir mais uma vitória sofrida, mas suficiente para se classificar: 1 x 0 e “Decades” na final!


*como consta no Art. 350125 Go! Exercise I, em caso de empate entre os votantes a decisão do classificado se dará pelo saldo de gols:

PLACAR FINAL - 

TRANSMISSION 4 X DECADES 3


⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽⚽


DISORDER x NEW DAWN FADES

  • Cly Reis:

Mais um clássico local do Unknown Pleasures.

A energia de Disorder contra a cadência de New Dawn Fades.

Aquele introdução pulsante de bateria, numa das grandes aberturas de um álbum na história do rock, garante um gol relâmpago para Disorder um gol relâmpago, logo nos primeiros segundos, abrindo o placar: 1x0.

Mas New Dawn Fades não se assusta e com seu jogo seguro, construído, parte por parte, com paciência, chega ao gol de empate: 1x1.

O jogo mais completo, mais equilibrado de NDF se impõe e o conjunto garante o gol da vitória. 2x1 num jogo incrível que justifica o tamanho dessas duas equipes na discografia da banda.


  • Roberto Sulzbach:

Bem amigos do ClyBlog, não tem jogo fácil à esta altura do campeonato. 

Disorder x New Dawn Fades são símbolos da qualidade e influência que a banda tem no cenário da música pop global. Ambas podem servir de argumento sobre como mudaram a música, mas a sensação de abrir a vitrola, colocar o LP e embarcar em uma viagem é transcendental. Jogo duro, plástico e aberto. Placar final: 3 a 2 Disorder

*como consta no Art. 350125 Go! Exercise I, em caso de empate entre os votantes a decisão do classificado se dará pelo saldo de gols:

PLACAR FINAL - 

DISORDER 4 X NEW DAWN FADES 4



JOGO EXTRA - DISORDER x NEW DAWN FADES:

*(como consta no regulamento da International Blog, ficando as equipes empatadas no saldo de gols, o jogo será decidido por um convidado também fã e especialista em Joy Division)


  • Jairo Alone:

Difícil, hein!

"Disorder" ganha. Por quê? Sonoramente, ela é mais influente. Dá para ver esse DNA desde bandas como The Cure como Legião Urbana. Se tivesse que apresentar uma das duas para alguém, seria essa. Num jogo? Dois a  um (2 X 1). Placar apertado e gol nos acréscimos. 


PLACAR FINAL JOGO EXTRA -
DISORDER 6 X NEW DAWN FADES 5






quinta-feira, 9 de julho de 2026

Towa Tei - "Last Century Modern" (1999)


"Ah, se eu nunca tivesse enviado aquela fita demo..."
Towa Tei

"Embora talvez não seja o álbum solo mais coeso de Towa Tei, é de longe o mais consistente."
Rich Juzwiak
jornalista e crítico musical da revista Pitchfork


A Deee-Lite, sucesso nos anos 90, tinha na formação um russo, Super DJ Dimitry, uma norte-americana, Lady Miss Kier, e um japonês. Este último, evidentemente o mais talentoso dos três, chamava-se Towa Towa. Este era o primeiro nome artístico de Dong-hwa Chung, produtor, DJ e compositor descendente de coreanos e japoneses, que um dia desembarcou nos Estados Unidos para estudar Design, mas que foi sequestrado pelo próprio talento musical. Na banda, era de se desconfiar que o apuro melódico, bem como as influências latinas e AOR, os beats funkeados, os samples criativos e o charmoso toque do piano fossem produto da cabeça dele. A suposição ficou confirmada quando, em 1994, já fora da Deee-Lite, é lançado seu primeiro disco solo, “Future Listening!”, quando passa a atender pela alcunha de Towa Tei.

Discípulo de Ryuichi Sakamoto, Towa começou na música por causa dele após enviar-lhe demos com músicas suas para o programa de rádio que o compositor e maestro tinha à época. Dadas as devidas proporções – haja vista que Sakamoto, de formação clássica, foi um dos maiores músicos do século 20 e ele está muito mais para uma mente criativa forjada nas mesas de som das boates noturnas e dos estúdios – Towa herda do mestre a versatilidade musical, o bom gosto compositivo e, principalmente, a visão universal da música com assinatura do Japão. Neles, tempos e estilos se fundem e se ressignificam. O que já era evidente nos trabalhos anteriores de Towa, com a fusão de eletrônica, bossa nova, trip hop, house e shibuya-kei, fica ainda mais claro em seu terceiro e mais bem acabado álbum: “Last Century Modern”, de 1999.

As semelhanças com Sakamoto aparecem desde o início do disco, a começar pela belíssima faixa-título, capaz de romper tempos cronológicos através dos sons. O título já diz tudo: "moderno do século passado". Neste tema, que parecer ter saído da Paris da Belle Époque, Towa engendra com muita classe uma quase valsa baseada na sonoridade do piano, do quarteto de cordas e do charmoso acordeom, responsável por desenhar a melodia. Porém, moderno e vintage ao mesmo tempo, Towa compõe esse instrumental para um vocal feminino não em francês, mas em inglês, cantado com sotaque nipônico pela conterrânea Ua. Além disso, inclui robotic voices, como as da Kraftwerk e Giorgio Moroder, dando um toque ainda mais anacrônico para a faixa. Impossível ficar alheio a tamanha musicalidade.

O samba brasileiro, que Towa aprendeu direitinho com Bebel Gilberto, sua parceira musical desde o primeiro disco, é evocado em “A Ring”. Cheia de samples, traz a bossa nova com ares franceses, como a de Henri Salvador e Pierre Barouh, principalmente pelo doce vocal francófono de Pascale Borel ao estilo da trilha do filme “Un homme et une Femme”. 

Towa e Sakamoto em 1994: duas gerações
e admiração mútua
A rotação muda totalmente com o drum ‘n’ bass “Angel”, cantada pela modelo e cantora japonesa Ayumi Tanabe e pela também cantora, mas chinesa, Viv. Mesmo pulsante (como todo drum ‘n’ bass), Towa não perde a elegância. Ayumi e Viv são convocadas novamente para mais uma excelente do álbum, “Butterfly”, na qual dividem os microfones com Yukihiro Takahashi, irmão de Nobuyuki Takahashi, ex-parceiro de Sakamoto na lendária banda Yellow Magic Orchestra, uma das pioneiras do eletropop nos anos 70. Música de trabalho de “Last...”, une a batida acelerada do drum ‘n’ bass com pitadas de música brasileira no arranjo.

Em “Contact” e “Congratulations!”, tal como “Sound Museum”, música que abre e intitula seu segundo álbum, de 1997, Towa esbanja as habilidades de DJ, articulando vários samples, colagens e manipulações do ritmo. “Stretch Building Bamboo”, nessa linha, tem ainda a participação dos colegas DJs britânicos Jumpin Jack Frost e Die, que o auxiliam na brincadeira com as pick-ups. “Chatr”, na sequência, traz uma batida rap, que faz cama para uma voz infantil quase falada. 

Encaminhando-se para o fim, a Deee-Lite - que nunca saiu de dentro de Towa (haja vista músicas dele como “Happy” e "Higher", de outros álbuns - é revivida na deliciosa “Funkin' For Jamaica”. Várias referências sonoras convivem entre si, do funk ao jazz, da soul a disco, do AOR ao rap. Cantam as vozes soul da norte-americana Joanne e da dupla francesa Les Nubians, que muito fazem lembrar os vocais de Miss Kier. Contribuem para a faixa, ainda, o trompetista de jazz norte-americano Tom Brawne e o guitarrista japonês Hiroshi Takano.

Momento especial do disco, “Let me Know”, na remix do grupo francês The Might Bop, une a atmosfera do AOR com a bossa nova, porém com um cuidado todo especial na programação de ritmo, que reproduz, eletronicamente, até o repique da batida do samba. A voz da cantora japonese Chiara, dulcíssima e sensual, fecha perfeitamente com esse arranjo e melodia, que bem poderiam ter sido escritos por Sakamoto. Entre as participações que ajudam o número a ficar ainda melhor estão o brasileiro Romero Lubambo, que empresta aquela batida de violão a la João Gilberto; a harpa de Tomoyuki Asakawa; a percussão de Asa-Chang, o sax de Yasuaki Shimizu; e os teclados de outra lenda da música pop japonesa: Haruomi Hosono, o terceiro YMO junto com Sakamoto e Takahashi.

Depois dessa verdadeira joia, Towa ainda encerra com fineza numa reedição da faixa-título (apenas com sua sigla “LCM” agora). Mais curta, mas não menos bela. O acordeom do japonês Coba e as cordas da The Balanescu Quartet são complementadas por um breve, mas tocante coro de crianças, que entoa apenas melismas para fechar lindamente a faixa e o disco.

Mestre e discípulo, Sakamoto e Towa se cruzariam ainda algumas vezes. Towa colaborou com seu ídolo nos álbuns “Heartbeat” (1991) e “Sweet Revenge” (1994). O contrário também aconteceu, quando o célebre compositor retribuiu o carinho e deu seu toque inconfundível de piano a "Luv Connection", do já citado disco "Future Listening!" e, mais tarde, em “Milky Way”, do álbum “Flash” de Towa, de 2005. Mas o principal dessa afinidade, no entanto, já havia se configurado desde aquele primeiro contato entre ambos, quando perceberam o que havia em comum entre eles: a enorme musicalidade capaz de abranger o mundo todo sem deixar, contudo, de serem essencialmente japoneses.

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FAIXAS:
1. "Last Century Modern" (Participação: UA) - 2:48
2. "A Ring" (Participação: Pascale Borel) - 3:08
3. "Angel" (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:56
4. "Butterfly (Participação: Ayumi Tanabe, Viv) - 4:04
5. "CHATR" - 2:33
6. "Funkin' For Jamaica" (Participação: Joanne, Les Nubians, Tom Browne, Wizdom Life) - 4:55
7. "Stretch Building Bamboo" - 2:55
8. "Congratulations!" (Participação: Cory Daye) - 4:47
9. "Let Me Know" (Participação: Chara) - 4:10
10. "Contact" (Participação: Die, Jumpin' Jack Frost) - 8:11
11. "LCM" - 1:48
Todas as composições de autoria de Towa Tei, exceto faixa 8 (James Harris III, Terry Lewis, Towa Tei)

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OUÇA


Daniel Rodrigues

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - Oitavas-de-Finais - CLASSIFICADOS

 




Nossos especialistas em Joy Division cumpriram sua missão e definiram os últimos 8 classficados na Copa Eterna.

A fase de oitavas não teve nenhuma grande zebra, até porque agora só tem time grande e nenhum resultado é exatamente absurdo.

A cadenciada Candidates eliminando a quase neworderiana Isolation pode ser considerada uma surpresa para alguns, mas a eliminação She's Lost Control mesmo sendo uma das favoritas, passa longe de ser um resultado improvável considerando a qualidade do adversário, a espetacular New Dawn Fades.

Mas enfim, vamos às considerações de cada um dos nossos julgadores e a apreciação de cada confronto das oitavas-de-final definindo os classificados para a fase seguinte.

Restam 8!

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Daniel Rodrigues: 

Transmission 2 x Shadowplay 1

Quase uma final antecipada, ou pelo menos dois candidatos a campeão, que se pegam precocemente. “Shadowplay”, com seu jogo mais agressivo, marca primeiro. “Transmission”, no entanto, com seu estilo mais constante, não se apavora e empata já no primeiro tempo. O jogo vai para a segunda etapa nessa igualdade, com os dois times atacando, lá e cá. Encaminhando-se pro fim da partida, “Transmission” acha um pênalti. Gol de vitória apertada, com direito à comemoração de dancinha ao som do rádio.

Day of the Lords 1 x Love Will Tear Us Apart 3

Confronto pesado de “Unknown Pleaseures” vs. “Closer”. O primeiro, com forma de jogar mais convencional, mas não menos eficiente. O segundo com aquele futebol moderno, que lembra o futebol-total da Laranja Mecânica. Com um time de média de idade alta, “Day...” sabe o que faz e abre o placar numa jogada bem construída. Mas quando eles achavam que ia ser “o dia dos senhores”, o “amor” vem não para “separar”, mas para vencer. Com jogadas bonitas e tabelinha entre todos os integrantes, “Love...” vira o placar em poucos minutos e ainda acerta uma bucha no finzinho pra sacramentar. Na hora da comemoração, o atacante chama a câmera: “Closer! Closer!” E fez o gesto de coração com as mãos. É muito amor.


Roberto Sulzbach:

Candidate 2 x Isolation 1

Não foi fácil. Jogo duro, truncado e complicado. Isolation é formatada para trabalhar intensamente, marcação lá em cima, em um estilo "gen-pressing" que daria inveja ao ex-treinador do Liverpool, o alemão Jurgen Klopp. Já Candidate é mourinista: bloco baixo, jogando por uma bola. Mas, quando vem, é mortal. Isolation é talvez uma das músicas mais animadas de Closer. Segunda na track list, e seguida pelas batucadas envolventes de Atrocity Exhibition, acaba por acelerar o ritmo do disco. Candidate queima devagar; talvez seja a música que mais reforça a temática de UP ao longo da audição sequencial das faixas. Sendo assim, Candidate leva, por 2 a 1, em cima de Isolation.

I Remeber Nothing 0 x Decades 1

Duas canções que apostam no mesmo estilo: letras niilistas, envoltas em uma atmosfera manchesteriana. I Remember Nothing fecha UP de maneira magistral. Decades encerra Closer e te faz sentir em uma capela gótica do século XII, com seus órgãos sintetizados. A dinâmica é a mesma: estranheza e desconforto. Jogo muito parelho, mas Decades traz elementos únicos no catálogo da banda e acaba por levar o confronto.1 a 0, Decades.


luna gentile:

Something Must Break 1 x Disorder 3

Grande partida.Disorder abriu o placar com seu ritmo frenético e a energia inconfundível do baixo, mas Something Must Break reagiu com intensidade e clima sombrio.

No segundo tempo, o impacto histórico de Disorder fez a diferença marcando mais dois gols, garantindo a vitória.

Athrocity Exhibitions 1 x Atmosphere 2

Atrocity Exhibition assustou a defesa no início, mas a Atmosfera tomou conta do estádio e mudou completamente o clima da partida.

No segundo tempo, a pressão ficou no ar, a torcida respirou fundo e Atmosphere marcou o gol da virada nos acréscimos.


Cly reis:

Leader of men 0 x a means to an end 2

Jogo sem muita complicação. Leader of men é aquele time esforçado mas que não tem muito de onde tirar. por outro lado, A Means to An End é bem estruturada, tem um andamento embalado, um trabalho de bateria excelente e uma ótima interpretação de ian curtis. vitória tranquila de A means to an End. placar clássic: 2x0.

She's Lost Control 1 x New Dawn Fades 2

Dois grandes times. Duas camisas pesadas do Unknown Pleasures.

Estilos de jogo distintos. She's Lost Control com seu ritmo constante, jogada repetitiva, insistência. New Dawn Fades com mais alternativas, deslocamentos, variações de jogada.

Cada um à sua maneira, pelas virtudes de cada música, fazem um golfZnho no tempo normal. 1x1 nos 90 minutos.

O jogo vai para o tempo-extra e aí She's Lost Control não consegue controlar as investidas organizadas do adversário. A saída de bola com aquela introdução de bateria, o passe para o baixo, o ganho de intensidade, o solo da guitarra, a interpretação emocionante de Ian Curtis... New Dawn Fades chega com qualidade ao gol, tocando, e vence o jogo na prorrogação. Que jogaço,  senhoras e senhores! 



c.r
d.r.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Música da Cabeça - Programa #466


O jogador alemão aí não está frustrado com a eliminação, não! É que a música não sai da sua cabeça por nada. Isso vai "melhorar", porque tem um MDC cheio de chicletes de ouvido (ou "ohrwurm", como chamam os alemães). Trolando a Alemanha enquanto ainda estamos na Copa, a gente traz, sem brincadeira, uma seleção talentosa formada por The Beatles, Stevie Wonder, Woody Guthrie, Zezé Motta e mais. Ainda, um Sete-List que junta futebol com Gilberto Gil. Vingando-se um pouquinho do 7x1, o programa tira onda com hora marcada: 21h, na sarcástica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e olhos agora para a Noruega: Daniel Rodrigues 


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domingo, 28 de junho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - Oitavas-de-Final

 

Isso virou Unknown Pleasures contra a rapa???

O álbum de estreia do Joy Division botou nada menos que metade dos participantes das oitavas-de-finais e, se quiséssemos daria até pra fazer essa fase com cabeças de chave somente deste disco, enfrentando os demais classificados.

Mas não!

Além de não mudarmos as regras no meio da competição, que previam sorteio sem restrição, queremos enrosco mesmo, queremos confusão.

E foi o que tivemos!

O sorteio, incrivelmente só nos deu UM confronto entre o mesmo álbum, apenas um clássico regional. Em compensação é um dérbi daqueles de entrar para a história.

She's Lost Control, uma das favoritas, pega uma das melhores e mais respeitadas músicas da banda, New Dawn Fades, neste que promete ser o grande clássico da rodada. Mas não pense que é só isso! Se não temos mais confrontos locais, temos outros entre os dois grandes álbuns também prometem agitar a rodada, como é o caso das equivalentes Candidate contra Isolation, e da boa Day of the Lords encarando a poderosa Love Will Tear Us Apart. Isso sem falar no clássico At-At, Atmosphere versus Athrocity Exhibitions que também traz duas fortes candidatas tendo que se matar logo cedo na competição.

Confira então aí todos os jogos das oitavas-de-final da Copa Eterna, a Copa Joy Division




terça-feira, 23 de junho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - primeira fase - CLASSIFICADOS

 


Restam 16!

Nossos especialistas em Joy Division até agora não tiveram grandes dificuldades para decidir vencedores. Algum jogo mais equilibrado aqui, outro mais enroscado ali, mas uma ordem bastante clara na hierarquia da qualidade e da ascendência das canções da banda vai definindo tudo com uma certa lógica na Copa Eterna.

Isso até agora! 

Porque agora afunilou. 

Salvando três da compilação Substance e uma do póstumo Still, o resto é dos dois grandes álbuns. Unknown Plasures domina plenamente e só não  colocou três de suas representantes nas oitavas, enquanto Closer, não deixando por muito menos, colocou metade das suas integrantes na próxima fase.
Confira aí todas as classificadas e como os julgadores do ClyBlog definiram os vencedores da primeira fase da 
Copa Joy Division.

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  • Roberto Sulzbach:

Something Must Break x Warsaw: Passa Something Must Break

Decades x Interzone: O confronto mais difícil mas Decades classifica

Novelty x Shadowplay : Dá Shadowplay. Barbada!

Walked in Line x She's Lost Control : O páreo foi bom, mas a favorita She's Lost Control levou.


  • Daniel Rodrigues: 

Insight x Transmission: Transmission ia golear, mas tirou o pé em respeito.

A Means to An EndWilderness: Wilderness passaria, não tivesse pego esse timaço pela frente

Athrocity Exhibitions x The Eternal: Foi, sim, uma exibição de atrocidades. Athrocity passa.

Leaders of Men x All of This For You: O mais parelho, mas deu Leaders


  • Luna Gentile:

Candidate x Twenty Four Hours: Disputa acirrada, foi difícil eliminar um. mas dá Candidate

Disorder x Incubation: Essa foi fácil demais. Disorder passa tranquilo.

Isolation x Colony: Deu Isolation nesse clássico local.

Day of the Lords x Heart and Soul: Passa Day of the Lords


  • Cly Reis:

I Remember Nothing x Dead Souls: Dois grandes times mas I Remeber Nothing vence bem.

Love Will Tear Us Apart x Passover: Dérbi local do Closer! Vitória de uma das grandes favoritas do torneio, LWTUA.

New Dawn Fades x Exercise One: Goleada! New Dawn Fades passa por cima!

Atmosphere x Glass: Glass foi quebrada em pedacinhos por Atmosphere.





C.R.

D.R. 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Copa do Mundo Joy Division - Confrontos da Primeira Fase

Agora é pra valer!

Não que antes não fosse, mas eram os aspirantes tentando um lugar entre os gigantes. As músicas de singles, coletâneas e inéditas tiveram que brigar entre si para terem o privilégio de disputar com as que saíram nos dois únicos álbuns da banda, e agora, efetivamente, então, temos a Primeira Fase da Copa Joy Division.

Sorteio feito, sem restrição de álbum, temos dois clássicos locais, três dérbis entre músicas do mesmo disco, todas envolvendo o disco Closer. The Eternal contra Athrocity Exhibitions, Isolation pega Colony, talvez no confronto mais difícil da fase, e Love Will Tear Us Apart (que é single mas saiu em edições do Closer) enfrenta a também fortíssima Passover.

De resto, a boa Walked in Line deu o azar de pegar uma das grandes, She's Lost Control, Something Must Break encara a emblemática Warsaw, e Heart And Soul e Day of the Lords, duas muito equivalentes, se enfrentam nesta primeira fase.

Então vamos lá. Os bloggers do ClyBlog e os convidados tem a missão de definir quem passa para as oitavas.

Confira abaixo todos os confrontos da Primeira fase:

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Música da Cabeça - Programa #463

Prontos para mais uma apresentação de craques? Então, preparem-se, pois é o MDC que põe seu time em campo! Um dia antes de começar a Copa do Mundo, o programa escala seu time com talentos dos mais variados países, como a França de Françoise Hardy, a Inglaterra da The Cure e da Lush, os Estados Unidos de Iggy Pop e, claro, os brasileiros pentacampeões Fernanda Abreu, Carlinhos Brown, Erasmo Carlos e mais. No quadro especial, Um Cabeça dos Outros. Com a equipe formada, o programa dá o pontapé inicial às 21h na futebolística Rádio Elétrica. Produção, apresentação e golaços: Daniel Rodrigues


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Angine de Poitrine - Vol.1 (2024)

 



"O Angine de Poitrine viralizou em muito pouco tempo,
mas não porque é 'engraçado', porque é 'ridículo',
é porque é muito, muito, muito bom!
Eu tenho ouvido direto o LP deles, o 'Vol.1', direto.
Assim...direto, dezenas de vezes e
não canso de ouvir esse disco,
É um discaço!"
André Barcisnki,
jornalista, escritor e crítico musical


Desde que o universo do rock descobriu seu poder cênico de sugestão através da imagem, da figura, artistas do mundo da música criaram personagens, máscaras, indumentárias e incorporaram às suas performances, a  suas mensagens, a suas simbologias, criando identidades, associações semióticas e construindo comunidades em torno de determinado conjunto de elementos visuais, musicais e teatrais.

Particularmente, sempre fico com um pé atrás quando surge alguma banda toda paramentada. Mesmo que uma das minhas bandas preferidas, o The Cure, tenha fortalecido sua identidade através daquele visual preto e descabelado, os incríveis Secos e Molhados tenham se tornado notórios pelos rostos pintados e indumentárias extravagantes, os criativos Daft Punk ostentem aqueles capacetes misteriosos, e todos tenham me provado que eram muito mais do que apelo estético, normalmente, para mim, aquela alegoria toda parece uma intenção de impressionar mais pelo visual do que pela música.

Aí me aparece na Internet uns carinhas com umas máscaras bizarras enormes, um branco com bolinhas pretas e o outro preto com bolinhas brancas, seguidos de manchetes como "nova sensação ", "diferente de tudo que você já ouviu", "você precisa ouvir isso", eu desconfiado que sou desses caras vestidos de palhaço que aparecem de vez em quando, não  dou muita bola, não dou muito crédito. Mas ok, eu resisto, torço o nariz e lá pelas tantas resolvo ouvir. Vamos ver o que esses esquisitos tem pra me mostrar. E, cara..., e não é que é incrível!

Uma das poucas coisas nos últimos tempos que me deixou entusiasmado. Entusiasmado como há muito tempo eu não ficava. Com aquele sabor da descoberta de quando a gente começa a conhecer coisas boas, quando se ouve coisas que realmente causam alguma coisa na sua cabeça.

Angine de Poitrine é uma fusão inexplicável de art-rock, progressivo, punk, surf music, música microtonal, numa coisa que eles mesmo definem como "assimétrico e dissonante". Lembra a estética dos Talking Heads, os timbres e a técnica do Primus, a liberdade artística do Velvet Underground, o experimentalismo do Sonic Youth... enfim, inclassificável!

Praticamente todo instrumental, com pequenas incursões vocais sem letra, "Vol. 1", de 2024 é um disco que a gente escuta e quase não acredita no que acabou de ouvir e, apesar de não ser uma música fácil, tem vontade de botar pra rolar de novo e de novo e, sinceramente,  há tempos eu não  sentia essa sensação de acabar de ouvir um álbum e querer ouvi-lo de novo, imediatamente.

"Sherpa" abre o disco e a gente já fica mergulhado, hipnotizado naquela coisa imprevisível e sinuosa; "Tohogd", talvez seja a que soe mais convencional, mais linear e com menos variações; "Tambez" é muito Talking Heads em sua estrutura básica, mas seu desenvolvimento e suas guitarras exóticas a levam a rumos menos reconhecíveis; "Ababa Hotel" por sua vez é muito Primus com aquele baixo quebrado, entrecortado, mas com um andamento surpreendentemente jazzístico e a guitarra solando livremente sobre a estrutura; "Sahardnieh" tem uma atmosfera inquietante com sua repetição tensa;  e L'Aberek fecha o disco de forma fenomenal numa peça musical crescente e elegante, mas não menos intensa e vibrante.

Angine de Poitrine explode a sua mente!

Uma receita improvável de rock, jazz, erudito, com toques de música tradicional, pitadas de ritmos orientais,  doses brutais de ousadia e criatividade a gosto.

Eu que cada vez menos me impressiono com alguma coisa no mundo musical, não exijo que alguém faça algo NOVO, até porque, a essas alturas, com tantos conceitos já formados e fórmulas repetidas e recicladas, é praticamente impossível não remeter a algo já feito anteriormente. Costumo dizer que ninguém vai reinventar a roda. O que me parece é que essa dupla maluca canadense, não reinventou a roda, mas talvez a tenha deixado quadrada. O que já é muito interessante.

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FAIXAS:

  • 1.Sherpa
  • 2.Tohogd
  • 3.Tamebsz
  • 4.Ababa Hotel
  • 5.Sahardnieh
  • 6.L'Aberek

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Ouça:
Angine de Poitrine - Vol.1


por Cly Reis 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

79º Festival de Cannes 2026 - Os Premiados



O diretor romeno Christian Mungiu
recebendo o prêmio principal do festival
Foram conhecidos no último sábado, 23/05, os vencedores da 79° edição do Festival de Cannes.
O prêmio principal, a cobiçada Palma de Ouro foi para a produção romena "Fjord", do diretor, Christian Mungiu, um drama moral sobre uma abalada relação entre duas famílias nos fiordes da Noruega. Já o Grande Prêmio foi para "Minoutaur", do russo Andrey Zvyagintsev, e o Prêmio do Júri para "The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach
A edição do festival foi marcada por uma série de empates, inclusive na categoria de melhor direção. Pawel Pawlikowski, por “A terra de meu pai”, e Javier Calvo e Javier Ambrosio, por “La bola negra”, dividiram este reconhecimento, e nas categorias de interpretação, tanto masculina quanto feminina, atores dos filmes "Coward" e "All os a Sweeden", também tiveram igualdade na avaliação do júri.


Confira abaixo, mais detalhadamente, todos os ganhadores:


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Palma de Ouro: “Fjord", de Cristian Mungiu (Romênia)

Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)

Prêmio do júri: "The Dreamed Adventure", de Valeska Grisebach (Alemanha)

Melhor direção: Javier Calvo e Javier Ambrossi, de “The Black Ball”  (Espanha); e Pawel Pawlikowski, de “A terra de meu pai" (Polônia)

Melhor ator: Valentin Campagne e o Emmanuel Macchia, de “Coward”

Melhor atriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, de “All of a Sudden”

Melhor roteiro: Emmanuel Marre, de "A Man of His Time"

Camera d’Or: "Benimana", de Marie-Clementine Dusabejambo (Ruanda)

Palma de Ouro de Curta-Metragem: “For the Opponents,” de Federico Luis (Argentina)




C.R.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Eurovision: quando a música se transforma em propaganda


Final da competição evidencia a leniência da EBU em relação a Israel

por João Pedro Gomes Bernardes

Pelo terceiro ano consecutivo, a maior competição musical do mundo ficou a um passo de sua maior desafinada. Até o último segundo, as dez mil pessoas presentes no Wiener Stadthalle, em Viena, no último sábado, e as cerca de 160 milhões assistindo pela televisão ficaram apreensivas, esperando para saber se a septuagésima edição do Eurovision Song Contest terminaria com uma vitória de Israel, um país responsável pelo genocídio de mais de setenta mil palestinos e que tem usado do festival como instrumento para simular um apoio da população europeia a suas ações. No final, o título ficou com a Bulgária, mas o sinal de alerta, que já estava aceso, ficou ainda mais evidente.

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O que é o Eurovision? Por que Israel pode participar? 

O Eurovision Song Contest é uma competição musical organizada pela União Europeia de Radiodifusão (EBU, sigla em inglês para European Broadcasting Union) desde 1956. Anualmente, cerca de 38 emissoras públicas europeias escolhem um artista e uma canção para representar seus países no festival, que já revelou nomes como ABBA, Céline Dion e Måneskin

Após uma maratona de três shows – duas semifinais e a grande final –, o vencedor do festival é determinado por uma combinação de pontos dos júris e do público, que se equivalem. Cada país possui um júri composto por sete profissionais da música, que distribuem pontos para as suas dez canções preferidas: doze pontos para a primeira colocada, dez para a segunda, oito para a terceira e, de forma decrescente, de sete a um ponto para as demais. Os telespectadores, por sua vez, votam através de diferentes meios, dependendo do país onde estão – telefone, SMS, site ou aplicativo –, e os pontos são atribuídos da mesma forma. É importante mencionar que, por uma questão de justiça, o júri e o público não podem votar no país em que fazem parte. Em caso de empate na soma final, o televoto é soberano.

 Dara comemora o título do Eurovision 2026 | Crédito: Corinne Cumming/EBU

Podem participar do Eurovision emissoras públicas associadas à EBU, cuja área de atuação abrange quase toda a Europa (excluindo partes da Rússia), o norte da África, a região do Cáucaso (ao sul da Rússia, entre os mares Negro e Cáspio) e parte do Oriente Médio. Essa determinação, conhecida como Área Europeia de Radiodifusão, foi definida pela União Internacional de Telecomunicações em 1961 e revisada com o passar dos anos, o que permite a participação de países não-europeus no concurso, caso de Israel.


A participação de Israel ao longo dos anos

A primeira participação de Israel no festival ocorreu em 1973, na Cidade de Luxemburgo. A representante do país na ocasião foi Ilanit, que terminou na quarta posição. Para Ricardo Rios, professor de comunicação da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e pesquisador da relação entre Eurovision, política e relações internacionais, a entrada de Israel no festival contribuiu para a expansão do senso nacionalista entre a população israelense: “Quando Israel decide se associar à EBU e entrar no Eurovision, havia um movimento para definição do que seria o estado israelense porque, até então, o Estado de Israel era visto como uma extensão da religião judaica. Com base nisso, Israel começou a investir muito na escrita das músicas e nas apresentações até que conseguiu vencer. Vários autores dizem que o que criou a noção cultural e nacional do Estado de Israel foi a participação no Eurovision”. 

Até 2026, Israel tem quatro títulos do festival. O primeiro veio em 1978, com Izhar Cohen e o grupo Alphabeta, seguido pelo grupo Milk and Honey logo em 1979, em uma edição realizada em Jerusalém. Dana International, primeira pessoa trans a competir no Eurovision, deu ao país seu terceiro título em 1998, enquanto Netta Barzilai levou o troféu para o país mais recentemente, em 2018. 

A participação de Israel, no entanto, nunca foi tópico de consenso entre os participantes do festival. Em 1979, a Turquia desistiu de enviar um participante a Jerusalém devido à pressão imposta por países árabes; no ano seguinte, quando Israel optou por não competir devido à data do concurso coincidir com um feriado religioso, o Marrocos participou do festival pela 

primeira (e até agora, única) vez; já em 2005, o Líbano faria sua estreia na competição, mas se viu forçado a desistir após a EBU impedir que o país interrompesse a transmissão no momento em que Israel entrasse no palco. Mais recentemente, na edição de 2019, em Tel Aviv, integrantes do grupo islandês Hatari mostraram faixas com a bandeira palestina, para vaias do público presente na arena.

Hatari mostra faixas com a bandeira Palestina | Reprodução: EBU


Política no Eurovision: o negacionismo da EBU 

Segundo as regras do festival, o Eurovision é “um evento internacional de entretenimento e deve permanecer estritamente apolítico. Para proteger sua integridade artística e cultural, o ESC não deve ser usado como plataforma ou fórum para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas ou agendas externas”. Esta afirmação foi colocada em prática várias vezes com a finalidade de desclassificar canções com subtexto político, como nos casos da Geórgia em 2009, que havia selecionado uma canção com referências ao então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (a edição daquele ano foi realizada exatamente em Moscou), e de Belarus em 2021, cuja canção escolhida dava a entender um apoio do grupo Galasy ZMesta às medidas opressivas do governo de Aleksandr Lukashenko.

Esta regra, segundo a EBU, está em vigor para evitar que o concurso entre em descrédito. No entanto, são vários os exemplos ao longo da história de canções que, de uma forma ou de outra, foram utilizadas para reforçar mensagens políticas. Este movimento se dá desde a primeira edição do festival, em 1956: um dos representantes da Alemanha, Walter Andreas Schwarz, era um sobrevivente do Holocausto e cantava sobre a perspectiva de um futuro melhor e reconhecimento dos erros cometidos no passado.

 Outro caso emblemático se dá poucas semanas após a edição de 1974. O concurso daquele ano, vencido pelo icônico ABBA teve, empatada na última posição, a representante de Portugal, “E depois do adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. Apesar do impacto quase nulo que teve no palco de Brighton, a canção foi utilizada como um sinal para dar início à Revolução dos Cravos, que pôs fim a quase cinquenta anos de ditadura no país.

O jornalista Matheus Rodrigues, do portal Kolibli, defende que o Eurovision nunca foi apolítico, como insiste a EBU: “Esconder [o aspecto político], fingir que isso não acontece, talvez piore a situação. Para eles, como autoridades que coordenam o concurso, é legal que o festival não seja político, que seja sobre a música. Mas não é bem assim”. Para Rodrigues, o atual momento de politização do Eurovision tem início em meados da década de 2010, com o aumento do sentimento anti-Rússia na sociedade ocidental: “A partir dali, houve uma cisão que perdura até hoje”, afirma. 

Em 2016, a representante ucraniana em Estocolmo foi a cantora Jamala, com o tema “1944”. A canção trata, em sua letra, da deportação do povo Tártaro da região da Crimeia pelo governo soviético, à época chefiado por Josef Stalin. Apesar de protestos da delegação russa, que vincularam a canção à disputa em andamento pelo território da Crimeia entre Rússia e Ucrânia, a canção foi liberada pela EBU e, em 14 de maio, deu à Ucrânia seu segundo título do festival.

Em 2022, após a invasão ao território ucraniano, a Rússia foi excluída do Eurovision em um movimento sem precedentes. Já a Ucrânia, mesmo com uma canção que, por si só, não carregava mensagens políticas, foi aclamada pela comunidade eurovisiva, que deu ao país sua terceira vitória. Seus representantes, o grupo Kalush Orchestra, receberam 192 pontos do júri e 439 do público, resultando em 631 pontos – a segunda maior pontuação total e maior televoto da história do festival.


A invasão russa à Ucrânia e o precedente aberto, mas não utilizado 

Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, após semanas de tensões políticas entre os dois países, tropas da Rússia invadiram o território ucraniano, dando início a um período de quatro anos de uma guerra que parece não ter fim. A resposta da comunidade internacional foi imediata: uma série de sanções econômicas à Rússia foi anunciada por uma ampla coalizão internacional comandada por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, como a exclusão do país do sistema Swift, o mais usado para transações bancárias internacionais, e o rompimento de contratos de fornecimento de energia. No âmbito esportivo, a FIFA excluiu a Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, enquanto os Comitês Olímpico e Paralímpico Internacional baniram o país de seus eventos – ambas as sanções seguem em vigor.

A primeira manifestação da EBU em relação a uma participação russa no Eurovision daquele ano se deu no mesmo dia da invasão, através de um e-mail enviado à emissora sueca SVT, indo na contramão das demais entidades internacionais: “as emissoras-membro da Rússia e da Ucrânia se comprometeram a participar no evento deste ano em Turim, e planejamos receber os artistas dos dois países em maio”. O comentário da entidade foi recebido de forma negativa pelas emissoras participantes do festival, que ameaçaram boicotar a edição daquele ano caso a EBU mantivesse sua posição. No dia seguinte, a decisão foi revertida: “a inclusão de um participante russo no festival [daquele] ano levaria a competição ao descrédito”. Além disso, a entidade suspendeu as três emissoras russas associadas – RTR, Channel One e RDO. Em resposta, as três emissoras anunciaram sua saída da EBU. 

A decisão da EBU de remover a Rússia do festival costuma ser considerada por muitos um precedente válido que justifica uma eventual exclusão de Israel. Entretanto, há uma série de fatores que diferenciam as duas situações, como explica o jornalista holandês GJ Kooijman: “a discussão sobre a expulsão da Rússia da EBU se referia à adesão das emissoras à entidade. O que nós vemos com a Kan e a decisão que foi tomada no ano passado [de mantê-los no concurso], foi que a direção decidiu não tomar nenhuma decisão, segundo rumores, porque a Alemanha e a Áustria, que fazem parte da direção, se recusaram a serem acusadas de participar da decisão e, assim, levaram o assunto a uma votação entre todos os membros”.


O festival como propaganda: a participação israelense em meio ao genocídio

O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história devido a um dos mais significativos ataques terroristas dos tempos atuais. No começo da manhã, hora local, cerca de 5 mil projéteis lançados pelo grupo Hamas atingiram uma série de alvos em território israelense, como kibutz, bases militares e um festival de música. Segundo estimativas, 1.195 pessoas foram vítimas do massacre, outras 251 foram sequestradas e mais de 3,4 mil ficaram feridas. 

O que se seguiu ao ataque foi o que inúmeros organismos internacionais classificaram como genocídio: nos dois anos e meio desde aquele fatídico 7 de outubro, mais de setenta mil palestinos foram assassinados pelas Forças de Defesa de Israel, sendo mais de vinte mil delas crianças. Segundo relatório da Comissão de Inquérito Independente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, chefiada pela jurista sul-africana Navi Pillay, as autoridades israelenses cometeram quatro atos que caracterizam um genocídio: “assassinato, danos físicos e mentais graves, provocar deliberadamente condições de vida calculadas para causar a destruição de um povo e impor medidas para impedir nascimentos”. 

A partir de então, o governo israelense tem tentado, de várias maneiras, construir uma narrativa que legitime suas ações na Faixa de Gaza, alegando buscar a neutralização do Hamas. Uma das formas utilizadas tem sido simular um apoio massivo da comunidade internacional a Israel através do Eurovision Song Contest. Segundo reportagem do jornal The New York Times, apenas em 2024, primeira edição do festival desde o ataque, o governo israelense investiu cerca de 710 mil euros (quase quatro milhões de reais, na cotação da época) em marketing voltado não apenas aos fãs do festival, mas àqueles que apoiam ideologicamente o regime de Benjamin Netanyahu. Entre as táticas mais utilizadas está a criação de vídeos em vários idiomas, sempre reforçando a mesma informação: era possível votar até vinte vezes por meio de pagamento.

Para a primeira edição do Eurovision desde o começo do conflito, em 2024, a artista escolhida para representar o país foi Eden Golan, então com 20 anos de idade. A canção escolhida foi “October Rain”, escrita por Avi Ohayon, Keren Peles e Stav Beger, e que referenciava de forma direta o ataque de 7 de outubro. A primeira versão do tema não foi aprovada pela EBU, que constatou a presença de mensagens políticas na letra. Após um processo de reescrita, incentivado pelo presidente Isaac Herzog, a canção transformou-se em “Hurricane”, uma música romântica, mas que ainda carregava um subtexto político. Na final do concurso, em 11 de maio, Israel terminou em segundo lugar no televoto e quinto na classificação final. O país recebeu a pontuação máxima de catorze outros países, além do chamado “Resto do Mundo”, mostrando que a campanha de incentivo à votação em massa funcionou. O título daquela edição ficou com a Suíça, de Nemo.

Já em 2025, a representante de Israel na Suíça foi Yuval Raphael, sobrevivente do ataque ao Festival Nova, em 7 de outubro de 2023. A canção, “New Day Will Rise”, também foi criticada por membros da comunidade eurovisiva por seu subtexto político, mas nenhuma atitude foi tomada pela EBU. A campanha organizada pela emissora Kan em favor da votação em massa em favor de Israel, apoiada pelo governo do país, surtiu um efeito ainda maior do que na edição anterior: vitória no televoto e segunda posição na classificação final. O troféu, desta vez, ficou nas mãos do austríaco JJ.

O resultado de 2025 colocou ainda mais pressão nas costas da EBU. Preocupadas com o rumo tomado pelo concurso após as crescentes alegações de manipulação de resultados a favor de Israel, emissoras como a espanhola RTVE e a holandesa AVROTROS solicitaram à entidade a realização de uma consulta às demais participantes sobre a participação israelense no festival. O pedido foi inicialmente atendido e uma votação foi marcada para novembro, mas com a assinatura de um acordo de cessar-fogo, em outubro, a EBU optou por transferir a decisão para a reunião de sua Assembleia Geral, em dezembro. Na reunião, apesar da pressão imposta por algumas emissoras, a EBU decidiu condicionar a votação sobre a participação de Israel ao resultado de outra, sobre a satisfação dos membros em relação às novas regras anunciadas no mês anterior, como a redução do número máximo de votos por meio de pagamento de vinte para dez. 65% dos votantes aprovaram as mudanças e, consequentemente, a permanência de Israel no festival. Em resposta, cinco países anunciaram boicote à edição de 2026: Eslovênia, Espanha, Holanda, Irlanda e Islândia. Outras emissoras, como a portuguesa RTP, foram alvo de protestos de sua própria força de trabalho, que demandava um apoio ao boicote.

Para representar o país em Viena, a emissora israelense Kan selecionou o cantor Noam Bettan e sua “Michelle”, música romântica e, ao contrário de suas antecessoras, sem apelo político. Durante a apresentação do país na primeira semifinal, foi possível ouvir na transmissão oficial do concurso o protesto de alguns membros da plateia, que gritavam: “parem o genocídio”. Ainda assim, Bettan repetiu o vice-campeonato do ano anterior graças a um surpreendente apoio dos júris, que o deixaram na oitava colocação. A campanha em prol da votação em massa, no entanto, teve um resultado abaixo do esperado: Israel ficou apenas na terceira posição entre os telespectadores, atrás da campeã, Bulgária, e da Romênia.


Existe um futuro para o Eurovision?

O momento atual do Eurovision Song Contest pede cautela. Nos últimos três anos, aqueles que acompanham fielmente o festival passaram grande parte do tempo preocupados com o que poderia vir a acontecer em caso de uma eventual vitória de Israel: o concurso seria realizado em Tel Aviv, mesmo com a guerra? Quantos países permaneceriam no festival? Qual seria o impacto em termos de audiência?

Para Rodrigues, a permanência de Israel no concurso pode levar a efeitos práticos, como o aumento constante das discussões políticas – algo que, apesar da negação da EBU, ocorre de forma recorrente –, e simbólicos, como uma “fuga dos cérebros”: “Muitos artistas que participaram do Eurovision 2024 falaram mal da experiência, que tinham medo de algo acontecer, ou da delegação de Israel, que era completamente inadequada. E os artistas falam uns com os outros. Eu não consigo imaginar pessoas mais engajadas politicamente, como a Konstrakta, voltando para um Eurovision assim”.

Na última quinta-feira, dia da segunda semifinal do concurso, a EBU lançou uma pesquisa entre seus fãs a fim de conhecer melhor seu público e entender o que eles acreditam que pode ser melhorado nas edições seguintes. Kooijman acredita que a pesquisa não serve apenas para melhorar a experiência dos fãs, mas também para buscar formas de manter a viabilidade financeira do festival: “O que a EBU percebeu é que [o Eurovision] é uma grande marca, tão grande quanto o Grammy ou o Oscar. Essa pesquisa serve a um propósito de entender quem é o público principal do festival e, como pesquisa de marketing, definir esse público a fim de atrair mais patrocinadores, porque o concurso precisa de mais dinheiro. Por quê? Não é porque países estão deixando de participar, mas porque tudo está mais caro, incluindo os avanços tecnológicos”.

Rios, por sua vez, acredita que o próximo passo para a definição do futuro do Eurovision precisa vir de uma reflexão interna da própria EBU: “A EBU precisa se sentar com o Grupo de Referência do Eurovision, que é quem faz as regras do concurso, e com a produção do evento para entender o seguinte: ‘o que a gente quer para o futuro?’. Porque a própria Europa está questionando muito isso. Você tem a Anistia Internacional condenando, você tem a ONU condenando, você tem o público condenando, as emissoras associadas condenando, questionando: ‘por que com a Rússia foi de um jeito e com Israel não está sendo feito o mesmo?’”.

O futuro da maior competição musical do mundo está por um fio. E enquanto a EBU não toma uma posição coerente com a realidade dos fatos, é muito difícil voltar a sonhar com o dia em que o Eurovision seja, acima de tudo, uma ferramenta de união entre os povos através da música.


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