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Hoje o MDC vai explicar para te confundir e te confundir para te esclarecer. Ficou confuso? Ouve o programa, que Tom Zé vai te trazer todas as respostas - e perguntas também. Celebrando os 90 anos do genial baiano de Irará, a edição de hoje está recheada de coisas dele, além das presenças ilustres de Beck, Os Saltimbancos, Fine Young Cannibals, Renato Russo e mais. Como uma fera que berra, o programa de hoje entra na atmosfera da Rádio Elétrica às 21h. Produção e apresentação sem a letra A: D'niel Rodrigues
"aqui, vão, pois, os meus olhos, que já estão ficando velhos, com um abraço para o novo tomzé por este que é o melhor dos seus discos. a carne viva de brigitte, todos os olhos, a noite de meu bem ou a claridade cortante de o riso e a faca ou a pergunta-sem-resposta de cademar são choques de beleza crua para nós e até para ele, que está mais tomzé e mais novo do que nunca."
Augusto de Campos,
no texto do encarte do disco
O antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss conta, em seu célebre livro “Tristes Trópicos”, onde narra sua passagem pelo Brasil profundo de povos originários, comunidades isoladas e organizações sociais da vida brasileira, a experiência vivida enquanto “viajante” na aldeia indígena Nambikwaras, no estado de Mato Grosso. Observando aquela “humanidade completamente desvalida”, “esmagada” e “ingênua”, Lévi-Strauss capta daquela tribo, entretanto, uma profunda “doçura” e “comovente ternura”. Tal observância só pode existir, justamente, pelo olhar “viajante” daquele que não pertence originalmente ao lugar mas que, diante de tamanha empatia e cumplicidade, acaba por, pelo menos naquele instante, pertencer também à terra estrangeira.
Recorrer a uma explicação antropológica talvez seja a única forma de compreender a complexidade da figura de um artista tão incomum Tom Zé, em última análise, um estrangeiro neste mundo deslocado. Natural de Irará, cidade do interior da Bahia localizada no chamado Portal do Sertão, Antônio José Santana Martins nasceu há exatos 90 anos e tornou-se, ao se mudar para São Paulo em plena fase de consolidação desta como centro nervoso do País, o mais moderno músico paulistano de sua geração. Estrangeiro também porque é o primeiro tropicalista, não só por ser mais velho que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, mas porque, ainda em sua cidade-natal, no final dos anos 50, já escrevia, antes deles todos, músicas totalmente distintas de qualquer tradição local. Estrangeiro, pois, capaz de unir, com intencionalidade monástica, seresta sertaneja, samba rural e música sacra à mais rebuscada dodecafonia da vanguarda europeia.
Este artista tão ímpar, cujos estudos antropológicos ainda hão de dar conta, faz recordar mais uma vez da visão/posição de viajante de Lévi-Strauss quando trata da São Paulo que o abrigou. Tom Zé já havia composto canções que viraram verdadeiros hinos alternativos da capital paulista, como “São São Paulo”, de 1968, mas é em “Todos os Olhos” que ele extravasa essa vivência de “estrangeiro nativo”. Disco de 1973, quando dos anos de chumbo do Governo Militar, é uma obra totalmente madura de Tom Zé musicalmente falando, mas também enquanto ser político e crítico. Auge do chamado pós-tropicalismo, é também um marco do movimento concretista, tanto pela música quanto, principalmente, pelo conceito, uma vez que o poema popcreto "olho por olho", do amigo e parceiro Augusto de Campos, de 1964, inspira o trabalho como um todo. Ainda, a icônica e polêmica capa de “Todos...”, de autoria de outro poeta e artista visual paulistano e concretista, Décio Pignatari, é a da famosa foto em superclose de um ânus com uma bolita. Claro, os censores da Ditadura não identificaram nada de estranho e a aprovaram. Ora, para representar com ironia e fúria “todos os olhos” da vigília, nada melhor que o olho do cu.
“Todos...” é daqueles discos em que o recheio acompanha plenamente o invólucro. Ironia, poesia, tradição, ritmo, crítica social. E autocrítica, a se ver pela brilhante e impactante faixa de abertura “Complexo de Épico”. Em um ritmo desconstruído, algo que talvez formulasse um samba caso estivessem suas partes conjuntadas, a letra, genial, fala dele mesmo, Tom Zé, mas cutuca toda a turma da MPB diante daquele momento político tão problemático. “Todo compositor brasileiro é um complexado/ Por que, então, essa mania danada/ Essa preocupação de parecer tão sério?” Tom Zé indaga seus colegas: para quem vocês estão falando? Há efetividade na mensagem de suas canções? E conclui, sem clemência: “Ah, meu Deus do céu/ Vá ser sério assim no inferno!”.
Se o número de abertura fala aos pares, a segunda faixa evoca uma outra compositora da música brasileira, Dolores Duran, numa versão dissonante do samba-canção "A Noite do meu Bem". Em seguida, uma que fala diretamente à sua amada São Paulo: “Cademar”. Escrita sobre uma poesia de Augusto de Campos, fala em seus poucos versos sobre uma das peculiaridades da capital paulista: a ausência do mar. Ao mesmo tempo, dá a ideia de saudade e também faz uma analogia a um amor que foi embora, ausente daquele território, como que antecipando os versos de Criolo: “Não existe amor em SP”. E Tom Zé faz isso numa pequena obra-prima de música concreta. A letra é construída a partir da fragmentação sonora e visual da pergunta: "Ô, cadê Maria que não vem?", transformando-a em uma estrutura sincopada, repetitiva e não discursiva que lembra o bater de um metrônomo – ou de um coração.
Poema visual popcreto "olho por olho", de Augusto de Campos, que inspirou o conceito do disco de Tom Zé e presente no encarte
O experimentalismo, então, desdobra-se num ato essencialmente orgânico na faixa-título. Estrategicamente alocada no quarto lugar, quando o disco já transcorria “naturalmente” e distraída a atenção dos censores, chegava a hora de ser mais contundente na denúncia à Ditatura. Do batimento cardíaco, o aceleramento angustiado; do sentimento romântico, o de medo da morte. “Todos os Olhos” diz, numa pouco disfarçada referência às torturas: “De vez em quando/ todos os olhos se voltam pra mim/ de lá de dentro da escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói/ Mas eu sou inocente”. E termina jurando inocência, agonizante, como se realmente estivesse em uma sessão de tortura. Corajosa e mordaz.
"Dodó e Zezé", com cavaquinho do maestro tropicalista Rogério Duprat, vale-se da música interiorana paulista para travar um engraçado e ferino diálogo com Odair Cabeça de Poeta, coautor com Tom Zé, numa espécie de rap-sertanejo. Como que pitando uma palha e sentados à praça, os dois conversam sobre os mais filosóficos temas, redundando sempre em alguma conclusão tão caipira quanto nada simplória. Por exemplo: Dodó pergunta: “E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão? Diga, Zezé”. Ao que ele responde: “É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?”. Sem refrão, num tempo melódico atípico. Traços de uma São Paulo rural a qual, literalmente, se constrói em outro tempo, que não o a velocidade insana da metrópole.
O delicioso xote “Quando Eu Era Sem Ninguém", com participação do grupo Capote, antecipa outra em que a avant garde prevalece, que é "Brigitte Bardot". Sem centro tonal, sem ritmo, sem refrão, constrói-se num texto sobre o inevitável envelhecimento da sex symbol francesa. Quase uma resposta a “Dodó e Zezé” (mas também a “Complexo de Épico”), reflete as consequências da inexorável passagem do tempo. “Os nossos sonhos querem pedir divórcio.” Até os mitos morrem.
O clássico "Augusta, Angélica e Consolação" é outra leitura do “viajante” em terras estrangeiras, que vira imediatamente um segundo hino de São Paulo. Samba-canção sobre casos de amor não retribuídos, faz uma analogia geoafetiva com a cidade, transformando as conhecidas vias urbanas em musas, cada uma com sua personalidade – não à toa, a ver com a própria avenida. Augusta, vaidosa como as lojas de roupas importadas de seu entorno. Já Angélica, focada apenas no trabalho a ponto de cheirar como os consultórios médicos que lhe povoam. Contudo, Consolação - bairro da vida alternativa da cidade - foi-lhe a única a corresponder o amor. Para quem havia composto um ano antes "A Briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel", colocando em um contexto anedótico os dois prédios icônicos da arquitetura paulistana, "Augusta..." é um avanço nessa interação poética do artista com a fisiologia da cidade.
Sampa permanece em “Botaram Tanta Fumaça”. Mas agora, ao invés de uma ode, um banho de realidade. Samba com frescor da MPB universitária, tem o inteligente riff de cavaquinho, uma das características da síntese que Tom Zé faz do samba em suas diversas vertentes, ao passo que também aproxima o ritmo brasileiro dos modos minimalistas da vanguarda (algo que se agigantaria no seu trabalho seguinte, o notável “Estudando o Samba”). A letra, por sua vez, é pura crítica e sarcasmo para falar da poluição do ar (e das mentes): “Botaram tanto lixo/ Botaram tanta fumaça (...) por baixo da consciência da cidade/ que a cidade tá (...) com a consciência podre”.
Encaminhando para o final do álbum, a bela e contundente valsa “O Riso e a Faca” (“Eu sou a raiva e a vacina/ Procura de pecado e conselho/ Espaço entre a dor e o consolo/ A briga entre a luz e o espelho”) precisa de pouca instrumentalização para propor sua melodia dissonante e seu canto fragmentado. Esta vem prosseguida de outra quase vinheta, mas de muito conteúdo assim como “Cademar” e “Complexo...”, que é "Um 'Oh' e um 'Ah'". Brincadeira musical com os vocálicos “a” e “o”, tornou-se, anos mais tarde, inspiração para o belo trabalho infantil de Tom Zé em parceria com o artista visual Elifas Andreato em que criam todo um universo léxico sobre esta ideia. Música, aliás, que, sozinha, inspiraria também projetos igualmente paulistas e lúdicos como Premê, Os Mulheres Negras e Palavra Cantada.
O distanciamento estratégico de Tom Zé, seja para com sua adotiva São Paulo, seja para com todo o universo musical e filosófico que o coloca entre os grandes criadores da música brasileira moderna, deu a ele as condições de compor um dos mais brilhantes discos da MPB dos anos 70. E esse feito não diz pouco. Como um viajante capaz de enxergar o que os nativos nem prestam atenção, o baiano de Irará não apenas identifica a profunda ternura que há na terra alheia como, encantado e absorvido pela própria, também se torna parte do corpo daquele lugar. Nem que seja por um instante equivalente a 90 anos de vida.
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FAIXAS:
1. "Complexo De Épico" - 1:19
2. "A Noite Do Meu Bem" (Dolores Duran) - 3:06
3. "Cademar" (Augusto de Campos, Tom Zé) - 0:45
4. "Todos os Olhos" - 3:31
5. "Dodó e Zezé" (Odair Cabeça de Poeta, Tom Zé) - 3:59
6. "Quando Eu Era Sem Ninguém" - 3:19
7. "Brigitte Bardot" - 2:57
8. "Augusta, Angélica e Consolação" - 3:45
9. "Botaram Tanta Fumaça" - 2:46
10. "O Riso e a Faca" - 2:43
11. "Um 'Oh' e um 'Ah'" - 1:02
12. "Complexo De Épico (reprise)" - 6:47
Todas as composições de autoria de Tom Zé, exceto indicadas
"Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos."
Nei Lopes, Cantor
compositor, poeta, escritor e pesquisador
"Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir."
Ruy Castro
jornalista e escritor
É interessante pensar como alguns movimentos na história da música brasileira não são regulares, mas que o tempo os ajuda a se revelar. Já no final do século XVIII, os chamados “grupos de barbeiros”, formados basicamente por negros e mestiços, introduziram na música instrumental de então o que a musicóloga e folclorista Mariza Lira chamaria de ‘ritmo da senzala”, o qual ela explica ser fundamentado no ritmo “afro-negro”. Essa influência na música brasileira pode não ter prosseguido em linha reta, haja visto que tudo que proviera dos negros num país essencialmente escravista e a supervalorização da cultura estrangeira arraigada há muito tempo no Brasil atrapalharam este caminho. Porém, a música negra instrumental não apenas resistiu como, quase milagrosamente, tornara-se um dos maiores legados culturais brasileiros para a arte mundial.
Neste processo descontínuo de revalorização, surge a figura de Moacir Santos, ele por si só um milagre brasileiro nascido há 100 anos. O pernambucano Moacir José dos Santos, nascido em Serra Talhada, capital do xaxado e terra natal de Lampião, ficou órfão ainda criança, fugiu de casa e peregrinou Nordeste adentro encantado com as orquestras de circo e as bandas militares. Entregue a uma família branca remediada, o jovem que se apaixonou pelo jazz já dominava vários instrumentos ainda adolescente - entre eles, o seu oficial, o saxofone. Já no Rio de Janeiro, após servir o Exército e substituir o famoso maestro Severino Araújo, em Pernambuco, passa a tocar saxofone e, em seguida, reger a orquestra da Rádio Nacional ao lado de colegas do calibre de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli (todos brancos). Dos estudos de música erudita e de vanguarda com professores como Ernest Krenek, Hans-Joachim Koellreuter, Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe, logo também passa a ensinar, formando nomes como Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal. A partir daí, vieram suas próprias "coisas".
Para uma justa e merecida celebração ao centenário de Moa, cabe falar daquele que talvez seja o disco síntese de uma discografia ao mesmo tempo suscinta (apenas 6 discos em mais de 40 anos), mas tomada de relevância, que é “Ouro Negro”. Espécie de songbook, dirigido por Zé Nogueira e Mario Adnet, o caprichado CD duplo com 28 faixas, que também rendera um DVD com entrevistas e apresentações ao vivo, faz um apanhado muito bem elaborado do “principal” do cancioneiro de Moacir. A homenagem, concebida com o mais alto grau de qualidade, com naipe de orquestra e arranjos e produção de primeira linha, cumpriu ainda um não menos importante papel: reverenciar o mestre em vida. Anos antes, Moacir sofrera um AVC, que o impossibilitara de tocar ou reger as próprias músicas. Porém, ele estava lá, assistindo a outros mestres – e discípulos – celebrarem-no, como Gilberto, Gil, João Bosco, Joyce, Armando Marçal, Djavan, Ed Motta, Cristóvão Bastos e outros.
Ano passado, quando dos 60 anos de “Coisas”, a obra-prima basal de Moacir lançada em 1965, já discorremos bastante sobre os aspectos tanto eruditos quanto populares da música do compositor, bem como, tanto quanto, deu-se especial atenção à sua valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais e na construção harmônica desses elementos, expressos em forma de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias. Em “Ouro...” apenas uma das 10 “coisas” não integram o repertório. Destaque para “Coisa nº 8” (Navegação)”, cantada pela voz magistral de Milton Nascimento, que ganhou letra em português pelas mãos de outro mestre importante para este projeto: Nei Lopes (“Milhões de milhas naveguei/ Nem sempre ventos a favor/ Mas afinal reencontrei/ O cais da paz interior”). Igual destaque para “Nanã”, que abre o disco, a coisa de nº 5, a qual Moacir registraria em outros três momentos.
De outros álbuns, o indicado ao Grammy “Maestro”, de 1970 – o primeiro gravado nos Estados Unidos, onde viveu até sua morte, em 2006 – ouvem-se cinco temas: a onírica e “Bluishmen”; o jazz maxixado “Mãe Iracema”, inspirada em José de Alencar; a clássica “Lamento Astral” (“Astral Whine”), cantarolada pelo próprio autor; e “April Child”, que ganhou não apenas título em português, “Maracatu, Nação do Amor”, como letra de Nei e vocal de ninguém menos que Gil. “Quem vem lá/ Surgindo lá de trás do mar/ Será Kalunga num vapor/ Trazendo de Luanda o amor?”, diz a letra. Outra desse mesmo álbum e que também reaparece letrada por Nei é “Luanne”, agora com título principal “Sou Eu” e cantada pelo timbre inconfundível de Djavan.
Avançando mais na obra de Moa, “Ouro...” tem também o latin-jazz “Suk Cha”, a charmosa rumba “Amphibious”, a balada afro “Katty” e um duo impagável de Joyce e João Donato para “Happy-Happy” (aqui reintitulada “De Repente, Estou Feliz”), todas de “Saudade”, de 1974. Igualmente deste trabalho é “What's My Name”, agora “Oduduá” e interpretada por outro filho musical: João Bosco.
Da mesma época e gravado pelo célebre selo Blue Note, assim como todos os discos norte-americanos do artista, “Carnival of the Spirits”, de 1975, rearranja outro clássico de sua autoria: “Quiet Carnival” (“Orfeu”). Ora samba-enredo, ora samba de gafieira, tem forte presença dos sopros e na qual Ed Motta assume os vocais, que cantam: “Brilho de purpurinas/ Bolas e serpentinas/ Som vibrando metais/ Luz, foliões, casais/ E eu sem ter você”.
Resgatadas também de “Carnival...” são “Jequié”, balada de uma delicadeza absolutamente tocante, a dissonante “Kamba”, cujo riff em tom grave do clarinete contrasta com a leveza do entorno, e “Anon”, tão africana quanto caribenha inspirada em uma marchinha de carnaval que Moacir ouvira quando criança, em Recife. "Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela, e a capoeira aparece no caminho", revelou à época da gravação. Há também “coisas” de “Opus 3 nº 1”, de 1979, em que a espetacular bossa-nova “Coisa nº 7”, uma "brincadeira pianística" das mais admiradas do cancioneiro de Moa pelos seus colegas, vira “Evocative” sob os melismas do próprio Moacir.
Como se já não bastassem as regravações, há ainda composições inéditas de Moacir. Uma delas é a rumbada “Quermesse”, criação antiga, da época da Rádio Nacional e escrita para trompa, aqui tocada pelo músico Philip Doyle. Também nova, “Maracatucute” impressiona pela atmosfera característica de Moacir: o arranjo sofisticado, a perfeição harmônica e o casamento da África com os ritmos latinos e americanos, seja o jazz, o samba ou o merengue. Zé Nogueira e Mario Adnet encerram esse gigantesco trabalho (em proporções e relevância) com mais uma inédita do homenageado: a pequena valsa “Bodas de Prata Dourada”, feita para Cleonice, esposa de uma vida, só ao piano e a voz de Moacir em conjunto com as de Muiza Adnet e Sheila Smith.
Hoje, quando o compositor, maestro, instrumentista e cantor pernambucano completaria 100 anos se vivo, é possível identificar o quanto, talvez juntamente apenas com Tom Jobim, sua obra configurara-se como uma das pedras fundamentais de toda a música popular brasileira moderna. Se menos evidenciado em termos de influência do que Tom, responsável pelo nascimento de toda uma geração de artistas populares que vão dos bossa-novistas aos pós-tropicalistas, a presença de Moa, no entanto, é largamente consensuada entre o meio dos músicos “de raiz”, aqueles que constroem as bases da MPB e, não raro, dão suporte técnico aos artistas mais pop. Não há quem no universo musical não reconheça a importância da obra de Moacir para a concepção daquilo que se entende como o mais alto nível do que a música brasileira já pode chegar. Moacir é a sublimação do que está na fronteira entre a música popular e a erudita. E mais: com a consciência manifesta do legado histórico-cultural “afro-negro”.
Como diz o poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis: "a África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, o lugar de onde venha e para onde vá". Desfile de sofisticação e esmero técnico, que faz jus à obra magistral de Moacir, "Ouro..." é o testamento dessa milagrosa transposição cultural e antropolófica pelas mãos de um autor que, como ninguém, soube resgatar a semente da verdadeira música instrumental brasileira, aquela que deu origem ao choro, às marchas, ao frevo, ao samba. A raiz africana. A mesma revalorização da história dos “barbeiros”, que ele trouxera em sua obra revolucionária para a música brasileira mais de 100 anos depois, nota-se, hoje, em seu próprio centenário, no reconhecimento ao que ele legara a MPB. Uma música genuinamente brasileira muito graças a ele, o "ouro negro do Brasil".
Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se
admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e
Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas
não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan
apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante
a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus
estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano
fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade,
improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando
havia algum “roteiro”.
Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o
Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes,
durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora
e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos
instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade
de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram
executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação
que já deu a noção do que viria.
Vieram, na sequência,
a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia
humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava
aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso
maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e
africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar”
(presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção,
visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio
Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia
estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador
do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu
contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e
mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem
faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O
mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.
Um trecho da emocionante "O Mar"
Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu
repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”,
de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que
vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a
participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia
dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que,
juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra,
feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A
música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além
de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia
x digital.
Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as
músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais
aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo”
(afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma
versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres,
e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu
pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.
Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do
Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da
ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do
passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes
para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a
brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum
dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no
palco.
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A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!
Abu: uma cabeça rara
Suzano: craque da percussão
Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak,
Há quem diga que a dancinha do Maduro é um pedido de trégua pros Estados Unidos, mas a gente sabe que é só porque ele soube do MDC desta quarta. Mexendo o esqueleto, Lou Reed, Sabotage, Tom Waits, Beach Boys, Zé Ramalho e mais. Ainda, Cabeção celebrando aniversário do grande Toninho Horta. Dando um "sim" à paz e "não" à guerra, o programa toma o espaço aéreo às 21h na pacífica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e coreografia: Daniel Rodrigues
A música popular brasileira, mesmo com sua trajetória centenária, demorou a se reconhecer negra. O samba, ritmo mais característico do Brasil, embora a gênese africana, com elementos oriundos das nações Banto, Iorubá, Jeje, Mina, Bornu, Gurunsi e outras, sofreu, ao longo do tempo, com diversas intervenções que, às vezes propositalmente, o distanciaram da origem. Caso do "boleramento" do samba da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50, e da própria bossa-nova, demasiado jazz para ouvidos mais ortodoxos. O morro, mesmo, não aparecia no cenário. Ambas as ondas propunham características tão estrangeiras, que só faziam reduzir o espaço simbólico da verdadeira raiz da música brasileira, fosse por modismo, entreguismo ou, pior, vergonha.
Jorge Ben, com o emblemático “Samba Esquema Novo”, de 1963, foi o primeiro sopro de resgate deste africanismo na MPB. Instintivo, pop e moderno, levava a raiz afro-brasileira a outro nível ancorado na tradição violeira. Mas ainda era pouco. Se se olhar para uma das pinturas de Heitor dos Prazeres (aliás, também um grande sambista), que tematizam a gente do samba dos morros e das ruas, fica claro que havia uma série de outros instrumentos – e, portanto, outras texturas e tonalidades – nas rodas e cordões cariocas do início do século 20, que iam além do pandeiro e tarol. Como descreve José Ramos Tinhorão em seu “Os Sons Negros no Brasil”, cabia no samba toda a influência ibérica trazida da Europa pelos portugueses, como o fado e a fofa, mais as diversas culturas diaspóricas vindas da África, tal o batuque, o calundu, o folguedo e a umbigada.
Alguma coisa haveria de salvar a africanidade na música brasileira, e isso veio das mãos de Moacir Santos. Compositor, arranjador, saxofonista e vocalista, este pernambucano lança seu primeiro e absolutamente marcante álbum de estreia com base nas lições que ensinava a seus alunos, as despretensiosamente chamadas “coisas”. Acontece que essas "coisas" eram preciosidades, assim como os seus seguidores. Seus discípulos – entre eles, nada menos que Baden Powell, João Donato, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Nara Leão, Eumir Deodato, Carlos Lyra e Roberto Menescal – aprenderam estes valiosos ensinamentos de harmonia e composição com um já maduro e experiente músico capaz de sinterizar mundos. Ex-integrante de orquestras de circo e bandas militares de diversas cidades do Nordeste, nos anos 40, Moacir, após trabalhar como instrumentista e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, em 1951, já no Rio de Janeiro, aperfeiçoou seus estudos eruditos com os maestros alemães Ernest Krenek (que o introduz na técnica dodecafônica) e o célebre Hans-Joachim Koellreuter, de quem se tornou assistente, além de estudar também com Claudio Santoro e Cesar Guerra-Peixe.
Lançado há 60 anos pelo cultuado selo Forma – responsável por obras icônicas da música brasileira dos anos 60 como “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes e Baden, e a trilha sonora de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o filme de Glauber Rocha – “Coisas” é justamente o nome dado ao disco que resume as avançadas ideias musicais de Moacir Santos. O trabalho revitaliza a bossa-nova sob a aura das matrizes africanas, ao passo de que também engendra harmonias jazzísticas e ritmos da cultura nordestina, como o frevo, o samba-de-roda, o maracatu e as bandas marciais. A valorização da cultura negra é perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a esse matiz. Coisa de gênio.
São apenas 10 coisas, ou melhor: 10 lições instrumentais, que inventam esse Brasil profundo e sofisticado de Moa. "Coisa n° 4" não à toa passa à frente de suas três companheiras ordinárias para abrir o disco, visto que escolhida para provocar o impacto necessário ao florescer da obra. E o cumpre com louvor: um ritmo de ponto de candomblé se funde a uma base de metais em tom baixo, como o de uma banda marcial em dia de quermesse. É quando entra o trombone solo de Edmundo Maciel desenhando o riff, que serpenteia com elegância o ritmado carregado do culto de orixá. Depois, juntam-se trombone, metais e madeira, num desenvolvimento melódico airoso.
Moacir, revolucionário e mestre dos mestres da música brasileira
Dá tempo de recuperar o fôlego – talvez nem tanto assim – com a “nº 10”, uma bossa-nova com traços caribenhos com uma das melodias mais bonitas já escritas por Moacir. Samba-jazz puro, seja no toque sincopado do piano, seja na insinuante linha do trompete. Tudo muito apurado e com clara referência aos mestres Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato e Antônio Maria.
Recuperando o tema escrito dois anos antes para a trilha sonora de “Ganga Zumba”, o primeiro filme de Cacá Diegues, “Tema de Nanã” vira agora a “Coisa nº 5”. Novamente, como na abertura do disco, o toque percussivo prevalece, mas logo se transforma numa marcha, que dignifica o gênio militar do herói quilombola. O arranjo de Moacir é espantosamente bem arquitetado, conjugando todos os metais e madeiras (sax alto, sax barítono, sax tenor, trompete, trombone, trombone baixo e flauta). Um ano antes, Nara, com arranjos do próprio autor, a incluiria em seu celebrado álbum de estreia cantando-a apenas em melismas. Somente em 1972 a música ganharia letra – e em inglês – no LP “Maestro”, que Moacir gravaria já nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1967 para lecionar e exercer trabalhos free-lancer para cinema.
Enquanto o tema “3” é quase o estudo de um samba minimalista escrito sobre a combinação de três acordes, a “segunda coisa”, que vêm na sequência, esmera num jazz sensual e enigmático conduzido pela bateria de Wilson das Neves e o vibrafone do seu irmão, o também percussionista Cláudio das Neves. Desfilam solos da flauta de Copinha e o trombone baixo de Armando Pallas sobre uma base arranjada no tom médio dos metais. Nesta fica clara a habilidade melódico-harmônica de Moacir, que emprega escalas modais e ambíguas no uso das terças (ora maiores, ora menores), gesto que que torna o número ainda mais negro.
Outra estonteante é a de “nº 9”, subtitulada "Senzala", um lamento nagô com ares jazzísticos cujo toque do sax alto sustenta uma das melodias mais bonitas da música brasileira pós bossa-nova. Há algo arábico nessa melodia em permanente mistério, como uma saudade da mãe-África, como um banzo. Não se nota exaltação: apenas o sofrimento calado das correntes prendendo a pele escrava na escaldante noite no engenho. Já a “Coisa nº 6” acelera o compasso para um samba gafieira em que a volumosa instrumentalização dignifica Severino Araújo e a Orquestra Tabajara. Ritmada, suingada e lindamente melodiosa.
Não menos brilhante, a “sétima lição” é um samba-jazz exemplar, das melhores desse primeiro e referencial repertório de Moacir. Já a “Coisa nº 1”, não menos elegante, forja-se sobre uma sutil percussão de bongôs, um violão sincopado e a dança dos metais, que esculpem este samba cadenciado, que capta as lições da bossa nova e as ressignifica ao deslocar rítmicos e métricos, característica do compositor pernambucano.
Intitulada de “Navegação” em 2001, quando ganhou letra de Nei Lopes e vocal de Milton Nascimento para o álbum-tributo “Ouro Negro”, produzido por Zé Nogueira e Mário Adnet, e um dos mais cultuados temas do cancioneiro de Moa, a “Coisa nº 8” é a escolhida para fechar essa pequena ópera preta. E no mais alto nível de musicalidade e sofisticação. Mesmo sem o vocal, é possível embarcar neste navio moaciriano e intuir os versos: “Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”.
Não é exagero dizer que, se não existisse “Coisas”, não existiriam “Os Afro-Sambas” de Vinicius e Baden, nem a África universal do Milton de “Minas"/"Geraes”, nem a “Maria Fumaça” soul-funk da Black Rio, nem o samba enraizado do Martinho da Vila de “Origens”, nem a “Refavela” de Gilberto Gil, nem a musicalidade colorida da Europa moura de Djavan. Não haveria lastro para tudo isso não fosse Moacir Santos e o salvamento que ele promoveu à música brasileira negra. Tal uma nova abolição. Como disse Ed Motta, Moacir é “essa mão de proteção sobre as nossas criações e de tudo que a gente tem pra fazer daqui pra frente”. O que quer dizer muita, mas muita coisa.
Neste Brasil de mil incertezas, uma certeza há: o Grupo Corpo. Presenciar seus espetáculos, o que fazemos há mais de 30 anos, é estar de fronte ao que há de mais profundo, belo, filosófico e artístico deste país continental e rico culturalmente. Eles são dotados de uma assinatura própria, que se expressa em seus movimentos característicos de saltos, giros, quedas, rebolados, contorcionismos e desconjuntamentos dos mais diversos, preenchendo vazios e espaços com fúria e doçura. Fazia anos, desde a pandemia, que não os víamos, uma vez que não pudemos assistir a última montagem, “Primavera”, da dupla Palavra Cantada, em 2021. A última estreia que estivemos foi a de “Gil”, homenagem a e trilha de Gilberto Gil, há 6 anos.
A expectativa, sempre grande, desta vez, então, era maior. Até porque “Piracema”, o novo balé, marca os 50 anos da companhia de dança mineira, que começou sua sina de unir dança e música brasileira ainda nos anos 70 elegendo “Maria Maria” de Milton Nascimento como passo inicial. Diante disso tudo, eles dificilmente guardariam algo menor para um momento tão significativo – embora, quando dos 40 anos do grupo, a peça “Dança Sinfônica”, com trilha de Marco Antônio Guimarães, tenha deixado um pouco a desejar. O que nos esperaria desta vez?
Consideramos um bom prenúncio do que viria com a primeira parte do programa. Como o Corpo sempre faz, trazendo um espetáculo antigo antecedendo a estreia, revimos pela quarta vez “Parabelo”, a arrebatadora montagem de 1996 com a genial trilha sonora de Tom Zé e José Miguel Wisnik e coreografia de Paulo Pederneiras. O espetáculo é o que talvez melhor defina o trabalho do Grupo Corpo entre os mais de 20 nessa linha que já criaram – e todos da mais alta qualidade. Símbolo da criação artística brasileira contemporânea, a peça é aclamada por onde passa, tanto que foi apresentada ao mundo na abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Colorido, popular e vibrante, mas também vanguardista e ousado, “Parabelo” é daquelas obras de arte que dão orgulho a um brasileiro por pertencer a esta mesma rica terra do Grupo Corpo chamada Brasil.
O emocionante número final de "Parabelo",
montagem símbolo do Grupo Corpo
Por “Parabelo” na parte inicial do programa se torna quase um problema para o Corpo, visto que é tão apoteótico, que deixa uma grande responsabilidade para o que vem seguir. Foi o que aconteceu com o já citado “Dança Sinfônica”, em 2016, que perde de longe em trilha e coreografia, ou quando antecedeu “Triz”, com trilha de Lenine e Bruno Giorgi, de 2013, uma boa montagem, mas que quase é solapada também pela beleza impactante de “Parabelo”.
Mas a companhia de Paulo e Rodrigo Pederneiras sabe o tamanho que tem. Com trilha de Clarisse Assad e coreografia de Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, “Piracema” é, sim, à altura do que o Grupo Corpo representa. Mas não se trata de um trabalho fácil. Sua assimilação se dá aos poucos, ou melhor, no próprio desenrolar do espetáculo. Com um começo quase atordoante, com intensas percussões de diversas tonalidades e texturas, a coreografia se mostra vária, indeterminada, de difícil apreensão. A iluminação de Paulo e Gabriel Pederneiras oscila entre dureza e vivacidade, tendo como cenário um extenso painel escamado composto por milhares de latas de sardinha no fundo do palco. O piano preparado da música “cabeça” de Clarisse intensifica a atmosfera tribal, que aterra o espectador.
Cena de "Piracema": complexidade e beleza
Coreografia ousada e sintética para celebrar os 50 anos do Corpo
Depois, no entanto, a coreografia vai ganhando maior “organização”, por assim dizer, e se começa a compreender melhor a narrativa, que nada mais é do que uma metáfora da criação e da reinvenção por meio da ideia da tensão gerada pelo fenômeno natural da “piracema”, aquela mágica jornada dos peixes contra a correnteza para encontrar seu local de desova. A música passa pelo avant-garde à moda de violão, tendo ainda momentos de música clássica e da mais moderna música eletrônica. A atmosfera indígena que Pederneiras/Clarisse imprimem atravessa, no entanto, toda a peça, desde o som do mar, que a abre e a encerra, até os próprios beats de programação eletrônica, uma espécie de “nativofuturismo”. Não é comum se fazer referência a som “tribal” quando se fala em techno, drum & bass, acid house ou trance, subgêneros da música eletrônica? Pois, então. Na cosmologia dos povos originários, representantes da natureza primitiva, está também a criação do mundo através dos sons e da dança.
“Piracema” mostra uma companhia madura com a sua obra e legado pela via da síntese, a qual não haveria de ser necessariamente palatável haja vista toda a complexidade cênica e conceitual que o Corpo construiu nesse meio século de palco. Quem já foi de Caetano Veloso a Ernesto Lecuona, de Villa-Lobos a Metá Metá, de Samuel Rosa a Chopin, de Uakti a Bruno Kiefer, de Philip Glass a Wagner Tiso, não haveria de se contentar com pouca densidade artística. Mais do que isso, no entanto, é constatar que esse grau de maturidade em arte é daqui, do Brasil. Um patrimônio. Por isso, é sempre uma surpresa assistir o Grupo Corpo, e, mais ainda, uma satisfação patriótica.
O que se faz quando
um príncipe das trevas vai embora? A gente evoca. É isso que terá no MDC desta
semana, que reverencia a obra e o legado de Ozzy Osbourne. Além dele terão
também Jorge Benjor, Siouxsie & The Banshees, Cláudya, Talking Heads, Tom Zé
e mais. Também, Sete-List, Palavra Le, Música de Fato... Éh, madman, voceêvai
fazer falta neste mundo careta. por isso, faremos um culto macabro em sua homenagem quando derem as 21 badaladas na ritualística Rádio Elétrica. Producao e apresentacao: Daniel Rodrigues.
(Vai um pedacinho de morcego aí?)
"Com o resto do mundo pop ainda se recuperando do brilhante 'Remain in Light', o que poderia ser mais subversivo do que um disco limpo e feliz?"
Rob Tannenbaum, para a revista Rolling Stone, em 1985
"É muito divertido poder relaxar e tocar sem sentir que você tem que ser vanguardista o tempo todo".
Tina Weymouth
Pode-se contar nos dedos o número de bandas ou artistas que chegaram ao seu sexto disco de forma irrepreensível. Afinal, isso subentende já se ter começado acertando. Nem os Beatles, oscilantes no início da discografia, ou a Kraftwerk, que levou quatro trabalhos para encontrar sua verdadeira sonoridade, ou mesmo Bob Dylan, cuja musicalidade e visceralidade poética começaram a valer de fato a partir de seu segundo, o clássico “The Freewheelin’ Bob Dylan”. Não é fácil entender a si próprio já no início da carreira a ponto de “estar pronto” no primeiro disco, bem como manter a qualidade nos trabalhos subsequentes e, mais ainda, evoluir.
A Talking Heads pode orgulhar-se de ser esse exemplo de banda. O que David Byrne, Tina Weimouth, Cris Frantz e Jerry Harrison construíram em termos de discografia perfaz esse caminho: um disco de estreia, “77” (1977), já dotado dos principais elementos da sua sonoridade, algo entre o punk nova-iorquino e a new wave; um segundo álbum de consolidação da mesma ideia e encontro com o produtor Brian Eno, “More Songs About Buildings and Food” (1978); um terceiro que avança sobre si mesmos e põe o pé na vanguarda, “Fear of Music” (1979); um quarto de recriação de identidade, “Remain in Light” (1980), pisando fortemente no terreno da world music; e, no quinto, a emancipação do grupo e o encontro com o pop de “Speaking in Tongues” (1983).
Todo esse percurso irretocável de Byrne e cia. faz com que eles cheguem a “Little Creatures”, de 1985, maduros, experientes e integralmente autorais. O resultado é, se não é o melhor disco da música pop dos anos 80, o crème de la crème da própria banda, que soube evoluir e se aperfeiçoar. Totalmente produzido pelos próprios integrantes, "Little..." é a cristalização de todas as experiências sonoras, estéticas e conceituais que souberam, como músicos inteligentes e antenados, recolher desde que formaram o grupo. Assim, o disco soa ao mesmo tempo pop, rock, world music, experimental e vanguarda, tudo de maneira muito fluida e amalgamada, numa sequência de faixas daquilo que se pode chamar de “perfect pop” do início ao fim do álbum.
A clássica “And She Was”, dos melhores hits da banda e também das melhores aberturas de disco deles (e da discografia oitentista), dá os ares num pop-rock alegre, melódico, saboroso. O marcante refrão (“The world was moving and she was right there with it (and she was)/ The world was moving she was floating above it (and she was) and she was”), cantado em coro, é evidente legado de Eno para a banda. O britânico, que produziu a trilogia “More Songs....”/“Fear...”/“Remain...”, trazia na bagagem a influência dos cantos africanos e arábicos, o que foi parar na sonoridade de músicas da Talking Heads, como já se via em “Born Under Punches” (“Remain...”) a “I Get Wild / Wild Gravity” (“Speaking...”).
Por sua vez, Byrne, um dos mais inventivos e carismáticos artistas da sua geração, está excepcional nos vocais e como front man, assim como toda a banda, que atinge em “Little...” um nível técnico de excelência. Não é mais somente Tina a grande instrumentista do grupo: todos, com o auxílio da ótima produção musical, estão perfeitos. Tudo soa no lugar certo, na altura certa, na medida certa. As guitarras, outrora experimentais (“Fear...”, “More Songs...”) ou vanguardistas (“Remain...”), não se eximem desses exemplos e os adicionam ao contexto. O mesmo com a bateria. Se em “Speaking...” ela perde potência e no álbum subsequente se potencializa, em “Little...” está no meio termo, com o peso certo.
Esse equilíbrio, realizado sem perder identidade, é o que se vê em "Give Me Back My Name", que num primeiro momento lembra a atmosfera art rock de “Remain...” (“Houses In Motion”) e a densidade séria e introspectiva de "Warning Sing" ("More Songs...") ou "No Compassion" ("77"). No entanto, ela resulta num refrão novamente cantarolável e agradável, assim como “And...”. Tina, por sua vez, não deixa por menos e mostra porque o baixo da Talking Heads é um diferencial estético da banda.
Byrne, que avançaria em sua penetração no universo folk norte-americano no disco seguinte da Talking Heads, “True Stories”, de 1986, já trazia essa ideia em "Creatures of Love", das mais bonitas do repertório. Romântico e cotidiano, esse country típico, com violão de cordas de aço, guitarra com pedal steel e levada simples, diz: “Uma mulher fez um homem/ Um homem fez uma casa/ E quando eles deitaram juntos/ Todos saem pequenas criaturas”. Além de uma bela e tocante canção, é a que traz o título do álbum em sua letra. Semelhanças com “People Like Us”, que Byrne comporia para “True...”, não são coincidência.
Maior sucesso do álbum, "The Lady Don't Mind" é, mais do que isso, um dos grandes hits de toda a música pop dos anos 80. Quem não cantarolou e se divertiu com os vocais de Byrne cantando: “Pee-pee-pee-pee/ Pee-pee-pee-pee/ Peeree-pee-pee-pee”? Mas, claro, “The Lady...” não é feita apenas melismas esquisitos: é um legítimo pop perfeito (mas com cara de Talking Heads). O riff, feito de dois acordes dissonantes de guitarra com tremolo, que se contrapõem por outros dois em notas da mesma escala, só que invertidas, é emblemático. A percussão latina de Steve Scales é outra marca da música, grande responsável pelas ótimas vendagens do disco. O excelente viodeoclipe dirigido pelo cineasta Jim Jarmusch, com cenas de Nova York em P&B e cromatismos e que rodava direto na MTV à época, é também impossível de se esquecer.
O clipe de "The Lady Don't Mind",
do cineasta Jim Jarmusch
O primeiro lado do vinil se encerra com outra linda e, com o perdão da redundância, perfeita: "Perfect World". Aliás, quiçá dotada do mais bonito refrão de todo o disco. Igualmente cantada em coro, diz os versos: “This is a perfect world/ I'm riding on an incline/ I'm staring in your face/ You'll photograph mine” (“Este é um mundo perfeito/ Estou subindo uma ladeira/ Estou olhando na sua face/ Você vai fotografar a minha”). A melodia é tão bonita (principalmente, no refrão), que chega a emocionar. E ainda conta com as percussões mágicas de Naná Vasconcellos, que abrilhanta a música.
Animada, "Stay Up Late", assim como “And...”, abre um dos lados do LP em alto-astral. Pode-se dizer que é um aperfeiçoamento, em termos melódicos e de produção, do que haviam feito em “Speaking...”, que se ressente do peso que “Stay...” tem, principalmente na bateria de Frantz, aqui bem funkeada. Mas não só: as guitarras ao estilo “percussivo” de Adrian Belew de “Remain...” estão também presentes, mas integradas e menos “étnicas”. Uma suavização, que dá ganho à faixa no contexto em que está inserida.
Já "Walk It Down", outra maravilha, traz a típica melodia estranha de uma banda que não se exime de ser assim. Nunca se eximiu, aliás, pois sempre foi o diferencial deles diante da secura da cena punk nova-iorquina da qual eles emergiram. Os teclados de Harrison são fundamentais na textura dada a essa faixa, que traz elementos do conceito de produção aprendidos com craques com quem trabalharam, como Eno e Toni Visconti. E assim como “Give...”, segunda do lado A, “Walk...” repete a fórmula: melodia mais densa, mas um refrão que dá vontade de entrar de backing vocal com eles batendo palmas em ritmo: “Walk it down/ Talk it down/ (oh, oh, oh) Sympathy. Luxury/ Somebody will take you there”.
Como toda grande banda, a Talking Heads sabe muito bem montar repertórios – a se ver, por exemplo, o excelente setlist do disco ao vivo “Stop Making Sense”, de um ano antes. Então, eles deixam para o final a parte que impacta no encerramento de uma obra. Nisso, "Television Man", não à toa a faixa mais longa do álbum, vem cumprir esse papel de (quase) fechar o trabalho com uma melodia preciosa, marcada pela bateria potente de Frantz e um riff bem sacado, cheio de inteligência musical.
Os minutos a mais de “Television...” em relação aos outros números se justificam. Ah, e como se justificam! Pela metade da faixa, uma virada inesperada acontece. É quando entram as percussões brasileiríssimas de Scales e a canção se transforma. Byrne, como bem sabe fazer, eleva os ânimos e energiza o clima, puxando um coro feminino para repetir com ele um simples: “Na-na-na-na-na-na”. Metais, linha de teclados que se cruzam, guitarras percussivas, solo de guitarra: tudo que há em temas como “Crosseid and Painless” ou “The Great Curve”, de “Remain...”, mas agora reelaborados, mais pop. O que começa mais contido se encerra em ebulição. Se Byrne já ensaiava proximidade com a música brasileira, a qual ele consolidaria anos depois no encontro com Tom Zé, Caetano Veloso e com a música nordestina, essa semente está em “Television...”. Além disso, a música, com sua visão sobre a TV e a sociedade de consumo, também serviria de fonte para “True...”, projeto multimídia de Byrne que envolvia música, cinema e livro e de semelhante sucesso de crítica e público.
A divertida contracapa do disco, com a banda em trajes espalhafatosos
Faltava, no entanto, o desfecho. Bem que o disco poderia acabar com “Television...”, que não haveria perda alguma. Mas, como dito, eles entendem de narrativa musical. Para quem já finalizou discos anteriores de forma brilhante, como “Drugs” em “Fear...” ou “This Must Be The Place” em “Speaking...”, não haveriam de deixar por menos. Tanto que guardam para o final aquela que, possivelmente, seja a melhor música do vasto e assertivo cancioneiro da Talking Heads: "Road to Nowhere".
Semelhante ao ritmo marchado de músicas mais antigas da banda, “Thank You For Sending Me An Angel”, de “More Songs...”, e “I Zimbra”, de “Fear...”, “Road...” adiciona algo que estas duas não tinham, que é um universo onírico e poético, como poucas vezes visto na música pop mundial. O começo é de estremecer quando as vozes em estilo gospel entram em uníssono e sem instrumentos, dizendo: “Bom, sabemos pra onde estamos indo/ Mas não sabemos onde estivemos/ E sabemos o que sabemos/ Mas não podemos dizer o que vimos/ E não somos criancinhas/ E sabemos o que queremos/ E o futuro é certo/ Nos dê tempo para entender”. É o prenúncio de uma impactante canção.
Aparece, então, a banda, como numa torrente sonora. Em um crescendo, a música fala sobre a humanidade, a qual “caminha a lugar nenhum” em busca... de amor. O clipe, dirigido pelo próprio Byrne em parceria com Stephen R. Johnson, transmite esse olhar humanista, que dominaria a temática de “True...” logo adiante. E isso sem deixar também de ser engraçado e performático, como nas cenas em que os membros da banda atuam ou na constante corrida sem sair do lugar de Byrne no canto inferior da tela. Profundamente inspirada, “Road...” traz essa mensagem otimista do mundo, intensificada pela instrumentalização, que vai se intensificando, inclusive pela adição do acordeom de Jimmy Macdonell e o washboard de Andrew "El Pantalones" Cader, literalmente uma tábua-de-lavar cujo uso musical é herdado da tradição folk norte-americana. Em êxtase, com um Byrne empolgado, coro intenso e banda contagiada, o último recado é dado, novamente somente com as vozes: “We're on a road to nowhere”. Linda, tocante, universal.
Completando 40 anos de seu lançamento, “Little...” é certamente o disco mais pop da Talking Heads. Pode não o preferido de todos os fãs, que invariavelmente mencionam outros como “True...”, “Remain...” e “Fear...”. Porém, é inegável que este trabalho sinteriza e reúne tudo que a banda fez e faria a partir de então. Além da capa brilhante, do artista outsider Howard Finster (melhor do ano pela Rolling Stone), “Little...” também foi eleito o álbum do ano pela Village Voice, semanário cultural alternativo mais tradicional de Nova York. Mais do que isso: é o disco de estúdio mais vendido da banda, com mais de dois milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos. Ao lado de outros discos memoráveis de 1985, “The Head on the Door”, da The Cure, e “Brothers in Arms”, da Dire Straits, “Little...” é o movimento de uma banda de origem rock, que adere ao pop sem danos à sua própria história. Poucos foram, entretanto, tão felizes como a Talking Heads nesse processo.
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FAIXAS:
1. "And She Was" – 3:36
2. "Give Me Back My Name" – 3:20
3. "Creatures of Love" – 4:12
4. "The Lady Don't Mind" (David Byrne/Chris Franz/Jerry Harrison/Tina Weymouth) – 4:03